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Sérgio Cabral

25/03/2013

às 17:46

Dilma e Cabral não precisam ir à missa; precisam é cumprir a palavra. Isso, sim, seria uma atitude cristã

A presidente Dilma Rousseff participa hoje, ao lado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), de uma missa em memória das 33 vítimas dos deslizamentos de Petrópolis. Tá. Todo político tem de ir aonde os problemas estão. Mas é preciso que repudiemos a virtude eventual que serve para ocultar o vício sistemático. Já chego lá.

Sou católico, mas não gosto de ver políticos em igrejas. Se evangélico fosse, não gostaria vê-los dando plantão nos templos. Tampouco aprovaria a mistura incômoda, delinquente às vezes, entre política e religião. Há lugares em que políticos nunca estão fazendo boa coisa — antigamente, costumavam bater à porta de quartéis, por exemplo. Nem Deus nem a vida das pessoas deveriam estar sujeitos à demagogia.

Penso aqui na candidata Dilma Rousseff indo a Aparecida e se atrapalhando toda na hora da persignação. Tentava, com aquele gesto, eliminar da memória do eleitorado algumas defesas incômodas que havia feito. Ela tinha e tem o direito a uma opinião sobre qualquer assunto. Feio é tentar enganar o distinto público. Na semana passada, os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) e Marcelo Crivella (Pesca) foram a um encontro de pastores da Assembleia de Deus de Madureira. Carvalho falou dos vínculos inquebrantáveis de Dilma com os Evangelhos. Crivella, que é bispo da Universal do Reino de Deus (a igreja de Edir Macedo), preferiu ser prático: como os pobres, segundo ele, vivem melhor hoje, sobra mais dinheiro para o dízimo.

Começo por este: reduziu a dimensão espiritual a um problema de fluxo de caixa. Sendo quem é e vindo de onde vem, não é de estranhar. A formulação fala por si. Quanto a Carvalho… Em janeiro do ano passado, este senhor participou do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e conclamou os petistas a disputar influência com os evangélicos junto à tal nova classe C. Escrevi a respeito. Naquele momento, o chefão do PT tratava seu partido como igreja. E essa disputa, não custa lembrar, está em curso. Os petistas estão usando o caso do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), por exemplo, para distinguir os “evangélicos do bem” dos “evangélicos do mal”.

Eu prefiro que os políticos tenham e veiculem valores cristãos, mas, definitivamente, não gosto de vê-los em igrejas. Sabem por quê? Porque, quase sempre, é uma falsidade. Quantas vezes Dilma foi à missa nos últimos 30 anos? Não é obrigada! Todos sabem que não é católica. Em Roma, um tanto descolada da realidade, atreveu-se a dar conselhos ao papa Francisco. A ficha só caiu depois.

Leiam o que informa a VEJA.com. Volto depois.
*
Governo federal decreta estado de emergência em Petrópolis
O Secretário Nacional de Defesa Civil, Humberto Viana, decretou estado de emergência em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, em função das chuvas que deixaram 33 mortos desde a madrugada do último dia 18. A portaria nº 40, publicada no Diário Oficial, diz que o governo federal reconhece a situação do município “em decorrência de deslizamentos de solo e/ou rocha”. De acordo com a Defesa Civil, o temporal provocou 21 pontos de deslizamento ou alagamento na cidade. Do total de vítimas fatais, três morreram após serem hospitalizadas. Levantamento feito pela prefeitura calcula que mais de mil pessoas permanecem desalojadas.

Dilma
Petrópolis entra em situação de emergência no dia em que recebe a visita da presidente Dilma Rousseff, que participa de uma missa em homenagem às vítimas da chuva ao lado do governador Sérgio Cabral. Espera-se que ela apresente uma espécie de versão 2.0 de promessa para solucionar o problema das chuvas na Serra.  Contudo, os últimos acontecimentos políticos em torno das eleições de 2014 podem roubar o foco na chegada da presidente, que já enfrentaria constrangimento suficiente ao se deparar com uma nova tragédia na cidade que não recebeu a lista robusta de obras prometidas em 2011, quando as chuvas também devastaram a região.

Além disso, ela posa ao lado de Cabral logo após o PMDB divulgar um dossiê encomendado pelo próprio partido acusando o senador Lindbergh Farias, do PT, de desvio de verba. E do contra-ataque de Lindbergh que, em um vídeo publicado no Facebook, ressuscitou o episódio da farra dos guardanapos na cabeça de integrantes do primeiro escalão do governo com o empresário Fernando Cavendish, da empreiteira Delta.

Voltei
Eis aí. Lamento ter de escrever isto porque é asqueroso: o fato é que está havendo a politização da tragédia. Os mortos de agora, em Petrópolis, foram paridos pelos mortos de antes. Quando falta ação do poder público, os cadáveres procriam. E estes darão à luz outros tantos no ano que vem se o governo Cabral não mudar seu comportamento, se o governo Dilma não mudar seu comportamento.

A chuva, já escrevi tantas vezes, não é culpa de ninguém. Não cumprir o prometido para as populações carentes, não gastar o dinheiro reservado para a prevenção de tragédias, aí estamos lidando, sim, com a responsabilidade de governos — “culpa”, se quiserem.

Tão logo Francisco foi investido da mitra papal, mandou um recado aos argentinos em particular: “Não venham a Roma ver o papa; doem o dinheiro aos pobres”. Francisco certamente recomendaria a Dilma e a Cabral que se dispensassem de comparecer a um ritual religioso que nada lhes diz (ainda me lembro de Cabral, em defesa do aborto, ter perguntado à audiência, com aquela sua ligeireza habitual: “Quem aqui não teve uma namoradinha que teve de abortar?”).

A maneira que estes dois têm de arcar com suas respectivas responsabilidades de governantes – e, sim, de atuar segundo os princípios cristãos – é cumprindo as promessas feitas ao povo de Petrópolis. Às vezes, ir à missa ou ao culto evangélico é só uma forma privilegiada de ofender os fundamentos do cristianismo.

Por Reinaldo Azevedo

13/03/2013

às 14:48

Crise dos royalties é o presente do “amigão” Lula para Sérgio Cabral

Por Cecília Ritto, na VEJA.com:

No Rio de Janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva ainda é tratado como presidente. Pelo menos se o governador Sérgio Cabral estiver no comando do compromisso. Foi assim há duas semanas, quando Lula foi levado ao Maracanã – fechado para obras e visitação, mantido longe dos olhos da imprensa – e discursou para os operários. A ocasião, para uma série de inaugurações ao lado do amigo peemedebista no Rio, seria ótima para o líder supremo petista abordar um assunto que parece esquecido por ele, embora cause imensa dor às finanças do estado, bem como ao do vizinho Espírito Santo e, em menor grau, a São Paulo. As andanças festivas de Lula parecem ignorar que a mudança na distribuição dos royalties do petróleo põem em perigo os orçamentos futuros dos estados produtores, e que a origem do problema foi o tratamento dado por Lula ao pré-sal, o maná da civilização brasileira, do qual o pensamento petista tentou e tenta se apropriar como tesouro privado.

Sérgio Cabral, agora, não tem de quem cobrar. Afinal, Lula não está mais formalmente no poder. E, pessoalmente, o governador abaixou a cabeça ao ponto de não mais conseguir reergue-la. Ou, trocando em miúdos, quando Lula começou a defender a configuração do marco regulatório do pré-sal – sancionado por ele mesmo em dezembro de 2010 -, Cabral foi contra, mas fiava-se no jeito “tudo posso, tudo resolvo” do amigo presidente. Enquanto a grama crescia sob os pés de Cabral, nos estados não produtores ganhou força o movimento para abocanhar não só o resultado financeiro do bilionário pré-sal, mas também os gordos recursos oriundos dos campos já em exploração que, até então, inundavam os cofres dos estados do Sudeste, em cujo litoral se concentram as operações da Petrobras e das petroleiras que ganharam concessões para explorar poços de petróleo.

 

“Muitos, e possivelmente até Lula, acharam que o novo marco regulatório levantaria uma discussão sobre o futuro, aqueles campos por serem explorados. Estados e municípios, no entanto, ao perceberem que era grande o bolo de dinheiro que chegava aos estados produtores, passaram a querer também”, diz o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). A visão imediatista da classe política impede qualquer reflexão sobre o efeito futuro das regras da divisão de recursos, lembra ele. “O político não quer daqui para frente. Daqui a cinco anos, ele não é mais governador ou prefeito”, argumenta.

Para Pires, era previsível que a proposição de um novo marco regulatório abriria a porteira para que os estados não produtores demandassem uma nova regra de distribuição das receitas do petróleo, avançando também para as áreas já em exploração – problema que atinge principalmente o Rio e o Espírito Santo. No caso do Rio, cerca de 75% dos recursos do petróleo são destinados ao fundo de previdência dos servidores, o que deu ao estado folga orçamentária para investir em infraestrutura e programas populares.

Uma parte do problema dos estados produtores está no modelo de distribuição que passou a ser adotado a partir do marco regulatório do pré-sal. Antes, desde 1997, os poços eram concedidos – e a divisão era sobre o dinheiro que isso rendia. A partir das definições para o pré-sal estabelecidas no governo Lula em 2010, o modelo é o de partilha. Ou seja, reparte-se também o produto, que passa a ser do explorador e da União, o que tira de cena as participações especiais – o dinheiro que jorrava nos cofres do Rio e do Espírito Santo com a produção excedente dos poços licitados. A partir do modelo de partilha, não foram mais realizados leilões – o próximo está previsto pela Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) para maio deste ano.

O modelo de partilha favorece em muito a União, que passa a ter parte da propriedade do petróleo e do gás natural. “Esse novo regime acaba penalizando os estados e beneficiando a União, que centraliza o dinheiro. Se os estados fossem mais inteligentes, teriam se unido para abocanhar uma parte da União”, diz Pires, que aponta como principal problema do pré-sal a politização das decisões. “É o caso, por exemplo, do congelamento da gasolina, usado para segurar a inflação, e de projetos mal planejados, como o Comperj, que custará mais do que foi anunciado”, afirma.

Os efeitos colaterais da trapalhada de Lula com o pré-sal estão na sala da presidente Dilma. A batalha no Congresso, que se arrasta desde o ano passado, invadiu a pauta de 2013 e atrasou a votação do orçamento. Os vetos de Dilma foram derrubados pela maioria das duas casas legislativas, interessadas em levar para seus estados uma fatia maior dos recursos do petróleo. E, agora, aguarda-se uma batalha no Supremo Tribunal Federal, motivada pelas ações do Rio, Espírito Santo e São Paulo, na tentativa de derrubar a decisão do Legislativo de modificar também a divisão de recursos referentes a áreas já licitadas.

