Blogs e Colunistas

João Figueiredo

31/01/2011

às 15:47 \ Baú de Presidentes

Confidências de João Figueiredo numa noite das arábias (2)

Publicado em 1º de junho de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 2

O EXTERMINADOR DE COELHOS

─ O que eles querem é me pegar de calção e a Dulce de maiô ─ está dizendo João Baptista de Oliveira Figueiredo, à vontade no sofá da sala imensa, quando o empresário Georges Gazale, dono da mansão em que o ex-presidente da República se hospedava havia cinco dias, apresenta os dois recém-chegados ao homem de calça social cinza claro, camisa esporte cinza claro e cardigan cinza claro. (Os sapatos e as meias eram pretos).

─ Esses moços são jornalistas ─ previne Gazale. ─ Mas jornalistas amigos, gente de confiança ─ ressalva antes que o general da cavalaria sempre cismado com a imprensa se levante do sofá já prendendo e arrebentando.

O outro moço é meu amigo Carlos Maranhão, editor da Playboy , também hasteado a um metro da figura que acaba de erguer-se. Figueiredo está uns dez quilos mais gordo e milhares de volts menos tenso, constato. A perna esquerda, que balança feito pêndulo doido quanto fica nervoso, permanece tranquilizadoramente imóvel. E então recomeço o diálogo que, sete anos antes, não havia passado de cinco segundos, duas frases, cinco palavras e uma vírgula.

─ Boa noite, presidente.

─ Boa noite, como vai? ─ sorri Figueiredo, que cumprimenta Maranhão e se senta para retomar a história que está contando a meia dúzia de convidados que chegaram mais cedo para o jantar oferecido por Gazale em homenagem ao hóspede ilustre.

Estou no lucro, contabilizo às oito da noite de 12 de março de 1987. A conversa já chegara a dez segundos, sete palavras, duas vírgulas e um ponto de interrogação. Fora o sorriso, que prometia continuação. Devo essa ao Maranhão, registro. Estou lá graças àquele moço.

─ O Gazale vai dar um jantar para o Figueiredo na quinta-feira e me convidou ─ Maranhão me surpreendera no almoço de segunda, ainda na fase dos aperitivos. ─ Perguntei se podia te levar e ele disse que sim.

Grande Maranhão. Grande notícia. Só não paguei o almoço porque o dono do Au Liban era o próprio Gazale, que não cobrava nada de ninguém que conhecesse há mais de duas horas. A generosidade do proprietário foi um dois motivos que transformaram o Au Liban no nosso restaurante predileto. O outro foi a boa qualidade da comida árabe. Estou pensando na cozinha do lugar quando um garçon se aproxima do grupo, ao qual me juntara sem pedir licença, que ouve o caso do calção e do maiô. Esses salgadinhos são de lá, adivinho ao mesmo tempo em que descubro quem eram as figuras misteriosas que o ex-presidente chamara de “eles” na primeira frase que ouvi. “Eles” eram fotógrafos.

─ Sempre tem um cara em cima de algum morrinho, com aquelas máquinas enormes ─ esclarece a continuação da narrativa do confronto entre a turma da teleobjetiva e o homem de 69 anos que, longe dos quartéis e do poder, buscava sossego no seu sítio em Nogueira, perto de Petrópolis, na Serra Fluminense.

O duelo, silencioso e recorrente, começava sempre às cinco da manhã. Assim que aparecia na porta da casa o ermitão com pernas arqueadas de cowboy, barriga saliente, cabelos lisos, testa ampla, cara amarrada e olhar desconfiado, uma câmera brilhava em alguma elevação a 100 metros de distância. Imediatamente, Figueiredo apoiava o pulso direito no antebraço esquerdo, dava uma acintosa banana para o espião e, sem desfazer o gesto, marchava em direção à piscina. O bombardeio de cliques e flashes se intensificava nos fins de semana em que Dulce Figueiredo aparecia no sítio, vinda do apartamento no Rio em que passava todos os dias úteis.

Figueiredo confessa que gosta mesmo é de ficar sozinho. Primeiro, porque pode passar o dia inteiro só de calção. Depois, porque fica livre de visitas ou telefonemas e liberado para dedicar-se a seus coelhos. Vistoria a criação todas as manhãs, depois das braçadas na piscina.

