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espionagem

19/12/2013

às 4:04

ONU aprova a resolução sobre espionagem. Sabem a importância disso? Nenhuma!

Então, leitor amigo… Há coisas que são assim: a gente lê, suspira fundo, tem uma enorme preguiça e depois se resigna: “Vou ter de escrever a respeito”. Não que alguém obrigue. A pauta é ampla e livre. Mas é preciso escrever nem que seja para recomendar: “Esqueçam esse assunto; não tem a menor importância”. Assim é com a resolução aprovada pela ONU contra a espionagem digital, proposta por Brasil e Alemanha. Contou com o apoio de quase 200 países, traz uma penca de sugestões, nenhuma de cumprimento obrigatório.

O texto traz, por exemplo, a seguinte doçura: ninguém pode “ser submetido a ingerências arbitrárias ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência”. Ok. Eu não esperava que a ONU dissesse algo diferente — ou que fizesse, por exemplo, a defesa de “ingerências arbitrárias e ilegais”.

Há uma maluquice na raiz disso tudo que é a seguinte: estamos falando de “espionagem”, que se faz mesmo, a gente tem de reconhecer, de maneira, digamos “extralegal”. Não existe um decoro internacional nessa área. E isso explica, aliás, o fato de a resolução ser apenas uma recomendação. Vá perguntar ao governo chinês se eles fazem espionagem. A resposta oficial, obviamente, é “não”. Vamos mudar de assunto?

 

Por Reinaldo Azevedo

11/11/2013

às 1:15

Abin espionou jornalistas durante governo Lula

Por Robson Bonin, na VEJA:
Um documento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que descreve detalhes de uma queda de braço travada entre um agente e seus superiores durante o governo Lula, tem valor histórico inestimável. Esse documento, hoje arquivado, é a evidência oficial mais forte até aqui de algo que agentes confidenciavam a jornalistas, mas não podiam provar: o governo Lula espionou a imprensa. O texto revela que houve uma “Operação Mídia”, ação clandestina de espionagem de jornalistas e donos de empresas jornalísticas. VEJA teve acesso ao documento de seis páginas no qual o tenente-coronel André Soares revela a existência da operação ilegal.

Soares trabalhava como analista de informações da agência havia dois anos. Estava lotado na área de contrainteligência, encarregada de vigiar suspeitos de ligação com grupos terroristas e de monitorar a ação de espiões estrangeiros em território brasileiro. Antes de chegar à Abin, tinha passado pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE). No documento, o oficial relata que foi convocado à sala do chefe em um fim de expediente em 2004. Lá, recebeu a missão de procurar um determinado informante. Tudo o que o chefe lhe passou foi o codinome do informante, sua profissão, o lugar do encontro e, o mais importante, o título e o objetivo da missão: “Operação Mídia”.
(…)
Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet ou nas bancas.

Por Reinaldo Azevedo

05/11/2013

às 14:48

Cardozo confirma avanço em identificação de vândalos

Por Gabriel Castro, na VEJA.com. Volto no próximo post:
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, confirmou nesta terça-feira que a Polícia Federal obteve avanços na identificação de criminosos que têm atuado em protestos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Reportagem do jornal O Globo afirma que a PF já identificou 130 suspeitos de promover atos de violência. “Isso que foi divulgado hoje seguramente faz parte desse esforço que estamos fazendo”, disse Cardozo nesta terça-feira, antes de se recusar a comentar o teor das investigações.

O ministro deve se reunir até o início da semana que vem com os secretários de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, e de São Paulo, Fernando Grella Vieira, além do presidente do Conselho Nacional de Justiça, Joaquim Barbosa, o presidente do Conselho Nacional do Ministério Público, Rodrigo Janot, e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para discutir mudanças na legislação que possam aumentar a eficácia do combate aos vândalos. Os secretários afirmam que as regras atuais são muito brandas.

Cardozo afirmou ainda que pretende criar um protocolo nacional para padronizar a atuação policial em protestos de rua a partir do modelo que deve ser adotado pelos governos do Rio de Janeiro e de São Paulo.”Se isso der certo, tem que ser estendido para todo o Brasil, justamente para que saibamos os limites que a polícia tem que respeitar e os limites que ela tem para agir”, afirmou.

Espionagem
O ministro afirmou nesta terça que a revelação de que o Brasil monitorou diplomatasrussos, iranianos e iraquianos não significa a adoção de práticas de espionagem semelhantes aos Estados Unidos – que suscitaram críticas do governo brasileiro. “Isso é absolutamente legal. Quando você acha que existem espiões de potências estrangeiras atuando no Brasil, o que você faz? Deixa te espionarem? Não. Você faz a contraespionagem”, afirmou Cardozo.

“Todos os países fazem – e têm que fazer – contraespionagem. O que eu não posso fazer é violar o direito das pessoas”, disse ele, enfatizando que, no episódio protagonizado pelos Estados Unidos, houve interceptação de comunicações. Nesta segunda-feira, o jornal Folha de S. Paulo revelou que agentes brasileiros seguiram e monitoraram diplomatas dos três países.

Campanha
As declarações de Cardozo foram dadas após o lançamento de uma campanha de conscientização sobre os direitos do consumidor. A divulgação inclui peças publicitárias na televisão, na internet e em veículos impressos, e tem o lema “Você sabe o valor que você tem”. O custo da campanha é de mais de 9 milhões de reais. O foco da divulgação acontecerá em Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. De acordo com Cardozo, essa é a maior campanha já feita com este tema em âmbito nacional.

Desde 2004, o Serviço de Defesa do Consumidor, que inclui os Procons, recebeu 9,3 milhões de queixas. Entre as mulheres, as reclamações mais comuns atingiram empresas de cartão de crédito, de telefonia fixa e telefonia celular. Entre os homens, os serviços de telefonia celular foram os principais alvos de queixas, seguidos pelos bancos e pelas empresas de cartão de crédito.

Por Reinaldo Azevedo

05/11/2013

às 3:07

Suspeita de sabotagem fez Brasil investigar franceses em Alcântara

Por Lucas Ferraz, na Folha:
Com a suspeita de que era espionado pela França, o Brasil investigou se agentes do serviço secreto francês promoveram ação de sabotagem para explodir a base de lançamento de satélites de Alcântara, no Maranhão. Em 2003, um acidente no local matou 21 pessoas, entre engenheiros e técnicos do CTA (atual Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial), órgão da Aeronáutica. A Folha obteve documento secreto da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) que revela pelo menos três operações de contraespionagem cujos alvos eram espiões franceses e seus contatos brasileiros e estrangeiros.

Houve também monitoramento do serviço de inteligência em órgãos de cooperação e cultura ligados à Embaixada da França. O objetivo era proteger o setor espacial brasileiro da espionagem internacional. A Folha revelou ontem que o governo brasileiro espionou diplomatas de países como Rússia, Irã e EUA. A Presidência afirmou que eram ações de contraespionagem.

O documento obtido pela reportagem evidencia que o Brasil monitorava o que os agentes da Abin descrevem como “rede de espionagem” da DGSE (sigla de Direção-Geral de Segurança Externa, a agência de inteligência da França), ativa no Maranhão e em São Paulo. Um ex-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) disse à Folha que, de fato, o governo tinha informações sobre espionagem internacional em Alcântara. Após o acidente, a investigação sobre as suspeitas de sabotagem prosseguiu, segundo um ex-dirigente da Abin que pediu para não ser identificado.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

04/11/2013

às 16:55

Todos espionam. Até o Brasil!

Pois é… Mais de uma vez dei de ombros para essa conversa da espionagem americana. Quando não o fiz, tratei Edward Snowden por aquilo que é: um pilantra. Como ele não me deixa mentir, tornou-se um fiel servidor do regime de Vladimir Putin… A grande conspiração que Glenn Greenwald denunciou ao mundo não passa de operação de rotina. A China, até onde sua tecnologia alcança, faz a mesma coisa. A Rússia idem. Todo mundo espiona todo mundo. O equilíbrio que há no mundo — ou, segundo alguns, “desequilíbrio” — se deve também à espionagem. Há, emendo à margem, algo de patético em querer disciplinar esse tipo de coisa. Ainda que se estabeleçam as regras, é próprio da atividade não haver regra nenhuma.

Dilma Rousseff fez grande escarcéu — não iria perder a oportunidade, não é? — com a história da suposta espionagem. Cancelou uma visita oficial aos EUA. O Brasil exigiu um pedido de desculpas que nunca veio — e, na forma pretendida ao menos, não virá.

A Folha de hoje traz uma reportagem de Lucas Ferraz informando que diplomatas estrangeiros — russos, iranianos e iraquianos — foram espionados no Brasil. Leiam trecho. Volto em seguida.
*
O principal braço de espionagem do governo brasileiro monitorou diplomatas de três países estrangeiros em embaixadas e nas suas residências, de acordo com um relatório produzido pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e obtido pela Folha. O documento oferece detalhes sobre dez operações secretas em andamento entre 2003 e 2004 e mostra que até países dos quais o Brasil procurou se aproximar nos últimos anos, como a Rússia e o Irã, viraram alvos da Abin. Segundo o relatório, que foi elaborado pelo Departamento de Operações de Inteligência da Abin, diplomatas russos envolvidos com negociações de equipamentos militares foram fotografados e seguidos em suas viagens.

