Blogs e Colunistas

Orlando Silva

22/11/2011

às 5:44 \ Sanatório Geral

Amizade tem limite

“Um bandido chega e faz uma denúncia caluniosa, mentirosa, sem prova, e usa isso para retirar um ministro do cargo e permite ilações até dos amigos, imaginem o que os adversários farão!”

Inácio Arruda, senador do PCdoB do Ceará, sobre o ministro Carlos Lupi, confessando que o camarada Orlando Silva ficou desempregado porque nem os amigos conseguiram acreditar no Artilheiro do Segundo Tempo.

21/11/2011

às 19:37 \ Direto ao Ponto

Depois do doutor que não lê, o Brasil inventa a faxineira que gosta de lixo

Além do brasileiro, o Brasil já inventou o analista de juiz de futebol, o jurado de escola de samba, o despachante, o senador biônico, o flanelinha, o comunista capitalista, o cabo eleitoral de ofício, o guerrilheiro que não sabe atirar e a família Sarney, fora o resto. Deve achar pouco, sugerem as duas singularidades incorporadas em 2011 ao vastíssimo acervo de assombros. No começo do ano, o País do Carnaval pariu o único doutor do mundo que nunca leu um livro e não sabe escrever. Em seguida, decidiu que Dilma Rousseff seria a primeira faxineira da história que odeia vassoura e gosta de lixo.

Promovida a ministra de Minas e Energia em 2003, Dilma fez mais que conviver anos a fio, sem qualquer vestígio de desconforto, com o lixo amontoado por Lula no primeiro escalão federal. Como atestam três itens no prontuário, a chefe da Casa Civil fez o que pôde para piorar o que já estava péssimo. Com o dossiê forjado contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Dilma aumentou o lixo. Com a conversa em que tentou induzir Lina Vieira a indultar a Famiglia Sarney, escondeu o lixo. E intensificou extraordinariamente a produção de lixo ao transformar em sucessora a melhor amiga Erenice Guerra.

“A corrupção será combatida permanentemente”, mentiu no discurso de posse. Se pensasse assim, seriam outros os ministros na plateia. Ao chamar de volta Antonio Palocci e Alfredo Nascimento, por exemplo, trouxe para dentro de casa o entulho já depositado na caçamba. Ao nomear Pedro Novais e manter no emprego Wagner Rossi e Orlando Silva, afastou do aterro sanitário algumas pilhas de detritos. Ao prorrogar o prazo de validade de Carlos Lupi, revelou que já existe até o lixo de estimação.

Como atestam as fotos feitas no dia da posse, Dilma ficou muito feliz com a escolha dos seis ministros localizados pela imprensa no pântano das maracutaias. Lamentou a partida de cinco e faz o que pode para não se desfazer do sexto. A permanência de Carlos Lupi no Ministério do Trabalho transforma a antiga suspeita em certeza: a faxineira do Brasil Maravilha não consegue viver sem lixo por perto.

18/11/2011

às 21:00 \ Homem sem Visão

Orlando Silva volta à disputa no segundo tempo e enfrenta o ex-camarada Agnelo

“O chefe não entende como é que todo mundo não enxerga que ele fez um serviço com as ONGs melhor que o do Carlos Lupi”, confidenciou um dos três vizinhos que se declaram amigos de Orlando Silva durante o lançamento da candidatura do ex-ministro do Esporte ao título de Homem sem Visão de Novembro. O homônimo que ninguém merece vai lembrar na campanha que foi muito elogiado por todos os oradores que se revezaram no comício à beira da sepultura. “Ele já se recuperou da derrota para a Iriny no mês passado”, garantiu um dirigente do PCdoB. “E acha que os leitores-eleitores do HSV têm mais simpatia por um candidato desempregado”.

Poucos minutos depois da volta de Orlando Silva, a Comissão Organizadora do HSV recebeu a inscrição de Agnelo Queiroz. “O chefe está otimista porque não enxergou nenhuma lambança no Ministério do Esporte e na Anvisa”, revelou um de seus 981 assessores. O governador do Distrito Federal ganhou força depois de não enxergar nada demais nos 5 mil reais depositados na sua conta bancária por um lobista que, no mesmo dia, recebeu atenções especiais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Para chegar ao segundo turno, Agnelo conta com um trunfo respeitável: pode contar onde foram parar os 45 mil reais que completam a propina.