─ No momento tenho cem ─ informa. ─ Gosto muito de coelho. Gosto tanto que já-já reduzo a turma. De cada dois, eu como um.

Não é pouca coisa, mas o ex-presidente pretende melhorar o desempenho. Precisa manejar com mais aplicação o garfo e a faca, e aumentar o ritmo do extermínio, para acompanhar a velocidade espantosa com que aqueles bichos se multiplicavam. Gazale, que voltara à roda dois minutos antes, acha que o amigo começou a enveredar por areias movediças e reitera o alerta.

─ Eu disse que esses moços são jornalistas, presidente?

Figueiredo faz que sim com a cabeça, engata uma segunda e pisa no acelerador.

─ Só achava chato quando vinha aquele bando de jornalistas atacando a gente com microfones nas mãos ─ abre o sorriso. ─ Sempre com uma repórter bonitinha na frente.

Faz uma pausa, passa em revista com os olhos os dois moços da imprensa e lembra que se dera bem com os repórteres que frequentavam diariamente a sala de imprensa do Palácio do Planalto. Todos o tratavam com muita cortesia, eram bastante gentis. Feito o registro, comanda a carga da cavalaria ligeira:

─ É o que sempre digo à Dulce: jornalistas e picaretas são muito educados.

Finjo que não ouvi direito para continuar ouvindo Figueiredo. Ele tinha muito a dizer.

25/01/2011

às 16:49 \ Baú de Presidentes

Confidências do presidente João Figueiredo numa noite das arábias

Publicado em 26 de maio de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 1

DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS

─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro.

─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar.

Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar que houve um diálogo, muito menos uma conversa. Aquilo não passou de uma banalíssima troca de cumprimentos. Não tive tempo de dizer como me chamava e o que fazia, nem de perguntar-lhe se estava bem. Mas eu não precisava contar à minha família que a coisa foi tão indigente. Diria apenas que tinha conversado com o presidente, só isso, e não estaria mentindo. Resolvida a questão doméstica, fiquei olhando o homem baixo e atarracado, suando sob o terno e a gravata que oficiais da cavalaria jamais aprenderão a combinar, que avançava escoltado por meia dúzia de seguranças pelo atalho aberto na pequena multidão reunida para recepcioná-lo no 7° andar do prédio da Editora Abril na Marginal do Tietê.

Um dia ainda pego esse cara de jeito, consolei-me. Peguei mesmo, mas só sete anos mais tarde, quando Figueiredo já era ex-presidente e tinha tempo de sobra até para conversar horas a fio com um jornalista que nem conhecia. Naquele começo de tarde em que dialogamos por cinco segundos, eu não poderia adivinhar que viajaria a seu lado numa noite das arábias. Tratei de convencer-me de que não fora uma desconsideração. No lugar dele eu faria o mesmo. Também teria preferido juntar-me à roda onde estavam o fundador da Abril, Victor Civita, o editor Roberto Civita, o diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, o diretor-adjunto Elio Gaspari, o governador Paulo Maluf e mais duas ou três figuras da primeira divisão. Eu era só o editor de Política. Quem ocupa esse cargo joga na segundona.

Ainda bem que nenhum deles vai estar no Guarujá amanhã, confortei-me em completo silêncio, planejando os preparativos para o encontro com o ex-presidente Jânio Quadros no dia seguinte. Que maio, aquele. Um presidente e um ex- em 48 horas. Se não houve tempo para uma conversa que merecesse tal nome no dia 27, a do dia 28, com Jânio, duraria uma tarde inteira. De passagem, iria mostrar ao velho campeão como é que se bebe.

Pelo menos a conversa posso ouvir, decidi com a cabeça de volta ao prédio da Abril. Pedi a Pedro Martinelli que me fotografasse ao lado de Figueiredo, minha mãe iria ficar orgulhosa. Abri caminho na selva de braços, dorsos, cabeças, pernas e consegui estacionar a um metro do presidente. Pedrão fez a foto. Só uma, a que ilustra esta narrativa. E que seria usada contra mim, como ocorreria com a imagem transformada por Jânio no golpe de misericórdia que encerrou o duelo desigual. A foto do dia 28 viraria prova de que só eu bebi. A do dia 27 me deixou com cara de papagaio de pirata.

