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Obama

18/05/2013

às 7:21

O “liberal fascism” do companheiro Barack Obama. Ou: O Apedeuta ilustrado dos americanos também tem seus aloprados

O governo do companheiro Barack Obama foi pego no pulo em dois casos gravíssimos de ataque a valores fundamentais da democracia — especialmente da democracia americana. Órgãos de estado, como a Internal Revenue Service (IRS, o equivalente da nossa Receita Federal), foram flagrados numa operação escandalosa de perseguição política. Os alvos: as entidades conservadoras ligadas ao Partido Republicano, especialmente aquelas mais próximas do Tea Party, a ala mais à direita do partido. O escândalo já derrubou Steven Muller, chefe do IRS. Mas pode e deve arrastar mais gente. E como se dava essa perseguição?

Entidades de apoio aos republicanos, que solicitavam ao Fisco isenção de impostos (na legislação americana, isso é permitido), passavam por avaliação especial e por critérios bem mais severos do que aqueles aplicados para analisar os pedidos de congêneres democratas. O IRS não foi a única agência a incomodar os conservadores com regras excepcionais. Leiam trecho de texto publicado na VEJA.com (em azul). Escandalizem-se. Volto em seguida.

Para complicar a vida de organizações contrárias à reeleição do presidente, os fiscais as submetiam a questionamentos absurdos. Em Iowa, por exemplo, um grupo contrário ao aborto foi instado a detalhar “o conteúdo de suas orações”. Em Ohio, a Receita levou apenas 34 dias para processar as informações da fundação Barack H. Obama, enquanto a documentação de grupos conservadores ficou retida por mais de um ano nessa peculiar malha-fina. No Texas, a perseguição não se limitou ao Fisco. Uma organização que conta com simpatizantes do Tea Party, a ala mais conservadora do Partido Republicano, foi alvo tanto do IRS como das agências de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (ATF), Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA) e até do FBI, a polícia federal americana.

E será que os braços-direitos de Obama sabiam de tudo? Narra o texto de VEJA.com:
A cúpula do governo de Barack Obama foi informada em junho do ano passado, a cinco meses da eleição presidencial, de que havia uma investigação em andamento sobre a perseguição do Fisco americano a grupos conservadores que solicitaram isenção de impostos. A revelação foi feita nesta sexta-feira por J. Russell George, inspetor-geral do Tesouro americano para a administração de impostos. Em uma audiência no Congresso, ele disse ter informado o secretário-adjunto do Tesouro, Neal Wolin, sobre a investigação, mas não sobre seus resultados. Wolin, número dois do Tesouro, nomeado por Obama, deverá testemunhar na próxima semana no Congresso.

Retomo
Obama, o ilustrado, a exemplo de nosso Apedeuta, diz que não sabia de nada e promete apuração rigorosa. Pois é… Você sabem que não gosto do discurso do presidente americano e da forma como ele entende e opera a política. Infelizmente para mim — que fico quase sem companhia nesse particular —, onde muitos veem a expressão da modernidade e do progressismo, eu vejo manifestação de atraso. Considero o discurso de Obama, com alguma frequência, perigosamente próximo do de alguns demagogos da América Latina (já volto a esse ponto).

No que concerne à questão criminal, é importante, claro!, saber se Obama tinha ou não conhecimento da perseguição. Caso se evidencie que sim, ele pode até — e não há exagero nenhum nisto — perder o mandato. Mas há também a questão política. E, nesse caso, não há como escapar: ainda que Obama não conhecesse detalhes da operação, há um clima político no seu governo que convida os aloprados à ação. Volto-me um pouco ao título deste post.

Fascismo de esquerda
“Liberal fascism” é o nome de um livro publicado pelo jornalista americano Jonah Golberg, traduzido no Brasil com o nome de “Fascismo de Esquerda”, publicado pela Editora Record. Goldberg demonstra com riqueza de exemplos e de evidências como os “liberais americanos” (a esquerda possível por lá) recorrem a táticas e valores do fascismo para calar os adversários. O livro foi publicado em 2007, pouco antes da primeira eleição de Obama. Dou um pulinho no Brasil.

Escrevi ontem aqui post sobre o que chamo de microfascismos em curso no Brasil, praticados por minorais que não querem vencer o adversário, mas eliminá-lo da batalha por intermédio da desqualificação pura e simples e da cassação da sua palavra. Esses grupos, hoje em dia, no Brasil ou nos EUA, atuam em parceria com organismos do estado. Vejam a verdadeira perseguição que a Funai empreende aos produtores rurais. Um organismo de estado, em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência, incentiva invasões de propriedade e joga a legalidade no lixo. Por quê? Ora, porque eles estão convictos de que estão do lado do bem. E, em nome do bem, tudo é permitido.

É claro que há diferenças de história, de estilo e, em muitos casos, de valores entre a gestão democrata de Barack Obama e a do petismo no Brasil. Mas há semelhanças inegáveis: nos dois casos, os respectivos governos se entendem como aglutinadores de vanguardas que apelam à engenharia social (ou reengenharia) para civilizar os brutos e promover a felicidade geral. Obama, não custa lembrar, recorreu invariavelmente à imprensa e às redes sociais sempre que teve um embate com os republicanos. E, mais de uma vez, ele não os tratou como adversários políticos que têm direito a uma voz, mas como sabotadores da República e expressão do atraso. E a sua versão correu o mundo. Na imprensa e no colunismo brasileiros, por exemplo, o Tea Party é tratado como uma súcia de reacionários, que pretendem levar os EUA à Idade das Trevas. Até críticos do lulo-petismo caem nessa conversa: cobram uma oposição mais ativa aqui, mas criminalizam os adversários do Demiurgo nos EUA.

O que estou querendo dizer, meus caros, é que, soubesse Obama ou não o que faziam os aloprados do governo americano, uma coisa é certa: eles respiram um ambiente que lhes diz que aquilo está certo. Eles respiram um ambiente que lhes diz que o adversário é um inimigo que restou de um passado que tem de ser superado; eles respiram um ambiente que aplica à política uma espécie de linha evolutiva que vê no adversário apenas a expressão de uma obsolescência. E parte da imprensa americana também lhes disse que, contra os reacionários republicanos, tudo era permitido.

A imprensa ajudou
No dia 8 de novembro do ano passado, escrevei aqui um artigo sobre a reeleição de Obama e as críticas que se fizeram ao Partido Republicano. Apontava, no texto, justamente a tendência de demonização da divergência, como se não fosse ela a definir a democracia. Reproduzo trecho em azul.
*
Os valores democráticos, ao menos como os conhecemos, estão em declínio. E, se a democracia já não é mais como a conhecemos, então democracia não é, mas outra coisa, ainda a ser definida.
(…)
Os republicanos perderam a eleição. E daí? Atribui-se a derrota — como se ela tivesse sido vexaminosa, submetendo o partido ao ridículo, o que é uma piada — a suas convicções, que seriam ultrapassadas, conservadoras, reacionárias. Escolham entre esses e outros adjetivos aquele que lhes parecer mais depreciativo. Mas é isso o que dizem, afinal de contas, os fatos???

Mitt Romney teve seu nome sufragado por 48,1% daqueles que foram votar, contra 50,4% de Obama. Não foi pequeno o risco de se ter, mais uma vez, um presidente vitorioso nas urnas que, não obstante, perde no colégio eleitoral. A regra, nos EUA, é o presidente conquistar a reeleição, não o contrário. A excepcionalidade de Obama, havendo uma, está em tê-lo conseguido com uma das mais baixas margens da história — apenas 2,3 pontos de vantagem. Do primeiro ano do século 20 até agora (incluindo-se o segundo mandato do atual presidente), os republicanos foram governo por 15 mandatos; os democratas, por 14. Considerado só o século passado, o placar é de 13 a 12 a favor dos primeiros. Neste século, chegarão ao empate: dois a dois. Os democratas ficaram 20 anos no poder (de 1933 a 1952). Seus líderes chegaram a namorar com tentações fascistoides, mas o regime democrático acabou triunfando. Nas eleições deste ano, não custa lembrar, os republicanos mantiveram o controle da Câmara.

Por que, afinal, analistas de lá — dos EUA — e daqui insistem em apontar o que seria uma derrota histórica do partido (???), havendo mesmo quem anteveja, santo Deus!, até a sua extinção?

Vamos lá
Embora Obama tenha sido eleito e reeleito segundo as regras vigentes na democracia americana, é visto, por deslumbrados de lá e daqui, não como um procurador daqueles valores, mas como um seu reformador. Em certa medida, algo análogo acontece, no Brasil, com o lulo-petismo. Como a “igualdade e o bem-estar social” (aquilo que a China também promove…) tomaram o lugar da liberdade como valor essencial da democracia, e como o presidente é visto como a encarnação desses valores, opor-se a ele fugiria da esfera da luta democrática. Os republicanos, assim, não seriam representantes de uma parcela da população americana — simbolicamente, nesta eleição, a metade! — que discorda de suas medidas, de suas políticas, de suas escolhas! Nada disso! Seriam apenas porta-vozes do atraso, sabotadores, defensores de privilégios, insensíveis sociais que não estariam atentos ao novo momento.

Se os EUA se fizeram (e até Obama lembrou isso no discurso da vitória) articulando suas diferenças e divergências — e falamos de um povo que fez uma das guerras civis mais cruentas da história —, esse momento da democracia vigiado por minorias militantes, por alcaides do pensamento e por censores bem-intencionados excomunga o contraditório. À oposição, assim, não cabe nem mesmo o papel de vigiar as escolhas de Obama — muito menos de recusá-las. A ela estaria reservado o silêncio obsequioso, já que o mandato deste presidente não viria apenas das urnas, mas também dessa espécie de encarnação de utopias coletivas e igualitárias.

A VEJA.com publicou ontem uma boa síntese do que escreveram sobre o resultado das eleições alguns jornais americanos. O Wall Street Journal vislumbra severas dificuldades para os republicanos (com, reitero, 48,1% dos votos totais!!!) porque o partido teria sido escolhido, principalmente, pela população branca e mais velha — que está em declínio. Poderia ter incluído também “os homens”. Assim, este seria o retrato da “reação” na América: macho, branco e coroa. Newt Gingrich, derrotado por Romney nas primárias, não perde a chance de embarcar no equívoco. Afirmou que seu partido enfrenta um “grande desafio institucional”: descobrir como se conectar com os eleitores das minorias que compõem uma parcela cada vez maior da sociedade americana. “O Partido Republicano simplesmente tem de aprender a parecer mais inclusivo para as minorias, particularmente hispânicos.” Repete, mais ou menos, o juízo asnal de alguns tucanos no Brasil, que estão convictos de que o PSDB deve disputar o eleitorado cativo do PT… “Ah, mas um dia os brancos serão minoria, e aí…” Bem, é preciso ver se os descendentes dos latinos, em 20 ou 30 anos, continuarão seduzidos pela pauta democrata, não é?

Os republicanos construíram, eis a verdade, uma alternativa real de poder — refiro-me à questão política; no conteúdo, os dois candidatos foram sofríveis, especialmente nos temas internos. E o fizeram, no que concerne aos valores, sendo quem são. Os números e a história demonstram que a virtude da democracia americana, ao contrário do que tenho ouvido por aí, está justamente na polarização. “Mas os republicanos quase levam os EUA ao calote, Reinaldo!” Não! Os republicanos se utilizaram de uma garantia constitucional para não permitir que o Executivo impusesse a sua vontade. Obama foi obrigado a negociar, e eis aí o homem reeleito.

