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França

14/01/2015

às 16:26

Nada no Alcorão proíbe que se represente a imagem do Profeta. Ou: Queriam a prova de que a Turquia não é uma democracia? Pois não! Ou ainda: Cadê Barack Obama?

Nada no Alcorão proíbe que se faça um desenho da imagem do profeta Maomé. Isso é fruto de interpretação. O livro sagrado dos muçulmanos se refere a Jesus como “o Messias”, “a palavra de Deus”, “a palavra da verdade”, “um espírito de Deus”, “o mensageiro de Deus”, “o servo de Deus”, “o profeta de Deus”, “ilustre neste mundo e no próximo”. Mais: aceita como divinamente revelados os ensinamentos de Moisés e os valida para Maomé. Já escrevi aqui e repito: no Alcorão ou na Bíblia, encontram-se palavras de guerra e palavras de paz. A questão é saber quais triunfam e por quê.

O Alcorão que compreende, em vez de matar, pode tornar o mundo melhor — e também isso vale para o Livro Sagrado dos cristãos. Mas indago: em que país do mundo, como força preponderante, se aplicam os ensinamentos lhanos da lei maometana? Escrevi aqui, já faz tempo, que não considero a Turquia uma democracia. O país é habitualmente citado como exemplo de que a fé islâmica pode conviver com um regime de liberdades públicas.

Apanhei bastante. Fui acusado de preconceituoso. Pois é… A Justiça turca proibiu o acesso a sites que reproduzam a charge publicada pelo “Charlie Hebdo”. No país, só o jornal “Cumhuriyet”, de Istambul, publicou alguns dos desenhos do jornal francês, mas não o de Maomé. Mesmo assim, segundo a publicação, policiais interceptaram os caminhões que saíam da gráfica para verificar se a edição estampava a imagem proibida. Faço perguntas óbvias: em que democracia do mundo isso acontece? Que democracia do mundo interdita o acesso a sites? Que democracia do mundo aplica a censura prévia de arma na mão?

E, neste ponto, acuso a covardia dos líderes do Ocidente. Sim, muitos deles — não Barack Obama, que nem isto fez — compareceram ao protesto na França, que reuniu quase quatro milhões de pessoas. Em seguida, no entanto, teve início a ladainha de desculpas e escusas com o mundo islâmico. Angela Merkel, chanceler alemã, decidiu participar de um ato contra a suposta islamofobia.

Ora, todas as pessoas decentes somos contra a islamofobia, a cristofobia, a judeufobia etc. Mas pergunto: os líderes ocidentais estão fazendo a devida cobrança aos representantes do islamismo moderado — ou, se quiserem, daquele islamismo do Livro Sagrado? Mas cobrar o quê? Que anunciem ao mundo palavras de paz!

O governo turco não se pronunciou oficialmente a respeito. Mas um dos vice-primeiros-ministros, Yalcin Akdogan, afirmou: “Aqueles que desprezam os valores sagrados dos muçulmanos publicando desenhos que supostamente representam o nosso profeta são claramente provocadores”. Ele anunciou isso no Twitter. São palavras de guerra, não de paz.

Cadê Barack Obama? Por que o presidente do país mais importante do que já se chamou “Mundo Livre” está em silêncio obsequioso? Nunca sou ambíguo ou oblíquo. Não estou aqui a especular sobre supostas vinculações, afetivas que fossem, de Obama com o Islã. Acho que o caso é mesmo de fraqueza moral. O mundo que temos é complicado demais para ele.

Vivemos um momento sem dúvida importante. Ou as democracias ocidentais declaram o valor universal da liberdade ou permitem que a lógica do terror e da ditadura religiosa se insinue em sua cultura. O que vai ser?

Não! Não se trata de um confronto entre dois fundamentalismos. A liberdade de expressão não é um princípio — ou, então, um fundamento — que aniquila as vozes contrárias porque seria divinamente inspirada. Ao contrário: sua virtude está na pluralidade humanamente conquistada — e com muito sofrimento.

Mas ainda que se admitisse um confronto de fundamentalistas, seria forçoso reconhecer que existe uma diferença entre o princípio que diz “sim” à diversidade de opiniões e o que diz “não”.

Por Reinaldo Azevedo

14/01/2015

às 15:40

Al Qaeda do Iêmen reivindica responsabilidade por ataque ao ‘Charlie Hebdo’

Na VEJA.com:
O grupo extremista Al Qaeda na Península Arábica (AQPA), com base no Iêmen, assumiu nesta quarta-feira a responsabilidade pelo ataque terrorista ao semanário satírico francês Charlie Hebdo, na semana passada. O ataque deixou doze pessoas mortas, incluindo os principais cartunistas do semanário e dois policiais. O AQPA reivindicou o atentado afirmando que ele foi cometido por ordem de seu chefe supremo, o egípcio Ayman al-Zawahiri. “Fomos nós que escolhemos o alvo, financiamos a operação e recrutamos o chefe”, declarou em um vídeo um dos líderes da Al-Qaeda no Iêmen, Nasser Bin Ali al Anasi.

“A operação foi realizada por ordem de nosso emir Ayman al-Zawahiri e de acordo com a vontade póstuma de Osama Bin Laden”, acrescentou. O vídeo também mostra uma imagem da torre Eiffel desmoronando. No breve comunicado, Al Anasi também afirma que a “operação foi uma vingança para o mensageiro de Alá”, numa referência às charges do profeta Maomé publicadas pelo semanário.

O ataque ao Charlie Hebdo foi o início de três dias de terror na França, que ainda presenciou o assassinato de uma policial e um dramático sequestro com vítimas fatais em um supermercado em Paris. Ao todo, dezessete pessoas foram assassinadas pelos terroristas. Os irmãos Said e Cherif Kouachi, autores do ataque ao semanário, e Amedy Coulibaly, terrorista que assassinou uma policial e quatro reféns, foram mortos pela polícia francesa.

De acordo com a inteligência americana, Said Kouachi viajou ao Iêmen em 2011, onde foi formado no manejo das armas pesadas por membros da Al Qaeda no Iêmen, antes de voltar à França. A AQPA reivindicou vários atentados nos últimos anos. Em novembro de 2010, assumiu a autoria do envio de pacotes-bomba aos Estados Unidos e a explosão de um avião de carga dois meses antes em Dubai.

Histórico
Nascido em janeiro de 2009 da fusão das facções saudita e iemenita da Al Qaeda, o grupo figura na lista de organizações terroristas de Washington, que prometeu 10 milhões de dólares (mais de 26 milhões de reais) por qualquer informação que conduza à localização de seu líder, o iemenita Nasser Bin Ali al Anasi, e de outras sete pessoas da cúpula do grupo. Segundo a inteligência dos Estados Unidos, o grupo é o mais perigoso e ativo braço da rede terrorista Al Qaeda. 

Por Reinaldo Azevedo

14/01/2015

às 15:08

Edição histórica do “Charlie Hebdo” se esgota em horas; mais dois milhões de exemplares foram impressos. E o caso do boneco de neve…

Fila Charlie 4

Fila Charlie 2

Fila Charlie 3

Nem bem havia raiado o dia na França, a edição de mais de três milhões de exemplares do jornal “Charlie Hebdo”, que traz uma charge de Maomé, havia se esgotado. Mais dois milhões de exemplares estão sendo impressos. Desde as primeiras horas do dia, enormes filas se formaram diante das bancas e das livrarias. Os estabelecimentos precisaram improvisar cartazes informando que a edição estava esgotada, como se vê na sequência acima, em fotos de Bertrand Guay, da AFP: “Nós não temos mais Charlie Hebdo” e “Não há mais Charlie Hebdo”.

É claro que os franceses não estão curiosos para ver a charge do Profeta, que já foi divulgada mundo afora. A ida em massa às bancas significa, antes de mais nada, um ato de resistência. A população está deixando claro que repudia o terrorismo — o que, convenham, já era o esperado —, mas vai um pouco além: reitera o seu compromisso com a liberdade de expressão.

Até porque, que fique claro!, desta feita, a charge realmente nada tem de ofensivo. O “Charlie Hebdo” é muito mais duro do que isso. “Ah, mas ofende os muçulmanos porque o Alcorão proíbe qualquer imagem que faça alusão ao Profeta.” Não proíbe, não! Isso é pura interpretação. O livro sagrado dessa religião veta a adoração de ídolos. A se dar crédito a essas leituras, cada clérigo radical terá de fundar seu próprio califado, não é mesmo? Um religioso da Arábia Saudita decidiu que fazer bonecos de neve representa uma grave transgressão.

Segundo clérigo saudita, essa imagem é altamente ofensiva ao Islã...

Segundo clérigo saudita, essa imagem é altamente ofensiva ao Islã…

Por Reinaldo Azevedo

13/01/2015

às 3:59

Obama já era sem nunca ter sido. Ou: O queixo de estátua de um pateta

Barack Obama já era sem nunca ter sido. Às vezes, a gente se orgulha de algumas coisas bestas, sem importância para ninguém a não ser para nós mesmos. E daí? Eu me orgulho de jamais ter caído na conversa deste senhor — e não porque eu seja contra todos os presidentes democratas e tenha predileção por republicanos. Não! Bill Clinton sempre me pareceu à altura do desafio. Procurem no arquivo do blog tudo o que escrevi sobre Obama desde quando pleiteou a vaga do Partido Democrata pela primeira vez. Sempre fiz troça do que chamava, então, de seu queixo de estátua. Mais de uma vez, ironizei a imprensa ocidental, especialmente a brasileira, que tinha a compulsão de chamar seus discursos de “históricos”. Eu gosto de palavras. Perguntava o óbvio: “Como se pode chamar de ‘histórico’ o que ainda não fez história?”. Ademais, inédito não é sinônimo de histórico.

