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João Goulart

28/03/2013

às 17:22 \ Direto ao Ponto

Almir Pazzianotto Pinto: ‘As relações promíscuas entre governo e sindicatos’

Trecho: Governo e sindicatos cultivam relações bastardas. O primeiro, porque lhe dão tranquilidade, capacidade de controle e apoio eleitoral. Quanto aos segundos, tiram o máximo proveito da promiscuidade: recebem polpudas ajudas em dinheiro público, gozam de prestígio político, interferem na escolha de ministros, têm livre acesso a palácios e ministérios. Ser dirigente sindical próximo do governo é a melhor posição que alguém pode almejar, por trazer vantagens sem gerar preocupações.

Leia a íntegra na seção Feira Livre.

28/03/2013

às 15:07 \ Feira Livre

‘Governos e sindicatos, relações bastardas’, por Almir Pazzianotto Pinto

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

João Goulart (1919-1976) é personagem singular e enigmática da nossa história. Escolhido por Getúlio Vargas para sucedê-lo como condutor da política trabalhista, Jango herdou a resistência das elites e a desconfiança das Forças Armadas.

A aproximação entre Vargas e Jango iniciou-se no final de 1945 quando o presidente, deposto no dia 29 de outubro pelos generais, foi confinado na estância de Itu, município de São Borja, vizinha da propriedade da família Goulart. Partiu daí a transformação do jovem criador de gado em político do PTB gaúcho, pelo qual se tornou deputado estadual em 1947, federal em 50, presidente nacional do partido em 52, ministro do Trabalho em 53.

Convocado por Vargas ─ que voltara ao Catete eleito presidente da República em 1951 ─ para fortalecer vínculos com o movimento sindical, Jango “tornou-se figura de destaque e árbitro dos conflitos entre os trabalhistas, ao mesmo tempo em que, em estreita ligação com Vargas, passava a controlar os principais cargos de chefia na Previdência Social”. Simultaneamente, se empenhava na tarefa de atribuir importância nacional às organizações sindicais, “de forma a constituir uma força que pudesse dar respaldo ao presidente, atingido, no segundo ano do governo, pelos efeitos da crise política, latente desde o período eleitoral” (Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro, vol. III).

Desde a Carta Constitucional de 1937, sob a qual foi redigida a CLT, governo e sindicatos cultivam relações bastardas. Relata João Pinheiro Neto, no livro “Jango, Um Depoimento Pessoal” (Ed. Record) que, quando Ministro do Trabalho, várias vezes Goulart lhe disse “Tu, que és menino inteligente, diga a esses homens (referia-se às lideranças sindicais) que não forcem demais, que me deixem um pouco tranquilo. E acrescentava: Podes anotar: se me apertarem demais e eu cair, virá por aí uma ditadura militar que vai durar vinte anos. E, quando isso acontecer, os nossos líderes sindicais não poderão andar nem na rua…”  O temor de quem se sentia acossado, e não dispunha de força para resistir ao assédio sindical, era profético, e seria confirmado pelos fatos.

A promiscuidade com o peleguismo foi obra de Vargas, exímio na arte de manipulá-lo. Jango não aprendeu com o mestre, e (na presidência da República) se deixou envolver por dirigentes ambiciosos, que imaginavam assumir o domínio do País a partir de movimentos grevistas, como o deflagrado em outubro de 1963 por 77 sindicatos e 4 federações estaduais, representantes de metalúrgicos, têxteis, gráficos, marceneiros, químicos-farmacêuticos, liderados pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) controlada por aliança entre PTB e PCB.

Apoiada abertamente por Jango e Amauri Silva, Ministro do Trabalho, a “greve dos 700 mil” não resistiu à intervenção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, acionado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Mas eliminou a escassa confiança do setor patronal no propalado espírito cordato e conciliador do presidente.

O golpe de 31 de março de 64 provocou total desarticulação do sindicalismo comuno-petebista. Entre os primeiros 100, cujos direitos políticos foram suspensos por 10 anos pelo Ato nº 1 (de 9/4/1964) do Comando Supremo da Revolução, 40 eram sindicalistas, entre os quais Clodismith Riani, Dante Pelacani e Hércules Correia, diretores da CNTI e líderes Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para ocupar os postos deixados pelos cassados o governo nomeou interventores como Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, que seria presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

A truculência do governo militar provocou a substituição dos protagonistas da promiscuidade. Ao invés de sindicalistas ligados à denominada esquerda progressista, o que se observou foi a brusca ascensão de elementos das oposições na chefia de sindicatos, federações e confederações, em íntima colaboração com o Ministério do Trabalho, que lhes garantia sucessivas reeleições e os alimentava com o Imposto Sindical.

