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Dilma

02/09/2014

às 13:01

Por que Dilma não diz quem seria o seu “Armínio” da economia? Por que Marina não diz quem seria o seu “Armínio” do Meio Ambiente?

Pois é… Se Aécio Neves, do PSB, for presidente da República, sabemos que seu ministro da Fazenda será Armínio Fraga, o que indica uma condução técnica, serena e competente da economia. Se Dilma for reeleita, aí só Deus sabe quem conseguirá segurar o rojão. As expectativas vão se deteriorar enormemente, num cenário que já é de crescimento baixo, inflação alta e investimentos pífios. Uma coisa é certa: Guido Mantega não ficaria. Uma possibilidade a ser estudada pelos petistas é dizer agora quem será o substituto de Mantega se a petista ganhar mais quatro anos.

“Ah, mas aí o atual ministro vira um pato manco.” Errado! Ele já é um pato manco. A escolha de alguém com um perfil técnico, não chegado a feitiçarias, pode não ajudar a presidente a ganhar votos, mas contribuiria para baixar o pessimismo. Dilma precisa entender que é ela, hoje, um dos principais fatores da instabilidade da economia. E Marina? Vamos ver.

Na condução, digamos, macroeconômica, a candidata do PSB emitiu os sinais que mercados e investidores queriam ler. O principal, como é sabido, é a independência do Banco Central. Estou entre aqueles que veem certo fetichismo nessa questão, mas é evidente que é preferível tal promessa ao apanhado de bobagens e sandices que Franklin Martins mandou escrever no site “Muda Mais”, que é a página oficial da campanha petista.

Vejam que curioso: no caso de Marina, ninguém nem pergunta quem será o ministro da Fazenda ou o presidente do Banco Central. Dá-se de barato que será “o mercado”. Aí a Bolsa dispara, a exemplo do que aconteceu ontem, com as ações das estatais liderando a valorização. A resposta que a ex-senadora tem de dar é outra.

Eu não tenho curiosidade de saber quem será, por exemplo, o ministro da Agricultura de Marina Silva caso ela vença a eleição. O setor dispõe de quadros competentes, e certamente alguém com experiência aceitaria a tarefa. Hoje, o agronegócio é a área da economia brasileira que reúne um maior número de técnicos e especialistas capacitados. Eu quero é saber quem será o ministro do Meio Ambiente de Marina se ela sentar no trono, isto sim! É ele quem definiria o tipo de relação que a presidente manteria, por exemplo, com o agronegócio.

Até agora não vi — e, se aconteceu, me escapou — a candidata se comprometer com o Código Florestal que foi aprovado pelo Congresso e contra o qual ela lutou com determinação. A proposta de Marina, é bom não esquecer, implicava uma redução da área plantada no país. Da mesma sorte, interessa-me saber quem seria o  nome da área energética. Um dos entraves, não é segredo para ninguém, para as obras de infraestrutura são as licenças ambientais.

Por enquanto, convenham, boa parte das expectativas positivas que há em relação à candidata do PSB deriva apenas do fato de que ela não é Dilma. Mas o país precisa saber o que seria Marina por Marina. Se eleita e der uma de Lula no primeiro mandato, jogando no lixo boa parte do que disse ao longo de sua militância, pode até se dar bem…

Por Reinaldo Azevedo

02/09/2014

às 7:21

Dilma, a grande derrotada da noite!

O saldo do debate promovido nesta segunda pela Jovem Pan, Folha, UOL e SBT? Uma Marina Silva que se consolidou como alternativa aos olhos do eleitorado e que cresceu, como presidenciável, atropelando Dilma Rousseff, que teve, de muito longe, o pior desempenho entre os três principais candidatos. O debate está na Internet, pode ser visto por qualquer um que não o tenha feito. O tucano Aécio Neves se saiu muito bem. Respondeu, como de hábito, com clareza e desenvoltura. Demonstrou conhecimento de causa e segurança. Mas, como afirmei no post de ontem, as circunstâncias não o transformaram em um dos polos do debate, que caminhou para o confronto entre Marina, ora no PSB, e Dilma, do PT. Qualquer juízo objetivo constata o óbvio: a candidata à reeleição perdeu feio o embate. Os petistas estão completamente desorientados.

Há dias, chamo aqui a atenção para o desastre a que as ideias fixas podem conduzir as pessoas, lembrando o Machado de Assis de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Como nunca, o PT tem sido vítima de sua natureza. Se não conseguir sair da encalacrada em que está, perdeu a eleição.

Os petistas só sabem fazer campanha presidencial contra, nunca a favor. A de 1989 se organizou na oposição a José Sarney e Fernando Collor, hoje seus queridos aliados. Em 1994, passa a ser vítima da ideia fixa: atacar os tucanos. Perdeu dois pleitos consecutivos no primeiro turno no ataque ao Plano Real, às privatizações e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Em 2002, mudou de rumo: passou a falar uma linguagem propositiva e se tornou monopolista da esperança e da mudança — um discurso que hoje, tudo bem pensado, serve a Marina Silva.

Muito bem! Eleito presidente, Lula resolveu governar com os marcos macroeconômicos herdados do PSDB — não adianta disfarçar —, mas deu início à demonização do adversário. Com impressionante vigarice, o PT se portava como “oposição”, embora fosse governo, embora fosse situação, embora estivesse no controle do estado. Exercitou, no limite do possível, o discurso do ressentimento, do ódio e da perseguição aos adversários. Queria, em suma, ser o senhor — e era! —, mas com o poder das… vítimas.

Enquanto as circunstâncias econômicas foram favoráveis à construção dessa farsa, surfou na onda. Acreditem: os petistas já não contavam mais — e não contam ainda — com a possibilidade de deixar o poder. Há pouco mais de um ano e meio, falavam abertamente na reeleição de Dilma no primeiro turno e depois em mais oito anos de Lula… Tudo assim, com desassombro, sem combinar antes com a história e com o imponderável.

Para isso, no entanto, sempre dependeu de um inimigo de estimação: o PSDB. O partido era sua antivitrine, seu exemplo de elite pernóstica e insensível aos reclamos do povo. Os braços de aluguel do partido na subimprensa e na imprensa ainda insistem nessa cascata. Mas eis que surge uma Marina no meio do caminho, oriunda justamente do ninho… petista! Também sabe fazer o discurso dos “Silva”; também sabe desempenhar o papel da “vítima triunfante”; também é especialista na “demonização do outro”, embora tenha uma fala menos rascante do que a de Lula, embora se expresse com mais fluência — o que não quer dizer clareza —, embora pareça a pura expressão da mansidão.

E eis que vemos um PT sem resposta, a dar tiros no próprio pé. No debate desta segunda, Dilma tentou encurralar Marina, mas perdeu todas. Mesmo quando atacava, estava na defensiva. A petista só se esmerou no jogo bruto, beirando a grosseria, contra Aécio. Ocorre que, hoje ao menos, quem fará Dilma mudar de endereço é Marina Silva.

Depois do debate, Dilma se reuniu com seu núcleo duro de campanha — incluindo o marqueteiro João Santana e o ministro Aloizio Mercadante — e com Lula. Foi, certamente, uma reunião para lamber as feridas do dia. Marina foi a vencedora da noite, e Dilma, a grande derrotada. Os petistas vivem o dilema expresso pelo asno de Buridan, aquele que pode morrer de fome e de sede, incapaz de decidir entre a água e a alfafa. Se bate em Marina, teme se esborrachar com a rejeição do eleitorado, que vê na ex-senadora a magricela pobrezinha do seringal, que se esforçou e se tornou uma figura mundialmente conhecida. Se não bate, a magriça se agiganta e engole a máquina petista nem que seja com um trocadilho, no que ela é boa. Nesta segunda, mandou ver em mais um: “Não sou nem pessimista nem otimista, sou persistente”. O que quer dizer? Nada! Enquanto isso, Dilma, coitada!, se enrolava em números e siglas, com a cara feia, visivelmente contrariada.

Pela primeira vez, desde 2002, as circunstâncias atuam contra a ideia fixa do PT. E o partido não sabe o que fazer. Desta vez, nem o Santo Lula pode ajudar. Encontrou uma Silva que sabe ser ainda mais coitadinha e mais orgulhosa do que ele próprio. Como colar nela a pecha de candidata da Dona Zelite, né, Lula?

Texto publicado originalmente às 5h36
Por Reinaldo Azevedo

02/09/2014

às 7:03

Petistas querem, agora, de um lado, colar em Marina a pecha de “evangélica antigay” e, de outro, dar benefícios fiscais a… igrejas evangélicas. É o desespero!

Os petistas estão de tal sorte desorientados com Marina Silva que começam a bater cabeça e a tomar atitudes desencontradas. Não sabem mais o que fazer. A turma se prepara agora para tomar duas iniciativas: uma mais ligada ao âmbito da campanha e outra à do governo propriamente.