O New York Times (aquele jornal que aceita anúncio conclamando católicos a deixar de ser católicos, mas recusa o que conclama muçulmanos a abandonar a sua religião) foi mais longe. Viu na reeleição de Obama “um repúdio à era Reagan” no que diz respeito ao corte exagerado dos impostos e às políticas de “intolerância, medo e desinformação”. Uau! É um triplo salto carpado dialético e tanto, não sei se já sob a influência de Mark Thompson, ex-chefão da BBC e contratado para ser o chefão do jornal americano. Na empresa britânica, ele se tornou célebre por declarar que, por lá, permitia-se zombar de Jesus, mas não de Maomé. Evoco essas questões laterais porque elas compõem a metafísica de um tempo. Então vamos ver. Talvez eu não tenha entendido direito o “raciossímio” do Times. Em 1980, Reagan venceu Carter em 44 estados — o democrata ficou com apenas 6 (50,7% dos votos a 41%). No Colégio, o placar foi de 489 a 49. E Carter era presidente! Em 1984, o republicano foi reeleito de forma humilhante para os democratas: sagrou-se vitorioso em 49 estados (58,8% a 40,6%). Deixou apenas um para o adversário; no colégio, 525 a 13! O presidente fez o seu sucessor, Bush pai, que triunfou em 40 estados (426 a 111): 53,37% a 45,65%. Não obstante, a era Reagan teria sido repudiada agora, e a evidência estaria na vitória de Obama em apenas 26 estados (contra 24 do adversário), por um placar com 2,3 pontos de diferença. Clinton venceu em 33 estados na primeira eleição (1992) e em 32 na segunda (1996). E manteve os fundamentos da economia da era Reagan. Eis a verdade traduzida em números da afirmação feita pelo jornal.

Que fique claro!
A mim me importam menos as respectivas pautas de cada candidato do que essa cultura de aversão à democracia que vai se espalhando. E que, por óbvio, não nos é estranha. Também entre nós o exercício da oposição, agora que “progressistas” estão no poder, vai se tornando algo malvisto, mero exercício de sabotagem e de oposição àqueles que seriam os interesses do povo. Dou um exemplo evidente: as cotas raciais foram impostas às universidades federais sem nem mesmo debate no Parlamento. A simples crítica à medida é apontada como ódio aos pobres, às minorias, aos oprimidos — todas aquelas tolices fantasiosas que compõem o estoque de agressões dos autoritários.

Os republicanos? Ah, eles tiveram a coragem de enfrentar o tal “Obamacare”, o que parecia, à primeira vista, suicídio político e, mais uma vez, obrigaram o governo a negociar. E sabem por que o fizeram? Porque tinham mandato de seus eleitores para fazê-lo. E agiram dentro das regras estabelecidas pela democracia americana. “Ah, mas olhe aí o resultado!” Sim, olho e vejo um partido que era uma real alternativa de poder. E só o era — e como as emissoras de TV suaram frio desta vez, não é? — porque, em vez de aderir à pauta do adversário — que, afinal, do adversário é —, fez a sua própria ao longo dos quatro anos de mandato de Obama.

Reitero: não entro no mérito; talvez, nos EUA, eu apoiasse o plano de saúde de Obama. O ponto não é esse: estou advogando o direito que tem a oposição de ser contra ele. Se é por bons ou por maus motivos, isso o processo político evidencia. Chega a espantoso que muitos cobrem da oposição brasileira coragem para enfrentar o PT, mas adiram alegremente à satanização dos republicanos porque estes fazem lá — reitero: não estou tratando de conteúdo — o que a oposição brasileira não aprendeu a fazer aqui.

Fala-se, finalmente, de um país dividido. É? Melhor do que outro em que um partido, com pretensões hegemônicas, recorre a expedientes criminosos para eliminar a oposição. Os “decadentes” republicanos terão, por exemplo, o domínio da Câmara. Não existem PMDB e PSD nos EUA, aqueles que não são “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Os derrotados do dia anterior não são os vitoriosos do dia seguinte — ou, para ficar na espécie (como diria Marco Aurélio), derrotados e vitoriosos num mesmo dia… O que se chama um “país rachado” é um país que reconhece, ainda!!!, instituições por meio das quais se articulam essas divergências.

O valor exclusivo da democracia é a liberdade. E a característica exclusiva da liberdade é poder dizer “não”.

Volto a hoje e encerro
O governo Obama tentou, isto é inegável, usar o aparato do estado para intimidar a oposição. Estivesse no poder um presidente “reacionário”, a imprensa liberal americana estaria pedindo a sua cabeça. Como se trata de Obama, já há artigos na imprensa americana afirmando que os republicanos estão querendo se aproveitar do episódio para fazer política. Como se a perseguição que estava em curso não fosse um caso de política — e de polícia!

Texto publicado originalmente às 5h55
Por Reinaldo Azevedo

25/02/2013

às 7:41

Michelle Obama no Oscar: espetacularização da política e politização do espetáculo

Michelle Obama anunciando o ganhador do Oscar de “Melhor Filme”, diretamente da Casa Branca? Por quê? Com que propósito? É o lado irremediavelmente populista de Obama, que terceiro-mundizou — já escrevi isto aqui algumas vezes — a política americana em muitos aspectos. Sim, Hollywood sempre foi mais liberal (no sentido americano: com os olhos voltados para a esquerda possível lá) do que conservadora, mas isso já é um tantinho demais, não?

Há algumas implicações simbólicas interessantes aí… Um Oscar revelado na Casa Branca, ocupada por um casal negro, tinha tudo para premiar “Lincoln”, mas acabou vencendo “Argo”, num momento em que o Irã é a principal preocupação do marido de Michelle. Ainda volto a esses aspectos. E talvez fale até um pouquinho sobre os filmes, vamos ver, inclusive sobre o chatíssimo “Lincoln”, de Steve Spielberg.

Ang Lee como “melhor diretor” por “As Aventuras de Pi”??? Trata-se de uma bobajada cheia de metáforas supostamente poéticas, uma espécie de Moby Dick para tempos politicamente corretos, em que um tigre assume o lugar de uma baleia… Mas fica pra outra hora. Volto à patetice.

Deem uma única boa razão para Michelle ter sido a anunciadora do principal prêmio da noite que não seja a espetacularização da política e a politização do espetáculo, duas regressões que as boas democracias do mundo costumam evitar.

PS – Ah, sim! Um grupo de amigos se reúne todos os anos para fazer o bolão do Oscar. Selecionam-se 12 categorias. Desta feita, houve 23 participantes. Empate no primeiro lugar: Dona Reinalda e seu Reinaldo!!! Com nove acertos — e com erros diferentes! A fortuna ficará toda por aqui! E, como vocês devem presumir, errei no “melhor diretor”… Sim, é fruto do esforço. Participei do evento, pela primeira vez, no ano passado. Foi uma humilhação. Errei quase tudo. Desta vez, mirei o melhor de nós e decidi competir com ele. Ele continua a ser melhor do que eu em cinema (e em muitas outas coisas também), mas superei a minha falta de inclinação com certas variáveis, digamos, matemáticas, hehe. Sabem como é… Nessas coisas que envolvem nossos amigos, o importante é ganhar, não competir.

Por Reinaldo Azevedo

04/02/2013

às 21:26

Armas legais e violência: um tiro na mistificação

Ai, ai…

Não é que a lógica se lembra de acontecer?

Você se lembram daquele referendo ridículo, que mobilizou os politicamente corretos e todas as “pessoas boas” do Brasil, que pretendia proibir a venda legal de armas? Quem fosse favorável à proibição deveria responder “sim”, que largou na frente com enorme vantagem, segundo as pesquisas. O “não” acabou vencendo com uma vantagem esmagadora.

Embora nunca tenha tocado numa arma, é claro que votei “não”. À época, dirigia o site e revista Primeira Leitura e escrevi dezenas de textos demonstrando a tolice da tese e a absoluta falta de lógica. Era mais um dos mimos do pensamento politicamente correto. A tese afrontava a lógica mais elementar: o problema do Brasil não são as armas legais, mas as ilegais. Elas matam mais de 30 mil pessoas por ano em nosso país — e, por óbvio, os autores não são aqueles que têm armas registradas. Nota: num ato de grande coragem editorial, mais um!!!, a VEJA fez uma reportagem de capa demonstrando por que o país estava diante de uma monumental tolice. 

O Brasil realiza todo ano uma ridícula campanha em favor do desarmamento. Os mistificadores de plantão atribuem uma ligeira redução na taxa de homicídios do país como um todo a esse fator. É coisa de picaretas! Quem se dispõe a entregar de boa-fé sua arma ao estado não iria mesmo usá-la para matar ninguém. Houve um pequeno recuo porque estados populosos como São Paulo e Rio conseguiram derrubar suas respectivas taxas de homicídio — houve um aumento em São Paulo no ano passado, mas o estado segue exibindo números que derrubam a taxa nacional; estão entre os mais baixos do país.

O que derruba a taxa de homicídio e a violência é uma política eficiente de segurança pública, com policiamento preventivo e, quando necessário, repressivo. Os números comprovam outra coisa: as unidades da federação que têm mais presos por 100 mil habitantes têm menos homicídios. Não há por que a gente se espantar, não é? Bandido na cadeia não mata ninguém nas ruas e nos becos.

O tema ganhou relevância internacional com a campanha iniciada por Barack Obama em favor de um certo desarmamento nos EUA. Obama é aquele senhor que aparece no alto deste post disparando um rifle. A foto é de agosto e foi divulgada há dois dias pela Casa Branca. Com que propósito? Já chego lá.

Os dados objetivos
A Folha de S. Paulo traz hoje uma reportagem de Fernando Mello e Márcia Falcão que só comprovam o óbvio. Leiam trechos.

*
Estados com maiores índices de violência são os que têm menor número de pessoas com porte de armas autorizado pela Polícia Federal. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram também que a correlação é a mesma se considerado o número de armas registradas oficialmente em cada unidade da Federação. No total, existem no país 1,2 milhão de autorizações para posse de armas e 3.400 civis com permissão para andarem com o armamento.

Os dados reforçam a avaliação de especialistas sobre o impacto quase nulo das armas legais na violência. O Amapá, quinto Estado mais violento segundo o Mapa da Violência de 2012, tem dois portes autorizados. Alagoas, o campeão da violência, tem 49. Já o Rio Grande do Sul tem o maior número de porte de armas, 1.060, e é o quinto Estado menos violento.

Há uma diferença entre os registros de armas e o porte, ambos feitos pela PF. É como se fosse o documento do carro (registro) e a carteira de motorista (porte). Quem for pego na rua armado e sem porte pode responder criminalmente. São Paulo tem o maior número de armas registradas: 273 mil, seguido por Rio Grande do Sul (158 mil).

Desde a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento, em 2004, a PF restringiu o porte de armas. Para obtê-lo, os interessados têm de comprovar necessidade profissional do uso da arma ou ameaça à integridade física. Antes de conceder o porte, a PF analisa o histórico da pessoa: passagens pela polícia, processos na Justiça, se tem emprego fixo etc.

Para especialistas e delegados da PF, os dados reforçam que não há relação direta entre porte de armas e violência -até porque criminosos não usam armas legais. Dados do Sistema Nacional de Armas mostram que 80% das armas apreendidas em crimes têm origem nacional e, em algum momento, entraram na ilegalidade, seja por roubos de armas legais ou desvios de depósitos de polícias ou militares.

Voltei
Pois é… O arquivo traz uma penca de textos que escrevi sustentando justamente esse ponto de vista, com base, reitero, na lógica elementar. No ano daquele referendo, em 2005 (pouco depois de explodir o caso do mensalão, promovido por outro tipo de pistoleiros), fui chamado para fazer um debate sobre o tema no Estadão. Do outro lado, estava o coronel José Vicente da Silva, que é uma pessoa decente e competente, mas, entendo, equivocado nesse particular. Ele defendia o “sim”. A nossa conversa mereceu chamada na primeira página. A foto que escolheram para retratar o coronel o flagrava num momento plácido, com uma iluminação uniforme. A minha apelou ao trabalho artístico, com umas sombras estranhas, que me emprestavam um ar meio endemoninhado, as mãos, assim, meio em gancho, entendem? Afinal, tratava-se do confronto entre o homem que era contra as armas e o que era a favor…

Ora, desde sempre, qual era a questão? Se o objetivo era reduzir a violência, é evidente que a tanto não se chegaria proibindo a venda legal de armas. Por que, em 2010, o Mapa da Violência apontou 13,9 homicídios por 100 mil em São Paulo; 26,2 no Rio; 37,7 na Bahia e 66,8 em Alagoas? Por causa do número de armas legais circulando? Ora… Esses números dão o tiro de misericórdia nessa tese moribunda.

