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Arquivo de dezembro de 2009

31/12/2009

às 21:22

FELIZ “FELIZ ANO NOVO”!!!

Tinha como certo que não escreveria nada neste dia 31 além daqueles três textos da madrugada. Mas vocês são mesmo incríveis e me mobilizam. E o que começou como um trabalho - e, bem, é um trabalho - se tornou também um prazer ao qual é difícil, freqüentemente impossível, renunciar.

Caras e caros, estou aqui a lhes desejar um feliz “Feliz Ano Novo”. Acrescento  outro adjetivo àquilo que já é uma fórmula, um clichê, uma expressão desgastada, na tentativa de fazer com que a estranheza inicial nos remeta ao sentido original da expressão, recuperando, assim, a sua vitalidade.

Estamos entrando em nosso quarto ano juntos. É só o começo de uma longa trajetória. Como vocês estão cientes, não sei profetizar. Quase nunca conjugo verbos no futuro ou aceno com amanhãs gloriosos. Mesmo quando trato do mistério, o Deus que prodigalizo é aquele que nos fala do milagre da Razão. Assim, não tenho promessas a fazer, não tenho auroras a vender, não disponho de uma maleta de utilidades de onde tirar futuros sorridentes.

Estou atento à vida, ao ofício do dia-a-dia, a todas as pequenas maravilhas com que nos defrontamos, mas também às mesquinharias. No começo desta madrugada, estava mergulhado no meu Santo Agostinho e suas considerações sobre como podemos nos entristecer do bem divino,  e, de repente, ouço um alarido, alguns gritos que misturavam riso e pânico. Eram as filhas. Com o coração na garganta, corri em seu socorro. Uma barata havia decidido participar da festa de encerramento do ano.

Nos segundos em que a persegui, vi correr aquele desengonçado e triste poema de Deus, tão precisa, mas tão inadequada em suas perninhas articuladas, repetindo eternamente a sua milenar escansão. Se eu disser que a vida é feita de asco e delicadezas, não estarei dizendo nada. Porque somos nós a colar esse contraste às coisas; somos nós a ornar com antíteses e outros brocados a realidade na tentativa desesperada de emprestar um sentido à existência.

E é precisamente esta a nossa felicidade e a nossa grande dor (de novo, o contraste): somos carentes de sentido. E isso nos torna a todos dignos de pena, mas também de amor. A barata me driblou, ganhou o jardim e sumiu vegetação adentro, mato adentro, eternidade afora, lá onde outras reiteram uma barata ideal, uma barata ancestral.

Somos tão distintos daquele bicho? As ciências naturais não teriam grande dificuldade em demonstrar que, estruturalmente, há mais semelhanças do que diferenças. Mas só nós carregamos a cruz da consciência. E isso nos torna tão únicos e tão sós. E, por isso, precisamos tanto do outro, do ombro solidário, do abraço amigo.

Feliz “Feliz Ano Novo”¸ meus queridos!

Por Reinaldo Azevedo

31/12/2009

às 4:11

CRISE MILITAR: SEU NOME É DILMA ROUSSEFF

Ainda que eu tivesse cometido algumas injustiças com Lula, coisa de que discordo, de uma certamente eu o teria poupado: jamais o considerei um idiota. Nunca! Até aponto a sua notável inteligência política, coisa que não deve ser confundida, obviamente, com cultura. O governo vive, a despeito das negativas, uma crise militar. Que é muito mais grave do que se nota à primeira vista. Ela foi originalmente pensada nas mentes travessas de Tarso Genro, ministro da Justiça, e Paulo Vanucchi, titular da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Mas tomou consistência e corpo nos cérebros não menos temerários da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata do PT à Presidência, e de Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, hoje e cada vez mais o Rasputin deste rascunho de czarina que pretende suceder Lula.

O imbróglio não deixa de ser um ensaio geral do que pode ser um governo Dilma. Se vocês acham que a ópera, com o tenor Lula, tem lá seus flertes com o desastre, vocês ainda não sabem do que é capaz a soprano. A crise atual mistura temperamento macunaímico, sordidez e trapaça. Dilma, Franklin e Vanucchi, a turma da pesada que, no passado, optou pelo terrorismo e hoje ocupa posições no alto e no altíssimo escalões da República resolveu dar um beiço nos três comandantes militares. O tiro, tudo indica, saiu pela culatra. E sobrou uma lição  aos soldados. Vamos devagar.

Tratemos um pouco do que vocês certamente já sabem e um tanto do que talvez não saibam. Na semana passada, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos publicou um decreto, devidamente assinado pelo presidente Lula. Entre outras providências, instituía uma tal Comissão Nacional da Verdade para investigar crimes contra os direitos humanos cometidos durante o regime militar.

Pois bem.  A questão havia sido negociada com os comandos militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. E olhem que estes senhores tinham ido bastante longe - e fica a lição: com essa gente, ceder um braço corresponde a ceder os dois, mais as duas pernas e também a cabeça. Os militares aceitaram a criação da tal comissão desde que o texto não restringisse a apuração de violações ao governo militar: também as organizações terroristas de esquerda teriam sua atuação devidamente deslindada.

É preciso dizer com clareza, não? Dilma Rousseff pertenceu a uma organização terrorista, homicida mesmo: a Vanguarda Popular Revolucionária. Franklin Martins também praticou terrorismo. O seu MR-8 seqüestrava e matava. Vanucchi foi da Ação Libertadora Nacional, o que significa dizer que era um servo do Manual da Guerrilha, de Carlos Marighella, um verdadeiro manual de… terrorismo, que pregava até ataques a hospitais e dizia por que os bravos militantes deviam matar os soldados.

Pois bem… Quiseram os fatos que estes três se juntassem, com o conhecimento de Tarso Genro, para redigir - alguém redigiu a estrovenga; falo de aliança política -,  aquele decreto. E o combinado com os militares não foi cumprido: além de especificar que a Comissão da Verdade investigaria apenas um lado da batalha,  há propostas singelas como estas:
- determina que as leis aprovadas entre 1964 e 1985 sejam simplesmente revogadas caso se considere que elas atentam contra a tal “verdade”;
- determina que os logradouros públicos e monumentos que tenham sido batizados com nome de pessoas ligada ao “regime” sejam rebatizados.

Vocês entenderam direito: Lula assinou um decreto que não só dá um pé no traseiro do alto comando como, ainda, anuncia, na prática, a EXTINÇÃO DA LEI DA ANISTIA - para um dos lados, é óbvio. É isto: eles tentaram rever a tal lei. Viram que isso não é possível. Decidiram, então, dar uma de Daniel Ortega, que mandou suprimir trechos da Constituição de que ele  não gosta.

LULA SABIA
Já disse: não tomo Lula por idiota - porque só um idiota não saberia. Mas admito: muita coisa tem as digitais do presidente sem que ele tenha a menor idéia do que vai lá. Isso é possível, sim. É por isso que existe uma CASA CIVIL. Não há - NOTEM BEM: NÃO HÁ - decreto presidencial que não tenha a chancela desse ministério. É uma de suas funções - a rigor, é uma de suas principais tarefas.

Logo, funcionalmente, a responsável pelo texto é Dilma Rousseff. Que já se manifestou a favor da revisão da Lei da Anistia, ainda que dê outro nome ao que quer fazer.  A questão é saber se Lula se comportou como um cretino ou como um irresponsável: se assinou algo dessa gravidade na inocência, sem ter sido advertido pela Casa Civil, então foi feito de bobo e tem de demitir Dilma. Se, como imagino, sabia muito bem o que ia lá e decidiu testar a elasticidade ou complacência dos militares, agiu como um irresponsável.

Demissão
Trapaceados, os três comandantes militares decidiram pedir demissão. Os generais de quatro estrelas se reuniram para tratar de um assunto não ligado à profissão pela primeira vez em muitos anos.  A tal Comissão da Verdade terá de redigir um projeto de lei para ser enviado ao Congresso dando forma e caráter à tal investigação. Lula tem quatro opções:
1 - deixa o texto como está e negocia com os militares um projeto de lei que contemple a investigação dos dois lados;
2 - muda o decreto e o devolve ao que havia sido negociado;
3 - simplesmente recua do texto na íntegra;
4 - a quarta opção é dizer o famoso “ninguém manda nimim” e deixar tudo como está. Pois é… Só que o “tudo como está” pode significar uma crise sem precedentes, grave mesmo, com possíveis atos de indisciplina.

“A Lei da Anistia é um conquista do povo brasileiro, é seu patrimônio. E de milhares de pessoas que lutaram pela democracia. Por isso, mudá-la, na forma como querem fazer alguns, ou extingui-la é um atentado contra a própria democracia. É constrangedor assistirmos a cenas como essa”, afirma o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Frente Parlamentar de Defesa Nacional.

Terão os comandantes militares se esquecido do modo como operam as esquerdas, de sua vocação para o ato sorrateiro, para as ações solertes? Só isso pode explicar aquela primeira concordância com a tal Comissão da Verdade. Do conjunto da obra, resta, pois, essa lição. E também há uma outra: em matéria eleitoral e nessa política que precisa de voto, Dilma é uma teleguiada de Lula: sem ele, ela não existe. Mas  Dilma é quem é. E também quem foi. Com um simples decreto, que passou por sua mesa de ministra da Casa Civil, criou-se o mais grave incidente militar do governo Lula. O projeto é tê-la agora na Presidência. Vimos como agem com quem tem armas. Dá para imaginar do que são capazes com quem não tem.

