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Tom Jobim

13/06/2012

às 15:59 \ Direto ao Ponto

O método de Tom Jobim, a CPI do Cachoeira e o olhar inconfundível de quem mente

Tom Jobim garantia que alguns segundos bastavam para descobrir o caráter e o estado de espírito de qualquer pessoa. “Os olhos contam tudo”, ouvi do grande músico no dia em que o entrevistei pela primeira vez. “Há o olhar furtivo, o apaixonado, o honesto, o pusilânime, o solidário, o desconfiado, o esquivo, o sincero; são mais de trinta. Conheço todos. Nem o Marlon Brando é capaz de me enganar”.

No comentário de 1 minuto para o site de VEJA, lembrei o método aperfeiçoado por Tom Jobim e fiz a sugestão que agora repasso aos leitores da coluna. Desliguem o som do aparelho de TV e acompanhem por dois ou três minutos a sessão da CPI do Cachoeira. Contemplem com muita atenção os olhares tanto dos depoentes quanto dos que fazem perguntas. E saibam como é o olhar de quem mente.

23/03/2012

às 7:06 \ Direto ao Ponto

Em defesa do programa Verbas, Empregos e Propinas, a base alugada luta até pela abstinência alcoólica no País do Carnaval

O Brasil não é para amadores, ensinou Tom Jobim. Nem para profissionais da imprensa estrangeira, descobrem em menos de um mês os correspondentes escalados por jornais de outros países para a missão frequentemente impossível: explicar aos leitores o que acontece nestes trêfegos trópicos. É um desafio e tanto, confirma a tarefa que mantém os gringos ocupados neste começo de outono: expor as origens e os motivos da crise que opõe o Executivo à maioria do Legislativo.

Como descrever a gestação do movimento rebelde que agita o Congresso?, querem saber os correspondentes internacionais. Por que tantos governistas vocacionais ensaiam uma colisão frontal com a presidente Dilma Rousseff? O que há de tão diferente entre um Romero Jucá e um Eduardo Braga, ou entre um Cândido Vaccarezza e um Arlindo Chinaglia, para que a troca de líderes no Senado e na Câmara seja promovida a declaração de guerra? Por que o Código Florestal precisa ser votado antes da Lei Geral da Copa? O que tem a ver uma coisa com outra?

Sobretudo, como decifrar o enigma que provocou o cisma entre o País do Carnaval e o País do Futebol? Em fevereiro, como faz todos os anos, o Brasil carnavalesco abandonou o emprego, caiu na farra e atravessou vários dias em estado de embriaguez. Em março, o Brasil da bola resolveu obrigar-se a ficar sóbrio durante a Copa de 2014. Parece coisa de doido ─ e é. Mas mesmo na potência emergente que Lula inventou existe alguma lógica por trás de toda loucura.

Alguém precisa avisar aos jornalistas estrangeiros que, nos últimos  nove anos, a atividade política foi reduzida por Lula e Dilma a uma forma de comércio excepcionalmente lucrativa. Os rebeldes estão insatisfeitos com os ajustes feitos pelo governo nos preços em vigor no balcão de compra e venda de votos, que tornaram desigual o tratamento dispensado aos inscritos no programa que vinha garantindo a unidade da turma: o Verbas, Empregos e Propinas para Todos.

Todos os integrantes da base alugada, naturalmente. Disso sabem até os amadores aqui nascidos. Para quem vê as coisas como as coisas são, o que parece um caso muito complicado é apenas outro caso de polícia. Ou mais um ato do interminável espetáculo da safadeza.

28/02/2011

às 19:46 \ Direto ao Ponto

Site do Estadão divulga áudio que antecipa o obituário de Sarney pela Rádio Senado

Um dos sonhos de todo pai-da-pátria é saber como será registrada a indesejada, porém inevitável viagem desta para pior. Segundo o site do Estadão, que divulgou o áudio, a  Rádio Senado já gravou o obituário de José Sarney. Confira. E admita que Tom Jobim tem razão: o Brasil não é mesmo para amadores.

04/03/2010

às 3:12 \ Sanatório Geral

País doidão

“Se a exposição de mulheres sensuais é problema, deveríamos cancelar a transmissão do Carnaval, da novela…”

Luiz Fernando Garcia, diretor de graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing, perplexo com a censura imposta ao comercial da Devassa, confirmando que o Brasil, como ensinou Tom Jobim, não é coisa para amadores.