Agora Obama
Eu acho a política de venda de armas nos EUA relaxada demais. Realmente não vejo razão para que cidadãos comuns tenham acesso, sem maiores entraves, a armamento pesado, que disparam sei lá quantas balas por minuto, com pentes recarregáveis próprios para entrar numa guerra.

Mas atenção! Não está absolutamente provado que exista uma relação entre essa facilidade e os malucos que volta e meia saem atirando em escolas. “Ah, mas é a cultura da arma que existe naquele país; até a Constituição oferece essa garantia…” Pois é. A nossa não oferece, e, por aqui, mata-se quase seis vezes mais do que por lá.

Notem que Obama nem sequer cogitou da hipótese de tentar cassar de um cidadão o direito à autodefesa. Busca-se é disciplinar esse direito. É por isso que a Casa Branca divulgou a tal foto em que o presidente aparece empunhando um rifle: para que se coloque nos devidos termos o que está sendo debatido. Nas mãos de um maluco, aquela arma exibida por Obama pode fazer um estrago e tanto.

Se fosse possível, não é, os EUA poderiam até proibir a venda de armas e recolher todas as que circulam no país, e nada impediria os atos tresloucados. Parece-me que a dinâmica, para mudar o rumo dessa história, tem de ser outra e remete mais à forma como se devem tratar certas psicopatias. Eu continuo a achar uma estupidez que a imprensa divulgue, de forma obsessiva, o nome e a imagem desses assassinos, transformando-os em protagonistas de grandes tragédias. Mais do que isso: suas respectivas biografias são dissecadas; sua vida privada, exposta em detalhes. Outros movidos por loucura semelhante buscarão também assinar a sua “grande obra”, ainda que não possam experimentar o “sucesso” porque, no geral, ou se matam (no mais das vezes) ou são mortos pela polícia.

Obama faria, sim, um grande favor se tentasse costurar um acordo dessa natureza com a imprensa e com os grandes veículos de comunicação na Internet. A arma não mata ninguém. As pessoas, nas suas circunstâncias, é que matam. Têm de ser enfrentadas com políticas públicas consequentes.

Por Reinaldo Azevedo

25/01/2013

às 15:22

O extremismo islâmico tem o lobby mais eficiente do mundo

Pois é… Se o debate político — e, com frequência, a cobertura jornalística — em terras nativas lembra, às vezes, os hospício, no cenário externo, a coisa não chega a ser o elogio da razão, especialmente nestes tempos em que o mundo está sob a égide de Barack Obama, o Demiurgo das Esferas, aquele que veio para mudar o mundo para muito melhor, ainda que as coisas, por enquanto (claro!), possam ter piorado bastante.

As agências internacionais informam que o general Carl Ham, chefe das forças americanas na África, disse que o Pentágono falhou ao treinar as tropas do Mali no combate aos terroristas islâmicos. Grupos ligados a direitos humanos — QUAIS GRUPOS??? — denunciam o uso desmedido da violência. “Nós estávamos focando o treinamento exclusivamente em questões técnicas ou táticas. Nós não usamos o tempo necessário para focar em valores, ética e caráter militar”, afirmou Ham. Nos tempos de Santo Obama, é preciso exercitar permanentemente a culpa para demonstrar que o “imperialismo tem coração”…

Num evento aparentemente sem importância, a síntese de grandes erros. Vamos ver.

Não descarto, por óbvio, que os dois lados pratiquem atrocidades, e acho que nem é preciso dizer por quê. Conflitos que juntam ódio étnico e ódio religioso não reconhecem ética de guerra. O ponto que me interessa é outro. Que “grupos” de direitos humanos são estes?

O lobby mais organizado e mais eficiente que conheço, em escala planetária, é o do extremismo islâmico. Ninguém é tão competente em pautar a imprensa ocidental quanto essa turma. Como, em regra, os jornalistas do Ocidente estão sempre se perguntando “onde foi que erramos com essa pobre gente?”, então “essa pobre gente” dita o lead e o espírito da cobertura. Pensemos um pouco.

Alguém ouviu falar em transgressão aos direitos humanos praticadas pelas forças que se opunham a Muamar Kadafi? Não! Eram os “libertadores de Benghazi”, embora as evidências de massacres, praticados com o auxílio da Otan, fossem escandalosas. A violência, diga-se, das forças que estariam promovendo a “Primavera Árabe” é ignorada pela imprensa. Parece que só os governos sob ataque praticam atrocidades.

Eu quero que os ditadores carniceiros da África ou do Oriente Médio se danem. Mas quero saber quem se apresenta para substituí-los e com que propósito. Ninguém precisava ser adivinho para saber o que se seguiria à queda de Muamar Kadafi na Líbia. Tenta-se agora, a todo custo, torcer os fatos para livrar a cara dos que fizeram a pior escolha: as armas que circulam livremente entre os terroristas seriam de forças que atuaram em favor de kadafi, dizem… Uma ova! Ainda que isso exista também, os jihadistas encontraram na Otan a aliada ideal. Obama, Sarkozy e Cameron limparam a área para que eles se instalassem, ATENÇÃO!, definitivamente no Norte da África.  De agora em diante, o ponto é o seguinte: ou o Ocidente mantém soldados permanentemente no Mali e na própria Líbia — só para começo de conversa —, ou toda aquela região vira um novo ninhal do terrorismo.

Sabem por quê? Porque um tirano como Kadafi não tinha apenas o domínio sobre Trípoli. A sua rede de influência e de troca de favores se estendia por todas aquelas vastas solidões. O Ocidente depôs ditadores — sim, sim, eles eram asquerosos! — com os quais mantinha diálogo e entronizou forças hostis ao… Ocidente! “Ah, mas, ao menos, cessou a rotina da carnificina!” Trata-se, como se sabe, de uma mentira espetacular. E o próximo país a cair nas garras do terror é a Síria. Se o açougueiro Bashar Al Assad não presta, esperem para ver o que vem depois.

É impressionante que os mesmos críticos das intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque acreditem que Obama está desempenhando um grande papel no Oriente Médio e na África. Adoraria ler um texto demonstrando que, com ele, o mundo ficou mais seguro e humano…

Mas volto
Mas avancei um tanto nas digressões. Volto ao ponto. A notícia do mea-culpa do general Carl Ham é a cara destes tempos. Os extremistas islâmicos, mais uma vez, colocam seus opositores na defensiva e reivindicam o lugar das vítimas. 

Por Reinaldo Azevedo

23/01/2013

às 21:29

Congresso eleva teto da dívida e dá três meses de folga a Obama

Na VEJA.com:
O presidente Barack Obama conseguiu uma vitória importante dois dias após a posse de seu segundo mandato: a Câmara dos Representantes aprovou a elevação do limite de endividamento federal até 19 de maio. A vitória é parcial, mas deve ser vista como um caminho para o entendimento entre republicanos e democratas. A aprovação da extensão é um indicativo de que os líderes dos dois partidos no Senado devem apoiar a decisão. O projeto foi aprovado por 285 votos a favor e 144 votos contra, distribuídos de maneira geral com a composição partidária da casa. Muitos democratas opuseram-se à natureza de curto prazo da extensão.

A medida não incluiu os cortes orçamentários de 2,2 trilhões de dólares em um período de 10 anos que os republicanos insistiam em inserir no mesmo pacote de votações, como uma espécie de condição para a aprovação do aumento do teto da dívida.  O documento aprovado pela Câmara prevê, no entanto, que o pagamento do salário dos deputados seja vetado se alguma das comissões do Congresso não conseguir aprovar o projeto de Orçamento até o dia 15 de abril – este sim, envolvendo a votação dos cortes de gastos. “É simples: sem Orçamento, sem pagamento”, disse o presidente da Câmara, o republicano John Boehner. 

Segundo o jornal The New York Times, a legislação que prevê o aumento do teto da dívida simplesmente bloqueará os salários dos deputados até que o projeto de Orçamento passe, independentemente de haver um acordo entre republicanos e democratas, ou não.

Por Reinaldo Azevedo

21/01/2013

às 21:13

Mais uma contradança com meu amigo Caio Blinder — “mexeu com ele, mexeu comigo”

Meu amigo Caio Blinder — “Mexeu com ele, mexeu comigo” — envia um comentário ao post que fiz, em que comento um texto seu. Ele escreve o que segue em vermelho. Respondo em azul.

Amigo Reinaldo, um prazer ter um texto seu criticando o meu. Sou cívico, como mostra o vibrante debate entre meus leitores.
Alguns pontos rápidos:
1) os republicanos estão, sim, perdendo, capital político. Perderam cinco das últimas eleições presidenciais no voto popular. E caso continuem no atual rumo, será o abismo eleitoral. A gente reconversa sobre isto em 2016, hehehe.
Perder no voto popular, dada a forma como se dá eleição americana, não quer dizer grande coisa, e você sabe disso. Nos EUA, não há grandes lavadas nesse quesito, ainda que um candidato consiga esmagar o outro no colégio, a exemplo do Reagan da reeleição.

De resto, querido Caio, vamos botar as coisas no seu devido lugar: pensando o que penso, eu poderia estar mais chateado do que você se essa perda dos republicanos fosse real — acho que não é. Por mais que eu admire meu amigo Caio Blinder (e admiro demais!), não o imagino dando dicas para que os republicanos se recuperem, hehe… Acho que, se eles fizessem o que Caio acha que deveriam fazer, ficariam bem parecidos com os democratas. Como democratas já os há, amigo Caio, o eleitorado certamente preferiria o original à cópia.

Cotejo a atuação dos republicanos nos EUA com a dos tucanos no Brasil. Quem está mais perto do poder? Com todos os “erros” que a metafísica influente democrata viu nos republicanos, o fato é que eles conseguiram ter um candidato competitivo contra o homem, o mito, o símbolo, a legenda. A oposição, no Brasil, tudo o mais constante, não conseguirá competir com Dilma Rousseff, cavalgando o Pégaso do crescimento de 1%. Uma coisa é questionar a pauta republicana; outra, distinta, e é este é cuidado que se tem de tomar, é questionar o direito de haver uma oposição.

2) falar em branco, negro, latino, judeu, católico, roxo, marciano no jogo político americano é parte do jogo, não se trata de ação afirmativa, mas do papel dos blocos raciais e étnicos em uma corrida eleitoral e no perfil dos partidos. E é isso mesmo: os alertas sobre o partido se tornar um enclave de brancos sulistas e rancorosos parte inclusive de republicanos (obviamente sem usar o termo rancoroso). O alerta é marcante entre eventuais candidatos presidenciais.
Sim, é parte do jogo, e eu seria a última pessoa a reclamar disso porque gosto de clareza no jogo político. Mas me parece desonesto intelectualmente — e não estou dizendo que Caio faça isto; sustento que há uma metafisica influente que o faz — que se exijam provas negativas dos republicanos: “Provem que vocês não estão fazendo o que fazem só porque Obama é preto”. Eis a prova impossível, não é mesmo, Caio?, já que o presidente não pode deixar de ser preto — na verdade, mestiço — por algum tempo enquanto se verificam a moral profunda e a pureza das ideias republicanas.

O sistema não delegou ao Congresso a última palavra sobre o Orçamento prevendo que a questão pudesse ganhar uma coloração racial, Caio. O que veio depois não pode ser causa do que veio antes.

3) Curioso seu espanto com a expressão “jeca”, era típica do seu querido Paulo Francis, ao se referir ao casal Clinton, de Arkansas, das bandas de Okhaloma.
Sim, Caio, o meu querido Paulo Francis. Seu também, certo?

E, de fato, acho um atraso que setores de um dos dois grandes partidos ainda estejam discutindo teoria da evolução, aquecimento global (que não vejo desmentido no seu artigo) e variadas teorias conspiratórias (desde o nascimento queniano de Obama ao fascismo-comunismo de organizações multilaterais)
Abração, amigo Reinaldo, e beije minha querida São Paulo por mim, Caio
Eu não tenho competência técnica para desmentir o aquecimento global. Comecei a me interessar pelo assunto quando percebi que as previsões repetiam o Apocalipse de São João. Há gente muito mais competente do que eu que demonstrou a falência dos modelos teóricos, o que levou o “pensador de Gaia”, James Lovelock, a fazer o seu “erramos”.