Na cena política, o tiroteio abriu espaço para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) levantar a voz, na condição de apaziguador. Campos liderou um grupo de 16 governadores que reabriram a discussão sobre o rateio dos royalties. A lógica da volta ao diálogo é a seguinte: uma decisão do STF contra o que foi decidido no Congresso pode tornar a emenda pior que o soneto, abrindo caminho para os estados não produtores perderem o que foi conquistado até agora. Ou seja: vale a pena abrir mão do que já foi licitado e garantir a riqueza que está por vir. A avaliação de alguns integrantes da bancada do Rio, inclusive, é a de que, no momento, não interessa aos produtores negociar, pois é possível derrubar toda a redistribuição com uma decisão favorável do Supremo.

Além da investida de Eduardo Campos, a gestão petista da Petrobras virou tema dos debates tucanos, num momento em que o PSDB põe Aécio Neves em posição de decolagem para a campanha de 2014. Na terça-feira, o senador tucano defendeu a volta ao modelo de concessão, marca do governo Fernando Henrique Cardoso. A visão tucana é de que, com a Petrobras exercendo total controle do mercado, investidores foram repelidos e empresas nacionais que poderiam desenvolver a indústria perderam força.

Por Reinaldo Azevedo

08/03/2013

às 6:21

Royalties do petróleo – Calote de Cabral é reação descabida

Não tem jeito! O estilo do governador Sérgio Cabral, definitivamente, afronta as balizas elementares da minha lógica. Mesmo quando avalio que ele está com a razão, seu histrionismo me constrange. Vamos lá. Já escrevi alguns posts sobre a mudança da lei dos royalties do petróleo. Sou crítico do texto aprovado no Congresso. Acho justa a reclamação de Rio, Espírito Santo e São Paulo. E mostrei também as omissões de Lula e Dilma nessa história. Mas há um limite, não é?

Com grande alarde — e, desta feita, sem chorar —, Cabral anunciou a suspensão de todos os pagamentos feitos pelo estado do Rio, exceção feita ao salário dos servidores. Só ontem, o governo teria deixado de pagar R$ 82 milhões. O governador alega que se trata de medida preventiva, até que ele tenha noção da solvência do estado.

Huuummm… Cabral é bom de mídia, mas isso não torna a sua decisão razoável.

Comecemos pelo óbvio: e se, eventualmente contrariados, os estados não-produtores, em número muito maior, decidirem fazer o mesmo? Qual é o sentido subjacente à decisão de Cabral? Ou o Congresso e o Supremo fazem o que ele quer — ainda que possa ser justo —, ou dá calote em todo mundo?

O governador não deveria, nesse particular ao mesmo, receber o tratamento, digamos, simpático que está recebendo de alguns setores. E se a moda pega? O fato de que possamos achar que ele está do lado certo nessa pendenga não lhe dá o direito de agir de forma tão errada.

Esse troço começou todo torto. Lula e Dilma, insisto, decidiram não intervir por razões políticas. Cabral preferiu correr para os braços da galera, achando que uma passeata na orla conseguiria sensibilizar o Congresso — cuja maioria é oriunda de estados não produtores.

Dar calote não é, definitivamente, a boa resposta a uma decisão infeliz do Congresso.

Por Reinaldo Azevedo

18/02/2013

às 4:07

Governo do Rio omitiu 35 dias ao informar viagens de Cabral

Por Italo Nogueira, na Folha:
O governo do Rio omitiu 35 dias de viagens do governador Sérgio Cabral (PMDB) ao prestar esclarecimentos sobre as viagens internacionais que ele fez em seu primeiro mandato à frente do Estado. Documentos obtidos pela Folha com base na Lei de Acesso à Informação mostram que, de 2007 a 2010, o governador ficou pelo menos 134 dias no exterior ao participar de 27 missões oficiais. Em maio do ano passado, nota preparada pela assessoria de Cabral informou que o governador passara 99 dias fora do país -ou seja, 35 dias a menos do que revelam os documentos obtidos agora. A nota divulgada no ano passado foi uma resposta a um questionamento feito pela Folha na época em que foram divulgadas fotos de Cabral com o empresário Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, em Paris.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

04/02/2013

às 22:29

“Ah, se tivesse acontecido em São Paulo…”

A informação que vai abaixo, publicada no Estadão, tem apenas um título, não dois. E é este: “Ah, se tivesse acontecido em São Paulo…”. Leiam. Volto depois:

Um dos 31 detentos que fugiram domingo, 3, do Instituto Penal Vicente Piragibe, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, cumpria pena pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002.

Claudino dos Santos Coelho, também conhecido como Russão, integrava a quadrilha do traficante Elias Maluco. Outros dois condenados por esse crime já haviam fugido, em ocasiões anteriores. Em 2010, Ângelo Ferreira da Silva se beneficiou da progressão de pena e saiu pela porta da frente do mesmo presídio. Em 2007, Elizeu Ferreira de Souza se aproveitou do mesmo benefício e também fugiu.

Os detentos que fugiram domingo cavaram um túnel que deu acesso à tubulação do esgoto. Quatro detentos foram recapturados. O secretário estadual de Administração Penitenciária, Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, admitiu que houve falha na segurança e que está sendo investigado se algum funcionário do instituto penal colaborou com os detentos.

Encerro
Se tivesse acontecido em São Paulo, faltaria pouco para alguém pedir o impeachment de Geraldo Alckmin… A propósito: alguém meteu o microfone na boca de Sérgio Cabral ou de José Mariano Beltrame para que dessem alguma explicação, ou eles só aparecem quando é para estourar champanhe?

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2013

às 6:59

Rio: Cabral e Beltrame já pacificaram bandidos o bastante; chegou a hora de prendê-los, excelências! Ou: Imaginem o quiproquó se isto tivesse acontecido em SP…

A VEJA desta semana traz uma reportagem espantosa sobre a crime organizado no Rio. Na VEJA.com, há uma vídeo de assustar. Antes que trate dos detalhes, algumas considerações importantes.

Entre todas as opiniões que já emiti neste blog em seis anos e meio, a mais estupidamente incompreendida e distorcida é o que penso sobre as tais UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio. Não raro, respondem ao que não escrevi para que possam ignorar o que escrevi. Alguns tolos insistem em me acusar de ser contra as ditas-cujas. É uma mentira e uma vigarice. É claro que elas são necessárias. Até porque a UPP nada mais é do que o policiamento comunitário. Reagi a alguns estúpidos, inclusive do governo federal, que sustentaram que São Paulo precisava copiar o modelo do Rio. Trata-se de uma tolice e de uma fraude política. O que o governo Cabral fez foi levar um pouco de segurança a locais onde os policiais não pisavam porque não podiam. Inexistem áreas assim em São Paulo. A polícia chega aonde quiser. Então, meus caros, atenção para a primeira e relevante questão sobre as UPPs: 1) ELAS PODEM SER UMA NOVIDADE EM VÁRIAS ÁREAS DO RIO, MAS NÃO SÃO UMA INOVAÇÃO. Absurdo é haver territórios na cidade onde a polícia não entra. Fiquem agora com a segunda questão relevante: 2) a maior parte da área dominada pelos tráfico quando Cabral chegou ao poder continua… dominada pelo tráfico! A UPP é a exceção, não a regra. Ainda há extensões imensas da capital fluminense e cidades adjacentes imunes ao estado de direito. Sigamos.

Não gosto, é certo, do nome “Unidade de Polícia Pacificadora” porque revela má consciência. A “paz”, por óbvio, é um vocabulário que pertence à guerra e, pois, à noção de que existe uma contenda entre dois ou mais litigantes legítimos que decidiram abrir mão de algumas de suas exigências. Os policias que chegam ao morro foram “pacificar” quem exatamente? Por certo, não se está falando da população local. Polícia que “pacifica” bandido se torna cúmplice dele. Sim, aqui vai a minha 3) terceira questão relevante sobre as UPPs de Cabral: transformar os bandidos numa espécie de força beligerante legítima.

Notem bem: não estou acusando os policiais dessas unidades de serem, em regra, coniventes com o crime por determinação pessoal — há casos, mas prefiro pensar que sejam exceções. Estou, isto sim, afirmando que há uma política de segurança pública, comandada por José Mariano Beltrame — transformando em Demiurgo pela imprensa mistificadora —, que, sob o pretexto da “pacificação”, evita o confronto com os marginais. E aqui está a minha 4) quarta objeção relevante não precisamente às UPPs, mas a essa política: ao evitar o choque com os bandidos, a Polícia do Rio também não os prende — há um caso ou outro que servem ao espetáculo. Os bandidos mais perigosos deixaram as áreas ditas “ocupadas” e se mandaram para as zonas que continuam “liberadas” — e elas ainda são a maioria.

Ora, cabe uma pergunta óbvia a esta altura: qual é a relação de causa e efeito entre a chegada das UPPs e essa política que chamo de “espalha-bandido”? Resposta: nenhuma! Até hoje ninguém conseguiu me explicar por que o policiamento comunitário não pode chegar com a efetiva prisão dos vagabundos que estavam dando as ordens no terreiro. Cabral não tem resposta para isso. Beltrame não tem resposta para isso. A imprensa adoradora de mitos não tem resposta para isso.

Os arquivos estão aí. O que venho afirmando desde que teve início essa política é que a sua consequência óbvia seria provocar a migração da bandidagem mais barra-pesada, especialmente os chefões do tráfico. Que se note: em todas as áreas em que há UPPs, a venda de drogas opera normalmente, sem dificuldades — e agora sem risco de invasão  de facções inimigas ou das milícias. Acabou, no entanto, aquele desfile acintoso de armas. A presença da polícia força o crime a ser mais discreto. É claro que já é um ganho. Só isso já justificaria a medida — que, insisto, é a regra. São raros os territórios do país realmente dominados pelo crime, como essas áreas do Rio.

A reportagem
A VEJA desta semana traz uma reportagem espantosa de Leslie Leitão — um repórter que certamente torce pela paz no Rio, sem, no entanto, perder a objetividade. Bandidos que Beltrame não prendeu nas favelas ditas “pacificadas” foram parar, entre outros destinos, no Complexo do Lins, hoje um dos QGs do narcotráfico. Um vídeo (clique aqui) traz o desfile do exército de  Paulo César Souza dos Santos, 41 anos, o “Paulinho Muleta”. À luz do dia, exibem fuzis, pistolas e munição pesada.

