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Primavera Árabe

03/07/2013

às 19:18 \ Feira Livre

‘Triste Egito, que ainda precisa de tutores’, por Reynaldo-BH

REYNALDO ROCHA

Morre um gato na China. Esta peça teatral de Pedro Bloch (uma comédia) mostra que o mundo é sim uma aldeia global. Antes de o termo ter sido inventado ─ ou a globalização ser uma realidade ─ Pedro Bloch chamava atenção para a interação entres povos e culturas.

Hoje, no Egito, o Exército voltou às ruas e depôs o fanático fundamentalista da Irmandade Muçulmana Mohammed Mursi, um delirante proto-ditador que fazia de uma religião o norte político e social de um país que havia ─ nas ruas ─ se livrado de Hosni Mubarak.

A Praça Tahrir teve novamente um protagonismo essencial.

O muçulmano radical impôs que as jornalistas se apresentassem nas TVS com hijab, o véu islâmico. Impôs através de decreto um poder supremo que eximia o presidente de ter suas ações avaliadas pelo Poder Judiciário.

Convocou uma Constituinte que limitava poderes democráticos, apoiados em teses fascistas ─ pouco importa se com roupagem das esquerdas ou apoiadas pelos imbecis bolivarianos.

Ganhou com 64% dos votos, mesmo sob acusações intensas de fraude.

Apoiado pela Irmandade Muçulmana (uma seita), tentava impor ao país um pensamento único, que faria dele o novo pai da pátria. Desprezava opositores. Demonizava opiniões contrárias. Dizia-se responsável pela queda de Mubarak ignorando a verdade e reescrevendo a história.

Comprou apoios parlamentares. E consciências.

Calou vozes com as ameaças das milícias que o apoiava.

Foi recebido no Brasil como líder e herói mesmo tendo a repugnância do mundo civilizado.

Assim como morrem gatos na China, caem seitas no Egito.

E nós com isso?

A similaridade assusta. Já vivemos este cenário de seitas e mentiras que tentam impor a uma nação o que ela não deseja.

Não apoio o golpe do exército egípcio, assim como nunca apoiei o sectarismo fundamentalista de mais um teocracia ditatorial.

Se no Brasil temos o distanciamento histórico do que vivemos sob os militares, no Egito, a memória ainda é recente. O exército egípcio é ─ talvez ─ a única força organizada que pode ser contra a ordem unida de imposição do islamismo político (distante do filosófico, cultural e religioso) ao mundo. Com eles próprios assumem.

Não há mundo ideal, onde não se precise de forças armadas para tolher delírios de insensatos que desprezam a vontade popular, a cultura nacional e a decência de um país.

Mas mesmo neste mundo não ideal me recuso a apoiar a quebra da legalidade. Por melhores que sejam as motivações ou justeza dos atos.

Não há ditadura que se legitime pelos erros cometidos por outros. Elas nunca se legitimam. No Egito, os militares eram (e parece, voltaram a ser) um “poder moderador” que manteve a ditadura de 30 anos do sanguinário, corrupto e arrogante ditador Hosni Mubarak.

Não vejo diferenças entre este e os irmãos Castro de Cuba. Ambos serão rejeitados pelos vermes quando a terra lhes pesar.

Todos devemos aprender lições com a história do mundo.

Neste caso, a primeira é claramente que a Nova Era (da WEB e das Redes Sociais) sabe como ser justa, honesta e transparente quando se trata de derrubar injustiças, ditaduras e falsificações. Aqui ou no Egito.

Mas não sabem o que por no lugar. Por isso, a importância de aprofundar a voz das ruas. De sabermos ser capazes de dar passos além da faxina. Há outro passo posterior, tão importante quanto.

A outra é que a História é universal. Os fundamentos históricos ─ mantidas as condições que não diferem muito do essencial ─ são os mesmos. Sempre.

A Primavera Árabe começou na Tunísia. E explodiu no Egito.

O inimaginável (de surpresa) aconteceu. Uma ditadura de 30 anos, com roupagem de “democracia” foi derrubada nas ruas. Em uma única praça.

Alguma semelhança ou estou delirando?

Triste Egito, que precisa do retorno ao domínio de tutores para redirecionar o caminho que as ruas apontaram. Não desejo isto a nenhuma nação.

