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Wagner Tiso

14/05/2012

às 15:23 \ O País quer Saber

O coadjuvante do espetáculo do cinismo volta ao palco como papagaio de pirata


Três convidados e três sem-ingresso dividem com Dilma Roussef a foto que mostra o começo do primeiro discurso como presidente eleita. Por solicitação da candidata vitoriosa, posam para a posteridade o vice Michel Temer, o companheiro José Eduardo Dutra e o acompanhante José Eduardo Cardozo. Os outros são penetras. Valeram-se de empurrões, cotoveladas e pontapés para alojar-se no espaço sempre diminuto reservado a essa maravilha da fauna política nativa: o papagaio de pirata.

Infiltrada entre Temer e Dilma, a prefeita Luizianne Lins capricha na expressão severa de quem veio de Fortaleza para testemunhar a leitura dos Dez Mandamentos pela voz de Moisés. Espremidas no fundo, há duas metades de rosto. A face esquerda pertence a Magno Malta, senador reeleito pelo PR capixaba. Pastor evangélico e pecador juramentado, ficou nacionalmente conhecido no escândalo dos sanguessugas. O dono da face direita é o enigma ainda por decifrar: se só é candidato a qualquer papel em qualquer novela de qualquer emissora, o que é que faz no retrato o ator José de Abreu?

Ele mesmo procurou esclarecer o mistério com um texto publicado no blog do Xexéo. O título é tão intrigante quanto a aparição em Brasília:Piratas, Papagaios, Torturas e Torturados. E tão amalucado quanto o texto, que começa por registrar o desconforto do articulista com a chuva de piadas que a foto inspirou. “A pior, exatamente de um humorista, o Gregório Duvivier, lançou meu nome (ainda bem que foi apenas o nome, não eu) para o Ministério da Figuração, logo eu que vivo fazendo novela das oito”, resmunga.

Com uma alusão cifrada a Dilma Rousseff, Abreu insinua em seguida que ficou na ribalta a pedido da estrela: “A verdade é que, naquele momento, quando tiraram os outros papagaios do palco e eu ia descer, uma mão firme me segurou, um olhar carinhoso cruzou com o meu e me senti estimulado a ficar. E fiquei”.  O resto do palavrório celebra o combatente triunfante:

Eu estava entre amigos, lutadores, como eu, da boa luta. E vitoriosos numa batalha onde golpes baixos eram lançados a toda hora, um aborto na canela, uma homofobia nas partes pudendas, um bispo protetor de pedófilo pisando no dedão… Terrorista, ladra, assassina, era o que se dizia dela, minha companheira de luta contra a ditadura, que de branda nada tinha. E tome machismo, preconceito, baixarias. Estava feliz e emocionado, a lembrar dos censurados, dos torturados, dos assassinados pelo terror de Estado.

E pensei:

— Melhor ser papagaio de pirata que pirata sem papagaio.”

Foi a segunda atuação de José de Abreu como coadjuvante de comédias políticas de péssimo gosto.  Se desta vez só havia mocinhos em cena, eram vilões assumidos todos os participantes do espetáculo de estreia, encenado no Rio em agosto de 2006, na casa do ministro Gilberto Gil. Sentado na primeira fila de cadeiras da sala de visitas, o presidente Lula, convidado de honra, ouviu o resumo da ópera feito pelo produtor de cinema Luiz Carlos Barreto. “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência”, disse Barretão. “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios. O que eu acho inaceitável é roubar. Mentir é do jogo político. Não é roubo”.

Em campanha pelo segundo mandato, Lula sentiu-se entre companheiros. Sentiu-se entre cúmplices com a fala inicial do ator Paulo Betti: “Não vamos ser hipócritas: política se faz com mãos sujas”, recitou o ex-galã. “Não estou preocupado com a ética do PT”, solfejou o músico Wagner Tiso. “Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”. O epílogo do espetáculo do cinismo ficou por conta do coadjuvante que, agora como papagaio de pirata, acusa as vítimas de práticas celebradas em 2006 na casa de Gilberto Gil. Foi ele o escalado para proclamar a inocência de José Dirceu, José Mentor e José Genoino, e a estender o braço solidário dos presentes aos três companheiros.

Todos Josés, como o ator. O Dirceu foi denunciado pela Procuradoria Geral da República e será julgado pelo Supremo Tribunal Federal por chefiar a quadrilha do mensalão. O Mentor ampliou notavelmente o prontuário como relator da CPI do Banestado e comparsa de Marcos Valério. O Genoino, uma das estrelas do mais superlativo escândalo da história da República, evadiu-se da presidência do PT depois que o assessor do irmão foi capturado com dólares na cueca. Abreu, o quarto José, mereceria a condenação ao ostracismo pelos brasileiros decentes se já não tivesse sido desde sempre condenado à obscuridade.