Como se viu e se comentou aqui, Marina Silva pediu uma correção do programa divulgado no capítulo que diz respeito aos direitos dos homossexuais, que a linguagem “militantemente correta” chama “GLBT”. A primeira versão falava em apoiar o casamento gay, o PLC 122, que criminaliza a homofobia, e uma outra proposta aloprada, dos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF), que transforma o, digamos, sexo civil numa questão de opinião. Na prática, se o Jurandir, de pênis, barba e pelo no peito, disser que é mulher e se chama Kelley, o poder público tem de aceitar. E se ele decidir ser Jurandir de novo? Aí destroca. Com a autorização dos pais, até um menor de idade poderá escolher livremente a sua “identidade sexual”. É coisa de hospício.

Na nova versão, fala-se em dar consequência legal à igualdade da união civil entre homo e heterossexuais e ponto. E o resto que fique — como deve ser, aliás — para o Congresso. Luciana Genro, do PSOL, decidiu no debate de ontem pegar no pé de Marina com essa história, atribuindo a alteração do programa à religião da candidata do PSB, que é evangélica. Com adversários assim, só resta à ex-senadora erguer as mãos para o céu.

Tais causas estão longe de ser exatamente populares. De resto, o programa de Marina, reitere-se, contempla o apoio à chamada “comunidade GLTB”, abstendo-se apenas do proselitismo. Se existem defeitos na sua proposta — e os há, às pencas — não é esse. O tal PLC 122, por exemplo, é, sim, autoritário. Mas o PT sentiu que dá para fazer uma onda, contando com o apoio de um grupo muito organizado, que agora vai tentar ligar Marina à homofobia. É desespero de causa. Há quatro anos, fez-se o mesmo com o tucano José Serra. Os petistas insistem em fazer a história voltar para trás. Não sei, não… Tendo a achar que isso mais rende votos a Marina do que tira.

De um lado, então, o PT vai tentar colar em Marina a pecha de evangélica atrasada e inimiga dos gays. De outro, informa a Folha, “o governo elabora um conjunto de ações com medidas que incluem o atendimento a uma das principais bandeiras evangélicas no Congresso: o apoio à Lei Geral das Religiões”. Em que consiste?

O governo pretende “desengavetar um projeto, proposto em 2009 e há mais de um ano parado em uma comissão do Senado, para conceder diversos benefícios a instituições religiosas, entre eles tributários”. Isso faria parte de um “pacote anti-Marina”.

Deixem-me ver se entendi direito: o conjunto, então, das ações contra a candidata do PSB prevê demonizá-la como evangélica radical e antigay e, ao mesmo tempo, acenar a essa corrente religiosa com benefícios tributários. Sabem o nome disso? Desespero.

Em 2010, o PT, com o auxílio de amplos setores da imprensa, fez uma lambança danada para colar em Serra a pecha de adversário dos gays, o que era, para dizer pouco, uma canalhice quando se considera o seu trabalho como ministro da Saúde e como governador. Sem saída, os petistas insistem nessa tecla, roubando até o discurso de Luciana Genro… Longe das câmeras, suponho que Marina Silva gargalhe de vez em quando. Se acontecer, ela gargalha é do PT.

Por Reinaldo Azevedo

01/09/2014

às 5:48

Dilma ataca programa de Marina para a indústria e sugere que ele pode desempregar. Bem, ela está.. certa!

Às vezes, é preciso que a gente se prepare para a hipótese de a presidente Dilma Rousseff estar certa, mesmo quando fala como a candidata Dilma Rousseff. Neste domingo, ela deu uma rápida declaração no Palácio da Alvorada e se disse preocupada com o conteúdo do programa de Marina Silva para a indústria brasileira. Como Marina apareceu em primeiro lugar no segundo turno em duas pesquisas, a do Ibope e a do Datafolha, confesso que eu também me preocupei. Vai que ela se eleja. Não sei bem o que pode sair.

Muito bem! Mais de uma vez já critiquei aqui a alta carga tributária brasileira, que convive, não obstante, com desonerações concedidas a este ou àquele setores. Sei que a tarefa não é fácil e a resposta não é simples, mas melhor seria uma carga média mais baixa sem precisar escolher este ou aquele para conceder um prêmio. Mas é evidente que entendo que o governo brasileiro — a exemplo do que fazem todos — pode e deve criar mecanismos para dar incentivo à sua indústria. Ou por outra: uma política industrial é, sim, necessária: porque o setor gera os melhores empregos, os mais bem remunerados, e porque isso implica desenvolvimento de tecnologia. A perda de competitividade da indústria e sua queda na participação do PIB são, sim, problemas graves. Quem tiver dúvidas a respeito que pergunte ao resto do mundo, em especial à China.

O programa de Marina diz coisas estranhas em pelo menos dois momentos. No “Eixo 5”, pomposamente intitulado de “Novo Urbanismo, Segurança Pública e Pacto Pela Vida”, critica severamente a redução de IPI para a compra de carros. Com a devida vênia, é papo de ongueiro natureba. Esperem aí! A indústria automobilística emprega mais de 130 mil pessoas; a de autopeças, quase 330 mil; a de pneus, 26 mil. Quando se calculam os empregos indiretos, chegamos facilmente a alguns milhões. O governo Dilma cometeu muitas barbeiragens — e a redução de IPI não foi uma delas.

Na chamado Eixo 2, na página 73, o programa de Marina critica a forma como se dá a política de proteção ao conteúdo local de determinados setores da indústria, mas não diz exatamente o que pretende fazer, limitando-se a afirmar que tal iniciativa deve ter um tempo limitado e constituir exceções, não a regra. E ponto.

O PT percebeu a fragilidade das formulações do programa de Marina e aproveitou para atacar: “Eu não fui eleita para desempregar ou para reduzir a importância da indústria”. E emendou: “Nós não queremos que os carros sejam só montados no Brasil. Eles podem ser produzidos no Brasil, mas, sobretudo, sofrer no Brasil as inovações que são fundamentais na indústria”.

Pois é… Fazer o quê? De vez em quando, Dilma pode estar certa. Nesse caso, está. Qualquer presidente em seu lugar — e, antes dela, no de Lula — teria reduzido os impostos dos carros para manter os empregos. Se presidente, Marina teria feito o quê? Um retiro espiritual para meditar sobre o assunto? “Você não acha penoso, Reinaldo, ter de admitir que, em certos casos, Dilma fez a coisa certa?” Eu não! Já havia dito isso antes. Tenho compromisso com os fatos. E só.

 

Por Reinaldo Azevedo

28/08/2014

às 21:20

O discurso confuso de Dilma. Ou: Fala tumultuada, governo atrapalhado

A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, reuniu na noite desta quarta, no Palácio da Alvorada, o comando de sua campanha e os presidentes das nove legendas que a apoiam. O objetivo era discutir a nova realidade eleitoral, com a ascensão de Marina Silva, do PSB. Ao fim do encontro, Rui Falcão, do PT, disse que nada mudaria na estratégia petista. De fato, o partido continua refém de uma ideia fixa: atacar os tucanos. Mas há, sim, uma discreta mudança em curso.

Nesta quinta, a petista participou de um encontro da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura. Recebeu o apoio oficial da entidade e discursou. Disse duas coisas dignas de nota, referindo-se, ainda que de modo oblíquo, a Marina. Vamos à primeira:
“Essa história de que você acha os bons ou os melhores sem aferição não está certa. Como é que eu vou fazer uma política para agricultura familiar com quem não defende agricultura familiar?”.

Bem, por mais que a proposta de Marina de fazer um “governo só com os melhores” seja uma bobagem, uma cascata, é evidente que nem ela própria pensaria em nomear para a agricultura familiar alguém que não a defendesse, né? De fato, o discurso de Dilma traduz outra coisa: o PT é um partido corporativista e entende que governar consiste em entregar fatias do governo a “pessoas da área”. Ora, governar é algo bem diferente disso. Trata-se de eleger, necessariamente, prioridades para determinados setores que tenham alcance universal. Ou por outra: é necessário, sim, contar com alguém favorável à agricultura familiar, mas ele não pode ser de tal sorte um representante do setor que acabe tomando medidas que prejudiquem outras áreas do governo.

Já a segunda fala é um daqueles momentos em que o “dilmês castiço”, uma língua que lembra o português, aflora com toda a sua força. Leiam:
“Eu acho que as pessoas não têm de ser más, não tem de ser… todas as pessoas são… podem ser boas ou podem ser más. Mas as boas pessoas podem não ter compromisso. A pessoa é muito boa, mas o compromisso dela é com outra coisa”.

