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PAC

09/02/2012

às 22:03 \ Feira Livre

‘Mandem a conta para Lula’, de Carlos Alberto Sardenberg

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Carlos Alberto Sardenberg 

Há um interessante debate sobre a privatização dos aeroportos feita pelo governo Dilma, mas há também o entendimento de que a mudança é positiva. E desde já, se a coisa funcionar mais ou menos, fica assim: o governo ganha dinheiro com os aeroportos, ao vender as concessões (R$ 26 bilhões numa tacada inicial!) e receber participação nos lucros e ainda consegue turbinar os investimentos nessa área crucial de infraestrutura.

Ou seja, se tivesse feito isso há mais tempo, o governo poderia ter utilizado em outros setores carentes, saúde, por exemplo, o dinheiro que gastou em aeroportos e o que teria recebido nas privatizações. E o público estaria mais bem servido. Por que não se fez antes? Porque o então presidente Lula não deixou. A conversa sobre privatização dos aeroportos não é nova, sobretudo no mundo privado.

No governo FHC, tratouse disso no segundo mandato, quando o presidente já estava desgastado e privatizar era pior do que qualquer outra coisa.
Em suas duas campanhas vitoriosas, Lula voltou a demonizar a privatização, com tal força que os próprios tucanos fugiram dela como diabo da cruz. Mas no segundo governo Lula, a partir de 2007, o tema voltou, quando a administração lidava com o caos aéreo que explodira no final de 2006. Foi quando as autoridades finalmente admitiram que todo o sistema aéreo era, literalmente, uma permanente ameaça de desastre: recursos mal administrados; os aeroportos sem estrutura adequada; falta de pessoal especializado, como os controladores de tráfego aéreo; radares com zonas cegas; falhas nas comunicações via rádio.

Feitas as contas, estava na cara que os recursos necessários para atacar todos esses problemas estavam muito acima da capacidade do governo federal. Conclusão óbvia: era preciso trazer dinheiro, empresas e gente nova para o setor. Vender concessões era a óbvia saída. Pelo menos três ministros do governo Lula disseram a este colunista que a privatização era inevitável. A necessidade venceria as resistências ideológicas.

Modelos foram analisados pelos técnicos da administração federal, alguns chegaram a ser anunciados. Por exemplo: em julho de 2007, o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, deu prazo de 90 dias para que a Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e a Infraero apresentassem o projeto para o terceiro aeroporto de São Paulo. Ficou pelo caminho. A coisa simplesmente morreu, não se falou mais nisso.

Já havia então um projeto preparado por um grupo de empresas privadas para a construção desse aeroporto na região de Araucária.
Aliás, o projeto continua de pé, e voltou a ser lembrado agora que o governo fez três concessões privadas de aeroportos já existentes.
Por que não autorizar a construção de um outro, inteiramente e desde o início privado? Resumindo: a presidente Dilma e seu pessoal celebraram os leilões de Guarulhos, Viracopos e Brasília.

Disseram, corretamente, que se inicia uma nova era, com mais investimentos e mais eficiência. Por que não fizeram antes se todos estavam no governo Lula? Porque Lula disse que tudo se resolveria com o PAC, no qual destinou uns R$ 5 bilhões à Infraero, para os 12 aeroportos da Copa.
Reparem como não fazia sentido além da propaganda. Só para a privatização de Guarulhos, o governo exigiu da nova concessionária compromisso de investimentos de… R$ 5 bilhões. Para Brasília, mais de R$ 8 bilhões.

Resumo da ópera: Lula é responsável por um atraso de cinco anos nessa privatização.

Greve de policiais ─ Tem ainda uma outra conta para o ex-presidente, a falta de legislação regulando greves de funcionários e de policiais, como essa que assombra a Bahia. Entre o final de 2006 e o início de 2007, houve uma sequência de greves de servidores públicos da educação, previdência, meio ambiente e também da polícia.