O mesmo foi feito com funcionários da embaixada do Irã, vigiados para que a Abin identificasse seus contatos no Brasil. Os agentes seguiram diplomatas iraquianos a pé e de carro para fotografá-los e registrar suas atividades na embaixada e em suas residências, conforme o relatório. A Folha entrevistou militares da área de inteligência, agentes, ex-funcionários e ex-dirigentes da Abin nas últimas duas semanas para confirmar a veracidade do conteúdo do documento que obteve. Alguns deles participaram diretamente das ações.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, ao qual a Abin está subordinada, reconheceu que as operações foram executadas e afirmou que todas foram feitas de acordo com a legislação brasileira. Segundo o governo, foram operações de contrainteligência, ou seja, com o objetivo de proteger segredos de interesse do Estado brasileiro. Nos últimos meses, o vazamento de documentos obtidos pelo analista americano Edward Snowden permitiu que o mundo conhecesse detalhes sobre atividades de espionagem dos EUA em vários países, inclusive no Brasil.
(…)

Retomo
Vejam bem… A “nossa” espionagem parece ser uma pouco mais rudimentar, não é? Lembro-me de um quadro do infelizmente extinto “Casseta & Planeta” em que apareciam os “homens do saco” — espiões que se apresentavam com saco pardo enfiado na cabeça, com dois buracos no lugar dos olhos. Comparado o que se deu aqui com a operação da NSA, a da Abin está mais para a caricatura.

Pouco importa a qualidade do serviço; a questão é de princípio. A espionagem é parte do jogo. É claro que a Abin vai tentar saber quem passou a informação à Folha para punir os agentes. É o seu papel. Imaginem se fosse o contrário; imaginem uma agência de Inteligência, que é braço do estado brasileiro, a incentivar o vazamento de informações…

Outra informação de Ferraz:
“A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) monitorou um conjunto de salas alugadas pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília por suspeitar que eram usadas como estações de espionagem. A operação ‘Escritório’ é descrita em relatório elaborado pelo Departamento de Operações de Inteligência da Abin e obtido pela Folha. Segundo o documento, os agentes brasileiros concluíram que os americanos tinham ali equipamentos de comunicação, rádios e computadores. ‘Funcionando diariamente, com as portas fechadas e com as luzes apagadas, e sem ninguém trabalhando no local’, diz o relatório. ‘Esporadicamente a sala é visitada por alguém da embaixada.’ Como as outras operações descritas no documento da Abin, a ‘Escritório’ foi classificada pela agência como uma ação de contraespionagem.”

E aí?
O que farão os países “espionados”? Muito provavelmente, nada! Tudo está dentro do jogo. O mínimo que se espera da Abin é que faça isso mesmo. O que não é parte do jogo é haver vazamento de uma operação como essa. É um sinal de que o serviço precisa ser aprimorado. Snowden, no entanto, é a evidência de que não é a sofisticação do aparato que faz a segurança.

Por Reinaldo Azevedo

24/09/2013

às 16:55

O discurso eleitoreiro de Dilma e, ao menos, uma grande inverdade: o Brasil não está preparado para combater o terrorismo coisa nenhuma!

Vejam no post anterior a síntese do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU. Eis um caso em que a única coisa proibida ao observador é dizer o certo. Como fazê-lo, por estas bandas, é prática que não nos assusta — a mim e aos demais (sem que se precise dizer também a errada, como se Deus e o diabo disputassem almas em igualdade de condições morais) —, então não há como vacilar: o discurso de Dilma faz um elenco de, digamos assim, tautologias sobre a soberania dos países, mas com maus propósitos. O arquivo está aí. Desde o primeiro dia, observei que havia uma superestimação da dita “espionagem” e que o governo usaria a questão para incentivar o antiamericanismo bronco e nossa vocação para falar grosso — e inutilmente — com Washington e fino, por exemplo, com a Bolívia.

Como poderia dizer o letrista Caetano Veloso, seu discurso “não é proveito, é pura fama”. O Brasil, com o apoio da Alemanha, pediu que a ONU debatesse a questão da espionagem na semana passada. Fez-se a reunião em Genebra. Foi escolhida para nos representar uma diplomata de baixo escalão, que acabou nem comparecendo à reunião. Em seu lugar, foi enviada uma estagiária, que entrou muda e saiu calada. Logo, é evidente que tanto a cúpula do governo como a do Itamaraty sabem que essa história não tem importância e que há uma superestimação do ocorrido.

Mas como resistir a fazer um discurso babando antiamericanismo verde-amarelo? Parece mesmo irresistível. Dilma foi lá e botou “uzamericânu” do seu devido lugar. Não se limitou a adjetivos e perorações. Também anunciou ao menos uma inverdade clamorosa: “O Brasil sabe se proteger; repudia, combate e não dá abrigo a grupo terrorista”. Cada um desses verbos, entre a sinonímia e a gradação, é contestado pelos fatos.

O Brasil não repudia, por exemplo, o terrorismo das Farc na Colômbia. Não chega ao desplante de reconhecer os narcoguerrilheiros como “grupo beligerante”, mas jamais reconheceu seu caráter terrorista — o mesmo vale, aliás, para o terrorismo árabe em Israel. Então não é verdade que repudie o terrorismo como princípio. É duro dizer, mas é assim. Também não é fato que o combata. E a razão é simples: o país não dispõe de uma lei para tanto; nem sequer existe prescrição penal para tal crime. A Constituição repudia a prática, sim, mas nosso Código Penal é omisso a respeito. Está em debate no Senado um novo código, que especifica pena para atos dessa natureza — desde que os autores da violência não sejam movimentos sociais. Ah, bom!

O Brasil já libertou um homem com comprovadas ligações com a Al Qaeda porque não tinha o que fazer com ele. Claro, claro… Com um pouco de boa vontade, seria possível enquadrá-lo. Mas sabem como é… Os companheiros acham que esse negócio de combate ao terror é coisa lá “duzamericânu”. A Tríplice Fronteira, há uma porção de evidências, já foi infiltrada pelo terrorismo islâmico. É uma forma de abrigo, nem que seja motivada pela incompetência. Dilma se esqueceu de dizer em seu discurso que, em razão da Copa do Mundo, o serviço, de vá lá, “Inteligência” do Brasil está a receber informações da demonizada Agência Nacional de Segurança. Logo, o país é beneficiário do monitoramento feito pelos EUA.

É novidade?
O que há mais a dizer fora da retórica, no terreno do realismo? Espionagem não é o tipo de coisa regulamentada por leis internacionais, segundo as regras de um cartório. Se fosse, o primeiro a se beneficiar do aparelho burocrático seria o próprio terrorismo. Assim, ele se move mesmo nas sombras. Rússia e China não fazem de modo diferente. A natureza da ação permite que, de vez em quando, um tipo ordinário como Edward Snowden saia do controle e faça o que fez. “Mas você não acha que um protesto era necessário?” Acho, sim! Mas é evidente que discursar a respeito na ONU é coisa de mediocridade arrogante. Então são os EUA que ameaçam a paz mundial? A julgar pelo discurso da mais importante, malgrado as próprias qualidades, governante latino-americana, sim! E é preciso ser um perfeito idiota para acreditar sinceramente nisso.

Por Reinaldo Azevedo

24/09/2013

às 15:45

Dilma critica EUA e faz discurso na ONU de olho em 2014

Na VEJA.com. Volto no próximo post.
Ao falar na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, a presidente Dilma Rousseff apresentou um discurso que mais parecia voltado aos eleitores brasileiros do que aos chefes de estado presentes. Como era esperado, Dilma focou sua participação em críticas ao programa de espionagem dos Estados Unidos — mas não faltou tempo para abordar temas como os protestos de junho e os “avanços” conquistados por seu governo. Já na abertura de sua participação, a presidente deixou claro a que veio, classificando a espionagem americana como violação dos direitos humanos. “Estamos diante de um caso grave de violação de direitos humanos e civis, de desrespeito à soberania nacional de meu país”, disse. “Meu governo fará tudo o que estiver a seu alcance para defender os direitos humanos de todos os brasileiros e de todos os cidadãos do mundo e os frutos da engenhosidade dos trabalhadores e das empresas brasileiras.” A presidente afirmou que a espionagem “fere o direito internacional” e “afronta princípios” que regem relações entre nações amigas. E também que o caso causou “repúdio e indignação” no mundo e ainda mais no Brasil – “alvo da intrusão”.

Dilma foi a primeira chefe de estado a discursar em Nova York, na abertura da sessão de debates da 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas — conforme a tradição de presidentes brasileiros abrirem o evento. Ela afirmou que o Brasil vai propor a criação de um marco civil da internet com validade internacional, que garanta a liberdade, a neutralidade, a universalidade e a privacidade dos usuários. “O problema afeta a comunidade internacional e dela exige resposta. As tecnologias de informação não podem ser o novo campo de batalha entre estados. A ONU deve exercer um papel de liderança.” Dilma falou antes do presidente dos EUA, Barack Obama — que, em seu discurso, abordou rapidamente a questão da privacidade. “Esse é o momento de criarmos as condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques contra sistemas e infraestrutura de outros países”, prosseguiu.

A presidente afirmou que o Brasil vive em paz com as nações vizinhas há 140 anos e que o argumento de que a espionagem é uma forma de combater o terrorismo “não se sustenta”. “Jamais pode o direito à segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos humanos e civis fundamentais dos cidadãos de outro país. Pior ainda quando empresas privadas estão sustentando esta espionagem”, disse Dilma. “O Brasil sabe se proteger, repudia, combate e não dá abrigo a grupo terrorista.” A agenda antiamericana integra a estratégia eleitoral de Dilma, que cancelou a viagem oficial que faria aos Estados Unidos em outubro após ouvir conselhos de seu marqueteiro João Santana e do ex-presidente Lula.

Depois de criticar os Estados Unidos, Dilma tratou de assuntos domésticos. Afirmou que seu governo reduziu de forma drástica a mortalidade infantil e “retirou 22 milhões de pessoas da extrema pobreza em apenas dois anos”. A presidente ainda tratou dos protestos que tomaram o país em junho. Segundo ela, as manifestações foram, na verdade, uma consequência positiva dos avanços de seu governo. “O meu governo não as reprimiu. Pelo contrário, ouviu e compreendeu as vozes das ruas. Porque nós viemos das ruas”. Para Dilma, os protestos pediram mais avanços. “Sabemos que democracia gera mais desejo de democracia, qualidade de vida desperta anseio por mais qualidade de vida”, declarou.