O que será que Dilma quis dizer com isso? Com alguma boa-vontade, a gente pode inferir que, para a petista, as pessoas, tomadas individualmente, têm menos importância na política do que o arco de interesses que elas representam. Se é isso mesmo, até tendo a concordar com ela — embora, obviamente, os indivíduos possam fazer toda a diferença.

O que me espanta é essa incapacidade de Dilma de deixar clara uma ideia tão simples, até meio boboca. Parece haver um complicômetro na cabeça da presidente que a impede de falar com um mínimo de clareza. Tendo a achar que quem pensa de modo tão tumultuado acaba agindo de maneira igualmente tumultuada. E aí temos o governo que temos.

Na reunião da Contag, Dilma voltou a atacar FHC, com aquela conversa do “nós” contra “eles”. Parece não ter percebido que esse tipo de abordagem só reforça a candidatura de… Marina Silva! Pois é… Mas como se livrar de uma ideia fixa?

Por Reinaldo Azevedo

28/08/2014

às 16:01

Dilma critica o ‘governo dos melhores’ de Marina

Por Gabriel Castro, na VEJA.com. Comento ainda hoje.
A presidente Dilma Rousseff deu nesta quinta-feira uma mostra de que deve passar a criticar mais diretamente a adversária Marina Silva (PSB), em segundo lugar na preferência do eleitorado, segundo pesquisa Ibope divulgada na terça-feira. Dilma discursou em um encontro da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), em Brasília. E atacou a defesa que a ex-senadora faz de um governo dos “melhores”, sem partidarismos.

Dilma manteve em seu discurso todas as referências aos governos do PSDB: a comparação com “a época deles” foi repetida em diversos momentos. Aécio foi o principal alvo. Mas a petista, a seu modo, embutiu no pronunciamento uma crítica. “Essa história que você acha os bons ou os melhores sem aferição não está certa. Como é que eu vou fazer uma política para agricultura familiar com quem não defende agricultura familiar?”, disse a presidente.

Na entrevista coletiva dada após o evento, Dilma tentou explicar a menção – e acabou se enrolando. “Eu acho que as pessoas não têm de ser más, não tem de ser… todas as pessoas são… podem ser boas ou podem ser más. Mas as boas pessoas podem não ter compromisso. A pessoa é muito boa, mas o compromisso dela é com outra coisa”, afirmou.

No pronunciamento a presidente pediu que os agricultores familiares defendam seu governo das “mentiras” espalhadas por opositores. “Eles escondem o ódio atrás da desinformação e do derrotismo”, disse ela, no primeiro discurso de campanha após a pesquisa Ibope que mostra a ascensão da candidata do PSB.

O ato de campanha durou pouco menos de duas horas. Cinco ministros acompanharam Dilma no evento. Aos membros da Contag, que declarou apoio à reeleição de Dilma, ela prometeu manter a política de reforma agrária e a concessão de benefícios aos assentados.

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 20:06

Ibope – Marina encosta em Dilma no 1º turno e venceria petista no 2º com boa margem. Ou: Programas do PSDB e do PT são inadequados à nova realidade

Pois é… Se o PSDB e o PT tinham expectativas negativas sobre a pesquisa Ibope, agora que se conhecem os números, diga-se o óbvio: se estiverem certos, superam qualquer pessimismo de tucanos e petistas. Se a eleição fosse hoje, Marina Silva (PSB), com 29%, está a apenas um ponto do empate técnico com a petista Dilma Rousseff (34%). O tucano Aécio Neves aparece com 19%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Em relação à pesquisa anterior do instituto, tanto Dilma como Aécio caíram quatro pontos. No levantamento do Ibope de 3 a 6 de agosto, Eduardo Campos aparecia com apenas 9%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00428/2014. Vejam o quadro publicado pelo Portal G1.

Ibope números

É evidente que a notícia é péssima para o tucano Aécio Neves. A 40 dias da eleição, uma diferença de 10 pontos para Marina Silva não é fácil de ser superada, especialmente porque é ela que surfa na onda da novidade. Dilma, que dava a reeleição como certa, seria derrotada por Marina no segundo turno por 45% a 36%. A diferença está fora da margem de erro. Vejam outro quadro do G1. Volto em seguida.

Ibope segundo turno

Como se pode perceber acima, a má notícia para Dilma não está apenas no percentual maior de Marina: a sua rejeição segue gigantesca. Hoje, nada menos de 36% dizem que não votariam nela de jeito nenhum. Afirmam o mesmo sobre Marina apenas 10%. Contra o tucano, a presidente alcançaria 41%; ele ficaria com 36%. Vejam que coisa: esse não é um mau resultado para Aécio, não. O problema do candidato do PSDB está mesmo no primeiro turno.

A pesquisa e as campanhas
Tanto o horário eleitoral de Aécio como o de Dilma que foram ao ar nesta terça estavam fora do tom, isto é, em dissintonia com a realidade. O programa do PSDB ainda investe na apresentação de Aécio, desconhecido de parcela significativa do eleitorado. O de Dilma exalta as conquistas do PT e, ora vejam, investe contra o PSDB, contra o governo FHC etc. Em suma, aquela cascata de sempre.

Aécio dispõe de pouco mais de quatro minutos e, com efeito, essa fase da campanha deveria estar dedicada a apresentá-lo aos eleitores de todo o Brasil. Ocorre que essa era a escolha adequada antes da morte de Campos. Com a entrada de Marina na disputa, a conversa precisa mudar.

Os petistas seguem reféns de uma tara: só sabem fazer campanha contra o PSDB. É Marina quem daria hoje uma surra em Dilma, não Aécio. Num padrão puramente racional, então, o PT deveria torcer para o tucano passar para o segundo turno. Mas não adianta: a petezada tem a sua natureza.

Aécio pode fazer de conta que Marina não existe. Dilma pode fazer de conta que Marina não existe. Ocorre que o eleitorado acha que existe. Se um quer ser presidente e se a outra quer continuar presidente, é preciso fazer muita gente mudar de ideia e mudar o rumo da prosa no horário eleitoral.

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 6:01

Os tons de Dilma – Quem tem Paulo Roberto Costa tem medo. Ou: Hora de começar a combater Marina

A presidente Dilma Rousseff concedeu uma entrevista coletiva neste domingo no Palácio da Alvorada. Operou duas mudanças de tom, constrangida pela realidade. Na quinta-feira, em Pernambuco, afirmou que as acusações de corrupção na Petrobras constituíam uma agressão à empresa, atribuiu tudo ao jogo eleitoral e fez uma defesa meio bronca de Graça Foster. No dia seguinte, o engenheiro Paulo Roberto Costa, que está preso, fez um acordo de delação premiada. Vamos ver. Pode não dar em nada. Podem sair cobras e lagartos. Dilma então resolveu se precaver.

Ajustou a sua fala à realidade e afirmou o seguinte neste domingo: “Se pessoas cometeram erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção, isso não significa que as instituições tenham feito isso. Não se pode confundir as pessoas com as instituições”. Certo, presidente! E quem é que estava confundindo? Ninguém. A delação premiada de Costa está deixando muita gente em pânico. Não se sabe até onde ele está disposto a ir.

Dilma mudou um pouco o tom também em relação a Marina Silva, candidata do PSB à Presidência. Ou melhor: passou a assumir um tom. Desde a morte de Eduardo Campos, os petistas a vinham ignorando em falas públicas. Num comício em Recife, no sábado, a candidata da Rede, que concorre pelo PSB, afirmou que um presidente da República não precisa ser um gerente — afirmação, diga-se, que havia sido feita pela empresária marineira Maria Alice Setubal em entrevista à Folha.

Dilma afirmou: “Essa história de que o governo não precisa ter cuidado com a execução de suas obras ou obrigação de entregá-las é uma temeridade. Acho que o pessoal está confundindo o presidente da República com algum rei ou rainha”.

Vamos lá. Acho que Maria Alice e Marina estão escandalosamente erradas quando criticam o perfil de “gerente” de um presidente da República. Ora, se um governante não sabe “gerir” — que é o verbo do substantivo “gerência” —, então sabe o quê? Fazer discurso? Nesse particular, a presidente está certa. Mas só nesse particular.

O problema de Dilma não é ser uma gerente, mas ser uma má gerente, entenderam o ponto? A reputação da presidente, nesse particular, sempre foi superfaturada. Já escrevi aqui que ela foi, sim, extremamente competente em criar a fama de… competente. Mais: está naquele grupo de pessoas que, por serem enfezadas, passam por muito capazes.

Ora, se Marina, então, se eleger presidente da República, devemos imaginar o quê? Que vai dar apenas diretrizes espirituais, deixando a gestão do governo a cargo de uma burocracia cinzenta, enquanto ela fabrica metáforas, metonímias e prosopopeias? Além da independência do Banco Central, teremos também a independência dos ministérios da Fazenda, Planejamento, Saúde, Educação… A gerentada fica lá, e a presidente vira a nossa líder espiritual? O Brasil precisa, sim, de gerência, mas de boa gerência.

