Blogs e Colunistas

Dilma

31/07/2015

às 2:05

#prontofalei – Conversa sobre o nada

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 20:54

Dilma, os governadores, as conversas sobre o nada e… o disparate final

Conforme o antevisto aqui, a conversa de Dilma Rousseff com os governadores girou em torno do nada. Sem agenda, foi preciso improvisar uma coisa qualquer antes da foto — o que já chamei aqui de “abraçaço da afogada”. Disse a presidente, entre outras coisas, num longuíssimo discurso de 32 minutos, segundo leio na Folha:
“Eu não nego as dificuldades, mas afirmo que todos nós, e o governo federal em particular, temos como enfrentar essas dificuldades e em um prazo bem mais curto do que alguns pensam. [...] É importante estabelecer parcerias e enfrentar os problemas juntos”.

Mais “rápido” quanto? Qual é o plano? Quem são esses “alguns” que estariam pensando errado? Uma pessoa ali, com certeza, fazia afirmações sem sentido. Dilma ensaiou os motivos da crise por que passa o Brasil: “o colapso no preço das commodities, a grande desvalorização da moeda, com impacto nos preços e na inflação”. Não dá!

A desvalorização das commodities mostrou que viria para ficar já em meados de 2012, quando Dilma estava com um ano e meio de seu primeiro mandato. Agora ela vem alegar tal fator para explicar as dificuldades brasileiras? E o câmbio? Qualquer que seja ele, é a realidade internacional que está impondo isso ou aquilo? Nem ela acredita nisso. E menos ainda acreditaram os que a ouviram.

Um governante em crise precisa apostar em certo heroísmo. Aludindo, como sempre, a seu passado, lá veio a presidente:
“Eu, pessoalmente, sei suportar pressão e até injustiça, e isso é algo que qualquer governante tem que se capacitar e saber que faz parte da sua atuação. Tenho ouvido aberto, enquanto razão, e o coração, enquanto sentimento, para saber que o Brasil que cresceu e não se acomoda é o Brasil que nós queremos, que sempre quer mais”.

Então tá. Dilma deveria ir à televisão, em rede nacional, explicar que é uma injustiça que o povo cobre que ela cumpra o que prometeu. Ela pode tentar jogar a culpa no preço das commodities.

Dilma falou sobre as dificuldades fiscais, lembrando ser esse um problema de todo mundo, observou que assumiu o desgaste de vetar algumas propostas que geravam impacto negativo nas contas públicas e, por óbvio, acabou sugerindo que os governadores a auxiliem na relação com o Congresso.

Pacto
No fim das contas, meus caros, a conversa de fundo era mesmo alguma coisa parecida com um pacto de governabilidade — só que sem agenda. Precisando propor alguma coisa, Dilma sugeriu que todos se unissem em favor da redução de homicídios e da diminuição da população carcerária. O que isso tem a ver com o conjunto da obra? Ninguém sabe.

Até porque, entre os presentes, estava Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo. O Estado tem hoje a menor taxa de homicídios do Brasil (9,38 por 100 mil), está entre os que mais prendem e tem a maior população carcerária do país: concentra 22% da população e 40% dos presos. Mais assassinos na cadeia, menos assassinos matando na rua.

A equação é elementar demais para a dialética sem metas de Dilma. No fim das contas, os governadores entenderam tudo: a presidente não estabeleceu meta nenhuma, mas prometeu que, tão logo seja cumprida, ela pretende dobrá-la.

Entenderam?

Por Reinaldo Azevedo

28/07/2015

às 16:47

Dilma procura sócio para a crise, e não aparece ninguém. Ou: Um novo convite à renúncia. Coragem, presidente!

Dilma reuniu 12 ministros nesta segunda-feira e lhes recomendou: falem com os parlamentares, tentem afastar o impeachment. Nesta quinta, quer se encontrar com os governadores, também com os dos partidos de oposição, e, como diria Caetano Veloso, pretende lhes dar uma “abraçaço” — no caso, um abraçaço de afogada. Eles estão com medo. Se pudessem, fugiriam. Têm receio de se contaminar com a inflação, tudo indica, de dois dígitos produzida por Dilma e com a popularidade de um só dígito — hoje, na melhor das hipóteses, em 9%. E, segundo sei, em impressionante corrosão no Nordeste, que sempre foi o bastião do petismo.

Estava difícil manter unida a base aliada quando a situação era bem mais tranquila. Agora, com os índices em franca deterioração, tudo pode ser ainda pior. Joaquim Levy propôs um ajuste da economia que se supunha draconiano. Acabou perdendo força no embate com o Congresso, mas está claro que mesmo ele não significa grande coisa. A crise se afigura bem maior.

Por enquanto, o que deveria ser virtuoso só alimenta o círculo vicioso. Ou por outra: a elevação brutal da taxa de juros, hoje em 13,75% — saberemos amanhã o que o Copom fará neste mês —, por enquanto ao menos, ajudou a aprofundar a recessão, mas ainda não teve efeito sobre a inflação. Está sendo notavelmente eficaz em baixar a atividade, mas, até agora, não se fez sentir nos preços. O que se dá como certo é que o freio imposto pelos juros ajudou a levar o crescimento do ano que vem para algo perto de zero. E há gente responsável que enxerga um 2016 também abaixo do zero — isto é, em recessão.

Não obstante, a presidente Dilma decidiu gravar alguns vídeos para pôr nas redes sociais em que sai em defesa do governo e participa do horário político do PT, que vai ao ar no dia 6. Assim, ela atravessa a rua para ser protagonista de apitaço, buzinaço e, como já disse aqui, de outros superlativos de rechaço, o que rima, mas nunca é a solução.

Dilma procura, em suma, sócios para a crise, mas, convenha-se, anda difícil encontrar até mesmo parceiros para cuidar da governabilidade.

Em entrevista ao Estadão, o ministro Joaquim Levy resolveu abandonar as suas metáforas náuticas — coisa de quem, perdoem-me a associação meio rasa, pode estar à deriva — e partiu para o setor elétrico. Diz que, sem trocar a fiação, pode haver um curto-circuito. Ninguém entendeu direito o que é trocar a fiação, mas dá para saber quais são as consequências de um curto-circuito. Fica-se às escuras.

Referindo-se ao Congresso, afirma num dado momento:
“O protagonismo do Congresso até agora tem sido na direção de enfraquecer a meta, pelas mais diversas razões. O Congresso, por exemplo, transformou o Profut (refinanciamento de dívidas de clube de futebol) em algo muito diferente do que havíamos proposto, sem que fique evidente que vai melhorar alguma coisa para os clubes. Mais uma vez, a sinalização foi de relaxamento fiscal. Podemos algo mais forte, mas não faz sentido que não esteja alinhado com a sinalização que temos recebido”.

Sei não… Parece que o curto-circuito do ministro já pode ter acontecido e que ele foi devolvido ao mar da incerteza. Quando um ministro da Fazenda, de quem se espera uma visão um pouco mais aguda da realidade, mais genérica para ser mais precisa, começa a discutir detalhes de um troço chamado “Profut”, a chance de que já se tenha perdido o jogo é bastante grande.

A verdade mais do que insofismável, que não pode ser disfarçada, é que ninguém mais aposta que Dilma consiga retomar o controle do país. Eu sei que parece drástico o que vou dizer, mas peço que analisem as consequências: a melhor coisa que a presidente pode fazer hoje em benefício do país é renunciar ao mandato, sem esperar jornadas estressantes sobre eventuais pedidos de impeachment.

“Ah, isso muda as circunstâncias objetivas do governo?” Muda, sim. Para voltar às metáforas náuticas de Levy, uma coisa é um navio enfrentar, de forma organizada, uma tempestade das brabas. Outra, diferente, é cada tripulante resolver pôr em prática o seu próprio plano de salvamento, entendem?

Não, o país, felizmente, não vive a situação de convulsão social, de ingovernabilidade. Mas também é certo que Dilma perdeu a governabilidade. Escreveria um epílogo honroso de sua biografia política se abreviasse por conta própria o seu mandato, antes que a realidade o faça, aí, sim, a um custo altíssimo.

Por Reinaldo Azevedo

28/07/2015

às 6:55

DESASTRES EM SÉRIE – Dilma reúne ministros para frente anti-impeachment e fantasia que Lava Jato custa 1 ponto percentual do PIB! É só maluquice sem método!

Eu gostaria muito de saber quem faz a cabeça da presidente Dilma Rousseff. A julgar por suas decisões recentes, intuo que ninguém. É muito provável que ela decida tudo mesmo na solidão do claustro, como o poeta de Olavo Bilac. Só que o resultado não chega a ser nem parnasiano — oco por dentro, mas eventualmente bonito. Nada! Os desastres e desacertos vão se acumulando, numa impressionante sequência de enganos e autoenganos. O vice-presidente, Michel Temer, tenta exercer a coordenação política junto ao Congresso, mas a questão é: quem coordena Dilma? Na melhor das hipóteses, ela própria; na pior, Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil.