Dilma também lembrou que o governo conseguiu destinar, por meio de lei aprovada no Congresso Nacional, recursos dos royalties do petróleo para investimentos em educação (75%) e saúde (25%). O governo prevê destinar 112 bilhões de reais para os setores com a medida. “A pobreza não é um problema exclusivo dos países em desenvolvimento, e a proteção ambiental não é uma meta apenas para quando a pobreza estiver superada”.

A presidente também cobrou uma solução diplomática para a guerra civil na Síria – sem intervenção militar, cogitada pelos EUA. A presidente defendeu a ampliação do número de países do Conselho de Segurança da ONU com nações em desenvolvimento. Segundo ela, o órgão perdeu “representatividade e legitimidade” e sofre de “imobilismo perigoso” entre os membros permanentes – além de “paralisia” na questão palestina. O Brasil é candidato a integrar o conselho.

Dilma classificou como “hediondo” e “inadmissível” o uso de armas químicas: “A crise na Síria comove e provoca indignação. Dois anos e meio de perdas de vidas e destruição, o maior desastre deste século. O Brasil está profundamente envolvido nesse drama. É preciso calar a voz das armas convencionais ou químicas do governo ou dos rebeles. A única solução é a negociação, o diálogo”. A presidente também defendeu a criação de um estado palestino independente na questão entre Israel e Palestina, no Oriente Médio.

Economia
Dilma criticou os níveis mundiais de desemprego – na casa dos 200 milhões, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Ela disse que o Brasil está em recuperação: “Temos compromisso com a estabilidade, com o controle da inflação, com a melhoria da qualidade do gasto público e a manutenção de um bom desempenho fiscal”. Ela defendeu uma reforma na composição do Fundo Monetário Internacional (FMI): “A governança do fundo deve refletir o peso dos países emergentes e em desenvolvimento na economia mundial. A demora nessa adaptação reduz sua legitimidade e sua eficácia”.

Esclarecimento
A presidente também cancelou a viagem de Estado que faria no dia 23 de outubro a Washington. Dilma considerou as denúncias de espionagem um atentado à soberania nacional e atrelou a visita à Casa Branca a uma resposta satisfatória do governo americano.

 Em julho, documentos vazados pelo ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) Edward Snowden revelaram que Brasil havia sido alvo de monitoramento dos EUA. Segundo os documentos, a NSA colheu informações sigilosas de empresas e de pessoas residentes ou em trânsito no país. Cerca de 2,3 bilhões de telefonemas e e-mails foram alvo de espionagem, com uso de programas de computador e auxílio de empresas privadas. Uma base da NSA chegou a funcionar em Brasília, de acordo com a denúncia. Snowden teve acesso às informações pela site interno da NSA.

Em setembro, reportagens feitas com base em documentos entregues por Snowden mostraram que as comunicações pessoais da presidente Dilma com assessores do governo e a estatal Petrobras haviam sido espionados pelo Departamento de Defesa do governo americano.

Por Reinaldo Azevedo

18/09/2013

às 14:01

Espero que Dilma resista à tentação de decretar um bloqueio continental contra os EUA…

A quantidade de professores de “relações internacionais” que saíram em defesa do gesto soberano da Soberana, que teria dado uma banana para Obama, é de assustar. Como dirá Lênin, “eu, hein, Rosa?!” E são apresentados como “especialistas”. Se fossem amadores, acho que proporiam, sei lá, que Dilma decretasse o bloqueio continental para isolar os EUA do mundo…

Como apontei ontem aqui, pela via da ironia — dá para levar a sério? —, trata-se de demagogia eleitoreira. Sem contar que as relações bilaterais com os EUA, agora, estariam na dependência de Glenn Greenwald tirar de seu computador mais alguma “informação secreta” fornecida por Edward Snowden, que é um delinquente e um protegido de Vladimir Putin… Entendo: de agente secreto para agente secreto. A diferença é que Putin, o ex-KGB, não traiu o seu país…

Dilma também encomendou estudos para tentar isolar a Internet brasileira dos EUA. Ai, meu Deus! Existe agora o risco da jabuticaba do ciberespaço. E tudo isso por que mesmo? “Ah, porque os EUA espionaram a presidente e a Petrobras!” É mesmo? Que tipo de espionagem? Que dado foi invadido? Que vantagem obtiveram nisso? Não há nada além de teorias conspiratórias.

Imaginemos que Dilma tivesse algo de útil ou de importante a fazer nos EUA. Em vez de conversar ou de negociar, estaria a bater o pezinho? Agora imaginemos, como é provável, que não tinha mesmo o que fazer por lá. Bem, então a gente deve aplaudir a economia.

Sem a ajuda de Greenwald, esse Itamaraty petista já era um celeiro impressionante de bobagens pomposas e irrelevantes. Com esse auxílio luxuoso, estamos danados. 

Por Reinaldo Azevedo

17/09/2013

às 22:07

Oposição diz que adiamento de viagem aos EUA é jogada eleitoral

Por Júnia Gama, Chico de Gois e Isabel Braga, no Globo:
A oposição reagiu nesta terça-feira ao adiamento da visita oficial que a presidente Dilma Rousseff faria ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em outubro, devido à insatisfação com as respostas do governo americano pelo episódio de espionagem. Para senadores do PSDB e do DEM, a decisão do Palácio do Planalto levou mais em conta uma estratégia de marketing eleitoral do que os interesses do país.

“Abdica-se mais uma vez a defesa de interesses reais do Brasil para privilegiar uma ação de marketing eleitoral”, afirmou o senador Aécio Neves (PSDB-MG), segundo nota do partido. “Na nossa avaliação, seria muito mais adequado que a presidente dissesse isso objetiva e claramente ao presidente americano e aproveitasse esta viagem não apenas para enfrentar esta questão, mas para defender os interesses da economia e, até mesmo, de determinadas empresas brasileiras”, disse. Aécio defendeu que o governo deve fazer investimentos em defesa de redes e informações digitais. “Da mesma forma é inaceitável que o governo brasileiro não tenha gasto sequer 10% de uma verba orçamentária aprovada com defesa cibernética”, disse. 

Na mesma linha de Aécio, Aloysio Nunes (PSDB-SP) chamou o ato de “marketing político”. “Apoiamos uma reação forte da presidente Dilma de repúdio à espionagem. Mas, achamos que ela fez mal em cancelar a viagem, porque ela deveria aproveitar para dizer na Casa Branca que espionagem é intolerável. No contexto em que foi tomada, a decisão do cancelamento da viagem, fica claro que houve uma confusão entre diplomacia e marketing político. Isso foi feito para mobilizar os sentimentos de patriotismo no Brasil para fins eleitorais”, disse o líder do PSDB,  Aloysio Nunes (SP).
(…)

Por Reinaldo Azevedo

17/09/2013

às 16:11

“Pre-pa-ra que a-go-ra é a ho-ra do show da po-de-ro-sa…” Ou: Solta o som que é pra ver Dilma dan-çan-do…

A presidente Dilma Rousseff cancelou a visita oficial que faria no fim de outubro aos EUA. Depois do barulho — ridículo em si, mas cheio de cálculo eleitoral — que o Planalto fez em razão das “reportagens” de Glenn Greenwald, não restava alternativa. O governo condicionou a visita a um pedido de desculpas da Casa Branca — ou qualquer coisa que soasse dessa maneira para o público interno. O pedido, obviamente, não veio, e aí foi preciso tomar a decisão mais tola para ser coerente. Depois do escarcéu e de a governanta ter exigido que os americanos explicassem “everything”, fez-se necessário manter a pose. Convenham: tudo caminhava para o “show da poderosa”, não é mesmo? Só restou à nossa “Anitta” do funk petista cantar para Barack Obama:
“Meu exército é pesado e a gente tem poder/
Ameaça coisas do tipo: Você!”

Vocês conhecem aquele poeminha de Ascenso Ferreira, chamado “Gaúcho”? Reproduzo:
Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das cochilhas!
Sai de meus pagos em louca arrancada!
— Para que?
— Pra nada!

É isto. Dilma fez o que fez pra quê? Pra nada! É só mais uma manifestação tolinha de afirmação da soberania nacional e de aplicação prática do “Princípio Chico Buarque de Política Externa”. Os historiadores brasileiros não devem desprezar a importância que têm os cantores da MPB na formação da mentalidade brasileira. Foi ele quem disse, num evento em favor da então candidata Dilma, em 2010, que o governo petista não era do tipo que “falava fino com Washington e grosso com a Bolívia”. Não mesmo! Agora a gente evoluiu: fala grosso com Washington e fino com a Bolívia — e com todas as ditaduras do planeta, desde que elas exercitem um discurso antiamericano.

Não sei o que Dilma iria fazer em Washington. Muito provavelmente, nada. Vista a questão por esse ângulo, convenham, o Brasil economiza alguns trocados. O nosso Dario de tailleur — o mais, digamos, emblemático é aquele vermelho… — não precisa mobilizar a corte de eunucos do império persa e sair torrando dólares por aí. Mas que é ridículo, ah, isso é!

Nas mãos de Snowden e Greenwald
As relações do Brasil com os EUA estão hoje nas mãos de um vagabundo chamado Edward Snowden e de Glenn Greenwald, seu porta-voz, que escolheu o Brasil para morar. O primeiro é um ex-agente da CIA que roubou — o verbo é esse — documentos secretos do governo americano e escolheu como refúgio a Rússia de Vladimir Putin, um iluminista que era, santo Deus!, agente da KGB. O outro, Greenwald, é um advogado convertido em jornalista, que, segundo a versão oficial, decidiu morar no Brasil em razão das tramas do coração. Encontrou aqui o seu Orfeu — o que leva parte da nossa imprensa a evocações as mais líricas.

