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Rio

23/05/2013

às 15:26

Mal acaba “Salve Jorge”, traficantes voltam a demonstrar quem manda no Alemão; desisti de ir morar naquele paraíso; sinto-me traído pelo primeiro caso de merchandising de política de segurança da história da TV

Não acompanhei o fim da novela “Salve Jorge” — nem o começo nem o meio — e não sei se, no fim daquela cadeia de inverossimilhanças, segundo li aqui e ali, o capitão Teo (Theo?) decidiu morar no Alemão com a brejeira Morena. Leio na VEJA.com (texto segue abaixo) que os traficantes voltaram a demonstrar quem dá as ordens no Complexo do Alemão. Leiam a reportagem. Volto em seguida.
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Moradores do Complexo do Alemão voltaram a assistir, na manhã desta quinta-feira, a uma demonstração de poder dos traficantes de drogas. Ocupado pela polícia desde dezembro de 2010, o conjunto de favelas amanheceu com comércio e escolas fechados em várias áreas. A ordem para fechar portas teria partido de traficantes, em represália à morte de um bandido. O problema atinge também parte da Vila Cruzeiro, favela próxima ao Alemão.

Comandante do programa de Unidades de Polícia Pacificadora, o coronel Paulo Henrique afirmou, na manhã desta quinta-feira, que o fechamento do comércio é um “descontentamento” dos traficantes com a ação da polícia. Para os moradores, no entanto, a leitura é de que os bandidos continuam dando as cartas, apesar da presença de policiais e da construção de unidades da PM naquela área.

Além de lojas e escolas, os bandidos conseguiram interromper também o funcionamento de um posto de cadastramento do programa Bolsa Família, que funciona a poucos metros de uma das estações do teleférico do Alemão – ponto que passou a receber visitantes e a integrar o conjunto de novos cartões postais do Rio, após a chegada das UPPs.

Confronto
O episódio que motivou a reação dos traficantes foi a morte de um homem de 29 anos, identificado como Anderson Simplício de Mendonça, conhecido como “Orelha”. De acordo com a 22ª DP (Penha), o caso ocorreu na noite de quarta-feira e foi registrado como “homicídio decorrente de intervenção policial”. Segundo a Polícia Civil, Anderson tinha dois mandados de prisão pendente pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico.

O suspeito foi encontrado, segundo a polícia, com um revólver calibre 38 e oito munições calibre 38. “No local, os PMs arrecadaram dois carregadores para fuzil calibre 762 e vinte munições para o mesmo calibre. Familiares de Anderson e testemunhas estão sendo intimadas para prestar depoimento. Agentes da 22ª DP estão realizando diligência para identificar os outros traficantes”, diz uma nota enviada pela Polícia Civil.

Comento
“O caso é grave, Reinaldo, não cabe ironia!” Eu sei. Não ironizo a situação dos moradores, coitados!, que ficam à mercê da bandidagem, mas a versão edulcorada — e, no limite, falsa, como toda construção meramente ideológica — do que passou a ser chamado de “pacificação” das favelas do Rio.

Minha crítica ao governo Sérgio Cabral, nesse caso, nunca esteve ligada à presença de unidades da Polícia na favela, é evidente, mas ao fato de que há uma ação deliberada — ou inação — para NÃO PRENDER traficantes. A menos que Cabral e José Mariano Beltrame provem que as UPPs levam os traficantes a fazer o download do divino, a minha suposição é a de que continuam no mundo do crime — e até com mais segurança. Levar melhorias às favelas — e é uma obrigação — sem quebrar a espinha do poder do tráfico corresponde a pôr mais recursos públicos à disposição de quem manda, de fato, nas “comunidades” (no Rio, não existem mais “favelas”): o tráfico. É questão de fato. É questão de lógica elementar.

Descriminação das drogas
“Ah, e se o consumo de drogas não fosse crime? Nada disso aconteceria!” É… Se a gente descriminar os crimes, não tenho dúvida, tudo vira “da lei”, não é mesmo? E, aí, quem pode mais chora menos. Se incendiar pessoas numa pira de pneus deixar de ser crime, os que comandam o churrasco poderão circular livremente, como cidadãos honrados. A questão é saber o bem ou o mal que estarão fazendo à sociedade.

Noto que, para o caso em espécie, não bastaria descriminar o consumo, mas também o tráfico de drogas, o que não se fez em país nenhum do mundo, nem na Holanda. E quem dá as ordens nos morros não é o consumidor de drogas, mas o traficante.

Não vou mais morar no Alemão. Senti-me enganado pelo primeiro caso de novela que faz merchandising de uma política de segurança pública.

Por Reinaldo Azevedo

05/05/2013

às 1:31

Relatório expõe a peneira da segurança no Galeão

Por Ana Clara Costa e Pâmela Oliveira, na VEJA.com:
Dentro de 40 dias, começa o maior ciclo de grandes eventos da história do Brasil. A Copa das Confederações, que aquece as equipes para 2014 e testa estádios e transportes de seis das doze cidades-sede da Copa do Mundo, inaugura uma era de grande fluxo de visitantes e de visibilidade internacional para o Brasil. Para o Rio de Janeiro, em especial, o calendário de acontecimentos será intenso. Três semanas após a final da competição, começa, em 23 de julho, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), reunião de católicos que levará à cidade o papa Francisco e deve atrair mais de 2 milhões de visitantes – grande parte deles pelo Aeroporto Internacional do Galeão-Tom Jobim. Estratégicos para a segurança e para a logística das grandes cidades, os aeroportos são elos sensíveis da cadeia de planejamento dos grandes eventos. E no caso do Rio de Janeiro a situação atual do terminal internacional não é das melhores. Um relatório da Polícia Civil e do Ministério Público obtido pelo site de VEJA enumera falhas de segurança que tornam as áreas de desembarque e os setores de carga e descarga altamente vulneráveis para roubos e furtos de mercadorias, com alertas sobre a conivência de funcionários e até de deficiência das empresas aéreas.

O problema do momento diagnosticado pela Delegacia do Aeroporto Internacional, órgão da Polícia Civil instalado nas dependências do terminal, está restrito ao dano patrimonial para quem viaja. Perfumes, presentes, roupas e objetos de pequeno porte ‘escoam’ pelos furos do Galeão. Com porões mal vigiados, brechas no transporte das bagagens e falta de fiscalização sobre pessoal interno, é fácil desviar itens de viagem. A análise da polícia, no entanto, impõe a pergunta: o terminal que será a principal porta de entrada da JMJ e da Olimpíada de 2016 tem condições de oferecer segurança contra ameaças maiores, como atentados terroristas planejados e ações tresloucadas altamente ofensivas, como a dos irmãos Tsarnaev, na maratona de Boston?

O relatório da Polícia Civil enumera as principais fragilidades do Galeão. A maioria dos furtos acontece no interior dos porões das aeronaves, poucos deles no trajeto até as esteiras. O motivo: A maioria das companhias aéreas não tem câmeras nos porões. A iluminação nos porões também é insuficiente.

Tratar delitos corriqueiros de funcionários como ocorrências de menor importância não é recomendável quando a área em questão é um aeroporto de grande movimento. Um dos itens destacados pelo relatório da Polícia Civil, assinado pela delegada Izabela Silva Rodrigues Santoni e elaborado com base nas ocorrências de 2011, diz respeito ao furto de armas de fogo. De acordo com o documento, os lacres utilizados pelas empresas aéreas são frágeis e podem ser abertos “inclusive com as mãos”. “Estes mesmos lacres são utilizados nos cofres das aeronaves, motivo que tem possibilitado furtos de armas de fogo”, escreveu a delegada. Procurada pelo site de VEJA, Izabela, que deixou recentemente a delegacia do aeroporto, não quis se pronunciar. O relatório foi encaminhado em dezembro do ano passado ao Ministério Público Federal, que oficiou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Infraero. O MPF cobrou ações da Anac e da Infraero.

“Expedi ofícios comunicando as irregularidades à Anac e à Infraero para que adotem providências cabíveis e prestem informações sobre tudo o que foi denunciado”, afirmou o procurador da República Márcio Barra Lima. O MPF, por enquanto, continua sem resposta. Diariamente, cerca de 50.000 pessoas embarcam e desembarcam do aeroporto internacional do Galeão. Durante a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o aumento do número de passageiros no principal aeroporto do estado, somado à fragilidade da segurança, pode facilitar a ação dos bandidos. Superintendente Regional da Infraero no Rio de Janeiro, André Luís Marques de Barros admite que uma das preocupações em relação aos dois eventos é o furto de malas. “Bagagem violada incomoda a administração do aeroporto e os órgãos de segurança porque denota certa fragilidade. Nós administramos mais de 50.000 bagagens por dia, e os furtos, violações e extravios não são significantes a ponto de aparecerem em estatísticas”, afirma.

De acordo com Barros, durante os dias da JMJ, a Infraero vai aumentar seu efetivo em 30%. Além de intensificar a fiscalização do transporte das malas desde as aeronaves até os passageiros, a Infraero vai fazer blitz em locais considerados estratégicos, como no pátio do aeroporto.

Procurada pelo site de VEJA, a Anac informou que respondeu o ofício do MPF sobre o sistema de segurança do aeroporto do Galeão. O ofício em atenção ao MP está no protocolo da Agência para expedição. A Anac acrescentou ainda que só vai se manifestar após o recebimento do ofício e publicidade das informações pelo MP.

Atualmente, o Galeão passa por reformas nos terminais 1 e 2. A revitalização começou em agosto de 2012, como parte da programação da Infraero para modernizar o aeroporto para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, em 2014. Com a conclusão das obras, o aeroporto passará a ter capacidade para processar 44 milhões de passageiros por ano. Hoje, a capacidade é de 21 milhões por ano, segundo a Infraero. Dez novas escadas rolantes serão instaladas no terminal 1, entre os setores A e B, e atenderão, principalmente, passageiros de voos domésticos e aqueles que desejam chegar ao estacionamento e à praça de alimentação. De acordo com Barros, outra mudança será o aumento do número de terminais de check-ins. No Terminal 2, até janeiro eram pouco mais de 40. Hoje, são 80. Em abril de 2014 serão 112 pontos.

A segurança é o aspecto mais grave de uma lista de melhorias necessárias para que o Galeão seja um aeroporto internacional com a qualidade compatível com sua importância. Atualmente, os usuários enfrentam uma série de desconfortos que tornam a viagem desnecessariamente estressante. Longa espera para a retirada de malas, extravios de bagagens e demora para embarque e desembarque são algumas das reclamações dos passageiros que utilizam o aeroporto do Galeão. Moradora de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, a professora Patrícia Bomfim, 51 anos, viajou com a família para Foz do Iguaçu na semana passada. Nesta sexta-feira, no desembarque, ela lembrou os problemas que teve na ida e na volta.

“O voo saiu do Rio com mais de uma hora de atraso. E ninguém dá informação correta. Parece que você tem a obrigação de esperar. Na volta, não tivemos problemas com o voo, mas todas as malas chegaram muito sujas. Fica claro que, durante o transporte da mala, eles não têm o menor cuidado”, disse a professora.

As irmãs Camila Fernandes, 19 anos, e Caroline Fernandes, 25 anos, também saíram insatisfeitas do Galeão. Moradoras de Santa Catarina, elas chegaram de Orlando nesta sexta-feira e esperaram meia hora para desembarcar. “Depois de um voo cansativo de dez horas, meia hora de espera é o bastante para irritar os passageiros. Parece que não tinha ônibus para nos buscar no avião. Depois, esperamos por mais de 20 minutos para que as malas fossem colocadas na esteira. Ou seja, perdemos quase uma hora em terra”, disse a advogada Caroline.

