Entender o passado nos oferece pistas preciosas sobre o que nos espera, ainda mais quando os paralelos, em particular na questão eleitoral, são marcantes. O Brasil passou, do segundo trimestre de 2014 ao terceiro de 2016, sua pior recessão e isso num país acostumado a elas há 45 anos. Comparada às outras recessões profundas e duradouras — a primeira associada à crise da dívida; a segunda, ao malfadado Plano Collor —, a crise do segundo governo Dilma apresentou queda do produto e extensão similares, mas se diferenciou, para pior, numa dimensão importante.
Enquanto nos dois outros episódios o país conseguiu retomar a tendência de crescimento que predominava antes da eclosão, no caso de 2014-16 as evidências sugerem o contrário. Formas distintas de extrapolar a tendência prevalecente entre 2001 e 2014 indicam que o produto hoje ainda se encontraria — a depender da métrica — de 15% a 27% abaixo do que estaria se o país tivesse sido capaz de retornar a ela. Trata-se de uma perda permanente de renda.
Embora haja ainda debate sobre as causas daquele fenômeno, meu entendimento é que a incapacidade de o segundo governo Dilma responder aos anseios pelo ajuste da economia, principalmente no campo fiscal, é que transformou aquilo que, sob outras condições, seria uma recessão modesta num mostrengo que nos assombra até hoje.
“A incapacidade de responder aos anseios pelo ajuste da economia levou a uma recessão que assombra até hoje”
Reeleita sob a promessa de manter a política econômica, marcada por enorme expansão do gasto (mascarado pelas “pedaladas”) e pela inflação acima da meta, apesar do controle de preços, Dilma teve de encarar o desafio de desfazer a encrenca em que se metera. Faltaram-lhe, porém, três coisas: convicção; apoio de seu próprio partido; e apoio popular, considerando as juras de “gasto é vida” antes e durante a eleição.
Sem isso, o ajuste mal saiu das intenções. O risco explodiu, como sugerido pelo aumento do juro real no Brasil em comparação ao americano, e, com ele, o dólar e a inflação, esta última, como notado, já bastante distante da meta. O resultado foi a contração do produto, agravada por investimentos de baixa qualidade patrocinados no mandato anterior: refinarias que não ficaram prontas, estaleiros que faliram, o saque da Petrobras, estádios erguidos por razões políticas… Também a recuperação recente, marcada por crescimento na casa de 3%, não é sustentável. Amparou-se, pelo lado da demanda, no endividamento crescente de governo e famílias, e, pelo lado da oferta, na ocupação de capacidade ociosa que hoje se encontra esgotada. Enfrentamos hoje alguns dos problemas daquele período. Inflação acima da meta (com preços de combustíveis controlados) e desequilíbrio fiscal que se expressa numa dívida que cresceu 10% do PIB sob a atual gestão. Da mesma forma, o presidente promete manter a política econômica; seu partido — acreditem! — quer aprofundá-la. Para quem ainda crê que, em caso de reeleição, haverá mudanças nesse quesito, o histórico do governo Dilma deveria ser ilustrativo: não ocorrerão.
A semelhança mais preocupante não está no ponto de partida, mas na dinâmica: a campanha eleitoral dedicada a negar a necessidade de mudança tornará muito mais difícil fazê-la depois.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013