Que em um distante país, aqui na América Latina, saibamos entender o caminho da história. Não podemos depender da corja que é surda, nem de eventuais delírios de ditadores do passado.

Sei que não há clima para isso. E nem a menor oportunidade para tanto.

Mas, hoje, morreu um gato na China…

28/06/2013

às 18:05 \ Feira Livre

‘Os protestos no século 21′, um texto de Roger Cohen

PUBLICADO NO ESTADÃO DE 26 DE JUNHO

ROGER COHEN*

Os brasileiros têm uma expressão política corriqueira: “Vai acabar em pizza”. Uma coisa que acaba em pizza é uma coisa que não dá em nada, nadinha, coisa nenhuma. A expressão é habitualmente usada para a conclusão previsível de investigações judiciais de crimes do colarinho branco praticados com impunidade pela gente poderosa do Brasil.

A impunidade é uma das questões que estão animando os protestos de massa por todo o Brasil, que começaram com a ira contra a elevação do preço dos transportes. Um padrão emergiu. De Sidi Bouzid, na Tunísia, onde um bate-boca sobre um carrinho de frutas desencadeou a Primavera Árabe, a Istambul, onde um sublevação teve origem nos planos de construir um shopping num parque, essas erupções animadas por hashtags do Twitter têm traços em comum.

Pequena faísca, grande conflagração; líder desorientado, movimento sem liderança; poder estatal verticalizado e rígido, protestos horizontais ágeis; autoridade severa, juventude endiabrada; força do Estado, flexibilidade do Facebook; repressões policiais, reagrupamentos ágeis; acusações de conspiração, respostas irônicas.

Basta é basta. Fidel Castro passou anos em Sierra Maestra preparando sua revolução. O Twitter dispensou isso. Ou não? Uma questão central desses movimentos movidos a mídia social é, nas palavras de Zeynep Tufekci, professor da Universidade da Carolina do Norte, “como se vai de um ‘não’ para um ‘vão’?”

Em outras palavras, as erupções cujo slogan comum poderia ser “basta é basta!” são boas como protesto e resistência, mas não tão boas para definir objetivos ─ sejam eles políticos, sociais ou econômicos ─ e se organizar para alcançá-los.

Sua empolgação é negativa. Elas tendem a fracassar no afirmativo. Elas não têm líderes. Não há um carro de som. As agendas mais parecem uma linha de tempo do Twitter ─ fascinante, mas difusa ─ do que expressões coerentes de um objetivo. Não há um Martin Luther King ou um Nelson Mandela ─ ou Tancredo Neves e Lula (entre outros) ─ liderando a luta pela democracia brasileira há três décadas.

Como disse Wael Ghonim, ex-executivo do Google, sobre a revolução egípcia: “Nossa revolução é como a Wikipédia. Todos contribuem para o conteúdo, mas você não sabe o nome de ninguém.”

Da Tunísia ao Cairo houve um objetivo nítido: a deposição de um déspota. Foi só depois que esse objetivo foi concretizado é que a fraqueza de um movimento sem líderes tornou-se visível e grupos que alardeavam sua organização preencheram o vazio. Eles não foram capazes, contudo, de saciar a sede de renovação de suas nações.

Na Turquia, o movimento contra a construção do shopping transformou-se numa porção de coisas quando a polícia expulsou os ocupantes do Parque Gezi. Ele passou a ser sobre a guinada autocrática de um líder conservador no poder há 11 anos, sobre a invasão das vida privadas pelo Estado, sobre o controle que enfraquece a mídia e a maneira como o partido governista, o da Justiça e Desenvolvimento (AKP), vê inimigos por toda parte.

O movimento passou a ser também sobre como a investida do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan contra a Turquia secular de Mustafá Kemal Ataturk errou o alvo: se não havia razão para uma jovem religiosa não frequentar a universidade usando um véu, não havia razão para políticos do AKP vociferarem contra muçulmanas de biquíni.

