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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

O Banco Central no espelho

Dificuldades da instituição resultam de suas próprias ações

Por Alexandre Schwartsman 29 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 29 Maio 2026, 11h26
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O Banco Central tem manifestado desconforto com a elevação das expectativas de inflação, em particular aquelas associadas a prazos mais longos. Muito embora seja óbvio que a inflação esperada para os próximos meses deva aumentar, considerando que preços de petróleo e derivados (entre outros fatores) têm subido, também seria natural imaginar que tais efeitos se dissipariam bem antes de chegarmos a 2028, visto que ainda faltam dezenove meses até lá.

Nesse contexto, o aumento da inflação esperada para aquele horizonte sugere que o BC estaria perdendo a capacidade de convencer o público acerca de seu compromisso com a meta de inflação, ainda que tenha colocado a Selic em 15% ao ano, mais do que, confesso, consideraria provável no final de 2024.

Apesar disso, creio que o próprio BC tem parcela de culpa nesse negócio. Caso tivesse um histórico de trazer a inflação rapidamente de volta à meta quando esta se desviasse (normalmente para cima), a melhor aposta sobre a inflação futura num horizonte temporal razoável seria a própria meta, refletindo a atuação tempestiva do Copom.

Por outro lado, quando o BC — mesmo ainda perseguindo a meta — decide fazê-lo ao longo de um horizonte mais extenso, por receio de recessão ou algo semelhante, essa propriedade se perde. Caso demore duas vezes o tempo antes necessário para a convergência, a melhor aposta deixa de ser a meta; é a média entre a inflação de hoje e a meta. Se demorar mais, tanto maior será o peso atribuído à inflação passada na formação da expectativa de inflação, e assim por diante.

“A postura do BC mudou. Será um desafio convencer a sociedade de que pode voltar a ser o que era até 2022”

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Ocorre que o BC tem feito exatamente isso nos últimos anos, o que fica claro quando examinamos as projeções que divulga trimestralmente acerca da inflação futura. De 2017 a 2022, as previsões do BC para a inflação dezoito meses à frente, quando se espera que a taxa de juros tenha seu maior impacto sobre a inflação, sugeriam convergência rápida: em apenas 22% dos casos a inflação prevista superava a meta.

Já entre 2023 e 2026, a média sobe para 94%. Considerando os treze conjuntos de previsões divulgados desde então, em dez deles a inflação fica acima da meta 100% do tempo, mesmo se tratando de horizonte que se prolonga de dezoito a trinta meses.

Não resta dúvida, portanto, que a postura do BC mudou e, com ela, o comportamento das expectativas. Até 2022, a inflação esperada para horizontes mais longos ficava 0,5 ponto percentual acima da meta; de 2023 até agora, a distância se elevou para 0,9 ponto percentual.

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Os motivos para a mudança de postura não são claros, mesmo porque parece ter ocorrido ainda com Roberto Campos Neto à frente da autarquia. Podem refletir pressões políticas mais intensas, ou mesmo um reconhecimento do BC de que — dada a política fiscal mais frouxa e os estímulos ao consumo — somente patamares (ainda mais) proibitivos da Selic trariam a inflação rapidamente à meta.

Independentemente das razões, contudo, parece claro que o BC encarará um enorme desafio para convencer a sociedade de que é capaz de voltar a ser o que era até 2022, pois enfrenta a descrença expressa em expectativas de inflação descoladas da meta, fenômeno que requer uma dose de política monetária que não está disposto a promover.

A meta segue em 3%; a confiança nela, nem tanto.

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997

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