Por Reinaldo Azevedo

15/04/2013

às 19:02

A forma como a imprensa faz poesia da discriminação de classe no Rio quase me comove, mas consigo me conter

Caos nesta segunda no transporte público da cidade do Rio, com a decisão da Prefeitura de proibir a circulação de vans em grande parte da Zona Sul. O Rio é mesmo uma cidade maravilhosa. A maneira como os pobres são discriminados por ali, e com o apoio de grande parte da imprensa, beira a poesia, o estado de arte. A medida foi tomada depois que uma turista foi estuprada no interior de uma van, e seu namorado, espancado. Como não existe controle sobre essa modalidade de transporte público, o jeito é ser radical: nada desses veículos na Zona Sul, onde circula, afinal, a maior parte dos turistas. O raciocínio, não fosse seu caráter obviamente discriminatório, faz sentido: com menos vans, menos riscos. E se tem, adicionalmente, a impressão de que se tomou uma providência. Antes que continue — e para desfazer mal-entendidos —, é preciso apontar a culpa de São Paulo (ou de uma de suas gestões).

As vans no transporte público são, prestem bem atenção!, uma herança maldita do PT. Sim, senhores! Essa modalidade inicialmente clandestina começou na gestão de Luíza Erundina na capital paulista e não foi reprimida a tempo. Ao contrário: foi até estimulada. Os petistas achavam que, assim, encostavam contra a parede os capitalistas selvagens. Eram tempos em que os petistas ainda não viviam em mutualismo com o… capitalismo selvagem! Logo algumas de suas franjas se ligaram ao crime organizado e, aí, adeus! Nunca ninguém mais conseguiu acabar com a praga.

À época, especialistas alertaram para seu caráter deletério. Estimular esse tipo de, digamos assim, “iniciativa privada” informal numa área de prestação de serviço que tem de ser regulada porque usa o aparelho urbano seria fonte permanente de problema. Não deu outra! Mas o PT jamais resistiu à tentação de apresentar uma resposta simples e errada para um problema difícil. De São Paulo, a doença se espalhou para o Brasil inteiro, chegando ao estado de arte no Rio. E não é assim em razão da índole particular do carioca. É que essa informalidade encontrou naquela geografia e naquela topografia o ambiente ideal para prosperar. As vans podem chegar a lugares aonde os ônibus não chegam.

Ora, à medida que as empresas começaram a dividir passageiros com esse novo serviço, foram adaptando seus investimentos à nova realidade de mercado — em São Paulo, no Rio e em qualquer lugar. As vans deixaram de ser apenas uma alternativa para quem queria um pouco mais de rapidez e conforto (ou que fazia um trajeto não servido por ônibus ou metrô) e passou a ser um serviço necessário. Elas supriram parte do crescimento da demanda por transporte público. Não se corta isso da noite para o dia sem transtornos severos.

E é o que viu no Rio. Reproduzo (em vermelho) trecho de reportagem da Folha. Volto em seguida.
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O primeiro dia de proibição da circulação de vans e Kombis em bairros da zona sul do Rio causa transtornos, desde o início da manhã desta segunda-feira (15), para moradores da cidade. Por volta das 7h, alguns ônibus seguiam lotados com passageiros pendurados nas portas. Trabalhadores ficaram revoltados com o atraso de até uma hora dos ônibus, que na maioria das vezes passavam superlotados e não paravam nos pontos. “Estamos na fila [do ônibus] há quase uma hora porque eles passam cheios e não param. Sempre peguei van da Ilha do Governador [zona norte] para Ipanema e nunca tive problema. Agora tive que fazer baldeação na Leopoldina [no centro] e enfrentar esse caos para chegar no trabalho”, lamentou a costureira Nadmar Almeida, 47.

Muitos passageiros reclamaram que a mudança vai prejudicar quem depende do transporte público na cidade. “É maldade o que estão fazendo com a gente. Estamos viajando esmagados nesses ônibus lotados”, disse o cozinheiro Josenildo Alves da Silva, 47, que seguia da Leopoldina para o Leblon. Às 9h30, uma manifestação da categoria fechou a avenida Delfim Moreira, no Leblon. O protesto provoca um enorme engarrafamento na pista sentido Copacabana, zona sul.

Segundo decreto do prefeito do Rio, Eduardo Paes, publicado na quinta-feira (11) no “Diário Oficial” do município, as vans não podem mais circular na zona sul da cidade no bairros de Botafogo, Humaitá, Urca, Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, Lagoa, Jardim Botânico, Gávea e São Conrado.
(…)

Voltei
Aqui e ali, a gente lê que os ônibus e o metrô procurariam se reorganizar para suprir a demanda por transportes. Pelo visto, não adiantou. E não teria mesmo como adiantar. Reitero: depois de anos cumprindo um papel da demanda por transporte público, não se muda a realidade por decreto.

Eu fico imaginando qual seria a abordagem da imprensa, inclusive da carioca (da paulistana, com certeza absoluta!), se a administração pública decidisse tomar uma medida como essa nos bairros ricos da cidade. Convenham: uma tolice dita por uma moradora de Higienópolis — não pelo bairro, já que bairro não fala nem pensa — gerou um “movimento social”. Ela, com todo o direito a ter uma opinião (ou alguém lho havia cassado?), ainda que idiota, afirmou que não queria estação de metrô no bairro porque isso atrairia “gente diferenciada”. E lá foram os petistas mais alguns xexelentos, com amplo apoio da imprensa, fechar ruas para fazer o “churrasco da gente diferenciada”. Cheguei a ler verdadeiros ensaios nos jornais, da mais pura antropologia botequeira, demonstrando como esta é a cidade da exclusão e coisa e tal. No Rio, não! Todos terminam na mesma gafieira da Glória Perez e no paraíso de Dante do Complexo do Alemão…

Mas, como se vê, não há perigo de haver uma abordagem crítica nem mesmo de uma medida que tem óbvio caráter discriminatório. Não só se cria uma área da cidade onde “esse tipo de coisa não entra” — por que não? — como se punem os pobres que trabalham na Zona Sul e dependem do transporte público.

“Olhe o Reinaldo defendendo as vans…” Uma ova! Eu acho que é preciso começar a tomar medidas para acabar com elas. Mas, antes, é preciso oferecer uma alternativa aos que se tornaram dependentes das vans não por escolha, mas por culpa da incúria do Poder Público.

Dizem que sou conservador. Uns bestalhões me acusam de reaça. Não dou a mínima. O fato é que tenho asco de discriminação, inclusive da dita “discriminação positiva”… Pouco me importa se o cartão-postal que serve de fundo tem o rio Tietê ou a tardinha que cai, o barquinho que vai e outros diminutivos turísticos.

Por Reinaldo Azevedo

22/03/2013

às 6:44

Em Duque de Caxias, moradias do “Minha Casa Minha Vida” inundaram. Foram construídas em área de mangue… Ainda que Deus fosse brasileiro, como quer Dilma, teria de lutar com as leis da física…

Vejam esta área inundada.

Reproduzi num post de ontem reportagem do Jornal da Globo sobre prédios do “Minha Casa Minha Vida” destinados aos antigos moradores do Morro do Bumba, em Niterói, que ameaçam desabar antes mesmo que a construção seja concluída. Pois é. O mesmo Jornal da Globo levou ao ar ontem reportagem de Flávia Januzzi sobre casas do programa, em Duque de Caxias, que… inundam!!! A ironia: aquelas pessoas só estão ali porque moravam em… áreas de risco. Vejam as imagens. Para assistir ao vídeo, clique aqui. Reproduzo texto que está no site do jornal. Volto em seguida.
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A chuva do fim de semana inundou os condomínios no distrito de Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias. Quatro dias depois, os moradores ainda tentam recuperar o pouco que sobrou.

São 389 casas do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, destinadas a famílias que viviam em áreas de risco ou violentas.  O projeto saiu por R$ 17,5 milhões, segundo a Caixa Econômica Federal. Os moradores pagam prestações que variam de R$ 25 a R$ 120.

Além de algumas casas encherem durante as chuvas, algumas apresentam problemas estruturais. Em uma delas, há rachaduras por todo o quarto. É um problema muito antigo, segundo o próprio morador da casa, que teve que sair.

A Caixa informou que o terreno não tinha histórico de alagamento e classificou o volume de chuvas como extraordinário. “A Caixa já esta fazendo levantamento e vamos corrigir o que tiver que ser corrigido. Os moradores terão imóveis restabelecidos a plena condição de uso”, afirma Cláudio  Martins, superintendente regional da Caixa Econômica Federal.

Na quarta-feira, o Jornal da Globo também mostrou outro conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida, em Niterói, que também tem problemas. Dois dos 11 prédios destinados às vítimas do deslizamento no Morro do Bumba, em 2010, estão com a estrutura comprometida e terão que ser demolidos.

Em Duque de Caxias, algumas casas, ainda alagadas, já começaram a ser abandonadas pelas famílias. “Vim para cá com esperança de ter uma vida melhor, de ter uma casa melhor. Não para vir e passar o mesmo problema”, diz a dona de casa Sidnéa Fonseca da Silva.

Voltei
Se vocês assistirem ao vídeo com a íntegra da reportagem, encontrarão lá o testemunho de Idalina da Silva, que é moradora da região há mais de 30 anos. Ela assegura: “Aqui é uma área de mangue. Eu moro aqui há mais de 30 anos. Sempre alagou”.

É isto mesmo que vocês entenderam: escolheram uma área de mangue, que sempre alagou, para construir as casas. Mas a Caixa não viu problema nenhum nisso e financiou. “Ah, Reinaldo, é melhor do que morrer soterrado…” Ah, é! Vista a coisa por esse ângulo, é mesmo!

Por Reinaldo Azevedo

20/03/2013

às 22:59

Prédios do “Minha Casa Minha Vida” destinados a desabrigados do Morro do Bumba podem desabar

Prédios do “Minha Casa Minha Vida”: nem foram inaugurados e já ameaça cair; construção está atrasada

Do Jornal Nacional:

Cidadãos brasileiros que sobreviveram à tragédia do Morro do Bumba, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, há três anos, ainda não recuperaram um teto. A construção dos apartamentos que eles receberiam parou, simplesmente porque prédios do condomínio que custou R$ 22 milhões correm risco de desabar.

As imagens das rachaduras podem ser vistas do alto. De perto, não deixam dúvidas de que a construção está em risco. Elas aparecem em pelo menos dois dos 11 prédios do conjunto habitacional no bairro Fonseca, em Niterói. São obras do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, para onde irão vítimas das chuvas que atingiram a cidade há quase três anos.

São 454 famílias do Morro do Bumba, uma favela construída em cima de um antigo lixão que desmoronou, matando 47 pessoas. Algumas, até hoje, vivem em abrigos.

As obras deveriam ficar prontas em junho. Mas a empresa responsável informou que neste momento os trabalhos estão paralisados. Um gerente da empresa afirmou que dois prédios vão ser demolidos.

“O grande acúmulo de água acabou levando o solo e acabou causando trincas no empreendimento. A gente vai demolir os prédios e fazer novamente. Não vai nem fazer reforço, não vai fazer nada. Vai colocar o chão para poder fazer de novo essa situação para ter maior segurança”, declarou Waldemar Neto, gerente da Imperial Serviços LTDA.

Cada edifício custou R$ 2 milhões. A Caixa Econômica Federal, que financia o projeto, aguarda um laudo técnico para avaliar quem vai arcar com esses gastos.

“Se se caracterizar como acidente de obra, quem paga é um seguro, porque todas as obras da casa têm um seguro, e essa seguradora será chamada para botar o recurso necessário. Ou se tiver problema de vício da construção, a construtora, como responsável técnica, que paga”, disse José Duarte, vice-presidente de Governo e Habitação.

