Emergentes mudam o mapa do setor automotivo global

Em busca da preferência dos consumidores, fabricantes de veículos criam pólos de pesquisa e desenvolvimento em países como Brasil e China

As características do mapa mundial do setor automotivo tem mudado a cada ano. Atentas à capacidade de consumo e às necessidades específicas de algumas regiões, as montadoras investem cada vez mais em pólos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em países emergentes. Grandes investimentos, que antes ficavam concentrados nos Estados Unidos, Japão e Europa, hoje têm novos rumos.

Para se ter uma ideia, atualmente, as montadoras General Motors (GM), Fiat e Volkswagen desenvolvem no Brasil e na China modelos voltados aos consumidores locais, que são inclusive exportados para a América do Norte e Europa, além de nações vizinhas. Um dos pólos de P&D mais recentes no Brasil foi criado em 2001 pela Ford, ao inaugurar sua fábrica em Camaçari, na Bahia, onde engenheiros do país desenvolveram o modelo EcoSport, considerado um sucesso de vendas.

“As montadoras tiveram que fazer o dever de casa. No decorrer das últimas décadas, as companhias do setor perceberam que não bastava mais importar aos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento os modelos criados totalmente em suas matrizes. As empresas reconheceram a necessidade de adaptar os carros às condições específicas de cada localidade, processo esse que ficou conhecido como tropicalização”, explica a socióloga Flávia Consoni, professora do programa de pós-graduação em administração do Centro Universitário da FEI (Fundação Educacional Inaciana Padre Sabóia de Medeiros) e que desenvolveu um estudo sobre as estratégias de inovação tecnológica e políticas de atração de investimentos em P&D na indústria automotiva nacional.

“No caso do Brasil, a má condição das estradas, que demanda reforços especiais no sistema de suspensão dos veículos; a qualidade da gasolina e os combustíveis alternativos, que demandam maior adequação dos projetos e dos materiais dos automóveis (caso do álcool e também da gasolina que contém álcool na sua composição); e até as diferenças de clima e temperatura foram fatores que obrigaram as companhias a desenvolver modelos que atendessem a realidade do consumidor brasileiro”, complementa a especialista.

Em 1987, a Volkswagen e a Ford já tinham esta percepção. Para garantir a presença de ambas em países emergentes e até elevar os lucros, suas matrizes optaram por formar a Autolatina, uma associação entre as duas companhias nos mercados brasileiro e argentino e que prevaleceu até 1996. Mas, neste caso, a estratégia de fusão teve relação com o momento que a indústria automobilística brasileira passava na segunda metade da década de 80, com retração de mercado interno e tímida participação das montadoras brasileiras no mercado internacional.

Durante o período de atividade da Autolatina, as trocas de tecnologia entre ambas montadoras foram fortes, tudo para garantir a satisfação dos consumidores. A VW ofereceu a Ford diversos motores. Em contrapartida, a fabricante americana concedeu a plataforma do Escort, que originou os modelos Apollo, Logus e Pointer com identidade Volkswagen.

Como resultado, houve uma intensificação no lançamento de veículos no Brasil na década de 90, que foi três vezes maior do que o observado nos anos 80. Com o rompimento do acordo em 1996, cada empresa se viu obrigada a trabalhar com seus próprios recursos. Na ocasião, a Ford perdeu participação de mercado no início, mas conseguiu recuperar posteriormente seu market share após investimentos em pólos de P&D no país.

Acesse o infográfico para ver a expansão dos pólos de P&D em países emergentes:

Infográfico: Indústria Automotiva

Infográfico: Indústria Automotiva (VEJA)

História – Esta mudança na indústria automotiva mundial, contudo, não ocorreu de uma hora para outra. O primeiro pólo de P&D criado por uma montadora no Brasil, por exemplo, foi inaugurado pela fabricante alemã Volkswagen (VW) em 1958. O resultado disso foi o surgimento nos anos posteriores de novos modelos de veículos voltados exclusivamente para o mercado brasileiro, como é o caso do Fusca nacional (1959), Brasília (1973), Passat (1974) e até da família BX a partir de 1980, composta pelo Gol, Voyage, Parati e Saveiro.

“O Brasil é um país estratégico para os negócios da Volkswagen e ter um centro de P&D por aqui era fundamental naquela época. Atualmente temos na unidade brasileira mais de 1.000 pessoas que trabalham em pesquisa e desenvolvimento de novos veículos, criando modelos que não apenas atendem as exigências do consumidor nacional, mas também do mundo”, garante o alemão Egon Feichter, vice-presidente de desenvolvimento de produtos da montadora no Brasil.