Os integrantes da tribo de José de Abreu são dependentess de patrocínios extorquidos de empresas estatais e favores concedidos pelo governo. Artistas e intelectuais estatizados se preocupam demais com as incertezas do futuro. É por isso que tantos envelhecem mal. Ou nem envelhecem: frequentemente passam, sem escalas, de moços a velhacos.

06/11/2010

às 22:56 \ Direto ao Ponto

O coadjuvante do espetáculo do cinismo volta ao palco como papagaio de pirata

PUBLICADO EM 6 DE NOVEMBRO DE 2010

Três convidados e três sem-ingresso dividem com Dilma Roussef a foto que mostra o começo do primeiro discurso como presidente eleita. Por solicitação da candidata vitoriosa, posam para a posteridade o vice Michel Temer, o companheiro José Eduardo Dutra e o acompanhante José Eduardo Cardozo. Os outros são penetras. Valeram-se de empurrões, cotoveladas e pontapés para alojar-se no espaço sempre diminuto reservado a essa maravilha da fauna política nativa: o papagaio de pirata.

Infiltrada entre Temer e Dilma, a prefeita Luizianne Lins capricha na expressão severa de quem veio de Fortaleza para testemunhar a leitura dos Dez Mandamentos pela voz de Moisés. Espremidas no fundo, há duas metades de rosto. A face esquerda pertence a Magno Malta, senador reeleito pelo PR capixaba. Pastor evangélico e pecador juramentado, ficou nacionalmente conhecido no escândalo dos sanguessugas. O dono da face direita é o enigma ainda por decifrar: se só é candidato a qualquer papel em qualquer novela de qualquer emissora, o que é que faz no retrato o ator José de Abreu?

Ele mesmo procurou esclarecer o mistério com um texto publicado no blog do Xexéo. O título é tão intrigante quanto a aparição em Brasília: Piratas, Papagaios, Torturas e Torturados. E tão amalucado quanto o texto, que começa por registrar o desconforto do articulista com a chuva de piadas que a foto inspirou. “A pior, exatamente de um humorista, o Gregório Duvivier, lançou meu nome (ainda bem que foi apenas o nome, não eu) para o Ministério da Figuração, logo eu que vivo fazendo novela das oito”, resmunga.

Com uma alusão cifrada a Dilma Rousseff, Abreu insinua em seguida que ficou na ribalta a pedido da estrela: “A verdade é que, naquele momento, quando tiraram os outros papagaios do palco e eu ia descer, uma mão firme me segurou, um olhar carinhoso cruzou com o meu e me senti estimulado a ficar. E fiquei”.  O resto do palavrório celebra o combatente triunfante:

Eu estava entre amigos, lutadores, como eu, da boa luta. E vitoriosos numa batalha onde golpes baixos eram lançados a toda hora, um aborto na canela, uma homofobia nas partes pudendas, um bispo protetor de pedófilo pisando no dedão… Terrorista, ladra, assassina, era o que se dizia dela, minha companheira de luta contra a ditadura, que de branda nada tinha. E tome machismo, preconceito, baixarias. Estava feliz e emocionado, a lembrar dos censurados, dos torturados, dos assassinados pelo terror de Estado.

E pensei:

— Melhor ser papagaio de pirata que pirata sem papagaio.”

Foi a segunda atuação de José de Abreu como coadjuvante de comédias políticas de péssimo gosto.  Se desta vez só havia mocinhos em cena, eram vilões assumidos todos os participantes do espetáculo de estreia, encenado no Rio em agosto de 2006, na casa do ministro Gilberto Gil. Sentado na primeira fila de cadeiras da sala de visitas, o presidente Lula, convidado de honra, ouviu o resumo da ópera feito pelo produtor de cinema Luiz Carlos Barreto. “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência”, disse Barretão. “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios. O que eu acho inaceitável é roubar. Mentir é do jogo político. Não é roubo”.

Em campanha pelo segundo mandato, Lula sentiu-se entre companheiros. Sentiu-se entre cúmplices com a fala inicial do ator Paulo Betti: “Não vamos ser hipócritas: política se faz com mãos sujas”, recitou o ex-galã. “Não estou preocupado com a ética do PT”, solfejou o músico Wagner Tiso. “Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”. O epílogo do espetáculo do cinismo ficou por conta do coadjuvante que, agora como papagaio de pirata, acusa as vítimas de práticas celebradas em 2006 na casa de Gilberto Gil. Foi ele o escalado para proclamar a inocência de José Dirceu, José Mentor e José Genoino, e a estender o braço solidário dos presentes aos três companheiros.