Até o momento, Orlando Silva e Agnelo Queiroz concorrem com Marta Suplicy e Carlos Lupi. Mas vem muito campeão por aí, leitores-eleitores! Fortes rumores dão conta de que José Sarney já foi para o aquecimento! Aguenta, coração! A briga-de-foice mal começou!  E que vença o pior!

17/11/2011

às 8:08 \ Feira Livre

‘Carga pesada’, por Dora Kramer

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

Dora Kramer

Não é confortável a situação da presidente Dilma Rousseff: ou demite o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e segue a regra aplicada a outros partidos de sua base aliada que também tiveram ministros envolvidos em denúncias em série, ou deixa tudo como está e empresta fundamento às bravatas de Lupi quanto a ser, diferentemente dos colegas, “imexível”.

Assim como o vampiro corre da luz e o diabo foge da cruz, o Palácio do Planalto tenta evitar o registro da contabilidade de seis ministros derrubados por suspeita de corrupção, fraudes e gestão indevida, para não dizer temerária.

Mas, ao resistir a fazer o que deve ser feito (a julgar pelo critério adotado pela presidente até agora) apenas para não dar o braço a torcer às pressões das denúncias que não cessam, o governo adere exatamente à lógica da qual busca fugir. Dança, ao inverso, conforme a música e não de acordo com seu critério do que seja ou não aceitável no comportamento de um ministro do Estado.

No último fim de semana acrescentaram-se novas denúncias às já existentes: a carona do ministro em jatinho na companhia de dono de ONG acusada de desviar dinheiro de convênios; a mentira ao Congresso sobre o assunto; atuação livre de lobistas dentro da pasta para acelerar processos de interesse de sindicatos; loteamento de superintendências regionais entre correligionários; privilégio na assinatura de convênios a Secretarias Municipais do Trabalho cujos titulares são filiados ao PDT.

Isso sem contar a impertinência verbal de Carlos Lupi.

Por menos caiu Nelson Jobim da pasta da Defesa, com palavras bem mais leves sobre “idiotas” imodestos, que a dúvida pública de Lupi sobre a autoridade de Dilma para demiti-lo.

Por denúncia semelhante à carona em avião contratado por empresário com negócios junto ao ministério, caiu Wagner Rossi da Agricultura.

Por convênios fraudulentos e favorecimento ao partido (PC do B), caiu Orlando Silva.

E por que Lupi não cai? Consta que no caso do PDT o buraco é mais embaixo.

Formalmente licenciado da presidência por conflito de interesses apontado pela Comissão de Ética Pública, Carlos Lupi é ministro do Trabalho e ao mesmo tempo presidente de fato do partido.

Domina a máquina de cima a baixo e isso dificultaria seu afastamento, porque deixaria o Palácio do Planalto sem interlocutor na legenda para negociar a troca de seis por meia dúzia, como foi feito nos casos anteriores.

Do ponto de vista estritamente argumentativo, a premissa seria verdadeira. Mas, no cotejo com a realidade exposta publicamente por alas dissidentes do PDT, revela-se um conveniente sofisma.

Há pelo menos dois grupos que contestam os métodos de Lupi de se fortalecer a estrutura partidária a partir do uso da máquina pública.

Um deles, aquele com representação no Parlamento, é integrado no Senado por Cristovam Buarque e Pedro Taques e, na Câmara, por Miro Teixeira e José Antônio Reguffe.

O outro se identifica com os fundadores e a liderança de Leonel Brizola. Acusa Lupi de desorganizar propositadamente o PDT para transformá-lo numa sinecura de uso pessoal.

Ambos os grupos já deixaram claro que apoiam investigações e querem ver Carlos Lupi longe do ministério e do partido.

São minoritários? São, mas mostram – como nenhum dos partidos até agora mostrou – que o PDT não é uma rocha em torno de Lupi e que, bem trabalhado, pode vir a ser uma peneira.

Ademais, mesmo junto aos que lhe são fiéis certamente pesa mais o poderio de uma presidente cuja avaliação positiva ultrapassa os 70% e ainda com três anos de mandato pela frente.

