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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

As fogueiras de Brasília

Conflitos dentro do governo apontam para uma grave disfunção

Por Murillo de Aragão Atualizado em 6 nov 2020, 09h31 - Publicado em 6 nov 2020, 06h00

A temporada de chuvas chega a Brasília, mas não apaga as fogueiras do mundo político, que continuam ardendo, altas. São inúmeras e algumas mais do que conhecidas e envolvem setores críticos do governo.

Um exemplo é a que marca o relacionamento dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Outras são mais recentes, como no caso da rixa entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos.

Os focos de incêndio prosseguem com entreveros entre o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), e o mesmo general Luiz Eduardo Ramos, por causa da coordenação política. E também entre o ministro-chefe da Casa Civil, Braga Netto, e demais ministros, devido à forma como ele conduz o relacionamento no ministério.

Ainda que existam aspectos pontuais nessas dissensões, o conjunto de conflitos revela divisões estruturais dentro do governo que apontam para uma grave disfunção. E duas perguntas emergem desse contexto: por que as fogueiras ardem e quais as suas consequências?

A resposta à primeira questão reside na disputa de poder entre grupos diversos. O governo Bolsonaro reúne uma coleção de vetores que se relacionam com o presidente a partir de segmentos específicos: militares, agronegócio, evangélicos, conservadores radicais, entre outros.

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“A popularidade do presidente é um conforto para ele, mas também uma armadilha”

A tênue ligação entre eles foi o projeto antiesquerdista, conservador e reformista que chegou ao poder. A partir da chegada ao Palácio do Planalto, os interesses se particularizaram e começou a competição por recursos e poder.

Quando se governa em torno de projetos — caso dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Michel Temer —, a aglutinação se dá em torno da agenda. O governo Bolsonaro não tem isso e as pautas navegam impulsionadas pelas rivalidades e pelos confrontos.

Chama atenção o fato de o presidente da República, que deveria arbitrar e encerrar conflitos, não o fazer. Ao contrário, ele assis­te ao crepitar do fogo alto. Em 1999, quando a autoridade do ministro Pedro Malan foi questionada por Clovis Carvalho, ministro do Desenvolvimento de FHC, o presidente preservou o titular da Fazenda e demitiu o outro, apesar da longa amizade que os unia. Mostrou qual era a sua agenda preferencial e que rumo o seu governo tomaria. Não é o que acontece agora.

E quais são as consequências possíveis da existência dessas fogueiras? A curto prazo, elas contribuem para a degradação das expectativas, em especial no que tange ao enfrentamento da crise fiscal. O que se reflete numa crescente perda de confiança dos mercados na política econômica, já evidente no comportamento dos juros futuros e do câmbio. A perda de credibilidade pode comprometer os esforços da retomada da economia e transformar o que já está ruim em algo muito pior.

A popularidade do presidente é um conforto para ele, mas também uma armadilha. Conforto porque dá a Bolsonaro poder suficiente para agir e reverter expectativas negativas, propor uma agenda e pacificar o seu governo. É uma armadilha porque dá a falsa sensação de que sua popularidade será preservada independentemente da crise de confiança que ronda a nossa conjuntura.

Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712

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