Encerro
O nome da comissão - “da Verdade” - só pode ser coisa de algum piadista infiltrado no grupo. Como não pensar imediatamente em 1984, de George Orwell. Essa gente tem um perfil totalitário de manual; são stalinistas do calcanhar rachado. Querem até rever o batismo de logradouros públicos, num daqueles atos típicos de reescritura da história.

Eis um país com Dilma Rousseff no topo. E com Franklin Martins no topo do topo.

Por Reinaldo Azevedo

31/12/2009

às 4:09

Dois uísques a menos e Frolic Raivinha

Deixei vocês na mão ontem… Fiquei na prosa até mais tarde com um grupo de amigos. E aí achei que não seria prudente escrever. Sabem como é: a gente toma dois uísques e vai logo tentando conquistar o mundo. Só dois combustíveis movem os meus textos: água e Coca-Cola light - a light, não a Zero. Mais do que isso, deixo os textos pra lá. Não é prudente que os leitores fiquem duas doses a menos, hehe… Vocês são muito generosos. Os sete textos das férias já contam com 2.300 comentários (não inclui os de hoje). Esta amizade é mesmo duradoura.

Escrevi anteontem sobre as propagandas indecorosas da Caixa Econômica Federal, com óbvio apelo eleitoral - sim, também empresas privadas estão naquele ritmo de “ninguém segura este país”. Elas façam do seu dinheiro o que acharem melhor e sejam livres para puxar o saco de quem lhes for útil. O que me interessa é a violação das leis e das instituições praticada nas e pelas empresas públicas. Aí, realmente, as coisas se complicam bastante.

É evidente, como já apontei, que existe uma identidade de linguagem - e até o emprego das mesmas expressões -  entre as propagandas do governo, do PT, das estatais e de alguns potentados privados. É como se toda a sociedade estivesse unida em torno de um eixo: o estado. Não! Escolho melhor e mais apropriadamente as palavras: é como se governo, estatais, empresas privadas, partido e sindicatos de trabalhadores formassem um “feixe” - sim, um feixe de varas foi o símbolo do fascismo, como vocês sabem; o nome deriva justamente de “fascio” - “feixe”, que simboliza a união.

Nessa “união” não cabe a divergência, que é, então, satanizada e vista ou como sabotagem ou como uma tentativa de regressão, de volta ao passado. Já não se discutem mais proposições ou propostas. Em vez disso, busca-se relativizar - e negar - o direito que o oponente tem de  se… opor. Ele estaria querendo impedir o bem comum, que se torna monopólio de uma única força política. Quando o presidente Lula ou a ministra Dilma dizem que não acreditam que o Brasil “possa andar para trás”, colocam-se como a vanguarda de um suposto avanço, que só estará assegurado se eles continuarem no poder.  É a política do medo.

É claro que essa prática concorre para a deseducação. O melhor sinal de recuperação dos EUA, por exemplo, está menos na economia do que no desprestígio com que a população americana brindou Barack Obama, depois da formidável confiança que nele foi depositada. Está claro que aquele povo não aceita olhar para trás; também recusa o maniqueísmo. É bem provável que Bush, o demônio de plantão, seja mais popular hoje do que há pouco mais de um ano.

Há nessa reação um estoque de notável educação política, que contribui para aquele país ser o que é e ter a importância que tem. Sucessivos governos, bons ou ruins, competentes ou incompetentes, treinaram o povo no saudável jogo de resolver o presente e antecipar soluções para eventuais problemas futuros. O seqüestro da vontade e da razão, que costuma ser praticado por algumas lideranças políticas, quando acontece por lá, tem vida curta. Entre nós, infelizmente, esse discurso ainda é eficaz. E, obviamente, faz mal à saúde democrática.

Ora, numa compreensão regular da democracia, qualquer  resultado das urnas em 2010 deveria ser encarado como uma vitória de Lula. Vocês sabem: é aquele papo aborrecido das democracias. O governante ganha para manter as regras do jogo. O que diferencia o vitorioso da hora é o acento nesta ou aquela áreas da administração. O melhor da democracia é precisamente isto: ser previsível e chata. Quem gosta de emoções fortes são as tiranias, são os regimes de força. Mas não!

Lula não aceita ganhar ou ganhar. Ele só aceita ganhar ou perder. Porque não está preparado, à diferença do que dizem muitos bocós, para os rigores da institucionalidade. Se ele vencer, dará continuidade a seu ridículo esforço para apagar o passado. Se ele perder, não demora uma semana, e sua tropa estará preparada para sabotar o governo do vitorioso. Dá até para antever o mote: “Eu deixei tal projeto, ele  não executou; o país está caminhando para trás; olhem como tal coisa não avança”. Não há democracia respeitável que tenha sido construída desse modo. E a propaganda da CEF com isso?

No post abaixo deste, ainda volto ao tema. Vejam lá. A propaganda da CEF evidencia justamente essa compreensão torta do que seja democracia e a certeza de que eles vão apostar no vale-tudo. Gabrielli, o presidente da Petrobras, como vimos naquela entrevista ao Estadão, já está na ativa: resolveu complementar a mistificação publicitária com o terrorismo eleitoral descarado.

Lula poderia ganhar ou ganhar, mas quer ganhar ou perder. O problema é que, se ele ganha, perde o Brasil. Os petralhas ficam bravinhos ao ler isso. Pena! Vão lamber sabão ou encarar um pratinho de Frolic Raivinha.


Por Reinaldo Azevedo

31/12/2009

às 4:07

Ainda a CEF e a tabela do amor e do ódio

Ficou claríssimo no meu texto de anteontem que acho indecorosa qualquer propaganda oficial: federal, estadual ou municipal - e isso inclui o governo de São Paulo. É bem verdade que os petralhas acham que eu só provaria a minha isenção se defendesse que o governo tucano a suspendesse de imediato, deixando o terreno livre para o petismo mentir à vontade sobre os investimentos do governo Lula no Estado. Bem, isso, eles não lerão aqui.

Todos os governos de Estado anunciam; quase todas as capitais e metrópoles regionais fazem o mesmo. É uma porcaria que assim seja, sem dúvida. Ocorre que isso pode ser piorado. E é o que faz o governo federal. Os anúncios de São Paulo estão inequivocamente focados no serviço prestado pelo Estado e nas obras em andamento. É besteira tentar dizer que “é tudo igual” porque não é. E eu não direi que é para que os petralhas relevem: “Ah, gente, ele reconheceu ao menos…” Digo de novo: eles que se danem. Não são meus juízes. Aliás, nesse particular, são uma lástima: eu não quero ser aceito por gente que absolve mensaleiros e pilantras.

Que eu tenha visto, a CEF não está falando de oferta de crédito, de algum novo serviço ou coisa que o valha. Não! Trata-se da chamada propaganda institucional, para veicular o nome da empresa, a marca etc. Até aí, vá lá. Ocorre que o fez ligando a estatal àquilo que o governo e os petistas chamam as suas “conquistas”. Aí não dá. Por muito menos, o Ministério Público botava a boca no trombone no governo FHC. E agora silencia de modo miserável.

Assim, não tentem os petralhas vir com a tese de que “é tudo igual”. Neste blog, isso não prospera. Eu só existo porque resisto às tentações do óbvio e do meio-termismo. Não sou político. Não preciso fazer concessões a ninguém. E não faço.

Outro dia alugém me disse: “Ah, você tem uns ódios gratuitos”. Bem, é mentira, mas, se fosse verdade, só me restaria dizer: “Mas os meu amores também são gratuitos”. Está cheio de vagabundo por aí que cobra caro para odiar. E cobra ainda mais caro para amar.

Por Reinaldo Azevedo

29/12/2009

às 2:59

O PT PRIVATIZOU A CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

Assistia a um filme com as minhas filhas (Dona Reinalda preferiu um livro),  que foi interrompido por uma propaganda da Caixa Econômica Federal  - uma das incontáveis intervenções  de estatais ou do próprio governo . O país permite esta sem-vergonhice, que é a propaganda oficial. Governos, nas três esferas, deveriam “se comunicar” com a população para anunciar serviços ou dar instruções a respeito deles. Nada mais. Mas não faremos a coisa certa nisso também. Se falta o devido apuro ético para acabar com essa bandalheira, ele não excederia na propaganda propriamente dita, não é mesmo?

E lá foi ao ar a mensagem da Caixa, exaltando as “conquistas” do pré-sal e a Olimpíada de 2016. E então me indagou a mais velha, indagação já com uma ponta de escárnio, com aquela inclinação, felizmente, para o maldizer: “O que é que o pré-sal e a Olimpíada têm a ver com a Caixa? Isso não é campanha eleitoral, Reinaldo Azevedo? Deveria ser proibido fazer propaganda para não anunciar nada”.