16/11/2011

às 19:10 \ Direto ao Ponto

Agnelo tenta fugir do Sanatório Geral e, por falta de cadeia para governadores, é internado na ala de segurança máxima

Às 8h11 desta quarta-feira, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, foi internado no Sanatório Geral a bordo de uma frase de assustar enfermeiro aposentado: “Palavra de um governador de estado já é, por si, uma prova”. Envolvido até o pescoço em maracutaias, Agnelo achou uma boa ideia lembrar que o que diz merece tanto respeito quanto o palavrório de antecessores como Joaquim Roriz e José Roberto Arruda. Não é um caso simples, deduziu o corpo clínico do movimentado nosocômio.

É mais grave do que parece, soube-se às 10h30, quando o governador tentou escapar  usando como salvo-conduto uma “Nota de esclarecimento sobre frase do governador Agnelo Queiroz publicada no blog do colunista Augusto Nunes“. Transcrevo sem correções a íntegra do documento encaminhado à coluna pela Secretaria de Comunicação do Governo do Distrito Federal:

“Lamentamos que uma frase descontextualizada, tirada de uma das inúmeras notas emitidas pela Secretaria de Estado de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal em resposta à imprensa e que, mais uma vez, não teve seu inteiro teor levado ao conhecimento público, tenha resultado na publicação, na edição desta quarta-feira (15/11) do jornal FOLHA DE SÃO PAULO, da matéria Palavra de um governador já é prova, diz Agnelo.

O governador Agnelo Queiroz reafirma a boa fé no empenho de sua palavra. E relembramos que cabe a quem acusa apresentar provas. No geral, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, tem apresentado um conjunto de provas que é ignorado quando ele se manifesta nas respostas aos veículos de comunicação.

Uma sequência de entrevistas, trocas de emails e remessas de documentos que provam a ausência de processos criminais e administrativos que tragam o nome de Agnelo Queiroz como réu ou responsável por quaisquer irregularidades têm sido ignoradas nos últimos dias por parte da imprensa. Mais uma vez encaminhamos o conjunto de documentos disponíveis. Esperamos que venha ao conhecimento público a totalidade das informações prestadas”.

Se a nota é anêmica, padece de raquitismo agudo o “conjunto de documentos disponíveis” ─ uma certidão negativa de débitos relativos aos tributos federais e à dívida ativa da União, uma certidão atestando que o nome do governador não figura em ação movida pelo Ministério Público Federal contra sete acusados, uma certidão negativa criminal, uma certidão negativa de contas julgadas irregulares e um comunicado oficial. Resumo da ópera bufa: para fugir, Agnelo valeu-se de um papelório tão consistente quanto um depoimento de Carlos Lupi.

Recapturado ainda no corredor e transferido para a ala de segurança máxima, o governador só vai sair dali quando parar de esconder-se sob o terninho de Dilma Rousseff e tentar desmentir o que escreveu Celso Arnaldo Araújo no post “Agnelo: um corrupto com nome de cordeiro”, publicado em 8 de novembro. Alguns trechos:

A Folha revelou, com documentos oficiais, uma transferência de 5.000 reais da conta de um lobista de indústria farmacêutica para a conta de Agnelo Queiroz, em 2008, quando o atual governador de Brasilia (ex-PCdoB e hoje PT) era diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

A descarga de cinco mil reais se deu, por curiosíssima coincidência, horas antes de a indústria representada pelo lobista, a União Química, receber uma certidão de “nihil obstat” da Anvisa. Sem ela, estaria impedida de participar de licitações para fornecimento de medicamentos à rede pública e até de registrar novos medicamentos.

A liberação foi automática, como as transferências eletrônicas: caiu o dinheiro, saiu o certificado. A liberação dependia exclusivamente de Agnelo. E aqui nem cabe discutir se a decisão foi baseada em critérios técnicos.

Como confirmou a VEJA Daniel Almeida Tavares, o lobista, os cinco mil eram apenas uma parcela do acerto de cinquentinha feito com Agnelo. Isto é: o subornador não nega o suborno. E o subornado? Coloque-se no lugar de Agnelo Queiroz. Você está sendo ameaçado de impeachment como governador e, de repente, surge não apenas uma prova, mas um atestado de corrupção de seu caráter chancelado pelo Banco Central. Os cinco mil não foram para a conta de laranjas – mas do espremedor em pessoa, com seu nome de batismo e de inscrição no TER, sem nenhuma reserva, nenhum receio.