Caio sabe que não entendo nada de aquecimento global, mas também sabe que Richard Lindzen entende muito. É professor de Meteorologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e já publicou mais de 200 livros e artigos científicos. Foi o líder do capítulo científico do Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC, de 2001. Resumiu tudo numa frase que me parece emblema destes tempos: “Al Gore acredita no aquecimento global porque as pessoas acreditam, e as pessoas acreditam porque Al Gore acredita”. Já escrevi alguns posts sobre ele. Aqui, há uma longa aula em que caracteriza devidamente a histeria. Lindzen não é de Oklahoma. Nasceu em Webster, em Massachusetts. Não sei se é republicano ou se era eleitor de Mitt Romney. Sua ciência não parece partidária.

Há republicanos que debatem a origem queniana de Obama e outros que defendem o ensino do criacionismo? Há, sim. De saída, não dá para confundir isso com críticos sensatos das teorias do aquecimento global. Mas noto que não faltam esquisitices e particularismos também aos democratas, não é? A questão é saber se ficamos no mérito ou na caricatura.

Eu acho que o regime democrático está mais seguro com republicanos vigiando democratas (e vice-versa quando for o caso) e fazendo valer a sua maioria na Câmara para negociar, sem espaços para cooptação — ainda bem que não há Calheiros e Alves por lá. O fato de haver republicanos que defendem que se substitua Darwin por Adão e Eva — há democratas que acreditam nas virtudes criativas da maconha, e nem por isso são caracterizados como um bando de maconheiros — não muda as prerrogativas do Congresso.

O que eu estou sustentando é que, numa sociedade aberta, com a qual alguns obamistas parecem não se conformar (não é o caso de Caio), os antagonistas se entendem na defesa do regime. E só se pode ser um democrata realmente convicto porque há republicanos convictos.  O que repudio, meu amigo Caio, é que se tenha começado a considerar um defeito o que é uma virtude da política americana. Vício é o PMDB. Vício é uma oposição incapaz de dizer se é bola ou bule.

Tomo sempre cuidado para que não fique parecendo que os americanos têm o que aprender com Brasil em matéria de conciliação política. O Brasil só vai sair da lama quando aprender um pouquinho com os americanos o valor da convicção. Ou, daqui a pouco, vamos começar a achar que José Sarney e Renan Calheiros são, de fato, importantes para o Brasil.

E eles não são. Qualquer “jeca” de Oklahoma defendendo o criacionismo faz menos mal à política americana do que Sarney defendendo Darwin…

Por Reinaldo Azevedo

21/01/2013

às 7:11

O terror no Norte da África e o primeiro dia do segundo mandato de Obama: o mundo está menos seguro do que há quatro anos

Quarenta e oito reféns mortos em circunstâncias que ainda não estão claras — 25 deles carbonizados — e trinta e dois terroristas. É o saldo, até agora, do confronto entre extremistas islâmicos e as forças especiais da Argélia no campo de exploração de gás da cidade de In Amenas, no norte do país, quase na fronteira com a Líbia. Inicialmente, mais de 600 pessoas haviam ficado à mercê dos facinorosos. A repercussão, embora grande, só não é maior porque o desastre se deu num país muçulmano, ainda que a maioria dos mortos possa ser estrangeira — não se sabe ao certo até agora.

O presidente dos EUA, Barack Obama, tomou posse ontem de seu segundo mandato. Faz hoje o juramento no Congresso. Está às voltas com problemas domésticos, como o Orçamento. Mas um mundo bem mais complicado o aguarda do que há quatro anos. E, em muitos aspectos, por mais que se tente fazer de conta que não — estou cada vez mais convicto de que o “obamismo” é um das formas de ser da negação da realidade —, suas escolhas respondem por essa complicação.

A que me refiro? Embora a imprensa mundial não tenha feito alarde, preferindo jogar a questão para os baixos de página e áreas periféricas, a dita “revolução” líbia foi uma coprodução do jihadismo islâmico com a Otan. A maior máquina de guerra do planeta (já que a Otan é braço dos EUA, certo?) se juntava com os extremistas de Alá. Nunca existiram os “libertadores” de Benghazi. Era pura fantasia aquela história das forças democratizantes que avançavam do Leste para ao Oeste. Ao cair nessa esparrela, Obama — com a preciosa ajuda de David Cameron e Nicolas Sarkozy — estavam arregaçando (literalmente…) as porteiras do Norte da África para os extremistas.

Minha crítica não é nova. Alguns textos da época estão aqui:

 25/02/2011

- Quando Kadafi se for, falar com quem?

09/03/2011
- Rasgando a fantasia – A crise na Líbia expõe o governo patético de Barack Obama

03/04/2011
- Como dar um apoio entusiasmado àquilo que nos destrói. Ou: Não contem para o Jabor!

03/04/2011
- É para estes civis que Barack Obama, que veio nos livrar das garras de Bush, quer fornecer armas!!!

05/04/2011
- O fatal tem uma característica muito chata: sempre acontece!

27/08/2011
- Os leitores deste blog não estão surpresos, certo? Opositores líbios têm elos com Al-Qaeda, diz jornal

Retomo
No Estadão de ontem, Andrei Neto entrevista o cientista político Kader Abderahim, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) e do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris. Para ele, informa o jornal, “a força dos movimentos islamistas armados que desafiam a França e o Ocidente na África vem ‘da miséria e da falta de democracia no Mali e em toda a região’.”

Notável! Digam aí uma coisa ruim — incluindo terremoto, tsunami e unha encravada — que a miséria e a falta de democracia não tornem ainda pior. Até aí, como se diz lá em Dois Córregos, morreu um burro. Andrei Neto faz a seguinte pergunta a Abderahim, que dá a resposta que segue:

Muito se fala do papel da Primavera Árabe no Mali e na Argélia. Qual a sua opinião?
Não creio que a Primavera Árabe tenha tido algum impacto sobre o que ocorre na Argélia. As autoridades argelinas conseguiram controlar a Primavera Árabe com repressão e muito dinheiro, colocando recursos na mesa para aliviar a pressão social. Quanto ao Mali, mesmo que o país tenha fronteiras com duas ou três nações árabes, é um país de outra natureza, da África negra, não árabe. Talvez nosso erro tenha sido analisar e entender a Primavera Árabe como revoluções e não como movimentos populares, o que me parece mais justo.

Ou ele não entendeu ou fez de conta que não entendeu. Terroristas não querem saber, por definição, de “Primaveras”. A questão é saber qual foi o elemento que criou todas as facilidades para que os terroristas islâmicos se espalhassem pelo Norte da África. Ok. Os malineses não são árabes… E daí? A esmagadora maioria é muçulmana. EUA, França e Grã-Bretanha aceitaram de bom grado a colaboração de terroristas islâmicos na luta para derrubar Muamar Kadafi. Muitos se deslocaram da fronteira do Paquistão com o Afeganistão com o propósito de tomar um país. Os bombardeios aéreos da Otan lhes abriam o caminho. Quando o então embaixador americano na Líbia Jay Christopher Stevens foi assassinado, em setembro, Obama tentou negar o caráter terrorista da ação. Foi obrigado, depois, a ceder à realidade.

O ponto é
É evidente que Kadafi era um tirano asqueroso. A questão era saber até onde se poderia ir para derrubá-lo e com quem. Peguemos agora o caso da Síria. Há alguma maneira de defender o carniceiro Bashar Al Assad? Desconheço. O povo sírio merece a democracia? Estou entre aqueles que confundem esse merecimento com um direito natural do homem. Mas é inegável que a Al Qaeda constitui hoje a força mais organizada de combate ao ditador. Vale a pena pagar esse preço?

“E fazer o quê? Ficar com Kadafi, com Assad, com esses monstros?” Vênia máxima, a pergunta está errada. De uma coisa, estou convicto: não vale a pena fazer nenhuma forma de acordo com os terroristas, especialmente quando não se tem nada planejado para a etapa seguinte.

Kadafi, depois de ter deixado de praticar, ele próprio, atos terroristas, mantinha a cachorrada da Al Qaeda na coleira. Ninguém precisava chamá-lo de “amigo e irmão”, como fez Lula. O que não é aceitável é que aquelas vastas solidões da Líbia, da Argélia, de Níger, do Mali, do Chade tenham se convertido em área de livre trânsito do terror.

Os obamistas e sua determinação de ver o mundo como ele não é digam o que quiserem. O fato é que Obama começou o seu mandato, em 2008, com o Oriente Médio e adjacências conflagrados. Quatro anos depois, o status da região não mudou — em muitos aspectos, piorou, porque ainda mais hostil ao Ocidente e a Israel —, e agora é o Norte da África que se vê às voltas com as milícias assassinas que já eram rotina no Sudão. Com uma diferença, no entanto: as de agora estão ligadas à “rede”.

Ah, sim: desta vez, “Jorjibúxi” e os republicanos não têm nada com isso. Não adianta o Jabor insistir…

Por Reinaldo Azevedo

21/12/2012

às 20:01

Obama nomeia senador John Kerry secretário de Estado

Na VEJA.com;
Como a imprensa americana já havia antecipado, o presidente Barack Obama nomeou nesta sexta-feira o senador John Kerry, de 69 anos, para o cargo de secretário de Estado. A nomeação será encaminhada ao Senado para ser ratificada. Na Casa, Kerry tem o suporte tanto de democratas como de republicanos.

O senador substituirá a ex-primeira-dama Hillary Clinton, que já havia anunciado que não permaneceria no governo por mais quatro anos.

Ao anunciar o nome do parlamentar, Obama disse que o senador é “a escolha perfeita” para guiar a diplomacia americana nos próximos anos. Com o anúncio, Kerry torna-se o primeiro integrante oficial da equipe de Obama para o segundo mandato presidencial, que terá início em janeiro.

John Kerry, que já foi candidato presidencial em 2004, passou a ser apontado como favorito para assumir o Departamento de Estado depois que a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Susan Rice, retirou sua candidatura para o posto.

Susan desistiu depois de ser alvo de críticas dos republicanos devido à sua atuação após o ataque ao consulado americano em Bengasi, na Líbia, que deixou quatro mortos, incluindo oembaixador J. Christopher Stevens. Ela admitiu que a descrição que fez do ataque foi incorreta.

À época, Rice afirmou que o atentado não havia sido “organizado ou premeditado”, mas resultado de uma manifestação “espontânea” contra o vídeo A Inocência dos Muçulmanos, que satiriza o profeta Maomé. Susan explicou que sua declaração foi baseada em informações da inteligência americana e que não teve a intenção de enganar a população dos EUA. Mesmo assim, não conseguiu acalmar os ânimos dos parlamentares.

Como presidente do comitê de relações exteriores do Senado, Kerry conduziu uma reunião sobre o ataque em Bengasi nesta quinta-feira, quando o Departamento de Estado voltou a ser criticado por ter falhado na resposta a pedidos de melhoria na segurança da representação americana na Líbia.

Um relatório independente sobre o ataque divulgado esta semana cita “falhas sistemáticas e deficiências de liderança e gestão” do Departamento de Estado. E critica a “falta de pessoal experiente” para garantir a segurança dos membros do consulado. Segundo a investigação, os pedidos de funcionários da embaixada em Trípoli para melhorar a segurança da sede diplomática em Bengasi antes do ataque foram ignorados.

Por Reinaldo Azevedo

18/12/2012

às 21:03

O Obama e o adeus às armas – Presidente apoia projeto para limitar a venda de armas de assalto. Ou: É possível proibir a loucura?