Basta é basta. No Brasil, a ira se volta mais contra toda a classe política do que contra a presidente Dilma Rousseff. Ela tem a ver com a maneira como os políticos vivem como mandarins, com privilégios, escândalos de compra de votos e impunidade. Tem a ver com o desvio de recursos: mais de US$ 13 bilhões em novos estádios e preparativos para a Copa de 2014, enquanto necessidades básicas de saúde, educação e transporte continuam não atendidas. Tem a ver com a violência policial quando acaba a tolerância com a injustiça.

Mudança no jogo. Esses movimentos irromperam em duas das principais potências emergentes do século 21, cujas economias vêm crescendo em ritmo acelerado. Não pensem que isso é coincidência. Turcos e brasileiros, particularmente os jovens, reagem a um senso de forças globais além de seu controle; eles estão lembrando os líderes de consultar e prestar contas e dizendo aos financistas que justiça social importa.

Quando eles se juntam, afirmam uma humanidade comum contra o desenvolvimento atomizador e o shopping center globalizado. Será que conseguirão passar do “não” ao “vão”? Isso demandará uma organização numa escala jamais vista, decisões sobre objetivos e líderes. Eu não vejo isso tudo terminando em pizza. De Túnis a Istambul, do Cairo a São Paulo, alguma coisa está ocorrendo. O medo acabou. Isso já é, em si, uma mudança do jogo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*ROGER COHEN É COLUNISTA DO JORNAL AMERICANO THE NEW YORK TIMES

06/06/2013

às 13:09 \ Feira Livre

‘De Tahir a Taksim’, de Demétrio Magnoli

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

DEMÉTRIO MAGNOLI

“Os que nomeiam esses eventos como a Primavera Turca não conhecem a Turquia”, exclamou o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, enquanto as manifestações se espalhavam nacionalmente, a partir da Praça Taksim, no centro de Istambul. O espectro de uma outra praça – Tahir, no Cairo – atormentava Erdogan e animava os manifestantes. Taksim não é Tahir, mas as duas praças convergem, por vias diversas, à condição de símbolos de uma segunda primavera no Grande Oriente Médio. O que está em jogo é a oportunidade histórica da reforma do Islã, por meio da plena aceitação das liberdades públicas e individuais.

Na Praça Tahir, em fevereiro de 2011, o pêndulo se inclinou em definitivo quando os trabalhadores entraram em cena, precipitando a queda do ditador Hosni Mubarak. O levante da Praça Taksim começou pelas classes médias, como em Tahir, mas os trabalhadores ensaiaram uma greve geral já no quinto dia dos protestos. Taksim não é Tahir, por motivos políticos (o governo de Erdogan não é uma ditadura) e culturais (a Turquia não faz parte do mundo árabe). Contudo, Erdogan age como quem “não conhece a Turquia” – ou, ao menos, conhece apenas uma Turquia simplificada, que é islâmica, otomana e imperial.

A pátria ideológica e cultural de Erdogan é uma Turquia amputada dos 90 anos de história da república secular, europeísta, fundada por Kemal Ataturk. A fagulha da Primavera Árabe acendeu-se na palha seca de anos de depressão econômica. Na Turquia, ao contrário, a revolta eclodiu após uma década de forte crescimento econômico. O motor original das manifestações foi um projeto de substituição do Parque Gezi por um complexo de edificações comerciais, culturais e religiosas, mas a revolta levantou voo quando a violenta repressão policial evidenciou uma desconexão política fundamental: nas ruas, os cidadãos dizem que existe uma outra Turquia, cujos valores são desrespeitados pelo governo.

“Nós somos filhos de Ataturk”, dizem os cartazes de Taksim. Ataturk, o “pai dos turcos”, reinventou a Turquia como Estado-Nação, renunciando à visão imperial otomana. O plano de Erdogan para a área do parque inclui a demolição do Centro Cultural Ataturk e a construção de um simulacro de um antigo quartel otomano. Na raiz da revolta encontra-se a ampla oposição pública ao envolvimento da Turquia na guerra civil síria – ou seja, ao renascimento neo-otomano acalentado pelo governo. Mas isso não é tudo nem o principal. Ataturk aboliu o califado, separou a escola da mesquita, conferiu às mulheres direitos iguais aos dos homens. Sob Erdogan, no alto funcionarismo público, mensagens não muito ocultas instruem as mulheres a se vestirem em padrões tradicionais, as escolas reintroduzem cursos corânicos, adverte-se contra o beijo em lugares públicos e uma nova lei restringe o comércio de bebidas alcoólicas. “Nos exames, surgem diversos itens ideológicos adaptados aos apoiadores do governo”, disse um estudante secundarista envolvido nos protestos de Taksim. A Praça Taksim não é a Tahir original, mas parece-se com a segunda Tahir, onde as correntes seculares egípcias desafiam o tradicionalismo islâmico do governo da Irmandade Muçulmana.