Nesta segunda, a presidente reuniu 12 ministros. Cobrou deles que se empenhem para manter a base unida no Congresso, e a quase todos pareceu que a reunião era o que de fato era: como enfrentar Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, na volta do recesso, agora que ele rompeu com o governo.

A preocupação é uma só: que ele dê consequência aos pedidos de impeachment que estão parados na Casa. No dia 16 de agosto, o governo já dá como certo o óbvio: muitos milhares de pessoas devem sair às ruas pedindo a interrupção do seu mandato. Por mais que o PT e a própria presidente finjam acreditar tratar-se de uma manifestação golpista, sabem que isso é falso.

Dilma poderia ter parado por ali e já teria sido despropósito de bom tamanho. Não faz sentido convocar 12 ministros para uma reunião dessa natureza, o que só acrescenta certo sentido de desespero ao que, convenham-se, fácil já não é. Comportando-se como livre pensadora, a presidente resolveu ousar. Depois de o ministro Nelson Barbosa (Planejamento) expor as agruras a que estará submetido o país se o ajuste fiscal for malsucedido, a presidente disparou: “Para vocês terem uma ideia, a Lava Jato provocou uma queda de um ponto percentual no PIB brasileiro”.

De onde veio a suposta informação? Sabe Deus! Quem fez o cálculo? Ninguém tem a menor ideia! Notem, caros leitores: ainda que isso fosse verdade ou venha a se provar verdade, economistas e técnicos certamente alcançariam, num dado momento, esse número. Se é a presidente a expô-lo, quando ela própria já poderia ter sido colhida pela operação — não fosse a, como dizer?, cordialidade de Rodrigo Janot —, a mandatária passa apenas a impressão de que a Lava Jato prejudica o país, não é? A ser assim, a operação estaria custando alguns bilhões ao país, responde por parte do desemprego e do desalento, e melhor seria não ter tocado nesse assunto.

Subjacente a uma consideração como essa, resta a suspeita de que a mais desbragada lambança tem lá seus aspectos positivos, se é o caso de considerar que a correção delas pode arrancar até um ponto percentual do PIB.

Não é preciso recorrer a minudências matemáticas para evidenciar que se trata de uma patacoada, num país que cresceu 0,1% no ano passado, que foi obrigado a recorrer a um brutal choque de juros neste ano para conter a inflação destrambelhada, o que derrubou a arrecadação, embora o governo se mostre incapaz de cortar gastos para valer. Mais: a Operação Lava Jato se restringe a obras da Petrobras, que, não obstante, não paralisou suas atividades. Dilma só está buscando novos ombros para dividir a incompetência de sua gestão. Os da crise internacional, que inexiste, já não conseguem mais carregar sozinho esse caixão.

Acompanho política de forma sistemática desde os 15 anos. Digamos que tenha conseguido dominar com alguma precisão o instrumental de análise ali pelos 18. Tenho 53. Confesso que, em 35 anos, nunca vi nada parecido. Nunca antes na história “destepaiz” se viu tamanha inabilidade no trato da política.

Quase ao mesmo tempo, em São Paulo, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, falava a empresários, em encontro promovido pelo Lide (Grupo de Líderes Empresariais), um evento bastante concorrido. Sim, por uma dessas vicissitudes da Lava Jato a que alguns tontos se negam a prestar atenção, as duas figuras mais graduadas investigadas pela operação são o próprio Cunha e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado. Fica-se com a impressão de que a dupla mandava na Petrobras… Mas deixo isso de lado agora.

Quero chamar a atenção para outra coisa: Dilma não é investigada pela Lava Jato; Cunha é — e se dá como certo que Rodrigo Janot oferecerá denúncia contra ele. Mesmo assim, quase ninguém se interessa em saber o que pensa a presidente da República, mas é grande a curiosidade em saber o que pensa o presidente da Câmara. Embora, reitero, o deputado esteja nas malhas da Lava Jato, e a presidente não, ela parece ter só o passado e se considera que ele consiga acenar com algum futuro.

A questão aí, meus caros, está menos com as pessoas do que com as mentalidades. Goste-se ou não de Cunha, tenha ele do que prestar contas ou não, o fato é que desperta interesse porque ninguém mais aguenta a ladainha do PT. Mais do que Dilma, quem ficou no passado foi o seu partido, e se sabe que, de lá, não sairá nada mais que interesse ao país. O desalento está aí. E também a esperança. Se o partido sai da Presidência, dá-se como certo o início de um ciclo virtuoso, como houve quando Collor caiu.

Texto publicado originalmente às 3h32
Por Reinaldo Azevedo

28/07/2015

às 5:10

Governadores adorariam fugir, mas Dilma quer dar “um abraçaço” neles, como diria Caetano…

Ai, ai…

Há coisas, como costumo escrever aqui, que nem erradas são. Apenas não existem. A “política de governadores”, que Dilma pretende ressuscitar, foi enterrada junto com a República Velha. E todas as tentativas de retomá-la, desde aquele tempo, deram em nada. Como dará de novo agora.

A presidente pretende reunir os 27 chefes de Executivos estaduais na quinta-feira para que eles conversem com as respectivas bancadas federais de seus Estados, tentando impedir a aprovação da chamada “pauta-bomba” — medidas que provocariam um rombo no caixa, a exemplo do tal aumento de 56%, em média, concedido ao Judiciário, que ela teve de vetar.

Qual é a justificativa para o encontro, tecnicamente procedente, mas politicamente inócua? Reajustes concedidos a funcionários federais e gastos impostos à União acabam, invariavelmente, impactando nos Estados. É verdade. A questão é saber qual é o real poder de fogo dos governadores nas bancadas federais. Os alinhamentos que se dão no Parlamento são de outra natureza. Nem mesmo o Senado está sujeito a uma influência muito forte dos governadores. A orientação partidária e as afinidades por setor da economia ou por convicção acabam tendo mais influência.

De resto, a tal pauta-bomba é mero pretexto. Dilma está querendo é dar uma demonstração de força política num momento em que se considera que cresceu a possibilidade de ter sequência uma denúncia contra ela na Câmara, já que, por enquanto ao menos, o governo avalia que é altíssimo o risco de o TCU recomendar a rejeição das contas. Também esse tema ficará fora da pauta, mas, como se sabe, presente.

Os governadores estão numa saia-justa. É provável que compareçam. Por outro lado, prefeririam ficar longe desse cálice. Nenhum chefe de Executivo estadual é hoje tão impopular como Dilma. O receio óbvio é que a impopularidade dela os acabe contaminando e que, vistos todos juntos, sejam considerados corresponsáveis pelo momento notavelmente ruim por que passa a economia.

A presidente pretende fazer a reunião na quinta, dia 30, quase antevéspera de ir ao ar o programa político do PT, no qual ela vai falar. O panelaço, apitaço, buzinaço e outros superlativos do descontentamento pátrio já estão convocados. Dez dias depois, há o protesto, que já se aposta gigante, do dia 16 de agosto. Ninguém estava disposto a posar agora ao lado de Dilma, mas sabem como é… No federalismo à moda brasileira, em que presidente da República é quase imperador absolutista, fica difícil recusar.

Já dá para antever o desânimo. Os governadores adorariam fugir, mas Dilma faz questão de dar “um abraçaço” neles, como diria Caetano…

Por Reinaldo Azevedo

21/07/2015

às 8:07

Cunha diz aceitar acareação com seu acusador, mas cobra que Dilma, Mercadante e Edinho façam o mesmo

Se alguém espera ler aqui em meu blog a defesa de procedimentos que agridam o Estado de Direito, pode amarrar o burro em outra página. Se eu lesse as que assim procedem, talvez recomendasse alguma. Como sou muito ocupado para isso, deixo para a livre escolha. Adiante.

Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, afirmou nesta segunda que aceita, sim, fazer uma acareação com Jueio Camargo, delator da Lava Jato, que, em testemunho ao juiz Sergio Moro, no inquérito que investiga se houve corrupção no aluguel de navios-sonda, o acusou de ter recebido propina de US$ 5 milhões.

Nota: esse mesmo Camargo há havia negado quatro vezes ter feito tal pagamento. Segundo diz, tinha medo de Cunha. Por que o perdeu subitamente? Consta que os procuradores o ameaçaram com a perda de privilégios da delação premiada. Para um corruptor confesso, é mesmo um homem cheio de… medos.

O pedido de uma acareação foi apresentado à CPI da Petrobras pelo PPS. Cunha disse aceitar, mas indagou, com absoluta propriedade, por que os que o querem cara a cara com o seu acusador não fazem o mesmo com Dilma Rousseff, Edinho Silva e Aloizio Mercadante.

Recorramos às suas próprias palavras:
“É oportunista de alguns querer falar de uma acareação comigo. Estou disposto a fazê-la a qualquer tempo. Agora também aproveitem e convoquem todos que estão em contradição. O ministro Mercadante e o ministro Edinho negam aquilo que foi colocado pelo Ricardo Pessoa. A própria presidente nega o que foi colocado pelo Youssef. Que se faça acareação de todos.”