22/12/2009

às 14:51 \ Baú de Presidentes

Sarney sobrevive ao ataque de um microfone e passeia de limusine branca em Nova York

Às sete e meia da madrugada, sentado numa poltrona no saguão do Palácio da Alvorada, aguardo a inauguração de outro café-da-manhã lutando contra o sono. O presidente da República se aproxima furtivamente pela retaguarda e levo um susto com o bom-dia, que me chega deformado pela dicção de quem acabou de fazer uma escala no dentista ou tem hora marcada com o fonoaudiólogo. Algum problema com a voz?, pergunto depois do cumprimento.

─ Levei uma microfonada de um colega teu ─ informa José Sarney, que aponta com o indicador um ferimento no lado direito do lábio inferior.

A coloração do sangue coagulado avisa que a colisão frontal entre a boca e o microfone ocorrera na véspera. A aparência do machucado acrescenta que fora de bom tamanho: mais um pouco e dentes presidenciais seriam removidos sem anestesia. Ele conta que o desastre se consumara durante uma genuína entrevista coletiva à brasileira.

A cena inverossímil se repete quase diariamente. No meio de jornalistas armados de microfones, decididos a mostrar à nação a logomarca da emissora e apoiados pela cavalaria de câmeras, o alvo da infantaria da imprensa tem de falar sobre rigorosamente tudo. A maioria dos entrevistadores faz perguntas sobre tudo, especialmente sobre assuntos dos quais não sabe rigorosamente nada. E o entrevistado não diz nada sobre tudo.

Sempre com o rosto imóvel, para escapar dos objetos cortantes ou contundentes que flutuam em torno da cabeça sitiada. Veterano de combates do gênero, o presidente eleito pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília jura que obedeceu às instruções do manual de sobrevivência no Planalto Central. Acha que foi vítima de algum novato atormentado pela suspeita de que a logomarca da empresa estava fora do ângulo das câmeras.

É o Brasil, espanto-me de  novo. No resto do mundo, atentados contra a vida de chefes de governo exigem bastante imaginação, requintes de audácia e muito planejamento. Aqui, bastaria a um aprendiz de terrorista fantasiar-se de repórter e embutir no microfone um revólver calibre 38 para virar verbete de almanaque: pela primeira vez na História, alguém terá assassinado um presidente da República com um tiro no céu da boca.

Em nações civilizadas, imagens de um presidente engolfado por atacantes brandindo microfones resultariam na demissão dos responsáveis pelo esquema de segurança ou na interdição, por irresponsabilidade, do entrevistado. Nos trêfegos trópicos, o pai-da-pátria e os jornalistas não discutem a relação sequer depois de ferimentos na boca. Tom Jobim tinha razão: o Brasil não é para amadores.

Nem para estrangeiros, souberam os jornalistas americanos já em 1985, quando Sarney baixou em Nova York para o discurso de abertura da assembléia-geral da Organização das Nações Unidas e reencenou na porta da sede da entidade o  espetáculo da entrevista coletiva. Passaram da perplexidade ao assombro no segundo ato, protagonizado na tribuna pelo artista que sobrevivera ao perigo na porta do prédio.

O plenário estava quase deserto, mas a comitiva brasileira lotou a fila do garjarejo. Excitado pelos gestos de aprovação dos compatriotas, eloquente como palanqueiro de vilarejo, Sarney resolveu apresentar ao mundo, no meio do falatório, o poeta maranhense Bandeira Tribuzzi. Intrigados com os versos que o chefe declamava, os compatriotas  quiseram saber quem era o bardo. Um amigo de juventude do imortal José Sarney, alguém murmurou.

Impressionada com o currículo, a plateia aplaudiu. O deputado Milton Reis, do PMDB mineiro, achou pouco. E saudou o orador com o berro que animava os comícios de antigamente: “Apoiado!” Ninguém me contou. Eu estava lá. Nenhum intérprete soube traduzir o grito para outros idiomas. Nenhum estrangeiro entendeu. Só os brasileiros.

Principalmente Sarney, que desceu da tribuna transpirando felicidade. No dia seguinte, o morubixaba maranhense resolveu festejar a própria performance passeando por Nova York de limusine branca. Foi a primeira vez que os novaiorquinos viram passar uma limusine assim, muito apreciada por casais do interiorzão do Michigan em lua-de-mel na cidade grande, com um presidente da República a bordo.

Presidente do Brasil, naturalmente.

 

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