Consumo diário tem o poder de definir os rumos do planeta
Líderes globais, pesquisadores e economistas tentam conciliar a expansão da classe média à necessidade de estabelecer padrões de consumo menos agressivos ao meio ambiente
Márcia Régis, do Rio de Janeiro
Mulheres carregam sacolas da Primark shopping, em Londres
(Dan Kitwood/Getty Images)
De alimentos a computadores, de maquiagem a automóveis, os produtos que a humanidade consome vêm moldando o planeta. A economia que move o mundo também pode destruí-lo. Para ambientalistas, economistas, cientistas e líderes globais, essa é uma equação complexa sobre a mesa, agravada pela expansão das novas classes médias: como convencer um imenso contingente de novos compradores a abrir mão do conforto, ou pensar antes de consumir, em um cenário de renda reforçada e acesso mais fácil ao crédito?
A forma como o mundo consome e vai consumir nos próximos anos é um dos embates às vésperas da Rio+20. No momento, duas correntes se opõem. Brasil e países emergentes defendem a busca por soluções que não reduzam a inclusão social, que não privem a classe ascendente de bens de que, até o momento, as nações desenvolvidas puderam desfrutar. Na União Europeia, domina a corrente que recomenda duramente a restrição ao uso de recursos naturais, de forma a reduzir o consumo.
Independentemente do grau de envolvimento com a discussão, cada indivíduo economicamente ativo pode interferir decisivamente nos rumos do planeta através de sua forma de decidir. As opções vão desde a escolha de aparelhos que gastam menos energia – nesse caso, também uma opção econômica – à preferência por itens de marcas que respeitem o meio ambiente. O conceito é fácil de entender. O difícil é levar o consumidor a decidir não apenas em função do preço. Descubra, com o teste produzido pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, que tipo de consumidor é você:
O relatório O Consumidor Brasileiro e a Sustentabilidade: Atitudes e Comportamentos frente ao Consumo Consciente, Percepções e Expectativas sobre a RSE (responsabilidade social empresarial), feito desde 2000, acompanha a evolução do padrão de consumo brasileiro. A última edição, de 2010, traz a seguinte conclusão: “Nesse contexto de festa do consumo, em especial incorporando segmentos historicamente excluídos ou com limitado acesso ao mercado, é difícil imaginar que os novos consumidores assumam comportamentos conscientes, assim como que maiores parcelas dos antigos consumidores o façam”.
O próximo relatório será lançado este ano, mas ainda está em fase de planejamento. A equipe do Akatu tem pressa para checar a evolução dos consumidores nos últimos dois anos. “Os cientistas seguem demonstrando que, ao fim das contas, o planeta poderá seguir sua existência tornando-se mais quente, recoberto por geleiras ou com elevado nível de seus mares. Mas o mesmo não se pode dizer com relação à espécie humana. Já pagamos uma conta alta pela lentidão em assumir que temos um problema real a enfrentar. E vamos pagar mais. É hora de correr contra o prejuízo”, alerta a Diretora-executiva do Akatu, Ana Maria Wilhelm.
A série de relatórios incorporou desde 2003 uma análise sobre o avanço do comportamento dos brasileiros para o consumo consciente. Foram criadas quatro categorias de comportamento, em ordem crescente de preocupação com os efeitos de suas compras sobre o meio ambiente: indiferentes, iniciantes, engajados e conscientes.
O comportamento dos consumidores na hora das compras oscilou criticamente na fase de ascensão econômica da classe C. Na comparação com os resultados de 2006 percebeu-se um aumento de 12 pontos percentuais no total de consumidores classificados como “indiferentes”, passando de 25% em 2006 para 37% em 2010. “O resultado teve relação com o aumento de renda da população e a democratização do acesso ao crédito”, observa a diretora do Akatu.
Nos outros dois grupos seguintes, “iniciantes” e “engajados”, verificou-se uma queda, respectivamente de 7 e 5 pontos percentuais, correspondendo assim aos mesmos 12 pontos percentuais de crescimentos dos “indiferentes”. O relatório destaca que seis dos 13 comportamentos utilizados na segmentação dos consumidores estão diretamente relacionados à redução e ao planejamento de gastos, sendo a adesão a eles mais sensível ao contexto econômico, à confiança do consumidor e à sua disposição de maior ou menor contenção de despesas.