Desde 2001, quando Erdogan fundou o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o país engajou-se num experimento histórico de vastas implicações. No novo partido, abrigaram-se correntes islâmicas oriundas dos estilhaços de partidos fundamentalistas condenados à ilegalidade, além das novas elites urbanas desencantadas com a corrupção do antigo partido dirigente nacionalista ancorado na herança de Ataturk. Ao longo de uma década de governo, o AKP usou os acordos da candidatura turca à União Europeia para quebrar a armadura do chamado “Estado Profundo”, o sistema de poder da cúpula militar kemalista, e introduzir uma coleção de reformas democráticas. Ironicamente, o partido de origens islâmicas deflagrou uma segunda “europeização” da Turquia.

Há dois anos, numa coletiva de imprensa, líderes partidários rejeitaram o adjetivo “islamista” convencionalmente associado ao AKP. Na ocasião, o ex-ministro da Educação Huseyin Çelik definiu-o como um “partido democrático conservador”, enfatizando que o conservadorismo “circunscreve-se aos temas morais e sociais”. Filtrou-se da entrevista a ideia de uma “democracia islâmica”, um conceito ambíguo que faz sucesso entre as facções modernizantes da Irmandade Muçulmana egípcia.

“Erdogan é um político muito ousado e muito autoritário, e não mais ouve ninguém, mas precisa entender que a Turquia não é um reino”, observou um cientista político da Universidade do Bósforo. Num indício de inquietude, Erdogan apontou o partido kemalista de oposição como responsável pelo levante. A revolta que se estende pela Turquia não tem a marca de um partido, abrangendo jovens e velhos, homens e mulheres, turcos e curdos, esquerdistas e liberais. Não é a nação inteira que se levanta, mas é quase toda a sua face resolutamente secular. Os protestos têm cobertura limitada dos veículos de comunicação, pois o governo Erdogan aprendeu a manipular de acordo com as suas conveniências as leis de segurança nacional do “Estado Profundo” kemalista que permitem processar jornalistas com base em acusações de ressonâncias orwellianas.

A Praça Tahir foi o símbolo das revoluções democráticas que saltaram de um país árabe a outro, derrubando ditaduras e provocando reformas em anacrônicas monarquias. Hoje, porém, em nome do Islã e no vácuo político criado pela Primavera Árabe, iracundos fundamentalistas tentam tolher as liberdades civis e seitas de fanáticos perseguem as mulheres que ousam mostrar o rosto em público. A Praça Taksim está enviando uma mensagem, que será ouvida muito além da Turquia, de resistência ao inverno fundamentalista. Erdogan pode dizer o que quiser, mas isso é, sim, uma Primavera Turca.

20/04/2013

às 18:08 \ Feira Livre

‘Por que ditadores não gostam de piadas?’, de Srdja Popovic e Mladen Joksic

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

SRDJA POPOVIC E MLADEN JOKSIC

Quinze anos atrás, quando o Otpor, movimento pacifista pró-democracia que atua na Sérvia, não passava de um pequeno grupo de 20 estudantes com US$ 50, decidimos pregar uma peça no ditador Slobodan Milosevic. Pegamos um barril de petróleo, colamos uma foto de Milosevic e o colocamos no meio de um grande distrito comercial de Belgrado. Perto dele, colocamos um bastão de beisebol. Fomos para um café, nos sentamos e ficamos observando a brincadeira se desenrolar. Não demorou para dezenas de compradores fazerem fila na rua à espera de uma chance para dar uma tacada o homem que tantos desprezavam, mas que a maioria não tinha coragem de criticar.