Ela me chama de “pai”, claro. O “Reinaldo Azevedo” de sua fala era parte da ironia; ela faz assim quando brinca de convocar, em família, o meu lado, digamos, “profissional”. E eu: “Sim, senhora M…C…, trata-se da mais descarada, óbvia e indecente campanha eleitoral. Até porque, se você reparar, daqui a pouco, entra a propaganda de uma mineradora e depois a de um banco privado. E todos eles exaltando, em consonância com a patriotada oficial, os valores do povo.  Parece que nem o banco nem a CEF vendem produtos bancários; parece que a mineradora não tira ferro da terra; até parece que todos eles estão ocupados unicamente em dar lições de moral, civismo, nacionalismo - e, obviamente governismo”.

Mas, aos 15 anos, os espíritos são realmente inquietos: “Isso não é ilegal, não?” E eu respondi que sim. “Entendi. Então vai ver eles fazem por isso. Se fosse legal, acho que eles não fariam”. Eu juro! As coisas aconteceram assim mesmo. Essa é a minha filha cética. Já contei aqui. Leu Hamlet para a escola e achou Polônio um bobalhão. “Mas M… C…, você não reparou que ele era um cara racional, um negociador, em meio a um monte de gente atormentada?”, perguntei, um tanto orgulhoso do meu papel de instrutor de uma jovem fazendo suas descobertas políticas. A resposta, confesso, me deixou mudo por alguns instantes: “Ah, pai, dava pra sacar que, com Hamlet, não iria adiantar, né? Era perda de tempo.” Era perda de tempo.

Aprendi, assim, que, com efeito, não adianta mobilizar os idiotas para a causa da razão. Como não adianta convocar um exército de injustos para a causa da justiça. Mas isso fica para outra hora. Volto para a questão da propaganda. Depois da CEF, da Vale, do Bradesco, do Banco do Brasil, da Ford, da Brahma, entre outras, a exaltar o Brasil grande, único, sem par, que parece ter sido fundado ontem, veio a inserção sobre Lula, O Filho do Brasil, que estréia no dia 1º. É aquela fita que dispensou incentivos da Lei Rouanet porque as empresas que amam o Brasil, muitas delas pertencentes a setores altamente regulados, faziam fila para dar a sua contribuição à arte.  Ainda não vi. Mas até amigos de esquerda ficaram com vergonha.

Não quero me desviar do principal. As empresas privadas - ou quase - façam o que quiserem do seu dinheiro. Indecente é que empresas publicas levem ao ar uma propaganda que repete a linguagem - incluindo as palavras de ordem - da propaganda oficial e do próprio PT em suas inserções na televisão. Trata-se, obviamente, de um abuso.

Aí os petralhas tentam zombar, com aquele senso de humor que lhes brota entre o casco e a ferradura “Mas você não se cansa de denunciar abusos?” Não!  Não enquanto “eles” não se cansarem de praticá-los. Imaginem se o Ministério Público já não teria gritado “Fogo, fogo na floresta!” se os petistas estivessem na oposição.

Nunca antes nestepaiz o estado e as empresas estatais foram tão instrumentalizadas a serviço dos poderosos da hora. E nunca é “nunca” mesmo - incluindo as ditaduras do Estado Novo e militar. Quando não fala a propaganda oficial, fala o próprio dirigente de uma estatal, a exemplo  daquela “entrevista” concedida por Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, ao Estadão.

Qual a utilidade de escrever textos como este? Dizer a verdade e deixar o registro histórico!!! Para um jornalista, é o bastante. Os homens de estado e os políticos que se encarreguem de tomar as providências legais.

Por Reinaldo Azevedo

29/12/2009

às 2:57

POR POUCO OBAMA NÃO VAI PELOS ARES

Por pouco o presidente dos EUA, Barack Obama, não tem o seu destino selado pela Al Qaeda. Graças a Deus, o terrorista falhou, e o avião não explodiu. Obama é um dos presidentes mais impopulares dos EUA - se não for o mais, a ver - ao encerrar o primeiro ano de mandato. Um grande atentado em solo americano poria tudo a perder. E ele sabe disso.

George W. Bush cometeu muitos erros etc e tal. “Cadê as armas de destruição em massa do Iraque?”, gritam os fanáticos de um erro só (para os que consideram aquela guerra um erro; não é o meu caso.) Sim, quase todos adoravam detestar Bush, mas, como se nota, a necessidade da guerra contra o terror não era uma fantasia da extrema direita americana, como queria a turma do miolo mole.

E as medidas de segurança agora adotadas tornam o conjunto mais duro do que as regras vigentes no governo Bush. Mais um recuo de Obama? Serei bom: mais uma concessão que ele faz à realidade. Aquele que foi eleito era uma fantasia. Muitos dos que o elegeram estavam certos de que a Al Qaeda era só uma invenção da máquina de guerra do Pentágono. E os democratas souberam instrumentalizar muito bem essa bobagem e convertê-la em voto.

E, no entanto, a Al Qaeda existe e só não mandou um avião para os ares, em solo americano, porque, felizmente, o terrorista era um incompetente. Como incompetente se mostrou o sistema de segurança que permitiu que entrasse em território americano. Por pouco Obama não foi pelos ares. E, como se sabe agora, o risco continua.

Que coisa, né? Bush virou um presidente sem passado virtuoso.  Só o futuro o contempla…

Por Reinaldo Azevedo

29/12/2009

às 2:55

Serra-Marina e o ódio

Havia escrito aqui há algum tempo que duas são as hipóteses que assustam os petistas: a primeira, evidentemente, é a tal chapa puro-sangue “Serra-Aécio”. Desnecessário dizer os motivos. A segunda é um eventual entendimento que leve a senadora Marina Silva (PV-AC) a ser vice na chama encabeçada pelo tucano. Diogo Mainardi escreveu uma coluna a respeito (ver abaixo).

Marina para vice? A depender do andar da carruagem, por que não? É o meu sonho para as oposições? Xiii, meu sonho passa longe. Volto ao tema oportunamente. Escrevo agora só para informar que a hipótese Serra-Marina deixa, com efeito, os companheiros muito nervosos.

A quantidade de ofensas que enviaram para cá prova isso. Ofensas a Diogo, a mim - claro!!! -, a Serra e à própria senadora, tratada pelos petralhas como uma “traidora”. Sempre vi tal hipótese com grande ceticismo.  Mas o ódio da petralhada me faz pensar. Por que tanto rancor, afinal?

Por Reinaldo Azevedo

28/12/2009

às 4:41

EU QUERO QUE A MASSA SE DANE!

Continuam as manifestações sobe o caso do garoto Sean Goldman. Reitero: essa história me interessa menos por suas particularidades do que pelo que tem de genérico: seguir a lei, no Brasil, está sendo visto como ofensa.

Alguns advogados ou candidatos a tanto me convidam a ver e entender que a lei “é dialética”, seja lá o que isso signifique. Certamente vem de gente que não fez uma pequena pesquisa no blog para saber o que penso sobre esta “Senhora Dialética”, especialmente quando manejada por penas ineptas. O que é um dado da realidade — todos os eventos, naturais ou sociais, estão sempre submetidos a forças desiguais, às vezes contraditórias em si — se transforma ou em apologia da esquizofrenia ou em burrice pura e simples: considera-se que o mal deriva do bem, e o bem, do mal. De modo que fica parecendo que a melhor maneira de se conquistar o que se quer é investir no seu contrário. Ora, é justiça que queremos? Então o primeiro e óbvio passo é ver o que dizem as leis. Sempre falo tendo por base, é claro, um estado democrático — destacando que, mesmo nas ditaduras, nem toda “resistência” busca a democracia, não é mesmo? Dilma Rousseff sabe disso. Ela “lutou” contra a ditadura tendo em mente uma outra ditadura. Mas volto ao ponto.

O ministro Gilmar Mendes seguiu a lei no caso Sean — e não apenas as leis brasileiras, é bom que se diga. Também estava e está amparado em regras de convivência entre os países. Chegou-se a alegar, ridiculamente, que o menino foi trocado por um acordo de natureza comercial. Ainda que os dois eventos tivessem correlação, fica parecendo que foi o dito acordo que reinterpretou a lei. A verdade é que se procurou, de maneira solerte, reler a lei à luz do acordo, num conhecidíssimo truque da vigarice argumentativa: “post hoc, ergo propter hoc”. Ou: “depois disso, logo, por causa disso”. Já escrevi um post sobre falácias lógicas muito comuns numa argumentação. Está aqui. E que se note, hein: digamos que o conjunto dos brasileiros pudesse realmente ser prejudicado porque duas famílias brasileiras resolveram desafiar as leis do Brasil, as leis dos EUA e as convenções internacionais: seria “justo” que lograssem seu intento e fossem bem-sucedidas? Ocorre que se trata apenas de uma mentira.

Aliás, mentiras e imposturas não faltam a essa história. Querem vigarice maior, em que se refestelou a nossa imprensa, do que chamar David Goldman de “pai biológico”? Que outro pai Sean tinha? O chamado “padrasto” havia, por acaso, adotado legalmente o menino? David havia concordado com a adoção? Também ficamos sabendo de uma porção de perversidades desse “pai biológico”… É mesmo, é? E quem nos deu ciência de tudo aquilo? É notável que esta seja a terra de Machado de Assis, não é?, o autor de Dom Casmurro, o romance em que o adultério é sempre narrado por aquele que está convicto de ter sido traído.