Ora, leitor, você há de convir que ele tem razão, não é mesmo?, pouco importa o que você pense a respeito do deputado. Afinal, Alberto Youssef afirmou que Dilma sempre soube da corrupção na Petrobras. Pessoa, dono da UTC, afirmou ter dado R$ 500 mil em dinheiro vivo, por fora, para uma campanha eleitoral de Mercadante. E disse ainda que, pressionado por Edinho Silva, que lhe lembrou dos contratos que mantinha com a Petrobras, doou R$ 7,5 milhões para a campanha à reeleição de Dilma. Sobre esses dois ministros, diga-se, nem mesmo inquérito existe.

Se cabe fazer uma acareação entre Julio Camargo e Cunha, por que não, também, nesses outros casos?

Moro
Agora vamos a Sergio Moro. A defesa do deputado Eduardo Cunha apresentou ao STF, nesta segunda, uma reclamação contra atos do juiz. De novo, você pode achar que um é um santo, e o outro, um pecador. Não é o que está em debate. Nas democracias, as leis existem e têm de ser cumpridas.

Se Cunha era a peça central da acusação que faria Julio Camargo no inquérito que apura corrupção no aluguel dos navios-sonda, então é evidente que tal peça deveria ter sido enviada ao Supremo, já que o presidente da Câmara detém foro especial por prerrogativa de função. É o que está na Constituição, que ninguém tem o direito de violar — nem Moro.

A defesa de Cunha pede ainda que o Supremo considere nulas eventuais provas produzidas, nesse inquérito, sob a condução de Moro, já que, é evidente, o juiz feriu a competência ao conduzir uma investigação que tinha como alvo o presidente da Câmara. É o que diz a ordem legal, que tem de ser respeitada.

Eu conto o que sei e vejo. Nas demais fases da operação Lava Jato, mais de uma vez, o juiz Sergio Moro interrompeu depoentes e testemunhas quando os nomes de políticos com foro especial iriam ser citados. Há vídeos na Internet a respeito. E o fez justamente para evitar que o processo migrasse para o Supremo, para que tudo continuasse sob o seu controle. E por que foi diferente desta vez? Não tenho resposta.

Como não tenho resposta para o fato de que, mesmo antes do depoimento, todos já sabiam que Camargo havia mudado a sua versão sobre Cunha. Eu não tenho, e ninguém tem. 

Texto publicado originalmente às 5h
Por Reinaldo Azevedo

21/07/2015

às 8:01

Cunha fez a crise econômica? A crise política? A crise de confiança? Pobre Dilma! Cunha é pra ela uma solução!

Ah, as tramas da linguagem, não é mesmo? José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara, sentindo-se forte o bastante para propor a paz, resolveu apelar a uma imagem de guerra e, referindo-se, ainda que de modo indireto, ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou que o governo pretende estender a bandeira da paz. Disse:

“Nesses momentos de tensão, sempre é bom estender a bandeira da paz, a bandeira branca. E nós vamos estender a bandeira mais uma vez para o Congresso, que foi isso que estabeleceu as vitórias que tivemos aqui. É um novo momento do país. O tensionamento vem das ruas, vem do Congresso, vem de todas as partes. É normal. Todo mundo tem que ter responsabilidade com o país. Ninguém quer tocar fogo no país”.

Essa linguagem bélico-apocalíptica merece tradução. Se o governo diz que vai estender a bandeira da paz, então é sinal de que se admite em guerra, certo? Mas guerra exatamente contra quem? Contra o Congresso como um todo? Contra Eduardo Cunha em particular? O presidente da Câmara imediatamente rebateu. Disse não ser necessária bandeira nenhuma porque ele não está armado com fuzil.

Mas sigamos com Guimarães. Quando ele diz que ninguém quer botar fogo no país, está a dizer que… há gente querendo botar fogo no país. É mesmo? Quem e por quê? A resposta é simples. Isso traduz a qualidade do debate interno do PT. Pedir o cumprimento das leis — o que pode resultar, sim, na cassação do mandato de Dilma — seria  sinônimo de incêndio. Essa linguagem, de aparente apelo à paz, é puro terrorismo político.

De certo modo, não deixa de ser uma sorte Dilma ter um adversário como o presidente da Câmara, que setores ditos “progressistas” da imprensa adoram odiar. Serve para disfarçar a falta de agenda. Vamos pensar: qual é a responsabilidade de Cunha na crise econômica? Zero! Qual é a responsabilidade de Cunha na crise de confiança? Zero! Qual é a responsabilidade de Cunha na crise política? Zero também! Eu diria que ele só assumiu o perfil que tem — de verdugo do governo — como consequência de uma crise política que já estava dada.

Façamos um exercício. Imaginem um cenário sem Cunha. Digamos que ele fizesse a vontade de seus adversários e renunciasse não só à Presidência da Câmara, mas também ao mandato, retirando-se da política. Que influência isso teria na ordem das coisas? Resposta: zero de novo! Ao contrário até.

Quem quer que circule um pouco pelo país real, que converse com pessoas, que dialogue com empresários dos mais variados setores, bem, essa pessoa terá a chance de constatar que Cunha vinha sendo visto mais como um fator de esperança para o setor produtivo, por exemplo, do que o contrário. Os tolos se fixam apenas na tal agenda de costumes que dizem “conservadora”. Mas ele vinha acenando com mais do que isso.

Essa conversa de bandeira branca é bobagem. É coisa de governo sem agenda, que hoje luta apenas para não cair. O diabo é que ainda restam três anos e meio de mandato. Pra quê? Pra estender mais bandeiras brancas. Ou seja: pra nada.

Já citei o poema aqui uma vez e o faço de novo. Chama-se “À espera dos bárbaros”, do excelente Constantino Kafávis (1863-1933). Já falei sobre ele num http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/espera-dos-barbaros-poema/. O texto segue abaixo. Cunha é, para Dilma, o que eram os bárbaros para os romanos no poema de Kafávis: uma espécie de solução. Por quê? Ela pode usá-lo como bode expiatório de sua própria incompetência. Segue o magnífico texto, na tradução de José Paulo Paes.

*

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

 Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Por Reinaldo Azevedo

21/07/2015

às 4:37

Na VEJA.com: O amigo investigado de Dilma

Por Reinaldo Azevedo

21/07/2015

às 3:56

Na galeria do “Dia do Amigo”, Dilma esqueceu de incluir Rodrigo Janot

Dilma com Rodrigo Janot

Huuummm… Naquela foto em que Lula e Dilma celebram o “Dia do Amigo”, acho que ficou faltando alguém. Se o Rodrigo Janot, procurador-geral da República, estivesse lá, não haveria nada de errado. A foto estaria apenas adequada ao fato.

Em plena campanha eleitoral para ser reconduzido ao cargo para um novo mandato de dois anos, Janot divulgou uma nota nesta segunda em que procura responder a críticas que vem recebendo de políticos, que o acusam de atuar com parcialidade. Só para lembrar: Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, criticou a forma como três senadores foram tratados pela tal Operação Politeia. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, afirma que Janot age de forma coordenada com o governo para incriminá-lo.

Na nota em que elogia o próprio trabalho, Janot diz que investiga “fatos, jamais instituições”, que trabalha para “fortalecer a República”, o que “passa necessariamente pelo funcionamento de um Senado altivo e de pé”.

A referência ao Senado se explica. Não é apenas uma resposta a Renan. Para ser reconduzido ao cargo, Janot tem de vencer a disputa interna no Ministério Público — também são candidatos a seu posto os subprocuradores-gerais Carlos Frederico Santos, Mario Luiz Bonsaglia e Raquel Dodge —, submeter-se à sabatina da Comissão de Constituição e Justiça da Casa e ser aprovado pelo plenário em votação secreta.

O mandato em curso expira no dia 17 de setembro. No dia 5 de agosto, ocorre a eleição no MP. Uma lista com os três mais votados é encaminhada, então, a Dilma, que pode indicar um deles — a praxe e ficar com o primeiro colocado. Aí a bola passa para o Senado.

Não é segredo para ninguém que tenho, sim, criticado o trabalho de Janot. Até agora, não entendi — e a explicação que ele deu é altamente insuficiente — por que ele não pediu nem mesmo a abertura de um inquérito para investigar a presidente Dilma Rousseff, conforme o autoriza, sem outra leitura possível, jurisprudência do Supremo. E não me refiro, obviamente, apenas à Operação Lava-Jato. O mesmo vale para as pedaladas fiscais.

E não! O conjunto da obra da chamada Operação Java Jato não me agrada por motivos lógicos e óbvios. E já os expus aqui muitas vezes. Uma operação que, dados os pressupostos, deve nos levar a concluir que o maior assalto perpetrado até hoje aos cofres públicos foi obra de empreiteiros reunidos em cartel, em conluio com três ou quatro corruptos da Petrobras mais um bando de políticos de segunda linha, acaba sendo uma afronta à inteligência.

Aí um inconformado poderia indagar: “Ah, mas Cunha e Renan são de segunda linha?”. Não! A questão é saber se, no tempo a que se referem as acusações contra ambos, eles já eram tão poderosos. Mas, atenção!, ainda que fossem e ainda que sejam culpados dos crimes de que os acusam, cabe a pergunta: eles levam jeito para estar no comando da operação?