Até o fim do ano, consta, uma UPP chegará também ao Complexo do Lins. Tudo será feito conforme o decoro que tanto encanta os “amigos da paz”. Cabral e Beltrame anunciarão a data da “ocupação”. Paulinho Muleta e seus seguidores terão tempo se escafeder e de se aboletar em uma das quase 1200 favelas (deve-se falar “comunidades”, na linguagem político-cariocamente correta) aonde a Polícia ainda não chegou. Digamos que essa política se universalizasse e se estendesse a todo o estado… Bem, num raciocínio puramente lógico, deve-se inferir que o Rio passaria a ser exportador de bandidos…

Não! Eu não sou contra as UPPs. UPPs nada mais são do que o velho e bom policiamento comunitário. Não! Eu não acho que uma polícia deva ser pacificadora de bandidos. Sou daqueles que acreditam que ela tem de prender bandidos. Não! O Rio não é modelo se segurança pública para ninguém — ainda que conseguisse levar essas unidades a todas as favelas, o que não vai acontecer porque não há contingente pra isso. E, convenham, se o que se viu por lá tivesse ocorrido em São Paulo, os “especialistas” inundariam os jornais e sites para denunciar uma segurança pública está fora do controle. “Isso é chute, Reinaldo! Como você sabe o que diriam?” Com base na lógica! Mata-se no Rio mais do que o dobro do que se mata em São Paulo. Mas se diz por aí que Alckmin tem muito a aprender com Sérgio Cabral. Talvez na área de marketing…

Sim, eu torço por uma UPP no Complexo do Lins. E torço ainda mais para que Beltrame, este santo, comece a prender bandidos. Segue o texto de Leslie Leitão. Volto para encerrar.
*

O Complexo do Lins, um conjunto de onze favelas encravado na banda mais pobre da Zona Norte carioca, está sob o domínio da bandidagem há quatro décadas. Até recentemente, cumpria papel apenas secundário na organização da principal facção criminosa do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho. Mas os tempos agora são outros – e ainda mais nefastos. Um vídeo gravado no início do mês pela polícia e obtido com exclusividade por VEJA mostra que o lugar se converteu em um grande bunker do tráfico, servindo de abrigo a marginais refugiados de vários morros do Rio. Eles se bandearam para o Complexo do Lins justamente depois que o estado fincou em seus enclaves bases permanentes – as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) -, dificultando suas atividades. Preferiram assim se encastelar em um naco da cidade onde os bandidos é que dão as ordens.

As cenas trazidas a público espantam pela naturalidade com que a quadrilha perambula pelas vielas do novo QG do crime à luz do dia, promovendo um desfile de pistolas, granadas e fuzis, e espalhando o terror por onde passa. No vídeo, de cinco minutos e quarenta segundos, um dos bandidos ainda deixa entrever em um saco de lixo papelotes de cocaína, evidência inconteste de que as atividades da gangue só mudaram mesmo de endereço. Em outro trecho, o comboio armado cruza com um morador da favela, que não desgruda os olhos de uma pipa, obedecendo com disciplina à regra elementar da convivência com os criminosos: jamais encará-los. A cena, segundo a polícia, mostra a escolta de um dos chefões do tráfico na cidade, Paulo César Souza dos Santos, 41 anos, o PL, também conhecido como Paulinho Muleta, por ser manco da perna esquerda. Foragido desde 2009, esse marginal alastrou seu raio de poder por sete morros, entre a Zona Norte e a Baixada Fluminense. Mesmo longe de sua favela de origem, o Morro da Formiga (ocupado pela polícia em 2010), Muleta continua na ativa, agora reinando no Complexo do Lins, como revela de forma inequívoca o vídeo obtido por VEJA.

As imagens foram captadas a distância pelo Serviço Reservado do Batalhão de Choque da Polícia Militar e chegaram às mãos da Secretaria Estadual de Segurança, que determinou a instauração de um inquérito na delegacia da região. Nas últimas semanas, o Complexo do Lins foi palco de uma dezena de operações policiais – uma delas logo depois do Natal, quando uma menina de 10 anos foi atingida na cabeça por uma bala perdida e acabou morrendo no hospital por falta de atendimento médico. Nenhuma dessas ações recentes, no entanto, pôs um ponto final na farra da bandidagem. A geografia da área é um grande obstáculo, com seu emaranhado de becos e vielas e uma infinidade de acessos que se descortinam por matagais que só os bandidos conhecem como a palma da mão. A polícia está convicta de que muitas outras quadrilhas egressas de favelas com UPPs estão entocadas ali. “Essas imagens são apenas a ponta do iceberg. Sabemos que há um enxame de bandidos refugiado naquele complexo de favelas”, afirma um inspetor da 26ª DP, envolvido nas investigações.

O governo do estado já inaugurou trinta UPPs desde 2008. Se o cronograma for seguido à risca, as favelas do Lins também serão ocupadas pela polícia até o fim do ano. É boa notícia. A retomada de territórios do tráfico vem cumprindo o essencial papel de levar serviços básicos a cidadãos de bem que viviam à margem do poder público. Mas o atual vídeo deixa claro que essa é apenas uma de muitas etapas a ser percorridas. A estratégia oficial de não manter segredo sobre as ocupações, com o objetivo de reduzir os riscos de confrontos sangrentos, produz como efeito colateral a fuga maciça de traficantes que escapam com seus arsenais. “É preciso investir mais pesadamente na área de inteligência para rastrear os esconderijos dos traficantes, minar seu poderio bélico e capturá-los”, enfatiza o antropólogo e especialista em segurança Paulo Storani. Sem o cerco implacável à bandidagem, os cartões-postais do crime só vão mudar de cenário.

Encerro
Cabral e Beltrame já pacificaram bandidos o bastante; chegou a hora de prendê-los, ainda que também eles se deixem contaminar pelo barquinho que vai e pela tardinha que cai.

Por Reinaldo Azevedo

17/01/2013

às 21:53

À festa de Alves e Renan, chegou quem faltava: Sérgio Cabral. É o Brasil dançando na boquinha da garrafa

Ah, mas chegou quem estava faltando: o governador do Rio, Sérgio Cabral, aquele que dançou “na boquinha da garrafa” em Paris, em companhia de Fernando Cavendish e da Turma do Lenço. Cabral, já escrevi aqui algumas vezes, é, talvez, o político mais inimputável da República depois de Lula. A sorte do Brasil é que ele não tem a disciplina necessária — nem que seja a má disciplina — para ser petista. É folgazão demais para isso. Tem a sorte de governar o estado do Rio num momento em que setores da imprensa transformaram a capital fluminense numa categoria de pensamento. Ultimamente, até quando há enchentes e deslizamentos por lá, o lead fica para a solidariedade do povo, não para os estragos. Isso é coisa que se mede em São Paulo… Cabral não tem de responder nem pelas obras que prometeu e não fez. Na capital paulista, com a ascensão de Haddad, é bem verdade, as coisas também começaram a mudar. Até 31 de dezembro, eventuais enchentes eram culpa de Gilberto Kassab (e, antes, de Serra). Agora, São Pedro já começa a levar a parte que lhe cabe. Mas fui para a digressão. Volto ao ponto.

Juliana Castro informa no Globo que Cabral comandou no Rio o ato de apoio à candidatura de Henrique Alves (PMDB-RN) para a Presidência da Câmara. Não só. O governador também resolveu se alinhar com Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a liderança do partido na Casa.  Leiam trecho. Volto em seguida.
*
Em meio a denúncias envolvendo seu nome, o líder do PMDB na Câmara e candidato à presidência da Casa, Henrique Eduardo Alves, esteve no Rio nesta quinta-feira, onde recebeu apoio de deputados da bancada fluminense durante almoço em uma churrascaria na Zona Sul. Ao chegar ao evento, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), defendeu o colega de partido e ressaltou seu apoio à candidatura de Alves. “Pelo que eu li, é algo que me parece muito mais uma disputa do processo eleitoral interno e ele (Alves), me parece que tem se posicionado muito bem”, disse Cabral, que chegou junto com o vice-governador, Luiz Fernando Pezão.
(…)
O encontro da bancada fluminense com Alves aconteceu em um espaço reservado na churrascaria, ao qual a imprensa não teve acesso. Cabral e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, discursaram antes de Alves. Segundo participantes do almoço, o candidato do PMDB à Câmara exaltou no discurso o Poder Legislativo, afirmando que todos os que estão na Casa chegaram ali porque passaram pelo crivo do voto popular, ao contrário do que acontece com alguns membros do Executivo, como ministros, e do Judiciário, que são nomeados.

O peemedebista defende temas que o colocam em contraposição com o Executivo, como chamado Orçamento impositivo. Atualmente, o Orçamento da União tem caráter autorizativo — ou seja, o governo não é obrigado a seguir a lei aprovada pelos congressistas e tem apenas a obrigação de não ultrapassar o teto de gastos com os programas constantes na lei. O Orçamento autorizativo obriga o presidente da República a cumprir o Orçamento aprovado pelo Congresso sem mudanças e sem contingenciamento de recursos.

Desta forma, o Executivo também seria obrigado a pagar as emendas individuais, geralmente o primeiro alvo dos cortes em contingenciamentos. Alves prometeu no discurso trabalhar para acelerar a tramitação de três Propostas de Emenda à Constituição (PEC) que tratam sobre o tema:
(…)
Pela primeira vez, Cabral fala do apoio a Cunha
Na chegada, o governador Sérgio Cabral falou pela primeira vez sobre seu apoio à candidatura de Eduardo Cunha à liderança do PMDB na Câmara. “Por mais que, do ponto de vista político, não tenhamos uma convivência mais próxima, nós temos respeito um pelo outro”, disse Cabral, afirmando que Cunha sempre ajudou quando foi demandado para alguma questão de interesse do Rio.

(…)
O almoço contou com 22 dos 46 deputados da bancada fluminense e outros três suplentes, além de lideranças de partidos da base aliada. Segundo os organizadores do evento, cada um teve que desembolsar R$ 150 para pagar o almoço na churrascaria.

Voltei
À diferença do que diz Cabral, Alves não explicou nada! Ao contrário: quanto mais se sabe do direcionamento de suas emendas à “empresa” de seu funcionário, menos claras ficam as coisas. Também não conseguiu apresentar nem mesmo uma desculpa verossímil para o fato de alugar carros de uma empresa registrada em nome de uma laranja e que, ora, ora, não é dona de carro nenhum, como noticia VEJA nesta semana. Da mesma sorte, Renan Calheiros (PMDB-AL), candidato a presidente do Senado (função a que já teve de renunciar, em 2007), não consegue apresentar uma narrativa minimamente coerente para as lambanças em que seu nome aparece metido.