Cerca de 30 minutos depois, a polícia chegou. Prendemos a respiração: o que faria a polícia de Milosevic? Não podia prender os compradores ─ com que pretexto? E não podia prender os culpados ─ porque nós não estávamos à vista. Então, a polícia fez a única coisa que poderia fazer: deteve o barril. A imagem dos dois policiais arrastando o barril para sua viatura foi a melhor foto tirada na Sérvia durante meses. Milosevic e seus camaradas se tornaram motivo de chacota e o Otpor tornou-se um nome familiar a muita gente.

Revolução é coisa séria. Basta lembrar os rostos carrancudos de revolucionários do século 20, como Lenin, Mao, Fidel e Che. Eles mal podiam esboçar um sorriso. Mas os protestos do século 21 mostram que surgiu uma nova forma de ativismo. É o ‘risotivismo’. As carrancas ameaçadoras de revoluções passadas foram substituídas por humor e sátira. Os ativistas não violentos de hoje estão provocando uma mudança global nas táticas de protesto, afastando-se de raiva, ressentimento e furor em favor de uma forma nova e mais incisiva de ativismo.

Tomem-se os casos do Oriente Médio e do Norte da África, onde manifestantes não violentos estão usando o riso e a graça para reforçar seus apelos por democracia. Na Tunísia, em janeiro de 2011, no auge dos protestos contra Ben Ali, um homem sozinho ─ depois imortalizado como um super-herói, o Capitão Khobza (pão) ─ enfrentou seguidores de Ben Ali armado com um humor ferino e uma baguete francesa. No Egito, um vídeo bizarro retratando o presidente Mohamed Morsi como SuperMario circulou no YouTube em março.

Mesmo na Síria, onde a guerra civil tirou 70 mil vidas, grafites satíricos e slogans mordazes anti-Assad ampliaram os protestos de rua. E, não custa lembrar, a relevância política de comediantes no Oriente Médio foi recentemente demonstrada pela decisão do governo egípcio de intensificar as acusações criminais ao o apresentador de talk-show Bassem Youssef. A medida atestou a capacidade do humor de incomodar os poderes vigentes (por enquanto, Youssef continua livre, depois de pagar fiança).

Mas o uso estratégico do humor não se limita ao Oriente Médio e ao Norte da África. Nos EUA, os manifestantes do movimento Ocupe Wall Street zombaram regularmente das corporações americanas. Quem pode esquecer os manifestantes com aparência ridícula que, vestidos como palhaços de rodeio e toureiros, domaram a lendária estátua do touro em Wall Street?

Na Espanha, onde os manifestantes são chamados de “Indignados”, rir é uma armal. Espetáculos teatrais satíricos, flash mobs (aglomerações instantâneas previamente combinadas) e explosões aparentemente espontâneas de cantoria e dança se tornaram marcos do movimento anticapitalista na Espanha, ajudando a reduzir as tensões e a sustentar o entusiasmo. Os russos também infundiram o riso em suas manifestações, usando de tudo: preservativos, jiboias, hospitais de saúde mental e até brinquedos Lego para cutucar Putin.

Há uma razão essencial para o humor integrar o arsenal do manifestante do século 21: ele funciona. Primeiro, porque quebra o medo e inspira confiança. E também adiciona um necessário frescor que atrai mais simpatizantes. O humor, enfim, costuma incitar reações desastradas dos adversários de um movimento.

Os melhores atos de “risotivismo” forçam seus alvos de protesto a agir em cenários onde só podem perder, seja qual for a resposta do regime. Esses atos vão além de meros trotes. Eles ajudam a corroer a argamassa que mantém a maioria dos ditadores no poder: o medo.

Veja-se de novo o Egito. Durante décadas, a oposição política era contida no país de Mubarak com agressões, prisões e assassinatos sancionados pelo Estado. Mubarak viveu desse medo e tinha todas as razões para esperar que poderia usá-lo para esmagar os protestos que surgiram na esteira da revolução tunisiana do início de 2011. Por isso acusou os manifestantes de estarem a serviço de “agendas estrangeiras”.

Em vez de morder a isca, os ativistas usaram a armadilha contra o próprio Mubarak. Nos começo dos protestos, ativistas ocuparam a Praça Tahrir carregando cadernos comuns e uma queixa simulada: tinham deixado suas agendas estrangeiras em casa. A provocação logo se espalhou além da Praça Tahrir. Uma mensagem de computador exibia na tela a frase “Instalando a Liberdade” enquanto mostrava arquivos sendo copiados e colados de um folder intitulado de “Tunísia”. A foto era acompanhada de uma mensagem de erro dizendo: “Não consegue instalar Liberdade? Remova ‘Mubarak’ e tente novamente”.