O impacto foi tão negativo que até o presidente Lula reclamou. Lembram-se? Disse que funcionário público em greve parecia, na verdade, estar em férias, pois não tinha desconto dos dias parados. Encarregou o então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, de preparar um projeto regulamentando o tema. O ministro chegou a anunciar os princípios da nova legislação.

Por exemplo: servidor armado não pode fazer greve; greves têm de ser aprovadas em assembleias com pelo menos dois terços da categoria (a greve dos PMs da Bahia seria ilegal nos dois quesitos); e servidor em greve não recebe salário. Onde está o projeto? Sumiu. Os sindicatos de funcionários não gostaram, Lula esqueceu. É sempre difícil saber como as coisas teriam se passado se outras providências tivessem sido tomadas.
Mas o olhar em retrospectiva mostra, sim, o que deixou de ser feito.

04/12/2011

às 13:54 \ Direto ao Ponto

O desabamento do ‘puxadão’ em Guarulhos mostra que a empresa do amigo de Dirceu e Cabral está fazendo o que a presidente fez

Em julho, a Delta foi premiada pelo governo federal com um contrato sem licitação para a construção, no aeroporto de Guarulhos, de “um novo terminal remoto de passageiros”. Essa é a expressão criada para disfarçar o que não passa de um “puxadão” forjado pela repaginação dos antigos galpões de carga da Vasp e da Transbrasil, distantes dois quilômetros dos terminais de verdade. Escolhida para executar outro assombro do PAC, a empresa de Fernando Cavendish ─ que prospera com a ajuda dos garotos-propaganda José Dirceu e Sérgio Cabral ─ embolsou R$ 85,75 milhões. A quantia é 163% maior do que os R$ 32,5 milhões fixados originalmente pela Infraero.

Em compensação, explicou a presidente numa entrevista no Planalto, a obra ficaria pronta em seis meses. Para abrandar os horrores de fim de ano no maior aeroporto do país, o governo resolvera que o terminal remoto seria inaugurado em 20 de dezembro. “Se a Delta não concluir, vai se tornar inidônea”, ameaçou em dilmês rústico. (Segundo o dicionário, inidôneo é quem não merece confiança, mente muito, não cumpre o que promete. Serve para empresas ou pessoas.) “O terminal tem de ficar pronto no dia combinado”, reiterou. Não vai ficar, informou nesta sexta-feira o desabamento de parte da estrutura do puxadão.

Se for considerada inidônea, a mina de ouro de Cavendish será impedida por cinco anos de fechar contratos com o governo federal. Para escapar do perigo, o amigo de Dirceu e Cabral poderia exibir, em sua defesa, o vídeo reproduzido na seção História em Imagens, gravado em julho de 2007. Caprichando na pose de gerente de país, Dilma aparece anunciando o início das obras de ampliação de Guarulhos e Congonhas, e garantindo que o terceiro aeroporto de São Paulo havia enfim começado a sair do papel. Passados quatro anos e meio, o que há de novo na paisagem são puxadinhos e puxadões menos confiáveis que uma explicação de Carlos Lupi.

A superexecutiva de araque sabe pelo menos desde 2007 que o sistema de transporte aéreo está em frangalhos. Não fez nada que prestasse. Há meses, alegando que a aproximação da Copa de 2014 exige pressa, evocou a iminência do colapso e descobriu as vantagens do Regime Diferenciado de Contratações. É o outro nome da roubalheira sem perigo de cadeia: o empresário presenteado com a obra primeiro ganha o contrato, depois faz o preço, inflado por aditivos criminosos. Faz o preço e também o prazo, sucessivamente dilatado por desculpas e desabamentos.

Dilma mentiu há quatro anos e meio. A Delta mentiu há seis meses e mente agora. Ao prometer o que não cumpriria, a construtora está fazendo o que a presidente fez. Ambas são inidôneas. E ambas têm certeza de que os pagadores de impostos vão bancar com mansidão bovina a conta da inidoneidade. Esse palavrão significa, em língua de gente, pouca vergonha. Ou nenhuma.