Em 1946 e 1988 perderam-se duas excelentes oportunidades de moralização do movimento sindical. O art. 8º (da Constituição de 88), o pior texto da história na matéria, afastou o poder de intervenção direta do Estado, mas conservou o sistema confederativo, a divisão de empregadores e empregados em categorias, o monopólio de representação, a Contribuição Sindical obrigatória para não associados, o registro no Ministério do Trabalho.

Governo e sindicatos cultivam relações bastardas. O primeiro, porque lhe dão tranquilidade, capacidade de controle e apoio eleitoral. Quanto aos segundos, tiram o máximo proveito da promiscuidade: recebem polpudas ajudas em dinheiro público, gozam de prestígio político, interferem na escolha de ministros, têm livre acesso a palácios e ministérios. Ser dirigente sindical próximo do governo é a melhor posição que alguém pode almejar, por trazer vantagens sem gerar preocupações.

A presidente Dilma Rousseff havia adotado postura austera e firme diante das centrais. Buscou, aparentemente, fazer com que entendessem haver larga distância entre interesses pessoais de dirigentes, ávidos de dinheiro ou de ascensão política, e relevantes projetos nacionais, como tornar a economia competitiva no mundo globalizado, começando pela reforma dos portos e aeroportos.

Aconselhada pelo ex-presidente Lula, deu um passo atrás e as reconduziu a lugar de honra no Planalto. O primeiro fruto da reaproximação consiste na atitude da Força Sindical, autora de manifestações contra a privatização de terminais portuários prevista na Medida Provisória 595, em tramitação no Poder Legislativo.

S.Exa. poderia dedicar algumas horas à história do trabalhismo janguista, e certamente concluirá que relações incestuosas, com o peleguismo, jamais trarão resultados benéficos ao País.

Almir Pazzianotto Pinto é advogado; foi Ministro do Trabalho e presidente do TST.

20/04/2012

às 22:07 \ Direto ao Ponto

A Guerra das Togas informa que o Judiciário não escapou da Era da Mediocridade

Precipitada pelas declarações de Cezar Peluso ao site Consultor Jurídico, consumou-se nesta sexta-feira, com a entrevista de Joaquim Barbosa ao Globo, a abertura da mais selvagem das frentes de combate que compõem a Guerra das Togas. Somada às batalhas paralelas, a troca de chumbo entre o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e o relator do processo do mensalão comprova que o que foi historicamente o corpo de elite do Judiciário vai sucumbindo aos estragos causados pela Era da Mediocridade na Praça dos Três Poderes. Está cada vez mais parecido com o Executivo e o Legislativo.

Enquanto os ministros foram escolhidos entre os melhores e os mais brilhantes, enquanto o preeenchimento das vagas no STF esteve subordinado à meritocracia e às exigências constitucionais que cobram dos indicados notável saber jurídico e reputação ilibada, nem o mais delirante ficcionista ousou conceber um bate-boca semelhante ao protagonizado por Peluso e Barbosa. Ao queixar-se do “temperamento difícil” de Barbosa e qualificá-lo de “inseguro”, Peluso fez o papel do aluno brigão que provoca o colega no fim das aulas. O revide do provocado transferiu da porta do colégio para o botequim essa molecagem de gente supostamente adulta.

Na réplica ao desafeto, Barbosa temperou acusações de alta voltagem, incluindo a “manipulação de resultados de julgamentos”, com adjetivos insolentes ─ “ridículo”, “brega”, “caipira”, “tirano” e “pequeno”, por exemplo. Peluso não respondeu de imediato, mas a tréplica está em gestação. O Brasil  em que os juízes só falavam nos autos parece tão remoto que bate a sensação de que existiu antes do Descobrimento. Agora os doutores falam em qualquer lugar. Falam tanto que lhes falta tempo para falar nos autos.

