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tragédia

30/01/2012

às 16:14 \ Feira Livre

Conselho a Cabral

COLUNA DE RICARDO NOBLAT PUBLICADA NO GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Ricardo Noblat

Por pouco uma tragédia não surpreende o governador Sérgio Cabral fora do Estado ou do país. Cabral voou a Paris no dia 19, retornando no dia 24, véspera da queda de três prédios no centro do Rio. A pergunta que não quer calar: por que Cabral viaja tanto ao exterior? E por que a maioria de suas viagens quase sempre é cercada de mistério?

Não, Cabral não tem o dom de abortar tragédias com a sua simples presença. Dele não se cobraria tamanho prodígio. De resto, manual algum recomenda que o bom governante esteja sempre por perto quando ocorrer uma tragédia. Ou que visite de imediato o local onde ainda há mortos e feridos.

Lula fazia questão de manter distância de desastres de qualquer porte. Não pôs os pés, por exemplo, em São Paulo quando ali se espatifou no dia 17 de julho de 2007 o Airbus A-320 da TAM, matando as 187 pessoas que transportava e mais 12 em solo. Na ocasião, o Comandante da Aeronáutica foi a São Paulo representando Lula.

Eis a questão de fato mais relevante neste momento: em uma democracia, o cidadão tem o direito de saber o que fazem com o seu dinheiro recolhido por meio de impostos. É uma fatia desse dinheiro que paga os frequentes deslocamentos de Cabral e de sua comitiva. Logo, tudo que tenha a ver com o assunto nos interessa. Ou deveria interessar.

Se Cabral viaja ou viajou de graça à custa de empresários amigos, isso também importa – e como! É direito de o cidadão conhecer todos os aspectos do comportamento dos seus governantes para poder avaliá-los e fazer suas escolhas. O homem público não tem vida privada, sinto muito. Se quiser ter que abdique da condição de homem público.

A deputada Clarissa Garotinho (PR) pediu à Assembleia Legislativa do Rio que levantasse todas as informações pertinentes às viagens de Cabral. Queria saber quantas vezes ele viajou desde que se elegeu governador; na companhia de quem; se em voo comercial ou particular; e os custos de cada viagem.

O pedido da deputada foi recusado por Paulo Melo (PMDB), presidente da Assembléia e aliado de Cabral, sob o pretexto de que o assunto é da órbita federal. Então o deputado Garotinho fez pedido idêntico à Câmara dos Deputados. Rose de Freitas (PMDB-ES), vice-presidente, recusou o pedido. Decretou que o assunto é da órbita estadual.

Não é. Na verdade, quem pode dispor das informações requisitadas por Garotinho filha e pai é a Polícia Federal e a Secretaria de Aviação Civil da presidência da República. À Secretaria se vinculam a Agência Nacional de Aviação Civil e a Infraero, que administra os 66 aeroportos brasileiros.

Garotinho recorreu da decisão de Rose à direção da Câmara, mas perdeu. Apelou à Justiça. Seu apelo, hoje, repousa empoeirado à sombra de alguma toga. Uma sugestão: por que Cabral não abre espontaneamente a caixa preta de suas viagens para mostrar que nada de podre se esconde ali? Somente em uma democracia de fachada – ou uma democracia capenga – um governante pode esconder dos governados informações sobre suas viagens ao exterior e a outros Estados.

12/11/2011

às 14:17 \ Feira Livre

‘Prefeitos na Serra e ministros no Cerrado’, um texto de Fernando Gabeira

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Fernando Gabeira

No ano que termina, falou-se muito em corrupção no Cerrado. Caíram ministros, bilhões de reais foram desviados dos cofres públicos. Nada mais pedagógico, para mim, do que a corrupção na Serra Fluminense. Em nosso pequeno mundo, foi possível examinar um caso com princípio, meio, fim e traços universais.

Nele o dinheiro desviado não se destinava a abstratos números de hipotéticos cursos para supostos alunos de formação profissional em turismo ou esportes. As coisas começaram com uma tragédia natural: as chuvas de verão. Mas, percorrendo escombros, hospitais e necrotérios, analisando o processo de destruição, não se pode afirmar que ela foi apenas natural. Ocupações ilegais, encostas desprotegidas, rios entulhados, obras mal feitas, incompletas , natimortas no papel – tudo isso revelava também um perverso ciclo político-cultural.

No princípio, o conforto é dado pelos grandes números abstratos. Os governos anunciam milhões. Mas os entulhos não saem do lugar, ao longo dos meses. As pontes que partiram continuam as pontes que partiram: pqp. Durante todo o ano houve protestos em Teresópolis e Nova Friburgo. As pessoas compreenderam que, apesar de o dinheiro não ter vindo na proporção prometida, ainda assim não estava sendo usado. O resultado final dessa luta foi a queda dos prefeitos das duas cidades, ambos acusados de corrupção. Diante dos desabrigados, pessoas que perderam gente da família, era difícil representar a famosa cena federal: onde estão as provas? As provas, de certa forma, estavam nos seus olhares, no abandono a que foram relegados.