Voltemos à Petrobras: vocês acham que, com uma gerência decente e profissional, a empresa estaria vivendo essa crise?

Por Reinaldo Azevedo

22/08/2014

às 15:45

Dilma e Suplicy usam o “povo como farsa” em suas respectivas campanhas eleitorais

Sempre desconfiei — e vocês podem achar esta observação no arquivo deste blog — que haveria o momento em que alguns políticos brasileiros teriam a ideia de trocar de povo, tornando-o, vamos dizer, mais à altura de suas respectivas grandezas. Dois episódios que vieram a público nesta sexta são mesmo do balacobaco. Segundo informa a Folha, a trabalhadora rural Marinalva Gomes Filha, 46, da zona rural de Paulo Afonso, na Bahia, ganhou uma prótese dentária um dia antes de gravar imagens para o horário eleitoral gratuito da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, que vem a ser, sim, a presidente Dilma. No programa, Dona Nalvinha diz: “Tudo o que tenho aqui foi Dilma que deu”. E isso incluía a prótese com os dois dentes da frente.

Não foi só isso. Uma semana antes da chegada da presidente, o fogão a lenha de Dona Nalvinha foi ampliado pela ONG Agendha, que tem convênio com o governo da Bahia, também do PT. Por enquanto, ela é a única que recebeu o benefício. O ex-presidente Lula acompanhava a atual presidente à visita. Emocionada, a mulher afirmou que ele era um “pai” dos pobres, e Dilma, a “mãe”.

Eis aí: é preciso dar uma maquiada no povo para que ele não apareça como é. Um país que cresce menos de 1% ao ano, que tem uma inflação de 6,5%, juros de 11% e que deve crescer pouco mais de 1% em 2015 tem mesmo é de distribuir suas migalhas para que os humildes caiam de joelhos diante dos poderosos, gratos pela prótese dentária, por um fogãozinho a lenha, por uma cisterna. “Melhor fazer isso do que não fazer”, diria alguém. Sem dúvida. O nefasto populismo sempre se alimentou dessa frase. Não ocorre a essa gente que melhor é um país que se desenvolve, que cresce, para que as pessoas provejam o próprio sustento e não dependam da caridade de políticos que querem o seu voto.

Longe de Paulo Afonso, na Bahia, numa região bem mais desenvolvida, Eduardo Suplicy, que concorre ao quarto mandato ao Senado — ele já está lá há 24 anos e quer ficar 32 —, gravava o seu programa da propaganda eleitoral gratuita. Segundo informa o Estadão, supostos eleitores da rua dão depoimentos exaltando suas qualidades e o muito que ele teria feito por São Paulo — até agora, de verdade, ninguém conseguiu descobrir o quê. Nesse caso, a piada já vem pronta. Na era do povo maquiado, uma das que aparecem no vídeo dizendo como ele é um cara batuta é a própria maquiadora do estúdio. A mulher mandou ver: “Quando você pensa num político honesto, qual é o primeiro nome que vem na cabeça? É o Suplicy”. Não bastou: também foi convidado a falar o operador de áudio, que se fingiu de “povo popular”, como dizia o Casseta&Planeta. Resume: “Senador Eduardo Suplicy. Nele eu confio”.

Num caso, o povo de verdade passa antes por uma arrumada para ir à televisão despejar suas lágrimas de humilde agradecimento aos “nhonhôs”. No outro, funcionários da campanha fingem o que não são para que Suplicy possa passar por aquilo que não é. Ah, sim: a campanha de Suplicy também roubou o slogan usado por Serra em 2010: “Esse cara é do bem”. O ainda senador diz ter consciência da apropriação, mas afirma que seu marqueteiro diz que o lema tem mais a ver com ele. Entendi: Suplicy fundou o “MSS”, o Movimento dos Sem-Slogan. Então ele toma o alheio.

Uma reforma política séria passaria pelo fim do horário eleitoral gratuito, um absurdo que custa aos cofres públicos quase R$ 1 bilhão em ano eleitoral e que não passa de uma pantomima ridícula, destinada a enganar os desinformados e os pobres.

Por Reinaldo Azevedo

21/08/2014

às 22:46

Dilma: os absurdos da presidente-candidata e da candidata-presidente

Dilma Rousseff, Dilma Rousseff…

Vamos lá. Uma das dificuldades da pessoa que concorre à reeleição é saber a hora de falar como governante no cargo e a hora de falar como candidata. Dilma meteu os pés pelas mãos nesta quinta-feira. Saiu em defesa da presidente da Petrobras, Graça Foster. Quem estava falando? Às vezes, parecia a candidata, e o discurso era absurdo; às vezes, parecia a presidente, e o discurso era mais absurdo ainda. Vamos ver. A candidata-presidente foi visitar obras — atrasadas — da transposição do rio São Francisco em Pernambuco. Concedeu, em seguida, uma entrevista coletiva.

A presidente-candidata foi indagada sobre a atuação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, em defesa de Graça Foster, presidente da Petrobras. Dilma tinha uma infinidade de justificativas institucionais se quisesse. Poderia ter dito que, como as apurações se referem à atuação de Graça como diretora de uma empresa majoritariamente pública, a intervenção de ministro e advogado-geral se justifica.

Mas ela é atrapalhada. Ela fala mal. E ela fala mal, no caso, porque pensa mal. Saiu-se com esta, prestem atenção: “No meu governo, não precisa do ministro da Justiça só, ou do Adams. A presidente defenderá (a Petrobrás). Eu acho extremamente equivocado colocar a maior empresa de petróleo da América Latina, sempre durante a eleição, como arma política. Gente, que maluquice! Veja bem, ó: a Graça Foster e a diretoria inteira da Petrobrás representam a União. É de todo interesse da União defender a Petrobrás, a diretoria da Petrobrás. Nada tem de estranho esse fato. Pelo contrário, é dever do ministro da Justiça, de qualquer ministro do governo, defender a Petrobrás”.

Está tudo errado! Quem disse que a Petrobras está sob ataque? Isso é uma piada. A rigor, durante quase dois anos, só eu dava bola para a questão de Pasadena. Quem emprestou nova urgência ao escândalo foi certa Dilma Rousseff, ao sugerir que, quando presidente do Conselho, fora enganada por Nestor Cerveró — que também está sendo treinado pela Petrobras. Depois se descobriu que a presidente da República dera o emprego de diretor financeiro da BR Distribuidora a um homem que ela julgava o culpado pelo imbróglio que resultou na compra da refinaria.

Dilma também resolveu atuar como advogada de Graça em outra questão. Referindo-se ao fato de que a presidente da Petrobras transferiu bens para parentes, afirmou: “A presidente Graça Foster respondeu perfeitamente sobre a questão de seus bens em uma nota oficial. Eu repudio completamente a tentativa de fazer com que a Graça Foster se torne uma pessoa que não possa exercer a presidência da Petrobrás”. Vênia máxima, Graça não explicou coisa nenhuma até agora. Explicou o quê? As apurações sobre Pasadena estavam em curso, e ela transferiu bens. E ponto.

A presidente-candidata disse, então, como viram, que a Petrobras não pode ser usada para disputa eleitoral, certo? Ocorre que ela é também candidata-presidente. E aí saiu-se com esta, referindo-se a dois episódios ocorridos na Petrobras durante o governo FHC: “Eu me pergunto por que ninguém investigou com tanto denodo o afundamento da maior plataforma de petróleo, que custava US$ 1,5 bilhão a preços atuais. Por que, apesar de estar em ação popular, ninguém investiga a troca de ativos feita com a Repsol?”.

Vamos ver. Ela foi a todo-poderosa ministra das Minas e Energia. Depois, foi ministra-chefe da Casa Civil e czarina do setor energético. Presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. É hoje presidente da República, apesar da retórica palanqueira. Então, em todos esses cargos, ela soube de malfeitos havidos na Petrobras e não tomou nenhuma providência? Estamos diante de um caso de prevaricação?

É um absurdo que uma presidente da República, ainda que candidata, se comporte como juíza de absolvição de pessoas cujos atos estão ainda sob investigação — só porque são suas aliadas — e como juíza de condenação de pessoas que nem mesmo estão sendo investigadas só porque são suas adversárias.

Por Reinaldo Azevedo

20/08/2014

às 6:29

O PT esquece o futuro e recicla até as imagens da campanha de 2010. Ou: Dilma Coração Valente suja o avental de ovo… Estamos fritos!