Se discursassem menos e julgassem mais, já teriam liquidado há anos o caso do mensalão, que segue estimulando barulhos em outras frentes da Guerra das Togas. Ao longo desta semana, todas registraram tiroteios retóricos. Numa das áreas conflagradas, ao repetir que o STF precisa definir o destino dos mensaleiros ainda neste semestre, Gilmar Mendes expôs-se ao contra-ataque de Marco Aurélio de Mello, para quem não faz sentido “julgar a toque de caixa” um escândalo descoberto há sete anos. Sem ficar ruborizado, Marco Aurélio garantiu que há na fila de espera pelo menos 700 processos tão relevantes quanto a roubalheira de dimensões siderais.

Vizinho de trincheira, Dias Toffoli murmurou que ainda não sabe se deve participar do julgamento que envolve velhos companheiros ou declarar-se sob suspeição. Como se a dúvida pudesse existir. Antes de virar ministro, Toffoli foi advogado do PT e, no governo Lula, chefiou a Advocacia Geral da União. Depois de ganhar a toga, sua namorada advogou em defesa de alguns mensaleiros. “Ele não tem o direito de ficar fora”, cobrou Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo. O parecer de Marinho atesta que, neste estranho Brasil, os companheiros é que decidem o que deve fazer um juiz do Supremo. Instado por outros ministros a apressar a entrega do serviço, Ricardo Lewandowski retrucou que ninguém o fará acelerar o ritmo de obra do PAC. Ele ainda não revelou quando vai concluir a revisão do processo ─ informação que, na avaliação mais recente, vale 1 milhão de dólares.

“Japona não é toga”, lembrou o senador Auro Moura Andrade, em outubro de 1964, aos chefes militares que se valiam dos códigos do arbítrio para violentar a Constituição. Com a frase curta e pedagógica, Auro ensinou que cabe ao Supremo Tribunal Federal interpretar lidar com assuntos constitucionais e, simultaneamente, lembrou aos pastores do autoritarismo que general não é juiz. Passados 50 anos, os cidadãos fardados estão longe dos focos de turbulência. Os mais  perturbadores se localizam na Praça dos Três Poderes. Um deles ameaça devastar o Supremo.

A frase de Auro perdeu o sentido num Brasil sobressaltado por juízes sem juízo. Se os ministros do STF agissem nos quartéis, haveria uma crise político-militar de meia em meia hora. Ainda bem que toga não é japona.

23/11/2011

às 1:52 \ Sanatório Geral

Ofensa grave

“O Lupi está sendo perseguido como o Jango e o Getúlio foram. Só que perto do Lupi, o que fizeram com o Jango e o Getúlio foi fichinha.”

Manoel Dias, secretário-geral do PDT, ao acusar de carloslupi os presidentes Getúlio Vargas e João Goulart, fingindo ignorar que um caso de polícia não se resolve com exílio ou suicídio, mas com uma boa temporada na cadeia.

31/10/2011

às 15:01 \ Baú de Presidentes

A falta que um Tancredo faz

Nas cenas finais de Tancredo, a Travessia, quem conhece razoavelmente o personagem acha que ficou faltando alguma coisa. Tal sensação poderia ser dissolvida, ou pelo menos abrandada, por uma tarja que, sublinhando as comoventes imagens de abertura, exibisse a advertência necessária: Tancredo Neves não cabe em 105 minutos. Essa é a duração do documentário que estreou nesta quinta-feira nas salas de cinema. Enquanto acompanha passo a passo a caminhada de um PhD em política que viveu como protagonista os episódios mais dramáticos ocorridos entre 1954 e 1985, o diretor Sílvio Tendler procura capturar-lhe a essência do pensamento e as características que forjaram o estilo incomparável. É muito assunto para pouco mais de uma hora e meia.

E é muita história para uma vida só. Ministro da Justiça em agosto de 1954, Tancredo primeiro usou o talento de conciliador para tentar conter a cólera dos inimigos de Getúlio Vargas. Na última reunião do ministério, mostrou a valentia que nunca lhe faltou ao defender a resistência armada aos militares sublevados. Consumada a tragédia, pronunciou um discurso feroz à beira da sepultura do grande suicida. Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, o candidato derrotado ao governo de Minas Gerais negociou o acordo entre o vice João Goulart e os generais conservadores que instituiu o parlamentarismo. Emergiu da crise como primeiro-ministro do novo regime.