Greenwald, sem prova nenhuma de que houve invasão a dados da comunicação privada da presidente ou a segredos industriais da Petrobras (ou me digam onde estão as evidências), pode elaborar as teorias conspiratórias que bem entender. Se, amanhã, decidir pinçar mais meia dúzia de conjecturas, lá vai o país ficar a reboque de seus recalques (na melhor das hipóteses) anti-imperialistas…

E a coisa não vai parar por aí. Dilma vai faturar um pouco mais. Na Assembleia Geral da ONU, fará um discurso contra a espionagem e coisa e tal. Enquanto isso, Snowden continuará na Rússia, protegido por Putin, transformado, a esta altura, numa espécie de guardião dos direitos individuais e da soberania dos países… É patético!

Mas isso é só o que eu acho. Convém aguardar agora a opinião de Caetano Veloso. Em matéria de pensamento estratégico, a última palavra tem de estar com um cantor de MPB. Sempre há a possibilidade de Veloso encontrar a verdade ao cruzar as ideias de Joaquim Nabuco com as de Pablo Capilé, tendo como instrumento de intervenção a ética e a estética dos black blocs…

E segue o show da Poderosa:
“Solta o som, que é pra me ver dançando
Até você vai ficar babando
Para o baile pra me ver dançando
Chama atenção à toa
Perde a linha, fica louca”

Por Reinaldo Azevedo

11/09/2013

às 22:51

Espionagem: Casa Branca não reconhece ilegalidade, aponta distorção do noticiário, mas diz que questionamentos são legítimos

A Casa Branca ficou longe de pedir desculpas ao Brasil por conta dos supostos atos de espionagem que teriam sido praticados pela NSA, a agência de segurança dos EUA. O governo americano afirma que reportagens a respeito distorceram os fatos, mas reconheceu que o Brasil faz questionamentos legítimos. Vejam o que vai no Portal G1.
*
A Casa Branca disse nesta quarta-feira (11) que está empenhada em trabalhar com o Brasil para responder às preocupações sobre atividades da agência de inteligência americana, informou a agência de notícias Reuters. Ainda segundo a agência, a assessora-chefe de Segurança Nacional da Casa Branca, Susan Rice, se reuniu com o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, e disse que algumas reportagens publicadas recentemente “distorceram nossas atividades”, mas que questões legítimas foram levantadas.

Figueiredo viajou para os Estados Unidos para, entre outros compromissos, se encontrar com Rice. De acordo com o Itamaraty, o tema da reunião foram as denúncias, divulgadas pelo Fantástico, de que a presidente Dilma Rousseff, assessores próximos e a Petrobras foram alvo das ações de espionagem dos EUA. No dia 6 de setembro, após encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama, na Rússia, Dilma disse que ele se comprometeu a dar explicações sobre as denúncias de espionagem dos EUA até esta quarta e que assumiu responsabilidade “direta e pessoal” sobre as investigações das ações de espionagem.

“Eu quero saber o que há. Se tem ou não tem, eu quero saber. Tem ou não tem? Além do que foi publicado pela imprensa, eu quero saber tudo que há em relação ao Brasil. Tudo. A palavra tudo é muito sintética. Ela abrange tudo. Tudinho. Em inglês, everything”, disse Dilma, em entrevista à imprensa na sexta (6), após reunir-se com Obama.

Dilma afirmou ter dito a Obama que a questão não era de “desculpas”, mas de uma solução rápida. A presidente também disse que a viagem dela para Washington, programada para outubro, vai depender das “condições políticas” que Obama criar.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2013

às 20:14

Um conselho a Dilma: Se é inevitável deixar o Brasil mais burro, governanta, ao menos tenha o bom senso de não deixá-lo mais pobre

Quando se fala em suspender a licitação do campo de Libra da Petrobras (ver post abaixo) porque haveria o risco de que os EUA tivessem espionado segredos do pré-sal, dizer o quê? Lembrar a frase célebre de Samuel Johnson:

“O patriotismo é o último refúgio de um canalha.”

Não se trata, como querem alguns tolos, de fazer de conta que a coisa, seja lá o que for, não existiu ou que o governo não tenha de cobrar explicações. Acho que tem. Mas há um limite. Quando vejo, no entanto, o petista José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que responde por uma gestão ruinosa no comando da empresa, tirar ares de ofendido, aí é de lascar.

Estamos diante de uma Batalha de Itararé de dimensões mundiais. O Brasil pode pagar caro pelas teorias conspiratórias do senhor Glenn Greenwald. Ou bem ele exibe as provas de que Dilma e a Petrobras foram espionadas ou bem deixa claro que tem em mãos não mais do que sugestões, indícios, possibilidades. Não! Não estou cobrando que se esconda nada — nem mesmo os documentos que foram roubados por um pilantra que foi buscar abrigo no colo de Putin. Mas é preciso, também, não ir além do que se tem.

E se prospera essa conversa de Libra? Quem ganha com esse negócio? Ousaria dizer que, definitivamente, não é o Brasil. Não basta dizer, em tom grandiloquente, que a Petrobras é uma empresa que fatura bilhões e lida com riquezas monumentais e coisa e tal. É preciso que se tenha ao menos uma hipótese plausível.

Qual é a hipótese plausível? Dado o regime de partilha, de que maneira as empresas americanas poderiam prejudicar a Petrobras ou o Brasil? Não há como.

Dou um conselho à presidente Dilma: já que é inevitável que esse troço vire matéria de marketing eleitoral, mande bala, soberana; exercite mesmo o espírito verde-amarelo da tigrada. Mas tenha o bom senso de mobilizar a sua tropa para não prejudicar o país. Exercite, como nunca, o discurso de fachada. Se é inevitável deixar o Brasil mais burro, ao menos tenha o bom senso de não deixá-lo mais pobre.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2013

às 19:44

Petrobras – O debate estúpido sobre suspensão de licitação. Ou: Um especialista em petróleo afirma o que escrevi aqui de manhã. Não sou especialista em nada; sou só um amante da lógica e dos fatos

Eu não entendo nada de petróleo. Mas entendo um pouco de lógica. O suficiente para não acreditar em certas tolices e não cair em mistificações. Eu não entendo nada espionagem, mas idem, idem. Eu não entendo quase nada daquela conversa ultraespecializada que cruza informatiquês com arapongagem internacional, mas idem, idem outra vez.

Na manhã de hoje, escrevi um post em que demonstrei que essa história de espionagem da Petrobras era um óbvio exagero e que a suposição de que os interesses estivessem voltados para o pré-sal não passavam de especulação. Leio agora que estão querendo suspender o leilão do campo de exploração de Libra… Pois é! É nisso que dá o exagero e a exploração nacionalisteira, tosca mesmo, da questão. É nisso que dá ir muito além dos fatos, cavando invenções nas águas profundas da especulação.

Entre outras coisas, com base apenas na lógica dos fatos, afirmei aqui:
“É chato ficar fazendo certas observações aqui, em vez de levantar, pôr a mão no peito e cantar o Virundum… Mas o fato é que, tanto no caso de Dilma como no da Petrobras, não fica claro se houve mesmo a invasão ou que tipo de informação foi buscada. A reportagem do Fantástico está aqui. Na ausência de dados sobre a espionagem propriamente, recheia-se a reportagem com os números superlativos da Petrobras e o quanto ela pode despertar a cobiça internacional. Sem dúvida! Também se especula sobre a possibilidade de empresas terem tido acesso a informações sobre o pré-sal e coisa e tal. Bem, considerando a escolha que o Brasil faz para a exploração do petróleo nessas áreas, podemos ficar tranquilos, certo? O regime é de partilha mesmo, e não há como a gente ser enganado pelos sagazes estrangeiros. Mas é certo que isso vai mexer com os brios nacionalistas.”

Eu não entendo nada de petróleo. Só de lógica. Mas Adriano Pires entende muito. Ele é diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). E o que ele afirma? Isto:

“Ninguém sabe se houve o roubo de alguma informação. A reportagem mostrou que a agência teve acesso, mas não se sabe quando e o que foi feito com isso (…) “O governo já divulgou informações importantes, como a capacidade de produção de Libra (…) Essa história começa a ganhar certa dimensão que faz saírem do túmulo os nacionalistas retrógrados. Não faz sentido querer, com isso, fazer uma política para aumentar o monopólio da Petrobras (…) Reserva não vale nada, o que vale é produção”, completa, dizendo que o leilão dos campos do pré-sal são necessários para que nosso potencial de reserva tenha relevância. Daqui a pouco inventam outra tecnologia e nós ficaremos abraçados ao pré-sal.”

Ele diz ainda que o modelo adotado no leilão, que prevê que o petróleo extraído seja propriedade do estado, dificulta que as companhias obtenham vantagem ao ter acesso a informações restritas.

Encerro
É isso aí. Quando, em matéria de petróleo, o aparato lógico conduz ao mesmo lugar a que conduz um especialista na área, é o caso de se declarar, lá vou eu provocar um pouco, que o especialista está certíssimo.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2013

às 18:00

Governo brasileiro e serviço de Inteligência verde-amarelo são beneficiários da espionagem feita pelos americanos; escarcéu com casos Dilma e Petrobras está mais voltado para a política doméstica do que para a externa

Será que o governo brasileiro está mesmo “surpreso” com a espionagem feita pelos americanos? Será que não se beneficia, em nenhum momento, dos dados colhidos pela agência americana encarregada do assunto, a NSA? Já chego lá. Antes, algumas considerações.