Começou nesta terça o horário eleitoral gratuito, como todos sabemos. O PSB fez o óbvio e apresentou Eduardo Campos como o profeta que já não está entre nós, mas que deixou uma mensagem. Ao fundo, a música “Anunciação”, do pernambucano — talentoso! — Alceu Valença: “O teu cavalo/ Peito nu, cabelo ao vento/ E o sol quarando/ Nossas roupas no varal (…) Tu vens, tu vens/ Eu já escuto os teus sinais”. O erotismo meio místico da canção, com a imagem de Campos ao fundo, assumiu um novo conteúdo, agora com tinturas messiânicas… Logo, Marina Silva é que será a cavaleira. E vai anunciar o quê? Só Deus sabe, se é que sabe.

O tucano Aécio Neves preferiu dedicar seus quatro minutos a um diagnóstico sobre o país, chamando a atenção para a piora, que é real, da economia. Sua voz chegava a telespectadores e a ouvintes inicialmente distraídos. Aos poucos, na propaganda do PSDB, começavam a prestar atenção ao que dizia o candidato. Ainda desconhecido de parcela significativa da população, a ideia é deixar claro que há alguém dizendo uma novidade. Vamos ver.

O PT dispõe de tanto tempo na televisão que parece ter alguma dificuldade para preenchê-lo. Em maio, o partido levou ao ar a sua propaganda no horário político gratuito. Era um troço ameaçador. Comparava o Brasil de hoje, em que tudo seria uma maravilha, o que é falso, com aquele governado por FHC, quando tudo teria sido uma tragédia, o que também é falso. Escrevi, então, uma coluna na Folha em que observei o seguinte: “Depois de quase 12 anos no poder, o PT não tem futuro a oferecer. Por mais que o filminho de João Santana tenha as suas espertezas técnicas, a verdade é que a peça terrorista revela o esgotamento de uma mitologia”.

E foi, em parte, o que se viu nesta terça, na estreia do horário eleitoral. O maior partido do país não vai além de repetir velhas promessas. Na prática, admite que o governo vai mal, mas jura que vai melhorar se reeleito. Por que Dilma faria depois o que não faz agora? A campanha publicitária não diz. Quem se encarregou de sintetizar a mensagem foi Lula, afirmando que o seu segundo mandato foi melhor do que o primeiro.

Atenção! Não é verdade, sob qualquer aspecto, que os quatro anos finais da gestão Lula tenham sido melhores do que os quatro iniciais. Muito pelo contrário. O desajuste da economia que está em curso é uma herança do segundo governo Lula, piorada pela gestão Dilma. Sem um horizonte a oferecer, restou à campanha da presidente Dilma reciclar até as imagens do passado.

Abaixo, há dois vídeos. O primeiro tem 10min39s e traz a propaganda eleitoral levada ao ar no dia 17 de agosto de 2010. O outro tem 2min10s e é um clip com o jingle “Dilma, Coração Valente”, da campanha deste ano. Vejam. Volto em seguida.

Campanha de 2010

Campanha de 2014

A peça publicitária de 2014 traz um fundo musical novo para imagens da campanha de 2010. Quem chamou a minha atenção para a repetição foi o jornalista Clayton Ubinha, que integra a equipe do programa “Os Pingos nos Is”, que vai ao ar todos os dias na rádio Jovem Pan, entre 18h e 19h. Vejam estes pares de imagens (a primeira é sempre da campanha passada; a segunda, da deste ano).

2010 cena 1

2014 cena 1

2010 cena 2

2014 cena 2

2010 cena 3

2014 cena 3

2010 cena 4

2014 cena 4

2014 cena 5

2010 cena 5

2010 cena 6

2014 cena 6

2010 cena 7

2014 cena 7

Há quatro anos, como se pode constatar, Dilma era oferecida ao eleitorado como a mãe do povo, a quem o pai, Lula, entregaria o país. Agora, em tempos em que a economia está mais para a madrasta da Gata Borralheira, a imagem da mãe já não cola. Então que se recupere a guerreira — “a Dilma Coração Valente” — lutando contra os dragões da maldade. Mas, vocês sabem, é preciso endurecer sem perder a ternura, como diria Che Guevara, o tarado por sangue. Então João Santana houve por bem mostrar a presidente na cozinha, fazendo um macarrãozinho…

Mensagem: a Coração Valente também pode ser “a mamãe com o avental todo sujo de ovo”, como na música de Herivelto Martins, David Nasser e Washington Harline.

Ovo? Tomara não estejamos todos fritos.

Texto publicado originalmente às 5h11

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 7:07

Entre os corruptos e o Supremo, Dilma decretou que há um empate

Dilma Rousseff foi a entrevistada de ontem do Jornal Nacional. Não vou analisar aqui a fala da candidata porque entendi, segundo seus próprios pressupostos, que quem concedeu a entrevista foi a presidente da República. Aliás, só isso explica o fato de que ela gozou de um privilégio que aos demais não foi concedido porque nem haveria como: falou na biblioteca do Palácio da Alvorada, não no estúdio do “Jornal Nacional”, a exemplo dos demais. Entendo que a Globo não deveria ter ou aceitado a exigência ou oferecido o benefício. Benefício? É claro que sim! À diferença de Aécio Neves e Eduardo Campos, Dilma estava em território conhecido; os outros não. Há mais: se era a candidata que falava, então havia o uso claro de um aparelho público em benefício da campanha.

Vimos imagens de bastidores, não é? Aécio e Campos foram recebidos por William Bonner em sua sala, na sede da TV Globo, no Rio. No Palácio, suponho, a dupla de jornalistas é que foi recebida por Dilma. Ser o anfitrião, nessas horas, faz diferença, sim — e fez (já chego lá). Não que a entrevista tenha sido chapa branca. Não foi, não! Houve honestidade jornalística. Mas, em certo momento, houve mais dureza do que objetividade. Nota à margem antes que continue: não me venham com a cascata de que o Alvorada é a casa de Dilma, e por isso a entrevista foi concedida lá. Por esse critério, Campos e Aécio deveriam ter recebido os jornalistas, então, em suas respectivas residências. Ou bem Dilma fala como candidata ou bem fala como presidente. Como um híbrido, é que não dá. Até a luz que se via ali era pública, ora. Sigamos.

O ponto da entrevista mais escandalosamente significativo foi aquele em que Dilma se negou a censurar o seu partido por ter defendido os mensaleiros. Mais do que isso: lendo a transcrição de sua fala, a gente percebe que ela não criticou nem mesmo os criminosos. Bonner foi incisivo:
“Então, me deixa agora perguntar à senhora. E em relação a seu partido? O seu partido teve um grupo de elite de pessoas corruptas, comprovadamente corruptas, eu digo isso porque foram julgadas, condenadas e mandadas para a prisão pela mais alta corte do Judiciário brasileiro. Eram corruptos. E o seu partido tratou esses condenados por corrupção como guerreiros, como vítimas, como pessoas que não mereciam esse tratamento, vítimas de injustiça. A pergunta que eu lhe faço: isso não é ser condescendente com a corrupção, candidata?”.

Observem que Bonner a chamou por aquilo que ela era naquele momento: “candidata”. E o que ela respondeu? Isto (a gramática é miserável, mas o sentido é claro):
“Eu vou te falar uma coisa, Bonner. Eu sou presidente da República. Eu não faço nenhuma observação sobre julgamentos realizados pelo Supremo Tribunal, por um motivo muito simples: sabe por que, Bonner? Porque a Constituição, ela exige que o presidente da República, como exige dos demais chefes de Poder, que nós respeitemos e consideremos a importância da autonomia dos outros órgãos.”

Acontece que os jornalistas a indagavam sobre o comportamento do partido, não do Supremo. Bonner insistiu duas outras vezes que eles haviam feito uma indagação sobre o partido. Ela não mudou a resposta. Faltou ao editor-chefe do Jornal Nacional deixar claro que a pergunta era dirigida à candidata, não à presidente. Isso não foi dito. Convenham: afinal de contas, candidatos à Presidência não frequentam a biblioteca do Palácio da Alvorada. Na prática, entre os corruptos punidos e o Supremo que os puniu, Dilma preferiu decretar um empate, embora saibamos que ela não teria autonomia para criticar os criminosos ainda que quisesse.

A presidente se enrolou na pergunta sobre a saúde, mas não sei se o telespectador percebeu desse modo. Os entrevistadores fizeram uma síntese das calamidades da área e lembraram que o partido está há 12 anos no poder. A presidente, então, acionou a tecla do programa “Mais Médicos” para demonstrar como seu governo é operoso, embora tenha dito, num dado momento, que a saúde não é “minimamente razoável”. Pois é… Não é minimamente razoável depois de 12 anos de poder petista.