E daí? Os apoiadores  dão as costas para a moralidade, o decoro e a decência. E, como se nota, ainda dizem fazê-lo em nome do povo, não é? Segundo a reportagem de O Globo, Alves  exaltou a superioridade dos políticos eleitos no confronto com o Judiciário, cujos membros não se submetem ao crivo popular. Certo! Por esse particular critério, Celso de Mello (para citar o decano do Supremo) está num degrau moral inferior àqueles em que se situam Paulo Maluf, Valdemar Costa Neto ou João Paulo Cunha.

Na madrugada, mostrarei a vocês como o petismo soube se aproveitar desse, digamos, “espírito” para se fazer a força hegemônica da política.

Por Reinaldo Azevedo

17/01/2013

às 6:27

Conspiração de patriotas – Blindagem a Cavendish aproximou Cabral e Cunha

Por Fernanda Krakivics, no Globo:
Afastados desde 2006, o que teria reaproximado o governador Sérgio Cabral do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) — a ponto de o primeiro estar em campanha para eleger o parlamentar líder do PMDB na Câmara contra a vontade do Planalto — teria sido a operação política para blindar Fernando Cavendish, ex-presidente da construtora Delta, na CPI do Cachoeira. Cavendish é amigo dos dois. Desde 2007, a Delta possuía cerca de R$ 1,5 bilhão em contratos com o governo do Rio.

Integrantes da bancada do Rio também ressaltam o pragmatismo político na reconciliação, uma vez que, para Cabral, é interessante ter um deputado carioca no comando do PMDB da Câmara. O partido tem a segunda maior bancada da Casa, com 78 deputados. O Congresso ainda terá que decidir o veto à redistribuição dos royalties do petróleo.

Eduardo Cunha não era integrante da CPI do Cachoeira, mas agiu nos bastidores para impedir o pedido de indiciamento do ex-presidente da Delta. Relator da comissão parlamentar de inquérito, o deputado Odair Cunha (PT-MG) chegou a pedir o indiciamento de Cavendish, mas seu relatório foi derrubado.

A assessoria de imprensa de Cabral afirmou que o governador não tem falado sobre a candidatura de Eduardo Cunha à liderança do PMDB porque esse seria um assunto da bancada. Quanto à reaproximação dos dois, supostamente por causa da blindagem a Cavendish, a assessoria de Cabral disse que a afirmação é “leviana” e não procede.

Na semana passada, Cunha comemorou e agradeceu, no Twitter, o apoio de Cabral e do prefeito Eduardo Paes. Na ocasião, o prefeito confirmou, por meio de sua assessoria, que apoia a candidatura de Cunha. Ele disputa com os deputados Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS) a liderança da bancada. E Cabral telefonou recentemente para o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), de acordo com a coluna Panorama Político, pedindo que ele convença os deputados de seu estado a votarem em Cunha.

Cunha apoiou eleição de Cabral em 2006
Um dos parlamentares mais influentes nos governos de Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, Cunha trabalhou com o casal para a eleição de Cabral em 2006. Após o pleito, porém, Cabral rompeu com o casal e, assim que assumiu o mandato, pôs fim à influência de Cunha no governo do estado, especialmente nas estruturas da Cedae e da Cehab.

Cunha nega que tenha participado de operação de blindagem de Cavendish e afirma que nunca foi rompido com Cabral. Diz que, na verdade, os dois não eram próximos politicamente. Como exemplo da relação sempre cordial entre os dois, o deputado afirmou que Cabral foi ao enterro de sua mãe, em 2007.

“A palavra não é reaproximação, eu nunca estive brigado com ele. Eu nunca fui próximo politicamente, mas ele sempre foi correto comigo. E, do ponto de vista de espaço político, é importante para o governador ter o líder da bancada”, afirmou Cunha.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

13/12/2012

às 17:47

VIREM-SE! Dilma diz a estados produtores de petróleo que não tem como impedir revisão dos royalties. Pois é… Rio vai ao STF para tentar anular votação do Congresso. E se Cabral fosse chorar na TV de novo?

A presidente Dilma Rousseff, vejam só, deixou claro aos estados produtores de petróleo que não tem o que fazer se o Congresso derrubar seus vetos. É… Não tem! A questão é saber o que Lula e ela própria fizeram para evitar que isso acontecesse. Resposta: NADA! Ainda voltarei a esse assunto.

Abaixo, seguem dois textos publicados na VEJA.com com as informações essenciais sobre o tema. O primeiro trata justamente dessa declaração de Dilma. O segundo informa que parlamentares do Rio vão recorrer ao Supremo para anular uma sessão do Congresso… Duvido que sejam bem-sucedidos. Nesse caso, sim, um Poder estaria se metendo na economia interna do Outro. Não vai acontecer.

A questão vai parar no Supremo por outro caminho. Rio e Espírito Santo vão alegar que a mudança da lei lhes cassou direitos adquiridos, além de atentar contra a sua sanidade financeira. Também dá pano pra manga. Qualquer mudança que mexa com a estrutura tributária do país, por exemplo, sempre prejudica interesses já estabelecidos. O Congresso tem autonomia para tratar desses assuntos? Tem, sim! A mudança na partilha dos royalties viola algum fundamento constitucional? Não consigo ver como. Os arquivos estão aí.

Eu critiquei a mudança, como sabem. Lula ainda era presidente, e eu lhe perguntei aqui: “Vai ficar de braços cruzados?”. Dilma era já a candidata certa do PT à Presidência, eu lhe perguntei aqui: “Vai ficar de braços cruzados?”. Ambos ficaram. Afinal, há mais deputados e senadores de estados não produtores do que de estados produtores… Entenderam? A verdade é que Lula e Dilma, no fundo do coração, nunca deram a menor bola para o pleito do Rio e do Espírito Santo. Lembro só por apreço à história: então candidato do PSDB à Presidência, José Serra, com o risco de desagradar eleitores Brasil afora, se disse contrário à mudança. O PT, como vocês sabem, é mais “inteligente”… Preferiu não pensar nada a respeito. Se o governador Sérgio Cabral, esse lulo-dilmista fanático, for chorar de novo na televisão, será que adianta?

Seguem os textos.

Dilma diz que não tem como impedir revisão dos royalties
A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira que não pode fazer mais nenhum gesto para convencer o Congresso a manter os vetos ao projeto que altera as regras de divisão dos royalties do petróleo. “Não há gesto mais forte que o veto. Que todos votem de acordo com a sua consciência”, declarou durante sua visita a Moscou. Os parlamentares deverão analisar o assunto na próxima semana e existe a possibilidade de que modifiquem as decisões adotadas por Dilma. “O funcionamento da democracia é assim”, disse. A presidente defendeu os vetos, ressaltando que eles “garantem a distribuição plena dos ganhos do petróleo para todos os brasileiros e brasileiras de todos os estados”.

Dilma observou que sua posição levou em conta o respeito aos contratos e a necessidade de aumentar os investimentos em educação. “Só vamos ser um país desenvolvido plenamente quando tivermos uma educação de qualidade no Brasil. Para isso, precisamos de recursos”, defendeu. Segundo ela, o petróleo é um recurso finito, não renovável. “Tudo o que ganharmos do petróleo temos que deixar para a riqueza mais permanente, que é a educação que cada um carrega.”

As declarações foram dadas em rápida entrevista da presidente no lobby do hotel onde está hospedada em Moscou. A presidente havia acabado de chegar de encontro com o primeiro-ministro da Rússia, Dimitri Medvedev, com quem discutiu questões bilaterais relacionadas ao comércio e a investimentos. Dilma recebeu a promessa de que haverá uma solução “positiva” para os problemas relativos à importação de carne brasileira. “Ele não me comunicou ainda qual a decisão final, mas considera que os produtores brasileiros tomaram todas as medidas “. A Rússia suspendeu em junho de 2011 a importação de carnes de três Estados – Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso.

Rio vai ao STF para anular sessão sobre royalties
Parlamentares argumentam que o pedido de urgência para analisar o veto de Dilma à Lei dos Royalties, aprovado nesta quarta-feira pelo Congresso, é inconstitucional e fere o processo legislativo. O confronto entre os estados pela nova regra de distribuição das receitas da produção do petróleo (royalties e participação especial) levou o assunto ao Supremo Tribunal Federal (STF). O senador Lindberg Farias e o deputado Alessandro Molon, ambos do PT-RJ, entraram nesta quinta-feira com mandados de segurança para tentar anular a votação desta quarta-feira no plenário do Congresso, quando os parlamentares aprovaram um regime de urgência para derrubar o veto feito pela presidente Dilma Rousseff à regra que prevê uma distribuição mais equilibrada dos recursos entre todos os estados. O pedido de urgência – que permite a apreciação deste veto antes de outros 3 060 vetos presidenciais, referentes a outras leis, que aguardam votação – foi aprovado por 348 deputados e 60 senadores. Apenas 84 deputados e 7 senadores votaram contra o requerimento.

Em 31 de novembro, a presidente vetou o artigo de número 3  do projeto da Lei dos Royalties. O artigo diminuía a parcela de royalties e participação especial dos contratos em vigor destinada a estados e municípios produtores de petróleo. Ao mesmo tempo, o projeto repartia esse bolo de arrecadação, de acordo com a regra adotada pelo Fundo de Participação dos Estados (FPE), avançando, portanto, sobre o dinheiro arrecadado em campos já em exploração.

Com o veto, Dilma buscou impedir a alteração de contratos em vigor – evitando a insegurança jurídica proporcionada por uma eventual quebra contratual – e, de quebra, atendeu aos interesses dos estados do Rio Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, que respondem pela maior parte da produção petrolífera brasileira.

Desrespeito ao regimento – A ação dos parlamentares fluminenses já era esperada. Nesta quarta-feira, tão logo foi concluída a votação do requerimento de urgência para a análise do veto de Dilma pelo Congresso, as bancadas do Rio e do Espírito Santo já se movimentavam para levar o assunto ao Supremo. Os dois estados – os maiores produtores do país – alegaram que a Mesa do Congresso, ao conduzir a sessão da quarta, não respeitou o regimento, quebrando “regras básicas”, e que, por isso, deveria ser realizada uma nova sessão para votação da matéria. Caso a matéria avance e seja analisada na semana que vem, é bastante provável que o veto de Dilma seja derrubado pelos parlamentares.

Segundo o deputado, a medida foi tomada por haver muitos vetos mais antigos a serem avaliados e porque houve irregularidades na sessão desta quarta-feira. “O legislador não pode, ao sabor das maiorias eventuais, violar a Constituição”, disse Molon. Ele alega ainda que a votação do requerimento de urgência tinha de estar na pauta da sessão e não estava.