23/11/2011

às 23:03 \ Sanatório Geral

Colosso invisível

“A manutenção do investimento do PAC no mesmo nível do ano passado significa que o PAC neste ano não contribuiu para acelerar o crescimento.”

Nelson Barbosa, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, confessando em dilmês arcaico que o PAC é o maior programa de obras que não saem do papel de todos os tempos.

23/08/2011

às 17:54 \ Feira Livre

De gestora a faxineira

TEXTO PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

Marco Antonio Villa

O governo é pródigo na construção de versões. Nos primeiros meses do ano, a presidente Dilma Rousseff foi transformada, da noite para o dia, em uma genial gestora pública. Falava-se que ela não aparecia em público porque priorizava o trabalho administrativo. Era uma devoradora de relatórios. Exigia o máximo dos seus ministros. Conhecia detalhadamente os principais projetos do país. Era tão diferente de Lula…

O impressionismo político, típico do Brasil, vigorou por três meses. Foi o prazo de validade dado pela realidade. Viu-se que administrativamente o governo ia mal. Nenhum programa do PAC estava com o cronograma em dia. As obras em andamento não tinham o acompanhamento devido. Faltava coordenação entre os ministérios. Em suma, o governo estava sem rumo. Ou melhor, estava em um movimento inercial, dentro daquela lógica nacional de que é melhor deixar como está, para ver como é que fica.

Vieram as crises políticas. Uma atrás da outra. Atingiram o coração do governo. E foram caindo os ministros, sempre devido às denúncias da imprensa ou por alguma operação da Polícia Federal. Nunca por iniciativa da presidente. Foram defenestrados ministros considerados fortes, como Antonio Palocci, e outros pouco conhecidos, como Alfredo Nascimento. As retiradas sempre foram penosas e só ocorreram depois de muita pressão da imprensa. Seguindo um velho roteiro, até o último momento o governo tentou abafar as denúncias, desqualificando as acusações e acusadores. Quando não encontrou mais saída, restou a demissão.

A repetição dos fatos, em tão curto espaço de tempo, demonstrou que o governo estava apresado pela corrupção. O loteamento dos ministérios e a inépcia dos órgãos de vigilância permitiram que milhões de reais fossem desviados. As denúncias foram pipocando e as acusações eram de que tudo não passava de “fogo amigo”. Ou seja, era uma guerra entre os partidos da base governamental, uma luta interna pelo poder (e pelo dinheiro). Como se fosse absolutamente natural saquear o Erário.

Em meio à crise, os partidos continuaram exigindo cargos e favores. Sabiam que a apuração era para inglês ver. Trocavam-se os nomes mas não as práticas; como no Ministério da Agricultura, onde saiu um ministro do PMDB e entrou outro do… PMDB. As denúncias de desvio de milhões de reais não foram apuradas, sequer internamente, em um processo administrativo. Muito menos na esfera judicial.

Herdeira e partícipe ativa do presidencialismo de transação, a presidente acabou prisioneira deste sistema. Não sabe o que fazer. Lula conseguia ocultar os escândalos graças ao seu prestígio popular. Aproveitava qualquer cerimônia para desqualificar os acusadores. E convencia, graças ao seu poder de comunicação. Com Dilma é muito diferente. Ela pouco fala. Quando quer seguir a cartilha lulista, fracassa. Se esforça, tenta retomar a iniciativa, mas, sem agenda política própria, movimenta-se como um zumbi. Transformou em rotina ter de responder, toda segunda-feira, às acusações de corrupção que cercam o governo. Passa a semana tratando do desfecho do problema. Posterga as soluções. No sábado, fica aguardando as revistas e jornais de domingo com mais denúncias. E o processo recomeça.