Obama encarna a mais perfeita mistura da pompa com a incompetência. Não vou listar aqui o que considero os seus desastres. Atenho-me à questão da hora. É evidente que ele deveria ter estado na Marcha de Paris, até porque os EUA sofreram o maior ataque do terrorismo islâmico de que se tem notícia. Quarenta chefes de Estado perceberam o alcance do que estava em curso — não ele. Nesta segunda, a Casa Branca teve de admitir que errou no episódio e que deveria ter enviado um representante do governo americano mais graduado. Não, Obama não estava lá. O vice, Joe Biden, não estava lá. John Kerry, secretário de Estado, não estava lá. Por incrível que pareça, Eric Holder, procurador-geral dos EUA, estava lá para discutir os ataques a Paris. Mas não compareceu à marcha — esta, sim, histórica.

O que leva o governo do país mais importante e poderoso da Terra a cometer um equívoco dessa magnitude? A resposta é simples: descolamento da realidade. Pode-se entrar num debate interminável sobre as causas da perda de influência dos EUA no mundo — ela seria fatal ou é fruto de escolhas erradas? Há respostas para todos os gostos. Uma coisa, no entanto, é certa: não é com líderes como Obama que o país vai, quando menos, estancar a derrocada.

Obama acumulou até agora só desastres na política externa. Come brasa até de um líder decadente como Vladimir Putin. O feito mais notável de que pode se orgulhar, santo Deus!, é o reatamento dos EUA com Cuba — o que não deixa de ser um bom retrato da sua gestão. Para ilustrar o vexame, ainda que sem conexão com ele, os criminosos do Estado Islâmico conseguem invadir páginas nas redes sociais do Comando Central das Forças Armadas americanas. Não se roubou nenhum segredo. Apenas se tripudiou um pouco mais do gigante inerme.

Obama é um amador. Como esquecer que esse pateta, em visita ao Egito, resolveu fazer um discurso dirigido a todo o mundo islâmico, no dia 4 de junho de 2009? Era, segundo ele, um novo começo das relações dos EUA com os muçulmanos. Um ano e oito meses depois, Hosni Mubaraki era deposto. A mal chamada Primavera Árabe agitou o mundo islâmico, a Irmandade Muçulmana venceu as eleições egípcias e já foi deposta por um golpe militar. Tanto aquele discurso ao lado de Mubaraki como o dar de ombros de agora para a marcha na França são emblemas da competência de Obama para lidar com os problemas do Oriente Médio.

E ele tem ainda dois longos anos pela frente. Dá tempo de fazer muita besteira. Mas sem perder aquele queixo de estátua e a capacidade de dizer o nada com muita pompa.

Por Reinaldo Azevedo

13/01/2015

às 3:11

É fácil defender o direito que tem o “Charlie Hebdo” de fazer o seu humor indefensável. Ou: Católicos e judeus publicam charges contra… católicos e judeus. Entenderam a diferença que civiliza o mundo?

É fácil defender o humor do “Charlie Hebdo”? A resposta é esta: seu humor é indefensável. Mas é fácil defender o direito que tem o jornal de fazer as suas charges. Não! Eu não sou fã da publicação. Acho que a turma, para usar uma expressão francesa, atua “pour épater le bourgeois”, com o propósito de escandalizar e chocar o homem médio, aquele que certa intelectualidade classifica, cheia de desprezo, de “pequeno-burguês”. Já há pessoas e grupos que fazem algo similar no Brasil. Não me agradam. Não é o que me faz rir. Mas, reconheço, a ofensa pura e simples tem admiradores — especialmente quando inteligente. E isso o jornal é, ainda que possa ser também detestável. E daí? Deve-se matar por isso?

Escrevo este post para louvar a postura de duas publicações: a revista católica francesa Étude e o site de cultura judaica Jewpop. Ambos publicaram charges extremamente críticas — algumas delas verdadeiramente horríveis — contra, respectivamente, o catolicismo e o judaísmo. Entenderam o ponto? Em vez de se sentirem ofendidos e sair matando, um e outro grupos resolveram expor os desenhos. E não que as peças sejam exatamente de bom gosto — algumas delas não passam de agressões gratuitas.

Vejam as imagens publicadas pela revista católica.

Charlie Bento 16 gay

Charlie Cristo conclave

Charlie papa Carnaval

Uma das capas reproduzidas no site católico trata da renúncia de Bento 16. O papa emérito, conhecido por sua rigidez em matéria de doutrina, aparece como um gay que sai do armário, “enfim, livre”, como está escrito lá, para se agarrar com um membro da Guarda Suíça. Uma segunda capa alude ao conclave que vai escolher o novo chefe da Igreja Católica. O título não deixa dúvida: “Outra eleição fraudada”. Na cruz, o próprio Cristo pede para votar. Um dos cardeais lhe faz sinal de silêncio; os outros olham o filho de Deus com enfado. Uma terceira, desenhada por Charb — um dos cartunistas mortos no ataque terrorista —, mostra o papa Francisco no Rio, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, pronto para um desfile de Carnaval: está seminu, com uma tanguinha, algumas lantejoulas e uma sandália estilo Globeleza. E diz: “Tudo para conseguir clientes”.

As charges publicadas no site judeu sobre judeus conseguem ser ainda mais desagradáveis.

Charlie antijudeu 1

Charlie antijudeu 2

charlie antijudeu 3

Numa delas, Hitler aparece saltitante: “Olá, judeus, e aí?”. Numa outra, um soldado israelense, pisoteando palestinos, enfia a baioneta na goela de um deles e grita: “Parem! Deus não existe!”. Uma terceira, de 1977, ultrapassa os limites mais elásticos. Anuar Sadat, presidente do Egito, fez a visita histórica a Israel na celebração da paz entre os dois países. Na capa do “Charlie”, lia-se o seguinte título, com o desenho correspondente: “Um cabrito lambe o traseiro de um judeu”. O primeiro pergunta: “Agora a gente faz a paz?”. Ao que responde o outro: “Continua. A gente vê depois”. A Liga Internacional Contra o Racismo e o Antissemitismo emitiu uma justa nota de protesto. Não matou ninguém.

Vocês entenderam o ponto? Ninguém precisa gostar do humor, do mau humor ou da grosseria. Mais: as pessoas e grupos atingidos têm, nas democracias, o direito de se zangar, de protestar, de expressar o seu ponto de vista, de recorrer à Justiça. A questão é saber se é aceitável que se mate por isso.

Reitero: eu não sou “Charlie Hebdo” caso isso queira dizer endosso a esse tipo de humor. Eu o considero fácil, oportunista, grosseiro e ofensivo. Mas eu sou “Charlie Hebdo” caso se entenda por isso a escolha de instrumentos civilizados para o confronto de ideias — que dispensam bombas, fuzis e degolas. Ademais, como resta demonstrado, é mentira que o jornal se dedicasse especialmente ao ataque aos muçulmanos. Só existe essa percepção distorcida da realidade porque judeus e católicos não prometeram matar ninguém — e, efetivamente, não mataram. Já os extremistas islâmicos…

Por Reinaldo Azevedo

13/01/2015

às 0:58

“Charlie Hebdo” trará Maomé na capa, com uma lágrima nos olhos

A próxima edição do “Charlie Hebdo”, que chega às bancas na quarta-feira, trará uma vez mais um desenho de Maomé, o profeta do islamismo. Ele aparece segurando um cartaz com a frase que acabou se transformando numa espécie de símbolo da resistência ao fascismo islâmico: “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). Acima do desenho, a expressão: “Tout est pardonné” — “Tudo é perdoado”. Atenção! Essa edição especial, que circulará em vários países, está sendo multiplica por 50! Isto mesmo: o jornal imprime habitualmente 60 mil exemplares; desta vez, serão 3 milhões. Vejam a charge.

Charelie Hebdo

Como se nota, uma lágrima verte dos olhos do Profeta. Neste ponto, é preciso indagar: “Mas, afinal, o que é que os islâmicos rejeitam? Um desenho que ofenda Maomé?”. A resposta é “não”. O que autoridades religiosas mundo afora têm proibido é qualquer representação do líder religioso porque isso constituiria uma forma de idolatria. O veto está no Alcorão, o livro sagrado da religião? Também não! O que lá se condena, insista-se, é a idolatria. Absurdo, isto sim, é considerar que uma charge é uma forma de adoração de imagem. Mas ainda que assim fosse, a interdição corânica vale para os muçulmanos.

O desenho de agora, obviamente, não é ofensivo e se pode dizer que, em certa medida, até alivia a carga negativa associada ao islamismo à medida que o Profeta diz também ser Charlie — e, pois, repudiar o atentado, numa admissão tácita de que a violência perpetrada é obra do terrorismo religioso, não da fé religiosa.

Alguém poderia objetar: “Ah, trata-se de uma provocação, de uma desnecessidade”. Será mesmo? Nas várias democracias ocidentais, e cada uma à sua maneira, religião e política podem até estar imbricadas, manter relações de parentesco, mas já não se misturam. Não só isso: também é permitido não ter religião nenhuma e declarar que Deus está morto.

Os vários ramos e subcorrentes do islamismo podem até achar isso um horror, um equívoco e mesmo uma agressão a Deus. Mas não têm licença para matar. Aceitar essa interdição corresponderia a aceitar uma próxima, e outra, e outra mais. Até quando? Em que momento se deve dizer: “Ah, a partir de agora, já não podemos mais ceder”? Ora, em matéria de liberdade de expressão, não se deve conceder é nunca. Os ofendidos sempre poderão encontrar a Justiça, e os ofensores, os braços da lei. É assim que as coisas funcionam nas democracias.