Todos Josés, como o ator. O Dirceu foi denunciado pela Procuradoria Geral da República e será julgado pelo Supremo Tribunal Federal por chefiar a quadrilha do mensalão. O Mentor ampliou notavelmente o prontuário como relator da CPI do Banestado e comparsa de Marcos Valério. O Genoino, uma das estrelas do mais superlativo escândalo da história da República, evadiu-se da presidência do PT depois que o assessor do irmão foi capturado com dólares na cueca. Abreu, o quarto José, mereceria a condenação ao ostracismo pelos brasileiros decentes se já não tivesse sido desde sempre condenado à obscuridade.

Os integrantes da tribo de José de Abreu são dependentess de patrocínios extorquidos de empresas estatais e favores concedidos pelo governo. Artistas e intelectuais estatizados se preocupam demais com as incertezas do futuro. É por isso que tantos envelhecem mal. Ou nem envelhecem: frequentemente passam, sem escalas, de moços a velhacos.

28/04/2010

às 1:41 \ Direto ao Ponto

O maestro sem público rege a Ópera do Pedinte

─ Cê tá bombando no cinema, viu? ─ informa o cineasta Silvio Tendler, colete de cor indefinida sobre a camisa vermelha, sorriso de quem procura patrocínio e a voz melíflua de quem diz isso para todos.
─ Tô bombando…? ─ pergunta Dilma Rousseff com um vestido azul-tsunami  e cara de quem não está entendendo nada.
─ Cê precisa vê ─ encerra Tendler sem contar a ninguém em que cinema a Mãe do PAC está bombando.

É o único diálogo do documentário de 1min21 que registra o encontro entre a candidata que Lula inventou e ─ é o que garante no texto de introdução a voz feminina em off ─ “músicos, atores, cineastas, escritores e estilistas”. Antes das três frases, enquanto a câmera passeia por um salão com baixo quórum, mostrando a candidata cumprimentando gente que parece pensar em verbas federais, a narradora informa que todos estão lá para tratar de “políticas culturais”. E atribui ao maestro Wagner Tiso a ideia de juntar a turma num hotel do Rio, na manhã do domingo.

Terminada a conversa enigmática, aparece Dilma já de saída, ao lado do risonho Sérgio Cabral, para contar o que achou do encontro:

─ Foi uma reunião muito importante porque versou sobre o papel da cultura como estratégia de construção de uma sociedade… né? … mais desenvolvida no Brasil, como um componente essencial de educação ─ derrapa Dilma na largada. ─ E sobretudo como elemento essencial para construirmos a verdadeira… né?… civilização brasileira ─ acelera na curva com a expressão assustadiça de quem não está enxergando a saída.

“Quequiéisso!!??”, berraria a plateia se Dilma estivesse interpretando um monólogo no mais mambembe dos teatros. A sorte é que está entre amigos.  Outro passeio da câmera por figuras com jeito de quem quer ajuda financeira do governo.

(Entre outras celebridades, destacará horas mais tarde o blog oficial da candidata, ali estão “os atores Hugo Carvana e Cristina Pereira, os cineastas Silvio Da-Rin e Silvio Tendler, o cientista político Emir Sader, o cartunista Aroeira, o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, o arranjador e compositor Rildo Hora e o artista plástico Xico Chaves”.)

Corta para o maestro Wagner Tiso. Vai dizer o que acha da convidada de honra:

─ A Dilma é uma mulher positiva, objetiva ─ rima o parceiro sempre menos importante de qualquer dupla. ─ Fez um belíssimo governo junto com o Lula, participou brilhantemente do governo Lula. É uma mulher que eu acredito plenamente nela.

(Em 2006, numa reunião semelhante, o sócio remido de clubes de esquina abriu com mais entusiasmo o coração de estudante. “Não estou preocupado com a ética do PT”, solfejou ao discorrer sobre o escândalo do mensalão. “Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”. A performance de domingo avisa que ficou mais cauteloso, mas continua o mesmo).

Corta para Aroeira. O “cartonista” (com o, garante a legenda) é o escalado para a fala de encerramento:

─ A Dilma é uma gerente fantástica… e tal…  E penso o seguinte: tudo se resume a tamanho do Estado (o porta-voz dos cartunistas a favor faz com as mãos o gesto que quer dizer coisa grande). Eu acho que o Estado grande é importante. Tem gente que acha que o importante não é o tamanho do Estado (faz com as mãos o polegar e o indicador o gesto que quer dizer coisa pequena), mas o prazer que ele proporciona às elites. Discordo disso completamente.

Pior que um documentário de Silvio Tendler. Pior que uma tese de Emir Sader. Igual a um palavrório de Dilma Rousseff.

 

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