Machado ensinou pouco à nossa imprensa. Especialmente quando ela decide se enrolar na bandeira. Mais um pouco, os “guerreiros” daquela marca de cerveja sairiam gritando seu nacionalismo cachaceiro: “Eu sou gerreirooo… Sena é nosso!!!” E só mais um detalhe sobre essa questão para voltar ao tema geral: menino, Sean estava com uma camiseta da Seleção. Se fosse menina e se chamasse Sarah, como estaria caracterizada a criança para excitar a nossa irracionalidade nacionalista? Seria preciso recorrer a alguma escola de samba? Sairia do país caracterizada de porta-bandeira? Carregaria na cabeça um tabuleiro com vatapá, caruru e munguzá?

E tudo por quê? Porque achamos que o cumprimento da lei não nos serve. A lei seria apanágio de povos mais justos do que o nosso, de modo que cairíamos, então, numa espécie de roda-viva legislofágica: já que as leis são porcamente cumpridas no Brasil, então a gente deixa de cumpri-las quando isso é possível para que não sejamos injustos. Entenderam? Querem outro caso momentoso, não menos midiático? A liberdade do médico Roger Abdelmassih, decisão também tomada por Gilmar Mendes.

Se a “voz do povo” — ou como queiram chamar os consensos que vão pelas ruas — fosse um saber inquestionável, não precisaríamos de leis, de juízes. A rigor, nem mesmo de ciência. E não é difícil saber onde estaríamos. Eu, vocês, a torcida do Corinthians, do Flamengo e todas as outras acreditamos que ele é culpado? Sim. Existe o devido processo legal? Existe. O pedido de prisão tinha como premissa o risco de que ele voltasse a atuar como médico. Isso está nos autos. Eu não inventei. Nem Mendes inventou. Seu registro foi cassado, e o risco que embasou o pedido, portanto, não existe. O que faz o ministro? Mantém o sujeito na cadeia com base na sua eventual convicção de que ele é culpado? Mantém o cara preso porque soltá-lo é impopular e ofende a nossa indignação com as muitas impunidades do Brasil? É ESSA A JUSTIÇA QUE QUEREMOS?

Entendo o argumento que pretende apontar que foram os bons advogados de Roger que conseguiram fazer a sua causa chegar célere ao Supremo. Há certamente muitos encarcerados em situação irregular. Mas é Mendes quem responde por tal trâmite? Um ministro do Supremo deve, ao se deparar com uma situação como essa, pensar em quantos são os injustiçados no Brasil, mandar os autos às favas e decidir segundo ou a voz rouca das ruas ou mesmo segundo as suas convicções pessoais? SERÁ QUE ASSIM SE FARÁ MESMO MAIS JUSTIÇA DO QUE SE FAZ HOJE?

As críticas, de resto, fazem tabula rasa do notável trabalho que Gilmar Mendes vem fazendo à frente do Conselho Nacional de Justiça, e um de seus alvos tem sido, justamente, o emperramento das justiças estaduais. ATENÇÃO: A PRISÃO PREVENTIVA NÃO PODE SER USADA COMO ANTECIPAÇÃO DE PENA NEM PARA UMA FIGURA COMO ABDELMASSIH NEM PARA NINGUÉM. Se Mendes tivesse decidido contra os autos nesse caso, a Justiça como um todo estaria sendo confortada? Estaria sendo atendida? TODOS QUEREMOS ESTE SENHOR NA CADEIA PORQUE ESTAMOS CERTOS, DADOS OS MUITOS DEPOIMENTOS, DE QUE ELE COMETEU UM CRIME ABOMINÁVEL. Mas ele tem de ser punido dentro da lei, não fora dela. Se queremos civilização, o caminho é este; se queremos barbárie, então escolhemos atalhos e protagonismo judicial destrambelhado.

Mas e as injustiças que campeiam Brasil afora? Ora, lutemos contra elas. Entendo que o CNJ vem dando uma grande contribuição à causa. Que a OAB entre para valer na luta, ao lado de outras associações de advogados, juízes etc. Mas sempre tendo a lei como referência. Já escrevi aqui certa feita que defender o estado de direito para quem faz tudo certo é coisa tranqüila; quero ver é sustentá-lo diante dos criminosos. E também já escrevi que não é difícil entender o direito das santas; difícil é entender o direito das putas.

Em Máximas de Um País Mínimo, lê-se: “Se alguém desafiasse: ‘”Prove, articulista, que o estado de direito, que segue os ritos processuais, é mais justo do que os tribunais populares’,  haveria uma grande chance de a civilização do estado de direito parecer mais ineficiente, mais fraca, do que a barbárie do tribunal popular. Há casos em que é mais fácil exibir cabeças do que provas. A convicção plena, às vezes, é um tanto desamparada.”

Não cedam à tentação das soluções fáceis e erradas para problemas difíceis.

Para encerrar
Recebi algumas dezenas de comentários de leitores que escreveram coisas mais ou menos assim: “Você está sempre errado, é um bobo (eles preferem adjetivos mais fortes), mas, no caso Sean, está certo; espero que ao menos este comentário você publique etc e tal”. Bem, não os publiquei porque não sou do tipo que sofre com carência afetiva e que pretende ser simpático àqueles que detesta e que o detestam. Continuem a me odiar. Não precisamos ser amigos. Mesmo!!! Na verdade, vi nessas observações uma falha adicional de caráter — e de inteligência.

Não ocorrem duas coisas a esses simplórios — na verdade, três:
1 -se estou certo nessa questão, posso estar certo nas outras também;
2 - se estou errado nas outras questões, posso estar errado nessa também.

E isso nos conduz à terceira, que vem como conclusão: acham que sou bacana quando penso como eles pensam e que sou uma pessoa nefasta quando divergimos. Assim, não querem ler um articulista; pretendem apenas ler a si mesmos na pena de outro. Não obstante, estão convictos de que um dos meus males é a arrogância…

Aprendam os que ainda não sabem: eu não dou a menor pelota para a massa, para o homem-massa, para a grita das ruas. Eu quero que a massa se dane!

Por Reinaldo Azevedo

27/12/2009

às 6:39

TERRORISMO ELEITORAL

Comentei ontem a, por assim dizer, entrevista de Sérgio Gabrielli a Estadão. Na dita-cuja, ele afirma que, se os tucanos tivessem vencido em 2002 ou 2006, ao menos parcelas da Petrobras teriam sido privatizadas. Trata-se de mentira e de terrorismo eleitoral. Mesmo assim, a acusação foi parar na primeira página do jornal e com o sentido distorcido contra os tucanos. Afirmei aqui um fato: o PSDB jamais tomou qualquer iniciativa nesse sentido. E, dadas a história e as lideranças do partido, jamais tomaria. Alguns leitores entenderam, então, que seu seria contrário à privatização da Petrossauro.

Eu? Vocês estão brincando??? Vendo até Jardim da Infância. O que escrevi é que o governo FHC jamais pensou no assunto e que tampouco José Serra, se eleito, a ele dedicaria um dedo de prosa. Isso nada tem a ver com as minhas convicções. Tem a ver apenas com os fatos. Será preciso civilizar muito a tigrada até que um debate como esse possa ser feito no país. Por muitas décadas ainda a Petrobras continuará a dizer como o Brasil deve se portar. Não fiz juízo de valor sobre privatizações. Apenas sustentei que as palavras de Gabrielli são mentirosas. E o desafiei a apresentar elementos — já que os jornalistas do Estadão não tiverem a curiosidade de indagar onde estavam — que corroborassem a sua tese. Ele não vai apresentar porque se trata de uma impossibilidade física. Tais elementos não existem.

Gabrielli está apenas fazendo terrorismo eleitoral, tarefa a que muita gente está dedicada neste momento — e aquilo que já começa a ser chamado de “imprensa tradicional” (vivendo seus “últimos dias de paupéria”) está cheio dele. Leiam esta nota na coluna de Elio Gaspari de hoje:

DIREITA, VOLVER
A marquetagem petista tem o sonho de transformar a eleição presidencial num plebiscito em torno da figura de Nosso Guia. Se o Padre Eterno lhe conceder essa graça, há outro pedido: que Ele ajude a empurrar José Serra para a direita. Alguns comissários acreditam que, aqui e ali, suas preces já foram ouvidas.

Viram só? Gaspari está vendo sinais de que Serra caminha “para a direita” — ou melhor, ele atribui tal “visão” aos petistas, mas, a exemplo de Gabrielli, também se dispensa de elencar os fatos. Pra quê. Sim, manifestação de terrorismo eleitoral! O jornalista em questão, como sabem, costuma escrever para os que habitam “o andar de cima” (como ele gosta) intelectual. Já um Gilberto Dimenstein não tem essas veleidades. Como poderia? Num troço chamado “Pensata” da Folha Online, escreve o que segue — recomenda-se cuidado aos de estômago fraco. Volto em seguida:

Se alguém quiser saber a relação entre eleições e escolaridade, basta ler o artigo publicado por Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.
Segundo seu artigo, se os eleitores fossem mais informados, a eleição presidencial já estaria empatada –com Dilma e Serra em torno de 37%.
Chega-se a essa conclusão a partir de uma informação: o número de eleitores que votariam, com certeza, num candidato indicado por Lula. Ocorre que uma percentagem deles não sabe que Dilma é candidata de Lula –isso depois de tantas imagens dos dois juntos, bombardeadas há tanto tempo.
Daí se vê como é difícil, devido à baixa escolaridade, ter debates mais profundos. Se uma parte do eleitorado nem sabe que Dilma é a candidata do Lula (outros, aliás, nem sabem que ela é candidata), imagine quantos estarão informados para entender e acompanhar os debates sobre o futuro do país.
Isso ajuda a fazer das campanhas basicamente shows, com poucos debates –e cada candidato tenta tirar maior proveito da desinformação.

