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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

Diplomacia e retomada

O Brasil precisa se reposicionar sobre sua política externa

Por Murillo de Aragão - Atualizado em 10 jul 2020, 11h33 - Publicado em 10 jul 2020, 06h00

Durante uma palestra em Londres, em 2010, fui questionado por uma analista financeira sobre o que o Brasil poderia ensinar ao mundo em matéria de relações internacionais. A pergunta vinha embalada em certa ironia.

Respondi que o Brasil tinha tido, ao longo de sua história, êxito marcante nas relações internacionais. Pacificamos nossas fronteiras. Estivemos ao lado do mundo livre nas duas guerras mundiais. Ajudamos na construção das Nações Unidas e fomos capazes de manter diálogo com posições diversas. Sobretudo, eliminamos a corrida nuclear em nosso subcontinente. O mundo de hoje pode aprender com lições históricas do Brasil.

Antes, porém, o Brasil deve se reposicionar sobre a política externa a partir de nossas tradições. A política externa é uma política pública como outras. Tem a especificidade de incorporar interesses de longo prazo e de pressupor visão de Estado, mas é, sempre, uma política pública. Como tal, tem de estar a serviço das prioridades da sociedade e do projeto de desenvolvimento do país.

Além de enfrentar os desafios provocados pela pandemia da Covid-19 e as fragilidades dos organismos multilaterais, o Brasil vive hoje um quadro adverso na cena internacional, com a nova guerra fria entre Estados Unidos e China. Ainda mais do que antes da pandemia, o maior desafio brasileiro é retomar o caminho do crescimento com geração de empregos. Sob esse aspecto, a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia, por exemplo, é um acerto. Assim como manter boas relações com nossos maiores parceiros comerciais.

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“Devemos manter a expansão de novas relações visando a ampliar mercados e oportunidades para nossos produtos”

Do mesmo modo, se o enfrentamento desse desafio aconselha nos aproximarmos das diretrizes de boa governança preconizadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), então a continuada adesão a seus instrumentos a que temos assistido, com vistas a um acesso formal à organização, é outro acerto.

Temos de mostrar, lá fora, que somos capazes de manter e de aprimorar nossas práticas e nossas políticas de sustentabilidade ambiental e social. Temos de mostrar que somos capazes de produzir enquanto combatemos o desmatamento ilegal. Temos de mostrar o que estamos fazendo na questão ambiental e que não tem sido adequadamente divulgado nem em nosso país nem fora dele.

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Em 2015, o jornalista americano Fareed Zakaria escreveu, no jornal The Washington Post, um interessante artigo sobre política externa positiva. Dizia ele que “a política externa positiva concentra-se nas vantagens. Implica a criação de novas relações, a expansão de mercados e oportunidades, o fortalecimento de alianças e valores”. A resposta aos nossos desafios reside na adoção de uma política externa a partir desses pressupostos.

Assim, devemos manter a expansão de novas relações visando a ampliar mercados e oportunidades para nossos produtos. Devemos buscar fortalecer as relações com aqueles com quem temos identidade, de acordo com valores estabelecidos em nossa Constituição. Devemos, ainda, sem abandonar nossa autonomia, olhar para a cena internacional à luz dos interesses nacionais e valorizar o que fazemos de positivo.

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Publicado em VEJA de 15 de julho de 2020, edição nº 2695

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