No mandado de segurança, Molon argumenta que a Constituição e o processo legislativo foram desrespeitados. Ele cita o artigo da Constituição (de nº 66) que trata das votações do veto, para afirmar que não há essa possibilidade de urgência. Em um dos parágrafos do artigo, o texto constitucional estabelece o prazo de 30 dias para a votação do veto. Segundo ele, não é “viável a apreciação seletiva ou aleatória de um único veto, desprezando-se todos os demais que se encontram pendentes”, além de não seguir um critério objetivo razoável.

Rio e Espírito Santo querem manter a regra atual para a divisão dos recursos. Pela regra em vigor,os dois estados recebem cerca de 80% dos recursos dos royalties e de participação especial do petróleo. Agora, eles estão em evidente minoria na discussão e votação do tema no Congresso.

Por Reinaldo Azevedo

27/11/2012

às 4:51

Lei dos royalties é mesmo um absurdo, e fui dos primeiros a escrever isso. Mas “protesto a favor”, de Cabral, é uma patuscada cafona, como se o Brasil fosse uma bondosa monarquia absolutista…

Quando gosto, digo “sim”; quando não, “não”. Assistimos no Rio a mais uma daquelas manifestações de “protesto a favor”, que o governador Sérgio Cabral é craque em convocar, com o apoio quase unânime da imprensa, de artistas, de descolados em geral. Atenção! Quando os socialistas de Leblon, Copacabana e Ipanema nem haviam se dado conta dessa questão, eu já protestava aqui, como provam os arquivos. Basta fazer uma pesquisa. Sou contra a lei aprovada no Congresso. É claro que ela é ruim para o Rio e pra o Espírito Santo em particular — embora, claro!, o governo fluminense devesse parar de promover uma espécie de guerra fiscal com empresas ligadas à área do petróleo. Mas tratarei desse assunto uma outra hora. O essencial é isto: EU CRITIQUEI A LEI APROVADA E ACHEI QUE ERA MESMO UMA TUNGADA INACEITÁVEL. De resto, cumpre lembrar que outros estados são produtores de outras riquezas do subsolo, pelas quais também recebem royalties. Vão dividir tudo com todo mundo, fraternalmente??? Ora…

Assim, não venham me acusar, como fazem alguns tolos, de ter má vontade com o Rio. Ao contrário! Eu adoro o Rio. Mas não me peçam para endossar as patuscadas de Sérgio Cabral, esse arremedo de sociedade civil movida pelos royalties do petróleo. Isso é chato e cafona. Até porque, convenham, se massa na rua convence alguém, é possível botar muito mais gente, nos estados não-produtores, para pedir a divisão igualitária. Se é “povo na rua” que conta, o bom senso pode perder. Fui claro, ou alguém precisa de um desenho?

Isso é marketing pessoal de Sérgio Cabral, a que aderem setores da imprensa e artistas — como de costume, engajados em causas nobres. Ora, por que se chegou a essa situação? Porque o governo Lula deixou que a proposta estúpida prosperasse no Congresso sem mover uma palha. A então candidata à Presidência, Dilma Rousseff, fugiu do tema em 2010 como o diabo foge da Cruz — se bem que, na campanha, ela correu atrás da Cruz, talvez correndo do diabo, sei lá… Lembro que o então candidato tucano à Presidência, José Serra, teve a coragem de se dizer contrário à mudança da lei. A Soberana, no entanto, não queria perder votos nos estados não-produtores. Foram, respectivamente, os governos Lula e Dilma que permitiram que situação chegasse a esse ponto. Pergunta óbvia: ela não estará enganando os eleitores daquelas unidades da federação se vetar a lei, como cobra Cabral?

Mais: eu não vivo numa monarquia absolutista, ainda que amorosa, em que a população sai às ruas para “sugerir” à generosa Soberana que ouça o nosso clamor. Até onde sei, este troço é uma República, e as decisões têm peso político. Cabralzinho, no entanto, quer fazer tudo com o seu jeitinho lenço na cabeça, na boquinha da garrafa… 

Ora que graça! O protesto de ontem era, deixem-me ver, contra o Congresso — a maioria dele ao menos — e, à sua maneira, a favor do governo; aquele mesmo que decidiu não decidir para não perder votos. Aderir à festa cabralina sem nem mesmo contextualizar o debate é coisa de tontos. Quando se é imprensa, é coisa de enganadores. E eu, lamento!, não entro nessa! Cabral é um dos mais notórios, como posso chamar?, bajuladores de Dilma. Até agora, ela não moveu uma palha para valer para impedir a tungada no Rio. E ele decide, como reação, dobrar a dose de puxa-saquismo para ver se, desta vez, vai. Talvez vá… E o puxa-saquismo terá sido, então, alçado a uma categoria política respeitável. Tô fora!!!

Fico sabendo que Caetano foi, hehe. Quando Caetano fala sobre petróleo, tudo fica mais claro.

Leiam texto sobre o evento publicado na VEJA.com:

Com público limitado, artistas e autoridades pedem veto de Dilma à mudança nos royalties

Com público menor do que a multidão esperada pelo governo do estado do Rio, autoridades e artistas se reuniram no centro do Rio nesta segunda-feira para pedir o veto da presidente Dilma Rousseff ao projeto de lei que prevê a redistribuição dos royalties e participações especiais, que aguarda sanção presidencial. A Polícia Militar chegou a estimar um público de 200.000 na caminhada da Candelária à Cinelândia, mas mesmo quando o show de música popular estava prestes a começar o mestre de cerimônias do evento, entre os gritos de “veta, Dilma”, pedia que as pessoas preenchessem o canto esquerdo da praça. A força do convencimento deve ficar, assim, mais a cargo das celebridades de peso do que do público, que deixou vários clarões no asfalto.

O time de famosos era o chamariz para o público. No telão, atrizes como Glória Pires e Fernanda Montenegro davam o recado para os fluminenses. Ao microfone, Fernanda Abreu, Xuxa e Mc Bochecha pediram que a União vetasse a proposta que mexe com os campos já licitados. Aos políticos foi reservado um salão na Câmara dos Vereadores, em frente ao palco, para dar entrevista à imprensa. Os governadores do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), fizeram novo apelo a Dilma e lembraram que a presidente, em outras ocasiões, se mostrou contrária às mudanças na distribuição dos royalties em poços em exploração.

“Com o veto parcial, Dilma vai dar o caminho da pacificação”, afirmou Cabral, reforçando que a passeata “Veta Dilma: contra a injustiça, em defesa do Rio” não pede benefícios para o Rio em relação ao pré-sal. Casagrande emendou: “Ao vetar, ela põe racionalidade na decisão”.

“O nosso recado é para que se defendam princípios. Os números das perdas são graves e arrebatadores. Porém, essa manifestação é mais do que isso. Pedimos a garantia dos princípios legais. Quando Lula era presidente e Dilma chefe da Casa Civil, o governo teve a preocupação de, ao mandar uma mensagem de mudança no marco regulatório que colocava o sistema de partilha, não invadir os campos licitados”, argumentou Cabral. Os governadores prometeram apoiar outros estados que vierem a ter seus direitos ameaçados. Os dois estavam acompanhados do vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, do senador Lindbergh Farias, do presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Paulo Melo, do presidente da Câmara dos Vereadores, Jorge Felipe, e do secretário estadual da Casa Civil, Régis Fichtner. O secretário de Energia de São Paulo, José Aníbal, esteve presente, mas não ficou para a coletiva de imprensa.

Cabral, dessa vez, não chorou. Depois das críticas de que tratava a questão dos royalties com o estômago, o governador mostrou uma postura um pouco mais sóbria. Sem deixar, no entanto, de pressionar a presidente. “Pedimos a Dilma e eu tenho certeza absoluta de que ela vai atender o Rio”. Os políticos do Rio estavam com uma blusa estampada o nome da passeata. Casagrande vestia uma camiseta branca com os dizeres: “O direito é para ser respeitado”.

O Espírito Santo, pelos cálculos do governador, perderá um bilhão de reais em 2013, caso o projeto seja aprovado. “Esse ato é carregado de esperança. É um ato para demonstrar o apoio à presidente Dilma, que já disse ser contra o rompimento de contratos. Todos sabem a posição dela”, afirmou Casagrande. 

No Rio, os números da perda para o próximo ano segue sem consenso. Cabral afirmou nesta segunda-feira que o estado e os municípios deixarão de receber 6,5 bilhões. Segundo ele, a ausência desses recursos compromete, por exemplo, a área da segurança. “Em 2006, a folha de pagamento da segurança foi de 2,5 bilhões. Este ano passa a 5 bilhões. No ano que vem, deve chegar a quase 7 bilhões”, disse.

Por Reinaldo Azevedo

18/07/2012

às 6:51

Cabral já avisou a Dilma que deve deixar o governo em 2013

Por Paulo Celso Pereira, no Globo:
O governador Sérgio Cabral está decidido a deixar o Palácio Guanabara em dezembro do próximo ano. A ideia está em estágio tão avançado que Cabral já conversou sobre o assunto com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Lula. A saída antecipada beneficiaria três de seus principais aliados em uma só tacada: o vice-governador Luiz Fernando Pezão, o prefeito Eduardo Paes e o filho do governador Marco Antônio Cabral.

Com a saída de Cabral em dezembro de 2013, Pezão teria dez meses até as eleições, se apresentando à população como governador, inaugurando obras, gerindo a máquina e participando de eventos de governo. Esse foi justamente o argumento apresentado por Cabral a Dilma.

Em uma conversa com Dilma no Palácio Guanabara no fim de abril, quando se comemorou a marca de 1 milhão de beneficiários do programa Renda Melhor, o governador falou com a presidente sobre o plano de deixar o cargo. Segundo Cabral, Pezão tinha de “ganhar musculatura” e não haveria melhor forma de fazê-lo do que “no cargo”.

Ao mesmo tempo, essa estratégia atende outro compromisso de Cabral: pavimentar o caminho de Eduardo Paes para ser governador do Rio em 2018. Concorrendo ao governo no exercício do mandato, Pezão ficaria impossibilitado de disputar a reeleição em 2018, beneficiando, então, o prefeito do Rio.