E as democracias ocidentais escolheram o caminho da liberdade, não da ditadura religiosa.

Por Reinaldo Azevedo

12/01/2015

às 23:26

“O Islã precisa sair do século VII”

Por Reinaldo Azevedo

12/01/2015

às 15:46

As esquerdas mundo afora, inclusive as nossas, já estão de quatro para o fascismo islâmico. Como sempre!

É lixo moral, é vigarice política, é canalhice querer estabelecer conexões entre os atentados terroristas havidos na França e as supostas condições em que vivem no país os imigrantes de origem árabe e seus descendentes. Sim, foi em Paris desta vez. Mas já aconteceu em Madri, em Londres e em Nova York. O terror não precisa de motivos. O terror só precisa de pretextos.

E o mais eficaz dos pretextos, que está no cerne de todas as ações terroristas, é aquele que separa, sem matizes, as vítimas dos algozes. Com a ajuda da intelectualidade ocidental, com a colaboração da canalha esquerdista de países democráticos, as lideranças religiosas muçulmanas se apresentam apenas como personagens passivas da ação colonialista dos séculos 19 e 20. Até parece que eles próprios nunca fazem história como protagonistas; seriam, sempre e sempre, objetos passivos, manipulados pela vontade de estranhos.

Ora, trata-se de uma mentira estúpida. Mas o coro contra os franceses já começa a ganhar o mundo. Na Folha, um tal Daniel Serwer, professor da Universidade Johns Hopkins, prefere voltar suas baterias contra a extrema direita francesa, como se esta tivesse invadido a redação do “Chalie Hebdo” para fuzilar pessoas. Raphael Liogier, francês e professor de um observatório de religião, diz, numa fala de impressionante delinquência, que o “desafio real não são os muçulmanos”, mas “o fato de estarmos em uma sociedade em que existe um orgulho narcisista de quem era o centro do mundo e perdeu a influência”. Tudo seria fruto de uma crise de identidade dos europeus.

Vale dizer: ele culpa os que ainda sentem orgulho de ser franceses pelo ataque terrorista. Sabem o que isso significa? Mais uma vez, os pensadores e organismos ligados às esquerdas saem em defesa não dos muçulmanos — que estes não estão sob ataque —, mas dos terroristas.

Não por acaso, grupos de extrema esquerda no Brasil e vagabundos financiados com dinheiro público para fazer suas páginas asquerosas na Internet também não condenaram o ataque. Ao contrário: a exemplo dos terroristas que invadiram o “Charlie Hebdo”, eles querem controlar a mídia, eles querem limitar a liberdade de expressão, eles querem submeter as opiniões e as vontades a um ente de razão, a uma força superior que diga o que pode e o que não pode no país.

A canalha esquerdista brasileira, no fim das contas, a exemplo de seus congêneres mundo afora, vê o terrorismo islâmico como uma espécie de aliado. Não tem a coragem de pronunciar isso claramente porque, aliada à sua burrice, há a covardia. Por essa razão, alguns ditos jornalistas e colunistas preferem, sem justificar explicitamente o terror, voltar suas baterias contra a sociedade francesa — justamente aquela que abriga hoje o maior contingente de islâmicos da Europa.

Raphael Liogier, aquele que acha que os verdadeiros culpados são os franceses, não deixa de ter alguma razão. De fato, os muçulmanos não são o problema. O problema do Ocidente é gente como ele próprio, que se oferece para ser o colaboracionista dos tempos modernos; que se oferece para ser um braço do fascismo islâmico no Ocidente.

Quanto às esquerdas brasileiras que flertam com o terror, dizer o quê? Eu não esperava dessa gente nada muito melhor do que isso. Quem respira lixo moral faz as escolhas compatíveis com o ambiente em que habita.

Por Reinaldo Azevedo

12/01/2015

às 6:09

Eu convido o Islã a chegar ao século 21. Quem topa? Ou: O gênio de Churchill, a idiotia de Edward Said e a delinquência de Tariq Ali. Ou: Não sou “Charlie Hebdo”; o “Charlie Hebdo” é que é parte, e só parte, do que somos

Culpar o Alcorão pelos ataques terroristas havidos na França é, de fato, ridículo. Livros não matam ninguém. As ideias, ah, estas, sim, podem produzir grandes desastres. Ainda bem que, ao longo do tempo, as exegeses judaica e cristã se encarregaram de interpretar, à luz da vida, não da morte, a vontade de Deus, que pedira a Abraão que sacrificasse Isaac — o filho que veio depois de tão longa espera. Na hora “h”, como sabemos, o Senhor conteve a mão do pai, e Isaac não foi imolado no altar da fé. Também Jó não resta como um bom exemplo, como posso dizer?, social e psicologicamente justo para testar a fidelidade de um crente. Textos religiosos são alegorias de sentido moral.

Os convertidos a uma fé que estão livres do demônio do fanatismo entendem que aquelas situações arquetípicas são divinamente inspiradas. Elas nos transmitem um valor, não um exemplo a ser seguido. No que concerne à linguagem — metafórica, alegórica, metonímica —, não há diferença entre Esopo, os narradores da Torá, os evangelistas ou Maomé. O que os diferencia é a crença de milhões de que um conjunto de palavras, e não outro, retrata uma vontade superior, além do alcance puramente humano, onde está o fabulista Esopo.

Livros, com efeito, não matam ninguém, mas as religiões ou ideologias que eles inspiram, a estas podem fazer pilhas de cadáveres. Seria inútil fazer um cotejo entre os Textos Inspirados dos três grandes monoteísmos — judaísmo, cristianismo e slamismo — para saber qual investe mais na paz ou na guerra. Há de tudo em todos eles. Ainda que a Santa Inquisição tenha matado muito menos do que Robespierre, por exemplo, como justificar as decisões do Tribunal do Santo Ofício? Folgo que inexistam hoje, que se conheçam, admiradores da fogueira purgatória. Mas como ignorar que os descendentes do poeta da guilhotina continuam por aí? O fundamentalismo cristão, felizmente, é residual e sem importância. Já os filhotes de Robespierre ainda são muito influentes. Sigamos.

Sim, é, de fato, ridículo atribuir ao Alcorão os atentados terroristas na França, mas indago: por que havemos de ser nós, os cristãos — ou os ateus e agnósticos dos países de maioria cristã — a proclamar essa verdade? Onde estão as autoridades religiosas do islamismo para condenar, atenção!!!, não apenas os ataques terroristas, mas também a força que os legitima aos olhos — e crenças — de muitos milhões?

Ora, acusar a barbárie dos dois atos terroristas que deixaram 17 mortos é tarefa relativamente fácil, mas cadê as vozes relevantes do mundo islâmico para falar em defesa da liberdade de expressão, do direito à crítica, da pluralidade religiosa? Não existem! Lamento, mas é impossível ser honesto intelectualmente e, ao mesmo tempo, sustentar que os valores hoje influentes do islamismo são compatíveis com a ordem democrática. Neste ponto, alguém poderia dizer, e com razão: “Ora, também as narrativas de sua Bíblia se chocam com o mundo dos fatos”. É verdade. Mas pergunto: que país impõe ao conjunto  dos cidadãos os rigores da “minha” Bíblia? Alguém é capaz de um citar um que seja?

Esse é um bom momento para um tolo provocador produzir obscurantismo em vez de luzes. O bobo costuma lembrar que a Igreja Católica reconheceu só em 1992 que errou ao condenar Galileu Galilei, depois de 350 anos. Para todos os efeitos, até essa data, para a Santa Madre, o Sol é que girava em torno da Terra. Pois é… Em 1992, quantas eram as universidades e escolas católicas mundo afora — e a Igreja é a maior instituição de ensino do planeta — que defendiam o geocentrismo? Os médicos e cientistas de seus hospitais produziam e produzem ciência, não proselitismo religioso.

Eu estou aqui a perguntar onde estão os reformadores do Islã. E notem: nem peço a eles que passem a considerar islamicamente legítimo que se desenhe a imagem de Maomé. O que eles têm de reconhecer — e de transmitir a seus fiéis — é que não podem impor a outras culturas e a outras religiões valores que a esses são estranhos. Na melhor cultura política ocidental, que, felizmente, se distingue da religião, tudo pode e deve estar submetido ao livre exame, e os ofendidos buscam em tribunais igualmente leigos, regulados por leis democráticas, a reparação por eventuais agravos. Luta-se com teclados, canetas e lápis de cor, não com fuzis; faz-se um confronto de togas, não de bombas.

Churchill, Edward Said e Tariq Ali
Infelizmente, não li nem ouvi uma só autoridade religiosa muçulmana — e me refiro àquelas que condenaram os ataques, já que as outras, por definição, não o fariam — a defender o direito que têm os não islâmicos de nações não islâmicas de se comportar como não islâmicos. Entendo! Afinal, na esmagadora maioria dos países muçulmanos, estado e religião se misturam, quando não estão submetidos a uma mesma ordem, e a pluralidade religiosa é um valor que suas comunidades cultivam no Ocidente, mas jamais nas terras consideradas já sob o domínio do Profeta. Ou não é verdade que os muçulmanos se espalham no Ocidente instrumentalizando um valor — o da pluralidade — no qual eles próprios não acreditam em seus países de origem? Ou não é verdade que eles usam em sua defesa um direito — a da liberdade religiosa, garantida pelo Ocidente democrático — que sonegam aos cultores de outras crenças?