Até agora, as denúncias bombásticas feitas por Glenn Greenwald sobre a terrível espionagem que os EUA teriam feito contra a presidente Dilma e a Petrobras não vão além de hipóteses. O barulho é espantosamente superior à gravidade dos fatos evidenciados.  Se os documentos são mesmo secretos, e parece que são, por que não há detalhes sobre invasões? Em post publicado nesta manhã, evidencio onde estão os evidentes pés de barro dessa história. Denúncias como essas, Greenwald deve ter aos milhares. Basta que selecione da montanha de dados de que dispõe aqueles que dizem respeito ao Brasil, e pronto! Vai parecer que vivemos sob a permanente vigilância dos EUA, temerosos dos perigos que representam nosso “je ne sais quoi”…

A menos que Greenwald esteja escondendo o ouro (negro!), não vi a menor evidência de que a “espionagem” estivesse ligada às questões do pré-sal, nada, nenhuma vírgula. São só conjecturas, levantadas para, sei lá, demonstrar por que podemos ser alvos da cobiça internacional, já que os espiões não poderiam estar interessados nos métodos de gestão da Petrobras. Se a empresa produzisse linguiça, seria o caso de especular se estariam cobiçando nossos rebanhos. O governo federal, no entanto, faz um estardalhaço danado com isso. Nem poderia ser diferente. Tem um filezão também eleitoral nas mãos.

A VEJA desta semana traz uma entrevista de Thomas Shannon, que foi embaixador dos EUA no Brasil até o último dia 6. Votou aos EUA para ser assessor especial do secretário de estado, John Kerry. Liliana Ayalde foi nomeada para ocupar o seu lugar. Na conversa com o jornalista Diogo Schelp, Shannon faz algumas considerações que merecem reflexão — sim, claro!, ele tem todo o interesse em diminuir a tensão — e, entendo, faz também o que pode ser considerado uma revelação, embora de escandalosa obviedade. Comecemos pelo mais importante.

Será que o Brasil também se beneficia das informações colhidas pela agência americana, especialmente com uma Copa do Mundo e uma Olimpíada pela frente? Será que o nosso país teria condições de oferecer a devida segurança a esses eventos sem a colaboração da espionagem americana? Reproduzo (em azul) um trecho da conversa, notando que o Ministério da Justiça e o Itamaraty, que estão vestidos de indignação verde-amarela, poderiam vir a público para dizer que não é assim ou, então, recusar a colaboração. Leiam. Volto em seguida.

(…)
Por monitorarem também o fluxo de informação fora dos Estados Unidos, esses programas não ferem as leis internacionais ou de outros países?
Infelizmente não sou especialista em direito internacional, por isso não posso responder nem que sim. Nem que não. Pode-se, no entanto, argumentar que a segurança nacional é um direito primordial de um país. Imagino que a espionagem tenha pouco respaldo no direito internacional, mas existe muita cooperação entre os países para o compartilhamento das informações conseguidas. Temos a convicção de que a segurança nacional não é só nossa. Vivemos em um mundo globalizado e conectado. Temos aliados e prezamos sua segurança, e também a de instituições multilaterais como a ONU. A ideia é cooperar e compartilhar da maneira que podemos.

A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) se beneficiam dessa coleta de dados feita pela NSA?
É melhor perguntar a elas. Kerry disse, em sua visita, que essas informações foram compartilhadas com autoridades brasileiras em várias instâncias. Temos um diálogo importante com a Polícia Federal e com a Abin sobre temas de interesse mútuo.

Quais temas?
Infelizmente, não posso entrar em detalhes, mas posso dizer que o Brasil, sendo o país que é hoje, importante, globalizado e que vai sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada, teve de desenvolver a capacidade de se proteger e de garantir a segurança das pessoas que vão frequentar esses eventos. Para isso, o Brasil está se aproveitando de relações com diferentes países, não apenas com os Estados Unidos, para melhorar a troca de informações e a sua capacidade de inteligência.

Então os pedidos de explicações aos Estados Unidos sobre os programas de espionagem não são justificados, já que o próprio governo brasileiro se beneficia diretamente das informações coletadas?
Entendemos as preocupações do governo brasileiro, e as levamos a sério. Por isso estamos construindo esse processo de diálogo entre os nossos governos. Eu não vou dizer que não são preocupações justificadas. Essa é uma avaliação que só o Brasil pode fazer. O que estou dizendo é que há algumas informações obtidas por nossos programas de monitoramento que estamos dispostos a compartilhar, e é o que temos feito.
(…)

Voltei
Ah, bom! Então o Brasil também é beneficiário da necessária espionagem feita pelos EUA, não é isso? Então não procede a conversa de Luiz Inácio Apedeuta da Silva, que andou dizendo por aí que não precisamos dos americanos pra nada…

Não sou especialista em espionagem. Que eu saiba, por aí, ninguém é. Os que são costumam estar prestando serviços para governos ou para bandidos — em qualquer caso, não falam. Mas os indícios de que estamos diante de um caso que está sendo hipertrofiado pela ignorância de causa — não de Edward Snowden ou de Glenn Greenwald, que sabem muito bem o que fazem — parecem evidentes.

Será mesmo?
Mas será mesmo o Brasil um dos principais alvos da espionagem? Pois é. Vale a pena ler mais uma pergunta e mais uma resposta.
O que são, então, X-Keyscore, Fomsat e outros programas de espionagem que, segundo os documentos secretos vazados pelo ex-analista de inteligência Edward Snowden, funcionam dentro das embaixadas americanas?
Até agora, o meu governo falou publicamente desses programas de maneira bem cautelosa. Eu não vou além. porque essa é uma conversa entre governos. Foi por isso que o Brasil enviou um time de técnicos para conversar com membros dos nossos serviços de inteligência e que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. foi recebido em Washington pelo vice-presidente Joe Biden e pelo secretário de Justiça Eric Holder. Ressalto, porém, que o jornal O Globo (que divulgou documentos sobre a atuação da espionagem americana no Brasil) apresentou essa informação de maneira sensacionalista e fora de contexto. Ele não captou bem a realidade dos nossos programas, especialmente no que se refere ao Brasil. O país não é o alvo desses programas, mas sim um dos mais importantes centros de conectividade para o mundo. O Brasil é o quarto ou quinto hub (centro que recebe e redistribui dados) de comunicações do mundo. Diferentes organizações e grupos que são de interesse do meu e de outros governos usam esses hubs para se comunicar. para esconder e para compartilhar seus planos de ação. Nós desenvolvemos a capacidade de medir o fluxo de informação, especialmente aquela que parte de organizações ou de países sensíveis.

Voltei
De fato, o país é o quarto ou quinto hub do mundo. Qualquer programa daquela natureza, do qual o governo brasileiro é beneficiário, poderá fornecer a impressão, assentada ou não na realidade, de que o país é alvo por excelência da espionagem.

“Ah, o Reinaldo agora acredita no embaixador americano…” Não! Estou apenas pondo as coisas em perspectiva. Fosse matéria de crença, em quem eu deveria apostar as minhas velas? Num ex-agente da CIA que rouba documentos, refugia-se na Rússia e arruma como vazador das informações roubadas um jornalista notadamente antiamericano (ainda que nascido nos EUA), que sustenta, com base em coisa nenhuma, que a maior parte da espionagem feita nada tem a ver com terrorismo?

Eu não estou acreditando ou deixando de acreditar. Eu estou aqui chamando a atenção para uma informação fornecida pelo agora assessor especial da Secretaria de Estado dos EUA Thomas Shannon: o Brasil é beneficiário da espionagem feita pelos americanos, e há troca regular de informações.

O escarcéu com os casos Dilma e Petrobras está mais voltado para o público nacional do que internacional; diz mais respeito à política doméstica do que à externa. Se Obama disser qualquer coisa que possa ser entendida como um “desculpem a nossa falha”, bingo! Teremos vencido finalmente o gigante do norte. Mal posso esperar para ver Lula na televisão: “A gente devia dinheiro para o FMI e agora é credor; ninguém ligava para o Brasil, e agora eles ficam espionando a gente, com medo do nosso sucesso”.

Um bom antídoto a isso seria trazer à luz as informações que os americanos forneceram aos serviços de segurança do Brasil para evidenciar que as coisas não são bem assim. Mas isso não vai acontecer porque, às vezes, ocorre de os serviços de segurança terem de ser mais prudentes do que a imprensa.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2013

às 7:21

Petrobras e a espionagem – Algumas questões relevantes nesse imbróglio. Ou: Não há mal que os americanos possam ter feito à empresa que brasileiros não tenham feito e não façam com sobras

Ai, ai… E continua a saga de Glenn Greenwald, o jornalista americano do Guardian que mora no Rio (não é correspondente do jornal aqui), que parece mesmo determinado a fazer o Brasil declarar guerra os EUA. Espero que Dilma se controle, né? De tudo o que o pilantra Edward Snowden vazou, Greenwald está pinçando e selecionado eventos que digam respeito ao país. Na semana passada, veio a público a sugestão de que Dilma foi espionada, embora não exista a evidência de que a Agência Nacional de Segurança tenha tido acesso ao conteúdo de suas mensagens — o que se infere, revejam tudo o que foi publicado a respeito, é que haveria condições técnicas para tanto. Neste domingo, de novo no Fantástico, Greenwald revela que a Petrobras também teria sido espionada. Mais uma vez, não se tem a prova disso — ou, nas palavras de Sônia Bridi, coautora da reportagem: “Não há informações sobre a extensão da espionagem, e nem se ela conseguiu acessar o conteúdo guardado nos computadores da empresa. O que se sabe é que a Petrobras foi alvo da agência, mas não há pista nos documentos sobre que tipo de informações a NSA buscava.