Em 1964, líder do governo de Jango na Câmara, Tancredo fez o que pôde para evitar o golpe de Estado. Derrotado, ajudou a fundar o MDB oposicionista e seguiu demonstrando que a prudência e a coragem podem e devem andar de mãos dadas. Amigo de Juscelino Kubitschek, cassado em junho, acompanhou o ex-presidente nos humilhantes depoimentos em tribunais militares. Em 1976, voltou ao cemitério de São Borja para despedir-se de Jango, que não pôde ser sepultado com honras de chefe de Estado, com ataques frontais ao governo autoritário.

Em 1983, engajou-se sem ilusões na campanha pela volta das eleições presidenciais diretas, que qualificou de “lírica”  não por desconhecer a importânica da mobilização popular, mas por conhecer bem demais o Congresso. Convencido de que a sucessão do general João Figueireido não seria decidida nas urnas, tratou de tecer desde o começo de 1984 as complicadas alianças que, em janeiro do ano seguinte, garantiram  a vitória sobre o candidato governista  Paulo Maluf  no Colégio Eleitoral. Entre o início das operações de bastidores e o triunfo, Tancredo colocou em prática as lições que resumia numa metáfora fluvial: “Não se tira o sapato antes de chegar à margem do rio. Mas não se vai ao Rubicão para pescar”.

Esperou até a 25ª hora para formalizar a candidatura e deixar o governo de Minas. Chegara à margem do rio. E então partiu para a travessia do seu Rubicão — o rio que todo guerreiro tinha de cruzar para lançar-se à conquista de Roma. Conseguiu o apoio de todas as vertentes da oposição, com exceção do PT. (O detentor do monopólio da ética se negou a votar no candidato da nação e expulsou os três deputados que descumpriram a ordem. Lula achou que Tancredo não merecia confiança também por ter como vice um José Sarney. Hoje amigos de infância, Sarney e Lula são reduzidos a uma dupla de pigmeus oportunistas pela grandeza do presidente que poderia ter sido e não foi).

Na etapa seguinte, Tancredo atraiu dois terços do PDS e isolou Maluf. Como se disputasse uma eleição direta, liderou comícios monumentais em várias cidades brasileiras. Já era um campeão de popularidade quando pronunciou o belo discurso da vitória. Surpreendido pela cirurgia inadiável na véspera da posse em 15 de março, agonizou até 21 de abril, quando deixou a vida para entrar no imaginário popular como herói nacional.

Cada uma das tantas versões de Tancredo vale um livro, cada episódio que protagonizou vale um filme. Como foram todos agrupados num único documentário, é inevitável que certos trechos pareçam rasos demais, incompletos ou de difícil compreensão. A memória nacional sairia ganhando se, por exemplo, fossem incorporadas mais informações ao trecho reservado às restrições feitas por chefes militares ao candidato do MDB. Até render-se aos fatos, o presidente Figueiredo vivia recitando a expressão  “Tancredo never”. Preocupado com as reações da linha dura, o candidato montou em segredo um plano para reagir a um eventual golpe fardado. O excesso de cautela aconselhou Tancredo a ocultar as dores que prenuciaram o drama. Ele achava que os quartéis não admitiriam a posse do vice José Sarney.

Feitas as ressalvas, convém deixar claro que o que parece pouco aos olhos de cinquentões bem informados é mais que suficiente para permitir a quem tem menos de 30 uma pedagógica viagem, conduzida por Tancredo, pelo turbulento Brasil da segunda metade do século 20. No grande viveiro de desmemoriados vocacionais e amnésicos por conveniência, que a cada 15 anos esquecem o que aconteceu nos 15 anteriores, merece ser saudado com tambores e clarins um documentário que trata a verdade com gentileza e conta o caso como o caso foi.

É irrelevante saber se será anexado aos trunfos eleitorais do senador Aécio Neves. Se fosse neto de um avô assim, Tancredo Neves agiria da mesma forma. E pouco importa constatar que a câmera não esconde a admiração pelo personagem. Esse mineiro de São João del Rei que fez da conciliação política uma forma de arte, esteve sempre do lado certo e só depois de morto subiu a rampa do Palácio do Planalto é, decididamente, um estadista admirável.