Depois de tanto barulho, de 14 fases da Lava Jato e da Politeia, uma derivação da operação-mãe, não sabemos quem, ainda que seja um grupo, estava no comando das ações criminosas — que, sem dúvida, existiram. Ou alguém é tolinho o bastante para crer que o tal “Clube do Bilhão” pintava e bordava e decidia preços, vencedores, perdedores, comissões etc.?

Sim, um Ministério Público que, até agora, tem lascado o chicote em empreiteiros e em parlamentares, mas preservado, de maneira determinada, o Poder Executivo está a pedir que seu chefe, Rodrigo Janot, figure na galeria dos amigos de Dilma.

Por Reinaldo Azevedo

21/07/2015

às 2:48

Dilma e Lula tiram o sarro do país com foto no “Dia do Amigo”; afinal, aquela é a imagem de um estelionato

A presidente Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, seu antecessor, postaram em suas páginas no Facebook uma foto do dia 26 de outubro, em que ambos aparecem abraçados, comemorando a reeleição. Homenageavam, assim, um tal “Dia do Amigo” — aquele que, segundo música de Milton Nascimento, deve ser guardado “debaixo de sete chaves”. Nem diga! No caso da dupla, se der para jogar a chave fora, melhor. Eu não posso reclamar da parceria. Basta ter um pouquinho de talento e um tanto de esforço, e os textos já nascem prontos. Eles os escrevem por nós com suas barbaridades.

Dia do amigo - foto

Comecemos do óbvio: a foto marca o dia da consolidação de um estelionato eleitoral sem par na história do país — e talvez das democracias ocidentais. Dilma venceu naquele 26 de outubro, por estreita margem, assumiu no dia 1º de janeiro, e, desde a posse, faz coisas que disse que não faria e diz coisas que certamente não fará. Tudo o que ela imputou às intenções de seu adversário, Aécio Neves, e que reputou como os males do mundo compõe hoje a sua agenda. É por isso que, sete meses depois da sua posse, amarga índices inéditos de impopularidade.

Uma foto nunca retrata apenas o momento em que o flagrante é congelado. Ela pode servir para iluminar e redefinir tanto o passado como o futuro. Vamos lá: se a economia estivesse crescendo a taxas aceitáveis, se a gestão fosse um exemplo de moralidade, se o país estivesse no rumo, então aquele abraço significaria mais do que a amizade pessoal. A legenda poderia ser: “É isso aí, companheiro! Estamos mudando o Brasil. A nossa luta é vitoriosa”. Mas olhem aí o que temos — e por responsabilidade exclusiva dos governos Lula e Dilma. Aí, meus caros, não tem jeito. Só cabe uma legenda para aquele instante: “Conseguimos. Enganamos os trouxas”.

E não vai exagero nenhum nessa leitura. Tanto Dilma sabia parte do que tinha de ser feito — e tinha e tem — e tanto havia a clareza que não seria bom para os brasileiros, porque remédio não costuma ser gostoso, que ela expôs, sim, a agenda: afirmou que Aécio elevaria as tarifas, que os juros subiriam, que o desemprego cresceria, que haveria corte de benefícios sociais, que o país estraria em recessão. É o que ela previa se seu adversário vencesse. Dilma, a amiga, venceu, com o apoio de Lula, o amigo e elevou tarifas, aumentou os juros, cortou benefícios sociais, levou o país à recessão aberta e fez crescer o desemprego. Vale dizer: eles enganaram os trouxas.

A foto não deixa de ter um caráter acintoso, dado o contexto. Obviamente, tratou-se de uma ação combinada entre as duas assessorias, tanto é assim que a mesma imagem apareceu, ao mesmo tempo, em suas páginas no Facebook. Publicada no primeiro dia útil depois do fim de semana em que a máquina oficial tentou decretar a morte política de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente da Câmara, a legenda também poderia ser esta: “Vencemos! Conseguimos tirar aquela pedra do nosso caminho”. Aliás, um dos memes que ganhou o país no “Dia do Amigo” foi justamente um foto em que Cunha e Dilma aparecem juntos…  Uma ironia mais do que eloquente.

Pois é… Aquele que está sendo abraçado pela presidente poderia, ao menos, não ser ele também um investigado hoje, num procedimento que está na Procuradoria da República no Distrito Federal. Mais ainda: dois ministros de Dilma estão rigorosamente na mesma situação em que se encontra Eduardo Cunha: Ricardo Pessoa, em delação premiada, diz ter repassado R$ 500 mil em dinheiro vivo a Aloizio Mercadante (Casa Civil) e afirma ter doado R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma, por intermédio de Edinho Silva (Comunicação Social), que lhe teria lembrado os vários contratos que a UTC mantinha com a Petrobras… Convenham: para bom entendedor, meia ameaça basta.

O Congresso entrou em recesso. Por alguns dias, não saberemos se o governo realmente conseguiu retomar a inciativa. Eu, sinceramente, me pergunto: iniciativa do quê e para quê? Por enquanto, vejo apenas a celebração daqueles que julgam ter derrotado seus inimigos, sem saber com que propósito venceram, como naquele 26 de outubro de 2014.

Por Reinaldo Azevedo

20/07/2015

às 7:37

Crise institucional uma ova! Ou: A única conspiração em curso é aquela para manter no poder o PT, que está caindo de podre! Ou: Crise é a continuidade do governo Dilma!

Aqui e ali se diz que o rompimento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) com o governo elevou a temperatura para uma “crise institucional”. Só pode ser piada! A crise institucional existe quando as ditas instituições já não podem exercer as suas prerrogativas sem uma consequente convulsão social. Ou, então, quando a força da lei está manietada pela lei da força.

É o caso no Brasil? Quem impede as instituições de se exercer plenamente? Alguns ilustres só não põem em prática todo o poder que têm, que lhes assegura a Constituição, por covardia mesmo ou coisa pior. Peguemos o caso de Rodrigo Janot. Motivos não faltam para que ele peça ao menos a abertura de um inquérito contra a presidente da República. É uma prerrogativa do Ministério Público. Se ele o fizesse, qual seria o trauma? Nenhum! O Supremo poderia aquiescer ou não! Se aquiescesse, qual seria o terrível desdobramento? Nenhum também! Só poderia fazer bem ao país.

Crise institucional porque um presidente da Câmara se declarou na oposição? Ora, tenham um pouco de noção do ridículo! Só advoga essa tese quem está querendo criar uma redoma que proteja Dilma de si mesma e de seu governo. Agora virou música: se Cunha rompe com o governo, fala-se em crise institucional; se o TCU recomendar a rejeição das contas e se o Congresso acatar, vê-se o risco de crise institucional; se o TSE cassar a diplomação da presidente, ameaça-se com a… crise institucional.

Ora, vamos fazer, então, o seguinte: assegurar, desde já, a inimputabilidade da presidente, por atos cometidos antes, durante e, se possível, até depois do exercício da Presidência. A gente não toca mais nesse assunto. O petrolão se consolida, então, como uma grande tramoia urdida por empreiteiros, por Cunha, por Renan, por alguns funcionários larápios e por outros parlamentares de segunda linha. É bem verdade que João Vaccari, o ex-tesoureiro do PT, está lá, mas era só para fazer caixa de campanha, que, claro!, nada tem a ver com a presidente. Ou é assim, ou é… crise institucional!

Vão caçar sapo barbudo na beira do brejo! Pra cima de mim, não! No discurso que fez na sexta-feira para aquela seleta plateia que incluía o assassino Nicolás Maduro, o protoditador Evo Morales e Cristina Kirchner, a presidente do país em que um promotor foi suicidado, Dilma Rousseff demonstrou o seu amor pelas urnas e disse que só elas legitimam um governante.

É verdade. Urnas são condição necessária, mas não suficiente, da democracia. A presidente só se esqueceu de dizer que eleições não conferem aos eleitos o direito de cometer crimes ou de tolerá-los. Não lhe ocorreu lembrar, naquele ambiente viciado, que governantes podem se deslegitimar e que todos os regimes democráticos, inclusive o nosso, apontam a porta de saída caso isso aconteça.

Não há crise institucional nenhuma em curso no país. Não há conspiração de nenhuma natureza. A única que está por aí, muito visível, é aquela que pretende usar as urnas como tribunal de absolvição da má gestão — na hipótese benigna — e da gestão condescendente com o crime, na hipótese intermediária. Com rigor, há que se examinar se não se trata, efetivamente, de uma gestão criminosa.

Crise institucional uma ova! A única conspiração em curso, enfim, é aquela para manter no poder o PT, que está caindo de podre! E, para tanto, chama-se de “golpista” qualquer um que ouse brandir a lei contra o governo Dilma Rousseff. Então era um ato de legítima democracia impichar Collor — com Lula liderando as manifestações —, mas é um crime cobrar a responsabilidade do governo petista?