A Imperial Serviços disse que engenheiros estão avaliando se há riscos em outros edifícios. E ainda não tem um novo prazo para a entrega da obra. A prefeitura de Niterói declarou que três mil famílias que ainda estão sem casa recebem um aluguel social pago pelo governo do estado no valor de R$ 400.

Por Reinaldo Azevedo

13/03/2013

às 14:48

Crise dos royalties é o presente do “amigão” Lula para Sérgio Cabral

Por Cecília Ritto, na VEJA.com:

No Rio de Janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva ainda é tratado como presidente. Pelo menos se o governador Sérgio Cabral estiver no comando do compromisso. Foi assim há duas semanas, quando Lula foi levado ao Maracanã – fechado para obras e visitação, mantido longe dos olhos da imprensa – e discursou para os operários. A ocasião, para uma série de inaugurações ao lado do amigo peemedebista no Rio, seria ótima para o líder supremo petista abordar um assunto que parece esquecido por ele, embora cause imensa dor às finanças do estado, bem como ao do vizinho Espírito Santo e, em menor grau, a São Paulo. As andanças festivas de Lula parecem ignorar que a mudança na distribuição dos royalties do petróleo põem em perigo os orçamentos futuros dos estados produtores, e que a origem do problema foi o tratamento dado por Lula ao pré-sal, o maná da civilização brasileira, do qual o pensamento petista tentou e tenta se apropriar como tesouro privado.

Sérgio Cabral, agora, não tem de quem cobrar. Afinal, Lula não está mais formalmente no poder. E, pessoalmente, o governador abaixou a cabeça ao ponto de não mais conseguir reergue-la. Ou, trocando em miúdos, quando Lula começou a defender a configuração do marco regulatório do pré-sal – sancionado por ele mesmo em dezembro de 2010 -, Cabral foi contra, mas fiava-se no jeito “tudo posso, tudo resolvo” do amigo presidente. Enquanto a grama crescia sob os pés de Cabral, nos estados não produtores ganhou força o movimento para abocanhar não só o resultado financeiro do bilionário pré-sal, mas também os gordos recursos oriundos dos campos já em exploração que, até então, inundavam os cofres dos estados do Sudeste, em cujo litoral se concentram as operações da Petrobras e das petroleiras que ganharam concessões para explorar poços de petróleo.

 

“Muitos, e possivelmente até Lula, acharam que o novo marco regulatório levantaria uma discussão sobre o futuro, aqueles campos por serem explorados. Estados e municípios, no entanto, ao perceberem que era grande o bolo de dinheiro que chegava aos estados produtores, passaram a querer também”, diz o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). A visão imediatista da classe política impede qualquer reflexão sobre o efeito futuro das regras da divisão de recursos, lembra ele. “O político não quer daqui para frente. Daqui a cinco anos, ele não é mais governador ou prefeito”, argumenta.

Para Pires, era previsível que a proposição de um novo marco regulatório abriria a porteira para que os estados não produtores demandassem uma nova regra de distribuição das receitas do petróleo, avançando também para as áreas já em exploração – problema que atinge principalmente o Rio e o Espírito Santo. No caso do Rio, cerca de 75% dos recursos do petróleo são destinados ao fundo de previdência dos servidores, o que deu ao estado folga orçamentária para investir em infraestrutura e programas populares.

Uma parte do problema dos estados produtores está no modelo de distribuição que passou a ser adotado a partir do marco regulatório do pré-sal. Antes, desde 1997, os poços eram concedidos – e a divisão era sobre o dinheiro que isso rendia. A partir das definições para o pré-sal estabelecidas no governo Lula em 2010, o modelo é o de partilha. Ou seja, reparte-se também o produto, que passa a ser do explorador e da União, o que tira de cena as participações especiais – o dinheiro que jorrava nos cofres do Rio e do Espírito Santo com a produção excedente dos poços licitados. A partir do modelo de partilha, não foram mais realizados leilões – o próximo está previsto pela Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) para maio deste ano.

O modelo de partilha favorece em muito a União, que passa a ter parte da propriedade do petróleo e do gás natural. “Esse novo regime acaba penalizando os estados e beneficiando a União, que centraliza o dinheiro. Se os estados fossem mais inteligentes, teriam se unido para abocanhar uma parte da União”, diz Pires, que aponta como principal problema do pré-sal a politização das decisões. “É o caso, por exemplo, do congelamento da gasolina, usado para segurar a inflação, e de projetos mal planejados, como o Comperj, que custará mais do que foi anunciado”, afirma.

Os efeitos colaterais da trapalhada de Lula com o pré-sal estão na sala da presidente Dilma. A batalha no Congresso, que se arrasta desde o ano passado, invadiu a pauta de 2013 e atrasou a votação do orçamento. Os vetos de Dilma foram derrubados pela maioria das duas casas legislativas, interessadas em levar para seus estados uma fatia maior dos recursos do petróleo. E, agora, aguarda-se uma batalha no Supremo Tribunal Federal, motivada pelas ações do Rio, Espírito Santo e São Paulo, na tentativa de derrubar a decisão do Legislativo de modificar também a divisão de recursos referentes a áreas já licitadas.

Na cena política, o tiroteio abriu espaço para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) levantar a voz, na condição de apaziguador. Campos liderou um grupo de 16 governadores que reabriram a discussão sobre o rateio dos royalties. A lógica da volta ao diálogo é a seguinte: uma decisão do STF contra o que foi decidido no Congresso pode tornar a emenda pior que o soneto, abrindo caminho para os estados não produtores perderem o que foi conquistado até agora. Ou seja: vale a pena abrir mão do que já foi licitado e garantir a riqueza que está por vir. A avaliação de alguns integrantes da bancada do Rio, inclusive, é a de que, no momento, não interessa aos produtores negociar, pois é possível derrubar toda a redistribuição com uma decisão favorável do Supremo.

Além da investida de Eduardo Campos, a gestão petista da Petrobras virou tema dos debates tucanos, num momento em que o PSDB põe Aécio Neves em posição de decolagem para a campanha de 2014. Na terça-feira, o senador tucano defendeu a volta ao modelo de concessão, marca do governo Fernando Henrique Cardoso. A visão tucana é de que, com a Petrobras exercendo total controle do mercado, investidores foram repelidos e empresas nacionais que poderiam desenvolver a indústria perderam força.

Por Reinaldo Azevedo

18/02/2013

às 4:07

Governo do Rio omitiu 35 dias ao informar viagens de Cabral

Por Italo Nogueira, na Folha:
O governo do Rio omitiu 35 dias de viagens do governador Sérgio Cabral (PMDB) ao prestar esclarecimentos sobre as viagens internacionais que ele fez em seu primeiro mandato à frente do Estado. Documentos obtidos pela Folha com base na Lei de Acesso à Informação mostram que, de 2007 a 2010, o governador ficou pelo menos 134 dias no exterior ao participar de 27 missões oficiais. Em maio do ano passado, nota preparada pela assessoria de Cabral informou que o governador passara 99 dias fora do país -ou seja, 35 dias a menos do que revelam os documentos obtidos agora. A nota divulgada no ano passado foi uma resposta a um questionamento feito pela Folha na época em que foram divulgadas fotos de Cabral com o empresário Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, em Paris.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

04/02/2013

às 22:29

“Ah, se tivesse acontecido em São Paulo…”

A informação que vai abaixo, publicada no Estadão, tem apenas um título, não dois. E é este: “Ah, se tivesse acontecido em São Paulo…”. Leiam. Volto depois:

Um dos 31 detentos que fugiram domingo, 3, do Instituto Penal Vicente Piragibe, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, cumpria pena pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002.

Claudino dos Santos Coelho, também conhecido como Russão, integrava a quadrilha do traficante Elias Maluco. Outros dois condenados por esse crime já haviam fugido, em ocasiões anteriores. Em 2010, Ângelo Ferreira da Silva se beneficiou da progressão de pena e saiu pela porta da frente do mesmo presídio. Em 2007, Elizeu Ferreira de Souza se aproveitou do mesmo benefício e também fugiu.

Os detentos que fugiram domingo cavaram um túnel que deu acesso à tubulação do esgoto. Quatro detentos foram recapturados. O secretário estadual de Administração Penitenciária, Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, admitiu que houve falha na segurança e que está sendo investigado se algum funcionário do instituto penal colaborou com os detentos.

Encerro
Se tivesse acontecido em São Paulo, faltaria pouco para alguém pedir o impeachment de Geraldo Alckmin… A propósito: alguém meteu o microfone na boca de Sérgio Cabral ou de José Mariano Beltrame para que dessem alguma explicação, ou eles só aparecem quando é para estourar champanhe?

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2013

às 6:59

Rio: Cabral e Beltrame já pacificaram bandidos o bastante; chegou a hora de prendê-los, excelências! Ou: Imaginem o quiproquó se isto tivesse acontecido em SP…

A VEJA desta semana traz uma reportagem espantosa sobre a crime organizado no Rio. Na VEJA.com, há uma vídeo de assustar. Antes que trate dos detalhes, algumas considerações importantes.

Entre todas as opiniões que já emiti neste blog em seis anos e meio, a mais estupidamente incompreendida e distorcida é o que penso sobre as tais UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio. Não raro, respondem ao que não escrevi para que possam ignorar o que escrevi. Alguns tolos insistem em me acusar de ser contra as ditas-cujas. É uma mentira e uma vigarice. É claro que elas são necessárias. Até porque a UPP nada mais é do que o policiamento comunitário. Reagi a alguns estúpidos, inclusive do governo federal, que sustentaram que São Paulo precisava copiar o modelo do Rio. Trata-se de uma tolice e de uma fraude política. O que o governo Cabral fez foi levar um pouco de segurança a locais onde os policiais não pisavam porque não podiam. Inexistem áreas assim em São Paulo. A polícia chega aonde quiser. Então, meus caros, atenção para a primeira e relevante questão sobre as UPPs: 1) ELAS PODEM SER UMA NOVIDADE EM VÁRIAS ÁREAS DO RIO, MAS NÃO SÃO UMA INOVAÇÃO. Absurdo é haver territórios na cidade onde a polícia não entra. Fiquem agora com a segunda questão relevante: 2) a maior parte da área dominada pelos tráfico quando Cabral chegou ao poder continua… dominada pelo tráfico! A UPP é a exceção, não a regra. Ainda há extensões imensas da capital fluminense e cidades adjacentes imunes ao estado de direito. Sigamos.

Não gosto, é certo, do nome “Unidade de Polícia Pacificadora” porque revela má consciência. A “paz”, por óbvio, é um vocabulário que pertence à guerra e, pois, à noção de que existe uma contenda entre dois ou mais litigantes legítimos que decidiram abrir mão de algumas de suas exigências. Os policias que chegam ao morro foram “pacificar” quem exatamente? Por certo, não se está falando da população local. Polícia que “pacifica” bandido se torna cúmplice dele. Sim, aqui vai a minha 3) terceira questão relevante sobre as UPPs de Cabral: transformar os bandidos numa espécie de força beligerante legítima.

Notem bem: não estou acusando os policiais dessas unidades de serem, em regra, coniventes com o crime por determinação pessoal — há casos, mas prefiro pensar que sejam exceções. Estou, isto sim, afirmando que há uma política de segurança pública, comandada por José Mariano Beltrame — transformando em Demiurgo pela imprensa mistificadora —, que, sob o pretexto da “pacificação”, evita o confronto com os marginais. E aqui está a minha 4) quarta objeção relevante não precisamente às UPPs, mas a essa política: ao evitar o choque com os bandidos, a Polícia do Rio também não os prende — há um caso ou outro que servem ao espetáculo. Os bandidos mais perigosos deixaram as áreas ditas “ocupadas” e se mandaram para as zonas que continuam “liberadas” — e elas ainda são a maioria.