Já escrevi um longo texto sobre o massacre havido na escola Sandy Hook, nos Estados Unidos, e a campanha que invariavelmente se segue a eventos assim em favor do controle de armas. É muito mais difícil comprar uma arma legal no Brasil do que nos EUA; aquele país oferece opções que não estão ao alcance, por aqui, de homens de bem, como fuzis, por exemplo. Naquele país, os homicídios por 100 mil habitantes estão na casa dos 4 por 100 mil (4,2); no Brasil, é de 26 — quase seis vezes a mais. Por lá, pode haver um excesso de armas legais; por aqui, há um excesso de armas ilegais. Em 2010, pouco mais de 8 mil americanos morreram vítimas de armas de fogo; em Banânia, foram 35 mil!

Ocorrências como a de Sandy Hoock nada têm a ver com a venda de armas ou a facilidade para adquiri-las. Sem a maluquice — tenha ela o nome técnico que tiver, os especialistas decidam —, não se faz um  massacre com aquelas características.

Obama está pegando carona no caso — e é evidente que deve estar sinceramente consternado. Quem não estaria? Na prática, a Constituição do país proíbe que o estado proíba alguém de ter uma arma para se defender, mas é evidente que algum controle é possível. Tornar ilegal a venda das chamadas “armas de assalto”, ainda que não impeça casos como o de Sandy Hook, faz sentido em si.  Fuzis e armas semiautomáticas para autodefesa parecem um óbvio exagero. Talvez Obama consiga impor algum limite, vamos ver.

Chamo, uma vez mais, atenção para outro aspecto. Mesmo na era da Internet, mesmo em tempos em que a rede opera online, a imprensa, especialmente a TV, tem de estabelecer uma espécie de Código de Ética para cobrir eventos dessa natureza. Esses psicopatas não podem ganhar o destaque que ganham. Até onde alcanço, pessoas com esse perfil sonham com a “assinatura” num grande evento, numa grande tragédia. Não sei exatamente qual seria a receita. Como está, não pode ficar. Isso é mais importante do que proibir isso ou aquilo. Infelizmente, ninguém pode pôr a loucura na ilegalidade. Dificultar que o louco consiga um fuzil ou uma arma automática, no entanto, parece-me moralmente correto. Segue o texto da VEJA.com.
*
O presidente Barack Obama deu apoio, nesta terça-feira, a uma nova legislação sobre o controle de armas nos Estados Unidos, inclusive o projeto de lei proposto pela senadora democrata Dianne Feinstein, depois do massacre ocorrido em uma escola primária de Connecticut na sexta passada. De acordo com o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, Obama expressou seu respaldo à iniciativa, que pretende proibir a venda e a posse de armas de assalto, como as semiautomáticas com carregadores removíveis.

“O presidente apoia os esforços da senadora Dianne Feinstein para reinstaurar a proibição das armas de assalto”, indicou Carney em entrevista coletiva. Ele acrescentou que Obama é a favor de uma nova legislação que encare problemas como o chamado “vazio legal das armas” e outras questões, como a dos carregadores de arma de ampla capacidade. Os senadores Dianne Feinstein, da Califórnia, e Chuck Schumer, de Nova York, anunciaram no domingo que vão apresentar um projeto de lei sobre o controle de armas assim que se constitua o novo Congresso, a partir de janeiro.

Apesar das declarações, Carney ressaltou que o problema das armas é complexo e “requer mais de uma solução”. “É preciso não só reexaminar nossas leis sobre armas e como as aplicamos, mas também envolver os profissionais da área de saúde mental, funcionários de segurança, educadores, pais e comunidades para encontrar soluções”, disse o porta-voz presidencial. Carney ainda repetiu as palavras de Obama, que já havia dito que os EUA como nação “não fizeram o suficiente para encarar o aumento de violência com armas no país”.

Mercado
Nesta terça, a empresa americana de investimentos Cerberus anunciou que vai vender sua participação na maior fabricante de armas do país, a Bushmaster, que fabrica o fuzil de assalto AR-15. A arma foi usada no massacre na escola de Connecticut. A decisão foi tomada devido à pressão de um de seus maiores investidores – o objetivo seria evitar entrar na discussão sobre o controle de armas. A Cerberus comprou a Bushmaster em 2006, além de outras fabricantes de armas, e fundiu todas no chamado Freedom Group, que agora está à venda.

Rifle
A Associação Nacional do Rifle, o maior grupo de defesa do direito a ter armas nos Estados Unidos, manifestou-se pela primeira vez sobre o massacre nesta terça-feira. A organização afirmou que está “pronta para oferecer contribuições significativas” para prevenir futuros atos como o registrado em Newtown.

“A Associação nacional do Rifle é composta de quatro milhões de mães e pais, filhos e filhas – e nós ficamos chocados, entristecidos e abalados com as notícias sobre o terrível e sem sentido massacre em Newtown”, afirmou a organização em comunicado. A NRA (pela sigla em inglês) tradicionalmente faz lobby contra propostas apresentadas nas câmaras legislativas que defendam mais restrições ao direito de possuir e portar armas.

Por Reinaldo Azevedo

09/11/2012

às 19:31

Obama reincide na prática de tentar apelar à opinião pública para pressionar o Congresso; o remédio já deu errado, mas ele insiste!

Então…

Se americano fosse, teria votado, como já deixei claro!, em Mitt Romney. Estaria do lado dos 48,1% que perderam a eleição, não no dos 50,3% que ganharam… Talvez eu tenha sido muito sutil para alguns (não para os leitores habituais do blog, claro!). Então tento de novo: estaria do lado dos 24 estados que sufragaram o republicado, não no dos 26 que referendaram o democrata. Pode haver quem ainda não tenha entendido: estaria com a quase metade que não queria a continuidade de Obama, não com a metade mais 0,3 ponto que apostaram no contrário.

O cenário que aponto acima, perceberam os leitores atentos, é o de um país que se dividiu nas urnas, o que é legítimo. Os jornais americanos e a imprensa brasileira omitem o óbvio: os que vivem da arrecadação, em vez de gerar riquezas tributadas, fizeram a diferença em favor do democrata; os que são mais estado-dependentes se mobilizaram mais — pior, então, para os que sustentam o circo. Mas não quero me perder nisso agora, não!

Obama recorreu, mais uma vez, àquilo que já é um hábito seu: resolveu governar o país por intermédio da imprensa, conclamando, de novo!, os eleitores a pressionar o Congresso. Talvez ele esteja acreditando no que dizem setores da imprensa americana (e brasileira se soubesse português…), que sustentam que ele teve uma vitória realmente convincente e maiúscula. Por isto escrevi aquele primeiro parágrafo: para demonstrar, pelo exemplo, que isso é falso. Leiam o que informa a VEJA.com. Volto em seguida.
*
Em um rápido pronunciamento nesta sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez um apelo à população. Ele exortou os eleitores a pressionar os congressistas de seus estados para que encontrem uma solução urgente para a crise fiscal por que passa o país. O democrata, que foi reeleito nesta terça-feira, lembrou aos americanos que o chamado “abismo fiscal” (veja quadro explicativo) se aproxima.

Segundo Obama, se o Congresso não entrar em um consenso no tocante a medidas urgentes que precisam ser adotadas para conter o gigantesco rombo fiscal do país, um amplo programa de corte de gastos e aumentos de impostos – no valor de aproximadamente 665 bilhões de dólares em 2013 – entrará em vigor já em 1º de janeiro. “Precisamos reduzir o déficit (fiscal) de maneira responsável. Nosso trabalho aqui é urgente. Nosso prazo está acabando, e isso é ruim para a economia e a classe média”, disse em discurso na Casa Branca, em Washington.

O presidente destacou ainda a necessidade de republicanos e democratas se unirem em apoio a decisões sobre elevação de tributos – medida que ele apoia, mas que encontra nos republicanos uma oposição ferrenha – e de redução de gastos públicos. “Ambas as partes precisam fazer mais. Estou aberto a novas ideias e disposto a resolver o desafio fiscal”, afirmou.

No ano fiscal de 2012, que foi de 1º de outubro de 2011 a 30 de setembro deste ano, o déficit americano superou pelo quarto ano seguido o patamar de 1 trilhão de dólares.

Voltei
No dia 30 de julho do ano passado, escrevi um post sobre uma atitude parecida de Obama. Ele resolvera, à época, pressionar os republicanos por intermédio de um tuitaço. Até então, os republicanos nem mesmo haviam conseguido constituir um candidato competitivo. Não retiro uma só palavra daquele artigo — reproduzido, diga-se, no livro “O País dos Petralhas II – O inimigo agora é o mesmo”. Sim, amigos, a classe petralha é internacional, hehe… Segue aquele artigo. Acho que vale a pena lê-lo ou relê-lo.

*

Há coisas que têm tudo para dar errado e que, vejam vocês, dão! É o caso de Barack Obama nos EUA. O que sempre pensei a respeito deste senhor está nos arquivos. Sempre vi nele o traço inconfundível de um populista do Terceiro Mundo. É claro que isso nada tem a ver com a sua cor ou origem, mas com os seus métodos. Achava detestável sua mania de se referir a “Washington” como o lugar da picaretagem, como se ele não fosse, afinal, alguém de… Washington! No Brasil, Lula atacava — e ataca ainda — as “elites”.

Ambos têm histórias, origens e formações muito distintas. Mas algo os reúne de maneira inegável: não estão nem aí para as instituições; acreditam que uma de suas tarefas é atropelá-las. E as atropelam. Obama, só para citar um caso, foi à guerra contra a Líbia sem pedir autorização para o Congresso e, na prática, jogou no lixo os termos da resolução da ONU que autorizava a ação naquele país. Sim, ele acha que pode.

Nego-me a discutir a questão estúpida sobre se a crise é ou não herança do governo Bush. Deixo isso para o Arnaldo Jabor. Essa é outra marca da mentalidade tacanha terceiro-mundista. Quem se apresenta como candidato e se dispõe a ganhar uma eleição está afirmando que sabe como resolver o impasse — se há um. Se o governo Bush tivesse sido um espetáculo, Obama não teria sido eleito. É simples assim. E ele se tornou presidente justamente porque o outro se deu mal. O que lhe garantiu a ascensão não pode ser fonte permanente de desculpa para o seu insucesso. É uma questão óbvia, de lógica elementar.

Os republicanos não fizeram sozinhos a crise sobre o limite do endividamento. Aliás, Obama passou dois anos com maioria nas duas Casas. Foram os seus apoiadores que ajudaram a extrapolar o limite de gastos. E, numa democracia, ele tem de negociar com o Congresso — quem lhe tirou a maioria na Câmara foi o eleitorado, não uma conspiração. Não gostam do Tea Party, é? Troquem o eleitorado americano, então!!! Ou ele é legítimo quando elege Obama, mas ilegítimo quando dá mandatos à direita republicana? Tenham a santa paciência!

Obama transformou os EUA no Findomundistão, um paiseco ridículo, em que o presidente da República se comporta como um propagandista vulgar. Em meio a uma das maiores crises da história recente dos EUA, sabem o que fez o homem ontem? Um tuitaço, jogando a população contra o Congresso. Ou melhor: tentando incitar as massas contra os republicanos. Leiam este trecho de reportagem da Folha:

Ontem, o twitter @BarackObama, mantido pela campanha de 2012, passou a tarde listando contatos de republicanos que os eleitores deveriam pressionar a ceder.
A primeira mensagem foi enviada pelo próprio presidente, que assina como “BO”: “A hora de pôr o partido em primeiro plano acabou.
Se você quer ver um acordo (#compromise) bipartidário, diga ao Congresso. Ligue. Mande e-mail. Tuíte”.

Você entenderam direito: o endereço criado para a campanha presidencial do ano que vem foi usado para insuflar os americanos contra os republicanos. Isso tudo porque, afinal, o presidente quer se apresentar como um magistrado!!! Num de seus milionésimos pronunciamentos na TV, referindo-se ao plano dos republicanos, aprovado na Câmara e depois rejeitado no Senado, afirmou: “Esse plano nos forçará a reviver essa crise em poucos meses, mantendo nossa economia cativa da politicagem de Washington outra vez”. O homem que usa o seu Twitter de candidato para pressionar em favor de uma questão que interessa ao presidente ataca a “politicagem” de Washington… Ele, afinal de contas, faz o quê?