Quem sai agora gritando “risco de crise institucional” está apenas tentando, pela via do terrorismo político, silenciar as vozes contrárias ao governo. É para assustar o PMDB. É para assustar a oposição. É para assustar o Congresso. É para assustar a imprensa. É para assustar a nação.

Lamento! A cara da crise, hoje, de todas as crises, é a continuidade do governo Dilma. As alternativas, desde que de acordo com a lei, são apenas soluções.

Texto publicado originalmente às 6h35
Por Reinaldo Azevedo

20/07/2015

às 7:35

Com Cunha acuado, Dilma ressurge mais forte nesta segunda. Pra quê? Pra nada! Ou: Máquina do mal continua ativa e operante

Se a vida fosse como sonham os petistas, esta segunda começaria sob novos auspícios. Aquele que o governo tinha como seu principal inimigo está, obviamente, acuado pela acusação do lobista Julio Camargo e pela avalanche de notícias negativas que a ela se seguiu. Refiro-me obviamente a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. Antes que siga, uma nota.

É evidente que o principal inimigo do governo nunca foi Cunha — ele acabou se tornando, mas não era. As forças que mais atuam contra Dilma são a herança maldita do PT, que durará gerações, a incompetência política do governo e, num outro plano, Luiz Inácio Lula da Silva, que desestabiliza a presidente em seu próprio terreno.

Querem um exemplo? Se Dilma não tivesse atravessado a rua só para ser derrotada por Cunha na eleição para a presidência da Câmara, as relações certamente teriam sido outras. Mas a mulher não quis conversa com a realidade.

Vamos seguir. Na quinta, Camargo muda a versão de uma série de depoimentos anteriores e diz ter pagado, sim, propina a Cunha. No sábado, já é manchete de jornal uma investigação que busca ligar o deputado a algumas contas secretas no exterior — e olhem que se trata de investigação, em tese, sigilosa. Como esse tipo de especulação não vem à luz da noite para o dia, quem preparou esse segundo material para ser divulgado só estava à espera do primeiro. Ou por outra: estava tudo pronto para ser vazado, só aguardando que Julio Camargo fizesse a denúncia. Eis aí.

Os jornalistas se divertem associando a figura de Cunha ao sinistro Frank Underwood, da série “House of Cards”. Pois é… A julgar pelo que está em curso — e na hipótese de que a associação faça algum sentido —, então ele não está só, não é mesmo? Há mais “Franks” à solta, como se pode ver. O boato que circula é que as contas podem estar relacionadas a Cunha. “Podem”… E se não estiverem? Bem, isso não importa. O trabalho já está feito.

Retomo
Volto ao ponto. Ainda que não se diga alto e com todas as letras, os magos do Palácio já dão Cunha como carta fora do baralho. Agora, para arremate, só aguardam que Rodrigo Janot ofereça denúncia contra ele. Se o Supremo aceitar, avança-se um pouco mais. O procurador-geral pode dar uma ajuda final com uma ação cautelar para que ele se afaste da presidência da Casa. O que quer que faça Cunha agora será tratado como coisa de gente ressentida, que foi pega com a boca na botija. Aliás, CPIs que, pela regra, têm de ser instaladas já entraram na lista das retaliações. Frank Underwood pode assumir várias faces e estar em vários lugares, não é mesmo?

Ainda é cedo para decretar, como fazem os petistas e alguns analistas, a morte de Cunha, mas é fato que o Planalto cravou um tento e tanto, há muito buscado, há muito esperado. Voltemos a esta segunda-feria: seria o dia de Dilma anunciar o novo amanhecer. Mas com o quê?

O que o governo tem a oferecer? É evidente que a hipótese do impeachment ficou um pouco mais distante, ao contrário do que supõem muitos. Sem a prova material, inequívoca, de que Ricardo Pessoa foi coagido a fazer doações ao PT, é difícil que o TSE casse a diplomação de Dilma Rousseff. E Janot, até aqui, não demonstra interesse em pedir que se abra ao menos um inquérito para apurar a atuação da presidente, conforme autoriza jurisprudência do Supremo.

Assim, o que sai reforçada até agora é a possibilidade de Dilma permanecer mais três anos e meio no poder. Pra quê? Como diria Ascenso Ferreira, o poeta pernambucano, “pra nada!”.

Há uma possibilidade de a investigação sobre Cunha, ao fim e ao cabo, depois de muito tempo, dar em nada? É claro que há. Vai que Camargo estivesse falando a verdade antes de ser ameaçado, não depois… É que a natureza do jogo não é distinguir culpados de inocentes, mas manter o controle da máquina do estado.

Dilma ressurgirá mais forte nesta segunda.

Pra quê?

Pra nada!

Texto publicado originalmente às 17h32 deste domingo
Por Reinaldo Azevedo

18/07/2015

às 6:23

É claro que Dilma se fortalece por enquanto. Ou: Camargo foi ameaçado, como acusou Cunha. Ou ainda: Torça pelos fatos. Mais uma: E Dilma, Janot?

Há muitas formas de torcer voluntária ou involuntariamente pelo fortalecimento, ainda que dentro do possível, de Dilma Rousseff. Uma delas é aplaudir a eventual derrocada de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, e o notável trabalho de proteção à presidente executado até agora por este incrível Rodrigo Janot, procurador-geral da República. Ah, sim: seria dispensável dizer para bons entendedores, mas também os há maus, a serviço sabe-se lá do quê: se Cunha cometeu crime, tem de pagar. Mas onde estão os responsáveis ligados ao Poder Executivo no petrolão? Faço essa pergunta há mais de um ano. Janot não me dá uma resposta. Sergio Moro também não.

A Folha traz neste sábado um texto muito esclarecedor de Graciliano Rocha e Bela Megale. Explica por que o delator Julio Camargo mudou de ideia. No âmbito da delação premiada, havia negado o pagamento de propina a Eduardo Cunha. Depois, disse o contrário. No depoimento prestado ao juiz Sergio Moro, ele afirmou que negara porque tinha medo do poder do deputado. A reportagem esclarece:
“Sua [de Camargo] guinada começou a ser produzida na última semana de junho, quando foi chamado pelos procuradores da Lava Jato para uma reunião em Curitiba. Os investigadores mostraram a Camargo que tinham evidências de que ele vinha escondendo informações comprometedoras sobre políticos, e lembraram ao lobista que isso poderia levar ao rompimento do acordo de delação, que garante redução de pena e outros benefícios.”

Ah, bom! Na nota divulgada ontem, em que nega ter recebido propina, Cunha havia acusado o seguinte: “Após ameaças publicadas em órgãos da imprensa, atribuídas ao Procurador-Geral da República, de anular a sua delação caso não mudasse a versão sobre mim, meus advogados protocolaram petição no STF alertando sobre isso”.

Nem vou entrar no mérito se Camargo mentiu antes ou agora, o que fica evidente é que o conteúdo da nota de Cunha e o da reportagem coincidem, com uma ligeira diferença: o presidente da Câmara atribui a ação a Janot. Então ameaça houve, certo?

Resta, ademais, uma questão de natureza técnica, a ser decidida nestas e em delações premiadas em casos futuros: valerá sempre a última versão contada pelo delator, ainda que ela desminta a anterior? Outra questão para os tribunais: se não houver a prova material do pagamento de propina Cunha — há? —, a qual versão se deve dar o status de verdade? Os que querem Cunha fora do caminho certamente escolherão a segunda; os que preferem Dilma fora do caminho optarão pela primeira. Com qual devem ficar os que preferem os fatos? Respondo: com as provas.

Impeachment
Há certa excitação no ar, indevida a meu ver — mas nada como o tempo, não é? —, com o fato de que o deputado mandou fazer uma espécie de revisão dos pedidos de impeachment que foram protocolados na Câmara. Tenho dificuldade para pensar fora de parâmetros lógicos. Se essa era uma hipótese distante antes, mais distante está agora. Não há mágica nessas coisas. Já escrevi aqui e reitero: num cenário em que a Operação Lava Jato encosta na parede os presidentes da Câmara e do Senado, quem sai fortalecida, ainda que abaixo da linha da mediocridade, é Dilma. Para aceitar uma denúncia, são necessários 342 deputados. Não há milagres nessas coisas.

Armação ilimitada
Alguns tontos inferem que defendo que Cunha devesse ser intocável só porque perturba o PT. É uma boçalidade. Não é isso, não. Mas não reconheço como coisa regular que, no âmbito da delação, Julio Camargo negue o pagamento de propina ao deputado e, depois de pressionado pelos procuradores, admita o pagamento, mas aí num depoimento que está fora da delação — tanto é que esta terá, agora, de ser corrigida. Isso pode ser tudo, meus caros, menos… regular! É claro que tem cheiro de cama de gato e jeito de cama de gato. E é cama de gato. Nota à margem: Camargo mudou de advogado e agora está com o mesmo que defende Alberto Youssef, que o lobista antes contestava com veemência.

Presidência da Câmara
Fragilizado, Cunha passou agora a ser alvo de certa campanha terrorista. Nesta sexta, vazavam da Procuradoria-Geral da República boatos de que Janot — aquele que não toca em Dilma — pretende entrar com uma ação cautelar para afastá-lo da presidência da Câmara. Usaria para tanto testemunhos de pessoas que se dizem ameaçadas pelo deputado.