É chato ficar fazendo certas observações aqui, em vez de levantar, pôr a mão no peito e cantar o Virundum… Mas o fato é que, tanto no caso de Dilma como no da Petrobras, não fica claro se houve mesmo a invasão ou que tipo de informação foi buscada. A reportagem do Fantástico está aqui. Na ausência de dados sobre a espionagem propriamente, recheia-se a reportagem com os números superlativos da Petrobras e o quanto ela pode despertar a cobiça internacional. Sem dúvida! Também se especula sobre a possibilidade de empresas terem tido acesso a informações sobre o pré-sal e coisa e tal. Bem, considerando a escolha que o Brasil faz para a exploração do petróleo nessas áreas, podemos ficar tranquilos, certo? O regime é de partilha mesmo, e não há como a gente ser enganado pelos sagazes estrangeiros. Mas é certo que isso vai mexer com os brios nacionalistas.

Antes que volte à Petrobras, uma questão relevante. Glenn Greenwald, neste domingo, em declaração ao Fantástico, resolveu relativizar um tantinho as considerações que vinha fazendo sobre o trabalho da agência americana. Até reconheceu que ela se ocupa também de combater o terrorismo. Ah, bom! Leiam a sua declaração. Comento na sequência:

Sônia Bridi - Outros nomes de empresas e instituições da lista foram apagados para não comprometer operações que envolvam alvos ligados ao terrorismo.

Greenwald: É uma questão de jornalismo responsável. Tem informação nesses documentos, alguma informação, que é sobre a espionagem mesmo contra o terrorismo, questões de segurança nacional, que não devem ser publicadas, porque ninguém tem dúvida que os Estados Unidos, como todos os outros países, têm direito de fazer espionagem para proteger a segurança nacional. Mas tem muito mais informações sobre espionagem contra inocentes, ou contra pessoas que não têm nada a ver com terrorismo ou questões industriais, que devem ser publicadas.

Retomo A um telespectador ou leitor distraído, três questões essenciais podem passar despercebidas, e elas relativizam a afirmação de Greenwald:

1: Edward Snowden, o pilantra, certamente lhe passou uma ínfima parte de todos os documentos e de todas as operações de agência. Assim, o lote que ele tem em mãos não é uma amostra que lhe permita dizer se a maior parte das operações tem ou não vínculos com o terrorismo;

2: ninguém sabe quais documentos Greenwald tem em mãos; logo, ele pode pinçar do conjunto o que bem entender. Como não pode revelar as operações que dizem respeito ao terrorismo (o que nem a agência pode fazer), sobra-lhe, então, o estardalhaço com as que não dizem;

3: mais importante: se Snowden lhe passou o que tinha e se Dilma e a Petrobras foram espionadas, por que as provas não aparecem nos documentos, que, afinal de contas, eram secretos?

Mas como tratar com um mínimo de racionalidade e prudência um caso como esse? Certamente virão outros. Daqui a pouco, vai-se descobrir que até o Michel Temer foi espionado, interessados que estavam os americanos em saber o que ele pensa — um dos segredos mais bem guardados da República, não é mesmo? Não estou aqui posando de cético profissional, não, mas o fato é que essa história, até agora, tem muito calor e pouca luz. Esprema-se tudo, e o que sai é bem pouca coisa. Mas agora já temos uma “presidenta” para lutar contra Tio Sam em defesa das riquezas nacionais. Dados os resultados da gestão Dilma, é muito mais do que ela pediu a Deus.

Agora a Petrobras Pois é… Convenham: não há mal que espiões malvados possam fazer à Petrobras que os petistas não tenham feito por sua conta. Se houve a ação indevida, que se exija a reparação, claro! Mas me parece certo que a agência de segurança dos EUA não nos roubou uma refinaria, por exemplo, como fez o boliviano Evo Morales. Agora Dilma está falando grosso com Washington, a Casa Branca, Obama (todo mundo fala, né?), mas, à época, o governo brasileiro falou fino com a Bolívia.

Não há mal que os espiões americanos possam fazer à Petrobras e a seus acionistas que a política de preços de combustíveis do governo Dilma já não faça cotidianamente, impondo pesados prejuízos à empresa, obrigada a comprar combustível mais caro e a vendê-lo mais barato no Brasil — depois de Lula ter sujado as mãos em óleo para declarar a nossa autossuficiência.

Não há mal que os espiões americanos possam fazer à Petrobras que a direção da empresa, então sob o comando de Sérgio Grabrielli, não tenha feito por conta própria ao comprar, por exemplo, uma estrovenga em Pasadena, nos EUA, operação que impôs à empresa de economia mista um prejuízo de US$ 1,2 bilhão.

Espírito cívico Lembro essas barbaridades para tentar diminuir a importância da denúncia? Não! Lembro essas barbaridades para indagar onde estava o espírito cívico, que certamente se exacerbará agora, quando a empresa estava sendo, deixem-me ver a palavra, molestada. Nesse particular, uma pena mesmo que espiões não nos tenham advertido a tempo, não é? É uma ironia, viu, petralhas?

Certamente há mais coisas que dizem respeito ao Brasil nos arquivos roubados por Snowden e repassados para Greenwald, o herói que está ajudando a demonstrar como os malvados do Norte estão de olho no nosso país. Vamos ver. No caso da Petrobras, infiro que nem a agência americana conseguiu saber o que se passa num estado chamado “Petrobras”. Sucessivos governos já fizeram esse esforço, e ninguém, até agora conseguiu. Duvido que os americanos tenham ido muito longe.

As coisas estão realmente ficando como o diabo gosta. Dilma já tem dois pilares de campanha. Um são os médicos, escravos da ditadura cubana; o outro, a garantia de que vai nos proteger da democracia americana. Já posso respirar aliviado.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2013

às 7:03

Governo americano teria espionado a Petrobras

Leiam o que vai na VEJA.com. Comento em post específico, lá no alto.
Documentos secretos da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), que em teoria não faz espionagem por razões econômicas, indicam que o órgão do governo americano espionou a Petrobras, gigante estatal brasileira com faturamento anual superior a 280 bilhões de reais. As informações foram passadas pelo ex-analista da agência Edward Snowden ao jornalista Glenn Greenwald, do jornal britânico The Guardian, coautor da segunda matéria doFantástico, da Rede Globo, a respeito da espionagem americana no Brasil. Na semana passada, o programa mostrou que a presidente Dilma foi espionada pelo governo de Barack Obama.

O nome da gigante do petróleo nacional aparece logo no início de um tópico sobre como invadir redes privadas de uma apresentação (em Powerpoint ou algo do gênero) feita para novos agentes da NSA. Além da Petrobras, aparecem como alvos da Agência de Segurança Nacional (NSA), do Departamento de Defesa dos EUA, o Google, gigante da internet que já foi apontado como colaborador com a NSA, a diplomacia francesa, com acesso à rede privada do Ministério das Relações Exteriores da França, e a rede do Swift, a cooperativa que reúne 10.000 bancos de 212 países. Qualquer remessa de dinheiro ao exterior, por qualquer país, passa pelo Swift.

Ainda segundo a matéria, o documento, classificado como “ultrassecreto”, é acessível apenas ao grupo chamado pelo governo americano de Five Eyes – os próprios EUA, Inglaterra, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, aliados na espionagem. “Ninguém tem dúvida de que os EUA, como todos os países, têm direito de fazer espionagem para proteger a segurança nacional. Mas há informação de espionagem de inocentes ou pessoas que não têm nada a ver com terrorismo ou questões industriais”, diz Greenwald.

Sônia Bridi, repórter do Fantástico que assina a matéria junto com Greenwald, frisa que não há informação sobre a extensão da espionagem realizada pela NSA nem se sabe se ela conseguiu o que desejava obter, mas que é certo que a Petrobras foi alvo da agência americana, que tinha, entre os seus “clientes”, a diplomacia dos Estados Unidos, os serviços secretos e a Casa Branca. Nos mesmos documentos, há menção a informações diplomáticas, políticas e econômicas que provam que a NSA não teria apenas atuado contra o terrorismo, para o qual se dedicaria.

Em nota enviada ao programa da Globo, a agência americana diz que não tentou “roubar segredos comerciais”. “Nós não usamos nossa capacidade de espionagem internacional para roubar segredos comerciais de companhias estrangeiras para dar vantagens competitivas a empresas americanas”, diz o texto. Questionada sobre as razões da espionagem à Petrobras, a NSA se limitou a dizer que a nota enviada era tudo o que a agência teria a declarar no momento. A Petrobras não quis comentar o caso.

A presidente Dilma Rousseff aguarda para esta semana uma posição do governo americano sobre a denúncia feita na semana passada pela TV brasileira. Edward Snowden vazou milhares de documentos da NSA em junho passado. O ex-analista da agência americana hoje se encontra asilado na Rússia.

Por Reinaldo Azevedo

02/09/2013

às 15:09

Espionagem: Fiquei tão indignado que, hoje, ao acordar, cantei o Hino Nacional em frente ao retrato de Dilma. Ou: Será que a presidente que está aí já foi chipada?

Fiquei tão indignado com reportagem de ontem do Fantástico que a primeira coisa que fiz hoje, ao acordar, foi cantar o Hino Nacional e reverenciar a imagem da presidente Dilma Rousseff, que tenho numa espécie de santuário, num cantinho aqui de casa. Não! Não tirei ainda o retrato de Lula. Continua lá também. Todos os dias, sou grato ao fato de essa gente nos salvar de diabólicos dissabores e das tramas engendradas por aquele nosso inimigo do Norte. É evidente que se trata de um superfaturamento do caso, que será, pois, superfaturado pela política. Deixem-me ver… Mais duas semanas, e a popularidade de Dilma chega a uns 45%, por aí… Uma luta contra uzamercânu pega bem. Sabem como é? Só não somos uma potência pra valer porque eles nos atrapalham…

Vi e revi a reportagem. Conversei com gente da área:

1: nada prova que tenha mesmo havido invasão ao conteúdo das mensagens;

2: o que se tem ali é uma seleção de um monitoramento muito mais amplo, pinçado para criar um caso político.