O jovem Churchill, ele mesmo!, escreveu em 1899, no segundo volume de ‘The River War – A Reconquista do Sudão”, o que segue:
“Como são terríveis as maldições que o maometismo impõe a seus adeptos! Além do frenesi fanático, tão perigoso num homem como a hidrofobia num cão, existe a apatia fatalista do medo. As consequências são evidentes em muitos países. Onde quer que os seguidores do Profeta governem ou vivam, há costumes imprevidentes, sistemas desleixados de agricultura, métodos atrasados de comércio e insegurança da propriedade.  (…). O fato de que, no direito muçulmano, toda mulher deva pertencer a um homem como sua propriedade absoluta — seja uma criança, sua esposa ou concubina — retardará a extinção da servidão. E será assim enquanto o Islã for uma grande força entre os homens. Indivíduos muçulmanos podem demonstrar qualidades esplêndidas, mas a influência da religião paralisa o desenvolvimento social daqueles que a seguem. Não existe força mais retrógrada no mundo. Longe de estar moribundo, o islamismo é uma fé militante, de prosélitos. Ele já se espalhou por todo o centro da África, criando, a cada passo, guerreiros destemidos. Não estivesse o Cristianismo protegido pelos braços fortes da ciência — ciência contra a qual lutou em vão —, a civilização da moderna Europa já poderia ter ruído, como ruiu a civilização da Antiga Roma”.

Como ouso citar aqui a visão que o colonizador — no caso, o inglês Churchill — tem do colonizado? Pois é. Mergulho, assim, numa das farsas mais influentes do nosso tempo, cujo livro de referência é “Orientalismo”, escrito pelo palestino Edward Said. Pesquisem. A tese é conhecida, simplista e mentirosa: existiria um “Oriente” inventado pelo Ocidente (e já evidencio de modo muito simples por que Said é uma piada) como uma espécie de espantalho a justificar toda sorte de brutalidades. Essa suposta construção — da qual certamente a observação de Churchill faria parte — teria se dado ao longo de séculos, atendendo apenas a interesses muito objetivos, essencialmente econômicos e políticos.

Said é um farsante porque, convenham, não existindo razões para haver “um Oriente”, também não haveria para haver “um Ocidente”. Se cai o termo da equação de um lado, há de cair o seu correspondente no outro. Mas esse nem é o aspecto mais importante. Por mais condenável que fosse ou que tenha sido o colonialismo europeu, particularmente o britânico, nos países islâmicos, cumpre indagar: o que foi que eles fizeram dessa herança e em que medida a religião serviu para libertar ou para escravizar os povos?

A Folha de S.Paulo deste domingo publica um artigo asqueroso de Tariq Ali, escritor paquistanês que vive folgadamente na Inglaterra, misturando em doses idênticas esquerdismo rombudo, ódio irracional aos EUA e, como direi?, uma simpatia nada homeopática pelo terror. Segundo esse canalha intelectual, “as circunstâncias que atraem” os terroristas “não são escolhidas por eles, mas pelo mundo ocidental”. Entenderam? Tariq Ali não vive sob leis islâmicas, mas sob as regras da democracia do Reino Unido. Tariq Ali condena, claro, os assassinatos, mas acha que os verdadeiros culpados são as vítimas. Tariq Ali não é um líder religioso. Ao contrário: que se saiba, é comunista e ateu, mas entende as razões dos terroristas e aponta os culpados entre os mortos.

É claro que ainda voltarei muitas vezes a esse assunto. Encerro este texto indagando, uma vez mais,  o que as diferentes lideranças muçulmanas, das mais variadas correntes, fazem de efetivo contra a suposta “islamofobia”. Se o Islã traz uma mensagem de paz, onde estão seus porta-vozes? Que venham a público não apenas para condenar os atentados covardes, mas para defender o valor essencial da liberdade. Não! Eu não sou “Charlie Hebdo” porque isso diz pouco do que sou. O “Charlie Hebdo” é que é parte do que nós somos. E nem sempre fomos assim. Nós nos tornamos assim! No século 17, ainda queimávamos hereges. No século 18, ainda cortávamos cabeças.

Eu convido o Islã a chegar ao século 21. Quem topa? 

Texto publicado originalmente às 3h23
Por Reinaldo Azevedo

12/01/2015

às 6:01

A França vai à rua porque está cansada de carregar a suposta culpa da vítima. Ou: A culpa é dos terroristas, não da “direita”

A França tem 67 milhões de habitantes. Estima-se que 3,7 milhões — 5,5% da população — foram às ruas neste domingo para protestar contra os atos terroristas e em defesa da liberdade de expressão: é como se toda a Paris tivesse decidido marchar (2,2 milhões), com um acréscimo de 1,5 milhão… No Brasil, seria uma manifestação de 11 milhões — quase toda a cidade de São Paulo.

Quarenta líderes mundiais estavam presentes e lideravam simbolicamente a marcha, que mal podia se mover. Nem a Paris de espaços tão amplos esperava por aquilo. De braços dados, caminharam François Hollande, presidente da França; Angela Merkel, a chanceler alemã; o primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e um de seus adversários no xadrez do Oriente Médio, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Em nova evidência — mais uma! — de que nunca esteve nem está à altura do cargo que ocupa, Barack Obama, o presidente dos EUA, se fez notar pela ausência.

A sociedade francesa dá, assim, um sinal de vigor na defesa de um dos valores essenciais da democracia: a liberdade de expressão. De vigor e de enfaro com a lógica do terror, que vai aos poucos sendo metabolizada e incorporada pela intelectualidade ocidental. As evidências de estupidez estão em toda parte.

Querem um exemplo? Na Folha desta segunda, e historiador Daniel Serwer, professor de Gerenciamento de Conflitos na Escola de Relações Internacionais da Universidade Johns Hopkins, de Washington, concede uma entrevista sobre os atos terroristas na França. Afirma o seguinte, prestem atenção: “Os extremistas querem guerra. Para eles, se Marine Le Pen tiver mais votos, é ótimo, porque comprova a tese de que a França é tão ruim quanto eles pregam. Eles se alimentam da extrema direita. Também é mais fácil recrutar novos militantes com atentados de alto impacto — ainda que esses grupos não estejam tendo a menor dificuldade em recrutar novos radicais. Mas devemos nos perguntar o porquê disso”.

Serwer, que faz questão de deixar claro que é judeu — para que não pese, suponho, suspeita de que alimente alguma simpatia pelos extremistas islâmicos —, também acha, a exemplo do paquistanês Tariq Ali, que a culpa é das vítimas. Aplicando a sua fórmula ao conflito israelo-palestino, por exemplo, teríamos de chegar à conclusão de que o terrorismo do Hamas só existe por causa da direita israelense, e não porque os terroristas não aceitam, afinal, a existência do estado judaico. Se o partido de Marine Le Pen for esmagado nas urnas, o terror sai enfraquecido? Ora… O atentado acontece na França num momento em que a esquerda está no poder.

A verdade insofismável é que a França e a Europa como um todo têm tolerado, em nome da diversidade e dos valores do multiculturalismo, a intolerância das comunidades muçulmanas, que têm a ambição de viver segundo valores que desafiam as regras da democracia. Na entrevista, Serwer investe num mantra que têm servido para tentar “compreender” os atos terroristas: os muçulmanos na França, quase na sua totalidade de origem árabe, não gozariam dos mesmos benefícios dos cidadãos franceses.

É verdade! Mas será assim porque o país é relapso — não é!!! — ou porque a religião dessas comunidades se mostra incompatível com os valores de uma sociedade democrática e leiga? Bingo! Os imigrantes e seus descendentes custam os tubos ao estado de bem-estar social francês. E nunca será demais destacar que os únicos árabes que vivem sob um regime de liberdades públicas plenas ou estão em democracias ocidentais ou, vejam que coisa!, em Israel.

Quase quatro milhões de franceses foram às ruas porque estão cansados de carregar a suposta culpa das vítimas.

Texto publicado originalmente às 5h07
Por Reinaldo Azevedo

16/01/2013

às 16:34

Ocidente começa a colher as primeiras flores do mal da dita “Primavera Árabe”

Um dia, creio, o mundo terá clareza das burradas que Estados Unidos, Reino Unido e França fizeram durante a chamada “Primavera Árabe”. Tudo sob a liderança deste Demiurgo das Esferas chamadas Barack Obama. Leiam o que vai no Globo, com informações do El País e de agências internacionais. Volto em seguida.

O braço da al-Qaeda no Norte da África sequestrou 41 estrangeiros em um ataque que seria uma resposta à Argélia por sua solidariedade com a França no conflito com os radicais islâmicos do Mali. O ataque durante a madrugada desta quarta-feira a um centro de extração de gás em In Amenas, perto da fronteira com a Líbia, deixou ainda dois mortos — um britânico e um francês — e seis feridos. Entre os reféns do grupo terrorista estão sete americanos, cinco japoneses que trabalham para a empresa de engenharia japonesa JCG Corp, ao menos um francês, um irlandês e um norueguês.  Os sequestradores fugiram com os estrangeiros, provavelmente em direção ao Mali. A petroleira BP, uma das que exploram o edifício, no entanto, informou que alguns homens armados ainda seguem no local.

O ministro de Exterior da Irlanda, Eamon Gilmore, confirmou que um dos presos é cidadão irlandês e exigiu a captura imediata dos sequestradores. A mulher do refém norueguês também afirmou ao jornal “Bergens Tidende” que seu marido havia sido sequestrado. “Ele me ligou esta manhã e disse que foi feito refém.