Caso Janot opte mesmo por isso — duvido um pouco porque me parece que escancararia a natureza do jogo: tirar Cunha do caminho —, o pedido tem de ser apresentado ao Supremo. O ministro Teori Zavascki, relator, poderia decidir sozinho, mas o mais provável é que recorresse ao pleno do tribunal. Se a tanto se atrever Janot, acho que o STF recusaria uma interferência desse teor com o que se tem até agora.

Então ficamos assim: que Julio Camargo foi ameaçado, como afirmou Cunha, foi. Se a ameaça se deu mediante supostas provas que os procuradores teriam de que pagou propina ao deputado, então elas certamente virão à luz. Mas e se não vierem?

Ah, sim, não posso encerrar este post sem perguntar: e Dilma, Janot? 

Por Reinaldo Azevedo

18/07/2015

às 4:40

Dilma não sabe a diferença entre democracia e ditadura. Quem está surpreso? Ou: A nova “Operação Condor” da América do Sul tem cadáveres nas ruas

Se alguém tivesse de cumprir a desagradável missão de escolher o discurso mais infeliz de Dilma Rousseff, estaria certamente diante de uma difícil tarefa. A competição da presidente consigo mesma, nesse quesito, é feroz. A fala desta sexta-feira, ao receber presidentes do Mercosul, no Palácio do Itamaraty, chega a ser nauseante. E por vários fatores que se combinam.

Para uma audiência que reunia truculentos notáveis como Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), a presidente brasileira teve a coragem de afirmar:
“Somos uma região que sofreu muito com as ditaduras. Somos uma região onde a democracia floresce e amadurece. No ano passado, houve eleições gerais no Uruguai e no Brasil. Este ano, é a vez da Argentina e da Venezuela. A realização periódica e regular desses pleitos dá capacidade de lidar com as diferenças políticas. Temos de persistir nesse caminho, evitando que as disputas incitem a violência. Não há espaço para aventuras antidemocráticas na América do Sul.”

É bem provável que Dilma estivesse querendo dizer que uma eventual ação em favor do seu impeachment ou que a cassação do seu mandato pelo TSE se encaixariam na classificação de “aventuras antidemocráticas”. É claro que ela sabe ser uma mentira escandalosa.

Dilma pode não ser o melhor exemplo a que pode chegar a inteligência política brasileira, mas ela sabe que a simples realização de eleições não garante um regime democrático. Fazer tal afirmação diante de um ditador asqueroso como Nicolás Maduro e de um protoditador como Evo Morales chega a ser uma provocação grotesca ao bom senso. No ano passado, 40 pessoas foram assassinadas nas ruas da Venezuela por milícias a serviço do regime. Há presos políticos no país, e a imprensa está sob severa censura.

E coube justamente a Maduro descer ao esgoto moral. Afirmou:
“Temos um presidente indígena (Morales), há um movimento bolivariano, que somos nós, de pé. E ninguém vai nos apagar do mapa. Nenhuma pressão política vai nos apagar. Há 40 anos, houve o Plano Condor, e não desaparecemos. Somos um projeto democrático, inclusivo”.

O “Plano Condor” é o nome pelo qual é conhecida a colaboração entre as várias ditaduras militares havidas na América do Sul nas décadas de 60 e 70. Hoje, regimes violentos e populistas também se amparam mutuamente, todos eles endossados pelos governos do PT, partido que sonhou emplacar por aqui algo semelhante. Trata-se de um “Plano Condor de esquerda”. Aliás, quando Dilma insiste em associar o cumprimento da lei à quebra da ordem democrática, ela o faz sob a inspiração desse pensamento delinquente.

E, claro, a pantomima não estaria completa sem a homenagem de Dilma a Cristina Kirchner, que voltou a levar a Argentina à beira do abismo:
“Nesses oito anos em que lhe coube presidir a nação Argentina, você imprimiu posição firme e democrática a seu país. Do ponto de vista pessoal e político, quero dizer que você terá no Brasil uma amiga sempre pronta para compartilhar sistematicamente sonhos e esperanças”.

A brasileira, acreditem, tinha lágrimas nos olhos. No poder, Cristina Kirchner estimulou, ela também, a formação de verdadeiras milícias e tentou censurar a imprensa livre. O cadáver do promotor Alberto Nisman se revirou no túmulo. Dilma, no entanto, chorou de emoção. E aí falou a louca de Buenos Aires:
“Qualquer estado integrante do Mercosul, ou da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), em que o governo seja removido por outro que não seja produto de eleições livres, populares e democraticamente eleito perde o caráter de estado membro.”

Também é de revirar o estômago. Cristina e Dilma, juntas, suspenderam o democrático Paraguai do Mercosul — por ter deposto legal e legitimamente um presidente — e aproveitaram o momento para abrigar a Venezuela do ainda vivo Hugo Chávez. Até então, o Senado paraguaio se negava a aprovar o ingresso do novo membro justamente porque reconhecia o país por aquilo que é: uma ditadura.

Ah, sim: a cerimônia marcou o ingresso da… Bolívia no Mercosul! O bloco já é hoje um atraso de vida para o Brasil. Entre outras razões, porque as decisões têm de ser tomadas por consenso. O bloco impede o Brasil de celebrar acordos bilaterais substantivos porque tem de se vergar às restrições de seus parceiros. Agora, teremos de nos submeter também às exigências bolivianas.

Enquanto isso, livres para voar, Chile, Peru, Colômbia e México celebram a Aliança do Pacífico, de costas, literalmente, para os bocós do Mercosul. O mal que o PT faz ao Brasil vai deixar marcas por muitas décadas. Já estamos começando a viver a herança maldita. E ela está apenas no começo.

Por Reinaldo Azevedo

08/07/2015

às 23:53

#prontofalei – Aterrissa, Dilma!

Por Reinaldo Azevedo

08/07/2015

às 16:41

Presidente Dilma, vamos ser claros: se a senhora fica, é ruim; se sair depois de um longo desgaste, é ruim! Renuncie ou encaminhe para já a emenda parlamentarista. O Brasil merece a sua generosidade

Michel Temer, vice-presidente da República e coordenador político do governo na relação com o Congresso — e só nisso, note-se —, não deve deixar por agora essa função. Em algum momento, é certo que deixará. Mas por que o faria já? Seria largar o governo, vamos dizer, no mar da incerteza. Se, com ele na retaguarda, Dilma Rousseff já comanda a vanguarda da instabilidade, imaginem sem ele. A eventual saída da governanta tem de ser organizada. Não pode ser a explosão da manada da vaca louca. O transatlântico está emperrado. Não pode afundar. Então, parece-me, a natureza do jogo é Temer ficar mais algum tempo. A temperatura ainda não subiu o suficiente. Até porque, a depender do caminho que tome o eventual afastamento de Dilma, é ele o sucessor.

Por que digo isso? O governo está dando como certo que o TCU recomendará mesmo a rejeição das contas de 2014. Por si, esse voto não conduz a uma denúncia por crime de responsabilidade. Há, pela frente, caso o tribunal realmente faça a recomendação, a votação no Congresso. Se o relatório for endossado, aí, sim, é praticamente certo que as oposições denunciarão a presidente à Câmara com base nos Artigos 10 e 11 da Lei 1.079. A tarefa continuará árdua. Nada menos de dois terços — 342 deputados — terão de acatar o pedido de investigação para afastar Dilma.

Notem: essa não é uma disputa que se trava num cenário congelado. Se isso ocorrer, os demais agentes estarão atuando. As expectativas vão se deteriorando ainda mais, a confiança do empresariado cai, os especuladores (porque é do jogo) atuarão… Quem surge como a figura capaz de representar a voz do equilíbrio? É certo que seu nome é Michel Temer. Se ele sai já, põe o carro adiante dos bois.

Ocorre que, numa outra frente, ele também pode ser inviabilizado. O caso que está no TSE não tem solução simples, não. Que resposta dará o tribunal se Ricardo Pessoa confirmar naquela instância o que está em sua delação premiada, a saber: teria repassado ilegalmente ao PT, sob pressão, R$ 7,5 milhões? Seria dinheiro sujo das negociatas na Petrobras. Nota: a delação de Pessoa já foi homologada pelo STF. Aí, meus caros, a cassação da diplomação de Dilma atinge Temer. Se isso ocorrer antes do fim do segundo ano de mandato, é preciso marcar novas eleições para o período que restar até 2018.

O caminho da Justiça Eleitoral, no entanto, é longo. Alguém pode pedir vista — sem prazo para entregar o voto —, e cabem recursos. Enquanto isso, o país permaneceria numa espécie de “sursis”, à espera do nada. E por que digo que é à espera do nada?

Porque Dilma já não governa, vamos reconhecer. Aliás, nos bastidores, os petistas são os primeiros a concordar comigo. A sua única atuação na Presidência tem sido empurrar a realidade com barriga e lutar para não perder o cargo. Faltam três anos e meio para terminar o mandato, e a presidente não tem mais o que oferecer. Os petistas ainda tentam fingir que é a oposição que turbina a instabilidade. Mas todos sabem, inclusive os companheiros, que isso é mentira: hoje, o nome da crise política, que impede o devido equacionamento da economia, é Dilma.