Ora, cabe uma pergunta óbvia a esta altura: qual é a relação de causa e efeito entre a chegada das UPPs e essa política que chamo de “espalha-bandido”? Resposta: nenhuma! Até hoje ninguém conseguiu me explicar por que o policiamento comunitário não pode chegar com a efetiva prisão dos vagabundos que estavam dando as ordens no terreiro. Cabral não tem resposta para isso. Beltrame não tem resposta para isso. A imprensa adoradora de mitos não tem resposta para isso.

Os arquivos estão aí. O que venho afirmando desde que teve início essa política é que a sua consequência óbvia seria provocar a migração da bandidagem mais barra-pesada, especialmente os chefões do tráfico. Que se note: em todas as áreas em que há UPPs, a venda de drogas opera normalmente, sem dificuldades — e agora sem risco de invasão  de facções inimigas ou das milícias. Acabou, no entanto, aquele desfile acintoso de armas. A presença da polícia força o crime a ser mais discreto. É claro que já é um ganho. Só isso já justificaria a medida — que, insisto, é a regra. São raros os territórios do país realmente dominados pelo crime, como essas áreas do Rio.

A reportagem
A VEJA desta semana traz uma reportagem espantosa de Leslie Leitão — um repórter que certamente torce pela paz no Rio, sem, no entanto, perder a objetividade. Bandidos que Beltrame não prendeu nas favelas ditas “pacificadas” foram parar, entre outros destinos, no Complexo do Lins, hoje um dos QGs do narcotráfico. Um vídeo (clique aqui) traz o desfile do exército de  Paulo César Souza dos Santos, 41 anos, o “Paulinho Muleta”. À luz do dia, exibem fuzis, pistolas e munição pesada.

Até o fim do ano, consta, uma UPP chegará também ao Complexo do Lins. Tudo será feito conforme o decoro que tanto encanta os “amigos da paz”. Cabral e Beltrame anunciarão a data da “ocupação”. Paulinho Muleta e seus seguidores terão tempo se escafeder e de se aboletar em uma das quase 1200 favelas (deve-se falar “comunidades”, na linguagem político-cariocamente correta) aonde a Polícia ainda não chegou. Digamos que essa política se universalizasse e se estendesse a todo o estado… Bem, num raciocínio puramente lógico, deve-se inferir que o Rio passaria a ser exportador de bandidos…

Não! Eu não sou contra as UPPs. UPPs nada mais são do que o velho e bom policiamento comunitário. Não! Eu não acho que uma polícia deva ser pacificadora de bandidos. Sou daqueles que acreditam que ela tem de prender bandidos. Não! O Rio não é modelo se segurança pública para ninguém — ainda que conseguisse levar essas unidades a todas as favelas, o que não vai acontecer porque não há contingente pra isso. E, convenham, se o que se viu por lá tivesse ocorrido em São Paulo, os “especialistas” inundariam os jornais e sites para denunciar uma segurança pública está fora do controle. “Isso é chute, Reinaldo! Como você sabe o que diriam?” Com base na lógica! Mata-se no Rio mais do que o dobro do que se mata em São Paulo. Mas se diz por aí que Alckmin tem muito a aprender com Sérgio Cabral. Talvez na área de marketing…

Sim, eu torço por uma UPP no Complexo do Lins. E torço ainda mais para que Beltrame, este santo, comece a prender bandidos. Segue o texto de Leslie Leitão. Volto para encerrar.
*

O Complexo do Lins, um conjunto de onze favelas encravado na banda mais pobre da Zona Norte carioca, está sob o domínio da bandidagem há quatro décadas. Até recentemente, cumpria papel apenas secundário na organização da principal facção criminosa do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho. Mas os tempos agora são outros – e ainda mais nefastos. Um vídeo gravado no início do mês pela polícia e obtido com exclusividade por VEJA mostra que o lugar se converteu em um grande bunker do tráfico, servindo de abrigo a marginais refugiados de vários morros do Rio. Eles se bandearam para o Complexo do Lins justamente depois que o estado fincou em seus enclaves bases permanentes – as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) -, dificultando suas atividades. Preferiram assim se encastelar em um naco da cidade onde os bandidos é que dão as ordens.

As cenas trazidas a público espantam pela naturalidade com que a quadrilha perambula pelas vielas do novo QG do crime à luz do dia, promovendo um desfile de pistolas, granadas e fuzis, e espalhando o terror por onde passa. No vídeo, de cinco minutos e quarenta segundos, um dos bandidos ainda deixa entrever em um saco de lixo papelotes de cocaína, evidência inconteste de que as atividades da gangue só mudaram mesmo de endereço. Em outro trecho, o comboio armado cruza com um morador da favela, que não desgruda os olhos de uma pipa, obedecendo com disciplina à regra elementar da convivência com os criminosos: jamais encará-los. A cena, segundo a polícia, mostra a escolta de um dos chefões do tráfico na cidade, Paulo César Souza dos Santos, 41 anos, o PL, também conhecido como Paulinho Muleta, por ser manco da perna esquerda. Foragido desde 2009, esse marginal alastrou seu raio de poder por sete morros, entre a Zona Norte e a Baixada Fluminense. Mesmo longe de sua favela de origem, o Morro da Formiga (ocupado pela polícia em 2010), Muleta continua na ativa, agora reinando no Complexo do Lins, como revela de forma inequívoca o vídeo obtido por VEJA.

As imagens foram captadas a distância pelo Serviço Reservado do Batalhão de Choque da Polícia Militar e chegaram às mãos da Secretaria Estadual de Segurança, que determinou a instauração de um inquérito na delegacia da região. Nas últimas semanas, o Complexo do Lins foi palco de uma dezena de operações policiais – uma delas logo depois do Natal, quando uma menina de 10 anos foi atingida na cabeça por uma bala perdida e acabou morrendo no hospital por falta de atendimento médico. Nenhuma dessas ações recentes, no entanto, pôs um ponto final na farra da bandidagem. A geografia da área é um grande obstáculo, com seu emaranhado de becos e vielas e uma infinidade de acessos que se descortinam por matagais que só os bandidos conhecem como a palma da mão. A polícia está convicta de que muitas outras quadrilhas egressas de favelas com UPPs estão entocadas ali. “Essas imagens são apenas a ponta do iceberg. Sabemos que há um enxame de bandidos refugiado naquele complexo de favelas”, afirma um inspetor da 26ª DP, envolvido nas investigações.

O governo do estado já inaugurou trinta UPPs desde 2008. Se o cronograma for seguido à risca, as favelas do Lins também serão ocupadas pela polícia até o fim do ano. É boa notícia. A retomada de territórios do tráfico vem cumprindo o essencial papel de levar serviços básicos a cidadãos de bem que viviam à margem do poder público. Mas o atual vídeo deixa claro que essa é apenas uma de muitas etapas a ser percorridas. A estratégia oficial de não manter segredo sobre as ocupações, com o objetivo de reduzir os riscos de confrontos sangrentos, produz como efeito colateral a fuga maciça de traficantes que escapam com seus arsenais. “É preciso investir mais pesadamente na área de inteligência para rastrear os esconderijos dos traficantes, minar seu poderio bélico e capturá-los”, enfatiza o antropólogo e especialista em segurança Paulo Storani. Sem o cerco implacável à bandidagem, os cartões-postais do crime só vão mudar de cenário.

Encerro
Cabral e Beltrame já pacificaram bandidos o bastante; chegou a hora de prendê-los, ainda que também eles se deixem contaminar pelo barquinho que vai e pela tardinha que cai.

Por Reinaldo Azevedo

25/10/2012

às 18:09

Padilha não se envergonha de prometer três vezes a mesma coisa. Por quê? Ele quer é ser notícia!

O jornalismo brasileiro precisa passar por um verdadeiro processo de, se me permitem a expressão, “desassessorização de imprensa”. Os ganhos do jornalismo online são gigantescos. Mas, como tudo, há aspectos negativos. E um deles é pôr para circular a informação o mais rapidamente possível. Nos antigamentes, os textos jornalísticos traziam, no segundo parágrafo, o que se chamava “sublead”. A ele ficava reservado o detalhamento das circunstâncias em que se deu o fato principal noticiado.

Vamos ver. Está em todos os sites noticiosos que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, é favorável à Internação forçada de viciados em crack. Muito bem! Também se anuncia que o governo federal dará recursos à cidade do Rio, no âmbito do programa federal de combate ao crack. Tudo certo! Diz o ministro:
“O Ministério está garantindo o apoio à prefeitura do Rio para ampliar todos os serviços necessários para cuidar de forma adequada dos dependentes químicos e de seus familiares. A pedido do prefeito Eduardo Paes, vamos instalar mais consultórios de rua, unidades de acolhimento para internação, leitos psiquiátricos e convênios com comunidades terapêuticas. O prefeito ainda vai nos apresentar um detalhamento dessa nova demanda, mas já garantimos recursos para ampliarmos essa rede de cuidados e internação no Rio”.

Parabéns, doutor Padilha!

Agora vamos àquela antiga prática do sublead. No dia 22, escrevi aqui um post sobre a vergonhosa diferença de tratamento dispensada pela imprensa ao combate às cracolândias de São Paulo e Rio. O primeiro foi atacado de todas as formas possíveis; o segundo, elogiado. Havia duas diferenças entre um e outro: o poder público retomou a região na capital paulista quando já havia pronto um centro de tratamento de dependentes (o Complexo Prates; que não existe no Rio) e com aparato militar muito menor. Não obstante, em São Paulo juntaram-se para enxovalhar governo e prefeitura a imprensa, o Ministério Público, a Defensoria Pública, o PT, aquele padre que vive de joelhos para os “oprimidos”, a Maria Rita Kehl, a Maria do Rosário, o Alexandre Padilha, o Gilberto Carvalho  e quem mais quisesse dar uma opinião, desde que contra a ação. No Rio, não! Todo mundo foi a favor. Isso, por si, já é motivo de vergonha. Os que atacam a medida numa cidade e a defendem em outra não se sentem nem mesmo compelidos a expor os seus motivos. 

Traí vocês. Ainda não escrevi o sublead de antigamente. Ele vem agora: Padilha fez essas mesmas promessas em abril, há longos seis meses. De lá para cá, ainda não se moveu uma palha. Eu provo que falo a verdade com uma reportagem da Agência Brasil do dia 13 daquele mês (segue em vermelho):

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, defenderam hoje (13) a internação compulsória de adultos viciados em crack, durante o lançamento do programa “Crack, é possível vencer” para o Rio de Janeiro – uma parceira entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, criada em dezembro passado, com previsão de R$ 4 bilhões em recursos federais até 2014.
Segundo Padilha, o consumo de crack é uma epidemia no país e a internação involuntária de adultos deve ser uma decisão do médico que fizer o atendimento do dependente.