O incidente também levantou temores de que a ação francesa poderia incitar mais ataques islamistas de vingança contra alvos ocidentais na África (…) e na Europa. O centro de extração de gás era explorado em conjunto pela empresa argelina Sonatrach, a britânica BP e a norueguesa Statoil. “É evidente que existe um vínculo direto entre este golpe e o apoio argelino à França”, afirma o analista argelino Chafic Mesbah. “A autorização de sobrevoo outorgada pela Argélia à força área francesa que bombardeia os grupos armados em Mali supõe uma mudança da atitude argelina. Há 20 anos, o pedido de Paris para utilizar o espaço aéreo argelino foi negada”, afirma ele, que foi coronel do Estado Maior.

Tropas argelinas tinham montado uma operação para resgatar os reféns e cercado o acampamento dos trabalhadores em Tiguentourine. Uma fonte do governo francês contou que os atacantes tinham vindo da Líbia. A ANI, agência de notícias de Mauritânia que tem contato direto regular com os islâmicos, informou que os combatentes sob o comando de Mokhtar Belmokhtar estavam mantendo os estrangeiros apreendidos no campo de gás.

Belmokhtar por anos comandou combatentes da al-Qaeda no Saara antes de montar o seu próprio grupo armado islâmico, no ano passado, depois de uma aparente briga com outros líderes militantes.
(…)

Voltei
A França do “pacifista” François Hollande interveio no Mali. Pode ter arrumado uma dor de cabeça e tanto. Não o fizesse, no entanto, boa parte do país cairia nas mãos do terrorismo islâmico. Pois é…

E de onde saíram alguns dos terroristas do Mali? Estavam combatendo o finado Muamar Kadafi, na Líbia, ao lado dos supostos “heróis de Benghazi” e, bem…, da Otan. Barack Obama, David Cameron e Nicolas Sarkozy não viram mal nenhum em abrir caminho, com bombardeios aéreos, para o avanço das forças terrestres anti-Kadaki. O chato é que elas estavam coalhadas de jihadistas islâmicos.

Vejam este mapa do Norte da África. Observem que, entre a Líbia e o Mali, existe a Argélia.

Notem, agora, onde fica Ain Amenas, alvo do ataque terrorista.

Isso significa o óbvio: os terroristas se espalham hoje pelo Sul da Líbia e da Argélia e transitam livremente pelo Norte do Chade, Niger e, como é sabido, do Mali, onde encontraram as condições adequadas para uma organização de caráter militar. Convém não esquecer: são forças ligadas à Al Qaeda que lideram o confronto com o carniceiro Bashar Al Assad, na Síria.

Chamei Assad de “carniceiro”? Como eram, diga-se, Hosni Mubaraki e, muito especialmente, Muamar kadafi. O ponto não é saber se eles mereciam ser derrubados. A questão relevante é avaliar se os terroristas são aliados objetivos nessa causa. E eu acho que não são. Esse flerte com o terror e com extremismo, tendo como pretexto a “Primavera Árabe” e o fim de ditaduras mal começou a cobrar o seu preço. Um equívoco não deixa de ser um equívoco, ainda que unanimemente aplaudido.

Lá vou eu fazer uma ironia que Jeca não entende: eu bem que adverti Obama, Cameron e Sarkozy… O óbvio costuma acontecer.

Por Reinaldo Azevedo

15/01/2013

às 4:53

Franceses nas ruas; brasileiros debaixo da cama. Ou: Quando os verdadeiros progressistas são os conservadores. Ou ainda: Reacionário é o silêncio!

Pois é… A França assistiu neste domingo à maior manifestação popular em 20 anos, segundo avaliação da imprensa do país. Milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra a proposta do governo socialista de François Hollande, que transforma a união civil de homossexuais — que é legal no país — em casamento propriamente dito, o que implica, entre outras consequências, a legalização da adoção de crianças por parceiros do mesmo sexo. O governo foi surpreendido pelo tamanho do protesto. As estimativas mais modestas falam em pelo menos 350 mil pessoas. Os organizadores, como sempre, vão bem além do dobro e chegam a um milhão. No máximo ou no mínimo, o fato é que ninguém esperava tanta gente na rua por causa de um tema ligado ao que se convencionou chamar “costumes”. A Igreja Católica, os partidos conservadores e outras correntes religiosas, como evangélicos e islâmicos, apoiaram o protesto contra a proposta do governo, que muda, é evidente, o conceito de família.

Atenção, meus caros! Não vou aqui debater se é positivo ou negativo haver casamento, se a adoção é moralmente lícita ou não. Todos sabem o que penso. Já escrevi diversos textos a respeito. Se há tema em que as posições se extremam, com ignorâncias vazando para todos os lados, é esse. O debate se perde em impressionismos sobre o caráter congênito ou não da homossexualidade, e não se se chega a lugar nenhum. O ponto que me interessa é outro.

Em qualquer democracia do mundo, mesmo naquelas consideradas mais “avançadas”, temas relativos a costumes e comportamento — sexualidade, constituição da família, aborto — são objetos de disputas políticas, como tenho insistido aqui há muito tempo. Não se demonizam, por princípio, correntes de opinião porque pensam isso ou aquilo. O debate não é interditado. Ao contrário: ele vai para a praça pública. E há partidos políticos, como há na França, nos EUA e em toda parte, que se engajam na defesa de pontos de vista que podem não ser considerados os “corretos” pela “imprensa progressista”. A razão para isso acontecer é simples e plenamente explicável pelo regime democrático: há pessoas na sociedade que pensam exatamente aquilo, que estão na contracorrente do que é considerado influente e certo em determinadas áreas do pensamento.

Faço aqui uma nota à margem antes que continue: o governo Hollande está metendo os pés pelas mãos em diversas áreas. Intuo que uma manifestação contra o casamento gay não assumiria aquela dimensão se não houvesse um descontentamento mais geral com o governo. De todo modo, foi o tema que levou as pessoas à praça, e partidos políticos não tiveram nenhum receio de assumir a defesa da chamada “família tradicional”. Mais: isso não foi considerado um pecado de lesa-democracia. Também a militância gay francesa sabe que se trata de uma questão política e está preparada para enfrentar o debate.

No Brasil…
A França tem 66 milhões de habitantes, pouco menos de um terço da população brasileira. Vamos supor, pela estimativa menor, que houvesse no domingo 350 mil pessoas na praça. É como se 750 mil brasileiros decidissem marchar contra o casamento gay em Banânia, com o apoio de eventuais partidos de oposição. Seria um deus nos acuda. Analistas alarmistas logo enxergariam, sei lá, o risco de “fascistização” do Brasil. Houvesse o apoio da Igreja Católica e dos evangélicos ao protesto, como houve na França, seríamos confrontados com tratados sobre o caráter laico do estado, a influência do fundamentalismo cristão na política e bobagens congêneres.

Dei uma passeada pela imprensa francesa. Nem as esquerdas embarcaram nessa porque, afinal, se reconhece o direito que têm as pessoas que discordam de dizer “não”. E NOTEM, LEITORES, COMO OS QUE SE OPÕEM AO PARTIDO SOCIALISTA NÃO TÊM RECEIO DE DIZER O QUE PENSAM E DE OCUPAR A PRAÇA. Atenção: pesquisas de opinião indicavam uma maioria folgada em favor do projeto do governo. O apoio caiu bastante, mas, consta, ainda é majoritário. A oposição ocupou as ruas contras um real — ou suposto — pensamento majoritário.

Aborto e kit gay
Lembrem-se o que se deu por aqui em 2010 e em 2012 com os debates sobre, respectivamente, o aborto e o kit gay. O PT sabia que, se explorados com eficiência pelos adversários (o que não aconteceu nem num caso nem em outro), a defesa que Dilma fizera da legalização do aborto e o desastrado material didático autorizado por Fernando Haddad poderiam render prejuízos eleitorais. Fez o quê?

Com a colaboração de amplos setores da imprensa, recorreu a ações preventivas e acusou os adversários de estarem explorando de maneira “indevida”, “antidemocrática” e “fascista” temas que, diziam, nada tinham a ver com eleição. NÃO TINHAM? Como assim? Então governos e governantes não devem responder por suas escolhas? Ora, é claro que tinham!

Em vez de os petistas serem confrontados com suas opiniões, como estão sendo os socialistas franceses, os adversários é que se viram na contingência de se defender. Haddad autorizou a produção de um material que sustentava ser a bissexualidade superior à heterossexualidade, mas seu adversário é que ficou sob acusação.

Ditadura de opinião e oposição banana
O nome disso é ditadura de opinião, que só se instala quando se tem uma oposição meio banana, não é? Vejam lá: os partidos e grupos que se opõem a Hollande não tiveram receio de convocar um protesto contra uma medida do governo — que, reitero, tinha o apoio folgado da maioria. Alguém se lembra de as oposições, no Brasil, convocarem alguma manifestação em 10 anos de governo petista, fosse para protestar contra a corrupção, o aborto, o casamento gay ou a rebimboca da parafuseta?

Ao contrário! Os nossos oposicionistas fazem questão de tentar provar o seu credo politicamente correto. Se vocês procurarem, encontrarão entrevistas de FHC e de Aécio Neves censurando a suposta abordagem — QUE, REITERO, NÃO FOI FEITA — de temas como aborto e kit gay em campanhas tucanas. A nossa oposição mais organizada não consegue ir além do administrativismo e do economicismo. Quantos se deixam mobilizar por esse discurso?

Não! Não estou afirmando que se devam transformar temas relativos a costumes em cavalos de batalha eleitorais. Mas sustento, sim, que alternativas políticas têm de ser construídas também com valores alternativos — alternativos à força dominante da política num dado momento. É assim no Chile. É assim nos EUA. É assim na França. É assim na Alemanha. É assim em toda parte em que vigora o regime democrático.