Com o tempo, o próprio Ministério Público, baseando-se no clamor da população, reuniu os indícios que bastavam para a degola. Aconteceu aqui, na Serra, o que acontece no Cerrado. Quando se sentem vítimas de um processo de corrupção, onde buscar seus representantes? Na Câmara? Ela é dominado pelo governo.

Nova Friburgo e Teresópolis chegaram ao seu objetivo por caminhos diferentes. Na primeira, o movimento concentrou-se em exigir uma CPI na Câmara Municipal. E percebeu claramente que isso não bastava, era preciso uma CPI independente do prefeito sob suspeição. Na segunda, o processo foi um pouco mais longe. Os próprios vereadores, acossados pelo povo, afastaram o prefeito para investigações, já sabendo que ele não voltaria. Felizmente, a Justiça Federal completou o processo em Friburgo. As investigações na Câmara prosseguem, com o prefeito afastado.

Foi um processo memorável, mas não se pode cantar vitória. Enquanto as duas cidades lutavam para derrubar prefeitos corruptos, o outono virou inverno e o inverno, primavera. A Serra Fluminense encontra-se fragilizada diante do verão que se aproxima. As obras essenciais não foram feitas e a energia da sociedade não pôde ser canalizada para fortalecer os mecanismos de prevenção. A chuva destruiu bairros inteiros, a política, no seu sinistro curso, manteve a população ocupada em, minimamente, se defender de picaretas executivos que, por sua vez, controlam picaretas legislativos.

Uma lição do nosso pequeno território serrano que talvez valha para a imensidão do Cerrado: eleitores têm mais força de pressão sobre vereadores do que sobre deputados. No debate sobre reforma política, a experiência de Teresópolis e Friburgo deve ser levada em conta na avaliação do voto distrital.

Cobri a sessão que criou a CPI em Friburgo e a que derrubou o prefeito de Teresópolis. Havia gente na plateia e na praça. Mas não eram apenas manifestantes pressionando políticos. Eram conhecidos, chamavam-se pelo nome, quando vaiavam alguém sabiam por que vaiavam e o político sabia por que estava sendo vaiado. Tanto para os acusados como para as vítimas não estavam em jogo números abstratos, mas casos reais de gente com mortos conhecidos, escombros localizados. E gente enriquecendo a olhos vistos.

Tudo isso se passou com uma relativa distância da imprensa. É diferente do Cerrado, onde os episódios se desenrolam diante dos refletores e os atores se esmeram na dramatização. No script da Serra não houve falas do tipo “sinto-me indestrutível” ou “morro, mas não jogo a toalha”. É diferente o jornalista que apenas grava ou anota declarações do interlocutor que sabe o que você fez no verão passado.

O que ressalta também na tragédia serrana é a importância não só da participação social na luta contra a corrupção, mas sua articulação com instituições que funcionam, normalmente, como o Ministério Público, ou mesmo as que só pegam no tranco, como as Câmaras Municipais. Seria uma ilusão achar que o controle social resolve sozinho. Como também é uma ilusão contar apenas com fiscais quando a sociedade é indiferente. Entre esses dois polos, a iniciativa mais desejada é do próprio governo, ampliando e sofisticando os mecanismos de fiscalização. Se dependesse das cidades da Serra, as casas já estavam reconstruídas, as encostas, protegidas e as pontes, restauradas. Se os mecanismos oficiais fossem melhores, elas teriam sido poupadas desse longo calvário.

Caso as eleições municipais fossem este ano, as cidades da Serra teriam um comportamento singular diante do quadro mais amplo. Não há muito necessidade de discutir ficha limpa, nem espaço apenas para militantes profissionais. As pessoas já sabem, pelo menos, o que não querem: gastar o ano para remover políticos corruptos e só agora começar a remover as pedras que ameaçam rolar sobre sua cabeça. O que virá depois?

Há esperanças de que o comportamento na Serra, e em todos os outros lugares que despertaram, comece, no ano que vem, a influenciar as mudanças no Cerrado. É muito cedo para prever. A eleição de 2012 pode também reduzir-se a um fenômeno de cabos eleitorais e agências de propaganda, diante de uma sociedade indiferente e enojada dos políticos.

No caso da Serra Fluminense, pensar em escala anual é uma temeridade. A cada dia, sua agonia; a cada verão, sua corrupção.

13/04/2011

às 16:27 \ Sanatório Geral

Ministério da Cretinice

“Devemos aprender com as lições das tragédias aprendidas pela população do Rio de Janeiro para que tragédias como essas não se repitam. Precisamos trabalhar com afinco para que, quando acontecerem as tragédias, estarmos preparados”.

Fernando Bezerra, ministro da Integração Nacional, sobre a tragédia na Região Serrana, informando em dilmês primitivo que, em vez de investir na prevenção de desastres naturais, o governo está decidido a aperfeiçoar os métodos de contagem de mortos e flagelados.

17/03/2011

às 10:00 \ Frases

Sensibilidade à flor da pele

“O Brasil vai acabar, apesar de não desejarmos essa tragédia para ninguém, não tendo prejuízo, até ganhando com isso”.

