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Paulistana ganha R$ 5.000 alugando casa a desconhecidos

Pesquisa mostra apetite de consumidor por compartilhamento de serviços: quase 70% pretendem utilizar no prazo de dois anos

O compartilhamento de serviços está se tornando cada vez mais popular entre os brasileiros. Quase 70% se imaginam utilizando algum tipo de serviço compartilhado no prazo de dois anos, segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). As modalidades mais utilizadas são as de aluguel de casas (40%), caronas para o trabalho ou faculdade (39%) e aluguel de roupas (31%).

Segundo a economista-chefe do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), Marcela Kawauti, essa é uma nova forma de consumir. “É difícil [para que as pessoas se acostumem a compartilhar] mas é uma questão de hábito e dá para economizar bastante dinheiro”.

A plataforma mais conhecida de compartilhamento de moradia é o Airbnb, que conecta quem busca um espaço aos que estão dispostos a alugar – é possível encontrar até mesmo quartos disponíveis em outros países, com a cotação em real.

Apenas em São Paulo, são cerca de 9.000 anfitriões que, em média, lucram 5.080 reais por ano. Entre eles está Maria Cristina, 57. Formada em biblioteconomia, ela descobriu no Airbnb uma alternativa para conseguir renda após o marido e os filhos saírem de casa.

“Fiquei desprovida de tudo, não tinha trabalho porque me dedicava à casa, as crianças e ao escritório do meu marido. Não havia mercado de trabalho para mim com 52 anos, fiquei com uma situação financeira e emocional muito ruim”, afirmou ela.

A situação começou a mudar em 2012, quando Maria começou a receber pessoas para se hospedarem em sua casa por indicação. Segundo ela, o preço cobrado não era de uma estadia e servia como uma ajuda financeira, que passou a ser insuficiente como renda.

“Embora tenha me cadastrado no Airbnb em 2012, tinha muito medo de hospedar desconhecidos. Em 2015, estava recebendo poucos hóspedes por indicação e comecei a receber outras pessoas timidamente pela plataforma”.

Atualmente, ela aluga três quartos do apartamento localizado próximo ao metrô Ana Rosa, na Vila Mariana, em São Paulo. Para cada um deles são cobrados preços diários de 66 reais, 75 reais e 91 reais – o valor é influenciado pelo tamanho do quarto.

Desde então, Maria lucra cerca de 5.000 reais mensais com o aluguel de quartos e fornece outros serviços como o de translado e também leva os hóspedes para fazerem compras na cidade. Com o dinheiro, ela também conseguiu comprar um carro. “Eu não vivo mais sem hospedar”.

A economia colaborativa pode ser uma boa opção financeira não apenas para quem quer economizar dinheiro: 28% dos brasileiros também enxergam nessa modalidade uma oportunidade de gerar renda. “É muito mais fácil do que abrir uma empresa, tem menos burocracia. A barreira é a questão da confiança”, afirmou Marcela.

De acordo com a pesquisa, os consumidores já recorreram também a outras modalidades de economia colaborativa, como aluguel de bicicletas espalhadas pela cidade (17%), aluguel de quartos para terceiros (16%), locação de carros particulares (15%) e compartilhamento de moradias em estilo comunitário, também conhecido como co-housing (15%).

Desconfiança

A falta de confiança, entretanto, é um obstáculo para 47% dos brasileiros que relatam o receio de serem ‘passados para trás’ ao aderir a serviços desse tipo. Outros 42% afirmam ter medo de lidar diretamente com estranhos e 37% citaram a falta de garantias no caso de não cumprimento de acordos.

Ainda, 71% dos entrevistados afirmam que a prática pode enfrentar problemas no Brasil porque as pessoas não são confiáveis.O receio de lidar com desconhecidos é maior no caso de alugar quartos para terceiros (47%) ou no compartilhamento de moradia (41%).

