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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

O Teorema de Mencken

Proposta de elevar a meta de inflação ignora a reação do público

Por Alexandre Schwartsman 26 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 26 jun 2026, 10h43
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Paul Krugman popularizou a expressão “ideias zumbis”: aquelas que são repetidamente refutadas, enterradas com todas as honras (ou, no caso, sem elas) e, apesar disso, insistem em voltar à vida. No Brasil, um dos espécimens mais conhecidos é a proposta de elevar a meta de inflação para supostamente reduzir a taxa de juros.

A ideia, aliás, volta a ganhar simpatizantes sempre que a Selic permanece elevada por tempo demais. O raciocínio parece irresistível. Como a inflação brasileira ainda carregaria traços da velha inércia herdada da hiperinflação, seria excessivamente custoso trazê-la para a meta atual de 3%. Bastaria, então, elevar a meta para algo mais próximo da realidade, digamos, 4% ou 5%. Uma simples canetada resolveria o problema, permitindo a queda dos juros, estimulando a atividade e ainda reduzindo o custo da dívida pública. O plano tem a elegância das soluções simples. Infelizmente a economia costuma aparecer no meio do caminho.

É verdade que a inflação continua acima do desejável. Todavia, mais importante, não se trata apenas de gasolina ou petróleo. As medidas de núcleo de inflação, aquelas que procuram captar a tendência mais persistente dos preços, assim como os preços dos serviços, também aceleraram. Há, portanto, um problema inflacionário mais amplo e profundo do que um simples choque passageiro.

“Aceitar uma taxa maior levaria ao oposto do que é prometido: juros mais altos, e não mais baixos”

É nesse contexto que surge a tentação: se a inflação gira em torno de 5%, por que não admitir oficialmente algo parecido e encerrar a discussão? Porque as pessoas não são átomos num experimento; costumam reagir quando informações novas aparecem e são devidamente aprendidas.

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Quando a meta de inflação sobe, as expectativas naturalmente sobem junto. Empresas passam a reajustar preços prevendo uma inflação maior; trabalhadores tentam preservar o poder de compra pedindo salários mais altos; investidores exigem retornos maiores. Em suma, a inflação futura incorpora a mudança do presente. E surge então uma inconveniência: se a inflação sobe, o Banco Central precisa responder. Mesmo sob a hipótese heroica de credibilidade perfeita, a autoridade monetária não pode simplesmente ignorar a aceleração dos preços. A consequência é o oposto do que foi prometido: juros mais altos, e não mais baixos.

A situação é ainda menos favorável no mundo real. Afinal, as expectativas de inflação para horizontes mais longos já se encontram acima da meta. Se ela for alterada hoje, por que não poderia ser modificada novamente amanhã? Se uma canetada resolveu o problema uma vez, outra talvez seja necessária no futuro. O risco aumenta e a inflação incorpora mais uma dose de desconfiança. Em outras palavras, mudar a meta não elimina a necessidade de convencer o público. Apenas torna a tarefa mais difícil.

Há quem imagine que a economia funcione como um videogame, em que basta alterar uma configuração no menu para mudar o comportamento da realidade. Infelizmente, os agentes econômicos leem decretos, acompanham notícias e, sobretudo, aprendem.

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H. L. Mencken observou que, para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada. Mais de um século depois, seu teorema continua em plena vigência por estas bandas.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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Estádio de futebol lotado com bandeira do Brasil e bola no campo, e um jogador de camisa amarela comemorando. À direita, capas de revistas Veja, Super, Viagem e Quatro Rodas flutuando sobre fundo verde escuroTorcedor de costas, vestindo camisa amarela, comemora com os braços erguidos em um estádio de futebol lotado, sob um céu verde-azulado. Uma bola de futebol com a bandeira do Brasil está no campo. À direita, um fundo verde escuro com um pequeno ícone de árvore branca no canto inferior direito
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