A verdade insofismável é que Obama é ruim de doer; trata-se de uma dos mais vistosos fiascos da história política dos EUA. Ontem, irritados com a pressão, nada menos de 37 mil seguidores do presidente no Twitter resolveram desertar. Perceberam que estavam sendo vítimas de uma espécie de assédio — e que Obama, afinal, está molestando as instituições do país. Não por acaso, hoje seu governo é aprovado apenas por 40% dos americanos.

O homem pode até vir a ser reeleito — como mais um sintoma da crise, diga-se. Os republicanos, por enquanto, parecem não ter uma alternativa sólida. Um presidente dos EUA, diante de um caso dessa gravidade, senta para negociar com o Congresso em vez de sacar do bolso o BlackBerry… Foi eleito para governar o país mais importante do mundo e se comporta como um tuitero do Findomundistão… É patético! E ridículo! É perigoso!

Um colunista da Folha Online, mandaram-me o link, comparou a situação dos EUA à estabilidade brasileira e concluiu que o que falta ao presidente americano, acreditem ou não, é um PMDB! Essa sabedoria convencional, que vê no partido um, digamos assim, monumento à fisiologia e ao troca-troca, é só uma visão reacionária de mundo. O PMDB seria, segundo entendi, o grande fator de estabilidade do Brasil. O PR também, claro…

É, vai ver é isto mesmo: a política americana anda muito ideologizada, né, gente? Faltam alguns larápios para fazer a moderação, cobrando o devido pedágio…

O mundo é bárbaro.

Por Reinaldo Azevedo

05/11/2012

às 6:55

EUA vão às urnas amanhã: os números da disputa, o triunfo da política e o humano direito à oposição. Ou: Uma lição ao Brasil. Ou ainda: A polarização é o melhor corretivo moral da vida pública

Qualquer coisa pode acontecer amanhã nas eleições americanas: a vitória do democrata Barack Obama, que se reelegeria presidente, ou a do republicano Mitt Romney. Há até quem tema o cenário de 2000, quando George W. Bush conquistou seu primeiro mandato. Perdeu para Al Gore nas urnas (50.460.110 a 51.003.926), mas levou um maior número de delegados — 271 a 267. A Flórida decidiu o jogo em favor do republicano depois de a questão ter ido parar a Justiça. Temem alguns que os EUA estejam sob risco de ver, pela quinta vez na sua história, o vencedor nos votos absolutos não ter necessariamente a maioria no colégio eleitoral. Falarei um pouco dos números para situar a questão, mas meu ponto, neste post, como vocês verão, é outro. Saudarei uma vez mais a democracia americana e o triunfo da política. Já chego lá. Antes, alguns números.

Segundo dados do site Real Clear Politics, que faz uma média com os dados de várias pesquisas nacionais, a disputa, em votos absolutos, estava empatada ontem, com meio ponto de vantagem numérica para Obama: 47,9% a 47,4%. O site fez uma comparação com a evolução dos números da eleição de 2008, conforme se vê na imagem abaixo.

Fica claro que Obama vem enfrentando bem mais dificuldades no confronto com Romney do que no embate com John McCain há quatro anos. O Real Clear Politics faz uma tabela dia a dia de cada eleição: em 2008, como se poderá ver lá, o candidato republicano deixou de ameaçar a posição de Obama já na última semana de abril. E não passou mais à frente. Mitt Romney quase sempre esteve mais perto do adversário do que McCain. Desde 9 de outubro, o republicano já apareceu 17 vezes na liderança; Obama, 7. A diferença, em qualquer caso, é quase sempre inferior a meio ponto — 0,1, 0,2, 0,3…

Segundo o levantamento do site, com base nas sondagens feitas nos Estados, Obama tem hoje uma certeza razoável sobre 154 votos (azul escuro), e Romney, sobre 127 (vermelho escuro). Vejam mapa.

Há os que se inclinam para o republicano (53 votos – vermelho intermediário) e para os democratas (29 – azul intermediário). Os que esboçam tendências estão assim: 18 para o democrata (azul claro) e 11 para o republicano (vermelho claro). Na soma geral, o atual presidente contaria 201 delegados, contra 191 de seu adversário. Ocorre que nada menos de 146 delegados estão distribuídos em Estados em que as pesquisas ora dizem uma coisa, ora outra, sempre com margem apertada (estados de cor cinza). Neste link, vocês podem ter acesso aos levantamentos feitos em cada um.

Destaque-se que a Flórida, que decidiu a vitória de Bush em 200o, agora com 29 delegados, está entre os indefinidos. Se vocês abrirem os dados da pesquisa no Estado, verão que, em 10 pesquisas recentes, Romney vence em seis, Obama, em três, e há um empate. A Carolina do Norte, também incerta, tem 15 delegados. Ali, Romney vence três de cinco pesquisas, e há dois empates. Em Ohaio, no entanto, 11 de 12 apontam uma ligeira vantagem do democrata — são 18 delegados. Na Pensilvânia (20 delegados), seis de sete também dão Obama na dianteira.

Agora ao ponto
Se você for como Arnaldo Jabor, mais democrata do que Barack Obama, pode ser levado a concluir que a humanidade enfrenta hoje algumas ameaças sérias: os radicais do Irã, o Taliban, no Paquistão e Afeganistão, e os… republicanos nos EUA. Seriam fundamentalismos distintos, mas, de algum modo (que nunca fica claro fora do universo das metáforas e das alegorias), combinados. A política brasileira tem perturbado a mente de alguns comentarias, que passam a ver, também nos EUA, a disputa entre o “bem” e o “mal”, o “velho” e o “novo”; o “progressista” e o “reacionário”, os que teriam uma espécie de direito divino de governar (os “bonzinhos”) e os que deveriam apenas servir de oposição consentida nesse simulacro de regime democrático.

Não pensem que a imprensa liberal (isso lá quer dizer “progressista”) americana é muito diferente da nossa (ou melhor: a nossa é que não é muito diferente da deles). Também nos EUA — especialmente no New York Times e na CNN —, pessoas naturalmente boas, como os democratas (!), têm o monopólio das boas intenções, e pessoas naturalmente perversas, como os republicanos, não cansam de, sorrateiramente, planejar o mal da humanidade, dos pobres, da natureza, dos bichinhos etc. Os americanos, no entanto, têm a sorte de contar com pluralidade de fato.

Obama, o mundo e os EUA
Obama, tratei disso em 2008, teria sido eleito presidente dos EUA pelos povos de quase todos os outros países (caso votassem) com uma vantagem muito superior à que obteve nos EUA. Do mesmo modo, seria reeleito agora. Mas a disputa se trava é naquele país que chamam por lá “América”, onde fazer oposição é considerado parte essencial do jogo. É bem verdade que o atual presidente, algo tocado pelo espírito do “fascismo de esquerda” (refiro-me, antes que as antas comecem a focinhar, à questão tratada no livro “Fascismo de Esquerda”, de Jonah Goldberg, que analisa a política americana), tentou satanizar os adversários e demonizar a política, tratando-os como sabotadores às vezes. Não colou. Amplas camadas da população dos EUA repudiam esse comportamento.

Polarização
Quando os republicanos o fizeram dançar miudinho para aprovar o Orçamento, ele ensaiou um muxoxo, falando em sabotagem. Jabor, aqui no Brasil, sugeriu ao ocupante da Casa Branca que atropelasse o Congresso. Obama preferiu ouvir a voz do bom senso e… negociou. 
Nos EUA, por enquanto ao menos — e acho que será assim por muito tempo… —, republicanos são eleitos para ser… republicanos!!! Democratas, para ser democratas!!! Sim, os dois partidos têm seus extremos, seu centro e as suas respectivas alas à esquerda e à direita, que se tocam sem mudar de lado. Por isso a política por lá repudia mensalões e mensaleiros. Os que olham para o cenário pluripartidário brasileiro e enxergam nisso uma virtude estão com a visão distorcida. É justamente a polarização (sem prejuízo de ampla liberdade para formar partidos; até candidato independente é possível por lá, o que é vetado por nossa legislação) que faz a depuração ética e moral da política americana. Não há espaço para as, digamos, virtudes do PMDB e assemelhados. Obama estava mais à esquerda no Partido Democrata, e se pode dizer que hoje migrou para o centro (do seu partido). Romney é um centrista republicano e teve de convencer a direita do seu partido de que poderia liderar o bloco. Não há, nesse setor, grande entusiasmo com ele, mas o embate até aqui tem mostrado que foi uma escolha certa.

Aqui e ali se aponta, e não me parece que seja despropositado, que não há assim tantas diferenças entre Romney e Obama, com o que tendo a concordar. A possibilidade da vitória, de resto, sempre torna mais conservadores os progressistas e mais progressistas os conservadores. Diante do vislumbre de que se vai governar todo um país, cumpre tentar atrair a parcela recalcitrante com um discurso mais inclusivo. É parte do jogo.

O que louvo, no caso, nos republicanos é o destemor da política. Quando parecia impossível, diante da tal obamania, fazer oposição ao presidente, eles fizeram. Quando parecia impossível combater o plano de assistência à saúde de Obama — o que foi aprovado ficou longe do original —, eles se opuseram. “Tudo para sabotar o negro reformista”, poderiam dizer alguns no Brasil. Errado! Assim agiram porque a) discordavam; b) porque aqueles que os elegeram discordavam; c) porque, na democracia, é legítimo discordar — aliás, é só no regime democrático que isso é possível.

Apesar do empate, é evidente que os republicanos enfrentam algumas desvantagens. Ainda que inexista, nos EUA, o pornográfico uso da máquina que se vê no Brasil, é certo que o presidente de turno tem algumas facilidades — entre outras coisas,  atrai o noticiário. Obama é ainda o presidente mais incensado pela imprensa em muitos anos. Ainda que seja hoje o homem mais poderoso da Terra — condição que lhe confere o cargo —, sua história e sua origem fazem com que conserve o charme da resistência, do homem que supostamente luta contra o establishment. Suas eventuais gafes são sempre corrigidas para baixo; as do seu adversário, para cima…

Entendo que o Partido Republicano chegar ao dia da eleição empatado com Obama já é, por si, um elogio à política e ao direito à divergência. Embora não seja a hipótese mais provável, torço para que Romney vença. Qualquer resultado honra a democracia americana, mas a vitória do republicano lhe daria ainda mais lustro.

Texto publicado originalmente às 4h30
Por Reinaldo Azevedo

26/09/2012

às 5:39

Obama faz duro alerta ao Irã na ONU

Por Gustavo Chacra, no Estadão:
Em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, o presidente dos EUA, Barack Obama, atacou duramente a intolerância e o extremismo, defendeu a Primavera Árabe e, mais uma vez, insistiu que não aceitará um Irã nuclear. Diferentemente de outros anos, sua passagem pela ONU durou menos de uma hora, incluindo o tempo em que discursou no plenário. Desta vez, Obama não manteve reuniões bilaterais com líderes de outros países e, logo depois de falar, deixou a sede da ONU sem assistir a outros chefes de Estado e de governo.

Ao comentar a questão nuclear iraniana na ONU, Obama disse que “os EUA pretendem resolver esse problema por meio da diplomacia”. “Acreditamos que ainda temos tempo e espaço para conseguir atingir esse objetivo. Mas nosso tempo não é ilimitado”, afirmou o presidente.

“Um Irã nuclear não é uma ameaça que pode ser contida. Seria uma ameaça para Israel, para as nações do Golfo e para a estabilidade da economia global. Pode provocar uma corrida nuclear na região e minar o Tratado de Não Proliferação (TNP). Por isso, os EUA farão o que devem fazer para impedir os iranianos de conseguirem uma arma atômica.”
(…)
Palestina
No discurso de ontem, Obama evitou dar detalhes sobre a paz no Oriente Médio e não falou em fronteiras, como havia feito no passado, quando defendeu as linhas pré-1967, com um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Desta vez, ele optou pela cautela e disse ser a favor de “um Estado judaico de Israel seguro e uma Palestina independente e próspera”.