Não sei quanto tempo teve Agnelo entre a revelação cabal do malfeito e a providência de uma explicação. Se foram minutos ou horas, se foi improvisada ou estudada, foi a pior possível: uma emenda mais canalha que o soneto da corrupção. Um ladrão comum não ousaria uma desculpa desse teor.

Diz a Folha:

“O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), admitiu ontem que recebeu em sua conta pessoal R$ 5.000 de um lobista quando trabalhava como diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2008 (…) Em nota divulgada ontem, Agnelo voltou a rejeitar a versão do lobista de que recebeu dinheiro de propina e disse que os R$ 5.000 representavam o pagamento de um empréstimo que ele havia feito para Tavares. O governador admitiu à Folha que o empréstimo foi feito informalmente, sem documento ou contrato que comprove a transação. E disse que emprestou o dinheiro ao lobista em espécie, portanto não teria como comprovar sua versão”.

A desculpa de Agnelo não vale um fio de sua barba. Além da ladroagem desenfreada, essa gente não tem limites em seu cinismo sórdido. Ele acha que alguém, fora os asseclas da base aliada, comprará a história de que um dia levou cinco mil reais, em dinheiro vivo, para socorrer um lobista em apuros que mal conhecia – e justamente quem representava uma causa milionária que dependia de decisão de governo, no caso dele, para uma solução que seria efetivamente dada. Por essa versão, os cinco mil que apareceram em sua conta apenas retornaram ao local onde já pertenciam antes do empréstimo.

Concluo: internar uma figura dessas na ala de segurança máxima do Sanatório é o que pode fazer a coluna. O Ministério Público e o Judiciário podem muito mais. O que esperam promotores e juízes para estender aos bandidos com padrinhos poderosos os castigos aplicados à gente comum? Se a lei vale para todos, está mais que na hora de mandar para a cadeia os agnelos que infestam o Brasil.

15/11/2011

às 19:31 \ Feira Livre

Diário da Dilma: Em festa de jacu inhambu não pia

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE NOVEMBRO DA REVISTA PIAUÍ

1º de outubro – Ê lerê. Serginho Cabral veio chorar a distribuição dos royalties. O menino está magoado, mas sabe argumentar: imitou o Lula duas vezes, fez troça com a Iriny Lopes e soltou um trocadilho com o nome do presidente da Renault. Ainda disse que eu emagreci. Me convenceu.

2 de outubro – Bulgária, terra boa e sestrosa. Antes de deixá-la, meu pai profetizou que os Rousseff retornariam, trazendo orgulho e laquê à nação. Duro é ter de ir antes à Bélgica. Esse pessoal da Fifa está passando dos limites. Querem acabar com a meia-entrada, exigem os estádios no prazo e ainda pretendem abolir o superfaturamento nacional. Por sugestão do Temer, com quem aprendi que futebol se joga com onze, contrapus que cada time jogasse com doze. Seria um modo de empregar mais gente, a base aliada ia ficar feliz. A resposta veio curta e grossa. Non! Vou mostrar a eles o que é non. Marquei uma reunião com o Blatter para dizer umas verdades.

3 de outubro – Blatter deu o bolo por causa dos boatos infundados sobre o meu jeito ríspido de negociar. Mandou o secretário-geral. Já não basta estar aterrissando em Bruxelas, que, do alto, parece mais sem graça do que um fim de semana com o Alckmin. Assim que eu entrei na sala, encarei o sujeito e soltei um “meu querido”. Se a gente não se impõe, a Fifa faz o que quer.

4 de outubro – Dei uma prensa nos dirigentes da Europa. Só porque eles representam o berço das civilizações ocidental, pensam que podem afundar o mundo numa crise econômica e estabelecer a capital deles na Bélgica. Sugeri que se mudassem para Londres, onde tem sempre um bom musical em cartaz e a gente pode esbarrar na princesa Kate. Deixei claro que, caso precisem, posso indicar um excelente consultor em Ribeirão Preto.