É nessa hora que faltou um tanto de objetividade, números mesmo: entre 2002 e 2013, houve uma redução de 15% na taxa de leitos hospitalares (públicos e privados) por mil habitantes. Entre 2005 e 2012, o SUS perdeu mais de 41 mil leitos. Isso quer dizer que os hospitais privados pediram seu descredenciamento porque não conseguem conviver com a tabela miserável paga pelo sistema. Atenção! Há apenas 0,15 leito psiquiátrico por mil habitantes no país. É a metade do que havia quando o PT chegou ao poder. E já era pouco. Nos países civilizados, a média é de um leito psiquiátrico por 1.000. Isso quer dizer que o Brasil tem menos de um sexto do necessário. Esses poucos leitos, de resto, estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Os médicos cubanos são a resposta para isso? É claro que não!

Mas ok. Hoje começa o horário eleitoral gratuito. Em razão de uma legislação indecente, que não vem de hoje — é evidente —, Dilma terá mais de 11 minutos, quase o triplo de Aécio, que vem logo a seguir, com mais de quatro minutos. O PSB terá pouco mais de 2 minutos. Dilma poderá falar, então, à vontade, sem ser contraditada por ninguém. É nessas horas que dá o seu melhor.

Texto publicado originalmente às 4h44
Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 7:05

Dilma diz no “Jornal Nacional” que PT criou a Controladoria-Geral da União. Está errado! A CGU foi criada em 2001, no governo… FHC!

Cuidado, Wikipédia! O Planalto pode tentar mudar a história da Controladoria-Geral da União e atribuir a paternidade a Lula. Seria mais uma batida na carteira do governo FHC. Afinal, como se sabe, o PT reivindica até mesmo ter debelado a inflação no país, não é? Daqui a pouco, vai dizer que foi o criador do Plano Real. Ao afirmar que os governos petistas combateram a corrupção como nenhum outro, Dilma saiu-se com a seguinte resposta:

“Bonner, (…) nós, justamente, fomos aquele governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, à irregularidade e malfeitos. Por exemplo, a Polícia Federal, no meu governo e no do presidente Lula, ganhou imensa autonomia. Para investigar, para descobrir, para prender. Além disso, nós tivemos uma relação muito respeitosa com o Ministério Público. Nenhum procurador-geral da República foi chamado, no meu governo ou no do presidente Lula, de engavetador-geral da República. Por quê? Porque também escolhemos, com absoluta isenção, os procuradores. Outra coisa: fomos nós que criamos a Controladoria-Geral da União, que se transformou num órgão forte e também que investigou e descobriu muitos casos. Terceiro, aliás, eu já estou no quarto. Nós criamos a Lei de Acesso à Informação. Criamos, no governo, um portal da transparência. (…)

Bem, vamos ver. Quem apelidou o então procurador-geral da República de “engavetador-geral da República” foi o PT, que sempre é bom para dar apelidos que desmerecem os adversários, não é mesmo? De resto, o Ministério Público não tem hoje nem mais nem menos autonomia do que tinha no governo FHC. A acusação que Dilma faz, no fim das contas, não é dirigida nem contra Brindeiro nem contra o ex-presidente, mas atinge o próprio MP. Como esquecer que, quando o PT era oposição, uma ala de procuradores militantes passou a atuar de maneira escancaradamente política para produzir uma indústria de denúncias? Isso é apenas um fato.

Mas esse nem é o ponto principal. À diferença do que disse a presidente no Jornal Nacional, não foi o governo petista que criou a Controladoria-Geral da União. Foi o governo FHC, em 2001, por meio da Medida Provisória n° 2.143-31, de 2 de abril de 2001. O órgão se chamava, então, Corregedoria-Geral da União. Houve apenas uma mudança de nome, mas não de função: combater, no âmbito do Poder Executivo Federal, a fraude e a corrupção e promover a defesa do patrimônio público.

A ministra que primeiro assumiu a CGU foi Anadyr Mendonça, que prestou um relevante serviço na consolidação do órgão. Pois é… Lula já tomou para si o “Bolsa Família”, que é um ajuntamento de benefícios que já eram pagos no governo FHC. Agora, Dilma muda a história para afirmar que a CGU, criada na governo tucano, também é obra de seu partido.

É até desejável que governantes sejam criativos em matéria de futuro. Ser criativo com o passado costuma caracterizar fraude intelectual.

Texto publicado originalmente às 5h49
Por Reinaldo Azevedo

13/08/2014

às 14:53

Dilma lamenta morte de Campos: “Perdemos um grande companheiro”

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
A presidente Dilma Rousseff se pronunciou sobre a morte de Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência, nesta quarta-feira por meio de nota oficial. Ela também cancelou os próximos três dias de agenda. Isso inclui a entrevista que ela daria ao Jornal Nacional na noite desta quarta-feira. Dilma não tinha outros eventos programados para esta quarta: ela permaneceria no Palácio da Alvorada, reunida com assessores e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Thomas Traumann, preparando-se para a entrevista que daria à noite. Os comitê central da presidente, em Brasília, também encerrou as atividades, assim como todos os comitês de candidaturas petistas no país. As bandeiras no Palácio do Planalto já estão a meio mastro.

“O Brasil inteiro está de luto. Perdemos hoje um grande brasileiro, Eduardo Campos. Perdemos um grande companheiro. Neto de Miguel Arraes, exemplo de democrata para a minha geração, Eduardo foi uma grande liderança política. Desde jovem, lutou o bom combate da política, como deputado federal, ministro e governador de Pernambuco, por duas vezes. Tivemos Eduardo e eu uma longa convivência no governo Lula, nas campanhas de 2006, 2010 e durante o meu governo. Estivemos juntos, pela última vez, no enterro do nosso querido Ariano Suassuna. Conversamos como amigos. Sempre tivemos claro que nossas eventuais divergências políticas sempre seriam menores que o respeito mútuo característico de nossa convivência. Foi um pai e marido exemplar. Nesse momento de dor profunda, meus sentimentos estão com Renata, companheira de toda uma vida, e com os seus amados filhos. Estou tristíssima. Minhas condolências aos familiares de todas as vítimas desta tragédia. Decretei luto oficial de 3 dias em homenagem à memória de Eduardo Campos. Determinei a suspensão da minha campanha por 3 dias”, afirmou a presidente.

O vice-presidente Michel Temer divulgou à imprensa um comunicado em que lamenta a morte do candidato: “Eduardo Campos era um político de princípios e valores herdados de sua família e levados com dignidade e honra por toda sua trajetória no Parlamento e no Executivo. Assim como todo o país, estou chocado com esse acidente e com as perdas para amigos e familiares”, disse Temer.

Por Reinaldo Azevedo

11/08/2014

às 21:22

Dilma lamenta a lentidão das obras… Só faltou reclamar: “E o governo não toma nenhuma providência!”

A presidente Dilma Rousseff concedeu na manhã desta segunda uma entrevista ao grupo RBS, no Palácio da Alvorada, que foi ao ar à tarde. Quem falava era a candidata, como fica evidente, mas eu me interesso por algumas coisas estranhas ditas pela presidente. 

A chefe da nação, vejam vocês, se disse inconformada com a demora para a realização de obras públicas… É mesmo, é? Afirmou, prestem bem atenção: “Uma das questões fundamentais do meu próximo governo é simplificar os processos de realização de obra. Não para não fiscalizar, não para não respeitar o meio ambiente, mas para poder realizar as obras que o Brasil precisa com a rapidez que o Brasil precisa. Todo santo dia, como governante, nós ficamos inconformados. A gente corre atrás, a gente vai atrás”. Ao se referir à demora para a concessão das licenças ambientais, afirmou: “Ninguém dentro da esfera federal pode não ter prazo. Todos nós temos de ter prazo”.

Vamos lá. Ainda que os atrasos se devessem mesmo à demora nas concessões das licenças, como esquecer que o PT está no poder há 12 anos? Dilma chegou a ter uma maioria no Parlamento de padrão quase chinês ou cubano. O partido, que viu, de fato, crescer a dificuldade na concessão de licenças, só descobriu agora o problema? Não é crível. De todo modo, sabemos que problemas com as tais licenças foram apenas um dos entraves. Infelizmente, a incompetência é que falou mais alto.

Ouvindo a fala de Dilma, a gente fica com a impressão de que ela vai reclamar a qualquer momento: “E o governo não toma nenhuma providência!”. Mas o governo, afinal, é… Dilma!

Alheia à realidade, como já apontei aqui, a presidente assegurou que Graça Foster vai continuar à frente da Petrobras, embora a Polícia Federal já tenha aberto um inquérito para apurar se ela omitiu do Senado informações relacionadas à compra da refinaria de Pasadena (EUA) e sobre a existência de contratos celebrados pela empresa de seu marido, Colin Foster, com a estatal. Um segundo inquérito deve ser aberto nesta semana para investigar a denúncia de que ela teria combinado com senadores da base aliada na CPI da Petrobrás as perguntas que lhe seriam feitas na comissão. Mais: Graça pode ser incluída no relatório do TCU como corresponsável pelos prejuízos com a compra da refinaria e ter seus bens tornados indisponíveis.