Voltei
Leitores me mandaram e custei a crer que fosse verdade, confesso. Fui conferir para ver se não se tratava de uma dessas correntes da Internet. Não! Está lá mesmo. Ele realmente escolheu o fundo do poço. Para começo de conversa, imaginem se um articulista qualquer sugerisse que eleitores do PT são ignorantes… O mundo viria abaixo.

Em segundo lugar, o artigo a que ele se refere não afirma nada disso. Isso é puro Gilberto Dimenstein. Devo supor, então, que foi fruto da ignorância, não de uma escolha, a eleição de Lula em 2002 e em 2006? Dada a tal baixa escolaridade, a democracia brasileira estará, então, condenada até que o problema seja superado? O que quer este senhor? Primeiro a gente educa a população, dá escola adequada, e só depois oferece democracia? Se Dilma vier a empatar com Serra, o déficit educacional estará equacionado? Caso ela vença, ele terá sido vencido?

Dimenstein escreve mal, coitado!, coisa que todo mundo com um mínimo de intimidade com a língua já sabe. E seu texto torto é fruto de seu pensamento torto. Mas não tem os sensores tão prejudicados que não saiba o nome do que pratica: CAMPANHA ELEITORAL. Ademais, é evidente o corolário do seu raciossímio: mais informação, mais votos no PT…

Arrematando
Sempre digo tudo aos leitores, não é? Alguns vigaristas, pretendendo desqualificar a crítica que aqui se faz, acusam: “Vejam lá o que Serra MANDOU ele escrever”. É mesmo? Eu, porque escrevo o que escrevo, estaria sob as ordens de Serra. E eles? Porque escrevem o que escrevem, estariam sob as ordens de quem? Vai ver eu sou mais burrinho do que outros e prefira a contramão, não é mesmo?

Quanto à petralhada, que imagina que tudo tem um preço, dizer o quê? Se eu estivesse à venda, não custa lembrar que há um lado que pagaria bem mais… Essa gente se acostumou com o ódio gratuito — e o amor muito bem remunerado — de seus subjornalistas de serviços.

Por Reinaldo Azevedo

26/12/2009

às 6:21

O GAROTO SEAN - O AMOR NÃO SE REGOZIJA COM A INJUSTIÇA, MAS COM A VERDADE!

Lamentável, deplorável, detestável — escolham aí os adjetivos desse paradigma — o carnaval promovido pelo ramo brasileiro da família do garoto Sean Goldman. Lamento: não há amor que justifique isso. ATÉ PORQUE O AMOR NÃO ESTÁ ACIMA DA LEI; O AMOR ESTÁ É EM OUTRO LUGAR. E, havendo amor, então é preciso que haja também bom senso. Estamos assistindo, com ampla cobertura de uma imprensa que, na média, também perdeu a medida, a uma espécie de concupiscência do sofrimento — um sentimento um tanto perigoso —, a que se somaram rasgos, calculem, de nacionalismo e até de teorias conspiratórias.

A presença desse menino do Brasil, contra a vontade de seu pai, de quem ele foi tirado, era SIMPLEMENTE ILEGAL. O Brasil já se viu na posição contrária e atuou para trazer de volta as suas crianças, e é o certo. É vexaminoso, se querem saber, que esse caso tenha chegado ao Supremo, o que pode ser atestado por qualquer pessoa com um conhecimento mínimo de direito. Lamento dizer que tenho minhas dúvidas se essa história teria chegado tão longe não fosse a fidalguia de uma das famílias envolvidas  — Lins e Silva, do padrasto do menino. Um padrasto, à altura em que estavam as coisas, em situação muito especial.

Vestir no garoto a camisa do Brasil, mimetizando um confronto entre países, é não só ridículo; é perverso também. Os parentes do menino que assim procederam imputaram-lhe perdas adicionais, não fosse a tristeza, natural, de se afastar das pessoas com as quais conviveu nos últimos cinco anos. O que pretendem? Que se sinta  para sempre estrangeiro em seu próprio país? Que resista a uma identidade a que tem direito? O apelo ao presidente Lula — e é chocante que alguns príncipes do direito tenham permitido tal investida — parece entender que o Brasil é um país sem leis, onde vigora a vontade do soberano; a verdadeira campanha que se desencadeou contra o ministro Gilmar Mendes — que decidiu segundo a lei — pretende pôr uma sombra de irracionalidade e emocionalismo numa decisão impecável. O que queriam as famílias Bianchi e Lins e Silva? Que as leis valessem para todos, menos para os fidalgos amorosos?

Vi a avó materna do garoto ontem na TV. Com a devida vênia, esta senhora está fazendo dumping de sofrimento. Mais do que ela, certamente sofre o menino Sean, submetido a um bombardeio emocional inacreditável, que só falta convocar a honra da pátria e acusar, sei lá, o imperialismo americano… Na TV, ela não teve dúvida: atacou Gilmar Mendes, COM TODA AQUELA AUTORIDADE E LICENÇA QUE AS PESSOAS QUE SOFREM TÊM PARA DIZER BOBAGENS E PARA SER INJUSTAS. E a televisão levou ao ar. E levará outras vezes. Porque isso é o filé das emoções baratas. Nem vou indagar se, fosse numa situação inversa, não estaria a pátria sendo igualmente mobilizada para trazer de volta um “brasileirinho”. Ela deitou falação. E fomos informados que o ministro preferiu não comentar. COMENTAR O QUÊ?

Há um processo de criminalização no país de quem segue as leis. Os “sofredores” podem ir para a televisão, como verdadeiros aiatolás, e declarar uma fatwa contra a reputação de A ou de B; afinal, se eles sofrem, então estão necessariamente certos. E que se danem as leis, a Constituição, os tratados internacionais. Depois do “Direito Achado na Rua”, chegou a hora do “Direito Achado nas Lágrimas”. E ele dá, então, licença até mesmo para seqüestros amorosos.

Chamem Salomão! Tenho dúvidas sobre o que fariam alguns desses sofredores se o Rei mandasse cortar a criança ao meio… Se as leis não bastam aos inconformados, eu lhes recomendo o “Amor”, aquele da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios:
“O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

É isto: O AMOR NÃO SE REGOZIJA COM A INJUSTIÇA, MAS COM A VERDADE!

Parem de expor essa criança em praça pública. Sejam mais comedidos. Sejam mais amorosos. Sejam menos soberbos e concupiscentes em seu sofrimento. E não peçam que o país revogue as leis e os tratados internacionais porque, afinal, vocês estão tristes. Não permitam que tanto afeto ajude a tornar muitos brasilerios ainda mais estúpidos. Deixem os holofotes de lado e se apeguem a São Paulo!

Por Reinaldo Azevedo

26/12/2009

às 6:19

DEPOIS DA ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA PETROBRAS: QUALQUER DELINQÜÊNCIA É PERMITIDA? OU: COMO AGIR QUANDO O ENTREVISTADO MENTE? É LÍCITO AJUDÁ-LO A MENTIR?

Pego o Estadão desta sexta, dia de Natal, e leio no alto da página: “Gabrielli diz que PSDB privatizaria Petrobras”. O jornal trazia uma entrevista que o presidente da Petrobras concedeu a Roberval Angelo Schincariol e Tatiana Freitas. A íntegra está aqui. A introdução é laudatória e tenta temperar o caráter do militante petista com clichês da baianidade. Os entrevistadores até se orgulham de um pequeno furo jornalístico, a saber: “Seu orixá é Obaluaiê, o “dono da terra”, como revelou à imprensa pela primeira vez nesta entrevista. Mas bem que o baiano José Sérgio Gabrielli poderia ser chamado de “príncipe do mar”. Em seus quase quatro anos à frente da Petrobrás, ele anunciou a conquista da autossuficiência brasileira em petróleo (2006); a descoberta do pré-sal (2007-2008); e a consequente listagem da Petrobrás entre as maiores companhias de energia do mundo.”

Se você conseguiu sobreviver até o Natal de 2009 sem saber que o orixá de Gabrielli é Obaluaiê, não posso prever que efeitos tal revelação há de provocar em sua vida de agora em diante. O que sei é que, em nenhum momento, o texto lembra que as mais importantes conquistas das Petrobras se deram em razão da quebra do monopólio, havida em 1997, que permitiu a entrada do capital estrangeiro na exploração e produção. A informação aparece na página, numa pequena pílula, em que o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal, é chamado a responder àquela acusação que vai no título.