Durante parte do período das pesquisas (2003 a 2008), a renda dos 10% mais pobres cresceu 8% ao ano, enquanto o rendimento dos 10% mais ricos cresceu 1,5% ao ano. “Esse ritmo deve ser mantido até 2012. Em 2009, mais de um milhão de brasileiros saíram da linha de pobreza”, indica o relatório.
“Um ponto positivo é que esse consumidor que ascendeu da classe C traz o hábito de planejar antes de gastar, pelos anos vividos sob recessão econômica. E é esse hábito de planejar gastos e contas que temos que estimular, não podemos deixar que essa parcela da população recaia nos erros cometidos pelos outros perfis de consumidores”, observa Ana Maria.
O consumidor consciente é o chamado “cidadão do futuro”. Pode ter começado o exercício de um novo estilo de vida como os eco-chatos de sempre, mas hoje amplia sua visão para pensar na coletividade e manifestar interesse pelo planeta. “Entre a criação de protocolos internacionais e a regulação por parte dos governos gasta-se muito tempo. O desafio está em nossas mãos, nas escolhas que fazemos todos os dias”, defende Ana Maria. O Akatu indica alguns dos comportamentos típicos do que é considerado o consumidor exemplar:
Adota a bicicleta como meio de transporte
Além de uma opção pessoal saudável, indica a prática de alguma forma de ativismo em busca de mais respeito no trânsito, como o Grupo de Ciclistas de São Paulo.
Pratica coleta seletiva do lixo
A separação caseira é um bom começo. Destacam-se nesse grupo os consuidores que se deslocam até pontos estabelecidos por cadeias de supermercado para depositar o lixo, estimulando a legislação para coleta de resíduos sólidos.
Lê todas as embalagens de produtos
Informação é a chave do consumo consciente. O consumidor que tenta entender se o produto tem caráter de sustentabilidade a partir da composição química está ajudando a pressionar a indústria por mais qualidade e responsabilidade.
Desistiu de andar de carro sozinho
Considerando as implicações do transporte individual, o motorista que entende o peso de desclocar-se sozinho no automóvel tem um papel importante nos dias de hoje. O desejável, nesse quesito, é o comportamento que inclui, se necessário, a mudança de rotina, com disposição para trechos a pé, trasnporte público ou carona.
Planeja o orçamento antes de gastar
Quem evita o endividamento fácil está fazendo bem para o seu orçamento e para o mercado. Contribui também para evitar o consumo por impulso.
Compra alimentos da estação
Adotar produtos orgânicos é algo altamente saudável, mas ainda há diferenças significativas de preço. A opção por vegetais da estação é uma prática, por exemplo, dos Eco-chefs no Rio de Janeiro.
Filtro solar, reciclagem, carros flex
A Rio 92 foi um marco que mudou a maneira de consumidores, empresas e governos encararem o meio ambiente nos últimos 20 anos
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O FILTRO SOLAR ENTROU NO COTIDIANO
Foto: Jacobs Stock Photography/Getty Images
Desde a década de 90, a ciência estuda a relação entre a degradação da camada de ozônio e o aquecimento global. A camada de ozônio filtra os raios ultravioleta emitidos pelo Sol, potenciais causadores do câncer ou envelhecimento precoce da pele. A consciência do perigo reflete-se na disseminação do uso do filtro solar. No Brasil, pesquisa de uma grande fabricante de produtos de beleza mostra que 57% das mulheres usam filtro. Analistas de marketing projetam vendas mundiais em torno de 5,6 bilhões de dólares em 2015.
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O FILTRO SOLAR ENTROU NO COTIDIANO
Foto: Jacobs Stock Photography/Getty Images
Desde a década de 90, a ciência estuda a relação entre a degradação da camada de ozônio e o aquecimento global. A camada de ozônio filtra os raios ultravioleta emitidos pelo Sol, potenciais causadores do câncer ou envelhecimento precoce da pele. A consciência do perigo reflete-se na disseminação do uso do filtro solar. No Brasil, pesquisa de uma grande fabricante de produtos de beleza mostra que 57% das mulheres usam filtro. Analistas de marketing projetam vendas mundiais em torno de 5,6 bilhões de dólares em 2015.