Mesmo assim, a economia compartilhada deve se fortalecer no Brasil. “Com o advento da internet, cada vez mais a prática tem se tornado um hábito. Pelo momento econômico que estamos vivendo a principal vantagem é a oportunidade de economizar – para quem tem o orçamento apertado pode ser a diferença entre ter ou não que cortar uma despesa”, afirmou Marcela.

Um serviço que já existe faz tempo é o de aluguel de roupas: 31% dos entrevistados fazem uso de plataformas do tipo. Uma delas é o sistema de guarda-roupa compartilhado Blimo, que funciona como uma espécie de Neflix de roupas: paga um preço fixo e pode usar todo o acervo.

“Pensei que poderia encontrar resistência em compartilhar roupas, sempre brinco que vamos ao hotel e usamos a mesma toalha sem problema. Mas encontrei menos resistência do que imaginei, as pessoas se incomodam com o armário que vai ficando lotado e estão mais abertas para isso [o guarda-roupa compartilhado]”, afirma Mariane Salerno, fundadora da Blimo.

A empresa faz trabalha com diferentes modalidades de aluguel  os preços variam de 130 a 190 reais por mês, dependendo da quantidade de roupas compartilhadas. Há também um plano exclusivo para gestantes. O diferencial é que o cliente pode ir à loja quantas vezes quiser e trocar os modelos até mais de uma vez por dia. Por enquanto, a Blimo trabalha apenas com roupas femininas.

Blimo

De acordo com a pesquisa, o receio de lidar com estranhos é o maior medo na utilização de serviços de aluguel de quartos para outras pessoas (47%), compartilhamento do local de moradia (41%), caronas para locais como o trabalho, faculdade ou em viagens (38%), financiamentos coletivos (28%) e compartilhamento do espaço e os itens de escritório, o coworking (28%).

Caronas para o trabalho ou faculdade também são comuns, cerca de 39% dos brasileiros fazem uso desses serviços. Entre os aplicativos estão o Beep Me e o Caronetas.

De uma demanda do mercado surgiu o TruckPad, uma plataforma para um público bem específico – os caminhoneiros. O criador, Carlos Mira, já atuava na área quando percebeu que poderia solucionar um problema frequente: o agenciamento de cargas para os trabalhadores autônomos. Assim nasceu a plataforma, que desde 2011 conecta o caminhoneiro independente à carga, fornecendo também informações como rotas, custos de viagem, notícias do setor e promoções exclusivas com fornecedores do mercado.

Com uma proposta similar, o Pronto Rush é um aplicativo que conecta negócios a motoristas para entregas imediatas e sob demanda no Distrito Federal. A empresa vem crescendo 50% ao mês desde que foi lançada em janeiro. Atualmente, o aplicativo conta com 1.200 motoristas cadastrados e mais de 100 empresas ativas. A expectativa é de que o aplicativo passe a atender todos os estados brasileiros até o fim de 2017.

Já o Pegcar permite o aluguel de carros entre proprietários e condutores interessados. O site funciona desde outubro de 2015 em São Paulo e cidades do interior, Minas Gerais e Paraná.

Mais difícil de compartilhar

Entre os serviços da economia compartilhada que os brasileiros estão menos propensos a usar estão a hospedagem de animais de estimação em sua própria residência (41%), o cohousing – quando pessoas alugam uma casa e dividem as despesas vivendo num estilo comunitário (37%) e o aluguel de utensílios e móveis da casa (36%).

Apesar da rejeição à hospedagem, donos de pet podem se valer de serviços como os oferecidos pela Holipet, que conecta interessados a cuidadores ou passeadores.

Para os que não têm problema em compartilhar itens domésticos, a plataforma Tem Açúcar? pode ajudar. A ferramenta possibilita o empréstimo de utensílios e outros objetos entre vizinhos. A plataforma, fundada em 2014, alcançou a marca de 30.000 cadastrados em apenas um mês.

Outras plataformas de economia compartilhada visam a segurança, como o Vigilância Solidária, que permite que os moradores de um mesmo bairro acessem remotamente, via smartphone ou tablet, as imagens do sistema de câmeras instaladas nas ruas.