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O sucesso é hereditário

Em The Son Also Rises, o economista Gregory Clark questiona a perenidade dos efeitos das políticas de transferência de renda e sugere que a genética é uma explicação para o sucesso (e o fracasso) dos indivíduos

Em seu novo livro The Son Also Rises (O Filho Também Prospera, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), o economista escocês Gregory Clark, da Universidade da Califórnia, afirma, com base em informações genealógicas e estatísticas coletadas em nove países sobre milhares de famílias, que a ascensão social duradoura – aquela que beneficia não apenas um indivíduo, mas também seus descendentes – é um fenômeno raro e pouco influenciado pela adoção de políticas sociais. Segundo Clark, a prosperidade, a longo prazo, parece estar determinada por fatores culturais, e talvez até genéticos. “Governos podem fazer muitas coisas para melhorar a vida das pessoas, mas nenhuma política parece capaz de quebrar a divisão estrutural da sociedade em linhagens de sucesso e de pobreza”, diz em entrevista ao site de VEJA.

Clark sugere que políticas de transferência de renda e mesmo de melhoria no acesso à educação, colocadas na perspectiva de dois ou três séculos, se mostram irrelevantes no sentido de mudar a posição de famílias e grupos na pirâmide social. A teoria é tão controversa quanto a que deu origem ao seu livro anterior, publicado em 2008, intitulado Um Adeus às Esmolas (não foi lançado no Brasil, mas sua versão em português pode ser encontrada em Portugal, pela editora Bizâncio). Nele, o autor atribui o desempenho econômico e social de uma nação às características individuais de seus cidadãos, independentemente do sistema econômico vigente. De Londres, Clark falou com o site de VEJA por telefone. Confira trechos da conversa.

Seu livro sugere que a mobilidade social duradoura é rara tanto em sociedades claramente estratificadas quanto em sociedades que parecem ser mais dinâmicas. Isso significa que o esforço de um indivíduo jamais será premiado de maneira justa?

Eu não afirmo que não haja recompensa para o esforço individual. O que eu constatei é que as habilidades que levam uma pessoa a ter sucesso acadêmico ou financeiro parecem ser herdadas e passadas de geração em geração. E é muito difícil para qualquer sociedade quebrar essa dinâmica. Na minha interpretação, as sociedades não se diferenciam da maneira esperada em relação às oportunidades que oferecem para o progresso de seus cidadãos. Ao pesquisar a mobilidade social no longo prazo, com base em listas de sobrenomes, constatei que tanto as sociedades tidas como mais abertas quanto as mais estratificadas são, na verdade, bastante semelhantes nesse ponto.

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Mas o que dizer dos momentos em que grandes massas de pessoas deixam a pobreza, algo que se observou, por exemplo, no Brasil recentemente?

É preciso diferenciar melhoras no padrão de vida de mudanças na posição relativa das pessoas na estrutura social. Veja o caso da Suécia, uma sociedade em que as pessoas têm um sistema de educação aberto e acessível por meio do Estado. Ainda assim, numa perspectiva de longo prazo – que é aquela que eu adoto, como é importante enfatizar – o nível de mobilidade social não cresce. Peguemos o Chile como contraponto e o fenômeno se repete. Os sobrenomes das famílias chilenas que eram proeminentes no período colonial continuam sendo até a mais recente geração. O governo socialista de Salvador Allende não melhorou a mobilidade social, assim como o ditador Augusto Pinochet não a reduziu. E assim foi também nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou em outros países da minha pesquisa.

Não lhe parece lógico o fato de não haver muita mobilidade na Suécia, levando em conta que a desigualdade é muito menor?

Lá, de fato, não há muita diferença entre o topo e a base, como há em sociedades como a brasileira. Mas o que eu estou destacando é a posição relativa das famílias, ou seja, a relação entre as camadas da sociedade. E essa posição relativa é algo que as sociedades não conseguem mudar por meio de políticas públicas. Eu não estou dizendo que um país não terá sucesso transferindo renda e dando serviços à população. O que digo é que é inútil usar esse argumento para tentar acelerar o processo de mobilidade, ainda mais se interpretarmos esse processo de mobilidade como algo que vai além do dinheiro. Então é preciso ter uma noção dos limites desse tipo de política. Pode levar mais de 10 gerações para que um indivíduo de classe mais baixa atinja o topo e permaneça ali juntamente com sua descendência.

Se os efeitos sustentáveis dessas melhorias demoram gerações para serem percebidos, isso também significa que pode haver uma rápida regressão?

Sim. Os pobres da Dinamarca e da Suécia têm vida bem confortável. Têm casa, acesso à educação de qualidade, mas continuam sendo pobres. Não tendem a mandar filhos para a universidade e tampouco se tornarão profissionais de alto nível. É ainda muito previsível que as crianças de famílias de alto padrão social e educacional permanecerão nesse mesmo patamar nas próximas gerações. Governos podem fazer muitas coisas para melhorar a vida das pessoas, mas nenhuma política parece capaz de quebrar a divisão estrutural da sociedade em linhagens de sucesso e de pobreza.

Seu livro parece sugerir até mesmo a existência de um componente genético no sucesso das pessoas.

Minha pesquisa sugere que não se pode descartar de antemão a hereditariedade como determinante do sucesso de um indivíduo na sociedade. Não temos evidência para excluir a genética desse processo. Pelo contrário: parece difícil exclui-la. Há uma conexão surpreendentemente forte entre passado, presente e futuro. Com base em registros de sobrenomes, podemos olhar uma família e estimar se 200 ou 300 anos à frente ela ainda vai estar bem ou não. Não é muito fácil lidar psicologicamente com esse tipo de constatação. Instintivamente nos fascina a ideia de que tudo é possível e que temos o controle sobre tudo. Meu livro constata que, sim, muitas coisas acontecem por causa do nosso otimismo, nossa energia, coragem e inteligência. O problema é que não sabemos o quanto desse otimismo e dessa coragem nós teremos ao longo da vida – e de onde vêm essas características. É uma ilusão pensar que tudo é possível. Porque, no fim, muita coisa parece estar programada. Na Grã-Bretanha, por exemplo, quando se faz um levantamento sobre a riqueza das pessoas, é possível prever, por meio da riqueza do tataravô de um indivíduo, se ele estará numa boa posição hoje e nos anos que virão. E isso não significa que o tataravô tenha que, necessariamente, deixar uma herança. Tal indivíduo pode nem ter conhecido o tataravô, mas os dados mostram que há uma ligação muito forte entre o sucesso de ambos, mesmo sem nenhum dinheiro em jogo.

Sua teoria deságua, então, numa espécie de fatalismo?

Meu livro mostra que as estruturas sociais não são tão maleáveis quanto gostaríamos que fossem. Mas isso não nos autoriza a esquecer os mais humildes. Deveríamos, pelo contrário, ter mais compaixão em relação a quem está na base. Se mudar a posição relativa das pessoas na escala social não é um objetivo fácil, melhorar o seu padrão de vida é, sim, factível.