A melhor coisa que a presidente poderia fazer ao país é mesmo renunciar ao mandato. Sei que há pouca literatura política a respeito, mas afirmo mesmo assim: há uma hora em que os países só podem contar com a renovação das esperanças. Vira o grau zero a partir do qual se dá o primeiro passo. E Dilma já não estimula mais ninguém. Poderia contar com a força mobilizadora do seu partido, mas o PT também se descolou da realidade de maneira irremediável — e assim será por uns bons anos, se é que consegue recuperar ao menos parte do seu prestígio.

Dou a Dilma um linimento: ela não fez sozinha essa esparrela. A crise de um modelo caiu no seu colo e está a exigir uma capacidade que ela está obrigada a reconhecer que não tem. Assim, em nome do bem coletivo, deveria cair fora ou encaminhar ela mesma — porque outras forças não o farão — uma emenda parlamentarista para este mandato. Dilma ficaria como chefe de Estado, responsável última pelas Forças Armadas — a gente não está em guerra mesmo — e pela representação do Brasil no exterior. A gente só cortaria do repertório dela a mandioca, a bola de folha de bananeira e o lirismo da tocha olímpica. Ou melhor: a gente a proíbe de ler livros de antropologia antes de pegar no sono…

Como diria Chico Buarque: presidente, ouça um bom conselho, eu lhe dou de graça. Inútil espernear que a crise não passa. Se a senhora resiste à deposição e fica, ruim para o Brasil. Se, depois de um longo desgaste, cai, ruim para o Brasil. Quando a senhora foi eleita, ganhou também o direito de renunciar. Exerça-o. Ou entregue ao Parlamento a tarefa de governar.

Por Reinaldo Azevedo

07/07/2015

às 7:11

Sobra loucura e falta método na fala de Dilma; em entrevista à Folha, volta a misturar delação com tortura e desafia: “Não vou cair; venha tentar, venha tentar!”

Polônio, personagem de Shakespeare, via método na loucura de Hamlet, o príncipe destrambelhado. Já fui tentado a apontar certo rigor nas maluquices que Dilma anda dizendo ultimamente. Mas desisti. O conjunto simplesmente não faz sentido e reflete os descaminhos de quem, afinal de contas, não sabe para onde vai nem o que virá. O discurso sobre o papel fundador da mandioca na civilização brasileira entrará como emblema jocoso de um momento em que o país raspa o chão. Há quatro dias, foi a vez de ela fazer poesia com a tocha olímpica, que, segundo disse, “é muito bonita, é verdadeiramente fantástica e vai ser sentida em vários municípios, desde a distante Amazônia, passando pelo Centro-Oeste, até São Paulo, Rio de Janeiro…” Santa Bárbara!!!

Nesse discurso, afirmou que “dentre todos os processos tecnológicos que a humanidade criou, destacam-se a cooperação e o fogo”. O que quer dizer? Nem Prometeu, que roubou do Olimpo o fogo para dar aos homens, seria capaz de explicar. Como diz uma amiga, Dilma anda lendo antropologia antes de dormir. Na melhor das hipóteses. Confesso que intuí ser em outro momento… Adiante. A presidente concedeu uma entrevista à Folha, que está na edição desta terça. A coisa não está bem.

Dilma voltou a atacar a Lei 12.850, que ela própria sancionou em agosto de 2013, que trata da delação premiada. Mais uma vez, associou as práticas hoje em curso com o período do regime militar. Reproduzo a sua fala ao jornal: “Eu conheço interrogatórios. Sei do que se trata. Eu acreditava no que estava fazendo e vi muita gente falar coisa que não queria nem devia. Não gosto de delatores. Não gosto desse tipo de prática. Não gosto. Acho que a pessoa, quando faz, faz fragilizadíssima. Eu vi gente muito fragilizada [falar]. Eu não sei qual é a reação de uma pessoa que fica presa, longe dos seus, e o que ela fala. E como ela fala. Todos nós temos limites. Nenhum de nós é super-homem ou supermulher. Mas acho ruim a instituição, entendeu? Transformar alguém em delator é fogo”.

Vocês sabem que tenho, sim, muitas restrições à Operação Lava Jato e que acho que não se está cumprindo rigorosamente a lei em muitos aspectos, mas a associação que Dilma faz é estupefaciente. Até porque a Polícia Federal é um órgão funcionalmente subordinado ao Ministério da Justiça. Uma coisa é apontar eventuais atropelos à ordem legal, e há; outra, distante, é tratar o que está em curso como atos de exceção de uma ditadura. Se fossem, tratar-se-ia, então, de um ditadura sob a égide do PT.

Num dado momento, afirma um entrevistador da Folha: “Parece que está todo mundo querendo derrubar a senhora”. E Dilma responde:
“O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, isso é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar. Se tem uma coisa que eu não tenho medo é disso. Não conte que eu vou ficar nervosa, com medo. Não me aterrorizam.”

É uma fala de vários modos imprudente. Em primeiro lugar, ela não vai cair se não houver lei que a derrube. E não se deve afirmar: “Venha tentar, venha tentar”. Quem é o sujeito oculto da frase? Que “você” é esse ao qual Dilma está se referindo? Ela está desafiando a Justiça? Ela está desafiando o Congresso?

Não houvesse temor, não teria convocado uma reunião de emergência com presidentes e líderes de partidos da base, como fez nesta segunda, exortando a todos a defender o governo. Os próprios convocados chamaram o encontro de “reunião anti-impeachment”. Ali se disse que o governo não cometeu ilegalidade nenhuma nas contas em 2014, embora um dos convidados tenha confessado que, hoje, há a avaliação de que o TCU vai, sim, recomendar a rejeição. A presidente tem até o dia 21 para prestar esclarecimentos. Se o tribunal recusar as contas e se o parecer for endossado pelo Congresso, abre-se o caminho para a denúncia por crime de responsabilidade.

Situação igualmente grave é a vivida no TSE, que apura se a campanha de Dilma usou recursos ilegais. No âmbito da delação premiada, homologada pelo STF, o empreiteiro Ricardo Pessoa disse ter repassado R$ 7,5 milhões oriundos do propinoduto da Petrobras para a campanha à reeleição da presidente. E aí? O TSE já cassou mandato por muito menos. Dilma sabe muito bem que está na corda bamba, não é? Se o STF homologou a delação de Pessoa, será que o TSE pode simplesmente ignorar o que diz? Comprovada a doação ilegal, a presidente pode ter cassada a sua diplomação — isto é, perder o mandato. Então conviria que ela deixasse para a lei resolver a questão.

Uma resposta de Dilma não deixa de ter um tom intrigante. Os entrevistadores perguntam o que acontecerá se resolverem mexer com a sua biografia. Ela responde:
“Ô, querida, e vão mexer como? Vão reescrever? Vão provar que algum dia peguei um tostão? Vão? Quero ver algum deles provar. Todo mundo neste país sabe que não. Quando eles corrompem, eles sabem quem é corrompido.”

Duas observações relevantes. A lei não pune apenas quem rouba para si, para o enriquecimento pessoal. O roubo que financia um partido é também criminoso. Logo, Dilma não precisa ter enchido os bolsos de dinheiro. Basta que se demonstre que Pessoa fala a verdade, e ela cai. De acordo com a lei. O segundo ponto: diz ela que, “quando eles corrompem, eles sabem quem é corrompido”.

A presidente tem alguma sugestão?

Dilma perdeu mais uma chance de ficar calada. Quando um presidente da República diz “não vou cair”, é porque sabe que cresceu enormemente a chance de… cair. E a sua biografia de ex-militante de um grupo terrorista não tem nada com isso. Pode perder o mandato por lambança fiscal ou por lambança eleitoral. Ainda não é o pior dos mundos. Se Rodrigo Janot não fosse tão generoso, poderia ser por causa dos descalabros na Petrobras.

Presidente, está sobrando loucura e faltando método.

Texto publicado originalmente às 5h59
Por Reinaldo Azevedo

02/07/2015

às 23:18

Dilma é hostilizada por dois brasileiros na Universidade Stanford

Uma falha na segurança permitiu que dois brasileiros — um deles é Igor Gilly — se aproximasse da comitiva da presidente Dilma Rousseff nos corredores da Universidade Stanford, na Califórnia. A presidente estava ao lado de Condoleezza Rice, ex-secretária de Estado dos EUA quando se ouve a primeira manifestação. Transcrevo as falas do vídeo:

Primeira voz – Cadê o dinheiro da Petrobras, Dilma?
Gilly – Terrorista! Vai cair, hein!?
Primeira voz – Vai cair!
Gilly – Vai cair!
Primeira voz – Fala do Foro de São Paulo, Dilma!
Gilly – Terrorista que rouba a população tem mais é de ser morto!
Primeira voz – Cadê o dinheiro da Petrobras?
Gilly – Cadê o dinheiro da Petrobras? Seus comunistas de m…, seus pilantras, petistas vagabundos! Enquanto a população está passando fome, vocês, aí, estão viajando com o nosso dinheiro, seus m…! Seus b…! Comunistas! Assassina!