Outros documentários completarão o painel esboçado pelo retrato pintado por Tendler ─ e concluído na hora certa. Milhões de brasileiros poderão constatar que, há apenas 25 anos, sobrava gente que debatia ideias, defendia programas e não estava à venda. Os corruptos não chegavam tão facilmente ao ministério. A Era da Mediocridade ainda era só um brilho no olhar guloso de Lula e seus devotos. As imagens mostram um José Sarney constrangido, deslocado, consciente da condição de intruso. Virou presidente graças aos micróbios do Hospital de Base de Brasília e à incompetência dos médicos, que se uniram para castigar o Brasil com a perversidade brilhantemente condensada na frase do jornalista Carlos Brickmann: “Sair de Tancredo para cair em Sarney é, definitivamente, encontrar um túnel no fim da luz”.

05/09/2011

às 16:40 \ Baú de Presidentes

João Goulart: Bom coadjuvante, mau protagonista

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Os três únicos brasileiros que assumiram a Presidência depois da República Velha sem ter completado 50 anos não chegaram ao fim do mandato. Jânio Quadros (44), um assombroso fenômeno regional que nunca havia visitado o Palácio do Planalto nem dormira mais que duas noites na nova capital, imaginou que o Distrito Federal fosse São Paulo em miniatura. Rompido com a maioria do Congresso, renunciou no sétimo mês de governo. Fernando Collor (40) imaginou que Brasília fosse uma grande Alagoas. Ampliou o patrimônio sem cautelas, virou as costas ao Legislativo e foi despejado pelo impeachment dois anos e meio depois da posse. A terceira vítima da maldição dos 40 não exibe qualquer semelhança com os companheiros de infortúnio, demonstra o historiador e pesquisador Jorge Ferreira em João Goulart – Uma biografia (Editora Civilização Brasileira; 713 páginas; R$ 69).

Jânio e Collor cediam a impulsos juvenis, tinham muita pressa e nenhuma intimidade com o poder central. Em setembro de 1961, quando substituiu o único chefe de governo que abandonou o emprego voluntariamente, João Goulart tinha apenas 43 anos. Mas também tinha muita paciência, tornara-se um ótimo ouvinte, assimilara a arte da conciliação, pensava demoradamente antes de agir e se movia com desembaraço no Olimpo federal. Veterano de muitas guerras, o gaúcho quarentão compreendeu já no dia da renúncia de Jânio que a mais feroz de todas acabara de começar. E achou que estava pronto para vencê-la.

Como ressalta Jorge Ferreira, Goulart emergiu do anonimato ainda na década de 50, quando o jovem fazendeiro se tornou confidente, depois pupilo predileto e enfim herdeiro de Getúlio Vargas, o ex-ditador desterrado na estância do Itu, no Rio Grande do Sul, desde a implosão do Estado Novo. Para sempre associado ao mito que governou o país por quase 20 anos, e continuou influenciando poderosamente o comportamento do eleitorado por mais 10, Jango elegeu-se deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, ministro do Trabalho, duas vezes vice-presidente da República e presidente do Senado. “João Goulart se formou em Direito e, sobretudo, em política brasileira, pelas mãos de Vargas”, lembra Jorge Ferreira. O aluno aplicadíssimo aprendeu muito. Mas há o que não se aprende em lugar nenhum. Carisma, por exemplo, é marca de nascença. E a centelha que identifica o líder de massas não é uma graça alcançada. É uma escolha do destino

A minuciosa narrativa de Jorge Ferreira permite acompanhar a centímetros de distância a trajetória percorrida por Jango desde a infância em São Borja até a morte na fazenda na Argentina, ao lado de Maria Thereza ─ a mais jovem, bela e injuriada das primeiras-damas. As mais de 700 páginas também escancaram as virtudes e os defeitos de Jango. Embora não oculte a simpatia pelo biografado, o autor não sonega aos leitores os equívocos e escorregões que acabaram por transformar o governo João Goulart no caminho mais curto para a ditadura militar. Incomodado com a “condenação ao esquecimento” que teria sido imposta ao seu personagem pelos historiadores, Ferreira às vezes se entrega à tentação de incluí-lo na rarefeita galeria dos estadistas. Mas o conjunto das informações reunidas no livro se encarrega de corrigir eventuais exageros. Se não foi o arquiteto da república comuno-sindicalista satanizada pelos militares ultraconservadores, nem o burguês que, aos olhos da esquerda primitiva, mascarava com jogadas demagógicas a cumplicidade com o Brasil conservador, Jango tampouco foi uma reedição remoçada de Getúlio Vargas.

