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Giannetti: maior ‘exigência ética’ não implica ética disseminada

Economista e filósofo aponta modelos empresarial e de governo como propulsores da corrupção

Por João Pedroso de Campos Atualizado em 17 jan 2017, 16h49 - Publicado em 17 jan 2017, 12h26

Em tempos de Operação Lava Jato, que descortinou um escândalo de corrupção sem precedentes no Brasil, o economista e filósofo Eduardo Giannetti entende que embora as “exigências éticas” tenham aumentado, elas, por si só, não despertam mais adesão. Autor do livro Vícios Privados, Benefícios Públicos?, Giannetti foi o terceiro palestrante do fórum “A Revolução do Novo, uma parceria entre as revistas VEJA e EXAME, e falou sobre a revolução no campo da ética e sobre tolerância e intolerância a desvios de conduta.

O economista afirma que a adesão das pessoas a normas éticas resulta da combinação entre três mecanismos: a submissão, que decorre da fiscalização e da punição a atitudes antiéticas; a identificação, que envolve o desejo de manter uma boa opinião dos demais e uma consciência tranquila; e a internalização, que parte da reflexão ética.

“A internalização é baseada na educação formal e a liderança dentro das organizações. É fundamental que um líder transmita o respeito ao código de ética. Vejo muitas empresas que fazem códigos de ética impecáveis, mas não têm a menor exigência de tornar isso parte do pensamento de cada um dos que convivem em seu espaço organizacional”, afirma o economista.

Segundo Eduardo Giannetti, o modelo de empresa baseado apenas no respeito a um mínimo denominador legal e na maximização dos lucros e resultados, bastante comum em países como o Brasil, está errado tanto do ponto de vista ético quanto do econômico. “Se a empresa é boa, se ela tem um código de ética robusto, é provável que ela tenha bons resultados e remunere bem os acionistas. Se a liderança não dá à empresa sentido de propósito naquilo que ela faz, ela não vai mobilizar o conhecimento latente em seus colaboradores para que cada um entregue o que tem de melhor”, diz.

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Em relação ao contexto brasileiro, sobretudo à Operação Lava Jato e às empreiteiras envolvidas no escândalo que sangrou os cofres da Petrobras, o economista e filósofo entende que o problema remonta à formação do Estado brasileiro, baseado no patrimonialismo, em que se confundem o que é público e o que é privado.

“Ainda vivemos em um modelo patrimonialista e que foi muito exacerbado, em que o Estado microgerencia a economia e  cria condomínios de poder, inclusive no setor privado, para alcançar resultados que incluem a sustentação no poder”, afirma Giannetti, para quem a dimensão da corrupção é diretamente proporcional ao tamanho do tal “condomínio de poder”.

Além do patrimonialismo, outro desafio ético elencado por Eduardo Giannetti é estritamente político: o presidencialismo de coalizão, em que o Executivo tem de fazer concessões ao Legislativo e às máquinas partidárias para governar. “Esse modelo, que já vinha claudicando, foi levado a ruir com Dilma Rousseff. Ela loteou 39 ministérios entre dez partidos para eleger o presidente da Câmara e perdeu a eleição, o que mostra a falência terminal do modelo de presidencialismo de coalizão”, lembra Giannetti.

Para o filósofo, punições a corruptos nos escândalos do mensalão e do petrolão são oportunidades únicas para alterar a cultura política no país, mas que correm risco sem uma reforma política. “Infelizmente, todo esse processo salutar de apuração, investigação e punição corre risco porque o sistema acaba gerando vícios de conduta que levarão novamente à reprodução de práticas das quais nos queremos nos livrar”, conclui Eduardo Giannetti.

O fórum “A Revolução do Novo está sendo realizado no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

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