Ao defender Graça, Dilma chegou a lastimar a suposta exploração política do caso, lembrando que a Petrobras “é a maior empresa do país…”. É? Por isso mesmo, cabe a pergunta: a estatal pode ter uma presidente nessa situação? A petista acha que sim. Então tá.

Por Reinaldo Azevedo

11/08/2014

às 5:38

Dilma dá sinais crescentes de alheamento da realidade e volta àquela cascata de que apurar lambanças na Petrobras corresponde a atuar contra a empresa

A presidente Dilma Rousseff dá sinais crescentes de alheamento da realidade. E as coisas sempre pioram depois que ela se encontra com Lula, como aconteceu no fim da semana que passou. A revista VEJA traz uma bomba: Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef, que está preso, concede uma entrevista em que conta parte do que viu. Ela é hoje uma das principais testemunhas da chamada Operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal. Segundo Meire, a estatal era usada para abastecer um sistema criminoso de lavagem de dinheiro que envolvia políticos, empreiteiros e funcionários da empresa.

Muito bem! Dilma concedeu uma entrevista coletiva neste domingo no Palácio da Alvorada. Era a candidata falando, não a presidente. Segundo informa VEJA.com, afirmou: “Se tem uma coisa que a gente tem de preservar, porque tem que ter sentido de Estado, de nação e de país, é não misturar eleição com a maior empresa de petróleo do país. Isso não é correto, não mostra nenhuma maturidade. Eu acho fundamental que, na eleição e nesse processo que nós estamos, haja a maior e mais livre discussão. Agora, utilizar qualquer factoide político para comprometer uma grande empresa e sua direção é muito perigoso”.

Factoide político? Qual factoide? Meire Poza é uma das principais testemunhas — e ela confessa ter também praticado ilegalidades para o grupo — de uma operação deflagrada pela Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça. Dilma repete, agora em linguagem infelizmente um pouco mais compreensível — sempre é pior quando a gente entende o que ela fala —, as bobagens que disse a respeito da Petrobras na sabatina de que participou na CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil). Para ela, investigar as lambanças na estatal corresponde a prejudicá-la.

Errado! É justamente o contrário. Prejudicaram a empresa, senhora candidata, aqueles que a levaram a um prejuízo bilionário com um negócio desastroso: os seus aliados. Prejudicaram a empresa aqueles que usaram a tarifa de gasolina para conter a inflação em razão de uma política econômica desastrosa — nesse caso, o seu governo e a senhora, pessoalmente. Prejudicaram a empresa aqueles que a usaram e a usam para distribuir prebendas políticas, com o objetivo de manter unida a chamada “base aliada”.

A candidata Dilma decidiu ainda ser pauteira da imprensa. Referindo-se à proposta do tucano Aécio Neves e do peessebista Eduardo Campos de reduzir ministérios — há, no Brasil, 39 pastas; deve ser recorde no mundo —, ela afirmou: “Eu posso pedir uma coisa a vocês? Perguntem qual ministério eles vão reduzir”. Avançou: “Esse formato [39 ministérios] responde a um momento histórico do Brasil. O momento histórico mudando, eu mudo (…)”. Ah, bom… Num ato falho, disse: “Alguns deles vão evoluir e poder até não ser ministério”. Vale dizer: Dilma reconhece que evoluir, nesse caso, significa cortar ministérios. Mas ela promete deixar tudo como está. Ou seja: é a não evolução.

Por Reinaldo Azevedo

08/08/2014

às 16:13

Dilma, os evangélicos, os políticos, Deus e o capeta

Pode haver outros, mas creio que poucos jornalistas combatem com tanta firmeza o preconceito que há no Brasil, nas camadas ditas mais cultas — no geral, são apenas pessoas orgulhosas do pouco que sabem e do muito que não sabem — contra os evangélicos. Na verdade, existe um preconceito muito forte contra os cristãos. Os católicos também são alvos constantes de desconfiança. Mas não vou tratar disso agora. O que me incomoda profundamente em período eleitoral é a busca desesperada dos políticos pelos votos dos crentes.  Muitos chegam a afirmar até uma convicção que não têm só para conquistar o eleitor.

Nesta sexta, por exemplo, a presidente Dilma esteve na Assembleia de Deus do Brás, em São Paulo – um braço da Congregação de Madureira. Foi convidada a discursar no Congresso Nacional de Mulheres da Assembleia de Deus Madureira, que reuniu fiéis de todo o país. Lembrou que o Brasil é um país laico, mas citou o Salmo 33, de Davi: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Então tá bom. Eu preciso lembrar aqui algumas coisas.

Quando ministra do governo Lula, Dilma concedeu mais de uma entrevista dizendo-se favorável à legalização do aborto. Está tudo documentado. Eu lido com fatos, não com impressões. Notem, leitores: um candidato tem o direito de pensar o que quiser. Não pode, ou não deve, é fingir o que não pensa. A então ministra chegou a comparar a eliminação de um feto com a extração de um dente. Houve uma forte reação dos cristãos — e percebam que, aqui, eu não estou me posicionando sobre o aborto, mas sobre a hipocrisia política. E se inventou uma Dilma que seria contrária ao aborto.

A então candidata foi a um programa de TV e se disse católica — chegando a chamar Nossa Senhora de “deusa”. O cristianismo é monoteísta, vale dizer: crê num único Deus. Nossa Senhora, como se sabe, é uma santa. Chegou a ir a Aparecida e foi filmada persignando-se — de maneira errada, diga-se. Eleita presidente, nomeou para o Ministério da Mulheres Eleonora Menicucci, uma defensora fanática do aborto, que já havia confessado tê-lo feito, em outras mulheres, com as próprias mãos. Fatos. Eu só lido com fatos.

Os cristãos, com mais ênfase os evangélicos, fazem um intenso trabalho de convencimento contra a descriminação das drogas, por exemplo. O governo desta Dilma que vai a um templo evangélico citar um Salmo de Davi pôs em prática uma política pública escancaradamente favorável à descriminação, ainda que o faça de maneira um tanto oblíqua. Em maio de 2013, vários entes federais promoveram um seminário em Brasília, patrocinado com dinheiro público, em favor da descriminação e da legalização das drogas. Não se convidou para o evento um único representante que se opusesse a essas teses. Fatos. O governo Dilma, por intermédio do Ministério da Saúde — especialmente na atual gestão, de Arthur Chioro, combate com unhas e dentes as chamadas comunidades terapêuticas, que atuam com dependentes químicos — algumas são ligadas a igrejas evangélicas. Fatos.

No dia 27 de janeiro de 2012, no Fórum Social de Porto Alegre, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, afirmou que os petistas deveriam se preparar para travar com os evangélicos uma luta ideológica para disputar a chamada “classe C”. Entenderam? Para ele, seu partido e os cristãos dessas denominações têm interesses contraditórios.

Também não demonizo posições. Cada um pense o que quiser e dispute o coração do eleitor. O que estou cobrando é honestidade intelectual. Dilma tem o direito de defender a descriminação do aborto ou sua política simpática à descriminação das drogas. O que me desagrada, e isto vale para qualquer partido, é essa mania de alguns políticos de achar que Deus tem prazo de validade: geralmente, vai de julho a outubro dos anos pares, que são os eleitorais. Depois, quem costuma dar as cartas na política é mesmo o capeta do vale-tudo.

Por Reinaldo Azevedo

08/08/2014

às 6:26

Dilma no palanque depois de encontro com Lula: terrorismo, chantagem, inverdades clamorosas

A presidente-candidata Dilma Rousseff esteve num evento em São Paulo em que cinco centrais sindicais lhe empenharam apoio: CUT, UGT, CTB, NCST e CSB. Você não tem culpa nenhuma se jamais ouviu falar de algumas siglas. A maioria dos trabalhadores também não. São meros aparelhos, alimentados pela mamata do imposto sindical obrigatório. Não são centrais, mas cartórios de burocratas, que tomam, de maneira vergonhosa, um dia do trabalho de cada brasileiro que tem emprego formal. Antes de falar aos presentes, Dilma se reuniu privadamente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele anda descontente com os rumos da campanha. Segundo consta, quer, vamos dizer, um embate um pouco mais sangrento.

Parece que o encontro de ontem surtiu efeito. Dilma subiu no palanque e resolveu retomar aquela velha patacoada petista da luta do Bem contra o Mal, do “nós” contra “eles”. E, quando é assim, vocês sabem, a verdade é sempre a primeira vítima.