O humor rapidamente se tornou uma parte central da estratégia de comunicação anti-Mubarak, servindo a dois propósitos principais. Por um lado, trocadilhos espertos, caricaturas mordazes e espetáculos provocadores tornavam “cool” vir à Praça Tahrir e ser visto como politicamente ativo. A cada dia, multidões maiores e rostos novos se reuniam aos protestos na praça ─ não só porque esperavam derrubar Mubarak, mas porque queriam fazer parte da “explosão cômica” que se desenrolava por todo o país.

Os manifestantes de hoje compreendem que o humor oferece um meio de acesso de baixo custo aos cidadãos comuns que não se consideram particularmente políticos, mas estão cansados da ditadura. Torne um protesto divertido e as pessoas não vão querer perder a próxima ação. Por outro lado, atos de humor e astúcia lembraram ao mundo exterior que os manifestantes do Egito não eram os radicais enfurecidos que o regime gostaria que se acreditasse que  fossem.

É uma mensagem que os jovens da Primavera Árabe não esqueceram. A aceitação do Harlem Shake pela juventude no Egito e na Tunísia transformou o meme de internet num vibrante protesto satírico que enfatizou as aspirações criativas e democráticas de tantos jovens da região. De novo, a comunidade internacional foi obrigada a reconhecer que eles não são os meros arruaceiros torcedores de futebol que vemos na televisão ─ são rapazes ávidos por viver numa democracia. Eles só querem se divertir fazendo isso.

Esses ativistas colocam os autocratas diante de um dilema: o governo pode reprimir quem o ridiculariza (parecendo ainda mais ridículo no processo) ou ignorar a sátira (e correr o risco de abrir as comportas da dissidência). Diante da zombaria ácida, regimes opressores não têm nenhuma opção. Façam o que fizerem, saem perdendo. O melhor exemplo talvez venha da Rússia. Lá, um protesto siberiano anti-Putin com brinquedos exibiu ursinhos de pelúcia, personagens de Lego e da animação americana South Park. Eram somente brinquedos. O que foi que aconteceu? As autoridades prenderam os brinquedos. Após o confisco dos manequins de Lego, os governantes siberianos proibiram oficialmente o uso de brinquedos em protestos. Pretexto: eram fabricados na China.

O humor político é tão antigo quanto a política em si. Sátiras e piadas foram usadas ao longo dos séculos para dizer a verdade ao poder. Elas inspiraram os protestos contra a União Soviética nos anos 80, as manifestações pela paz nos anos 60 e movimentos de resistência em territórios ocupados pelos nazistas nos anos 40. Mas os ativistas não violentos de hoje elevaram o humor a um novo patamar.

Riso e diversão não são mais marginais à estratégia de um movimento; são agora uma parte relevante do arsenal ativista, que induz a oposição a quebrar a cultura do medo inoculada pelo regime, provocando reações que diminuem sua legitimidade.

Tornar-se comum na luta não violenta dos tempos modernos não significa que o risotivismo seja fácil. Ao contrário. Requer uma corrente contínua de criatividade para permanecer no noticiários, nas manchetes e nos tuítes, além de manter o ímpeto de um movimento. Sem criatividade e sagacidade, o “risotivismo” pode esmorecer precocemente. Sem disciplina e sensatez, a zombaria pode se perder no caos e na violência.

Mas quando funciona, funciona mesmo. No caso do barril detido na Sérvia, o que poderia ter sido um ato isolado de humor se transformou numa corrente. Não demorou para o Otpor se transformar num movimento nacional com 70 mil membros. Uma vez rompida a barreira do medo, Milosevic não conseguiu mais pará-lo.

10/10/2011

às 20:57 \ Frases

Voluntarismo inspirado

“É minha primeira visita à inspiradora Líbia. Estou inspirado pela Primavera Árabe e estou aqui para entender que tipo de ajuda humanitária pode ser entregue”.