5 de outubro – Foi lindo voltar à terra do papai. É bom visitar a família com verba pública. Presidenta tem dessas coisas, não é só demitir ministro, não. Ganhei até a ordem Stara Planina. Não aguentei e acabei emprestando 32 bilhões de reais a fundo perdido. Fico só pensando na cara daquela sirigaita que se insinuava para Tzvetan Todorov, a Kubrika Ksibeleya, quando me vir com a Stara Planina. Vai se roer de inveja.
Será que o Tzvetan envelheceu bem? Era um pedaço de mau caminho.

6 de outubro – Ai, início do mês e já estou exausta! Se eu pudesse emendar até 12 de outubro! Mas o feriado cai bem numa quarta-feira… fica chato enforcar quinta e sexta. Podia decretar a semana do saco cheio presidencial. Estudante não tem? A bem da verdade, ainda bem que papai veio para o Brasil. Deus me livre morar na Bulgária. E aquelas primas que visitei em Gabrovo! Ô gente feia…

8 de outubro – Fui periquitar em Istambul. O chato do Luiz Sérgio pediu uns temperos para aquela sardinha na panela de pressão com banana-de-são-tomé. Isso é que dá ficar concentrando tudo. O Patriota nem para arrumar uma brecha para eu dar uma voltinha no Grand Bazaar. Dizem que tem joias baratíssimas e cada bolsa! Ninguém percebe que é falsa. Como a Turquia é bonita. Fico pensando como esses bigodes todos cairiam no Lobão.

9 de outubro – Aecinho declarou que está pronto para ser candidato à Presidência. Ansioso esse menino. Nem parece mineiro. Mas não vou me meter. Em festa de jacu inhambu não pia. Mamãe nem me viu chegar e já foi perguntando se eu trouxe miçangas, a ceroula e a touca que ela pediu. Nem boto o pé em Brasília e começam a me pedir coisas. Só me falta ter que demitir mais um ministro. Me preparei para ver A Fazenda e pimba! A pasta de ricota que tinha deixado na geladeira azedou. Não posso deixar mamãe tomar conta de casa.

10 de outubro – Você chega de viagem e é só e-mail, telefonema, greve e o Lula ligando sete vezes por dia para me perguntar onde vai ser a próxima inauguração. Tem até recado do Kassab para falar da posição dele sobre o Código Florestal: “Presidenta, o PSD é a favor de anistia ampla, geral e irrestrita aos pequenos e grandes fazendeiros que atuam de forma produtiva, sem desmatar. Mas o partido quer deixar claro que também apoia os que desmatam.” Por que perco tempo com isso?

14 de outubro – Gente, está uma calmaria isso aqui. Estou até estranhando. A Mônica Salmaso não ia lançar um cd novo? Sonhei com o Lobão de ceroula búlgara dizendo que estourou o limite do cartão corporativo. Achei catito.

15 de outubro – Fiquei morrendo de medo quando vi no jornal que o Toddynho quase matou não sei quantas crianças. Todo dia eu tomo um de madrugada. Acordo com aquela fome e faço uma boquinha com goiabada e um Toddynho, às vezes dois. Minha tia fica de olho. Quando ela pergunta, me faço de morta e digo que servi para o Gabriel. Ela finge que acredita.

16 de outubro – Já decidi: não tem meia-entrada na Copa, se quiserem podem servir até cicuta nos estádios, enfim, a Fifa que faça o que quiser.
Não entendo nada de futebol, acho uma chatice, meu interesse é zero. Foi o Lula que tratou com a Fifa e eu é que tenho que pagar a conta. Conserta aeroporto, constrói estádio, faz linha de ônibus, aguenta esse PCdoB com suas ONGs. Mas uma herança do Fofo…

17 de outubro – Ai, meu santo Stálin. Até tu, Orlando Silva? Até tu, PCdoB? É bem verdade que o último PM histriônico que apareceu na tevê era marido da Susana Vieira. Deu no que deu.

18 de outubro – Agora é na marra: vou cortar o ponto desses grevistas dos Correios. Quer moleza? Senta no pudim.

20 de outubro – Digam o que quiserem, foi-se um líder fashion das Arábias. Não fossem aquelas roupas divinas, teria apoiado bem mais cedo os insurgentes. Ando pensando em sapecar um “meu querido” no Orlando Silva. Melhor dosar para o momento certo.

21 de outubro – Não entendo esses jornais todos noticiando “Dilma mantém ministro dos Esportes”. Isso lá é notícia? Injustiça maior foi a final de A Fazenda: estava na cara que a Monique merecia ganhar.