No Brasil, até os flagrados com a mão na massa são tratados com deferência pelos oposicionistas. Por incrível que pareça, o petista Olívio Dutra conseguiu ser mais duro com José Genoino, que teve a cara de pau de assumir uma vaga na Câmara mesmo condenado a mais de sete anos de cadeia pelo Supremo, do que os tucanos. Sempre que coube a um deles se manifestar, lá vieram os salamaleques aos passado “nobre” do militante comunista… Parece que temos uma oposição vocacionada para pedir desculpas.

Caminhando para a conclusão
Entenderam o meu ponto? A realização plena da democracia só se dá com o confronto de ideias e de posições. Não existe uma política que se exerça negando a política. A menos que o governo Dilma se desconstitua em meio a uma crise que não está no horizonte, será muito difícil às oposições construir um discurso alternativo. E olhem que o governo é ruim pra chuchu. Uma coisa é certa: com conversa econômico-administrativista, não se vai muito longe.

As democracias, reitero, costumam exacerbar, nos limites da legalidade e da institucionalidade, as divergências porque isso é próprio do sistema. No Brasil, a regra tem sido a acomodação. Não é por acaso que, por aqui, alguns bananas demonizem os republicanos nos EUA porque, dizem, eles tentariam impedir Barack Obama de governar, chantageando-o com o abismo fiscal. Errado! É o contrário! Eles obrigam o governo a negociar e exercitam a democracia. Em Banânia, sem dúvida, faz-se o contrário: o STF decide que o a atual distribuição do Fundo de Participação dos Estados é inconstitucional, por exemplo, e o Congresso não vota nada no lugar na certeza de que se dará um jeitinho…

É assim que se fabrica uma das piores escolas do mundo, uma das piores saúdes do mundo, uma das piores seguranças do mundo, uma das maiores cargas tributárias do mundo. E, sem dúvida, uma das maiores desigualdades do mundo. Tenta-se viver, no país, uma política que é, de fato, a morte da política. Trata-se de uma condenação ao atraso.

Concluo
Volto à França. Pouco importa se você é favor do casamento gay ou contra; a favor da adoção de crianças por homossexuais ou contra. O fato é que o protesto dos “conservadores” franceses foi uma evidência de que a França ainda respira; de que ainda há por lá uma sociedade “progressista”, que aposta no confronto de ideias.

Reacionário é o silêncio das falsas conciliações.

Texto publicado originalmente às 18h02 desta segunda
Por Reinaldo Azevedo

14/01/2013

às 6:45

Milhares vão às ruas na França. Serão todos reacionários delirantes?

Num post nesta página, trato da omissão de setores importantes da oposição brasileira, que não conseguem confrontar o governo. Pois bem. Abaixo, reproduzo um texto que está no Globo Online sobre um protesto gigantesco havido ontem em Paris contra uma proposta do governo. Pensem a respeito e se indaguem como se comportariam as nossas oposições em caso semelhante. Mais tarde, volto ao assunto. Interessa-me, nesta questão, menos o mérito do que o fato de que não existem temas interditados na democracia, como fazem crer alguns grupos de pressão no Brasil, muito especialmente na imprensa. Mas fica para depois. Informação importante: a França reconhece a união civil entre homossexuais.
*
Milhares de pessoas tomaram as ruas de Paris neste domingo para protestar contra o plano do presidente François Hollande de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A polícia calcula que cerca de 340 mil manifestantes marcharam de três pontos diferentes da capital em direção à Torre Eiffel, onde se reuniram ao final da tarde. Os organizadores do evento, apoiados pela Igreja Católica e pela oposição de direita, estimaram em 800 mil os manifestantes.

Cinco trens de alta velocidade e 900 ônibus foram reservados para trazer manifestantes de cidades do interior para a capital, alguns antes do amanhecer.

“Ninguém esperava isso dois ou três meses atrás”, disse Frigide Barjot, uma comediante que lidera o grupo “Demo para Todos” que ela descreveu como “multicultural, multirreligioso e multissexual”.

Fortemente apoiado pela hierarquia católica, ativistas mobilizaram políticos conservadores, muçulmanos, evangélicos e até mesmo homossexuais que se opõem ao casamento gay.
(…)
Legalizar o casamento gay — “casamento para todos” — era promessa de campanha do presidente François Hollande (…), que prometeu aprovar a medida no primeiro ano no cargo, e o projeto de lei será levado ao Parlamento até o fim deste mês.

Hollande, entretanto, irritou os opositores do casamento homossexual ao evitar o debate público sobre a reforma, que a ministra da Justiça, Christiane Taubira, descreveu como “uma mudança na civilização”.

O apoio ao casamento gay na França caiu cerca de 10 pontos percentuais desde que opositores começaram a se mobilizar, chegando aos 55%. E, de acordo com pesquisas, menos da metade dos entrevistados aprovavam a adoção de crianças por homossexuais.

Sob esta pressão, os legisladores desistiram do plano de permitir que lésbicas tivessem acesso à inseminação artificial.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

07/05/2012

às 6:01

Crise elegeu socialista na França, assim como elegeu conservadores em Portugal e na Espanha

Leitores pedem que eu comente o resultado da eleição francesa — e há até os bobinhos que acham que estou tristíssimo com a derrota de Nicolas Sarkozy. Se o meu objetivo fosse caçar motivos para insatisfações políticas, não precisaria buscá-los na França… Que tolice! Já admirei Sarkozy mais do que hoje — e já escrevi aqui sobre o desencanto. Divido seu tempo no poder em dois momentos: antes e depois de se tornar uma celebridade, o marido de Carla Bruni. Mostrou-se um tanto deslumbrado e andou desrespeitando certos rituais do homem público, ao tentar, por exemplo, fazer do filho um misto de gênio político e de negócios. É evidente que acho que ainda era o melhor para o seu país no que diz respeito às ideias — nem eu nem os franceses sabemos direito quais são as de François Hollande. Algum tempo na oposição fará bem aos conservadores franceses. Os socialistas estão longe da Presidência há 24 anos. A democracia consolidada, como é a francesa, convive bem com a alternância no poder. Os totalitários daqui é que se dedicam à criminalização do dissenso. Na França, é o sal da política.

O resultado era esperado. Foi mais um governo europeu colhido pela crise. Por enquanto, só Angela Merkel se segura bem no cargo porque a economia da Alemanha tem sobrevivido bem a terremoto. Os governos de turno no momento em que o tsunami colheu o continente arcaram com o peso da crise: os socialistas cederam lugar aos conservadores na Espanha e em Portugal, por exemplo; na França, deu-se o contrário. Eis o lado bom da democracia.

Há turbulências no horizonte. Hollande já estreou afirmando que vai cortar 30% do próprio salário. Huummm… Vamos ver. O que isso muda? Nada! Ah, mas é um gesto demonstrando que pretende ser austero nos hábitos políticos”… Sei. Mostra-se um adversário do corte de gastos porque acha que isso aprofunda a crise. Está na contramão do pensamento influente na área econômica da União Europeia, liderada pela Alemanha. A convivência certamente será menos pacífica do que com Sarkozy… Vai dar certo?

Hollande também chega com um dos velhos truques das esquerdas, as contemporâneas, que consiste em esconder a falta de um programa econômico com uma agenda liberalizante nos costumes: casamento gay, adoção de crianças por gays etc. e tal. Conquistar as franjas dessa militância politicamente correta, muito influente na imprensa e nas redes sociais, ajuda a compor o perfil do governante moderno… Também deve acenar com alguma concessão a imigrantes. Ocupará espaço no noticiário se fazendo suposto representante das luzes, em contraste, como gostavam de considerar alguns, com o dito “reacionarismo” de Sarkozy.

Eu, na verdade, duvido que ele vá tentar emplacar uma agenda muito distinta da do seu adversário. Os acordos da União Europeia não dão espaço para muita criatividade. Se a economia do continente se recuperar no curso de seu mandato, virão alguns bons anos de Partido Socialista pela frente. E isso, por óbvio, se decide mais na Alemanha do que na França.

Vamos ver. Qualquer racionalista diria que a União Européia foi feita para não funcionar. Povos locais decidem que governo querem ter e com qual inclinação, mas um único organismo — onde a Alemanha dá as cartas porque a economia lhe faculta essa licença — decide que política econômica esses povos terão.

Texto originalmente publicado às 3h47 desta segunda

Por Reinaldo Azevedo

06/05/2012

às 7:35

Sob a sombra da crise, socialista chega como favorito para desbancar Sarkozy neste domingo

Por Andrei Netto, no Estadão:
Convidado a apresentar suas primeiras medidas caso seja eleito o novo ocupante do Palácio do Eliseu, durante o debate televisivo realizado entre os candidatos à presidência da França, na quinta-feira, o líder do Partido Socialista (PS), François Hollande, repetiu 15 vezes a frase: “Eu, como presidente da República…”. Hoje, a previsão tem tudo para se realizar.

Depois de 17 anos ausentes, desde o fim do mandato do ex-presidente François Mitterrand, os socialistas devem enfim recuperar o comando da França, batendo o atual presidente, Nicolas Sarkozy.

Embora alguns cientistas políticos ainda hesitam em reconhecer em público o amplo favoritismo de Hollande, o deputado e ex-secretário-geral do PS lidera todas as pesquisas de opinião sobre o segundo turno feitas pelo menos desde janeiro. Após vencer o primeiro duelo das urnas, há duas semanas, o socialista chega com escores que variam de 52% a 48% a 54% a 46% – consideradas amplas vantagens nas eleições francesas. Nessa configuração do eleitorado, dizem os institutos de pesquisa Ipsos, Ifop, TNS-Sofres, CSA, BVA, LH2 e OpinionWay, nunca um candidato a presidente foi surpreendido, perdendo a eleição para seu rival – no caso atual, o presidente Sarkozy – a 48 horas do voto.