Em meio ao desgaste, o governo foi obrigado a substituir o figurino da presidente: trocou a fantasia, já gasta, de eficaz gestora, por outra, novinha em folha, a de moralizadora da administração pública, que vem acompanhada de uma vassoura. E, por incrível que pareça, já está colhendo os primeiros frutos. Todos estão elogiando a “faxina”. Não foi visto nenhum resultado prático. Para o governo, isto é o que menos importa. Vale a aparência, não a ação, mas a palavra. E, principalmente, a repetição pela imprensa que a presidente está enfrentando a corrupção. Isto “pega bem”, a população simpatiza (e como!) com a ideia. Além do que, no ano que vem, tem eleição e nada pior do que a pecha de corrupto para um partido.

A oposição – com raríssimas exceções – continua tão perdida como o governo. Não sabe como agir. Quando encontra um caminho parlamentar – uma CPI no Senado – acaba sendo bombardeada também por “fogo amigo”. O argumento é que é necessário dar apoio à presidente para que faça a “faxina”. Ela estaria se distanciando do seu partido e, principalmente, do seu criador, o ex-presidente Lula, identificado como o gestor deste presidencialismo de transação. É uma leitura fantasiosa, que impede o embate com o governo e desmobiliza uma oposição já numericamente no Congresso Nacional. Lembra, guardadas as devidas proporções, a estratégia estabelecida durante o mensalão. No ápice da crise, ao invés de avançar e solicitar a abertura de um processo contra o presidente, a oposição apequenou-se. Temeu a vitória. Buscou justificativa na “governabilidade”. Optou por levar – expressão da época – Lula sangrando até 2006, para daí vencê-lo facilmente nas urnas. Deu no que deu.

É inegável que a situação atual é muito distinta de 2005. Hoje, vivemos um momento político pior. A oposição é mais frágil, perdeu duas eleições presidenciais, e a impunidade dos mensaleiros deu salvo conduto aos corruptos. Nesta situação adversa, imaginar um antagonismo entre Dilma e Lula não passa de um logro. Esta tática já fracassou no início do ano. E pior: confunde a sociedade. Dá asas à falácia de que a presidente quer fazer a “limpeza” mas não pode. Como se não fosse responsável pelas mazelas do seu governo. Entrega a bandeira da ética e da moralidade aos que a desprezam.

20/08/2011

às 10:23 \ Sanatório Geral

Celso Arnaldo em ação (2)

“Criamos a meta de construí 1 milhão de casas. Um milhão de casas. Muitos disseram: ah, eles num vão fazê isso. Pois bem. Agora, nós tamos entregando essas 1 milhão de casas. Elas num tão num lugar só, elas tão aqui em Rio Preto, elas tão nas cidades vizinhas, elas estão nos estados do nordeste, do sul, do centro-oeste”.

Dilma Rousseff, capturada por Celso Arnaldo na cerimônia de entrega de 1993 unidades do programa Minha Casa Minha Vida, em São José do Rio Preto, não fazendo nenhuma questão de esconder que, além de última da classe em Português 1, seria eliminada na primeira fase das Olimpíadas de Matemática e dos Jogos da Verdade – e isso antes de mencionar os 2 milhões de casas do PAC 2.

09/08/2011

às 17:34 \ Feira Livre

Um velho estilo em ação

EDITORIAL PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

Transposição do Rio São Francisco: desperdícios e atrasos

Quando foram iniciadas, em 2007, as obras de transposição das águas do Rio São Francisco para o semiárido nordestino, Lula previa inaugurar, ainda no seu mandato, o Eixo Leste de um dos dois canais de escoamento, numa extensão de 400 km. Não só o ex-presidente não pôde incluir essa façanha nas suas grandes obras, mas há risco de que nem mesmo a presidente Dilma Rousseff possa dar por concluída essa parte do projeto, o mais caro do PAC. Balanço recente do Ministério da Integração Nacional indica que os primeiros testes do trecho inicial do Eixo Leste só poderão ser realizados nos últimos meses de 2014. Isso se tudo correr de acordo com o cronograma, se as licitações forem realizadas nos prazos previstos, se a licença ambiental for renovada e se não faltarem verbas. Tudo isso faz do projeto de transposição do São Francisco um dos melhores exemplos de falta de planejamento e má gestão de recursos públicos na história recente do País.