22 de outubro – Aquele negócio de Pan já começou? É em Cochabamba, né? Ninguém atende minhas ligações lá no Ministério dos Esportes.

23 de outubro – Lá vamos nós inaugurar uma ponte estaiada. É bom deixar claro que não é só a oposição que detém a tecnologia.

24 de outubro – Santa periquita! Aquela foto de cocar é um horror! Negócio de índio dá o maior azar. De qualquer jeito, estou melhor que o Lula. Pelo amor de Deus, como está gordo o Fofo. Prosperidade dá nisso.

25 de outubro – Fiquei discutindo com a empregada o que servir no jantar dos velhinhos. Tive que convidar o Jimmy Carter e aquele bando da quarta idade para não ficar dando pinta que estava louca para encontrar o Fernando Henrique de novo. Ele é incrível! Quanta pertinácia! Pena que não ficou mais um pouco para tomar um licor lá de Uberaba.

26 de outubro – Não teve jeito: governar é demitir ministros. O Orlandinho bem que tentou continuar agarrado à rapadura, mas lhe dei um chega pra lá. Que venha outro albanês!

27 de outubro – Pelo menos não tem perigo de o Aldo Rebelo desmatar campos de futebol. Amanhã é dia de São Judas Tadeu, o das causas impossíveis. Será que se eu pedir para me livrar do Lula o santo atende?

14/11/2011

às 8:22 \ Sanatório Geral

Planalto afrodisíaco

“Envio uma mensagem de ânimo, força e afeto ao companheiro Orlando Silva”.

José Dirceu, ainda em liberdade, no encontro da Juventude do PT em Brasília, sem esclarecer se é namoro, amizade ou, como demonstrou a declaração de amor a Dilma Rousseff feita por Carlos Lupi, outra prova contundente de que o primeiro escalão se tornou, desde 2003, incontrolavelmente afrodisíaco.

09/11/2011

às 14:37 \ Feira Livre

‘A garantia sumiu’, um artigo de J. R. Guzzo

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA

J. R. Guzzo

Eles, os ministros demitidos nestes dez últimos meses, vão embora, provavelmente rumo a um merecido esquecimento. O que fica nos lugares que desocuparam? Ou melhor: o que muda?  Agora já são seis; mais um pouco e já se poderia formar uma Associação dos Ex-Ministros do Governo Dilma Rousseff. Parece, em todo caso, que a quantidade de gente posta na rua até agora é suficiente para pensar em alterações no bioma onde vivem as nossas mais notáveis autoridades. O mais provável é que só com a passagem do tempo, muita pesquisa e trabalho sério será possível descobrir, no futuro, se toda essa mudança na fauna, vegetação e clima do mundo oficial deixou as coisas mais ou menos na mesma, ou se o país ganhou. Por exemplo: a demissão do ministro dos Transportes vai resultar em mais estradas? A demissão do ministro da Agricultura vai melhorar a agricultura? Haverá mais turistas? O cidadão comum praticará mais esporte? É muito positivo, sem dúvida, que a presidente Dilma Rousseff tenha mostrado que denúncias de corrupção podem causar perda de emprego para os envolvidos. Mas os governos existem, no fim das contas, para tornar a vida das pessoas mais cômoda. Se não fizerem isso, para que poderiam servir?

Desde já, provavelmente, dá para dizer uma coisa: pior do que estava não fica. Parece pouco, mas não é; a experiência brasileira mostra que sempre pode ficar pior. No caso, a impressão é que não ficou. Os substitutos, pelo menos até agora, não chamaram a atenção de ninguém por saírem da linha ou por provocarem uma nova bateria de acusações. Também é bom sinal que os infames contratos com entidades dedicadas à vigarice, atualmente uma das práticas mais populares para colocar dinheiro público em bolsos particulares, tenham sido suspensos temporariamente. Se houver aí um esforço verdadeiro para separar o joio do trigo, o Erário vai sair ganhando – naturalmente, desde que se guarde o trigo e não o joio, como tantas vezes acontece. O horizonte, ao mesmo tempo, parece menos carregado. Quando veio a primeira demissão, dava para perceber que muita água ainda ia rolar debaixo da ponte; os ministérios cinco-estrelas em matéria de corrupção, inépcia e desordem ainda não tinham sido tocados. Parece, agora, que as barras mais pesadas já foram atingidas; a esta altura ainda não se tem certeza de nada, claro, mas não há dúvida de que houve progressos, mesmo porque ninguém mais pode achar que está garantido no cargo. O ministro do Esporte, por exemplo, dizia pouco antes de ser demitido que era “indestrutível”.  Talvez fosse, mas o seu emprego de ministro com certeza não era.