Em novembro, a Autoridade Palestina tentará ser aceita como Estado observador das Nações Unidas – mesmo status do Vaticano. O governo de Mahmoud Abbas desistiu de ser membro pleno, porque os EUA deixaram claro que vetariam o pedido no Conselho de Segurança. A decisão de adiar a iniciativa para depois das eleições americanas seria uma forma de evitar fortalecer o republicano Mitt Romney, visto como pró-Israel.
(…)
Vídeo
Ao longo do discurso, Obama, mais uma vez, criticou o vídeo anti-islâmico que causou uma onda de protestos no mundo muçulmano. Ele lamentou a reação violenta e disse que seu governo não poderia ter feito nada, pois a liberdade de expressão é garantida pela Constituição americana.

“O impulso em direção à intolerância pode ser inicialmente focado no Ocidente, mas, com o tempo, não pode ser contido. O mesmo impulso em direção ao extremismo é usado para justificar a guerra entre sunitas e xiitas, entre tribos e clãs. Isso não leva à prosperidade, mas ao caos. Em menos de dois anos, vimos mais protestos pacíficos provocarem mudanças em países de maioria islâmica do que uma década de violência”, disse o presidente dos EUA.
(…)

 

Por Reinaldo Azevedo

21/08/2012

às 6:35

Obama ameaça Síria com intervenção militar caso Assad use armas químicas

No Estdão:
O presidente Barack Obama ameaçou ontem intervir militarmente na Síria, caso o regime de Bashar Assad faça uso de suas armas químicas ou biológicas. Foi a primeira vez que Obama falou abertamente sobre a possibilidade de usar a força contra Damasco, indicando que um eventual cenário envolvendo armas de destruição em massa de Assad não será tolerado pelos EUA. O presidente americano mencionou dois riscos envolvendo esse armamento irregular sírio: o uso por parte das forças de Damasco ou a possibilidade de os arsenais caírem nas mãos de grupos radicais islâmicos.

“Deixamos muito claro ao regime Assad, e também a outros atores no terreno, que o limite para nós é a possibilidade de vermos um monte de armas químicas sendo transportadas e usadas”, afirmou Obama em entrevista coletiva. “Isso mudaria meu cálculo. Não podemos ter uma situação na qual armamento químico ou biológico caia nas mãos das pessoas erradas.”

Ainda segundo o presidente, um cenário desse tipo não representaria apenas uma ameaça aos EUA, mas também a “aliados na região, como Israel”. Obama, entretanto, reforçou que, até o momento, está “totalmente confiante” de que o armamento clandestino de Assad está bem guardado e não será usado.

Segundo grupos de oposição, confrontos entre rebeldes e forças de Assad deixaram mais de 100 mortos ontem, em meio ao encerramento do feriado de Ramadã. Os confrontos voltaram a se intensificar na cidade de Alepo, centro financeiro do norte do país, e nos subúrbios de Damasco.

Articulação. Do outro lado do Atlântico, o governo da França indicou que quer abrir negociações com a Rússia para aplicar sanções econômicas que estrangulem e abreviem o regime Assad. A revelação foi feita pelo ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, que ontem descartou a possibilidade de fornecer armas aos rebeldes em luta contra o Exército em Alepo.

A estratégia envolveria um cerco capaz de minar a saúde financeira do governo sírio, que supostamente gasta € 1 bilhão por mês na repressão aos rebeldes.

A guerra civil na Síria foi o centro de interesses do governo de François Hollande no retorno às atividades após duas semanas de férias dos líderes europeus. À tarde, o presidente recebeu no Palácio do Eliseu o novo interlocutor das Nações Unidas, Kakhdar Brahimi, que o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

No encontro, realizado a portas fechadas, Hollande teria ressaltado o envolvimento da França na resolução do conflito, em busca de “uma Síria livre, democrática e respeitosa dos direitos de cada uma das comunidades”. Mas o presidente francês descartou a possibilidade de armar os rebeldes sírios. “A única saída política é a partida de Assad”, argumentou, sem detalhar sua estratégia.

O chanceler francês explicou como a queda de Assad será perseguida pela Europa, sublinhando que, por enquanto, a opção militar não está sendo considerada. Suas declarações esfriaram a verborragia da sexta-feira, quando o ministro do Exterior disse à imprensa que o regime precisava cair imediatamente e acrescentou que o presidente sírio “não merecia estar na Terra”.

Rússia. Em entrevista à Rádio RTL, de Paris, Fabius indicou que a estratégia passa pela aproximação com a Rússia. “Nós vamos tentar apertar o pescoço do regime por todos os canais possíveis”, adiantou. “Em especial, há um canal que parece paralelo, mas não é: o canal financeiro.”

Segundo o chanceler, o regime de Assad precisa de € 1 bilhão por mês para financiar suas operações militares de repressão aos rebeldes. “Ele tem cada vez menos reservas. Nós contamos que ainda existam apenas por alguns meses, salvo se houver apoio da Rússia e do Irã. É por essa razão que nós teremos de discutir o assunto, ao menos com a Rússia.”
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

18/07/2012

às 21:42

Romney e Obama estão em empate técnico nos EUA, diz pesquisa, com republicano à frente

Por Luciana Coelho, na Folha Online:
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o candidato republicano Mitt Romney aparecem em empate técnico em pesquisa feita para o jornal “New York Times” e a rede de televisão CBS, divulgada nesta quarta-feira. O resultado, no entanto, aponta pela primeira vez Romney à frente, com 45%, contra 43% de Obama. A sondagem é considerada empatada levando em consideração a margem de erro, de três pontos percentuais.

Em abril, ambos tinham 46% das intenções de voto. O levantamento, divulgado ontem, ouviu 1.089 adultos por telefone nos EUA entre os últimos dias 11 e 16. A três meses e meio da eleição, a queda do democrata parece provocada sobretudo pelo mal desempenho da economia: 64% afirmam que seu governo contribuiu para a deterioração do quadro, sendo que 34% responderam “muito” (48% dizem o mesmo do antecessor, George W. Bush).

Em outro indício de que a tentativa de reeleição não será fácil para Obama, 2 de cada 3 eleitores (64%) afirmam que o país está no rumo errado — o maior índice desde janeiro (65%) e uma alta de dois pontos sobre maio, refletindo a deterioração dos dados econômicos no último mês. 

Por Reinaldo Azevedo

02/06/2012

às 17:07

NA VEJA 2 — O dia em que Obama falou demais sobre a Suprema Corte… No Brasil, alguns tolos considerariam coisa normal; por lá…

Leiam reportagem de André Petry, na VEJA desta semana. Ela trata de um caso envolvendo Barack Obama e a Suprema Corte dos EUA, mas evidencia o que eu chamaria “déficit de cultura democrática no Brasil”. Segue trecho.
*
Imagine se o presidente Barack Obama tivesse feito uma reunião furtiva num escritório de advocacia para tentar adiar o julgamento da lei mais relevante que aprovou em seu primeiro mandato – a reforma do sistema de saúde. Obama fez muito menos do que isso, e já foi um salseiro. No início de abril, logo depois que a Suprema Corte encerrou três dias de audiência pública sobre a lei da saúde. Obama resolveu dar seu palpite sobre o assunto. Numa entrevista coletiva no Jardim das Rosas, na Casa Branca, manifestou sua convicção de que a lei permaneceria de pé após passar pelo crivo dos juízes: “Estou confiante em que a Suprema Corte não tornará uma decisão extraordinária e sem precedentes de derrubar uma lei aprovada por ampla maioria de um Congresso democraticamente eleito”. O mundo desabou. Houve até ordem judicial para que o ministro da Justiça explicasse – “em carta de pelo menos três páginas” – o que Obama quis dizer. O ministro respondeu em duas páginas e meia, mas só faltou pedir desculpas em nome do presidente.

Obama falou duas coisas e cometeu três erros. Não haverá nada de extraordinário caso a Suprema Corte venha a derrubar uma lei por considerá-la inconstitucional. A corte vem podando leis há 200 anos. Além disso, a reforma da saúde não foi aprovada por ampla maioria, mas por uma minoria raquítica: 219 a 212. O terceiro erro de Obama foi a imprudência de achar que a oposição não tomaria seu pronunciamento como uma forma de pressionar os juízes. “Ele está tentando intimidar a corte”, disse Bill Wilson, conhecido ativista de causas conservadoras em Washington. “Pode-se esperar isso de um ditador assassino como Hugo Chávez ou Robert Mugabe, mas não do presidente dos Estados Unidos.” O líder da minoria no Senado, Mitch McConnell, cumprindo sua função de fiscal, acusou: “A tentativa do presidente de intimidar a Suprema Cone vai além da má política. É uma demonstração de profundo desrespeito pelas nossas instituições”. O porta-voz de Obama negou a intenção de intimidar e tentou não voltar ao assunto.
(…)
Leia a íntegra da reportagem na edição impressa

Por Reinaldo Azevedo

25/01/2012

às 6:17

Obama propõe aumento de imposto para os ricos em discurso sobre União

Por Denise Chrispim Marin, no Estadão:
Diante do risco de pronunciar seu último discurso sobre o Estado da União, na noite de ontem nos EUA, o presidente americano, Barack Obama, atacou os dois maiores inimigos de sua reeleição, em novembro – a economia fraca e a insatisfação do eleitorado democrata com seu governo.

No plenário do Congresso, Obama defendeu o aumento dos impostos sobre a renda dos mais ricos e a expansão de incentivos do governo ao preparo da mão de obra e aos setores de energia verde e da indústria de manufaturas. A agenda externa foi sublinhada com a ameaça, indireta, de uso da força militar para evitar que o Irã construa armas nucleares. Obama deixou claro que seu governo “não descartará nenhuma das opções sobre a mesa para alcançar esse objetivo”. Igualmente destacou que a retirada de tropas do Afeganistão continuará e indicou não ter dúvidas da queda, em breve, do regime de Bashar Assad, na Síria.

“Nós não voltaremos a uma economia enfraquecida pela terceirização, pelas dívidas incobráveis e pelos falsos lucros financeiros”, afirmou Obama, ao anunciar seu propósito neste ano de “traçar um plano para uma economia feita para durar”.

“Não nos esqueçamos nunca: milhões de americanos que trabalham duro e conforme as regras todos os dias merecem um governo e um sistema financeiro que façam o mesmo. É hora de aplicar as mesmas regras de cima para baixo: não aos resgates, não às benesses, não aos subterfúgios. Uma América construída para durar insiste na responsabilidade de todos.”

Como manda a tradição, Obama iniciou seu discurso no plenário do Congresso às 21 horas (meia-noite de Brasília). Por meio de um e-mail assinado por “Barack”, enviado por sua campanha de reeleição, o presidente informou sua intenção de propor uma “economia que funcione para todos”. Abaixo, estava o link para uma doação a sua campanha.

Com seu discurso, Obama tentaria convencer o eleitor-contribuinte a ver o pleito de novembro como uma escolha entre a agenda democrata e a lei do Estado mínimo proclamada pelos pré-candidatos republicanos – não como o referendo de seu governo. Sua proposta mais emblemática nesse sentido foi a de reforma na tributação federal, para acabar com os benefícios fiscais para os contribuintes com renda superior a US$ 370 mil por ano. Em três ocasiões, desde dezembro de 2010, Obama teve de recuar nesse tópico caro aos democratas para evitar a paralisia de seu governo pelo Congresso, dominado pelos republicanos.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

20/01/2012

às 20:08

Assim caminha a humanidade. Obama, o rei do stand-up com charme, canta e encanta. O presidente é medíocre, mas o comunicador…

Assim caminha a humanidade. Obama, o rei do stand-up com molejo, canta e encanta….

Vejam isto:

Obama estrelou ontem um ato em favor de sua reeleição no Apollo Theater, em Nova York. Em cena transmitida ao vivo pela CNN, cantou um trecho de “Let’s Stay Together”, sucesso de Al Green na década de 70. Green, conhecido como “reverendo” em razão da conversão religiosa (comprou uma igreja) estava presente e havia aberto o evento.

