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ANÁLISE-Petrobras terá que aumentar gasolina para cumprir plano

Por Leila Coimbra

RIO DE JANEIRO, 15 Jun (Reuters) – A divulgação do novo plano de negócios da Petrobras, com maiores investimentos e sem a contrapartida de aumentos nos preços dos combustíveis, nem de aumento de fluxo de caixa, gerou questionamentos no mercado sobre como a estatal pretende manter as contas equilibradas.

A companhia anunciou nesta quinta-feira que irá investir 236,5 bilhões de dólares nos próximos cinco anos, mas prevê um corte de 18 por cento na produção de petróleo em 2016, o que poderia comprometer sua saúde financeira.

A maioria dos analistas ouvidos pela Reuters acredita que o novo plano é uma peça de ficção porque a estatal não tem aumento de receita previsto que possa fazer frente ao aumento nos desembolsos.

“Há uma redução de 700 mil barris por dia na curva de produção e mesmo que os preços do petróleo permaneçam no cenário previsto pela Petrobras, entre 90 e 100 dólares o barril, há uma defasagem em torno de 20 por cento nos preços dos combustíveis no mercado interno em relação ao preço internacional”, diz Lucas Brendler, analista da corretora Geração Futuro.

“A empresa anunciou um aumento de custo mas há ausência de caixa”, completou Brendler. O aumento da receita líquida pela empresa precisaria ser feito via correção nos preços dos combustíveis, já que a cotação da commodity petróleo é determinada pelo mercado internacional.

Uma alternativa para a Petrobras cumprir o investimento prometido seria aumentar o seu endividamento, mas dessa forma a empresa corre o risco de descumprir os requisitos necessários para o investment grade, o que seria ruim para os negócios.

O novo plano de negócios aumenta a expectativa de captação anual de recursos pela estatal para a faixa de 16 bilhões a 18 bilhões de dólares, enquanto o anterior previa entre 7,2 bilhões e 12 bilhões de dólares ao ano.

“Porém, a empresa manteve a previsão de que sua relação dívida líquida sobre o Ebitda (fluxo de caixa) não vai passar de 2,5 vezes, assim como estava previsto no plano anterior. Significa que há a expectativa, pela empresa, de que haverá mais geração de caixa, senão ela perde o investiment grade, e aí complica”, disse o analista da Planner, Luiz Francisco Caetano.

Relatório do banco Itaú BBA salienta que o corte na curva de produção de petróleo teve um impacto negativo sobre a receita líquida da empresa. “Embora o impacto de curto prazo sobre a receita líquida seja pequeno, isso implica um aumento das importações de petróleo e derivados para abastecer a crescente demanda, o que afeta a geração de caixa da empresa”, escrevem os analistas Paula Kovarsky e Diego Mendes no documento do Itaú BBA.

Eles afirmam ainda que a Petrobras planeja financiar o seu programa de investimentos por meio de dívida e geração de caixa, (em torno de 17 bilhões de dólares ao ano) e desinvestimentos (de 14,8 bilhões de dólares).

“Como a empresa não pode correr o risco de ultrapassar os requisitos exigidos para obter o grau de investimento, para cumprir os investimentos precisa de uma paridade internacional para os preços do diesel e da gasolina no curto prazo, o que vemos como muito agressivo”, escreveram no relatório.

O analista Gustavo Gatass, do BTG Pactual, escreveu que, proporcionalmente, a Petrobras está querendo contar com um percentual menor de financiamento do que fez nos últimos anos, apesar dos valores absolutos de necessidade de empréstimo maiores.

“A Petrobras está claramente querendo contar com menos financiamento. No entanto, os pressupostos aqui são agressivos em várias frentes (preços do petróleo, fluxo de caixa por barril, alienações) e em certo sentido, isso pode facilmente ser mais arriscado”.