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CONSUMO DE ENERGIA PESA NA COMPRA
Selos de eficiência energética / Reprodução da Internet
A conta de luz passou a ser um dos fatores levados em conta pelo consumidor na hora da compra de eletrodomésticos. Em 1993, um decreto presidencial instituiu oficialmente no Brasil uma iniciativa reconhecida mundialmente, o Selo Procel de Economia de Energia. O Procel regulou as seguintes categorias de eletrodomésticos: ar-condicionado e split, geladeiras e congeladores, lavadoras, televisores e ventiladores de teto.
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A BICICLETA VOLTOU
Foto: Divulgação
Cidades como Paris apostaram na bicicleta como meio complementar de transporte e Berlim adota uma política pública de incentivo à redução da compra de automóveis. Por trás dessa corrente está a conscientização popular sobre os efeitos catastróficos do aquecimento da Terra, causado entre outros fatores pela emissão de dióxido de carbono, gás resultante da queima de combustíveis de origem fóssil, como a gasolina e o diesel. No Brasil, a falta de ciclovias ainda emperra a disseminação da bicicleta como meio de transporte. Ainda assim, o Brasil é o terceiro maior produtor do mundo, atrás apenas da China e da Índia.
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CARRO ELÉTRICO É O CARRO DE 2012
Chevrolet Volt, eleito o carro do ano em 2012 / Divulgação
Um modelo da Chevrolet foi escolhido o carro de 2012 no Salão de Genebra, tradicional termômetro do mercado. O carro elétrico não emite para atmosfera os gases causadores do efeito estufa, que ameaçam o equilíbrio climático. A tendência é de popularização, mas o preço ainda é salgado: modelos comercializados nos EUA saem na faixa de 50 mil dólares, o que levou o Volt, da Ford, a encalhar. A Nissan foi a primeira a vender um modelo 100% elétrico.
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BIOCOMBUSTÍVEL: O BOOM DOS CARROS FLEX
Foto: Fernando Cavalcanti
No país do etanol, os compromissos assumidos para mitigar o aquecimento global somados à pressão da sociedade impulsionaram a produção dos carros bicombustíveis, ou Flex, que funcionam com gasolina e álcool. São raros os modelos fabricados hoje com motor exclusivamente a gasolina. Os bicombustíveis, que em 2003 representavam 3% do mercado, respondem por quase 80% das vendas.
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DO FAX AO TABLET
Foto: Matt Cardy/Getty images
Se a Eco-92 foi a conferência do fax, a Rio+20 será do tablet: o Ministério de Relações Exteriores do Brasil estima a necessidade de 5 mil dispositivos para realizar uma conferência PaperSmart, isto é, com uso de papel reduzido também.
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PARA NÃO ACABAR COM A ÁGUA
Foto: Thinkstock
A água tornou-se um bem precioso. O aumento da população e o desperdício nas grandes cidades, somados a um regime de chuvas em desequilíbrio, forçam o uso racional. As indústrias desenvolveram tecnologias de reutilização, e existe um esforço educacional para reduzir o consumo doméstico. O Brasil corre contra o tempo, com desperdício médio de 70%. Nas residências, o desperdício chega a 78%.
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ENERGIA DO SOL E DO VENTO
Painéis de energia solar na cidade de Sanlucar La Mayor, Espanha / Cristina Quicler (AFP)
Energia do vento, das marés e do sol tornaram-se uma realidade, como alternativa ao uso de energia proveniente da queima de combustível fóssil. Dentre as alternativas, a energia solar é a mais popular. No Brasil, Belo Horizonte já é conhecida como a "capital solar", por ter introduzido na politica do município a exigência da construção ou adaptação de edifícios com sistema de placas solares para geração de energia. A mesma politica é seguida em Barcelona (Espanha) e Cidade do México (México). Portugal, Itália, França, Nova Zeländia e Austrália sáo exemplos de países onde a politica de incentivo à energia solar já é realidade também. Em Israel, 90% das residências usam aquecedores solares.