3: a reportagem, de que, parece, Glenn Greenwald (aquele que acha que os próprios EUA são culpados pelos ataques terroristas havidos em Boston), é um dos autores, é feita sob medida para provar uma tese do jornalista do Guardian que mora no Brasil (e que não é correspondente do jornal NO Brasil): a NSA faz espionagem com objetivos puramente comerciais e econômicos; nada teria a ver com o combate ao terrorismo.

É claro, e ninguém está a dizer o contrário — eu tampouco —, que o governo brasileiro tem de cobrar explicações e coisa e tal. Mas não é menos verdade que o país está servindo de palco e território de uma corrente de pensamento, de que Greenwald é hoje um ativo militante, que localiza nos EUA uma espécie de centro da conspiração mundial contra o bem, o belo e o justo.

Não é a minha praia, não é o que eu penso, não acho que se chegue, por esse caminho, a um bom lugar. Greenwald tem uma causa, e o Brasil é o território incidental que lhe serve de plataforma — adicionalmente, seu marido mora aqui, o que justifica seu domicílio. Ai, ai… Até parece que os americanos, ou quem quer que seja, precisam de uma NSA para defender seus interesses no Brasil.

Existem, sim, disputas em curso, mas passam por outros caminhos. As Fundações Ford da vida e congêneres estão hoje em todo canto, multiplicam-se em ONGs as mais variadas, e financiam movimentos de índios, de preservação das florestas e afins. Isso, sim, é fato materialmente verificável, constatável, visível. Não é necessário ficar inferindo esquemas muito mirabolantes…

Mas tá… Esse negócio vai agora inflamar o sentimento nacionalista. A depender do que role, ficaria bem até mesmo um pronunciamento público de Dilma Rousseff, aquela que trouxe pra dentro do Brasil um pedaço da tirania cubana, assegurando que vai nos proteger das maldades do Império Americano. Enquanto isso, Edward Snowden, lá da Rússia, outro paraíso democrático, continuará a alimentar a luta de Greenwald contra o Mal!

É bom não esquecer, e se está esquecendo, que toda essa conversa inútil deriva de um crime: Snowden roubou informações secretas e as passou a Greenwald, que as seleciona e divulga segundo seu interesse. Que país, incluindo o Brasil, resistiria a esse tipo de divulgação?

Mas, para lembrar Olavo de Carvalho (ver resenha), estamos diante de um caso que deixa o “Idiota Coletivo” excitado. Lutar contra os EUA, contra o “poder”, o faz sentir-se membro de uma comunidade, entendem? Então não somos nós mesmos, como povo, os responsáveis por nossos desacertos — nem por nossos votos. Como asseveravam todas as teorias conspiratórias que circulam na Internet, existia mesmo “O Sistema”.

Não tenham dúvida: não fosse esse monitoramento, os aeroportos já estariam privatizados há tempos e funcionando às mil maravilhas; há muito os nossos portos estariam operando com eficiência; os investimentos estariam garantindo um crescimento sustentável da ordem de 4,5%, 5%; a inflação estaria dentro da meta; o sistema de saúde não seria o descalabro que é, e nossas escolas estariam educando as nossas crianças, em vez de funcionar como postos de distribuição de merenda superfaturada. Não fosse esse monitoramento, o Brasil já teria celebrado dezenas de acordos comerciais, como faz o resto dos emergentes, em vez de esperar um acordo global que não chega nem chegará…

Mas quê! Glenn Greenwald descobriu tudo: os Homens de Negro da NSA estavam no meio do caminho. Ou eles chiparam o cérebro de Dilma Rousseff ou, sei lá, por meio de ondas de um raio qualquer, a levaram a conspirar contra os interesses nacionais. Pois é… Comecem a pensar nisto: e se a Dilma que vemos não for a Dilma que pensamos? Considerando o desempenho do seu governo, parece-se razoável supor que seja uma abduzida a serviço de nossos concorrentes internacionais.

Que preguiça dessa história!

Por Reinaldo Azevedo

02/09/2013

às 14:17

Chanceler pede explicações a embaixador dos EUA sobre espionagem

Por Gabriel Castro, na VEJA.com. Volto no próximo post.
O ministro de Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, recebeu na manhã nesta segunda-feira o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon. O chanceler brasileiro pediu explicações do diplomata sobre revelação de que a presidente Dilma Rousseff e alguns de seus auxiliares foram espionados pelo governo dos Estados Unidos.

A presidente Dilma Rousseff, que ainda não se falou sobre o caso, se reúne nesta segunda-feira com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em encontro marcado para as 15 horas. Ainda durante a manhã, a presidente recebe o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, também para tratar do tema. O governo pretende dar uma resposta à denúncia, embora saiba que a postura do governo americano dificilmente mudará.

Espionagem
O caso foi mostrado pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo. Segundo a reportagem, o nome de Dilma aparece em uma apresentação produzida internamente para funcionários da NSA e intitulada “Filtragem inteligente de dados: estudo de caso do México e do Brasil”. De acordo com o material, o objetivo do monitoramento ao Brasil seria “melhorar a compreensão dos métodos de comunicação” entre a presidente e seus assessores.

A denúncia foi baseada em um documento secreto obtido pelo jornalista americano Glenn Greenwald, do jornal inglês The Guardian. Greenwald foi um dos primeiros a revelar o esquema de espionagem eletrônica da agência americana e do governo Obama, delatado pelo ex-analista da NSA Edward Snowden. As revelações surgem cerca de um mês antes de uma viagem de Dilma Rousseff para Washington, onde vai se encontrar com o presidente dos EUA, Barack Obama.

Por Reinaldo Azevedo

21/08/2013

às 4:29

Elton John, seu marido, a marcha da estupidez, a decrepitude a soldo e o óbvio: circular com documentos secretos, que foram roubados de um país, expõe o portador a riscos

Pessoas que têm alguma noção do que vai pelo mundo sabem que gays americanos e ingleses, por exemplo, se referem às pessoas com quem vivem como “maridos” — e as lésbicas, como “mulheres”. Tentar criar caso porque chamei David Miranda de “marido” de Glenn Greenwald, apontando um suposto traço de “homofobia”, como fez um sujeito aí, é mesmo o último estágio de uma miserável decadência. Prestar-se a esse papel, alugando a pena, no ocaso da carreira, deve ser melancólico.

Um leitor me manda um link de um site inglês especializado em notícias que interessam ao mundo gay. Há uma entrevista concedida em 2012 pelo cantor e compositor Elton John, que, como sabem, é “sir”. Ele repudia esse negócio de “companheiro”. Reproduzo trecho de sua fala:

“Eu não aceito isso (chamar “marido” de “parceiro”). Eu não aceito isso porque há uma gigantesca diferença entre chamar alguém de ‘parceiro’ e de ‘marido’. Parceiro é uma palavra que deve ficar reservada para as pessoas com quem você joga tênis ou com quem trabalha. Não chega perto de descrever o amor que eu tenho por David (Furnish) e que ele tem por mim. Já ‘marido’, sim. É alguém que você estima para sempre; por quem você renunciaria a tudo, que você ama na saúde e na doença”.

Pois é… Gays como Elton John ainda pedirão a volta do casamento indissolúvel e declararão a superioridade do outrora chamado amor romântico… A polêmica, obviamente, é imbecil e de encomenda. Vamos ao que de fato interessa.

Documentos roubados
Chego a sentir certa vergonha da qualidade do debate que se faz no país sobre o caso Edward Snowden-Glenn Greenwald-David Miranda. Ainda que o ex-agente americano fosse um teólogo da democracia e do respeito aos direitos individuais, o fato inquestionável é que ele roubou documentos que dizem respeito à segurança dos EUA e, em certa medida, de países ocidentais.

“Roubou”? Sim, cabe essa palavra, que foi empregada pelo governo do Reino Unido. Ainda que Snowden tivesse acesso àquela documentação, ela era de circulação restrita. O eventual bem, se é que existe, que possa ter feito ao denunciar supostas operações ilegais não anula aquele crime.

David Miranda, o marido de Greenwald (“parceiro” é para jogar vôlei na praia), circulava, confessadamente, com documentos surrupiados por Snowden, fruto de uma conduta tipificada como criminosa nos EUA e no Reino Unido. Não compreender essa evidência é, parece-me, estar com alguma falha moral tendente ao incurável. É simples: faça-se um exercício. Imaginem um americano ou inglês que saísse por aí com informações que o governo brasileiro considera secretas, obtidas em razão de um crime.

Reitero: se a informação chegasse às mãos de Greenwald, sabe-se lá como, que publicasse — como fez. Mas não cabe à Scotland Yard e ao serviço secreto britânico colaborar para que isso ocorra. “Ah, está obstruindo o trabalho jornalístico!!!” Uma ova! Cadê a obstrução? A ninguém é dado roubar documentos sigilosos de estados ou sair circulando com eles por aí debaixo do braço ou num pen drive. Jornalistas não têm licença para cometer crimes. Até onde sei, em todo o mundo democrático, eles costumam cobrar que os políticos ajam dentro da lei.

A reação do governo brasileiro, nesse acaso, apela ao ridículo. Ver os esquerdinhas frenéticos a protestar tem lá a sua graça. Lula mandou expulsar do Brasil o jornalista Larry Rother porque este escreveu que ele gostava de cachaça. Nem é assim tão preciso. Desde que negociava o fim das greves com empresários do Grupo 14 da Fiesp, Lula gostava mesmo é de Black Label. Cachaça era pra peão. E ele já era candidato a rei.