Reproduzo em vermelho o trecho que trata da privatização. Volto em seguida:

O sr. acredita que se o presidente Lula não tivesse sido eleito em 2002 e reeleito em 2006, a Petrobrás teria chegado ao pré-sal no momento em que chegou?
Essa pergunta é difícil de responder diretamente. Eu diria o seguinte: até 2003, a Petrobrás estava sendo preparada para ter um conjunto de atividades com muita eficiência em vários ramos e com pouco ganho no sistema como um todo e estava sendo inibida no crescimento do seu portfólio de exploração. A partir de 2003, os investimentos aumentam, a Petrobrás tem uma participação mais ativa nos leilões, redefine sua organização interna de forma a ter um fortalecimento das atividades corporativas no conjunto da companhia e acelera a renovação de seus quadros. Isso foi uma mudança de orientação política na Petrobrás. Se seria possível atingir sucesso com a política anterior é difícil dizer. Agora, que o sucesso atual depende das mudanças feitas, isso é certo. Evidentemente que há muita sorte em encontrar petróleo. Mas apenas sorte não é suficiente. Você não perfura um poço a 300 km de distância da costa e a milhares de metros de profundidade só confiando que Deus é brasileiro.

Se o resultado da eleição tivesse sido outro, qual caminho o sr. acha que Petrobrás teria tomado?
Só posso reafirmar que a Petrobrás estava a caminho de se transformar numa empresa muito eficiente separadamente e que perderia a capacidade de integração entre as diversas áreas da companhia. Teria investimento e crescimento menores do que teve. Provavelmente teria menos preocupação com o controle nacional, portanto teria menos impacto no estímulo da indústria brasileira. Teria focado suas atividades em setores diferentes do que foram focados. E o resultado disso é difícil especular qual seria. Seria uma empresa diferente do que é hoje.

O sr. acha que ela poderia ter sido privatizada, por exemplo?
Como um todo, acho difícil. Mas partes dela poderiam (ter sido privatizadas). Seria difícil uma privatização total da Petrobrás, mas partes dela, sim.

Comento
Com a devida vênia ao Estadão, isso não é entrevista. Parece mais um gol de Thierry Henry. Trata-se de uma desmesurada condução. As intenções, aliás, já estavam anunciadas desde as primeiras palavras, quando os entrevistadores afirmam que as empresas estrangeiras do setor estariam preocupadas com a eventual eleição de Dilma Rousseff; já no caso de Serra ser eleito, ele tentaria mudar os marcos regulatórios do pré-sal. O atual governador de São Paulo jamais esboçou uma vírgula a respeito.

Entrevistadores e jornais têm de pôr o gravador à disposição do entrevistado, sem dúvida. Têm o dever profissional de ouvi-lo, mas também de confrontá-lo. A dupla deixou que Gabrielli exercesse à vontade o modelo “nunca antes na Petrobras”, como se as conquistas da empresa fossem apenas obra do governo Lula e da gestão do filho de Obaluiê… Até aí, vá lá, já perdi certas esperanças. MAS, DIANTE DA AFIRMAÇÃO DE GABRIELLI DE QUE OS TUCANOS TERIAM PRIVATIZADO PARTE DA PETROBRAS SE TIVESSEM VENCIDO, HÁ OBRIGAÇÕES DO JORNAL QUE SÃO INDECLINÁVEIS:

- O ESTADÃO ESTÁ OBRIGADO A DIZER QUE JAMAIS UM TUCANO APRESENTOU QUALQUER PROPOSTA DO GÊNERO;
- O JORNAL ESTÁ OBRIGADO A DIZER QUE OS TUCANOS CONSIDERAM ESSA ACUSAÇÃO AQUILO QUE ELA DE FATO É: FRUTO DE TERRORISMO ELEITORAL;
- NÃO BASTA ENTREVISTAR JOSÉ ANÍBAL. E VOU DEMONSTRAR POR QUÊ.

Qual é o padrão do Estadão?
Qual será, de agora por diante, o procedimento do Estadão? O entrevistado diz o que bem entende, com ou sem base na realidade, o jornal registra e parte para ouvir o agravado? Se os tucanos acusarem petistas de quererem instalar no país um regime que entrega aos companheiros todas as virgens, o que vai fazer o jornal? Publicar a acusação e o desmentido do PT? POIS EU DESAFIO A DUPLA ENTREVISTADORA, O ENTREVISTADO E A DIREÇÃO DO JORNAL A ME PROVAR QUE É MENOS VEROSSÍMIL O MONOPÓLIO PETISTA DAS VIRGENS DO QUE A PRIVATIZAÇÃO DA PETROBRAS. Se o Estadão publica uma coisa, estaria obrigado a publicar outra. OU O JORNAL PASSA A FAZER CAMPANHA ELEITORAL GRATUITA PARA O PT.

E o faz com ainda mais clareza quando publica a informação na primeira página  — E COM O TÍTULO ERRADO. Errado? É. Na sua acusação delinqüente, mentirosa, sem fundamento, o presidente da empresa está se referindo ao passado, não ao presente. Lê-se na primeira página: “Grabrielli diz que PSDB privatizaria Petrobras”. MESMO ELE SENDO QUEM É, NÃO FOI ISSO O QUE ELE DISSE. Ele afirmou que “teria privatizado” — referindo-se, pois, ao passado. Ao optar simplesmente pelo “privatizaria”, o jornal muda o sentido da fala e a coloca como um suposto risco presente — ainda que na boca do dito-cujo.

Temos, assim, uma entrevista que começa nos informando, num furo fenomenal, o orixá de Gabrielli; que lhe atribui méritos que não são seus; que ignora as razões reais da conquista da Petrobras; que tenta ligar, sem qualquer evidência para isso, o candidato da oposição à pretensão de empresas estrangeiras e que levanta a bola para o entrevistado fazer uma acusação historicamente criminosa — porque mentirosa — e que vai parar na primeira página com o sentido distorcido, como se o original já não fosse asqueroso o bastante.

O NOME DISSO, REPITO, É CAMPANHA ELEITORAL. E Gabrielli sabe como fazer. Este filho de Obulauiê é jornalista. Conhece a área, não é mesmo? E já deu mostras de que não gosta da categoria — a menos que ela faça o trabalho que ele espera.  NOTEM QUE A ACUSAÇÃO QUE O ESTADÃO LEVOU PARA A PRIMEIRA PÁGINA NÃO É FEITA NEM NAQUELE BLOG DA EMPRESA.

Perguntem ao Estadão qual é o padrão que o jornal vai seguir de agora em diante. Se for na base do acusou, publicou, sem confrontar o entrevistado, estamos diante de uma pequena revolução. E antes que me torrem a paciência com obviedades, a dupla entrevistadora tinha a obrigação de indagar: “Mas quais são as evidências ou, ao menos, os indícios de que o PSDB TERIA PRIVATIZADO partes da Petrobras?” E aquele faroleiro não teria o que dizer. Não teria porque ele estava inventando. Mas sua inventação foi parar, piorada, na primeira página.

Isso é perda de critério, perda de parâmetro. De todo mundo. De entrevistado, dos entrevistadores e do jornal. Que o presidente de uma empresa de economia mista se dê a esse desfrute, convenham, já é prova do rebaixamento dos usos e costumes da política brasileira. Mas, afinal, ele é um petista. E petistas não estão nem aí para as instituições. Que entrevistadores prestem um serviço tão evidente — e pouco me importa se têm ou não clareza disso — ao entrevistado, aí já estamos diante de uma doença que atinge a imprensa. Que o jornal consiga, na primeira página, piorar a mentira, aí, queridos, estamos diante daquele mal a que me referi há dias, comentando um outro jornal: A MARCHA PARA A IRRELEVÂNCIA.

O MAL DOS JORNAIS NÃO ESTÁ NA INTERNET. ESTÁ NOS JORNAIS. E SEU NOME É ADESISMO.

Por Reinaldo Azevedo

24/12/2009

às 4:47

NA VEJA: “A chapa cabocla”. Por Diogo Mainardi

“Uma chapa formada por José Serra e Marina Silva embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando  de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff”

Os dois juntos, na mesma chapa. Quem? José Serra e Marina Silva. Isso mesmo: José Serra, presidente, e Marina Silva, vice-presidente.

A ideia ainda é embrionária. Só é debatida no interior de um grupelho do PSDB. Mas ganhou impulso na semana passada, depois que Aécio Neves renunciou à candidatura presidencial e assoprou para a imprensa petista que rejeita terminantemente uma vaga de vice-presidente na chapa de José Serra - a chamada chapa puro-sangue. Apesar de todos os apelos do PSDB, Aécio Neves repetiu aos seus interlocutores que pretende candidatar-se ao Senado e dedicar-se integralmente à campanha para eleger seu sucessor em Minas Gerais, Antonio Anastasia.

Uma chapa presidencial formada por José Serra e Marina Silva - a chapa cabocla ou, melhor ainda, a chapa mameluca - embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff. O plano petista de contrapor Lula a Fernando Henrique Cardoso - o único atributo que, depois de muito empenho, os marqueteiros conseguiram arrumar para Dilma Rousseff - iria para o beleléu, considerando que Marina Silva, por mais de cinco anos, também fez parte do governo Lula. E a impostura bolivariana de que o PSDB defende o interesse dos ricos e o PT defende o interesse dos pobres seria imediatamente desmascarada. Em matéria de pobreza, ninguém pode competir com Marina Silva.