Corretamente, Ferreira argumenta que não se pode tratar como um populista sem qualidades o herdeiro indiscutível do maior político brasileiro do século 20. Vale ressalvar, contudo, que o legado incluiu os ódios represados entre agosto de 1954, quando Getúlio se suicidou no penúltimo ano de mandato, e março de 1964, quando os militares tomaram o poder. E não custa registrar as diferenças que separam o mestre do discípulo. Getúlio nasceu para o papel principal. Jango foi sempre um grande coadjuvante. As festejadas performances em papeis secundários, aliás, podem tê-lo desqualificado para encarnar o protagonista. Ministro do Trabalho de Getúlio, por exemplo, ganhou força entre os sindicalistas ao garantir um aumento de 100% no salário mínimo. Em contrapartida, jamais se livraria da suspeita de flertar com comunistas.

Em 25 de agosto de 1961, o almirante Sylvio Heck, ministro da Marinha de Jânio, certamente pensava no ex-ministro do Trabalho ao resumir para Jânio o pensamento das Forças Armadas: “Nós levamos tanto tempo para tirar essa gente do poder. Como é que o senhor vai entregar-lhes novamente o governo? ” ‘Essa gente”, confirmou o tom depreciativo, era a grande seita getulista em geral e, em particular, João Belchior Marques Goulart, promovido a cardeal depois da morte do seu único deus. “Eu tinha certeza que os militares não aceitariam Jango”, contou muitos anos depois. Ninguém podia então adivinhar, no momento da renúncia, que a instituição do regime parlamentarista adiaria por dois anos e meio o desfecho do drama, narrado pormenorizadamente nos capítulos reservados à agonia do regime democrático.

Essas páginas contribuem para transformar João Goulart – Uma biografia em leitura indispensável aos interessados em compreender aqueles tempos crispados ─ e descobrir por que, como a mudança das estações, a queda era inevitável. É compreensível que se tenha consumado sem resistência. Jango nunca olhava as pessoas nos olhos. Desafiado pelas tropas insubordinadas, não quis contemplar o olho do furacão.

21/07/2011

às 14:43 \ Direto ao Ponto

Os leitores aposentam a UNE, acrescentam uma letra à velha sigla e criam a União Nacional dos Estudantes Amestrados

Nascida em 1937, a União Nacional dos Estudantes foi presidida até o fim dos anos 60 por nacionalistas, udenistas, socialistas, comunistas ortodoxos e partidários da luta armada. Mas nunca pertenceu a qualquer partido ou organização. Fosse qual fosse a identidade ideológica do presidente ou da diretoria, a UNE sempre procurou traduzir o pensamento majoritário do universo que representava. Descontados os inevitáveis acidentes de percurso, opções equivocadas e erros bisonhos, prevaleceram na longa e bela trajetória da entidade a independência política, a vocação antigovernista, o amor à democracia e a paixão pela liberdade.

Orientada por tais marcas de nascença, a UNE combateu o Estado Novo, defendeu nas ruas a entrada do Brasil na guerra contra o totalitarismo nazista, lutou pela ressurreição do regime democrático, ajudou a apressar a criação da Petrobras, apoiou as reformas planejadas pelo governo João Goulart, opôs-se ao golpe militar de 1964 e tentou resistir à institucionalização da ditadura, consumada pela decretação do AI-5.

Sobreviveu a adversidades de bom tamanho, mas ficou grogue e exposta ao nocaute em 1968, abalada pela ação ação conjunta da cabeça fraca de José Dirceu e da mão pesada do regime autoritário. Encarregado de organizar o congresso da UNE, o futuro guerrilheiro de festim resolveu juntar mais de 1.000 universitários perto de uma cidade com menos de 10 mil habitantes. A Polícia Militar completou o serviço e prendeu todo mundo. O desmaio da UNE se estendeu até 1985, quando acordou do sono e emergiu da clandestinidade para agonizar à luz do dia.