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CASACO DE PELE É BREGA
Ativistas em protesto contra o uso de pele animal para confecção de casacos em Barcelona, Espanha / Luis Gene (AFP)
Ninguém mais vê casaco de pele no tapete vermelho do Oscar. O combate ao tráfico de animais ganhou força mundo afora graças ao empenho de redes de ativistas como a World Wildlife Fund (WWF) e os alarmantes números de extinção de espécies como o panda, o urso polar e felinos como onças e jaguatiricas. No Brasil, a pressão dos ativistas foi intensa e a legislação tornou-se incisiva: é crime comprar ou manter animais silvestres em cativeiro, sem comprovação da origem.
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ADEUS, SACOLAS DE PLÁSTICO
Sacolas reutilizáveis do Walmart, nos Estados Unidos / Jim Young (Reuters)
Consumir sacolinha plástico é quase sinônimo de falta de educação. Virou moda sair às compras com sacolas retornáveis, as ecobags, que ganharam versões das mais variadas. A decomposição de um saco plástico dura entre 400 a mil anos e libera substâncias nocivas no solo, o que pode levar à contaminação da agricultura. Nas águas dos lagos, rios e mares tornam-se uma ameaça mortal para os animais. Tartarugas, por exemplo, confundem sacolas plásticas com lulas, seu principal alimento, e morrem asfixiadas.
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PAPEL FEITO DE PAPEL
Oficina de arte que produz cortinas e móbiles com papel reciclado/ Marcos Antonio
O uso de papel reciclado tornou-se símbolo de boas maneiras também. O desperdício em casa e no trabalho passou a ser combatido e o estímulo à compra do modelo reciclado foi disseminado. Todo mundo sabe que o papel tem árvores por matéria-prima e que o desmatamento impacta o aquecimento global e o clima, por consequência.Para produzir uma tonelada de papel são necessárias de duas a três toneladas de madeira.
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MÓVEIS QUE NÃO DESTROEM FLORESTAS
Funcionários na serraria da Jari Celulose, do Grupo Orsa, fábrica certificada com o selo verde do FSC, no distrito de Monte Dourado / Manoel Marques
É impensável mobiliar a casa com móveis de madeira nativa, hoje matéria de museus ou prédios históricos. As lojas do ramo se adaptaram à venda de móveis com o selo do Foreign Stewardship Council - FSC, entidade criada em 1993 em atenção ao Tratado das Florestas firmado durante a Eco-92. O selo FSC, adotado internacionalmente, é a garantia de que a madeira utilizada foi extraído de florestas plantadas e gerenciadas por um sistema de manejo adequado.
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O MARKETING DO BEM
Foto: Jessica Rinaldi/Reuters
Com frequência cada vez maior, nos acostumamos às propagandas em revistas, jornais e TVs apresentando empresas socialmente responsáveis e seus projetos sociais. Pesquisas realizadas pelo Instituto Akatu indicam que 5% dos consumidores brasileiros já orientam sua decisão de compra pelo perfil das empresas do bem.
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O DESTINO DO LIXO
Imagem de Lixo Extraorninário, de Vik Muniz / Divulgação
Separar o lixo e lavar as embalagens antes do descarte é uma tendência de comportamento em ascensão. A mesma preocupação começa a se firmar em relação ao descarte de pilhas, baterias, celulares, alumínio, materiais PET e cartuchos de impressoras. Muita gente dispensa o excesso de embalagens na hora das compras. O Brasil é um dos campeões mundiais em reciclagem de alumínio e vidro. O tema do lixo inspirou Vik Muniz, um dos mais importantes artistas plásticos da atualidade, e resultou no documentário 'Lixo Extraordinário', que concorreu ao Oscar em 2010.
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O FIM DO DESODORANTE SPRAY (CFC)
Reprodução da Internet
Os clorofluorcarbonetos (CFC) por trás dos sprays e aerossóis já vinham sendo banidos antes da Eco-92, mas o impulso foi maior desde então. A substância foi comprovada cientificamente como a causadora do buraco da camada de ozônio. Com o fim de seu uso, estima-se que o buraco da camada de ozônio reduza ou acabe por volta de 2060, porém o fato ainda acende controvérsia cientificas. Pesa agora o indício da influência do aquecimento global no fenômeno atmosférico.