Falando diretamente a seus assessores, Obama brincou: “Those guys didn’t think I would do it. I told you I was gonna do it.” Ou: “Aqueles caras não achavam que eu fosse fazer isso. Eu falei pra vocês que eu faria.” Tudo de improviso, como se vê… Referindo-se a Green, emendou: “Don’t worry Rev, I cannot sing like you, but I just wanted to show my appreciation.” “Não se preocupe, reverendo, eu não posso cantar como você; só queria demonstrar minha gratidão”.

Tudo ao vivo, na CNN.

É… Confronto isso com o ataque de fúria que teve Newt Gingrich na mesma emissora e no mesmo dia quando indagado sobre suposta proposta de “casamento aberto” que teria feito à ex-mulher: “Acho que a natureza perturbadora, maldosa e negativa da imprensa dificulta governar este país”. Imaginem o que poderia resultar do confronto entre Obama e alguém que diz que a imprensa dificulta a governança.

Não estou confrontando conteúdos, não. Estou tratando da guerra de imagens. Obama é um presidente medíocre. Mas continua a ser um comunicador sem igual. O modo como mescla ousadia e fingida timidez nessa pequena cena é fruto de muito trabalho, de muito treino, de muita esperteza. Governasse com a habilidade com que seduz a audiência, e teríamos quem apresentar ao ET quando ele nos pedisse: “Levem-me a seu líder”.

Por Reinaldo Azevedo

20/01/2012

às 18:57

As eleições nos EUA, a velha cobrança do ET — “Levem-me a seu líder” — e as orelhas de Obama

Demorei um pouco porque estava fazendo uma entrevista. Adiante. Os assuntos internos quase não deixam tempo para falar um tantinho do que vai pelo mundo. Vamos lá. No post anterior, há um texto sobre a disputa interna dos republicanos, nos EUA, pelo direito de enfrentar Barack Obama, que disputa a reeleição. Vamos ver: acho que Mitt Romney, dado o conjunto da obra, é, a um só tempo, a melhor e a pior chance que têm os republicanos. Não é só gosto pelo paradoxo, não. Já explico o que quero dizer. Antes, tenho algumas considerações.

Com raras, raríssimas mesmo!, exceções, as críticas que a imprensa liberal americana — secundada pela imprensa filoesquerdista ocidental faz ao Tea Party, o movimento conservador existente dentro do Partido Republicano, traduz uma espécie de rancor à democracia. Uma coisa é discordar das teses do grupo; outra, distinta, é tratar seus partidários como se fossem bestas-feras dispostas a liquidar com a América. Essa é, na verdade, só expressão de uma das faces do “obamismo”. Quem quer que se apresente como seu crítico à direita é logo satanizado. A turma do Tea Party não deu bola para a patrulha e resolveu radicalizar o discurso incorrendo, muitas vezes, em óbvios exageros retóricos, para a satisfação dos “progressistas”.

Essa patrulha, pra mim, não tem nenhuma importância. Os “progressistas” americanos, à semelhança dos daqui, são policias de consciência dedicados, mas, por lá, o jogo é mais equilibrado, e os conservadores também têm uma forte presença no debate. Não existe esse virtual monopólio da opinião que há no Brasil. O ponto que me interessa é outro. O Tea Party conseguiu a adesão de milhões de eleitores da base republicana, mas não conseguiu produzir um líder de dimensão nacional. Ocorreu, infelizmente para os republicanos, uma espécie de fratura interna. Forças tradicionais do partido vêem o Tea Party com desconfiança, e seus admiradores não se sentem representados pelo que consideram a elite partidária.

Por que digo que Mitt Romney é a melhor e a pior chance que têm os republicanos? Porque ele me parece o candidato mais preparado, mas, vejam só, não entusiasma a base que foi mobilizada pelo Tea Party. Parte da crítica que é feita a ele é curiosa: um de seus defeitos estaria em ser rico e, portanto, integrar uma elite supostamente predadora. Esse discurso, que sensibiliza correntes progressistas, hoje é feita também por grupos ultraconservadores. Ele é a melhor chance porque é o mais preparado; também pode ser a pior chance porque não empolga.

A ser verdade o que apontam, no momento, as pesquisas, Romney pode ser ultrapassado por Newt Gingrich e, nesse caso, Obama poderá encomendar o terno da reeleição sem muito esforço. No debate da CNN de ontem, sua vida amorosa conturbada foi evocada, o que o deixou furioso. Nos EUA, é besteira tentar ignorar esses aspectos. E, se querem saber, eles estão certos. Não há nada de errado que se cobre de um homem público que viva conforme o discurso que faz.

Momento infeliz
Os EUA vivem tempos um tanto infelizes no que diz respeito à política. Diga-se o que se disser, ver o presidente Barack Obama a discursar com o Castelo da Cinderela ao fundo, na Disney, é um bom retrato da época. “Sempre é agradável conhecer um líder mundial que tem orelhas maiores que as minhas”, disse o presidente, referindo-se a Mickey Mouse. Então tá.

Romney disse que o presidente vive mesmo na “Terra da Fantasia”. Gingrich foi na canela: Obama ao lado de Mickey e Pluto seria uma foto do gabinete presidencial. O conjunto da obra, em suma, parece pouco sério, embora o mundo viva uma crise grave. Se a Terra parar (lembram-se do filme?), e um ET cheio de bons propósitos humanistas (!) descer da nave e pedir “Levem-me a seu líder”, imaginem o embaraço.

Ademais, acho que as orelhas de Obama, simbolicamente falando, são imensamente maiores dos que as de Mickey. A realidade vivida hoje pelo Oriente Médio é a evidência do quão orelhudo é o atual presidente dos EUA…

Por Reinaldo Azevedo

09/11/2011

às 6:17

Eis os líderes das (im)potências. Digam-me se isso não explica muita coisa!

Por Andrei Netto, no Estadão:
Microfones abertos durante um encontro privado entre os presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e dos EUA, Barack Obama, durante o G-20 de Cannes revelaram o desprezo das duas autoridades pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Bibi Netanyahu. No diálogo, o chefe de Estado francês chama o israelense de “mentiroso”, enquanto Obama se mostra incomodado por ter de lidar com o premiê.

A conversa vazou durante um dos encontros bilaterais entre Sarkozy e Obama no balneário de Cannes, na quinta-feira. O diálogo privado, realizado fora do alcance de diplomatas, foi no entanto presenciado por alguns jornalistas e registrado por microfones abertos durante a reunião. Nela, o presidente americano lamentava ao seu interlocutor o voto da França em favor da adesão da Palestina à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na semana passada. A Casa Branca era contrária à decisão, que acabou aprovada pelo plenário.

A sequência do diálogo caminha para Netanyahu, até que Sarkozy desabafa: “Eu não aguento mais nem vê-lo. É um mentiroso!”, afirma. Obama então respondeu: “Você pode estar cansado, mas eu devo tratar com ele todos os dias”. O presidente americano pediu então ajuda para convencer a Autoridade Palestina a desistir de seu pedido de adesão à ONU, tema que causa divergências diplomáticas entre os dois países.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

21/10/2011

às 6:01

Mais depressa aprendeu o Ocidente a justificar a barbárie dos que o Oriente a apreciar a democracia

Há outro vídeo chocante, que a VEJA Online botou no ar já ontem à noite, com Muamar Kadafi. Ele está ferido, derrotado, mas se nota que está lúcido. Ainda passa a mão na cabeça e certifica-se do sangue que escorre. Foi executado logo depois.  Se quiserem ver, está aqui.

Já escrevi quão constrangedor e degradante para a condição humana é o conjunto da obra. Alguns idiotas estão dizendo que eu, que costumo ser tão implacável, fiquei de coração mole e que lastimo esses eventos porque, afinal, sou um crítico de Barack Obama etc. e tal. Eu defendi a guerra do Iraque, por exemplo (não vou reabrir esse capítulo; ver arquivo do blog), e igualmente censurei o triunfalismo homicida quando Saddam Hussein foi executado, em dezembro de 2006, há quase cinco anos, e o presidente dos EUA era George W. Bush.

Meus valores não mudam com o vento nem estão atrelados a um partido, a uma causa, a uma “luta”. O que mais deploro nas esquerdas, já escrevi aqui centenas de vezes, é justamente o relativismo moral. Não seria eu um relativista. Eu não gosto de relativistas. Não confiaria a eles a minha vida, a minha carteira ou aquele último bombom que deixei para comer na madrugada. Se preciso, um relativista rouba o meu dinheiro, entrega-me aos cães e come o meu doce. Ele só precisa se convencer de que o “povo” precisa da minha carteira, da minha vida e do meu bombom. Por isso não sou também amigo deles. Se julgarem necessário, não hesitarão em trair a minha confiança.

Sim, senhores! Posso compreender, sem jamais justificar, as circunstâncias em que as coisas se deram, os ódios acumulados, os ressentimentos no front da batalha… Mas não compreendo nem justifico a asquerosa reação dos ditos líderes mundiais, especialmente deste patético Barack Obama — hoje o perigo nº 1 a ameaçar o Ocidente —, diante de uma execução extrajudicial. As armas da Otan ajudaram o jihadismo a chegar à cúpula do poder líbio.

Se alguém quer saber qual é o perfil do novo poder na Líbia, basta prestar atenção às palavras de Mahmoud Jibril, chefe do governo de transição. Mesmo depois de as imagens terem corrido o mundo, evidenciando a execução, ele insistiu na versão oficial, segundo a qual Kadafi morreu numa troca de tiros. As imagens diziam uma coisa, e ele, com um ar muito sério e compenetrado, dizia outra.

Há pessoas que preferem afastar de si dilemas éticos e morais transferindo para terceiros a responsabilidade das escolhas que não conseguem fazer: “Eu tenho pena é das vítimas dele, isto sim!”, dizem. Eu também! Sempre o tratei aos pontapés aqui — quem o chamava de “amigo e irmão” era o Apedeuta. Sou contra, sim, a pena de morte, mas não é o destino dele em particular que me mobiliza e constrange. Eu insisto: a Líbia fez uma guerra civil — com a ajuda de EUA, França, Reino Unido e Otan — para pôr um fim ao arbítrio, às execuções extrajudiciais, aos massacres. Quem matou Kadafi, na melhor das hipóteses, foi a Lei de Talião. Um dado adicional: foram os franceses que atacaram o comboio em que ele tentava fugir, reiterando o desrespeito à resolução da ONU.

Oponho-me à pena capital — é um desses valores, como é a minha rejeição ao aborto, que estão na raiz de muitas outras escolhas que faço. Mas não ignoro que estados democráticos, com vigência plena do estado de direito, a apliquem. A única escolha ética aceitável dos rebeldes, JÁ QUE ATUAVAM EM PARCERIA COM A OTAN, QUE ESTAVA ALI COM MANDADO E MANDATO DAS NAÇÕES UNIDAS, era garantir a Kadafi o que ele jamais garantiu a seus inimigos: um julgamento justo. Teria sido certamente condenado, talvez à morte. É diferente de matar um adversário como se mata um porco.

Não são os muitos crimes cometidos pelo algoz de antes e eventual vítima de agora que vão determinar se faço esta ou aquela opção. EU NÃO PERMITO QUE BANDIDOS COMO KADAFI DECIDAM O QUE PENSO OU NÃO.

Encerro notando que certa herança marxista, presente mesmo em algumas cabeças no geral lúcidas, pretende que a história esteja sempre numa espécie de marcha para a frente, rumo ao progresso. Assim, a dita Primavera Árabe, de que aquele evento de ontem deve ser, então, o espinho, representaria a chegada dos árabes à Ágora inevitável da democracia. Lamento, meus caros! A democracia ainda não chegou aos árabes, mas, com certeza cristalina, a barbárie foi celebrada ontem pelas democracias. Com a execução extrajudicial de Kadafi, quem venceu foi o método Kadafi.

Mais depressa o Ocidente se tornou justificador do arbítrio do que os vários Orientes aprendizes da democracia. Kadafi está morto, mas vive naqueles que o mataram. Mais cinco anos de mandato, Obama levará o mundo à beira do caos. Se Deus e o eleitorado americano quiserem, seremos poupados deste arrogante diluidor de instituições e valores. Vamos ver.

Por Reinaldo Azevedo
 

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