José Serra e Marina Silva saíram do armário duas semanas atrás, em Copenhague, na COP15. Um elogiou o outro, um apoiou as propostas do outro. Eles conseguiram até deter o aquecimento global, congelando o Hemisfério Norte e matando de frio algumas dezenas de poloneses. José Serra já está com a campanha presidencial pronta. O que ele representa é a “continuidade sem continuísmo”. Para o eleitorado, ele manterá as conquistas de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, e ainda poderá dar um passinho adiante. Apesar de atemorizar os banqueiros, José Serra é capaz de sossegar o lulista mais conservador. Se Marina Silva concordasse em se unir a ele, sua candidatura ganharia também um aspecto mais moderno, um caráter mais inovador.

Marina Silva, por outro lado, como candidata a vice-presidente poderia dar um sentido prático à sua plataforma ambiental, coordenando essa área no futuro governo José Serra. Reinaldo Azevedo, em seu blog na Veja on-line, disse que Marina Silva, mais do que candidata a presidente, é candidata a santa. Cruzei com ela recentemente e confirmo: ela levita. Elegendo-se na chapa de José Serra, ela teria a possibilidade de, finalmente, voltar a pisar no chão.

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 19:59

TARSO, O INVENTOR DA “POLARIZAÇÃO EM TORNO”

Ah, essa é irresistível. Leio o seguinte no Estadão Online. Comento em seguida:

Por Elder Ogliari:
O ministro da Justiça, Tarso Genro, previu hoje que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará no centro dos debates eleitorais nacional e estaduais em 2010. “Serão eleições muito polarizadas em torno do governo Lula, em torno do significado do governo Lula para o País, em torno do antes e do depois, em torno da nossa relação com a crise, em torno da articulação federativa que o presidente fez na sua relação com os Estados e tudo isso tem que ser debulhado e exposto no debate”, disse.

Em Porto Alegre, onde participou hoje da cerimônia de adesão de 50 cidades do Rio Grande do Sul ao Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), Tarso voltou a dizer que a possível candidata do PT à sucessão de Lula, a chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, tem “o melhor cabo eleitoral do mundo”, que é o próprio presidente.

Ele lembrou ainda que Dilma cresceu nas pesquisas de intenção de voto à medida em que o debate sobre a sucessão presidencial passou a conectar o nome dela ao de Lula. Porém, Genro não quis comentar seu empate, com 30% das intenções de voto, com o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), na preferência atual dos gaúchos para o governo do Estado.

Comento
Tarso, como vocês sabem, é aquele poeta da mão cheia. Isso deriva de seu enorme conhecimento da língua. Ele acaba de inventar uma categoria nova da física, que é a chamada “polarização em torno”, seja lá o que isso signifique. Politicamente, nós já entendemos: como os eleitores não têm nenhuma boa razão para votar em Dilma, o PT vai fazer de conta que Dilma é Lula. Posso imaginá-lo dizendo essas coisas, com aquele ar sério, compenetrado, fala compassada, com as palavras perseguindo, sem  sucesso, um pensamento.

Tarso não quis explicar por que já começam a diminuir as intenções de voto em seu nome. É uma pena! A sua Polícia Federal já fez tanto pelas eleições no Rio Grande do Sul, não é mesmo? Mas, tudo indica, será inútil.

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 17:34

CORREÇÃO

Como muitos leitores notaram, cometi um erro ao fazer a tabela da pesquisa Datafolha no Paraná quando os irmãos Osmar e Álvaro Dias estão na simulação. O texto estava correto, mas a tabela não. Já corrigi o post original. Seguem de novo os números. Continuo a cuidar dos comentários.

COM ALVARO DIAS
Osmar Dias (PDT) 42
Álvaro Dias (PSDB) 28
Orlando Pessuti (PMDB) 05
Lygia Puppato (PT) 01
Melo Viana (PV) 01
Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 17:15

CERTA IMPRENSA PAULISTA INVENTOU A ARQUEOLOGIA DE ESQUERDA E A ENCHENTE DE DIREITA

Alô, Musa da Enchente e das Invasões de Reitoria!

Temporal em São Paulo! Não aqui no meu bairro, mas deve estar em algum lugar. Hora de  tirar do arquivo aquele texto que já está pronto culpando o Serra e o Kassab — para ser usado depois na campanha eleitoral dos “companheiros” — e sair para colher depoimentos tristes.

Como bem disse certa colunista, num rasgo de iluminação, tem chovido mais nos estados governados pelos tucanos… Gênia da raça! Não é bem assim. O Piauí quase morreu afogado e é governado pelo PT.

É que, para certo colunismo, chuvas em estados governados pela oposição são antropogênicas — na verdade, tucanogênicas. Já aquelas em terras governadas pelo PT são fatalidades da natureza.

Vocês viram alguma reportagem em tom dramático sobre o que se deu em Osaco? Algum repórter apareceu de galochas na TV pra mostrar como vive o povo sofrido? O prefeito deu as caras?

A imprensa paulista inventou a arqueologia de esquerda, conforme comentei ontem, e a enchente de direita. É o “partido” em ação.

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 16:53

A ARROGÂNCIA DE LULA COM OS ANDRAJOS DA HUMILDADE

Lula participou, como todo ano, de um evento com moradores de rua em São Paulo — ou catadores de papelão (material reciclável), como queiram. Prova de sua humildade? Não! para variar, evidência de sua arrogância. É a sua cerimônia do lava-pés; trata-se de mais uma tentativa, entre muitas, de rivalizar com o próprio Cristo. Poucos se dão conta  de que esse negócio mais se parece com a celebração da pobreza do que com o seu combate.

No seu discurso, fica claro que existe um “outro”, um grande ser difuso, que é culpado pela existência dos moradores de rua e que também é contra a solução: “Tem uma parte da sociedade que não quer vocês morando no Centro. Neste país, é assim. Todo mundo quer feira, mas não quer a feira na rua de casa. Todo mundo quer ponto de ônibus, mas não quer ponto de ônibus na porta de casa. Todo mundo quer delegacia, mas não quer próximo. Prisão, então, ninguém quer. Pobre é bom para a gente ver em filme, não para morar no prédio que a gente mora.”

Qual “parte”? Lula culpa um grande “outro” para que possa exaltar a própria e suposta grandeza. Ele tem um ministério que cuida do assunto. Qual é o saldo em sete anos? O programa Minha Casa, Minha Vida está sendo vendido como aquele que já criou um milhão de casas. Deve fechar o ano que vem com menos de um terço disso. Esse programa vai exatamente na CONTRAMÃO DA OCUPAÇÃO DE IMÓVEIS VAZIOS NOS CENTROS DEGRADADOS DAS GRANDES CIDADES. De modo equivocado, ele cria bairros populares em áreas distantes, cujo destino é a degradação, além de ampliar enormemente a demanda por infra-estrutura, o que ferra a vida dos municípios e dos estados.

De resto, que tal comparar os programas existentes em São Paulo para atender aos moradores de rua com os que NÃO EXISTEM em Belo Horizonte, sob o comando do PT até 2008? Aliás, na capital mineira, a prefeitura petista mandou cercar os logradouros públicos que estavam sendo usados como moradia pelos sem-teto. E não apareceu nenhum padre de passeata para reclamar. Lula diria que “há gente que não quer pobre no centro”. Em tempo: sou contra gente morando em logradouro público. As pessoas têm de ser tiradas de lá. Ponto! O público é público. Não pertence nem ao com-teto nem ao sem-teto.

“Pó, você critica tudo o que o Lula diz”. Critico e continuarei a criticar enquanto ele não se livrar dessa compulsão à demagogia egocêntrica, que mistura o discurso populista mais rasteiro com laivos de messianismo.

Perto do Natal, nunca é demais lembrar que, para os crentes ao menos, Messias é um só. Os outros todos não passam de falsos profetas.

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 15:57

ESTE BLOG E O FIM DO ANO

Queridos,

Há ainda mais de 400 comentários na fila. Já cuido deles. No ano que vem, tomara!, teremos uma estrutura melhor para atender à demanda dos leitores. Crescemos, não é? Então chegou a hora de cuidar do crescimento.

Amanhã, dia 24, publico os últimos posts deste ano. Depois, Tio Rei vai passear e fica um tempinho longe. O BLOG SÓ VOLTARÁ A OPERAR REGULARMENTE NO DIA 11 DE JANEIRO.

O que quer dizer “operar regularmente”? Quer dizer que, se vocês entrarem na página entre o dia 25 e o dia 10, há a possibilidade de eu ter postado alguma coisa, enviado alguns comentários etc. MAS SEM COMPROMISSO!!! Olhem que preguiçoso!!!

Vou ficar “internado” numa praia, tentando esquentar os ossos, enregelados pelo esfriamento local — aqui em São Paulo. Hoje, até que está quentinho… Mas certamente ficarei com saudade de vocês. E é bem possível que sinta a necessidade imperiosa de dividir com as queridas e os queridos alguma idéia de última hora para salvar a humanidade (risos).