É interessante notar, nesta caminhada, uma outra particularidade: num país onde não existe oposição de verdade, e onde os institutos de opinião garantem que a presidente da República tem índices descomunais de popularidade, não haveria necessidade de demitir ministro nenhum. Para quê? Os acusados poderiam perfeitamente continuar em seus lugares. Mas não é o que está acontecendo. Depois de seis demissões seguidas, é visível que o Palácio do Planalto está preocupado com a opinião pública, e se sente na obrigação de dar satisfações a ela – não parece inclinado a conviver com o “malfeito”, como diz a presidente Dilma. Ou seja: ministros e outros mandarins da esfera superior do governo precisam tomar cuidado. Eles não têm como esconder, por exemplo, contratos ou pagamentos feitos nas suas áreas – e, mais do que tudo, não têm controle sobre o que sai na imprensa a respeito desses assuntos, ou quaisquer outros. É um problema e tanto. O que sai na imprensa, hoje, pode ter consequência direta, rápida e desastrosa para o doutor que circula em carro oficial e anda de elevador privativo. Não adianta ele dizer, quando seu nome aparece no noticiário de teor criminal, que “ninguém lê nada” ou que está havendo “uma campanha de difamação” contra o seu nome. Essa conversa continua, inclusive em volta da Presidência, mas é da boca para fora. Na vida real, todos sabem muito bem que a publicação de uma denúncia pesada, hoje em dia, pode ser o fim da linha. Também não adianta ter a TV Brasil, comprar blogs e manter veículos chapa-branca; essas coisas servem para elogiar, mas não seguram ninguém no emprego.

Quantos quilômetros a mais de estrada, e outros benefícios, vamos ter por conta da limpeza ora em curso? Como dito acima, vai se saber mais tarde. Sem o empenho de manter a casa limpa, porém, nada mudará para melhor.

08/11/2011

às 20:34 \ Sanatório Geral

Um ministro depois do outro

“Estou firme como uma rocha.”

Wagner Rossi, em agosto, ainda ministro da Agricultura, garantindo que continuaria no emprego que perdeu dez dias depois.

“Me sinto indestrutível.”

Orlando Silva, em outubro, ainda ministro do Esporte, garantindo que continuaria no emprego que perdeu quatro dias depois.

“Sou osso duro de roer.”

Carlos Lupi, nesta segunda-feira, ainda ministro do Trabalho, começando a despedir-se do emprego.

08/11/2011

às 19:28 \ Direto ao Ponto

Agnelo: um corrupto com nome de cordeiro

Celso Arnaldo Araújo

Denunciados por flagrantes delitos, através de um rosário de testemunhos sólidos, evidências robustas e rastros pegajosos, autoridades do primeiro escalão costumam encher o peito para soltar o berro falsamente indignado e carregado de perdigotos que, pelo volume, ganham a densidade da baba bovina e elástica dos boçais de Nelson Rodrigues:

─ E as provas? Onde estão as provas?

Os ladravazes de dinheiro público, dinheiro nosso, clamam pelo implausível. A roubalheira deixa um rastilho de imundícies, patifarias, malandragens, subtrações – mas, com exceções que podem ser imputadas à distração dos perpetradores, não produz notas promissórias assinadas e registradas em cartório, confissões de própria voz ou imagens que teriam sua autenticidade atestada pelo sempre disponível perito Ricardo Molina.

Bem, isso até hoje. A Folha acaba de atender ao apelo dos larápios. Revela, com documentos oficiais, uma transferência de 5.000 reais da conta de um lobista de indústria farmacêutica para a conta de Agnelo Queiroz, em 2008, quando o atual governador de Brasilia (ex-PCdoB e hoje PT) era diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a versão brasileira da FDA norte-americana.