Caso consiga se reeleger em outubro, Paes ficaria na prefeitura até 2016 — aproveitando a Copa e as Olimpíadas — e seria candidato do PMDB a governador, com apoio de Pezão e Cabral, em 2018. Em contrapartida, isso garantiria também a dedicação integral do atual prefeito na campanha de Pezão em 2014.
(…)
Além de resolver as situações de Paes e Pezão, a saída de Cabral do governo em dezembro de 2013 permitiria ao governador construir a carreira de seu legítimo herdeiro: o filho Marco Antônio Cabral. Assessor de Paes na prefeitura do Rio, Marco Antônio já conquistou aliados no círculo político, mas não poderia concorrer em 2014 caso Cabral continuasse no governo. A Constituição proíbe que parentes de até segundo grau de presidentes, governadores e prefeitos sejam candidatos na mesma jurisdição.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2012

às 7:45

Na VEJA DESTA SEMANA — O novo território sem lei do tráfico de drogas no Rio

Por Leslie Leitão:
Os tubos de concreto de mais de 2 metros de altura gravados com as iniciais de uma facção criminosa do Rio de Janeiro não deixam dúvida sobre quem manda no complexo de favelas de Costa Barros, na Zona Norte. Estrategicamente plantados nas principais vias de acesso às vielas, os obstáculos estão ali por ordem dos marginais que controlam a entrada e a saída de gente e carros sob as barbas da polícia. À sombra do poder público por décadas, o lugar entrou no mapa recentemente, depois que passou a servir de asilo para integrantes do alto escalão da bandidagem carioca forçados a mudar de pouso quando seus próprios morros, entre eles a Rocinha e o Complexo do Alemão, foram ocupados para a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tornou-se o novo QG das três principais quadrilhas da cidade e o maior entreposto de drogas do Rio. Em Costa Barros e nos vizinhos Acari e Pavuna — região que abriga trinta favelas e 200 000 habitantes —, os criminosos desfrutam tamanha liberdade que não se limitam às suas fronteiras. Eles passaram a vender drogas e a ostentar seus fuzis também ao lado da portaria de edifícios, de escolas e hospitais. Tiroteios são a regra nesse cartão-postal de faroeste.

Os chefões do tráfico vêm rateando aquelas favelas sem grandes resistências. Em um vídeo de cinquenta minutos ao qual VEJA teve acesso, dois dos ex-cabeças do Complexo do Alemão (Luiz Fernando Nascimento Ferreira, o Bacalhau, e Regis Eduardo Batista, o RG) aparecem em Costa Barros no novo endereço de um deles. Jogam conversa fora e se divertem no MSN num quarto em que se avistam fuzis esparramados pelo chão e uma mochila abarrotada de cocaína. Em outro vídeo, este de sete minutos, a câmera flagra o constante vaivém em um dos pontos de venda dos bandidos. Policiais são raros nesses lados da cidade e, quando aparecem, muitas vezes a ordem das coisas não se altera. Dois inquéritos que correm na Delegacia de Combate às Drogas ajudam a entender a razão: eles mostram claramente que um naco podre da PM está em plena ação na área, vendendo armas aos marginais e recebendo propina para cerrar os olhos ao crime.

No ano passado, em meio a um confronto com os traficantes em que carros da polícia eram alvejados, um desses bandidos de farda entrou em contato, via celular, com um homem forte da quadrilha. O PM esbravejava: “Somos nós, cara. Atira para outro lado”, ouve-se em um grampo em poder da Polícia Civil. Noutra gravação, um policial cobra propina para fazer vista grossa ao “baile do Chapadão”, festa embalada a funk e drogas na quadra de uma das favelas. Em poucos eventos os bandidos faturam tanto em tão poucas horas. Antigos frequentadores do Complexo do Alemão, como o jogador Adriano, já baixaram em Costa Barros para rever os amigos. Há um mês, recém-operado do pé direito, o Imperador compareceu de muletas a um churrasco que se arrastou pelo dia inteiro. Os policiais fazem que não veem a movimentação dos criminosos, às vezes por dinheiro, outras só por medo mesmo. Das 5 da tarde às 7 da manhã, a própria PM convencionou: para trafegar em ruas que margeiam as favelas, só de blindado. “O risco de levar um tiro num lugar desses é enorme”, diz um PM a VEJA. “Quando eu e meus colegas fazemos a ronda, colocamos o braço para fora do carro. É um código que temos com os criminosos. Quer dizer: calma, é tudo teatro.”

A região, fincada entre morros e planícies, sediava até o século XIX fazendas de cana-de-açúcar. Nas últimas décadas, foi se tornando um símbolo do abandono. Pela proximidade com a Via Dutra, que liga o Rio a São Paulo, muitas empresas decidiram montar ali fábricas e depósitos, que agora, com as constantes guerras travadas entre as quadrilhas, não conseguem mais contratar funcionários. “Estamos oferecendo vagas de 8 000 reais para recém-formados em engenharia, mas quase ninguém aparece”, lamenta o advogado Marcelo Miguez, presidente do polo que reúne 32 empresas na região. Na Unidade de Pronto Atendimento, vizinha a uma área que de tão maltratada é conhecida como “Fim do mundo”, dezenas de médicos e enfermeiras debandaram. Veem-se dezesseis furos de revólver e fuzil nas paredes. Nos últimos meses, também alunos de uma escola municipal viveram dois dias de terror depois que o pátio virou esconderijo de marginais em rota de fuga. Apesar de todos os indícios, a Secretaria de Segurança do Rio diz que a situação está como sempre esteve nesse antigo enclave do crime. Prevê implantar ali uma UPP, mas não revela a data. É bom que seja logo. A persistência de um lugar como Costa Barros no meio da cidade é prova inequívoca de que não dá para perder tempo no cerco à bandidagem.

Por Reinaldo Azevedo

31/05/2012

às 7:05

Cabral, aquele da farra em Paris, se irrita com perguntas sobre a Delta

Por Marcelo Gomes, no Estadão:
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), ficou irritado ontem ao ser questionado por um jornalista se temia a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da Delta Construções, aprovada na terça-feira pela CPI do Cachoeira do Congresso Nacional. Foi a primeira vez que Cabral falou sobre o caso desde 27 de abril, quando vieram à tona fotos dele em festas em Paris com secretários estaduais e com o empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira e seu amigo pessoal.

“Por que eu temeria? Acho até um desrespeito da sua parte me perguntar isso. Uma coisa é a relação pessoal que eu tenho com empresários ou não empresários. Outra coisa é a impessoalidade da decisão administrativa. Essas ilações são de uma irresponsabilidade completa, um desrespeito completo com a minha pessoa, com a administração que a gente vem fazendo aqui, com os meus secretários de Estado”, disse. “Porque os secretários partem sempre da premissa e reconhecem a gestão impessoal que a gente tem feito, da imparcialidade e da autonomia dos secretários. Eu duvido que algum secretário meu diga: ‘Bom, o governador um dia ligou para pedir a nomeação de A, B ou C, ou para influenciar em qualquer decisão administrativa’. Por que eu temeria?”

Contratos. A Delta já recebeu R$ 1,49 bilhão em contratos com o governo do Rio durante a gestão Cabral. As fotos das confraternizações na capital francesa, ocorridas em 2009, foram reveladas pelo blog do deputado federal Anthony Garotinho (PR), adversário de Cabral. Cabral disse ainda que não vai se oferecer para ser ouvido na CPI do Cachoeira, como fez o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), na terça-feira. “O governador de Goiás tem as razões dele e eu respeito. Há 250 mil gravações e meu nome não aparece em nada. Não é o fato de uma amizade que me levaria a ir a qualquer lugar, mas eu respeito o governador e tenho certeza de que ele terá a oportunidade de se defender.”
(…)

Por Reinaldo Azevedo

30/05/2012

às 15:26

CPI convoca Perillo, que queria falar, e Agnelo, que não queria. Convocação de Cabral é rejeitada. Por quê?

A CPI aprovou há pouco a convocação dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). No caso do tucano, seus próprios partidários não se opuseram porque ele havia manifestado o desejo de falar à comissão. A convocação de Sérgio Cabral, governador do Rio (PMDB), foi rejeitada por 17 votos a 11.

O PMDB reagiu à convocação de Cabral sob o argumento de que ele não é citado nos grampos. A justificativa vale uma nota de R$ 3. Volto a um ponto fundamental para entender esse rolo. Há duas naturezas de crimes, dois territórios de investigação: as ações de Cachoeira como contraventor e as ações de Cachoeira como o braço operador da Delta no Centro-Oeste. E o nome do grande escândalo, por óbvio, é “Delta”!

Cabral não integra a rede conversas do contraventor nem poderia. O bicheiro não cuidava dos interesses da construtora no Rio, estado que tem o maior número de contratos com a empresa, parte considerável sem licitação. A intimidade do governador com Fernando Cavendish já está mais do que evidente. Assim como é evidente que a construtora operava com uma rede de laranjas.

Ou por outra: o impasse da CPI, na verdade, se deve ao fato de que, ao se investigar Cachoeira, um peixe médio, deu-se de cara com um tubarão branco chamado “Delta”. Ao se negar a falar na CPI, parece que Cabral tem mais receios do que Perillo e Agnelo.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 6:49

Chega de conversa mole! Matando a charada: “Carlinhos” é só um dos “Cachoeiras” da Delta. Pergunto: “Quem é o ‘Cachoeira’ do Rio, por exemplo?”

Caras e caros, acho que este post põe os pingos nos devidos “is” no que diz respeito à CPI. Se acharam que ele vai ao ponto que interessa, cuidem de ajudar a espalhá-lo por aí. Vamos lá.

Os fragmentos de narrativa e de conversas que vão vazando das escutas feitas pela PF nas operações Vegas e Monte Carlo vão nos fazendo perder a noção do todo. Aos poucos, os vários pedaços da verdade vão contribuindo para construir o que tem tudo para ser uma grande mentira e um elogio à impunidade. Pensemos.

“Será que Fernando Cavendish, o dono da Delta, está envolvido com jogo do bicho, caça-níqueis, essas coisas?” Não há, até agora, nenhum sinal, certo? Não existem evidências, pois, de que Cavendish seja sócio de Cachoeira na contravenção, mas há indícios de sobra de que este era parceiro daquele em alguns empreendimentos. Estão acompanhando?

Outra questão relevante. Ainda que não existisse uma Delta, Cachoeira seria quem é no mundo da contravenção. Essa sua atividade específica independe de contratos com o governo, licitações, obras públicas etc. Assim, ele tem de ser investigado e, dado o que já se sabe, punido por suas ações no jogo. Atenção para isto: o contraventor já existia antes de a Delta ser o que é. Haveria a obrigação de investigá-lo ainda que ele não tivesse contato com construtora nenhuma.

O que estou querendo dizer é que a investigação tem de ser dividida em dois grupos: num deles, encontramos Cachoeira, os caça-níqueis, a exploração do jogo etc. É coisa séria, que merece atenção? É, sim! Afinal, ele contava até com parlamentares que atuavam como despachantes de seus interesses, a exemplo do que se depreende de seus diálogos com o senador Demóstenes Torres. Restringir, no entanto, a investigação a Cachoeira, como quer o PT — defendeu essa posição até numa resolução nacional —, corresponde a fraudar de forma espetacular a verdade.