Jaques Wagner, ministro da Defesa, tenta responder: “Dig: tá com muito dinheiro do papai no bolso?”

E Gilly contra-ataca: “Não, porque eu não sou petista como você”. Dilma assassina! Sua comunista de m…! Aí, ó, pessoal, isso aí é a comitiva do PT, desse bando de ladrão…

Segurança brasileiro – [tentando afastar Gilly]. Com licença, com licença.
Gilly -  Não, vocês não vão [incompreensível] aqui nada, não, véio.
Segurança brasileiro – Com licença, com licença.
Gilly – Dá licença, você!
Segurança americana – I’m sorry. You’re gonna have to go. Thank you! Thank you very much!
Gilly – Ó, ó o pessoal querendo me expulsar aqui.
Segurança americana - Thank you! Thank you very much!
Gilly (afastando-se) – Comitiva de bando de ladrão! Bando de ladrão!
Segurança americana – We’re asking you to leave; so you need to go.

Assista ao vídeo:

Por Reinaldo Azevedo

30/06/2015

às 21:44

Eu é que não vou reclamar, mas é fato que o PT sofreu um apagão de inteligência política

Não contem comigo para lamentar. Eu não. Ao contrário. Aplaudo de pé a ocorrência. O PT sofreu um apagão político. O petrolão, em associação com a ruindade do governo Dilma, transformou aquele que pretendia ser a força hegemônica da política para todo o sempre, numa tábula rasa. Eles não sabem mais nada. Diante da realidade, comportam-se como ignorantes absolutos.

Para não variar, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, meteu os pés pelos pés e saiu com todos eles no peito das oposições porque estas entraram com um pedido na Procuradoria-Geral da República para que investigue a presidente Dilma Rousseff e o ministro Edinho Silva (Comunicação Social) por extorsão.

O pedido foi motivado pelas revelações feitas pelo empresário Ricardo Pessoa, da UTC, que disse ter sido pressionado por Edinho a doar R$ 7,4 milhões à campanha de Dilma, em 2014, no segundo turno. Segundo o empresário, ao pedir o dinheiro, Edinho teria lembrado os contratos da UTC com a Petrobras.

Muito bem! É até compreensível que Cardozo critique o pedido, mas é preciso ver em que termos o faz. E ele sempre o faz da pior maneira. Classificou a inciativa de um “factoide juridicamente ridículo”, que busca “atingir a honra da presidente e de um ministro de estado”. Entendi. Fazer oposição deveria ser proibido no Brasil.

Cardozo ainda não percebeu que esse tempo já passou.

À Folha, disse ele: “É triste a tentativa de utilizar o Ministério Público e a Operação Lava Jato para algo que é um verdadeiro nonsense jurídico”. Sim, é uma opinião. Todo mundo tem. É como as orelhas. Alguns as têm pequenas. Outros, gigantescas.

Faltaria a Cardozo expor seus argumentos, além do fígado. E ele tentou. E aí fica claro onde está o ridículo, onde está o nonsense. Disse ele que tal solicitação (a apuração) “já foi feita no âmbito de uma investigação, a Operação Lava Jato”, razão por que “não é necessário pedir investigação de algo que já está sendo investigado.”

Com o devido respeito, uma ova! Até onde se sabe, nem Dilma nem Edinho Silva são investigados. Ou são? De resto, ainda que Cardozo goste de furtivos encontros com Rodrigo Janot, a resposta cabe ao procurador-geral, não é mesmo?

Quem exorbita de suas funções, aí sim, é um ministro da Justiça que tenta tornar ação ilegítima aquele que é um lídimo direito da oposição. Ou, então, Cardozo que demonstre que, diante de uma denúncia de tal gravidade, é ilegítimo que partidos de oposição recorram à Procuradoria-Geral da República.

Cardozo, sim, deveria temer o ridículo. Guido Mantega se especializou em contabilidade criativa. E ele, em direito criativo.

Por Reinaldo Azevedo

30/06/2015

às 16:58

Dilma volta a meter os pés pelas mãos e se refere à Lava Jato pela segunda vez, com aquela sua típica falta de jeito. Também ela vai estimular os vícios da Lava Jato, não as virtudes

Sou do tipo que aprende com a experiência alheia. Costumo, sim, usá-las para orientar minhas escolhas. Já tomei uma decisão: não vou fazer a dieta Ravena, à qual aderiu a presidente Dilma. Por que não? Concluí que não faz bem. Como não sei se ela anda tomando algum remédio de receita retida, estou atribuindo certas falhas de raciocínio da mandatária ao regime alimentar a que está submetida. A silhueta está, de fato, mais esguia. No gênero, faz boa figura. Mas o efeito em sua retórica tem sido devastador. Nesta terça, ela decidiu evocar a Idade Média para se referir à Operação Lava Jato. Já explico por que ela disse isso. É mais um briefing mal lido.

Vamos ver. Na semana passada, no anúncio dos jogos indígenas, que vão acontecer no Tocantins entre fim de outubro e começo de novembro, decidiu cantar as glórias da mandioca, demonstrou que o homo sapiens veio à luz quando fez uma bola de folha de bananeira — ao lado da mulher sapiens — e nos convidou a saltar de uma janela em companhia do governador do Piauí, Wellington Dias.

Nesta segunda, deu outra mandiocada. Comparou os delatores da Operação Lava Jato a Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira, e afirmou que não respeita delatores, embora tenha sido o seu governo a propor a Lei 12.850, da delação premiada, que ela própria sancionou. No auge do delírio, usou-a como exemplo e deixou claro que não confessou nem sob tortura. Ou por outra: restou no ar a censura aos empreiteiros por não terem mentido.

Nesta terça, Dilma voltou a atacar a Lava Jato. Vejam que despropósito: no Brasil, a presidente não falou sobre a operação. Desandou a tratar do assunto nos EUA. Ainda que se possa afirmar que só o faz porque a imprensa exige, é evidente que ela tem saídas. A resposta óbvia: “Aqui nos EUA, trato das relações entre os dois países e da inserção do Brasil no mundo. Abordarei esses outros temas no nosso país”. E pronto!

Mas aí é preciso ter o que se chama “experiência social”. Dilma não é do ramo. Aliás, no que respeita às instituições e à solenidade dos respectivos cargos e funções da República, o Brasil mais tem parecido um boteco ou um bordel.

Com efeito, algumas prisões que estão em curso, supostamente ancoradas na teoria do domínio do fato, lembram o que se chama “responsabilização objetiva” — isto é: inculpar alguém simplesmente porque estava no comando de uma organização, sem nem mesmo a evidência de responsabilidade. No meio jurídico, em razão de minudências que não vêm ao caso, trata-se tal expediente como uma prática medieval — expressão a que recorreu dia desses o próprio Teori Zavascki, ministro do Supremo.

Nesta terça, referindo-se à operação, disse a presidente que “é preciso ter o maior respeito pelo direito de defesa ” e “só se condenar quando se provar”. E emendou: “Esse é o princípio básico da civilização ocidental. que nós compartilhamos”. Até aí, bem. Para a presidente, a prática de fazer “ilações sem acesso dos acusados às peças acusatórias” é “um tanto quanto Idade Média”.

É visível que ela não sabe direito do que está falando. Além da inconveniência de se referir pela segunda vez à Operação Lava Jato em solo estrangeiro, é evidente que Dilma passou a fazê-lo depois de pressionada por Lula e pelo PT. E essa pressão se tornou marcação cerrada depois que Ricardo Pessoa fez acordo de delação premiada. E, como se viu, ele não se preocupou se estava alvejando A ou B. Saiu disparando. E, como não poderia deixar de ser, o mais atingido é o próprio PT. Adivinhem por quê.

Se eu fosse um dos presos da Operação Lava Jato ou um dos enrolados no caso, estaria mais temeroso a partir de ontem. Dilma em defesa de uma causa costuma ser um desastre de grandes proporções. Pior: a sua popularidade está ao rés do chão. Ela faz uma escolha, e a população, o contrário. Ela vai para um lado, e a maioria dos brasileiros, para outro.

Há exageros e exorbitâncias óbvias na Lava Jato. Operadores independentes do direito e pessoas sem quaisquer vínculos com a área — eu, por exemplo — as têm apontado. É um dever! Quando, pressionada por Lula e pelo PT, que estão com medo, Dilma entra atropelando ou a lei, ou a lógica, ou a gramática, ou o bom senso — e, às vezes, tudo isso ao mesmo tempo —, mais alimenta, ela também, os vícios da Lava Jato do que lhe estimula as virtudes.

Ela e advogado Celso Antonio Bandeira de Mello seriam expulsos de uma loja de cristais pelos elefantes: “Não queremos seres desastrados aqui”.

Presidente, calada, a senhora vinha sendo uma verdadeira poeta.

Por Reinaldo Azevedo
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados