O ‘caveira’ que virou jornalista

Armado com o microfone, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel assume de vez seu lado comentarista de segurança nos telejornais da Rede Globo

“A resposta da polícia àquelas imagens dos traficantes fugindo pela serra da Misericórdia foi maravilhosa. Adorei aqueles caveirões subindo”

Quando o Capitão Nascimento de Tropa de Elite ganhou status de herói nacional, Rodrigo Pimentel conheceu a fama. Afinal, as experiências dele próprio, descritas no livro Elite da Tropa, inspiraram o personagem de Wagner Moura no cinema. Mas o ex-comandante da equipe Alfa do Bope só ganhou vida própria diante das câmeras quando passou a empunhar um microfone e a falar sem roteiro prévio, no fogo cruzado do telejornalismo diário. O desempenho como comentarista de segurança foi posto em prova quando os antigos colegas do Batalhão de Operações Policiais Especiais cercaram a Vila Cruzeiro, na Penha. A fuga dos traficantes, transmitida ao vivo pela Rede Globo, precisava de uma voz para dar algum sentido – e talvez alguma esperança – a quem assistia atônito à movimentação de uma fila indiana de bandidos armados.

As horas a fio diante das câmeras, ou simplesmente emprestando a voz para narrar os acontecimentos na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, sepultaram de vez as dúvidas em relação à transformação do ‘caveira’ em jornalista-comentarista-especialista em segurança. Pimentel, com as credenciais de ex-policial, pôde ir além. “Estou emocionado”, disse, logo que começou a ocupação do Complexo. Por ter abandonado temporariamente a imparcialidade que a tensão do momento exigia, Pimentel achou que receberia alguma represália. Ninguém reclamou.

Pouco depois, tomou a liberdade de, olhando fixamente para as lentes, pedir às mães dos traficantes que entregassem seus filhos. Surpreendentemente, naquele momento algumas famílias de fato entregaram os filhos à polícia – uma prova de que àquela altura estava estabelecida a sintonia entre o público e o capitão, alçado à condição de apresentador. “Um colega meu da polícia me ligou na hora e disse: Pimentel continua que está funcionando”, conta, na certeza de que, em última análise, sua atuação na TV é, assim como no Bope, uma “prestação de serviço”.

Carisma, ao que tudo indica, é uma das chaves para a boa aceitação do capitão na TV. E, como se vê em seu trato com o público, a paciência ajuda. Em palestra no SESC Tijuca, na última quarta-feira à noite, ele saciou curiosidades do público e debateu com gente de opiniões divergentes. Houve até quem foi ao local só para pedir conselhos, como um morador do bairro que queria algumas dicas sobre como recorrer de multas de trânsito. Pimentel, atencioso, entregou, então, o contato de uma amiga capaz de orientar como proceder nesses casos.


A palestra, inicialmente, seria sobre pirataria. Mas era inevitável que o Alemão e os bastidores da operação cinematográfica dominassem a conversa. Pimentel não reclamou. Nem do desvio do tema nem do horário, que se estendeu mais do que o esperado. O relógio marcava 22h30 quando ele chegava de volta à sua casa, na Lagoa, zona sul do Rio.

Pimentel é um ‘caveira’ que cultiva flores. Literalmente. Na portaria do prédio onde mora, mostrou o jardim bem podado e viçoso. “É de Burle Marx”, destaca, agora na condição de síndico orgulhoso.

Quem conhece de perto o ex-capitão sabe que o estilo “pede pra sair” de ‘Tropa de Elite’ é coisa do cinema – e, claro, de algumas situações em que mandar flores não resolve o problema. Também ex-capitão do Bope, também frequentador dos telejornais, Paulo Storani, elogia o desempenho do amigo. “Não foi um aluno brilhante (na academia de polícia militar), não era de estudar, mas lia muito, tinha uma cultura profunda e capacidade de análise muito forte. Sempre foi crítico da própria polícia, e isso é fundamental”, conta. A convivência na polícia serviram para Storani constatar que Pimentel tem, entre outras qualidades, “um QI elevadíssimo”.

Elevadíssimo. Mas não era o ‘zero um’, como afirma o amigo. Aos risos, Storani lembra que foi o primeiro colocado e Pimentel, o penúltimo no curso de operações especiais, que forma os caveiras. No tom de brincadeira, memórias curiosas foram reveladas. “Nós andávamos com mochila cheia para carregar os mantimentos. E Pimentel sempre de mochila vazia. Na hora de acampar na floresta, ele não tinha nada, pedia para dormir com os outros”, entrega.


Andar com menos peso nas costas é correr o risco de, entre outras coisas, não ter cobertor no frio da mata. “Não tem pudor no Bope. Está com frio? Abraça o outro para aliviar”, conta Storani, revelando como Pimentel e os “mochila leve” acabavam se aquecendo. Mas, como o Brasil inteiro já sabe, pela voz do Capitão Nascimento, no Bope não há espaço para descuido. Vinham, então, as séries de abdominais e os banhos em água gelada. Sempre, lembra Storani, sem reclamar.

Para quem agüentou as punições do Bope, as críticas pelo ponto eletrônico não chegam a ser um sofrimento. E Pimentel acolhe, ao longo do trabalho, orientações e correções de curso no trabalho. Bom para a emissora, bom para o espectador. A rotina na Globo começa às 10h. “Faço uma ronda, fico sabendo dos principais assuntos, tento ir um pouco além do que já está sendo contado pelas matérias”, conta Pimentel. Encerrada a edição, enfrenta a reunião de pauta e a de pré-produção, para o jornal que vai ao ar no dia seguinte. Se não houver “um Alemão”, às 14h está liberado.

Insatisfação com a polícia – A transformação do policial em homem de comunicação começou em 2001, logo depois de decidir sair da polícia. “Saí insatisfeito”, resume. Quem assistiu ao documentário Notícias de uma guerra particular, João Moreira Salles e Kátia Lund, produzido dois anos antes, já sabia dessa desilusão. Pimentel é um dos personagens centrais do filme, expondo os problemas e reflexões sobre a rotina de confrontos entre policiais e traficantes nos morros do Rio. Nas palavras dele, já naquela época a polícia “enxugava gelo”. “Não tinha mais condições de permanecer na corporação”, lembra.

Fora da polícia, passou a falar de segurança em uma coluna semanal no Jornal do Brasil. Depois, foi coprodutor do filme Ônibus 174, até que surgiu a ideia de filmar Tropa de Elite. O sucesso do filme alavancou a popularidade e abriu caminho para Pimentel fazer o que gosta – analisar questões de segurança e criticar a polícia. Para integrar a tropa de elite da Globo, foi preciso enfrentar três semanas de laboratório: frequentou consultórios de fonoaudiólogas e aprendeu a se articular melhor. Mas, a despeito da técnica necessária para encarar a rotina de TV, o que conta mesmo é a experiência como comandante, oficial de inteligência e subcomandante do centro de operações do Bope, capitão de batalhões da PM e, mais recentemente, uma pós-graduação em sociologia.

Pimentel é tudo isso misturado. E vez por outra, na TV, ele enxerga espaço para usar “psicologia de guerra”. É essa a explicação que dá, agora, para seu pedido dirigido às famílias, sugerindo que entregassem os bandidos à polícia ou quando mostrou que os chefes do tráfico escravizam os jovens da favela. “Mostramos a casa do Polegar (traficante do Alemão) e falávamos sobre a ostentação que era a vida dele. E eu ressaltava que os meninos da contenção não tinham aqueles privilégios”, explica.

Quando lembra a ação do Alemão, o ‘caveira’ vêm à tona. “A resposta da polícia àquelas imagens dos traficantes fugindo pela serra da Misericórdia foi maravilhosa. Adorei aqueles caveirões subindo”, emociona-se, mesmo sabendo que, agora, o fuzil é coisa do passado. O que não significa que, desarmado, ele não possa combater o crime. “Meu objetivo, nos próximos meses, é pegar pesado com a pirataria, a violência doméstica e o furto de energia”, avisa, animado com a renovação de contrato com a Rede Globo por mais três anos.