A eventual vitória, se confirmada nas urnas às 20 horas de hoje, horário de Paris (15 horas, horário de Brasília), também representará a superação de um drama na história do PS. Há 10 anos, em 2002, o candidato à presidência pelo partido, Lionel Jospin, foi eliminado ainda no primeiro turno pelo extremista Jean-Marie Le Pen. O resultado foi uma década de falta de liderança, de desestruturação e de desunião no partido.

Para se reerguer, o Partido Socialista teve de se reinventar, o que fez em 2008, adotando uma nova “Declaração de Princípios” e abandonando termos como “revolução”, “propriedade primitiva dos meios de produção” e “operariado”. Nessa época, o partido reconheceu a ideia do “livre mercado” e da “economia mista”, abandonando de vez as terminologias clássicas de um partido socialista. Um dos artífices desta reforma foi François Hollande, então secretário-geral do PS. Quatro anos depois, é o socialista o maior beneficiado pela reforma realizada no interior do partido. Desde que renovaram seu linguajar, os socialistas vinham traçando estratégias para assumir o poder nas eleições de 2012.

O sucesso da candidatura de Hollande, dizem analistas políticos, é fruto da modernização do partido, que voltou a ampliar sua base de eleitores. Mas também é produto de uma conjuntura econômica negativa na Europa, marcada pelo desemprego elevado, pela recessão aguda e pela contestação feroz e crescente sobre a eficácia dos planos de austeridade, defendidos pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e por Sarkozy. Outro forte motivo é a rejeição ao estilo pessoal – e personalista – do atual presidente, o mais impopular da história da Quinta República, inaugurada em 1956.

“Sarkozy parece definitivamente ter perdido porque foi incapaz de mudar sua imagem nas poucas semanas de campanha, depois de construí-la em cinco anos de governo”, analisa Philippe Moreau-Defarges, cientista político do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).
(…)

Por Reinaldo Azevedo

23/04/2012

às 6:25

Socialista Hollande bate Sarkozy no 1º turno e amplia favoritismo na França

Por Andrei Netto, no Estadão:
Numa eleição marcada pela alta mobilização popular e pela ascensão surpreendente da extrema direita, o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, confirmou a expectativa e venceu o primeiro turno das eleições à presidência da França com 28,63% dos votos – totalizadas 99,9% das urnas. Com 27,08% da preferência, Nicolas Sarkozy tornou-se o primeiro chefe de Estado da história do país a chegar em segundo lugar nesta etapa do pleito e agora depende dos votos da candidata radical Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), para tentar conquistar a reeleição.

O resultado oficial ainda dependia dos votos do exterior, mas os índices apontados pelo Ministério do Interior já estavam virtualmente definidos. Os dados revelaram o crescimento recorde da extrema direita, que reuniu 18,01% dos votos, a maior votação da FN desde sua criação, em 1972. As urnas também indicaram um bom desempenho da extrema esquerda, embora inferior ao esperado pelas pesquisas da última semana. Jean-Luc Mélenchon, candidato da coligação Frente de Esquerda, que inclui o Partido Comunista (PCF), reuniu 11,13% dos votos, registrando o melhor desempenho de um partido radical de esquerda desde 1981. Já o centrista François Bayrou, do Movimento Democrático (Modem), foi a decepção, com 9,11%, em quinto lugar.

A vitória de Hollande sobre Sarkozy já era celebrada na sede do PS no fim da tarde, quando o Estado conversou com militantes e líderes políticos. Os discursos se dividiam, entretanto, entre a satisfação pela vitória parcial e a preocupação com o crescimento de Marine, o que deverá obrigar os socialistas a reorientar a campanha nas próximas duas semanas, levando em conta os temas do eleitorado extremista. Em seu primeiro discurso, em Tulle, cidade do sudeste da França, Hollande criticou seu principal oponente e acenou a quem votou na extrema direita. “O primeiro turno representa uma sanção ao mandato que chega ao fim”, disse o socialista, em referência a Sarkozy. “Nunca, nem em 2002, a Frente Nacional havia atingido um nível tão elevado. É um novo sinal que convoca a mudanças na república.”

Minutos depois, Sarkozy falou à sua militância, reunida em um teatro de Paris – que explodiu em vibração quando o escore da Frente Nacional apareceu nos telões, esperando contar com essa reserva de votos. Ciente de que depende do apoio da extrema direita para se reeleger, o chefe de Estado fez uma primeira ofensiva sobre esse eleitorado. “Os franceses expressaram um voto de crise, testemunhando suas inquietudes, seus sofrimentos e suas angústias frente a este novo mundo que está se desenhando”, analisou o presidente, usando a seguir todas as bandeiras da direita radical: “Estas angústias, estes sofrimentos, eu os conheço, eu os compreendo. Elas dizem respeito a nossas fronteiras, à luta contra a transferência de empresas para o exterior, ao controle da imigração, à valorização do trabalho e à segurança”. Sarkozy ainda desafiou seu oponente a aceitar a realização de três debates de TV, na expectativa de bater o socialista na frente das câmeras e reverter a desvantagem.

Convertida em fiel da balança, Marine Le Pen mostrou-se emocionada com o resultado de sua primeira campanha, na qual superou o melhor porcentual obtido por seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2002. Em seu discurso, ela já ensaiou o lançamento de sua candidatura à presidência em 2017 e tentou buscar apoios na esquerda radical. “É apenas o início de nosso combate. É o começo de uma grande reunião de patriotas de direita e de esquerda, de apaixonados pela França e defensores de sua identidade”, disparou a extremista, sem manifestar apoio a nenhum dos dois lados ainda na disputa. “Frente a um presidente em fim de mandato, líder de um partido consideravelmente enfraquecido, nós agora somos a única e verdadeira oposição à esquerda ultraliberal, laxista e libertária.”
(…)

Por Reinaldo Azevedo

23/03/2012

às 16:08

A França insegura, o terror e a eleição

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a oposição socialista estão — e era fatal que isso acontecesse — explorando eleitoralmente a tragédia de que foi protagonista o terrorista (é o que ele era!) Mohammed Merah. Faz diferença, sim, saber se ele era amador ou profissional porque isso pode indicar ou não uma rede instalada na França, mas, no mérito, tanto faz. Ele era um homem que matava inocentes em nome de sua causa. Terrorista! Pois bem! Sarkozy exacerba o discurso da segurança, com o devido cuidado para não falar, como dizem, “a linguagem do ódio racial”. Os socialistas driblam a acusação de ser excessivamente tolerantes com “a diversidade”, acusando de negligência os órgãos de segurança. Um equilíbrio delicado para ambos os lados.

Uma coisa me parece inequívoca: sim, a segurança cochilou. Ou vejamos: Merah tinha um longo histórico de problemas com a polícia. Ok. Até aí, isso não faz de ninguém um potencial terrorista em boa parte do mundo. Em países com forte presença árabe, formando quase um gueto, há que se manter uma situação de alerta. Por quê? Os árabes seriam naturalmente inclinados ao terror? Isso é besteira das grossas! É cretinice preconceituosa. O ponto é outro: os grupos terroristas aliciam seus “soldados” e “mártires”, tanto nos países árabes como nos ocidentais, justamente entre os marginais. Os que são conquistados deixam de ser bandidos comuns para ser representantes de uma “luta”.

O ódio ganha a dimensão de uma causa que se estende, como se sabe, além da vida. A grande recompensa, prometem os facínoras, virá depois. Não fazer um estrito monitoramento desses grupos corresponde a negligenciar a segurança do estado e dos cidadãos. Muito bem! O caso de Merah era especialmente eloquente. Os órgãos de segurança da França sabiam que ele tinha viajado ao Paquistão e ao Afeganistão, onde chegou a ser preso. Ainda que se ignorasse que ele tinha empreendido a viagem para fazer “treinamento” — e essa informação, tudo indica, estava nos arquivos —, caberia perguntar: o que alguém com o seu histórico e com o seu perfil buscaria naquela região? Dificilmente seria visita familiar, né? Paquistaneses e afegãos não são árabes. A região não é conhecida por seu apelo turístico. E o mundo inteiro sabe que ali está o ninhal do extremismo islâmico. Dali saem homens para as mais variadas correntes do terror.

Esse rapaz, então, entra e sai do país, debaixo do nariz (sem alusão pessoal, hein, Sarkô!) das autoridades francesas, e agora vêm as forças de segurança dizer que não tinham como coibir suas ações etc e tal? Então as coisas vão muito mal na França nessa área. Os franceses têm bons motivos para temer por sua segurança. Eu duvido que socialistas, dada a sua histórica dificuldade para lidar com temas de segurança, tivessem feito algo melhor. Que o governo Sarkozy foi negligente, no entanto, isso me parece dado pelo próprios fatos.

Desdobramento eleitoral
É evidente que o caso terá desdobramentos eleitorais, e acho que Sarkozy tende a faturar mais com o episódio porque, em situações assim, os ditos “progressistas” — na França, eles se chamam “socialistas” — acabam reféns do próprio discurso. O que quero dizer com isso? Tratam do caso com tantos dedos e senões, para não ofender os árabes em particular e os muçulmanos em geral, que acabam eles próprios fazendo o que acusam seus adversários de fazer: emprestam ao caso a configuração de um conflito entre os imigrantes muçulmanos e descendentes e os brancos franceses” — que ainda são maioria no país. Conta-me um amigo que mora em Paris que os imigrantes ou familiares que estão plenamente integrados à sociedade francesa, e são muitos, acabam simpatizando mais com o discurso de Sarkozy; afinal, não querem ser confundidos com bandidos sectários.