“A lei estabelece que, quando um profissional de saúde avalia que uma pessoa corre risco de vida ou coloca em risco a vida de outro, está previsto o mecanismo da internação involuntária. A pessoa deve ser levada para uma unidade de acolhimento ou um hospital para que se faça o tratamento”, afirmou o ministro.
Padilha disse que a internação é uma medida emergencial e que a reconstrução do projeto de vida dos dependentes do crack e sua reinserção em relação à família e à sociedade são fundamentais para a cura do vício.
“Essas internações devem ser feitas com todos os critérios e protocolos aprovados por especialistas, mas não podemos deixar essas pessoas à mercê da droga. São pessoas que perderam completamente o bom senso” afirmou o prefeito Eduardo Paes.
Há cerca de um ano, a prefeitura realiza internações compulsórias de crianças e adolescentes moradores de rua para tratamentos de cerca de seis meses. Atualmente, 117 crianças estão internadas em quatro abrigos da prefeitura.
Segundo a Secretaria de Assistência Social do estado, das cerca de 50 crianças que passaram pelo abrigamento compulsório até o momento, aproximadamente dez conseguiram reconstruir laços com a família ou foram acolhidas por “famílias substitutas”, que são remuneradas pela prefeitura.
Até o fim do ano, cerca de R$ 36 milhões serão repassados para os governos estadual e municipal para o combate ao crack. Estão previstas a criação de seis novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de atendimento 24 horas, a criação de 27 consultórios de rua, a instalação de 427 leitos em enfermarias especializadas e a qualificação de 71 leitos em hospitais gerais.
“Precisamos de médicos treinados para cuidar do dependente químico e pessoal da área policial capacitado. Por isso, um dos seguimentos do plano é dar capacitação aos agentes que vão atuar. É necessário multiplicar esse conhecimento e em cada estado estamos desenvolvendo unidades onde cursos serão dados”, afirmou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, também presente no evento.

Voltei
Mais ainda: a notícia que está hoje nos grandes portais já foi dada na segunda-feira, como se pode ver abaixo (em vermelho). Reproduzo texto do G1. Volto depois.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou nesta segunda-feira (22), que pretende criar, em caráter emergencial, cerca de 600 vagas para a internação compulsória de adultos dependentes de crack. Paes, no entanto, não estabeleceu prazos para o início da internação, já que precisa ser feito um estudo para ver onde serão instalados os centros de acolhimento e reabilitação.
O anúncio foi feito durante visita à comunidade do Jacarezinho, onde funcionava uma das maiores cracolândias da cidade.
Segundo a assessoria da Prefeitura do Rio, uma reunião de Paes e representantes do Ministério da Saúde e secretarias do setor está agendada para o dia 5 de novembro. Na ocasião, além da escolha dos locais para abrigar os centros de acolhimento, serão discutidos também os modelos das instalações e de tratamento.
Atualmente, somente os menores de idade – crianças e adolescentes – usuários de crack flagrados em situação de risco são internados compulsoriamente em unidades da Secretaria de Assistência Social.

Encerro
Entenderam? O buliçoso Padilha, já pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, tem conseguido, com a complacência do jornalismo, o milagre da multiplicação da notícia. As promessas que fez hoje estavam nos jornais do dia 13 de abril. Seis meses depois, foram repetidas  e viraram notícia (no dia 22 deste mês). Hoje, dia 25, a mesma coisa.

Às creches de papel e saliva, às casas de papel e saliva, às UPAs de papel e saliva, às quadras nas escolas de papel e saliva, aos postos policiais de papel e saliva, somam-se agora os centros de tratamento de viciados de… papel e saliva.

Com a conivência da imprensa. A gestão petista entrará para a história como a melhor que um dia disseram que o Brasil teve.

Por Reinaldo Azevedo

22/10/2012

às 18:42

São Paulo, Rio e o jornalismo. Ou: Males opostos e combinados

São Paulo faz bem e faz mal ao espírito crítico do jornalismo. O Rio também. São situações opostas, porém combinadas. Posso explicar?

Em São Paulo, jornalista é pago para desconfiar das autoridades — especialmente se elas forem não-petistas (ou, mais amplamente, estiverem fora do arco do lulismo). Há um lado bom nisso. Jornalista tem mesmo de ser crítico, desconfiado. Há o lado ruim: quem não sabe dosar as contraditas acaba atacando até o que deveria ser elogiado. Pior: pautados pela ideologia ou por afinidades eletivas, o fato frequentemente é espancado em benefício do norte moral adotado pelo observador ou pelo veículo. Assim se deu com a retomada da cracolândia. Houve uma quase unanimidade contra a ação do poder público. Só a população apoiou.

No Rio, o jornalismo parece ser pago para dar um voto de confiança às autoridades, especialmente se elas estiverem sob o guarda-chuva do lulismo. Há um lado bom nisso. Jornalistas podem apoiar o que consideram correto, especialmente se beneficiarem a população. Há o lado ruim: quem não sabe dosar o aplauso acaba elogiando até o que deveria ser criticado. Pior: pautados pela ideologia ou por afinidades eletivas, o fato frequentemente é espancado em benefício do norte moral adotado pelo observador ou pelo veículo. Assim se dá com a chegada das UPPs aos morros — um bem em si, que traz consigo, não obstante, a fuga em massa de criminosos, que não são presos. Há uma quase unanimidade em favor da ação. Estou entre os poucos críticos.

Muito bem. Eu quero que vocês leiam o que informa o Portal G1 hoje (em vermelho). Prestem bem atenção.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou nesta segunda-feira (22), que pretende criar, em caráter emergencial, cerca de 600 vagas para a internação compulsória de adultos dependentes de crack. Paes, no entanto, não estabeleceu prazos para o início da internação, já que precisa ser feito um estudo para ver onde serão instalados os centros de acolhimento e reabilitação.
O anúncio foi feito durante visita à comunidade do Jacarezinho, onde funcionava uma das maiores cracolândias da cidade.
Segundo a assessoria da Prefeitura do Rio, uma reunião de Paes e representantes do Ministério da Saúde e secretarias do setor está agendada para o dia 5 de novembro. Na ocasião, além da escolha dos locais para abrigar os centros de acolhimento, serão discutidos também os modelos das instalações e de tratamento.
Atualmente, somente os menores de idade – crianças e adolescentes – usuários de crack flagrados em situação de risco são internados compulsoriamente em unidades da Secretaria de Assistência Social.

Voltei
Está claro, certo? O prefeito quer criar 600 vagas em caráter emergencial para a internação compulsória. E não há prazo. A reunião com o governo federal só acontecerá daqui a 14 dias. Tudo claro? Claro!

Então agora peço que vocês leiam reportagem da Agência Brasil de 13 de abril de 2012, que foi reproduzida em praticamente todos os veículos de comunicação. FAZ SEIS MESES. Também em vermelho.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, defenderam hoje (13) a internação compulsória de adultos viciados em crack, durante o lançamento do programa “Crack, é possível vencer” para o Rio de Janeiro – uma parceira entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, criada em dezembro passado, com previsão de R$ 4 bilhões em recursos federais até 2014.
Segundo Padilha, o consumo de crack é uma epidemia no país e a internação involuntária de adultos deve ser uma decisão do médico que fizer o atendimento do dependente.

“A lei estabelece que, quando um profissional de saúde avalia que uma pessoa corre risco de vida ou coloca em risco a vida de outro, está previsto o mecanismo da internação involuntária. A pessoa deve ser levada para uma unidade de acolhimento ou um hospital para que se faça o tratamento”, afirmou o ministro.
Padilha disse que a internação é uma medida emergencial e que a reconstrução do projeto de vida dos dependentes do crack e sua reinserção em relação à família e à sociedade são fundamentais para a cura do vício.
“Essas internações devem ser feitas com todos os critérios e protocolos aprovados por especialistas, mas não podemos deixar essas pessoas à mercê da droga. São pessoas que perderam completamente o bom senso” afirmou o prefeito Eduardo Paes.
Há cerca de um ano, a prefeitura realiza internações compulsórias de crianças e adolescentes moradores de rua para tratamentos de cerca de seis meses. Atualmente, 117 crianças estão internadas em quatro abrigos da prefeitura.
Segundo a Secretaria de Assistência Social do estado, das cerca de 50 crianças que passaram pelo abrigamento compulsório até o momento, aproximadamente dez conseguiram reconstruir laços com a família ou foram acolhidas por “famílias substitutas”, que são remuneradas pela prefeitura.
Até o fim do ano, cerca de R$ 36 milhões serão repassados para os governos estadual e municipal para o combate ao crack. Estão previstas a criação de seis novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de atendimento 24 horas, a criação de 27 consultórios de rua, a instalação de 427 leitos em enfermarias especializadas e a qualificação de 71 leitos em hospitais gerais.
“Precisamos de médicos treinados para cuidar do dependente químico e pessoal da área policial capacitado. Por isso, um dos seguimentos do plano é dar capacitação aos agentes que vão atuar. É necessário multiplicar esse conhecimento e em cada estado estamos desenvolvendo unidades onde cursos serão dados”, afirmou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, também presente no evento.

Voltei
Entenderam? Em seis meses, o tal programa federal não saiu do papel. Não passa de uma fantasia. São Paulo retomou a área conhecida como Cracolândia e ofereceu, ao mesmo tempo, o Complexo Prates para atender aos dependentes.

– A imprensa escrita foi contra.
– As TVs foram contra.
– A Defensoria Pública foi contra.
– O Ministério Público foi contra.
– O PT, como sempre!, foi contra.
– A Maria do Rosário foi contra.
– O Gilberto Carvalho foi contra.
– O José Eduardo Cardozo foi contra.
– O Alexandre Padilha foi contra.
– O Fernando Haddad foi contra.

Só a população foi a favor. O prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin tinham de dar entrevistas defensivas a respeito, como se tivessem cometido um crime.

O Rio resolveu retomar uma de suas 10 cracolândias — o que, em si, reitero, é correto. Mas não havia algo como o Complexo Prates.
– A imprensa escrita foi a favor.
– As TVs foram a favor.
– A Defensoria Pública foi a favor.
– O Ministério Público foi a favor.
– O PT, como sempre!, foi a favor.
– A Maria do Rosário foi a favor.
– O Gilberto Carvalho foi a favor.
– O José Eduardo Cardozo foi a favor.
– O Alexandre Padilha foi a favor.

Agora peço que vocês cotejem a reportagem de hoje com a de seis meses atrás. A imprensa — não me refiro à reportagem do G1 em particular, mas ao conjunto — nem mesmo se dedica a cobrar das autoridades o cumprimento da palavra. Ou acusa o descumprimento.

Concluo: não é São Paulo que faz bem ou mal ao jornalismo. Não é o Rio que faz bem ou mal ao jornalismo. No Rio, em São Paulo ou em qualquer lugar, o que faz mal ao jornalismo é a agenda que está além dos fatos.

Há, obviamente, uma agenda contra os poderes instituídos em São Paulo.
Há, obviamente, uma agenda a favor dos poderes instituídos no Rio.

Por Reinaldo Azevedo

21/10/2012

às 3:29

São Paulo, Rio e suas cracolândias. Ou: O jornalismo quando decide fazer política é uma droga

Há algum tempo estou para escrever este texto. Só não o fiz antes por conta das urgências do dia (ou dos dias), como o julgamento do mensalão, eleições etc. O tema é delicado, sim. Mas estamos aqui justamente para tratar de delicadezas. Todos assistimos ao início do que é chamado de “processo de pacificação” das favelas de Manguinhos e do Jacarezinho, no Rio. Na segunda, houve resistência armada, que foi vencida. Na primeira, as forças de segurança avançaram sem maiores dificuldades.

Em Manguinhos está a maior das 11 cracolândias do Rio — juntas, somam, estima-se, pelo menos três mil usuários de crack. Façam um teste. Recorram aos arquivos. Aliás, recomendo que os jornalistas, especialmente dos de TV — e de todas as emissoras — façam o mesmo. Vejam qual foi o tom da cobertura. SEM EXCEÇÃO, AS REPORTAGENS FORAM FAVORÁVEIS À AÇÃO DA POLÍCIA. E nem poderia ser diferente. Ou poderia?

