Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Vai demorar até Brasil voltar a crescer 3% ou mais ao ano

A principal causa de tal quadro está na produtividade, que é o fator mais fundamental de geração de riqueza de um país

Por Maílson da Nóbrega - Atualizado em 30 ago 2019, 08h55 - Publicado em 30 ago 2019, 07h40

A economia brasileira teve mais um desempenho medíocre no segundo trimestre deste ano, de acordo com os dados divulgados na quinta-feira 29 pelo IBGE. O PIB cresceu apenas 0,4% em relação ao primeiro trimestre. É um resultado muito inferior ao que podemos almejar.

O Brasil foi um dos cinco países de maior crescimento entre os anos 1950 e 1980 em todo o mundo. Hoje, o ritmo é inferior até ao de nossos pares na América do Sul, salvo Argentina e Venezuela. As nações desenvolvidas crescerão mais do que nós em 2019, o que não é o normal. Esse tem sido o padrão desde 2014, quando mergulhamos em profunda e duradoura crise.

A principal causa de tal quadro está na produtividade, que é o fator mais fundamental de geração de riqueza de um país. Nas décadas de ouro, ela cresceu em média 4,2% ao ano. As três décadas seguintes viram um incremento de meros 0,6% anuais. E já faz três anos que ela está estagnada. É a consequência, basicamente, do esgotamento da estratégia de substituição de importações, dos efeitos fiscais da Constituição de 1988 e da devastadora gestão dos três últimos mandatos do PT.

“A principal causa do PIB baixo está na produtividade, que é o fator mais fundamental de geração de riqueza”

Fatores conjunturais completam a explicação. Pelo lado da oferta, figuram com destaque o desastre de Brumadinho — que prejudicou a indústria extrativa —, a desaceleração recente da economia mundial e a crise na Argentina, que é nosso principal mercado de exportações de veículos automotores. Surpreendentemente, a indústria cresceu 0,7% entre abril e junho, retomando a expansão interrompida em fins de 2018. A agropecuária caiu 0,4% e os serviços avançaram 0,3%.

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Na demanda, o consumo do setor público declinou 1% no segundo trimestre, devido à forte queda dos gastos do governo. O consumo das famílias e a formação bruta de capital evitaram o pior: aumentaram 0,3% e 3,2%, respectivamente.

O crescimento modesto tende a ser a marca dos próximos anos. Vai demorar até voltarmos a crescer 3% ou mais ao ano. O grande desafio é restaurar a expansão satisfatória da produtividade em ambiente de equilíbrio macroeconômico. Disso dependerá a realização de reformas estruturais de que o país carece há anos. Felizmente, uma reforma da Previdência ampla e robusta deverá ser aprovada no Senado Federal, o que evitará a insolvência fiscal e a consequente volta da inflação alta e sem controle. Não é pouco.

O bom andamento dos projetos de infraestrutura do governo ataca a falta de demanda no período de sua realização, e ajuda a oferta depois de sua conclusão, ao melhorar a operação da logística. O principal impulso da produtividade nos próximos anos virá da reforma tributária, ora sob exame da Câmara dos Deputados, se concluída. A abertura da economia, que se beneficiará do acordo recente com a União Europeia, tende a gerar mais eficiência na área.

Essas reformas estão na direção correta, mas exigirão muitos anos para promover uma expansão mais forte da economia. Até lá, resta-nos a esperança de que não ocorram crises no cenário mundial e que os governantes do Brasil façam as melhores escolhas.

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Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2019, edição nº 2650

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