Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Posts com a tag ‘PAC’

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Sempre pode piorar

6 de fevereiro de 2010

“Ninguém precisa se assustar, porque vamos manter a política econômica, o câmbio flutuante, e a responsabilidade fiscal. Quem quer mudar e acabar com o PAC é o PSDB”.

José Eduardo Dutra, ao afirmar que o Brasil não precisa ter medo do PT, porque serão mantidas as diretrizes econômicas fixadas pelo governo FHC, acusando o PSDB de querer acabar com o que não existe e reforçando a suspeita de que o novo presidente do partido consegue ser pior que Ricardo Berzoini.

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Neurônio atormentado

5 de fevereiro de 2010

“O país perdeu um pouco de sua capacidade de executar. Isso se expressa no fato de que você não tem na área de execução nenhuma grande corporação. Por exemplo, você tem uma corporação de primeira qualidade no Itamaraty, outra de primeira qualidade nas Forças Armadas, cada uma cumprindo seu papel que é diferenciado, que não é execução de investimento”.

Dilma Rousseff, capturada e remetida ao Sanatório por Celso Arnaldo, o grande caçador de cretinices, com as seguintes observações: Ao ouvir “capacidade de executar” tive a impressão de que Dilma defendia a volta da pena capital e a formação de uma brigada especializada. Mas logo a dúvida se dissipou e também ficou perfeitamente esclarecido que o Itamaraty e as Forças Armadas têm papéis diferentes entre si e que nenhuma dessas corporações tem a chave do cofre, como Dilma hoje tem.

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Chama o tradutor (11)

5 de fevereiro de 2010

“Eu acho, sabe, que no Brasil, quando ocê, quando nós começamo a começá, ops, a fazê todo um esforço para fazer investimento, você se depara com algumas coisas que ficaram para trás. Porque quando você passa 20, 25 anos sem ter essa questão de investimento posto como sendo o grande problema de um governo, né, porque pela primeira vez, a partir de 2007, o nosso grande problema não era tanto ter o dinheiro. Isso também tinha um pouco mas era em dimensão milhares de vezes menor do que foi no passado”.

Dilma Rousseff, querendo dizer alguma coisa.

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Com cara de fim de feira

27 de janeiro de 2010

Terminado o primeiro mandato, o presidente Lula inaugurou a reconstrução do Brasil Antigo ─ retoques, adereços embelezadores e demais complementos seriam providenciados até dezembro de 2010. No meio do segundo, inaugurou a exploração do pré-sal e declarou inaugurado o Brasil do Futuro. Só ficou faltando a transposição das águas do Rio São Francisco, problema liquidado no ano passado: durante a visita a canteiros de obras imaginários, o cara inaugurou a ideia de deixar para os próximos presidentes o cumprimento da promessa de D. Pedro II.

Tudo resolvido, avisou que no último ano da Era Lula o Brasil voaria nas asas do PAC rumo ao clube das potências. É verdade que dois terços das obras (federais, estaduais e municipais) prometidas em 2007 nunca saíram do papel. Também é verdade que o dinheiro supostamente liberado nunca chega ao destino. Mas a campanha eleitoral começou, e agora as coisas andariam.

Embora o país continue o mesmo, é compreensível que milhões de brasileiros tenham virado o ano à espera do mais espetacular cortejo de inaugurações desde 1500. Continuam esperando, avisa o balanço de janeiro ─ reduzido a 15 dias porque nos restantes Lula e o isopor estavam na praia. O mês começou com a inauguração da pedra fundamental de uma refinaria da Petrobras no Maranhão. Pedras fundamentais sempre foram lançadas, nunca inauguradas ─ e sem tambores nem clarins. Inaugurar pedra fundamental é como inaugurar planta de prédio. Neste janeiro, o governo institucionalizou a inauguração do nada.

O mês que começou bisonho não vai terminar melhor. Na segunda-feira, a comitiva presidencial passou por por São Paulo e inaugurou outro PAC, seguiu para o Rio e inaugurou uma creche. Coisa rotineira em qualquer lugarejo, inauguração de creche dura menos de meia hora, tempo suficiente para o descerramento da placa, meia dúzia de palavras do prefeito e o agradecimento de um o parente do homenageado. Nesta semana, pela primeira vez a inauguração de uma creche foi estrelada pelo presidente da República e transformada pelos oradores em marca de estadista.

O prefeito Eduardo Paes decidiu no meio do falatório que Sérgio Cabral é o maior governador da história do Rio. Cabral decidiu que Mãe do PAC é pouco, e promoveu Dilma Rousseff a Rainha do PAC. Os três repetiram que nunca houve um presidente como Lula, que achou os elogios muito merecidos e prometeu voltar assim que pudesse. Para inaugurar uma creche, para inaugurar uma pedra fundamental ou para inaugurar o lançamento de outro PAC. Só em janeiro lançou o da Copa, o da Olimpíada e, há dias, o PAC das Enchentes. Generoso, quer permitir que o prefeito Gilberto Kassab faça em São Paulo o que o governo federal não faz no resto do Brasil, sobretudo em Santa Catarina.