A obra está praticamente paralisada. Na última sexta-feira (5/8), a presidente Dilma Rousseff disse que a transposição não está parada, mas admitiu, em seguida, que “algumas parcelas” estão com obras interrompidas. Segundo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, 5 dos 14 lotes em que a construção foi dividida estão hoje à espera de uma negociação para aumento dos preços dos contratos por meio de aditivos; 2 estão pendentes de licitação e outros 2 estão sendo tocados, mas em ritmo lento. O Ministério elevou agora o custo total da obra para R$ 6,8 bilhões, R$ 1,8 bilhão a mais do que o originalmente previsto, o que não teria ainda passado pelo crivo da alta cúpula do governo.

Apesar do que tanto se fala sobre a necessidade de projetos executivos para obras públicas – isto é, projetos que cumprem todos os requisitos técnicos para sua execução -, a polêmica transposição das águas do São Francisco continua sendo conduzida no estilo tradicional da administração pública brasileira, em cima do joelho.

Ao discriminar os gastos para dar andamento à construção, que seria retomada a partir de setembro, o ministro Bezerra disse que R$ 771 milhões serão destinados a aditivos aos contratos, além de R$ 282 milhões de reajustes de contratos assinados em 2006. A isso se somam R$ 180 milhões para renovação da licença ambiental. O que é muito estranho, uma vez que o governo já desembolsou R$ 170 milhões para licenciamento ambiental.

Ainda assim, os gastos mencionados não perfazem o valor adicional de R$ 1,8 bilhão. A diferença, segundo ainda o Ministério, é contabilizada como um aumento de 20% a 30% do custo previsto para os lotes 5 e 8, ainda não licitados, relativos a estações de bombeamento para o Eixo Norte e à construção de barragens. A explicação é que, como os projetos não foram detalhados, houve erro na projeção de custos. O ministro Fernando Bezerra considera que o aumento de 36% no custo final “é compatível com os reajustes de preços da construção civil”, embora não mencione nenhum índice ou estudo em abono de sua afirmação.

Na realidade, tem-se a impressão de que a obra de transposição do São Francisco vai começar de novo, embora o governo já tenha gastado R$ 2,4 bilhões em sua construção e já tenha comprometido mais R$ 1,3 bilhão. Como estudos técnicos têm demonstrado, o custo original excedia em muito os benefícios do projeto, que, se e quando for concluído, beneficiará apenas 5% do semiárido. Mas mesmo os opositores da transposição consideram que as obras já avançaram a tal ponto que seria um desperdício não lhes dar continuidade. E, pelas pressões políticas que a iniciativa desencadearia, o redimensionamento do projeto também está fora de discussão.

De qualquer forma, espera-se que o governo, que diz lutar para introduzir no setor público padrões de gestão comparáveis aos da iniciativa privada, incumba um grupo de técnicos de reexaminar os custos do projeto de transposição do Rio São Francisco, tratando as estimativas do Ministério da Integração Nacional apenas como referência.

08/08/2011

às 22:55 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo captura a presidente durante a assombrosa entrevista em dilmês castiço: ‘O povo brasileiro não tinha nem casinha’

Os amigos da coluna estavam com saudade do implacável caçador de cretinices. Que voltou em grande forma, comprova o texto sobre outra inacreditável entrevista concedida por Dilma Rousseff. Não percam. (AN)

Por Celso Arnaldo Araújo

Quase tudo o que se lê atribuído à Dilma, quando transcrito literalmente, parece trote, pegadinha, erro de transcrição – porque decididamente não é possível que uma pessoa que tenha curso superior, só não é doutora por um triz e chegou à presidência da República do país que é a “oitava economia do mundo” se expresse desse jeito.

Além de falar uma espécie de patois brasileiro, pouco assemelhado à língua culta do país que preside, faz associações de palavras que não seriam usadas por um aluno de escola fundamental numa redação. As improváveis “casas de papel”, objeto de sanatório nesta coluna, se enquadram na categoria.