Ah, poderia, sim! Foi diferente em São Paulo. Quando a Prefeitura da Capital e a Polícia Militar resolveram retomar uma parte do Centro da cidade, que havia sido sequestrada por viciados e traficantes, houve uma espécie de unanimidade contra — só a população ficou a favor. Todos os jornais paulistanos e todas as emissoras, incluindo a TV Globo, trataram a ação da PM e da Prefeitura como um ato de desumanidade e violência. Mobilizaram-se na crítica à retomada da área políticos do PT, a Defensoria Púbica, uma parte do Ministério Público, o padre Júlio Lancelotti, uma miríade de ONGs que vivem de proxenetar aqueles pobres desgraçados e, claro!, a quase totalidade dos jornalistas que iam lá fazer a cobertura. A menor das acusações que pesavam contra a o Poder Púbico era a de espalhar os viciados, impedindo o suposto trabalho de reinserção social que ONGs estariam promovendo por ali.

Todas essas forças, no fundo, irmanavam-se no esforço de impedir que o estado se comportasse como estado. Houve quem anunciasse a disposição de denunciar a ação da Polícia e da Prefeitura a cortes internacionais. E as TVs lá, sem exceção, a dar curso aos delírios dos exploradores da desgraça alheia. Atenção! Prefeitura e estado só promoveram essa ação porque, no local, havia sido inaugurado o Complexo Prates para atendimento aos viciados. Uma parte se dispersaria? Sim, era fatal que isso acontecesse, entre outros motivos, porque a lei proíbe a internação compulsória dos viciados. A resistência à correta ação da Prefeitura e do Estado fez até uma “musa”: a defensora pública Daniela Skromov, a predileta da imprensa paulista. Eu até lhe dediquei um texto, perscrutando, inclusive, as suas, digamos, afinidades eletivas.

Não parou por aí, não! A ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, resolveu meter o bico em São Paulo. Fez o mesmo o ministro Gilberto Carvalho, da secretária-geral da Presidência. Alexandre Padilha, da Saúde, não ficou atrás. Assim, TVs, jornais, defensoria, MP e Palácio do Planalto se irmanaram contra a ação em São Paulo.

E no Rio?
Ah, no Rio foi diferente.

No Rio, o vice-prefeito é do PT.
No Rio, o PT integra o governo Sérgio Cabral.
No Rio, não houve Defensoria Pública para criticar.
No Rio, não houve Ministério Público para censurar.
No Rio, não houve ministros do governo Dilma para fazer baixo proselitismo político.
No Rio, não houve imprensa para se compadecer com os viciados.

Ao contrário: José Mariano Beltrame deu um entrevista coletiva, e os repórteres, para não variar sempre que ele dá seus pronunciamentos, ouviram tudo em bovino silêncio. Como ele fala baixo e devagar, sempre resta a suspeita de que tenha algum pensamento secreto.

Ora, o que se seguiu à ocupação de Manguinhos? Os viciados, por óbvio, se espalharam — e uma parte voltou ao local horas depois. São Paulo assistiu a coisa parecida, o que bastou para que aqueles mesmos que censuraram a ação em uma cidade aplaudissem em outra. E não que tudo fosse rigorosamente igual. No Rio, não há onde tratar os dependentes.

As clínicas de papel e saliva de Dilma
Reitero: a cidade de São Paulo, que retomou a chamada área da Cracolândia ao mesmo tempo em que inaugurava um megacentro de tratamento de dependentes, apanhou do jornalismo que deu gosto. No Rio, debaixo de uma chuva de elogios, assistiu-se à dispersão dos viciados, que não teriam a quem recorrer ainda que quisessem. Informava Pâmela Oliveira na VEJA.com na quarta passada:

As duas clínicas conveniadas com o estado do Rio, que ofereciam 180 vagas para internação de dependentes químicos, estão sem contrato com a Secretaria Estadual de Assistência Social desde o dia 19 de agosto. O problema não é só a impossibilidade de realizar novas internações: além de não internar quem é recolhido, os dependentes que estavam em tratamento receberam alta. Uma das clínicas, ligada à Associação Nova Aliança, em Valença, mantém 18 pacientes dependentes de crack por conta própria na unidade. Já a clínica de Recuperação Michele de Morais, em Santa Cruz, deu alta aos pacientes no fim de agosto. O problema não ocorre por inexistência de verba, mas a falta de uso do dinheiro disponível. VEJA apurou que, até outubro deste ano, o governo do estado havia empenhado apenas 10 milhões de reais dos 29 milhões previstos no orçamento para enfrentar o crack e outras drogas. O que foi efetivamente destinado é apenas 34% do que foi reservado para o ano. As informações estão no Sistema de Administração Financeira de Estados e Municípios (Siafem).

Imaginem se algo parecido acontecesse em São Paulo… Mas não! O Rio será o centro da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Criticar a gestão da cidade e do estado parece ser falta de patriotismo, não é mesmo?

O que se produziu na cidade, aí sim, foi muita conversa mole. Lembram-se do programa de Dilma de combate ao crack, uma promessa de campanha, cujo início foi anunciado, não faz tempo, com pompa e solenidade? Cadê? Eu os remeto a um texto publicado pela Secretaria de Saúde do Estado do Rio no dia 13 de abril deste ano. Vejam que maravilha (em vermelho):
O Governo do Estado e a Prefeitura do Rio formalizaram, na manhã desta sexta-feira (13/4), no Palácio da Cidade, em Botafogo, a adesão ao Programa Crack, É Possível Vencer, uma ação conjunta dos ministérios de Justiça, Saúde, Desenvolvimento Social e Combate à Fome e secretarias da Casa Civil e de Direitos Humanos. O secretário-chefe da Casa Civil, Regis Fichtner, representou o governador Sérgio Cabral na solenidade de assinatura do termo de adesão, ao lado do prefeito Eduardo Paes. Pelo governo federal, assinaram o documento os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Saúde, Alexandre Padilha.
O convênio envolve os três níveis de governo com o objetivo de aumentar a oferta de tratamento de saúde e atenção aos usuários de drogas, enfrentar o tráfico e as organizações criminosas e ampliar atividades de prevenção na capital do estado. A União deverá repassar para o Rio de Janeiro cerca de R$ 240 milhões até 2014 para desenvolvimento das ações da campanha. No país todo, os investimentos chegam a R$ 4 bilhões.
Durante a cerimônia, Fichtner anunciou que o governador Sérgio Cabral assina nesta sexta-feira um decreto criando uma comissão estadual de apoio aos municípios no combate ao crack e às drogas em geral. A comissão será coordenada pelo secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves, e será composta também por representantes das secretarias da Casa Civil, de Saúde, de Segurança e de Educação.

Voltei
O que se fez desde aquela data, além de solenidade e promessa? Se São Paulo quis cuidar dos seus doentes, teve de fazer seu próprio centro de tratamento. No Rio, a parceria com o governo federal resultou em absolutamente nada nessa área. No dia 17, Daphne Braga, diretora de abordagem da Secretaria Municipal de Assistência Social, afirmava ao jornal O Globo: “A prefeitura não tem clínicas para internar adultos dependentes de crack. A gente encaminha para os Centros de Atenção Psicossocial, que tratam transtornos mentais, não só casos de crack. Mas não é uma internação”.

Quero que me entendam direito. Não estou aqui a afirmar que o poder público fez mal em intervir em uma das cracolândias do Rio. Fez muito bem! Ainda que não existam centros de tratamento dos dependentes, não se pode permitir que uma área da cidade seja sequestrada por essas pessoas. É o que penso em São Paulo. É o que penso no Rio. Eu não mudo de ideia porque muda o céu. Dado que a lei impede que se interne alguém à força, é evidente que os usuários tendem ou a migrar para outras áreas ou a voltar para o lugar em que estavam — de onde precisam ser retirados de novo, ora!

O ponto que me interessa é outra coisa: quando se fizeram as intervenções armadas no Rio, onde estavam todas aquelas forças e aquelas pessoas que satanizaram a Prefeitura e a polícia em São Paulo? E olhem que, na capital paulista, a ação das forças da ordem foi mais sutil. Na capital fluminense, lembrou uma operação de guerra mesmo, de retomada de território antes conquistado pelo inimigo.

Reitero: a mesma imprensa que mandou as autoridades para a forca em São Paulo transformou em heróis as que promoveram ação idêntica no Rio, com o agravante de que os viciados, caso quisessem, não teriam onde obter tratamento especializado. A reação, em suma, à ação das autoridades em São Paulo já era parte da satanização do poder público na cidade, que tem óbvios efeitos eleitorais — como tem efeitos eleitorais a heroicização das autoridades do Rio.

O jornalismo que assim procede está fazendo política. E isso é uma droga.

Por Reinaldo Azevedo

21/10/2012

às 1:45

SEGURANÇA – O milagre de Sérgio Cabral e Beltrame, sob o silêncio cúmplice da quase totalidade da imprensa, inclui a indústria da extorsão. A piada é que modelo é considerado exemplo para o Brasil! VEJA cumpre a obrigação do jornalismo e conta o que sabe!

De todas as tolices que se afirmam sobre o meu blog e aquilo que penso ou deixo de pensar, uma das maiores sustenta que sou “contra o processo de pacificação das favelas do Rio”. Afirmar que alguém é contra a “pacificação” de qualquer coisa é como acusar a pessoa em questão de se opor à Lei da Gravidade, ao Teorema de Pitágoras ou à Terceira Lei de Newton. É só uma forma canalha de ignorar o que diz um crítico, reduzindo suas objeções a uma caricatura, para não ter de responder a questões pertinentes que ele propõe. É evidente que não sou contrário à “pacificação” do que quer que seja: das favelas do Rio, do Curdistão ou da Caxemira. O busílis é outro. Eu quero saber é a que diabos, no Rio, chamam “pacificação”, com o apoio bovino da imprensa e o consequente endeusamento de José Mariano Beltrame, tornado uma espécie de profeta da nova era da segurança. Há pessoas que falam alto e aceleradamente na esperança de que o fluxo frenético de palavras se confunda com energia. Há pessoas que falam baixo e pausadamente na esperança de que a lentidão seja tomada por prudente racionalidade. 

Cinturão Vermelho
Profeta uma ova! Nova era de segurança uma pinoia! Beltrame atende a duas necessidades do Cinturão Vermelho do Rio. O tal cinturão é a região que concentra todos os socialistas da cidade. Começa ali em Botafogo e vai até o Leblon. Nunca antes na história destepaiz houve tantos “socialistas” com vista para o mar. E quais são as suas duas necessidades? Eles sinceramente querem que a população dos morros tenham um pouco mais de direitos — em parte, as ditas UPPs atendem a esse fundamento. Mas também querem “paz”. É uma gente vocacionada para a bata branca e a integração entre o morro e o asfalto. Logo, confronto entre polícia e bandido está fora da paisagem. “Isso é coisa de São Paulo”, a gente aprende nas reportagens de TV (volto ao tema num post sobre cracolândias). Isso é coisa de quem não tem vista para o mar.

Assim, as UPPs de Beltrame avançam, e a bandidagem se dispersa, sabe-se lá para onde. Aonde quer que vá, o certo é que está longe da imprensa. O grande trabalho de José Mariano Beltrame, o Beato da Integração de Classes, tem sido recuperar os cartões-postais do Rio, para gáudio dos socialistas do Cinturão Vermelho.

Uma política de segurança que não enfrenta a bandidagem e a banda podre da própria polícia é uma de duas coisas: ou se trata do milagre da conversão dos vagabundos à vida decente e honesta ou de uma formidável maquiagem da violência, operada com a conivência de setores da imprensa, que passam a ser cúmplices da fraude. Infelizmente, no Rio, a alternativa correta é a B. Bem, ninguém deve contar com a VEJA para essa cumplicidade, como de hábito — nem para outra qualquer.