O que há com Lula que anda prometendo agora um PAC 2 sem conseguir inaugurar nada comparável à grandeza do maior dos governantes desde Tomé de Sousa? Não é possível que todas as hidrelétricas do PAC tenham sido paralisadas por bagres sabotadores do Rio Madeira. Nem que todas as  rodovias em construção no papelório na bolsa de Dilma Rousseff estejam sob o domínio das pererecas terroristas do Rio Grande do Sul. Alguma obra de bom tamanho deve estar pronta para o comício de praxe. Vale qualquer hospital que tenha escapado da lupa do Tribunal de Contas. Vale até cadeia de segurança máxima prometida em 2003.

As festas de inauguração de miudezas e fantasias vão engrossando a suspeita de que o PAC é a maior das mentiras de Dilma ─ e a maior das tapeações de Lula. Este começam a deixar este fim de governo com cara de fim de feira.

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A pior aluna do Brasil

24 de janeiro de 2010

O jornalista Celso Arnaldo, implacável e incansável, trabalha até aos domingos no curso intensivo concebido para desasnar o neurônio solitário da pior aluna do Brasil. Não percam a aula de hoje:

Da página da Casa Civil, o mais imparcial site de notícias do país:
“A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, anunciou neste sábado (23), em Rio Claro, interior de São Paulo, que uma das prioridades do PAC 2 será o investimento em creches. “Creches para todas as crianças desse país. Porque a diferença entre as famílias com mais posse e as sem posses está justamente na creche.”

Como Dilma, ao contrário de Lula, não sabe a diferença entre desse e deste, entre aqui e ali, não tenho certeza se ela se refere ao Brasil. Mas suponhamos que sim.

Tenho uma filha de cinco anos, matriculada em pré-escola particular aqui em São Paulo. Ela é criança ─ logo, pelo que entendi da proposta da Dilma, a escola dela será fechada e ela terá de ir para uma creche do PAC. Todas as demais escolas infantis particulares deste país serão abolidas porque todas as crianças brasileiras, “com mais posse ou sem posses”, irão para creches do PAC.

E ainda há quem ache que falar mal é só uma questão de estilo, não tem efeitos na vida prática…

E por que creches para todos?

“Nós sabemos e aprendemos que temos que olhar o indicador social. Olhar para que todos os brasileiros tenham proteção. Olhar a (sic) cada uma das famílias brasileiras. Porque todas teem (sic) direito a (sic) mesma oportunidade, e oportunidade começa aí - na creche”.

(Só na fala da Dilma, as pessoas sabem antes de aprender. Mas isso não vem ao caso. Pelo que captei nas entrelinhas, nas creches de Dilma haverá recrutadores de RH para prospectar os melhores talentos no berço.)

Mas o site da casa informa também que, na mesma cerimônia em Rio Claro, Dilma se mostrou veementemente contra as chuvas:

“É inadmissível que o país continue convivendo com alagamentos, desabamentos e, com as suas consequencias (sic), que são as mortes”.

(De fato, o Brasil não pode mais conviver com as mortes - aliás, ninguém pode, a menos que já esteja morto ou seja imortal.)

Nessas horas de grande emoção, olho no olho com a população, assoma a poeta Dilma Vana:

“Temos que cuidar para que a vida urbana seja humana”.

Outra atual obsessão da musa do PAC são as UPAs - Unidades de Pronto Atendimento em Saúde:

“A ideia é concentrar em só local (sic) todos os tratamentos que não necessitam de hospital. O presidente Lula determinou que tenham (sic) UPAs em todas as aglomerações urbanas desse (sic) país. Com isso, de fato, vamos ser a quinta economia do mundo”.

Ainda não estou convencido de que o aumento do consumo de gaze, esparadrapo e analgésicos nas novas UPAs será suficiente para fazer do Brasil a quinta economia do mundo.

Mas já que essa é a ideia, dou de graça uma sugestão de slogan para a ministra mostrar ao povo que um pronto-socorro básico em cada bairro do país vai fazer o Brasil continuar subindo ─ e aproveite a oferta, porque costumo cobrar:

─ UPA Brasil!

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Radiografia de uma fraude (fim do primeiro esboço): o país em que Dilma vive tem até trem-bala

10 de dezembro de 2009

Num dos incontáveis comícios promovido para celebrar o bom ritmo das obras que não ficam prontas, o presidente Lula informou que o trem-bala prometido para aquele ano teria de esperar um pouco mais. ”É uma coisa muito grande, mas está tudo mais ou menos encaminhado e a licitação vai ser feita em outubro”, avisou em 26 de abril de 2008.

De onde viriam os R$ 9 bilhões que serão engolidos pela maravilha ferroviária ligando o Rio a São Paulo e Campinas? Lula replicou com um sorriso superior:  “Neste momento, a companheira Dilma está no Japão e na Coreia mostrando o projeto para países mais ricos e empresas que têm tecnologia, a fim de participarem junto do consórcio de empresas brasileiras”. Era esperar pela viagem de volta e correr para o abraço.