Então está combinado: amanhã, vamos ver a que hora — eu aviso — encerro o trabalho regular, que só volta no dia 11. No intervalo, posso aparecer aqui a qualquer momento. Assim, sejam pacientes com os comentários. Uma vez enviados, eles podem demorar algum tempinho até aparecer na página. Ainda falaremos mais de Natal e fim de ano.

Abraço,

Reinaldo

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 7:19

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 7:07

NO MORRO DO ALEMÃO E EM MANGUINHOS, LULA, CABRAL E DILMA METEM DINHEIRO NA MEIA, NA CUECA, NA BOLSA…

O presidente Lula, a candidata à Presidência pelo PT, Dilma Rousseff, e o governador Sérgio Cabral (PMDB), que vai disputar a reeleição, participaram ontem da inauguração de apartamentos no Morro do Alemão e em Manguinhos, no Rio. Fizeram campanha eleitoral aberta, clara, rasgada. E ilegal! Eis o problema: a lei deixou de ser uma referência para a política e para os políticos. Ao contrário: quando alguém se lembra de cumpri-la, certos setores são tomados de verdadeira indignação… cívica!!! Quando políticos usam recursos públicos, a exemplo do que o grupo fez ontem, em benefício de seu partido ou das próprias candidaturas, estão, de modo oblíquo, metendo dinheiro na meia, na cueca, na bolsa de couro. Trata-se de uma apropriação de recursos públicos. E é por isso que a lei coíbe tal prática. Pior ainda: os discursos de Lula e Dilma são um primor de autoritarismo e de desprezo pela democracia. O de Cabral, como de hábito, faz a política parecer um circo, de que ele é o Torresmo.

Comento daqui a pouco a linguagem empregada na cerimônia de ontem. Quero insistir na questão legal porque resta evidente que mesmo aqueles setores da sociedade que deveriam se encarregar de vigiar os abusos  — entre eles, a imprensa — abrem mão espetacularmente de seu papel. E não se caracterizam só pela omissão, não. Está em curso a exaltação da ilegalidade, que está sendo chamada por certos colunistas de “profissionalismo”. Assim, todas aquelas transgressões acintosas à lei que se viram ontem no Alemão e em Manguinhos seriam, na verdade, fruto da esperteza e da competência. Já é um clichê e um truísmo: um governo que trabalha com valores corrompidos acaba corrompendo também a sociedade. É o que vemos.

Os governadores de Estado cassados pelo TSE por “abuso do poder econômico” eram aprendizes de feiticeiro perto do que se viu em Manguinhos e no Morro do Alemão. E, no entanto, estão fora. A Justiça Eleitoral só age quando provocada. A oposição poderia “provocá-la” o quanto fosse. Nada aconteceria. A instância que tem poder para pegar alguns peixes de porte médio não tem musculatura para enfrentar os tubarões. Seria perda de tempo. Mas, a dar bola para certo colunismo, errado está o governador José Serra, que se nega a entrar nessa lama legal para a qual Lula insiste em arrastá-lo. Faz muito bem! Não tem de entrar mesmo. É claro que o país e a democracia precisam de uma oposição competitiva. Mas precisa também de uma oposição que respeite a lei, já que o governo não a respeita.

Em Manguinhos, a “candidata” Dilma anunciou a “continuidade do governo Lula” porque “temos certeza de que não vamos deixar o Brasil voltar atrás”. E Lula emendou: a não-continuidade — que, na linguagem dos valentes, corresponderia à não-eleição de Dilma — poria em risco as obras que estão em andamento: “Se elas pararem, será um retrocesso para o Brasil”. É claro que se trata de um terrorismo eleitoral pedestre. E, é evidente, o presidente cantou as próprias glórias, sugerindo que, antes de seu governo, o país estava parado. As obras em curso derivariam da iniciativa do governo federal, o que é piada. Não! Não é uma piada! É uma mentira! O PAC é uma fantasia.

Segundo Dilma, “o Brasil foi um país muito desigual porque abandonou, voltou as costas, porque não tinha uma política para as populações mais pobres”. E mais: “O presidente Lula, até pela sua própria experiência de vida, nunca deixou de colocar o seu governo a favor dos mais pobres. Estamos acabando com o abandono e a absoluta falta de consideração”.  Nem me ocupo, porque já fiz isso muitas vezes, de demonstrar que se trata de uma escancarada mistificação. Até os petistas devem saber disso. O que impressiona é que essa é uma linguagem de palanque.

E, se Lula gosta de um palanque, Cabral não fica atrás. Em clima de programa de auditório, Cabral chamava as pessoas ao “palco-palanque” para entregar as chaves e as convidava a discursar. Teve de ouvir da moradora Angélica Gomes da Rocha: “Meu filho tinha 16 anos, morreu na covardia, com policiais, dentro da Mandela de Pedra. Disseram que tinha troca de tiros, mas não tinha.” Era uma pobre real assaltando o espaço da fantasia. Mas Cabral estava em dia de êxtase. Aproveitou para lançar o nome de Lula para a Secretaria Geral da ONU (seria uma punição merecida!). Também disse que o presidente já meteu o “pé na merda”. Definitivamente, os governistas decidiram falar “merda” em seus discursos.

A favela de Manguinhos e o Complexo do Alemão são áreas sob o domínio do narcotráfico. A festança que se viu lá ontem só aconteceu porque esses digníssimos representantes do estado brasileiro negociaram com seus homólogos daquele outro país onde mandam os traficantes. Eles deram a autorização para o que o chefe de estado do Brasil, sua ministra e o governador do asfalto entrassem ali.

Ah, claro: antes do circo eleitoral, Lula concedeu uma entrevista a uma rádio em que afirmou que o governador José Serra não seria um bom técnico de um time  — era o nosso “Chance” metaforizando, fazendo a política se parecer com um jogo de futebol… A isso, reitero, certa imprensa chama, de modo boçal, de “profissionalismo”, como se política “fosse assim mesmo”. E, sabemos, não é. Em nenhuma democracia do mundo.

Isso é só mais uma contribuição para o contínuo rebaixamento institucional da política  — na verdade, do país. E parte da imprensa naufraga junto. Em vez de censurar o desmando, cobra do pré-candidato de oposição que faça o mesmo. Porque fazer o errado, o ilegal, passou a ser visto como sinal de esperteza. Lula oferece a corda. E essa imprensa a que me refiro a coloca alegremente no pescoço.

Por Reinaldo Azevedo

23/12/2009

às 7:03

GOVERNO LULA É “NEUTRO” SOBRE UM MOVIMENTO QUE SEQÜESTRA E DEGOLA

As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) seqüestraram e degolaram o governador do Departamento de Caquetá, Luís Fernando Cuéllar. Não que pessoas decentes tenham qualquer dúvida sobre o caráter terrorista das Farc, mas o episódio serve para lembrar mais uma vez quem é e o que pensa aquela gente. E evidencia por que a Colômbia precisa da colaboração internacional — no caso, americana. Além das Farc, ali do lado está o aliado dos narcoterroristas, Hugo Chávez, que tem em postos-chave das Forças Armadas pessoas acusadas de envolvimento com os terroristas do país vizinho e com o tráfico de armas.

Lembram-se de Raúl Reyes, o pançudo que morreu no ataque que a Colômbia fez a uma base das Farc no Equador? Ele tinha um computador. Lá estão registrados as promessas dos delinqüentes venezuelanos de que as Farc receberiam bazucas. E receberam. As armas pertenciam ao Exército da Venezuela.

Fiz a digressão, mas não me desviei. Cito o caso do justificado ataque da Colômbia ao acampamento do Equador porque me lembrei da indignação de Marco Aurélio Top Top Garcia. Indignação com o Equador, que acoitava narcoterroristas??? Claro que não!!! Ele condenava a… Colômbia. À época, concedeu uma entrevista ao jornal francês Le Figaro. Traduzi aqui. Vejam o que o governo Lula pensa das Farc, companheira do PT no Fórum de São Paulo:

Le Figaro - Que impacto terá a morte de Raúl Reyes para a libertação dos refèns ?
Top Top - De imediato, fiquei bastante apreensivo, mas as Farc disseram que sua morte não criará obstáculos à busca de um acordo humanitário. Tecnicamente, ela [a morte] pode criar alguns problemas: eu mesmo estava no terreno [de batalha], no fim de dezembro, quando as Farc retardaram a primeira libertação de reféns por causa da operação militar das Forças Armadas colombianas. Eu lhes lembro que o Brasil tem uma posição neutra sobre as Farc: nós não as qualificamos nem de grupo terrorista nem de força beligerante. Acusá-las de terrorismo não serve pra nada quando a gente quer negociar. A Colômbia expressa o desejo de não querer internacionalizar seu conflito com as Farc, mas, de fato, ele já tem repercussão internacional. Há a mediação do presidente Hugo Chávez da liberação de reféns, a vontade declarada da França de se engajar. No fim do ano passado, o presidente Uribe aceitou a atuação de um grupo de países amigos, especialmente o Brasil.

O governo Lula é neutro sobre um movimento que degola pessoas.  É? Então, na prática, apóia as Farc, seus campos de concentração e suas degolas.

Por Reinaldo Azevedo

 

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