Que a política de Beltrame — o garoto-propaganda de Sérgio Cabral, especialista na dança dos Sete Lenços — espalhe criminosos, isso já é sabido. Reportagem de Leslie Leitão na VEJA desta semana demonstra um outro desdobramento perverso: a elevação do, por assim dizer, profissionalismo do banditismo policial, que agora se especializa em sequestrar familiares de traficantes presos e extorquir a bandidagem. Não obstante, a se dar crédito ao que se vê na TV e se lê em certa imprensa, a política de segurança do Rio é de tal sorte bem-sucedida que deveria servir de modelo ao país.

Nos últimos tempos, quem está debaixo de vara, inclusive da imprensa paulistana — que odeia a sua cidade e o seu estado na mesma proporção em que a carioca ama os seus respectivos —, é a segurança pública de São Paulo, embora a chance de um paulista morrer assassinado corresponda a quase um terço à de um fluminense. E não que São Paulo deva se orgulhar de seus índices no cotejo com o mundo desenvolvido; estão, no entanto, entre os melhores do país.

Leiam trecho da reportagem de Leslie Leitão. A VEJA, como sempre, chama as coisas pelo nome, mesmo quando, como é o caso da Sucursal do Rio, consegue divisar o mar, o barquinho que vai e a tardinha que cai.
*
A indústria da extorsão

Apolítica de retomada de territórios do tráfico de drogas no Rio de Janeiro permitiu a entrada do poder público e de serviços essenciais em áreas antes inacessíveis ao estado e enfraqueceu o crime organizado em alguns de seus maiores redutos. Os avanços acabaram por produzir um efeito colateral sinistro — prova inequívoca de que os maus policiais estão em plena ação. Ao verem escassear as chances de achaque a marginais que antes lhes pagavam para transitar impunemente com seus fuzis, os bandidos de farda encontraram uma nova e rentável fonte de arrecadação de dinheiro sujo. Amparados por esquemas sofisticados, eles montaram uma verdadeira máquina de sequestrar e extorquir os criminosos e seus parentes, valendo-se da garantia da impunidade. Enquanto esse tipo de crime prolifera, as quadrilhas fardadas ganham poder e alastram-se pela cidade. As estatísticas oficiais escamoteiam o vulto do fenômeno. VEJA cruzou histórias relatadas por vítimas, advogados, negociadores, investigadores e especialistas em segurança pública e chegou a um total de 47 desses casos desde 2009. Apenas oito deles foram registrados. Diretor da Delegacia Antissequestro (DAS), Claudio Gois reconhece que seu trabalho tem hoje pouco a ver com a modalidade “clássica” de sequestro, em que a vítima é um cidadão de bem. Ele diz: “Atualmente, os sequestros no Rio são quase todos cometidos por bandos de policiais corruptos”.

A leniência que reina na corporação em relação à banda podre, aliada à situação das vítimas — que muitas vezes são criminosos foragidos ou parentes que temem a polícia —, torna esse crime raramente investigado e quase nunca punido. No único caso em que um policial foi preso em flagrante, em maio deste ano, a vítima, que havia reconhecido na delegacia os homens que o abordaram, voltou atrás quando o processo chegou à Justiça. Com isso, o policial militar Maikel Fernando Ribeiro Fonseca, 32 anos, e outros dois PMs acusados do mesmo delito estão prestes a ser libertados. Apesar da zona de sombra que paira sobre tal atividade criminosa, é possível depreender, a partir dos dados em poder dos investigadores, um padrão nos sequestros praticados pelos homens da lei. Ao planejar o crime, a primeira providência é sempre recrutar para a quadrilha um PM do batalhão da região onde ele será cometido. Cabe a esse policial não só apontar os “melhores alvos”, como repassar aos comparsas os esquemas de patrulhamento e o perfil dos policiais da área. Querem certificar-se de que são do tipo que lhes fará vista grossa. Com esses elementos, os bandos fardados sentem-se confiantes, tanto que atuam ostensivamente, à luz do dia e em vizinhanças movimentadas.

Um dos cenários mais frequentes desses sequestros é a porta do complexo penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste carioca. Todos os dias, formam-se ali gigantescas filas com parentes e amigos dos 17 000 detentos. Entre os comerciantes do entorno, não é difícil encontrar quem tenha presenciado a cena: homens armados aparecem em um carro com vidros fumês e capturam familiares de traficantes financeiramente poderosos, sem se preocupar nem mesmo em esconder o rosto. Às vezes, fazem tudo a bordo de uma viatura oficial. Um dos alvos, a mulher de um integrante do alto escalão do Comando Vermelho, encarcerado em Bangu 3, conta: “Me sequestraram quatro vezes. Na última, paguei 100 000 reais”. Ela foi alvo de uma modalidade que já tem até apelido no submundo da bandidagem de farda: “repeteco”. No último dia 5 de setembro, foram capturadas na porta de uma escola a mulher de um chefão e a filha, uma menina de 2 anos. Elas passaram quatro dias em cativeiro. Um dos maiores fornecedores de cocaína para a Rocinha e outras favelas da Zona Sul, Cristiano de Sá Silva, conhecido como Abelha, também caiu na rede dos policiais. O sequestro durou uma semana, até que seus comparsas fizeram um rateio e amealharam meio milhão de reais para libertá-lo.

Em favelas onde há Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o sequestro de bandidos e seus familiares é ainda mais trivial, já que ali não há mais marginais ostensivamente armados para opor resistência. Além disso, alguns dos cabeças das gangues dessas favelas estão presos, o que deixa os parentes mais vulneráveis a esse tipo de estocada. Pelo menos cinco dos casos apurados por VEJA tiveram como palco áreas de UPP.

Leia íntegra na revista

Por Reinaldo Azevedo

17/10/2012

às 21:39

Rio não tem onde internar dependentes de crack

Caros, vou voltar a este assunto mais tarde. Fiquem agora com uma reportagem da VEJA.com. Que coisa, não é? Então as soluções mágicas não existem nem no… governo Sérgio Cabral.

Viciados em crack fogem da abordagem da prefeitura do Rio (Rodrigo Melo de Carvalho/Divulgação SMAS)

Por Pâmela Oliveira:
Passada a ocupação policial na maior cracolândia do Rio de Janeiro, na região das favelas de Manguinhos e Jacarezinho, o que se viu foi apenas uma mudança de endereço dos pontos de concentração de usuários da droga. E não há, no momento, como ser diferente. Apesar de o poder público ter anunciado o “recolhimento” de mais de 200 dependentes de crack nesses locais, o estado do Rio está, no momento, sem nenhuma clínica onde tratar esses pacientes adultos.

As duas clínicas conveniadas com o estado do Rio, que ofereciam 180 vagas para internação de dependentes químicos no Rio, estão sem contrato com a Secretaria Estadual de Assistência Social desde o dia 19 de agosto. O problema não é só a impossibilidade de realizar novas internações: além de não internar quem é recolhido, os dependentes que estavam em tratamento receberam alta.

Uma das clínicas, ligada à Associação Nova Aliança, em Valença, mantém 18 pacientes dependentes de crack por conta própria na unidade. Já a clínica de Recuperação Michele de Morais, em Santa Cruz, deu alta aos pacientes no fim de agosto. O problema não ocorre por inexistência de verba, mas a falta de uso do dinheiro disponível. VEJA apurou que, até outubro deste ano, o governo do estado havia empenhado apenas 10 milhões de reais dos 29 milhões previstos no orçamento para enfrentar o crack e outras drogas. O que foi efetivamente destinado é apenas 34% do que foi reservado para o ano. As informações estão no Sistema de Administração Financeira de Estados e Municípios (Siafem).

O combate à mais mortal das drogas não é simples. E mesmo com todos os recursos, os profissionais que lidam com dependência química relatam a dificuldade de recuperar os usuários das pedras, vendidas por poucos reais em bocas de fumo espalhadas por cidades do Brasil inteiro.

Desde o último domingo, 259 usuários foram retirados das ruas, mas muitos voltam sem se submeter a qualquer tratamento. Na manhã desta quarta-feira, em meia hora, a Secretaria Municipal de Assistência Social Recolheu 30 dependentes – muitos tinham migrado da cracolândia do Jacarezinho para uma nova cracolândia no Parque União, na altura de Bonsucesso.

O crack recebeu destaque no discurso de posse da presidente Dilma Rousseff. A previsão do governo federal é de, até 2014, investir 4 bilhões de reais em programas de prevenção, tratamento e combate ao tráfico do crack.

Crianças
O município do Rio foi o primeiro a instituir, por decreto, a internação compulsória de menores de idade diagnosticados como dependentes do crack. A prefeitura fez valer, com a medida, o papel constitucional do município de zelar pela infância. Para internar um dependente contra sua vontade em um dos abrigos públicos, basta que a equipe de assistência social identifique que o menor não tem endereço ou responsável localizável. Os abrigos receberam críticas da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e do Conselho Regional de Psicologia, por não apresentarem condições adequadas para o tratamento dos menores.

Leiam ainda:
“Faixa de Gaza”: Traficantes e usuários de crack só mudam de lugar 

Por Reinaldo Azevedo

15/10/2012

às 7:05

Sim, acompanhei cada VERSO da “ocupação” de Manguinhos e Jacarezinho, no Rio. Não me comovo com má poesia!

É claro que eu vi na televisão a operação de “pacificação” do Complexo de Manguinhos e da favela do Jacarezinho, no Rio. Acompanhei cada verso! Sim, leitores, falo em “verso” porque, em matéria de UPP e José Mariano Beltrame, boa parte da imprensa, especialmente a televisão, prefere a poesia — e poesia de péssima qualidade — ao jornalismo. Ontem, houve até reportagem que terminou com crianças sorrindo. Quando a imprensa apela a um clichê, ou não tem o que informar ou tem o que esconder. É batata!

Os policiais chegaram, os bandidos evaporaram, e Beltrame concedeu uma entrevista coletiva em que exaltou o ambiente de paz em que tudo se deu. Já são 30 “comunidades” — “favela”, agora, só em São Paulo! — “pacificadas”. Parece haver pouco mais de 1.200. Entendo. O importante é começar.

Ao exaltar a paz da ocupação, entendi que a bandidagem deu no pé. Dali, foi para algum outro lugar, aonde a “pacificação” ainda não chegou. Cinco traficantes pés de chinelo foram presos. Os chefões do tráfico sumiram. Mas o Rio, aquele pedaço ao menos, segundo entendi, voltou a sorrir.

Se um dia o Rio conseguir espantar todos os seus bandidos, os estados fronteiriços é que terão problemas, não é mesmo?

Não! Não venham me pedir versos. Não que não goste deles ou que já não os tenha até mesmo cometido. É que prefiro, nesses casos, a lógica. Os bandidos que Beltrame não prende ficam soltos. Como não mudam de ramo, apenas de rumo, vão fazer vítimas em outro lugar. Como sou um cara bacana, aceito que tentem provar que estou errado.

Por Reinaldo Azevedo

02/10/2012

às 6:43

Procurador vê abuso de poder político em acordo no Rio

Por Antonio Pita, no Estadão:
O Ministério Público Eleitoral do Rio decidiu abrir um procedimento administrativo para apurar as denúncias de que o PMDB da cidade teria oferecido R$ 1 milhão para garantir o apoio do PTN à campanha de reeleição do prefeito Eduardo Paes.

Ontem, o procurador regional eleitoral do Rio, Maurício Rocha Ribeiro, disse que o caso configura abuso de poder político e econômico e recomendou a investigação. Os adversários de Paes entraram com representações no MPE para a investigação das denúncias.

De acordo com o MPE não há prazo para definir se é necessário ou não abrir o inquérito – o procedimento administrativo é preliminar à investigação. A Procuradoria disse ter determinado diligências para apurar as denúncias, como a coleta de depoimentos de testemunhas e a recuperação da gravação veiculada pelo site da revista Veja, na qual o presidente do PTN, Jorge Sanfins Esch, afirma a correligionários que aceitou receber R$ 1 milhão para apoiar a reeleição de Paes.

Parte do dinheiro, cerca de R$ 200 mil, seria destinada a apoiar a campanha de candidatos a vereador pelo partido. O restante, R$ 800 mil, seria para o pagamento de uma suposta dívida de um processo administrativo aberto por Esch contra a prefeitura quando ele era funcionário. O processo foi indeferido e arquivado em dezembro.

Outros partidos. O procurador regional eleitoral disse ontem que o MPE deve investigar não apenas o PTN, mas também outros partidos da coligação do prefeito. O procurador precisa aguardar providências da primeira instância do MP e só atuará se for aberto processo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Por Reinaldo Azevedo

28/07/2012

às 8:37

Rio, São Paulo, a violência, a imprensa e as diferenças

O Rio viu cair o índice de homicídios, embora ele seja ainda bastante alto — o dobro do de São Paulo, que também é elevado, sim, mas um dos mais baixos do país, com queda de mais de 70% em 12 anos. A vida dos policiais fluminenses também não é fácil. Erros acabam acontecendo. Ontem, numa operação na Favela da Quitanda, em Costa Barros, uma menina foi morta numa troca de tiros entre o Bope e traficantes. Bruna da Silva Ribeiro, de 11 anos, levou um tiro na barriga. Foi internada, mas, infelizmente, não resistiu. Os policiais estavam à caça dos bandidos que tinham atacado uma UPP e matado uma policial.

Antes mesmo de saberem que a menina havia morrido, os moradores da área protestaram contra a ação da polícia. Pararam um ônibus e o incendiaram. No fim de junho, Taiane Medeiros, de 20 anos, morreu numa outra troca de tiros entre policiais e traficantes perto da Favela do 48, em Bangu, Zona Oeste. Dois dias antes, tinha sido a vez de Rosiléia de Oliveira da Silva, de 19 anos, também durante uma incursão de policiais, desta feita no morro do Chapadão, na Pavuna. Ela estava dentro de casa, coma a filha de um ano no colo, que também se feriu.

Anteontem, policias da UPP do Andaraí mataram dois jovens, um de 18 e outro de 21 anos. O PMs afirmam que eram traficantes, estavam armados e atiraram contra uma patrulha. Os dois morreram com um único tiro de fuzil, calibre 7.62 — acertou o rosto de um e a nuca do outro. A família e vizinhos dizem que eles não estavam traficando e que se tratou de uma execução.

Três mortos por balas perdidas durante operações policiais em um mês, ônibus queimado, acusações de execução sumária, um tiro matando dois, atingindo rosto e nuca… E nada disso vai gerar reação histérica da imprensa e dos ditos “especialistas”. Até porque, por mais lamentáveis que sejam as ocorrências — e são —, não é mesmo o caso. É preciso antes apurar o que aconteceu.

São Paulo não tem por que invejar a segurança pública do vizinho — fosse o caso, haveria de ser o contrário… Vai demorar até que o Rio reduza à metade os mortos por 100 mil habitantes. O que chama a minha atenção é a diferença de tratamento dispensada a um estado e a outro. No Rio, não importa o que aconteça, sempre se está no caminho certo. Por aqui, não importa o que aconteça, sempre se está no caminho errado.

Chegou a hora de a imprensa parar de fuzilar o bom senso. A diferença de tratamento é escandalosa e injustificada.  Ponto.

Texto publicado originalmente às 7h45
Por Reinaldo Azevedo

21/07/2012

às 0:39

Datafolha Rio – Com 54%, Paes seria reeleito no primeiro turno

Por Italo Nogueira, na Folha Online:
O prefeito Eduardo Paes (PMDB) inicia a campanha à reeleição com 54% das intenções de voto, segundo o Datafolha –o que lhe garantiria a vitória no primeiro turno. Em segundo lugar estão em empate técnico o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), com 10%, e o deputado federal Rodrigo Maia (DEM), com 6%. O deputado federal Otávio Leite (PSDB) aparece com 4%. A margem de erro da pesquisa, realizada na quinta-feira (19) e nesta sexta-feira (20), é de três pontos percentuais. Foram entrevistadas 927 pessoas.

O resultado mostra o desafio dos adversários do prefeito para provocar um segundo turno em razão da megaestrutura de campanha montada pelo peemedebista. Apoiado por 20 partidos, Paes tem direito a mais da metade do tempo de propaganda de TV a partir de 21 de agosto: ele terá mais de 16 minutos dos 30 disponíveis. O atual prefeito estima gastar em sua campanha R$ 25 milhões, mais do que todos os sete adversários somados.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

18/07/2012

às 6:51

Cabral já avisou a Dilma que deve deixar o governo em 2013

Por Paulo Celso Pereira, no Globo:
O governador Sérgio Cabral está decidido a deixar o Palácio Guanabara em dezembro do próximo ano. A ideia está em estágio tão avançado que Cabral já conversou sobre o assunto com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Lula. A saída antecipada beneficiaria três de seus principais aliados em uma só tacada: o vice-governador Luiz Fernando Pezão, o prefeito Eduardo Paes e o filho do governador Marco Antônio Cabral.

Com a saída de Cabral em dezembro de 2013, Pezão teria dez meses até as eleições, se apresentando à população como governador, inaugurando obras, gerindo a máquina e participando de eventos de governo. Esse foi justamente o argumento apresentado por Cabral a Dilma.

Em uma conversa com Dilma no Palácio Guanabara no fim de abril, quando se comemorou a marca de 1 milhão de beneficiários do programa Renda Melhor, o governador falou com a presidente sobre o plano de deixar o cargo. Segundo Cabral, Pezão tinha de “ganhar musculatura” e não haveria melhor forma de fazê-lo do que “no cargo”.

Ao mesmo tempo, essa estratégia atende outro compromisso de Cabral: pavimentar o caminho de Eduardo Paes para ser governador do Rio em 2018. Concorrendo ao governo no exercício do mandato, Pezão ficaria impossibilitado de disputar a reeleição em 2018, beneficiando, então, o prefeito do Rio.

Caso consiga se reeleger em outubro, Paes ficaria na prefeitura até 2016 — aproveitando a Copa e as Olimpíadas — e seria candidato do PMDB a governador, com apoio de Pezão e Cabral, em 2018. Em contrapartida, isso garantiria também a dedicação integral do atual prefeito na campanha de Pezão em 2014.
(…)
Além de resolver as situações de Paes e Pezão, a saída de Cabral do governo em dezembro de 2013 permitiria ao governador construir a carreira de seu legítimo herdeiro: o filho Marco Antônio Cabral. Assessor de Paes na prefeitura do Rio, Marco Antônio já conquistou aliados no círculo político, mas não poderia concorrer em 2014 caso Cabral continuasse no governo. A Constituição proíbe que parentes de até segundo grau de presidentes, governadores e prefeitos sejam candidatos na mesma jurisdição.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2012

às 7:45

Na VEJA DESTA SEMANA — O novo território sem lei do tráfico de drogas no Rio

Por Leslie Leitão:
Os tubos de concreto de mais de 2 metros de altura gravados com as iniciais de uma facção criminosa do Rio de Janeiro não deixam dúvida sobre quem manda no complexo de favelas de Costa Barros, na Zona Norte. Estrategicamente plantados nas principais vias de acesso às vielas, os obstáculos estão ali por ordem dos marginais que controlam a entrada e a saída de gente e carros sob as barbas da polícia. À sombra do poder público por décadas, o lugar entrou no mapa recentemente, depois que passou a servir de asilo para integrantes do alto escalão da bandidagem carioca forçados a mudar de pouso quando seus próprios morros, entre eles a Rocinha e o Complexo do Alemão, foram ocupados para a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tornou-se o novo QG das três principais quadrilhas da cidade e o maior entreposto de drogas do Rio. Em Costa Barros e nos vizinhos Acari e Pavuna — região que abriga trinta favelas e 200 000 habitantes —, os criminosos desfrutam tamanha liberdade que não se limitam às suas fronteiras. Eles passaram a vender drogas e a ostentar seus fuzis também ao lado da portaria de edifícios, de escolas e hospitais. Tiroteios são a regra nesse cartão-postal de faroeste.

Os chefões do tráfico vêm rateando aquelas favelas sem grandes resistências. Em um vídeo de cinquenta minutos ao qual VEJA teve acesso, dois dos ex-cabeças do Complexo do Alemão (Luiz Fernando Nascimento Ferreira, o Bacalhau, e Regis Eduardo Batista, o RG) aparecem em Costa Barros no novo endereço de um deles. Jogam conversa fora e se divertem no MSN num quarto em que se avistam fuzis esparramados pelo chão e uma mochila abarrotada de cocaína. Em outro vídeo, este de sete minutos, a câmera flagra o constante vaivém em um dos pontos de venda dos bandidos. Policiais são raros nesses lados da cidade e, quando aparecem, muitas vezes a ordem das coisas não se altera. Dois inquéritos que correm na Delegacia de Combate às Drogas ajudam a entender a razão: eles mostram claramente que um naco podre da PM está em plena ação na área, vendendo armas aos marginais e recebendo propina para cerrar os olhos ao crime.

No ano passado, em meio a um confronto com os traficantes em que carros da polícia eram alvejados, um desses bandidos de farda entrou em contato, via celular, com um homem forte da quadrilha. O PM esbravejava: “Somos nós, cara. Atira para outro lado”, ouve-se em um grampo em poder da Polícia Civil. Noutra gravação, um policial cobra propina para fazer vista grossa ao “baile do Chapadão”, festa embalada a funk e drogas na quadra de uma das favelas. Em poucos eventos os bandidos faturam tanto em tão poucas horas. Antigos frequentadores do Complexo do Alemão, como o jogador Adriano, já baixaram em Costa Barros para rever os amigos. Há um mês, recém-operado do pé direito, o Imperador compareceu de muletas a um churrasco que se arrastou pelo dia inteiro. Os policiais fazem que não veem a movimentação dos criminosos, às vezes por dinheiro, outras só por medo mesmo. Das 5 da tarde às 7 da manhã, a própria PM convencionou: para trafegar em ruas que margeiam as favelas, só de blindado. “O risco de levar um tiro num lugar desses é enorme”, diz um PM a VEJA. “Quando eu e meus colegas fazemos a ronda, colocamos o braço para fora do carro. É um código que temos com os criminosos. Quer dizer: calma, é tudo teatro.”

A região, fincada entre morros e planícies, sediava até o século XIX fazendas de cana-de-açúcar. Nas últimas décadas, foi se tornando um símbolo do abandono. Pela proximidade com a Via Dutra, que liga o Rio a São Paulo, muitas empresas decidiram montar ali fábricas e depósitos, que agora, com as constantes guerras travadas entre as quadrilhas, não conseguem mais contratar funcionários. “Estamos oferecendo vagas de 8 000 reais para recém-formados em engenharia, mas quase ninguém aparece”, lamenta o advogado Marcelo Miguez, presidente do polo que reúne 32 empresas na região. Na Unidade de Pronto Atendimento, vizinha a uma área que de tão maltratada é conhecida como “Fim do mundo”, dezenas de médicos e enfermeiras debandaram. Veem-se dezesseis furos de revólver e fuzil nas paredes. Nos últimos meses, também alunos de uma escola municipal viveram dois dias de terror depois que o pátio virou esconderijo de marginais em rota de fuga. Apesar de todos os indícios, a Secretaria de Segurança do Rio diz que a situação está como sempre esteve nesse antigo enclave do crime. Prevê implantar ali uma UPP, mas não revela a data. É bom que seja logo. A persistência de um lugar como Costa Barros no meio da cidade é prova inequívoca de que não dá para perder tempo no cerco à bandidagem.

Por Reinaldo Azevedo
 

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