Perdeu a independência em 1980, quando o agora deputado federal Aldo Rebelo assumiu a presidência e reduziu a UNE a um apêndice do Partido Comunista do Brasil. Perdeu a vergonha de vez em 2003, quando foi incluída no contrato de aluguel assinado pelo presidente Lula e pelos chefes do PCdoB. Para amestrar a sigla, o governo não precisou de domador nem chicote. Bastaram rações em dinheiro vivo ou subvenções, além de garantia de que os encontros, quermesses e piqueniques promovidos pelos pelegos aprendizes seriam patrocinados por empresas estatais. Funcionou.

A União Nacional dos Estudantes teve queixas a fazer, reivindicações a apresentar, mudanças a convocar nos governos de Getúlio Vargas, Eurico Dutra, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros  e João Goulart, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Depois de Lula, todos os problemas sumiram. O sistema educacional ficou perfeito. A mesma turma que boicotou o Provão aplaudiu os dois naufrágios sucessivos do Enem, pilotados pelo companheiro Fernando Haddad. O Brasil Maravilha que o chefe criou não precisa sequer de retoques. Se melhorar, estraga.

O prêmio pelo bom comportamento foi a bolada de quase R$ 50 milhões, oficialmente destinados à construção do zoológico próprio na Praia do Flamengo, projetado por Oscar Niemeyer. Ali serão costuradas as notas de apoio a qualquer coisa que venha do Planalto. Ali serão planejadas as próximas quermesses. Ali será esboçado o documento que resume, num texto indigente, as deliberações aprovadas no último dia. Tem tanta importância quanto a ata de alguma reunião do Clube dos Leitores de Lula.

Numa das mais movimentadas enquetes da história da coluna, 3.290 leitores-eleitores resolveram que a UNE não existe mais. Por decisão de 1.047 votantes (32% do total), nasceu a União Nacional dos Estudantes Amestrados, ou simplesmente UNEA. Aos 74 anos, a velha senhora caiu na vida e perdeu o direito de continuar usando o nome outrora respeitável.

21/12/2010

às 20:12 \ Sanatório Geral

Samba do presidente doido

“Lembro que fui a uma reunião e disse ao presidente Sarney e ao Renan: digam a eles que querem me derrubar, que eu não vou fazer que nem o Getúlio, não vou me matar. Não vou fazer como João Goulart, não vou renunciar. Eles vão ter que me derrotar nas ruas desse país, nos bairros desse país, nas favelas desse país”.

Lula, na festa de despedida organizada pelo PMDB do Rio, ao reapresentar a versão que inventou para transformar em manobra golpista oposição a roubalheira do mensalão, produzida pelo PT com o conhecimento do chefe de governo, insinuando que “eles” ─ aparentemente o novo codinome dos 40 de José Dirceu ─ achavam que o presidente cometeria suicídio ou se exilaria no Uruguai.

30/07/2010

às 21:27 \ Sanatório Geral

Salada mista

“É a mesma elite que levou Getúlio a dar um tiro no coração, que matou Jânio Quadros e fez João Goulart renunciar. Eu disse a essa elite que eu não estarei no gabinete lendo o jornal deles, mas na rua, com o povo brasileiro que vai decidir o destino desse país”.

Lula, no comício em Porto Alegre, juntando no mesmo palavrório Getúlio, Jânio, Jango, povo e elite para explicar que não aprendeu a ler porque passa todo o tempo na rua decidindo o destino deste país.

25/07/2010

às 5:00 \ Sanatório Geral

Falta camisa-de-força

“O que tentaram fazer comigo, fizeram com Getúlio e ele deu um tiro no peito. O que tentaram fazer comigo fizeram com Jango que teve que sair do Brasil. O que não sabiam é que Lula era milhões de Lulas espalhados por esse país”.

Lula, no comício da blasfêmia em Garanhuns, explicando que a oposição inventou o escândalo do mensalão para que ele morresse ou fugisse, sem saber que, graças ao milagre de multiplicação de lulas, o maior dos governantes conseguiria  transformar o dia em que Roberto Jefferson contou tudo numa data tão importante quanto 24 de agosto de 1954 e 31 de março de 1964.

 

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