A presidente mandou ver, referindo-se aos tucanos: “Eles quebraram o Brasil três vezes; por três vezes, eles levaram o Brasil ao Fundo Monetário Internacional. No nosso período de governo Lula, fomos lá e pagamos. Eles levaram a inflação à estratosfera antes de entregar para nós o governo”. Dizer o quê? Há um único fato verdadeiro a ancorar uma porção de inverdades.

Na gestão tucana, é apenas um fato, o Brasil não quebrou nem três, nem duas, nem uma única vez. Trata-se de uma mentira escandalosa. O país recorreu ao FMI justamente para “não quebrar”, se é o caso de usar tal termo. “Quebrar” é deixar de honrar compromissos. Em oito anos, o país enfrentou ao menos cinco crises internacionais enquanto, atenção!, cuidava de debelar a inflação entranhada na economia. Como esquecer, e isto também é um fato, que o PT, o partido de Lula e Dilma, tentaram inviabilizar o Plano Real, recorrendo, inclusive, ao STF?

E Dilma seguiu adiante: “Sabe qual é a medida impopular que ele vai tomar? É acabar com a valorização do salário. É essa medida impopular que nós durante todo esse tempo mantivemos e que reparou a injustiça do passado e deu justiça no presente aos trabalhadores”.

Um candidato tem o direito de contestar a proposta de um adversário, mas não é moral e eticamente lícito lhe atribuir uma intenção que não tem. Mais uma vez, quero falar de fatos, de dados, de números. Dilma, que é candidata, mas é também presidente da República, tem de ter um compromisso com a verdade. Nos oito anos de governo FHC, o salário mínimo teve valorização real (descontada a inflação, pelo IPCA), de 85,04%; nos oito anos de Lula, foi um pouco maior: 98,32%; nos quatro anos da atual presidente, deverá ser de apenas 15,44%. Assim, sem que falte clamorosamente com a verdade, a petista não pode afirmar que os tucanos não promoveram a valorização real do salário mínimo. Promoveram, sim, e em condições bem mais adversas do que as enfrentadas por Lula.

Mas quê… O presidente da CUT, Vagner Freitas, mandou bala: “Se eleger Aécio ou Eduardo, eles vão jogar fora a política de valorização do salário mínimo. É por isso que eu sou Dilma. Não é por conta dela, é por conta de um projeto. Eles são os candidatos do patrão”.

Na manhã desta quinta, Aécio também se encontrou com trabalhadores. Participou de um minicomício na porta da Voith, fábrica de máquinas e equipamentos para indústria, no bairro do Jaraguá, zona norte de São Paulo. O evento foi organizado pela Força Sindical. O tucano fez um convite a Dilma: “Eu estimulo muito que ela vá às ruas, e não apenas nos eventos organizados e programados, que ela vá olhar nos olhos das pessoas e possa perceber que o sentimento do brasileiro hoje é de desânimo”.

Fim da chantagem
A política brasileira não pode mais ser feita na base do terrorismo e da chantagem. Até outro dia, o PT se colocava como único garantidor do Bolsa Família — e espalhava aos quatro ventos que seus adversários pretendiam extingui-lo. A oposição pôs fim a essa cascata propondo que o programa não dependa mais da boa vontade de governos.

Agora, creio que é preciso desmontar a outra falácia: a da suposta desvalorização do salário mínimo caso se eleja um candidato de oposição. Pelas regras atuais, o ano de 2015 será o último no qual será adotada a atual fórmula de correção: variação da inflação do ano anterior e do PIB de dois anos antes. Isso foi definido pelo Congresso Nacional no início de 2011.

Que os oposicionistas se organizem já e enviem ao Congresso uma proposta prorrogando a atual fórmula até 2019. E fim de papo! Vamos debater os reais problemas do Brasil e tirar os bodes e os fantasmas da sala. O PT vai ter de aprender a fazer campanha sem usar o Bolsa Família e o salário mínimo para fazer terrorismo e chantagem.

A propósito: o partido não tem nenhuma proposta a fazer sobre o futuro? Passará toda a campanha mentindo sobre o passado alheio e o próprio passado?

Por Reinaldo Azevedo

07/08/2014

às 15:17

Nesta quinta, Dilma não disse coisas sem sentido. É que ela não falou com a imprensa…

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
A presidente-candidata Dilma Rousseff compareceu nesta quinta-feira a um evento com empresários e empreendedores em Brasília. A programação previa a participação da presidente no almoço – mas ela chegou com mais de uma hora de atraso e fez apenas um discurso de cinco minutos no início do evento, antes de ir embora. O ministro da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, foi quem convidou os empresários para o evento.

O cronograma previa uma entrevista coletiva de Dilma na saída do local. Mas a presidente fez apenas um pronunciamento aos jornalistas sobre a lei que amplia o Super Simples, sancionada horas antes por ela no Palácio do Planalto. “O caminho da reforma tributária é simplificação, é cadastro único, é unificação, o que ocorre no Supersimples”, disse.

Em seguida, Dilma tentou esquivar-se das perguntas dos jornalistas: disse que estava atrasada para a viagem que faria a São Paulo. Ela respondeu apenas a um questionamento – afirmou que suas frequentes idas ao Estado se devem ao fato de São Paulo ter a maior população do país. Entre a população paulista, Dilma tem 47% de rejeição, segundo pesquisa Datafolha.

A campanha eleitoral tem exposto a presidente-candidata aos microfones com mais frequência. Na função de presidente, ela raramente concede entrevistas – que costumam deixá-la visivelmente desconfortável. Nesta quarta-feira, Dilma se irritou quando indagada sobre a farsa montada por senadores do PT e assessores do seu governo na CPI da Petrobras.

Por Reinaldo Azevedo

06/08/2014

às 17:46

Com recepção fria, Dilma recicla propostas para o setor agrícola

Por Gabriel Castro e Laryssa Borges, na VEJA.com:
A participação da presidente Dilma Rousseff na sabatina organizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), nesta quarta-feira, em Brasília, expôs o desgaste dela com o setor. Dilma teve uma recepção fria da plateia de empresários do ramo agrícola e nem mesmo usou todo o tempo destinado a sua apresentação.

A petista foi a terceira e última candidata a falar. Eduardo Campos (PSB), o primeiro, foi aplaudido por quinze vezes. Aécio Neves (PSDB), ainda mais – e de pé, no fim de sua fala. Dilma ouviu apenas cinco aplausos. Ela nem mesmo preencheu os 30 minutos destinados a sua exposição inicial: acabou seu discurso, lido, quando faltavam mais de sete minutos para o fim do tempo. E, mesmo informada de que poderia continuar sua apresentação optou pelo início da fase de perguntas.

Nessa etapa, novamente, Dilma parecia não ter muito o que dizer. Em um dos casos, a apresentadora que conduzia a sabatina avisou: “A senhora ainda tem três minutos e 41 segundos”. Dilma respondeu: “Mais do que isso eu não tenho o que falar não, viu?”. Depois, acabou improvisando um complemento à resposta. Dilma apresentou um apanhado das realizações e promessas de seu governo para o setor. Mencionou o aumento do crédito agrícola e as obras de logística, como a construção de 2.000 quilômetros de ferrovias. Disse que herdou um passivo tão grande que é impossível extinguir em quatro anos. A presidente também afirmou que a BR-163, o principal eixo de escoamento da soja no país, “está sendo duplicada em toda sua extensão”, o que não é verdade. As obras incluem um pequeno trecho da estrada, que tem uma parte considerável onde nem mesmo o asfalto chegou.

Na categoria das promessas reeditadas, está a de licitar a construção de 900 quilômetros da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), de Lucas do Rio Verde (MT) a Campinorte (GO). O início das obras era um compromisso do primeiro mandato, mas não aconteceu. A presidente falou pouco de ideias para um segundo mandato. Uma delas é a aproximação com a CNA: “Proponho a criação sistemática de um diálogo permanente, um grupo ou uma mesa de diálogo com a CNA para aprofundar o debate em torno das propostas que nos foram apresentadas”, disse ela. Dilma também admitiu fragilidades: “Eu assumo aqui o compromisso de melhorar nossa defesa agropecuária. Ela está aquém da necessidade do país”, afirmou.

A candidata à reeleição levou o vice, Michel Temer, e seis ministros à sabatina. Quando esteve na CNI, na semana passada, ela estava acompanhada de sete ministros. Isso motivou o PSDB a apresentar uma representação à Justiça Eleitoral. A presidente também concedeu uma entrevista coletiva depois da sabatina. Confrontada com as críticas feitas pelos adversários sobre a tímida reforma agrária de seu governo, ela recorreu ao expediente de somar os números de seu governo com os de Luiz Inácio Lula da Silva: “Nós fizemos a maior reforma agrária do Brasil”, afirmou.

Por Reinaldo Azevedo
 

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