Sim, Agnelo, que logo em seguida iria bater um bolão no Ministério do Esporte, preparando o campo para Orlando Silva, também foi colocado um dia para tomar conta de remédios – nenhum deles, por sinal, eficaz contra o vírus Corruptus brasiliae.

Não há território da administração pública que seja inóspito a um petista – ainda mais com o DNA do PCdoB. Eles se adaptam a todos os ambientes e esquemas, neutralizando sistemas de vigilância sanitária e financeira. Gente como Agnelo é capaz de tirar proveito até como gerente dos restaurantes Bom Prato, onde um PF custa 1 real. Imagine-se seu raio de ação, agora, como governador do DF.

Mas o Agnelo que nos interessa agora é o vigilante diretor da Vigilância, guardião da saúde dos brasileiros. A descarga de cinco mil reais se deu, por curiosíssima coincidência, horas antes de a indústria representada pelo lobista, a União Química, receber uma certidão de “nihil obstat” da Anvisa. Sem ela, estaria impedida de participar de licitações para fornecimento de medicamentos à rede pública e até de registrar novos medicamentos.

A liberação foi automática, como as transferências eletrônicas: caiu o dinheiro, saiu o certificado. A liberação dependia exclusivamente de Agnelo. E aqui nem cabe discutir se a decisão foi baseada em critérios técnicos.

Mas, espere. Uma merreca dessas remunera uma decisão que influi diretamente no futuro de uma grande empresa? Agnelo é barateiro ou é barato? Na verdade, como confirmou a VEJA Daniel Almeida Tavares, o lobista, os cinco mil eram apenas uma parcela do acerto de cinquentinha feito com Agnelo. Isto é: o subornador não nega o suborno. E o subornado?

Coloque-se no lugar de Agnelo Queiroz, pintando e bordando como governador da capital do país, mas envolvido até a glote nas escandalosas tabelinhas do Ministério do Esporte. Você está sendo ameaçado de impeachment como governador e, de repente, surge não apenas uma prova, mas um atestado de corrupção de seu caráter chancelado pelo Banco Central. Os cinco mil não foram para a conta de laranjas – mas do espremedor em pessoa, com seu nome de batismo e de inscrição no TER, sem nenhuma reserva, nenhum receio. Como contestar a mulher nua encontrada languidamente em sua cama? É preciso tentar alguma saída.

Não sei quanto tempo teve Agnelo entre a revelação cabal do malfeito e a providência de uma explicação. Se foram minutos ou horas, se foi improvisada ou estudada, foi a pior possível: uma emenda mais canalha que o soneto da corrupção. Um ladrão comum não ousaria uma desculpa desse teor.

Diz a Folha:

“O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), admitiu ontem que recebeu em sua conta pessoal R$ 5.000 de um lobista quando trabalhava como diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2008 (…) Em nota divulgada ontem, Agnelo voltou a rejeitar a versão do lobista de que recebeu dinheiro de propina e disse que os R$ 5.000 representavam o pagamento de um empréstimo que ele havia feito para Tavares. O governador admitiu à Folha que o empréstimo foi feito informalmente, sem documento ou contrato que comprove a transação. E disse que emprestou o dinheiro ao lobista em espécie, portanto não teria como comprovar sua versão”. E ele, valente, batendo no peito com a mesma empáfia dos ministros na véspera da queda:

“É mais uma tentativa desesperada da oposição de construir algo que relacione o governador a qualquer irregularidade (…) (o depósito) foi a devolução de quantia concedida em empréstimo à referida pessoa. Associar esse depósito a origem irregular é tentativa criminosa de acusação vazia”.

A desculpa de Agnelo não vale um fio de sua barba. Além da ladroagem desenfreada, essa gente não tem limites em seu cinismo sórdido. Ele acha que alguém, fora os asseclas da base aliada, comprará a história de que um dia levou cinco mil reais, em dinheiro vivo, para socorrer um lobista em apuros que mal conhecia – e justamente quem representava uma causa milionária que dependia de decisão de governo, no caso dele, para uma solução que seria efetivamente dada. Por essa versão, os cinco mil que apareceram em sua conta apenas retornaram ao local onde já pertenciam antes do empréstimo.

Ou seja: havia, sim, uma mulher nua em sua cama. Mas já era sua e nua antes de chegar à cama.

Agnelo Queiroz tem tudo para ser o novo ídolo dos milicianos.


 

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