Sean Penn, ator norte-americano.

22/09/2011

às 5:39 \ Sanatório Geral

Bom candidato

“A internet e as redes sociais vêm desempenhando um papel cada vez mais importante para a mobilização cívica na vida política. Vimos o poder dessas ferramentas no despertar democrático dos países do Norte da África e do Oriente Médio sacudidos pela primavera árabe”.

Dilma Rousseff, no discurso que leu na ONU, escrito por um redator que, por não ter enxergado a utilização da internet e das redes sociais pelos organizadores do movimento contra a corrupção no Brasil, deve estar preparando a candidatura a Homem sem Visão.

23/08/2011

às 16:23 \ Feira Livre

Roteiro para a Era pós-Kadafi

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

Na Tunísia e no Egito, o movimento popular iniciado em janeiro e que culminou na queda dos longevos ditadores Ben Ali e Hosni Mubarak foi rápido e ganhou o nome de Primavera Árabe. Já na Líbia de Muamar Kadafi, só agora está chegando ao fim uma guerra civil que já dura seis meses.

Toda a região foi sacudida pela Primavera Árabe. No Marrocos, o rei Mohammed VI foi pressionado pelo povo a convocar um referendo, em julho, que restringiu os poderes do monarca e fortaleceu o governo. É uma tentativa de acalmar os súditos, mas ainda há protestos por empregos e combate à corrupção. Na Argélia, o presidente Bouteflika suspendeu as restrições à liberdade de expressão e pôs fim a 19 anos de estado de emergência. A situação ainda está indefinida no Iêmen, onde desde janeiro há manifestações pelo fim da ditadura de Ali Abullah Saleh, seriamente ferido num ataque ao palácio presidencial em junho e em tratamento na Arábia Saudita. Nem este país escapou dos protestos: o rei Abdullah anunciou medidas para elevar ainda mais o nível de vida da população e, como as manifestações não cessassem, decretou-as anti-islâmicas. Na Síria, a pressão sobre o regime de Bashar Assad é cada vez maior, assim como o número de mortos pela repressão do ditador.

O foco está na Líbia pós-Kadafi, cujo regime entra nos estertores. Décadas de mão de ferro deixaram o país sem instituições dignas de crédito e sem uma sociedade civil organizada – ela ainda se baseia em relações tribais. São muitos os perigos para o povo líbio: o regime de Kadafi desmorona e não se sabe como se comportarão agora os rebeldes, que se uniram no Conselho Nacional de Transição (CNT) pela derrubada do tirano. O maior risco é o vácuo de poder, que pode dar lugar a lutas entre as várias tribos do país e até entre lideranças dos rebeldes vitoriosos. É preciso que a comunidade internacional esteja atenta.

Líderes mundiais deram declarações neste sentido. O presidente Obama afirmou que os EUA serão um “amigo e parceiro para ajudar uma Líbia democrática a emergir na era pós-Kadafi”, mas alertou o CNT a evitar atos de vingança. O premier britânico, David Cameron, declarou que o processo de transição para a democracia “deve ser dirigido pelos líbios, com amplo apoio internacional coordenado pela ONU”. A França anunciou planos para uma reunião internacional na próxima semana a fim de coordenar os esforços de ajuda à transição, enquanto a Itália mandou especialistas a Benghazi, base dos rebeldes, para auxiliar no planejamento da reconstrução e na restauração da produção de óleo e gás, principais riquezas líbias.

A Primavera Árabe é um processo de longo prazo, sujeito a avanços e recuos tantos são as forças e os interesses envolvidos. Para o Brasil, infelizmente, a crise líbia marcou o recuo da diplomacia da presidente Dilma Rousseff, anunciadamente comprometida com os direitos humanos, para a posição de “diplomacia companheira” da era Lula, que chamava Kadafi de “amigo e irmão”. Em março, o Brasil se absteve na ONU ao votar a resolução que criou uma zona de exclusão aérea na Líbia para que aviões da Otan atuassem em apoio aos rebeldes. E só agora, com a situação praticamente resolvida, Brasília deverá reconhecer o CNT como governo legítimo, em flagrante atraso diante da maioria absoluta de atores com importância na cena internacional. É o velho cacoete do antiamericanismo.

 

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