Miranda decidiu processar o governo britânico. Greenwald, que vive ameaçando o governo americano com novas publicações, diz que se trata de campanha de intimidação. Que coisa pitoresca! A informação publicada que tem origem num crime é considerada um ato heroico. A ação da Scotland Yard, que se deu segundo a lei, é… criminalizada!

“Ah, mas toda a imprensa diz que…” E eu com isso? Pode dizer! Eu não digo. Quase toda a imprensa dizia que sair botando pra quebrar na rua iria aprimorar a nossa democracia. Eu, desde sempre, considero que o país regride assim. Quase toda a imprensa apostou nas glórias da Primavera Árabe. Eu dizia que se tratava de uma escolha entre uma ditadura militar e uma ditadura da Irmandade Muçulmana — com graus diferentes de periculosidade…

Eu não me importo com o que dizem os outros. Não me incomoda ficar eventualmente isolado num ponto de vista. Não pertenço a manada nenhuma. A minha referência não é a cauda que balança à minha frente. Isso termina em matadouro. Tentem me provar que Snowden não é um criminoso, e então chamarei de arbitrária a retenção — e não “prisão” do marido de Greenwald. Se crime é, então a polícia fez a sua parte.

“Ah, mas recolheram computador, pen drive…” É. Ele confessou que trazia parte da documentação roubada por Snowden. Como são arquivos eletrônicos, a Scotland Yard deveria ter feito o quê? Por que Antonio Patriota não diz o esperaria que as autoridades britânicas fizessem caso retivessem um estrangeiro com documentos sigilosos roubados do estado brasileiro?

Ademais, Greenwald é um ex-advogado experiente. Não quisesse que seu marido fosse pego, teria escalado outra pessoa para a missão. Como é americano e conhece as leis, como trabalha para um jornal inglês e conhece a legislação do país, sabia que estava expondo o seu marido ao risco da interceptação. Pergunto: terá contado com isso?

Já encontrei na imprensa textos delinquentes que praticamente justificam a violência dos black blocs. Está faltando agora um que justifique o roubo de documentos secretos. Desculpem! Não combina com o meu senso pessoal de moralidade. Tampouco aceito que um assunto sério, como é o combate ao terrorismo, seja transformado por messiânicos irresponsáveis em mero capricho autoritário de uma superpotência.

Pouco me importa o status da união entre Miranda e Greenwald. Só não aceito que as bobagens do politicamente correto omitam a real natureza da notícia. “Mas precisava ser a lei de combate ao terrorismo?” A Justiça britânica dará seu veredicto. Qualquer que seja, não mudarei o meu: quando o que está em risco são documentos secretos roubados, que podem pôr em risco o combate ao terror, precisava, sim!

De resto, para lembrar Elton John, seria mais prudente que Greenwald fosse do tipo que “ama o marido na saúde e na doença, para sempre”, deixando-o longe de seus trabalhos e de seus negócios. “Olhem aí uma observação sobre a vida pessoal…” Errado! Foi o jornalista americano quem afirmou que “eles” (o governo dos EUA), na sua campanha de intimidação, resolveram mexer com alguém que ele ama.

Errado! Este senhor não é o centro do mundo. Esse “alguém que ele ama” só foi retido em Londres porque carregava arquivos de documentos roubados.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2013

às 13:42

O Brasil não tem nada a ver com as escolhas feitas pelo marido de jornalista americano. Ou: EUA fazem o papel de madrasta má nessa história de Cinderela da era politicamente correta

Nesses dias em que o jornalismo que deve se levar a sério tem o sotaque, muitas vezes, de um garoto ou de uma garota manejando suas opiniões no Facebook ou no Twitter, virou moda travestir opinião de informação, ignorar fatos relevantes e transformar a adesão a uma determinada tese em apuração objetiva dos fatos. Procuro (não sou o único, mas um dos poucos) fazer o contrário:
a) não escondo do leitor o que penso; se ele quiser se mandar daqui e não ler o que tenho a dizer, nada a fazer;
b) opino, no entanto, sobre fatos, sobre dados objetivos, e considero que as pessoas têm de arcar com o peso de suas escolhas, sem esperar que o Estado e as instituições sejam seus cúmplices, em especial quando estão em luta contra… o estado e suas instituições.

Voltemos ao caso da retenção — não foi prisão nem detenção — do brasileiro David Miranda em Londres. Considero Edward Snowden um traidor asqueroso e creio que não sabemos da missa a metade. Gente com esse perfil não se faz do nada. Um rapaz que denuncia a suposta vocação ditatorial dos EUA e se refugia na Rússia se define. Para mim, basta. Com um pouco mais de ousadia, ele pediria abrigo à China… Glenn Greenwald — o jornalista americano, correspondente do Guardian, que mandou seu marido (o David Miranda) numa missão especial — não é, a meu juízo, flor que se cheire. Pronto! Se o leitor quiser ler o resto, e vou me ater apenas aos fatos, continua. Se decidir que não, ok; não perderá seu precioso tempo comigo.

Leio na VEJA.com que Miranda quer que o Senado brasileiro tome alguma providência. É? Qual? Por que um dos Poderes da República no Brasil tem de se meter na história de sua retenção? Por acaso a Scotland Yard o reteve só porque é brasileiro? Ou, sei lá, porque é brasileiro, gay e negro? Não! Como confessou Greenwald, Miranda levou informações sobre Snowden para a documentarista Laura Poitras, que estava na Alemanha, e trazia consigo novos vazamentos (ou que nome tenham) fornecidos pelo ex-agente americano. Laura e Greenwald receberam juntos, em Hong Kong, as primeiras informações secretas passadas pelo vira-casaca.

O correspondente do Guardian está longe de ser um sujeito ingênuo. Ao meter seu marido na história, sabia muito bem que havia riscos de ele ser detido em algum ponto dessa trajetória. Ousaria mesmo dizer que ele (quem sabe ambos; não sei quão articulado é o tal Miranda) contava com isso, porque é visível a determinação do jornalista de provar que os EUA são uma potência autoritária, que policia o mundo. Nesta segunda, voltou à carga, com suas teorias conspiratórios, meio paranoicas: “Eles quiseram mandar uma mensagem sobre intimidação. De que eles têm poder, e, se continuarmos fazendo a nossa reportagem, publicando os segredos deles, que eles não vão ficar só passivos mas vão atacar a gente com mais intensidade”.

“Intimidação” seria empreender alguma ação à socapa para mostrar que Greenwald está na mira. Uma retenção no aeroporto, feita segundo a lei — sim, segundo a lei —, não é intimidação. Especialmente quando se trata de uma reação esperada, com a qual ele certamente contava. Burro, como já está evidenciado, não é. A propósito: falando como o militante de uma causa, não como jornalista, o americano anunciou que vai fazer novas denúncias. Vênia máxima, jornalista não ameaça publicar o que tem; publica apenas. Uma vez publicado o texto, não fica fazendo proselitismo sobre a própria reportagem nem se transforma numa celebridade mundial: deixa que outros se encarreguem da repercussão.

Reparem no óbvio: Greenwald não publicou uma só evidência de que os EUA monitorem também o conteúdo das trocas de mensagens que interceptam. Mas ele, pessoalmente, sustenta que sim. Também não publicou uma só evidência de que o país tenha interesses outros que não combater o terrorismo, mas ele, em várias entrevistas e no depoimento prestado ao Senado brasileiro, sustenta que sim. Não publicou, reitere-se, uma só evidência de que a “espionagem” de brasileiros tivesse objetivos comerciais, mas ele sustenta que sim… Esse tipo de prática caracteriza militância política, não jornalismo.

Snowden teve acesso a segredos do monitoramento feito pelos EUA em seu trabalho de combate ao terror. Insisto que não temos como saber quantos atentados deixaram de ser praticados por isso. Ou temos? Tivessem acontecido, o mundo seria hoje não só mais inseguro como mais paranoico; é bem provável que as liberdades individuais estivessem ainda mais reduzidas. Sim, senhores! Snowden é um criminoso — e não porque demonstrou que o suposto Grande Satã espiona todo mundo. Mas porque foi treinado e era pago, como funcionário de estado, para manter sigilo sobre as operações de segurança. Imaginem se isso vira moda…

Não por acaso, seu maior aliado é ninguém menos do que o delinquente Julian Assange, um amigo de tiranos que, inicialmente, divulgava os documentos que chegavam ao seu site. Depois de algum tempo, ele passou a tramar a invasão a dados sigilosos de governos — decidindo pessoalmente o que vazar ou não. Isso não tem nada a ver com transparência ou jornalismo: é crime de espionagem revestido de interesse público.

Greenwald precisa escolher uma profissão: jornalista ou militante político. David Miranda precisa escolher uma condição: marido, com atividade e renda próprias (tem?), ou parceiro dessa militância política — nesse caso, tem de arcar com o peso de suas opções, em vez de tentar transformar num caso de soberania nacional o que é nada mais do que uma escolha individual. Uma coisa é certa: ele não tinha ido à Alemanha para conhecer a Floresta Negra ou para comer chucrute.

Setores majoritários da imprensa se mostram preguiçosa e ativamente solidários porque o coquetel politicamente correto se lhes mostra irresistível: Glenn, americano, bem de vida, branco e gay, casa-se com um brasileiro negro, pobre e oriundo da favela. É uma fábula da Cinderela adaptado aos tempos modernos. Nesse caso, há, adicionalmente, o ingrediente político: os EUA fazem o papel da madrasta má. Trata-se de uma fábula politicamente infantiloide, como é, diga-se, o pensamento politicamente correto.

Por Reinaldo Azevedo
 

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