A licitação prometida para outubro, que permitiria ouvir o apito na curva até o fim de 2012, já completou dois anos de inexistência. Como não se constrange por tão pouco, Dilma se orgulha do monumento à modernidade ainda no papel. Neste dia 4, baixou em Berlim para prosseguir a missão iniciada no Japão e na Coreia. Pronta para embarcar num trem-bala alemão, transferiu a viagem inaugural do similar brasileiro para 2014.  “Antes da Copa do Mundo do Brasil”, animou-se.

A coisa demorou, mas em compensação ficou maior, surpreendeu-se o país na continuação da discurseira:  ”A gente exige transferência de tecnologia, porque esse é o primeiro trem. Você tem outras possibilidades de construção de trens de alta velocidade no país”. Em seguida, Dilma presenteou com trens-balas também os eleitores de Curitiba, Brasília e Belo Horizonte. Por enquanto.

O Brasil real não conhece nenhuma obra notável concluida pela ministra. O Brasil em que Dilma caça votos inaugura um deslumbramento por mês. Lá a vida é uma beleza. Lá se vive como rei. Lá a pobreza é uma lembrança tão longinqua, tão remota que os pobres já nem se lembram dos tempos em que faltava dinheiro para comprar passagens de avião. Lá há aeroportos de sobra, e só São Paulo tem três.

O terceiro começou a tomar forma em 20 de julho de 2007, quando Dilma  descobriu como acabar com apagões e desastres.  “Determinamos a construção de um novo aeroporto e os estudos ficarão prontos em 90 dias”, pisou fundo já na largada da entrevista coletiva, caprichando no plural majestático. ”Estamos determinando que a vocação de Congonhas seja de voos diretos, ponto a ponto”.

Como conexões e voos internacionais seriam banidos de Congonhas ”em 60 dias”, não havia tempo a perder. Nenhum detalhe escapara à astúcia da Mãe do PAC.  ”Tivemos de tomar precauções sobre a área de segurança ao redor do aeroporto”, exemplificou. Onde seria construído o mais confortável e mais seguro aeroporto do planeta?, excitaram-se os jornalistas. “Não sabemos onde será e, se soubéssemos, não diríamos”, ensinou a superexecutiva a serviço da pátria. ”Jamais iríamos dizer isso para não sermos fontes de especulação imobiliária”.

Passados dois anos e meio, Congonhas e Cumbica continuam onde estavam:  à beira do colapso. A tia do terceiro aeroporto mudou de rosto e de status: é a sucessora que Lula escolheu. O que continua é a farsa que se arrasta há mais de 30 anos. O Brasil que pensa já sabe que lida com um Pacheco de terninho. Falta rasgar o que resta da fantasia.

Sem saber atirar, Dilma Rousseff virou modelo de guerrilheira. Sem ter sido vereadora, virou secretária municipal. Sem passar pela Assembleia Legislativa, virou secretária de Estado. Sem estagiar no Congresso, virou ministra. Sem ter inaugurado nada de relevante, faz pose de gerente de país. Sem saber juntar sujeito e predicado, virou estrela de palanque. Sem ter tido um só voto na vida, virou candidata à Presidência. Até hoje, ninguém chegou ao cargo sem ter chefiado a própria campanha. Lula acha que a campanha que chefia confirmará que toda regra tem exceção.

O Brasil anda muito estranho. O destino de Dilma dirá se ainda tem salvação.

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Chama o tradutor! (5)

26 de novembro de 2009

“A palavra diária do presidente, que não ensina nem prega, mas tem o dom da consonância com o que o povo quer ouvir, não como consolo, mas o passo a passo ─ e o PAC o assegura ─ deste Brasil que se sabe no poder, e o frui”. 

Candido Mendes, imortal da Academia Brasileira de Letras, no JB desta quarta-feira, celebrando os encantos da linguagem popular com uma frase que Luiz Dulci deixou de tentar traduzir para Lula ao descobrir que, além de profundamente misteriosa, não termina.

Sai mas fica

28 de outubro de 2009

Em 2011 nós vamos apresentar um novo PAC até 2015 e aí cada governador e cada prefeito serão convidados a Brasília pra sentar com a ministra Dilma para preparar as prioridades das capitais, das cidades médias e das cidades pequenas e a prioridade dos estados.

Lula, no Rio de Janeiro com Dilma Rousseff e companhia, deixando claro que não está em campanha eleitoral e aproveitando para avisar que, embora o mandato termine em 2010, não pretende largar o osso antes de 2015.

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A quadra do século (2)

28 de outubro de 2009

“Esse estádio maravilhoso que o governo do Estado está entregando hoje a vocês (…)”.

Sergio Cabral, explicando que foi ele quem pagou a conta da quadra da Vila Olímpica da Mangueira inaugurada pela segunda vez graças ao PAC.

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A quadra do século (1)

28 de outubro de 2009

“Eu tenho certeza que nós nos lembraremos daqui a pouco dessa manhã em que nós inauguramos esse ginásio”.

Orlando Silva, ao inaugurar no Rio uma quadra na Vila Olímpica da Mangueira que já existia quando foi incluída no PAC, informando que, se não exagerassem nas comemorações, os oradores e a plateia ainda se lembrariam daquela manhã festiva na manhã seguinte.