Quem é Cachoeira mesmo?
Cachoeira é um contraventor que tem de ser punido na forma da lei, independentemente de seus vínculos com Cavendish. MAS ELE TAMBÉM ERA O HOMEM DA DELTA NA REGIÃO CENTRO-OESTE. E agora chegamos ao ponto: Cavendish não aparece nas conversas de Cachoeira sobre jogo porque, de fato, não tem nada com isso! O bicheiro era o seu operador e intermediário em assuntos no Centro-Oeste. Seu raio de ação não ia muito além dessa região, especialmente Goiás e o Distrito Federal.

Assim, insisto: duas investigações precisam ser feitas: a) a que envolve as ações ilegais do bicheiro como bicheiro; b) a que envolve as ações do bicheiro como parceiro da Delta. E é nesse ponto que a coisa fica interessante: Cachoeira era apenas um dos, digamos, “escritórios” que cuidavam do interesse da empresa. Cavendish, que já declarou ser possível comprar um senador por R$ 6 milhões, ESTABELECEU UMA PARCERIA COM ELE EM ASSUNTOS LOCAIS. Mas certamente não era o bicheiro que atuava como procurador da Delta no Rio, por exemplo.

Quando Cândido Vaccarezza mandou aquele torpedo amoroso para o governador Sérgio Cabral (PMDB), já sabia que o nome do governador do Rio não frequenta as conversas do bicheiro com sua turma. ORA, NEM PODERIA! Tanto no jogo ilegal como no assalto ao erário, a região de Cachoeira, insisto, é o Centro-Oeste.

O leitor esperto já se tocou, não? Cumpre perguntar: quem é o braço operativo de Cavendish no Rio, por exemplo? O bicheiro pode ser hábil, poderoso e tal, mas aquela não era uma área que ele dominasse. Podem virar do avesso os contratos de R$ 1,1 bilhão do estado do Rio com a Delta, e duvido que se encontre por ali o dedo de Cachoeira. A construtora, está claro como a luz do dia, tinha operadores regionais. No Centro-Oeste, ficamos todos sabendo, parece difícil fazer um negócio sem se molhar na fonte do contraventor, mas não fora dali. Tendo a achar que isso explica aquele rasgo vaccarezzo-shakespeariano. O petista dirceuzista estava dando garantias a Cabral de que a CPI vai se limitar ao Centro-Oeste e não quer saber dos outros “Cachoeiras” espalhados Brasil afora.

Quem não se lembra?
A Polícia Federal e a Controladoria Geral da União (CGU) acusaram maracutaias da Delta no Ceará, em 2010!!! A operação Mão Dupla identificou de tudo por lá: propina, fraudes em licitações, desvio de verbas, superfaturamento, pagamentos irregulares e emprego de material de qualidade inferior ao contratado em obras comandadas pelo Dnit. Um diretor local da Delta, Aluizio Alves de Souza, e o superintendente no Dnit no Estado, Joaquim Guedes Martins de Neto, foram presos. Mesmo assim, o governo celebrou com a construtora outros 31 contratos, no valor de quase R$ 800 milhões. Pergunto: o Ceará estava sob a jurisdição de Cachoeira??? Não! O “homem” da construtora no Estado era outro.

Pergunto outra vez: “Quem será, hein, o ‘Cachoeira’ de Cavendish no Rio? Assim como, no Centro-Oeste, foi preciso recorrer ao estado paralelo cachoeirístico para viabilizar negócios, quem terá, nas terras fluminenses, feito pela Delta o que fazia Cachoeira na região central do Brasil? Entenderam o busílis? Uma coisa é apurar a infiltração da contravenção no estado etc. e tal… É grave? É grave! Mas isso, convenham, para os cofres públicos, beira a irrelevância quando se pensa, só para ficar nas obras do PAC, em R$ 4 bilhões! A INVESTIGAÇÃO QUE MAIS INTERESSA É OUTRA: QUAIS SÃO OS BRAÇOS QUE OPERAM O ESQUEMA DELTA NO BRASIL? Esse é o ovo de Colombo. E parece que é isso o que a CPI quer esconder. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que deixou por um tempos a militância em favor da descriminação da maconha para cuidar de outros baratos na CPI, chama a possibilidade de investigar a Delta em escala nacional de “devassa”!!! Esse é um dos que preferem perseguir a imprensa a ficar no encalço de larápios, que roubam os cofres públicos.

Agora, sim!
Agora, sim!, as coisas parecem mais claras. Misturar no mesmo imbróglio a jogatina — que tem de ser investigada e punida! — e o esquema Delta corresponde a mentir de forma asquerosa para os brasileiros. No Centro-Oeste, em razão das atividades preexistentes de Cachoeira, essas duas coisas se cruzaram. Cachoeira ainda é um contraventor local, com aspirações de estender nacionalmente a sua influência. A Delta, nesse sentido, lhe era um canal e tanto. A teia verdadeiramente nacional é outra: chama-se Delta. E é preciso saber o nome dos outros “cachoeiras”. PARA QUE TODOS SEJAM PUNIDOS POR SEUS EVENTUAIS CRIMES.

Punir apenas Carlinhos Cachoeira, Demóstenes e mais um, dois ou três não é injusto, não, no que diz respeito à turma e às suas ações. Punir apenas essa gente é injusto com o Brasil! E se trata de mais uma aposta na impunidade, que está na raiz de toda essa lambança.

Se a CPI não investigar para valer a Delta no Brasil inteiro, estará mandando um recado aos demais “Cachoeiras” do esquema:
“Vocês são nossos, nós somos seus, e o Brasil e os brasileiros que se danem”.

Texto publicado originalmente às 4h27 desta segunda
Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 6:29

Crise põe em dúvida futuro político de Cabral

Por Wilson Tosta, no Estadão:
A dificuldade do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), em reagir ao caso Carlinhos Cachoeira com algo além de notas oficiais, respostas curtas ou simplesmente o silêncio gera dúvidas sobre o futuro político do governador. Políticos se questionam sobre a capacidade de Cabral influir nas eleições de outubro e mesmo de fazer de seu vice, Luiz Fernando Pezão, seu sucessor em 2014.

 

Há cerca de 10 dias, em sua primeira declaração após a divulgação de imagens de suas viagens aos exterior com o empresário Fernando Cavendish, dono da Delta — acusada de ligações com o contraventor Carlinhos Cachoeira —, Cabral respondera a poucas perguntas de forma vaga e saíra com rapidez. Até então, se manifestara por escrito.

Dirigentes do PMDB ouvidos pelo Estado reconhecem que Cabral sofreu desgaste pessoal com o episódio. Segundo os peemedebistas, o caso gerou, apenas na capital, uma perda de avaliação positiva entre 300 mil a 400 mil eleitores. O estrago, porém, teria sido maior na classe média da capital. “Na classe média mais informada, certamente teve um impacto, hoje somos um País de classe média”, avalia o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social.

Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um aliado e amigo a quem Cabral deve o pacote de obras de seus governos, parece convencido do enfraquecimento político do governador — e o demonstrou em conversa recente com o prefeito Eduardo Paes (PMDB).

Segundo testemunhas, na entrega de títulos de doutor honoris causa ao ex-presidente, Paes e Lula conversavam quando o senador Lindbergh Farias (PT), potencial candidato ao governo do Rio, passou pelos dois. “Vai dar trabalho em 2014″, disse Paes, apontando para o senador. Lula concordou e acrescentou: “É, mas o Pezão está superado”.

O PMDB, contudo, aposta na boa avaliação de Paes na capital (estável em cerca de 50%) e na proximidade de inaugurações de obras para tentar obter um bom resultado na eleição de outubro. Já a capacidade de Cabral de eleger seu sucessor, avaliam os peemedebistas, dependerá muito mais desse resultado que da repercussão do caso Cachoeira.

Decepção. O governador foi arrastado para o escândalo por sua amizade com Cavendish. Até agora, não apareceu nenhuma evidência de um possível envolvimento seu com Cachoeira, mas a empresa do amigo empresário somou contratos de R$ 1,49 bilhão em obras com o Estado.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

19/05/2012

às 5:33

Não tenho mais dúvida: no caso da apreensão de jornais do PR no Rio, o que se tem é um caso escancarado de censura aplicada pela Justiça Eleitoral. Decisão é inconstitucional

Escrevi um post às 21h58 desta sexta sobre a apreensão, determinada pela Justiça Eleitoral do Rio, de um jornal do PR do estado, sob o comando do deputado Anthony Garotinho. O material traz as fotos da intrépida trupe cabralina em suas folias parisienses, procura ligar o governador ao escândalo da Delta e tenta envolver, de quebra, o prefeito Eduardo Paes. Afirmei que não conhecia o material, mas que sentia no ar o fedor da censura. Muito bem. Leitores me enviam a reprodução digital do jornal. Se eu tinha alguma dúvida sobre ser ou não censura, ela se dissipou totalmente: É CENSURA!!! E é também lamentável. Parece que juízes eleitorais não se inteiraram da decisão do Supremo a respeito.

Sim, o material segue o estilo Garotinho: linguagem agressiva, acusações contundentes, contrastes com certo apelo populista… E daí? Foi feito para o seus partidários. Se Cabral e Paes não gostaram, e duvido que tenham gostado, têm as Justiças criminal e cível à sua disposição. O QUE NÃO É POSSÍVEL É A JUSTIÇA ELEITORAL MANDAR RECOLHER O JORNAL SOB O PRETEXTO DE QUE É CAMPANHA ANTECIPADA. Suponho que Garotinho, ora vejam!, está se articulando para tentar impedir que Paes de reeleja neste ano e para impedir que Cabral faça o sucessor em 2014. Assim fazem as oposições, não? É do jogo!

Se o padrão no Rio ou em qualquer lugar for o empregado pela juíza, quem está no governo ficará lá pelos próximos 200 anos. Afinal, como a campanha não começou, o governador pode, por exemplo, levar o prefeito para inaugurações. Campanha eleitoral antecipada, meritíssima??? Além de aplicar uma censura que considero inconstitucional, a juíza Ana Paula Pontes Cardoso, da 192ª zona eleitoral, está impedindo a oposição de fazer oposição. E isso é um péssimo precedente.

