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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

O déjà-vu de sempre

O PT já nem consegue achar novos culpados para seus erros

Por Alexandre Schwartsman 1 Maio 2026, 05h30 | Atualizado em 1 Maio 2026, 14h29

Segundo documento do PT, “a meta (de inflação) de 3% foi um erro”. Ao contrário, o governo deveria ter “meta permanente de juros de um dígito”, com apoio de reservas internacionais, sob gestão do BC “democratizada e compartilhada com setores produtivos e representantes do trabalho”.

O documento é novo, mas as ideias — e sua aplicação ao Brasil — são velhas conhecidas, ou nem tão velhas assim, já que nos referimos a experimentos de política monetária realizados entre 2011 e 2016. Naquele intervalo o BC era presidido por Alexandre Tombini e praticamente não havia membros da diretoria do órgão oriundos do setor privado, isto é, a tal da “alternativa à captura estrutural do Banco Central pelos agentes rentistas” também era uma realidade.

No caso, a taxa básica de juros foi mantida na “meta permanente” de um dígito entre o início de 2012 e o final de 2013, apesar de expectativa de inflação persistentemente acima da meta.

A alternativa à política monetária — além das restrições ao crédito, à época rebatizadas de “regulação macroprudencial” — foi a venda agressiva de dólares no mercado futuro de câmbio por meio de swaps: de maio de 2013 a abril de 2015 foram quase 115 bilhões de dólares, equivalentes a pouco menos de um terço das reservas do BC em moeda forte.

O resultado do experimento deveria falar por si: a inflação ficou em média 2,4% acima da meta, apesar de controles de preços de combustíveis e energia elétrica, em particular em 2013 e 2014, convenientemente antes da eleição presidencial. Em 2015, quando os controles se tornaram insustentáveis e o dólar explodiu, a inflação atingiu dois dígitos. No mesmo ano, as perdas com swaps chegaram a pouco mais de 100 bilhões de reais.

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“Neoliberalismo? O governo indicou a diretoria do BC. E o Ministério da Fazenda foi de um político do partido”

A proposta de “democratização” da política monetária e creditícia tampouco é inédita. O Conselho Monetário Nacional, então sua instância máxima, teve mais de dez integrantes, incluindo os presidentes do BB, do BNDES, representantes de ministérios econômicos e do setor privado, não por coincidência também no período da hiperinflação.

Que o PT não tenha, como os Bourbon, esquecido nada, nem aprendido nada, não chega a ser surpresa. O que, de certa forma, me surpreende (mas não deveria) é a avaliação de que a política econômica em curso seja refém do nosso malvado predileto, o “neoliberalismo”, a quem se atribuem todas as mazelas econômicas do país, mas particularmente as dificuldades que o presidente enfrenta na busca por mais uma reeleição.

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A verdade é que o atual governo indicou toda a diretoria do BC. O Ministério da Fazenda, centro da política econômica, foi entregue a um político egresso do partido, inclusive agora candidato a governador de São Paulo, e os cargos-chave foram preenchidos por pessoas que, acredito, jamais se considerariam neoliberais. No máximo, me divirto com a ideia, concordariam em confessar publicamente algum desvio ideológico se isso contribuísse para as chances de reeleição.

Não se trata apenas do antigo dito homérico, “a culpa é minha e eu boto em quem eu quiser”. Chegamos ao ponto em que a falta de ideias novas ao governo (assim como ao PT) limita até mesmo sua capacidade de encontrar algum novo espantalho a quem atribuir a conta dos inúmeros desarranjos de sua política econômica.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

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