Carlos Lupi, ministro do Trabalho, comentando a tragédia no Japão.

15/03/2011

às 17:43 \ Sanatório Geral

Ministro da Canalhice

“O Brasil vai acabar, apesar de não desejarmos tragédia para ninguém, até ganhando. Acho que vai ter mais encomenda do que desistência”.

Carlos Lupi, ministro do Trabalho (e da Canalhice), grávido de alegria por achar que o governo vai lucrar com os terremotos e o tsunami que afetaram a economia do Japão.

29/01/2011

às 15:53 \ Direto ao Ponto

Dilma esquece a contagem dos mortos para contar vantagem e troca a carranca de luto pelo sorriso de aeromoça de Tupolev

Quem ensinou a Dilma Rousseff que sisudez não rima com política precisa explicar-lhe urgentemente que, em certas ocasiões, a mostra de todos os dentes pode ser mais perturbadora que a carranca de bedel da escolinha de ministros. Foi assim na visita ao túmulo de Tancredo Neves, quando a candidata em campanha resolveu estrear num cemitério o sorriso de aeromoça de Tupolev. Foi assim na quinta-feira, quando reprisou a alegria fora de hora na visita ao Centro de Operações do Rio.

Enquanto prossegue a contagem dos mortos na Região Serrana, a presidente, escoltada pelo também sorridente Sérgio Cabral, gastou o dia contando vantagem em parceria com Eduardo Paes. Teve de conter a euforia ao ouvir do prefeito que a cidade será monitorada 24 horas por dia pelo centro, concebido para identificar a tempo quaisquer perigos que possam resultar em situações de crise e exigir medidas de emergência. Desastres naturais semelhantes ao que devastou a Região Serrana, por exemplo, serão  detectados com dois dias de antecedência.

“Aqui estamos vendo o futuro: vocês estão um passo à frente do Brasil”, festejou Dilma Rousseff. É outro palavrório cretino, mas não deixa de fazer sentido. Por estarem um passo à frente do resto do país, os cariocas terão 48 horas para tentar salvar-se por conta própria, simultaneamente, do dilúvio e da incompetência dos pais-da-pátria — uma associação letal cujo poder de destruição os habitantes da Região Serrana descobriram tarde demais.

Agora o país inteiro sabe que é inútil pedir socorro ao governo. Melhor rezar para não chover. O Sistema Nacional de Defesa Civil inventado por Lula só existe na papelada registrada em cartório que descreve um país do faz-de-conta. O Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais prometido há dias por Dilma vai demorar pelo menos quatro anos. Se o Centro de Operações do Rio localizar uma tragédia em gestação, o governo federal não fará mais que antecipar os votos de solidariedade às famílias atingidas pela inclemência da natureza. O massacre ocorrido na Região Serrana foi anunciado não com dois dias de antecedência, mas quase mil. Nenhum dos governantes fez algo além de promessas.

Na quinta-feira, Dilma, Cabral e Paes estavam sem tempo para os mortos deste  janeiro. (Eram 847 no fim da tarde de sexta-feira. Logo passarão de mil). A festinha no Centro de Operações foi armada para mostrar aos cartolas muito vivos da Fifa e do Comitê Olímpico que a cidade mais bela do mundo é também a mais segura. Está pronta para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Com chuva ou sem chuva.

O espetáculo do cinismo e da ganância não pode parar. O sorriso da turma ajuda a compor a expressão beatífica de quem sonha com verdes campos de dólares ou descansa à sombra das licitações em flor.

13/01/2011

às 17:26 \ Feira Livre

A tragédia se repete

Rio de Janeiro, até 13 de janeiro de 2011 (18h04): 400 mortos

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Reprodução da TV Globo/Ag. Globo

São Paulo, até 13 de janeiro de 2011 (18h04): 23 mortos

Foto: Leonardo Soares/AE

Foto: Nelson Antoine/AP

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Foto: Almeida Rocha/Folhapress

Confira outras fotos nas galerias de Veja: São Paulo e Rio de Janeiro

17/12/2009

às 21:13 \ História em Imagens

O mais obsceno top-top-top da História sempre vale replay

Em 19 de julho de 2007, numa sala do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia assistia ao Jornal Nacional em companhia de um assessor sem saber que uma câmera de TV vigiava suas reações.  Perto das 20h30, o apresentador informou que a tragédia com o avião da TAM em Congonhas, ocorrida dias antes, fora provavelmente provocado por falhas mecânicas, não pelo péssimo estado da pista.

Quer dizer que o governo não tem culpa?, animou-se o conselheiro presidencial para assuntos cucarachas. Feliz, esqueceu os mortos, a compostura, a sensatez, a compaixão. Só pensou na imprensa golpista, que incluíra, entre as causas possíveis, a comprovada incompetência do governo para lidar com a aviação civil em geral e, em particular, com os aeroportos. E revidou com um gesto assombroso, secundado pela movimentação repulsiva do assessor.

Foi o mais obsceno top-top-top da história. Vale replay.


 

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