A Justiça Eleitoral no Brasil não pode ser uma espécie de AI-5 dos direitos fundamentais. Até porque, reitero, ela tem se mostrado impotente para impedir que o governante de turno use o mandato para cuidar da própria reeleição ou da eleição de um aliado. Se há crimes no jornal de Garotinho, que sejam punidos. A Justiça Eleitoral decidir ter a tutela da liberdade de expressão, com recolhimento de jornal, aí não! Até porque o material não toca em eleição. “Ah, mas estão pensando nisso!” Não me digam! Só faltava a oposição estar apostando na vitória da situação…

Texto publicado originalmente às 2h30 deste sábado
Por Reinaldo Azevedo

18/05/2012

às 21:58

Justiça Eleitoral manda recolher jornais do PR-RJ, ligado a Garotinho, com fotos de Cabral em Paris. Decisão de jeito de censura, cara de censura, corpo de censura, membros de censura…

Não tenho nem nunca tive a menor simpatia pelo deputado Anthony Garotinho (PR-RJ). Também não me alinho com aqueles que consideram que “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Ainda que me alinhasse, não seria o caso porque não é assim que vejo o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), ou qualquer outro político. Deixei isso muito claro quando começou aquela cascata ridícula contra Belo Monte — o tal movimento, ou algo assim, “Gota d’Água”. Não é porque aquela gente criticava os petistas que eu entrei na onda. Afirmei, então, que críticas obscurantistas ao PT não me serviam. Do mesmo modo, eventuais críticas obscurantistas a Cabral — político pelo qual não tenho a mais remota admiração — também não me interessam. Posto isso, vamos adiante.

A Constituição Brasileira veta qualquer forma de censura. O Supremo Tribunal Federal revogou o que restava da Lei da Imprensa — aliás, uma outra, pautada pela democracia, se faz necessária porque pistoleiros estão fazendo mau uso do vazio legal. Apontei esse risco quando o Supremo tomou aquela decisão. Não é crítica de agora. Não sou petralha oportunista. Os arquivos estão aí. Atenção! “Recolher jornais”, sob qualquer pretexto, viola a Constituição.

Não obstante, aqui e ali, sob o pretexto de aplicar a lei que regula eleições, a Justiça Eleitoral se coloca no lugar de censora. Já fez isso em São Paulo em 2010, quando panfletos impressos pelos católicos recomendando voto em candidatos que fossem contrários ao aborto foram recolhidos. Tratou-se de um caso escandaloso de autoritarismo. Houve pessoas detidas só porque estavam com um daqueles papéis na mão. Quem recorreu à Justiça Eleitoral foi o PT. O texto nem sequer mencionava o nome do partido. Leiam agora o que informa a Folha Online. Volto em seguida.
*
A Justiça Eleitoral determinou a apreensão de todos os exemplares de jornais do PR do Rio, sigla comandada pelo deputado Anthony Garotinho, com fotos do governador Sérgio Cabral (PMDB) e três secretários estaduais em festas com empresários em Paris. A juíza da 192ª zona eleitoral Ana Paula Pontes Cardoso considerou, em sua decisão, que a publicação é propaganda eleitoral extemporânea. Ela aponta ainda que o jornal atribui “atos ilícitos a membros” do PMDB, o que pode ser considerado crime, segundo o Código Eleitoral. O jornal publicou as fotos divulgadas por Garotinho em seu blog durante a viagem oficial de Cabral a Paris em setembro de 2009.

O material, diz a decisão liminar, “visa a promover o partido representado [PR] em detrimento do representante [PMDB], o que revela sua natureza de disputa, e por consequência, de propaganda com fins eleitorais, o que extrapola os limites da propaganda partidária”. O PR recorreu da decisão, alegando que a publicação faz críticas políticas e não promove qualquer pré-candidato do partido, o que configuraria propaganda antecipada. O secretário-geral do partido no Rio, Fernando Peregrino, disse que foram impresso entre 20 mil e 30 mil exemplares, todos recolhidos por oficiais de Justiça na sede da sigla. Garotinho também foi condenado a retirar informações publicadas sobre as empresas do secretário da Casa Civil, Régis Fichtner, e de sua mulher, Inês Helena Fernandes. Ele diz que ainda não foi notificado sobre a decisão.

Voltei
Vamos ver.

Não li os jornais. Escrevo sobre o que circula por aí. Os jornais do PR falam, por acaso, algo como: “Não votem em Cabral em 2014 (porque, que eu saiba, ele não é candidato a nada em 2012)”? Em princípio, duvido. Um partido se apresentar como melhor do que o outro me parece coisa normal, não? O que a juíza queria? O contrário é que não seria possível.

As fotos tornadas públicas, convenham, são de interesse mais do que público. Goste-se ou não de Garotinho (e eu, por exemplo, não gosto), ele prestou um favor à transparência. Ou não? Dada a realidade do país, era o caso de evidenciar a intimidade de Sérgio Cabral  com Fernando Cavendish? Quanto há contratos de mais de R$ 1 bilhão entre sua construtora e o governo do Rio, acho que sim!

“Ah, mas o jornal relaciona o caso com o PMDB e tal…” Bem, Cabral é do PMDB, não é mesmo? Cândido Vaccarezza que o diga! Vou ver se consigo um exemplar do jornal apreendido. Pelo que veio a público até agora, parece-me que a Justiça Eleitoral está atuando como censora de novo, ao arrepio da Constituição, a exemplo do que se viu em 2010, com aqueles panfletos impressos por católicos sobre o aborto.

E isso, definitivamente, não é bom!

Por Reinaldo Azevedo

18/05/2012

às 16:13

Vaccarezza tenta negar o óbvio: proteção a Cabral

Na VEJA Online, por Carolina Freitas e Thais Arbex:
O deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) tem uma árdua missão pela frente: explicar o inexplicável. Ele foi flagrado trocando mensagens de texto pelo celular com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), durante sessão da CPI do Cachoeira nessa quinta-feira.

“Não tem nenhuma blindagem e a mensagem não tratava do Cabral na CPI. Não tem nenhuma proteção nem aos membros do PT nem do PMDB”, afirmou o deputado ao site de VEJA. “Eu estava conversando sobre a relação PT-PMDB. Há várias questões, de alianças políticas no Brasil inteiro, alianças eleitorais, várias coisas…”

Correspondência privada
Questionado sobre que motivo faria a relação entre os dois partidos aliados “azedar”, Vaccarezza saiu-se com os seguintes esclarecimentos: “Vai azedar, podia azedar… ali foi um momento de irritação meu. Eu não quero declarar. Isso é uma correspondência privada. Eu não vou contribuir para mostrar a outra parte da conversa. É uma correspondência privada entre duas pessoas.” Vale ressaltar: uma conversa privada entre duas pessoas com cargos públicos.

Na argumentação de Vaccarezza, não há motivo para blindagem porque nada consta contra Cabral. “Não existe motivo de convocação nem de quebra de sigilo de Sérgio Cabral. A única acusação que fazem ao Cabral é um jantar dele em Paris com vários empreiteiros.” Só isso. “Cabral não foi sequer citado nas ligações gravadas pela Polícia Federal”, disse o deputado em relação aos telefonemas grampeados durante a Operação Monte Carlo, que resultou na prisão do contraventor Carlinhos Cachoeira.

As inocentes fotos a que se refere o deputado mostram um sorridente Cabral ao lado do ex-presidente da Delta, Fernando Cavendish. Os dois são amigos íntimos. Durante a gestão do peemedebista, a empresa recebeu 1,5 bilhão de reais do governo fluminense. “Aquela foto foi editada, a dos lenços na cabeça. Aparece uma mão que ninguém sabe de quem é”, disse Vaccarezza. “Eu sei o que tem nas fotos inteiras, mas não vou falar também.”

Desabafo
Na noite desta quinta-feira, depois de o SBT divulgar a troca de mensagens, Vaccarezza desabafou em seu perfil no Twitter e afirmou que o SMS foi mandado em um “momento de irritação”. “Sou amigo do PMDB e nossas relações nunca serão azedadas. O SBT filmou uma troca de mensagens entre eu e o Cabral num momento de irritação”, postou o petista.

“Não tem blindagem do Cabral. Não existe nenhuma citação telefônica, nem envolvimento do Cabral com o Cachoeira”, postou. “Afirmo que a CPMI vai investigar a organização criminosa do Carlos Cachoeira doa em quem doer”, afirmou, em outra mensagem.

Espetacularização
Vaccarezza divulgou nota nesta sexta enfatizando que não haverá blindagem na CPI e que os parlamentares investigarão “qualquer um que tiver relação com a organização criminosa de Carlos Cachoeira”. “Por outro lado, não vamos compactuar com a espetacularização ou com o esvaziamento da investigação”, disse.

O deputado argumentou que o texto do SMS mostrado na reportagem do SBT refletia a preocupação dele com “tensionamentos pontuais” entre o PT e o PMDB. “Meu objetivo era deixar claro ao governador Sérgio Cabral que, apesar das discordâncias pontuais, a boa relação entre nossos partidos deve ser mantida”.

Vaccarezza afirmou também que Cabral não foi citado nas gravações do inquérito que investiga o esquema de corrupção comandado por Cachoeira e que, por isso, não faz sentido falar em “blindagem”.

Repercussão
Nesta sexta-feira, o nome do petista está nos assuntos mais comentados no Twitter – chegou, inclusive, a ficar em primeiro lugar na manhã desta sexta-feira. A oposição ajudou a provocar o movimento. O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) foi um dos que usaram o seu perfil no microblog para criticar Vaccarezza. “CPI ñ é lugar de fazer devassa, diz Vaccarezza. Receio de pintar devassidão de amigos em Paris, com dinheiro público? Amizade singular, blindagem co$tumeira”, postou ele.

Embora seja do PMDB, partido de Sérgio Cabral, o senador paranaense Roberto Requião também usou o Twitter para criticar o petista. “O SBT avacarezou a CPMI? CPMI em decúbito ventral, expõe para o país suas redondas abundâncias. Tudo avacarezado. CPMI carinhosa? Ou avacarezada?”. Em um outro post, Requião negou que exista uma tentativa de blindar Cabral. “Não Tem blindagem do Cabral. Não existe nenhuma citação telefônica, nem envolvimento do Cabral com o Cachoeira.”

Por Reinaldo Azevedo

18/05/2012

às 6:31

Vaccarezza para Cabral: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso, e nós somos teu”

E a reportagem do SBT, vejam só, flagrou o que parece ser o mais significativo evento, até agora, da CPI do Cachoeira. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), ex-líder do governo na Câmara, envia uma mensagem de texto pelo celular para o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). O petista tranquiliza o peemedebista: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso, e nós somos teu [sic]“. Segue o vídeo da reportagem.

Texto publicado originalmente às 21h36 desta quinta
Por Reinaldo Azevedo
 

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