Por Reinaldo Azevedo

21/03/2012

às 17:37

Se Mohammed Merah estivesse em Guantánamo, o humanismo “manqué” choraria por ele, mas ninguém teria de chorar por suas vítimas

Então vamos ver. Mohammed Merah tinha sido preso no Afeganistão, era ligado ao Talibã, fugiu da cadeia num motim liderado pelo grupo e estava de volta à França. Consta que era monitorado por órgãos de segurança — um monitoramento, como se nota, incompetente.

Então lá vai o que me parece uma verdade, certamente incômoda: estivesse preso na base de Guantánamo, não estaria matando ninguém por aí, certo?

“Ohhh, Reinaldo! Você evoca justamente o centro do horror e da política bushiana…”

Vamos parando por aí! São Barack Obama ainda não pôs fim àquilo por quê? Porque notórios terroristas — terroristas, sim! — seriam ou postos em liberdade em seus respectivos países ou voltariam para campos de treinamento da Al Qaeda, do Talibã e congêneres. Mohammed Merah estava em liberdade na França porque uma das vantagens comparativas do terroristas é que eles podem usar a seu favor as leis que desprezam — vale dizer: as garantias com as quais gostariam de acabar e que não asseguram, por definição, a seus inimigos.

É claro que Guantánamo é a evidência de um limbo legal. Mas é uma saída meramente retórica essa história de que a sua existência evidencia que o Ocidente democrático se igualou ao terror. Isso é de uma tolice sem par! Uma ova! Aquela prisão só indica a necessidade de se buscar uma institucionalidade para combater o terrorismo, que ainda não foi encontrada. Com as garantias de que gozam criminosos comuns é que não será!

Uma coisa é certa: os fanáticos, se deixados à solta, mesmo “monitorados”, vão matar. E ponto.

Se Mohammed Merah estivesse em Guantánamo, seria mais um a partir o coração de certo humanismo manqué, mas, ao menos, os humanos que existem (de que o humanismo é uma reflexão abastrata) estariam mais protegidos.

Esse humanismo manqué choraria por ele, mas ninguém teria de chorar por suas vítimas.

Por Reinaldo Azevedo

21/03/2012

às 15:53

Pois é… E o assassino de Toulouse é um extremista islâmico! Que coisa, não?

Leiam o que informa VEJA Online. Volto em seguida:

O suspeito do massacre na escola judaica de Toulouse, Mohammed Merah, planejava outro ataque contra militares franceses nesta quarta-feira, informaram os jornais franceses Le Figaro e Le Monde. Segundo Nicole Yardeni, delegada local do Conselho Representativo de Instituições Judaicas (Crif), a informação foi passada pelo próprio presidente da França, Nicolas Sarkozy, durante uma reunião com representantes religiosos em um prédio do Exército próximo à casa onde Merah permanece cercado.

“Tinha um plano para matar na manhã desta quarta-feira”, confirmou Yardeni, pouco antes do discurso do presidente: “O atirador queria fazer a República curvar-se a ele, mas a França não cedeu”, disse Sarkozy durante uma cerimônia dedicada aos soldados mortos por Merah, classificando os ataques de “assassinatos terroristas”. Ele reiterou seu pedido para que a população não alimente qualquer sentimento de vingança. “A França expressou nos últimos dias uma magnífica imagem de união. Nós devemos continuar unidos e não ceder à vontade de vingança. Nós devemos isso a todas as vítimas e ao nosso país. Viva a República, e viva a França!”.

O procurador-geral de Paris, François Molins, detalhou o plano de Merah para esta quarta-feira: “Planejava um novo atentado nesta manhã contra um militar assim que saísse de sua casa”. Mas o assassino “tinha outros alvos”, em particular dois policiais em Toulouse. Ainda de acordo com ele, o assassino afirmou que agiu sozinho e prometeu se entregar no “fim da tarde” desta quarta-feira (Toulouse tem um fuso horário de 4 horas a mais em relação a Brasília). Em suas conversas com os policiais, Merah “não manifesta arrependimento nenhum”, a não ser por “não ter feito mais vítimas”, acrescentou o promotor.

Antes de cercar o prédio onde mora o acusado, a polícia já temia que o terrorista – suspeito de sete assassinatos – preparasse um novo ataque e corria contra o tempo para identificá-lo. “Estamos diante de um indivíduo extremamente determinado, com muito sangue frio e com alvos extremamente definidos”, afirmou o promotor-chefe de Paris, François Molins, que lembrou que a média de assassinatos era de um a cada quatro dias. Antes de matar três crianças e um adulto em uma escola judaica de Toulouse, o terrorista havia assassinado três soldados franceses.

Justiça
O ministro do Interior da França, Claude Guéant, ressaltou que a preocupação das autoridades é prender vivo o suspeito dos assassinatos em Toulouse e Montauban. “Nossa principal preocupação é detê-lo em condições que possamos apresentá-lo à Justiça”, enfatizou. Ele, que acompanha pessoalmente a operação, disse que a mãe do jovem “foi levada ao local para conversar com o filho, mas desistiu” de convencê-lo a se entregar. O irmão do jovem foi preso mais cedo pela polícia.

(…)
Segundo Guéant, o homem cercado pela polícia “tem vínculos com salafistas e jihadistas e viajou ao Paquistão e ao Afeganistão”. “Ele afirma pertencer à Al-Qaeda e que quer vingar as crianças palestinas e castigar o Exército francês”. O irmão e a irmã do jovem participavam do mesmo movimento, mas são menos violentos e não viajaram à fronteira entre Paquistão e Afeganistão. “A polícia está certa de que ele é o autor do massacre: um jovem de 24 anos conhecido pelos serviços de informação franceses, que comprovaram seu envolvimento na série de assassinatos Toulouse”, destacou o ministro.

No início da operação desta quarta-feira, três policiais ficaram feridos sem gravidade, um no joelho, outro no ombro e um terceiro atingido por disparo contra o colete a prova de balas. O suspeito “faz parte deste pessoal que volta das zonas de combate e que sempre é fonte de preocupação para os serviços” de inteligência, revelou uma fonte ligada à investigação.

Histórico
Merah trabalhava como mecânico e havia tentado entrar na Legião Estrangeira da França em 2010. Conforme o site da revista Le Point, Merah, francês de origem argelina, foi expulso da corporação em seu primeiro dia e atualmente trabalhava como serralheiro em Toulouse, no sul da França.

O jovem entrou em contato com grupos islâmicos radicais com os quais também estava envolvido seu irmão, que foi preso nesta quarta-feira. Merah, que afirmou pertencer à Al Qaeda, fez duas viagens à fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, em 2010 e 2011, para se integrar a grupos combatentes de talibãs em uma região onde atua o Movimento dos Talibãs do Paquistão (TIP), informou o jornal Le Monde.

Antes disso, Merah havia sido preso no Afeganistão por fabricar bombas na província de Kandahar, mas fugiu da cadeia meses depois, durante um motim realizado pelo Talibã, afirmou à agência Reuters nesta quarta-feira o diretor da cadeia, Ghulam Faruq. Ele disse que o acusado foi detido pelas forças de segurança afegãs em 19 de dezembro de 2007 e condenado a três anos de prisão.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

19/03/2012

às 16:40

Netanyahu: “No dia em que crianças judias são assassinadas, Conselho de Direitos Humanos da ONU convida para conversar um representante do Hamas”

“Tivemos hoje um ataque selvagem na França, que matou a tiros judeus franceses, entre eles, crianças. É cedo para saber o que está por trás desses assassinatos, mas acho que não dá para descartar uma forte motivação antissemita. (…) Eu não ouvi até agora uma condenação ao ataque de nenhum dos órgãos da ONU, mas ouvi dizer que um deles, o Conselho de Direitos Humanos, convidou, justamente hoje, para uma conversa um representante do Hamas — neste dia, quando tivemos um assassinato selvagem, eles optaram por convidar um membro do Hamas”.

A afirmação acima é de  Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Como ele mesmo diz, e é fato, não dá para saber ainda os responsáveis pelo ataque terrorista. Há indícios que ligam os crimes de agora a outros dois, cometidos contra soldados. Mas Netanyahu está absolutamente certo em expressar a sua estupefação com o convite feito a um representante do Hamas. Qual é a pauta desse grupo? O item número um é destruir Israel. O resto é consequência.

Leiam os comentários de leitores de sites e blogs do Brasil e do mundo. Até no jornal israelense Haaretz, como informou Marcos Gutterman em seu blog, há leitores concluindo que as crianças “pagaram o preço das políticas de Israel”. O substrato (i)moral desse tipo de raciocínio é o seguinte: enquanto não se resolver a questão do território palestino, a morte de inocentes é uma consequência óbvia, natural e, no fundo, justificável.

É um primado terrível. Isso significa que não são poucos, no Ocidente — refiro-me, se me permitem, ao “Ocidente democrático”, uma geografia política, não física —, os que se deixaram sequestrar pela lógica do terrorismo.

Não há escapatória: quando um conselho da ONU — por ironia, o de Direitos Humanos, coalhado de defensores de tiranos tarados — convida um representante graduado do Hamas, algo está sendo dito ao mundo: em certas circunstâncias, o assassinato de judeus faz parte do jogo político. Aliás, essa ideia criminosa está se consolidando também em relação aos cristãos, que hoje são assassinados como moscas mundo afora, sob o silêncio cúmplice da imprensa ocidental, da ONU e de bandos de autoproclamados “progressistas” que dizem lutar por um mundo melhor.

Por Reinaldo Azevedo
 

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