Mas Dilma disse exatamente isso – foi numa entrevista concedida às rádios Grande Rio AM (Petrolina/PE) e Juazeiro AM (Juazeiro/BA) semana passada. E a transcrição está no próprio Blog oficial do Planalto, que agora reproduz ipsis literis, sem tirar nem pôr, ao lado da gravação eletrônica, discursos e entrevistas da presidente Dilma. Justiça seja feita, é uma extraordinária contribuição do poder público aos raros abnegados da iniciativa privada que se dedicam à pesquisa e ao estudo do dilmês, antes obrigados a despender tempo, energia e massa cinzenta para fazer uma transposição mais penosa que a do Rio São Francisco.

A resposta da “casa de papel” ao radialista baiano foi exatamente esta:

– Mas o povo brasileiro não tinha nem casinha. O povo brasileiro tinha o quê? Morava em casas de papel, em palafitas. Esta casinha, como você está dizendo – imagino que a sua casa seja grande.

Repare: ela não fala em casas de papelão, que eventualmente devem existir até a 20 quilômetros do Palácio do Planalto, mas de papel mesmo — sulfite, almaço, embrulho, jornal. E palafitas eram da cota de FHC? Depois de quase nove anos de governo Lula/Dilma, a “stilt house” ainda é um “brazilian housing style” no rigor da moda em quase todos os estados do norte ou nordeste. E notou uma ponta de sarcasmo na resposta? Lógico, madame ficou irritada com a pergunta do jornalista:

– Por casinha?

O jornalista só queria confirmar a estranha sequência de números apresentada por Dilma na resposta anterior, ao falar do custo dos imóveis e garantir que, no Brasil Maravilha, há um canteiro de obras com três milhões de construções para quem não tem casa:

– Isso hoje ocorre. E mais: ocorre para a população que não tem dinheiro. Qual é essa população que não tem dinheiro? Não é que ela não tenha nenhum, é que a conta não fecha. Por que a conta não fecha? Hoje uma casa, em média, que nós pagamos pela Caixa Econômica Federal – e aqui está o presidente da Caixa – ela fica em torno de 50, 51, 52 mil reais.

Ou seja: Dilma tenta explicar que a população que não tem dinheiro para comprar uma casa é justamente aquela que não tem dinheiro.

ÁGUA DE RIO É DOCE
Além da “casinha”, Dilmona ficou engasgada com outra pergunta que não quer calar: o 1 milhão de casas do PAC 1 já foi entregue antes de se anunciarem os 2 milhões do PAC 2?

–Não, uai. Elas foram contratadas. Você acha que a gente contrata e entrega? Não. Você contrata, constrói e entrega.

Taí: explicado, enfim, porque o 1 milhão de casas do PAC 1 mais os 2 milhões do PAC2 até hoje só se materializaram em pouco mais de 200 mil moradias, ou um pouco menos, contando as já inabitáveis e as que não estão mais de pé — há casos no nordeste. Entre contratar e entregar – o Brasil ainda não sabia disso e injustamente a questionava – há uma etapa intermediária relativamente importante: construir.

As casas de papel da frase non sense de Dilma não passam de figura de linguagem, mas parecem verdade. As casas do PAC da Dilma parecem de verdade, mas não passam de figura de linguagem. São as casas no papel.

E muitas das que saíram do papel têm a marca das construções verbais de Dilma – desmancham ao primeiro retoque, daí a necessidade de se mantê-las, as casas e as falas, como foram concebidas. Foi fartamente noticiado: os primeiros moradores do Residencial São Francisco, do Minha Casa Minha Vida em Juazeiro, foram orientados a não fazer reformas no imóvel, sob risco de “danos à solidez”. Já houve desmoronamentos em outros conjuntos. Os imóveis, construídos com a tecnologia “alvenaria estrutural”, sem pilotis, já foram apelidados no Nordeste de “prédios-caixões”, talvez porque se desfaçam como ataúdes enterrados — depois de naturalmente fazerem a fortuna da companheirada muito viva.

A transcrição da entrevista no Blog do Planalto continua palavra a palavra, sem chapiscos ou rejuntes, e Dilma segue encafifada com a ofensa da “casinha”:

–Eu acho que ela não pode ser desmerecida, porque eu tenho certeza de que para qualquer pessoa que obtenha a sua casa própria, ter um teto onde criar seus filhos é algo muito importante.

Mas o repórter – longe de ser chapa branca – insiste: dos 3 milhões de casonas dos PACs 1 e 2, quantas já foram entregues?

– Aqui foram 1.500… Esse é um processo que não é automático, porque você leva, em média… você leva em média… antes você levava, em média, 33 meses. Hoje nós reduzimos isso.

Que tal mudar de assunto? Além de casa, a população nordestina precisa de água – não no papel, mas nos canos.

- Bom, se for água para a população rural, ela terá acesso pelo nosso projeto de 750 mil cisternas, privilegiando aqui a região do semiárido, ela vai ter acesso a esse programa, que nós queremos fazer em dois anos – 350 mil este ano e 350 mil…. em torno de 350 mil este ano e o restante no ano que vem. Agora, eu acho…

Mais um número a ser anotado: 750 mil cisternas, líquidas e certas, em dois anos. Eu acho… No mínimo, vai ter água doce suficiente para enxaguar as barbas de Antonio Conselheiro, de molho desde Canudos:

– Aquela música que a gente escutava ou aquela… uma espécie de tema muito recorrente, que “o sertão vai virar mar”. Eu não digo que vai virar mar porque a água não é salgada, mas que o sertão vai ter acesso à água que não tinha, vai ter.

E a transposição do velho Chico, presidenta, sai ou não sai? Sai aos pedaços:

– Aí você conclui mais outro, porque a conclusão, não vão ser todas num momento só. Uns vão concluir primeiro, outros vão concluir num segundo momento e outros num terceiro momento.

Não deu para entender?

– O que nós vamos garantir sempre é que a cada fase que nós façamos, nós concluamos e coloquemos água à disposição. O que é muito importante…

Resolvido para sempre o problema da água doméstica no nordeste, só uma palavrinha sobre a nova política de irrigação:

– Essa política, eu pretendo que nós tenhamos condições de lançá-la no final de agosto ou no início de setembro, até metade de setembro nós lançaremos – pode ser um pouco antes, mas não vai ser um pouco depois.

Desconfio que, longe do papel, será muito depois.

31/07/2011

às 14:48 \ Sanatório Geral

A mãe pirou

“Entramos com o pé no acelerador, o que demonstra o aprendizado que tivemos no primeiro período. Mas isso não satisfaz. Vamos querer acelerar ainda mais e melhorar para que o PAC2 seja ainda melhor que o PAC 1″.

Dilma Rousseff, durante a divulgação do primeiro relatório do PAC em 2011, deixando claro que o fracasso do filho subiu à cabeça da Mãe do PAC.

31/07/2011

às 6:16 \ Sanatório Geral

Autoridade moral

“Estamos fazendo a reavaliação de todos os projetos na esfera do Ministério dos Transportes. E com uma lupa muito forte. Isso vai afetar aqueles projetos que estão em execução e, principais, aqueles que estão na fase de execução”.

Paulo Sérgio Passos, ministro dos Transportes, jurando que vai fazer agora o que não fez nos oito anos em que foi secretário-geral do ministério.

30/07/2011

às 18:20 \ Sanatório Geral

O preço do sucesso

“O PAC vive um overbooking de obras no país. As empresas acabam escolhendo as obras que querem executar, largando uma e fazendo outras. Isso é o preço do sucesso”.

Miriam Belchior, ministra do Planejamento e coordenadora do PAC, explicando que o programa está parado porque os empreiteiros e consultores resolveram que só vão continuar tocando só obras com superfaturamento acima de 100% e mais de 200 aditivos superfaturado.


 

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