Não ouvi grande coisa, ninguém faz revelações espetaculares numa roda. Mas fiz dois ou três registros que poderiam ser úteis. Figueiredo fumava mais que marido traído de filme francês e vivia sob a tensão permanente que aflige um espião argentino. Quando o tema do momento aguçava o desconforto, a perna esquerda balançava como um pêndulo que perdeu a compostura. Ele parecia insatisfeito com o emprego. Estava mesmo, confirmaria sete anos depois.

Não guardo lembranças do almoço, nem lembro a que distância fiquei da mesa principal. Achei que nunca mais toparia com Figueiredo depois da entrevista ao jornalista Alexandre Garcia em que, com o governo no fim, pediu ao país que o esquecesse. Parecia sincero. Mas resolveu esquecer o pedido em 12 de março de 1987, uma quinta-feira. Começou a falar às 8 da noite. Só parou às duas da madrugada.

Quando o falatório terminou, descobri que poucas vezes tivera tanta sorte naquela virada para uma sexta-feira 13. É o que se verá no segundo e último capítulo da história.

03/08/2010

às 17:19 \ Direto ao Ponto

Antes da retomada da série de textos inéditos, o colunista contracena com Jânio Quadros em dois episódios assombrosos

Do Baú de Presidentes já saíram a noite em que Jânio Quadros apareceu para jantar em Taquaritinga, a tarde no Guarujá em que bebi com Jânio, uma noite das arábias com João Figueiredo, a topada com Tancredo Neves num cemitério no Rio, um jantar com Tancredo em Belo Horizonte, o passeio de José Sarney numa limusine branca em Nova York, um café da manhã no Palácio da Alvorada em companhia do dono do Maranhão, uma turbulenta entrevista com Aureliano Chaves em Minas e, como brinde, uma troca de pontapés verbais com Paes de Andrade, fundador da República de Mombaça.

Ainda faltam Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Encerrada a fase doméstica, entrará em cena o elenco internacional que inclui os chilenos Eduardo Frei e Augusto Pinochet, os argentinos Raúl Alfonsín e Roberto Viola, o boliviano Hugo Banzer e — como poderia ficar fora? — o cubano Fidel Castro. Antes de retomar a série, que será reunida em livro, preciso de três semanas para consultar anotações, conferir datas, conversar com gente que testemunhou alguma das ocorrências. Só depois disso a sequência de textos inéditos poderá recomeçar.

Até o fim deste agosto, o espaço será preenchido pela republicação dos quatro campeões de audiência que inauguraram a seção. A série começa com o relato da noite em que Jânio irrompeu na casa dos meus pais para jantar antes do comício. E prossegue com a narrativa, divida em três capítulos, da tremenda bebedeira em que tentei nocautear o campeão. Milhares de leitores da coluna não leram essas histórias. Garanto que vão gostar de conhecê-las.

Share

11/06/2010

às 19:55 \ Sanatório Geral

Conselheiro de Deus

“Podem comparar os oito anos do nosso governo com 20 anos dos outros governos. Que grandes obras fizeram os ex-presidentes João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso?”

Lula, em Aracaju, onde inaugurou um conjunto habitacional, reiterou a promessa de duplicar a BR-101 e entregou alguns ônibus escolares, agora culpando também os amigos de infância e companheiros de luta José Sarney e Fernando Collor pela trabalheira que teve para construir um país em sete anos.

03/05/2010

às 18:34 \ Baú de Presidentes

A noite em que Aureliano Chaves quis sair no braço com quatro jornalistas da revista Veja (fim)

aureliano-jovem

A tempestade amainou, mas pode recrudescer a qualquer momento, alerta a previsão do tempo no apartamento de Aureliano Chaves. A respiração está mais compassada, mas o vice-presidente continua mirando os jornalistas da revista VEJA com cara enfezada. E as pupilas se dilatam ameaçadoramente quando o olhar enquadra o repórter A.C. Scartezini.

José Roberto Guzzo, Elio Gaspari e eu recorremos ao manual da imprensa: para entrevistas pesadas, perguntas leves. Por exemplo: o que gosta de fazer nas horas livres?

─ Faço exercícios todo dia ─ começa o cinquentão com estampa de caminhoneiro.  ─ Pratico levantamento de peso desde moço ─ completa, conferindo com orgulho o bíceps direito exposto pela camisa de mangas curtas.

De manhãzinha, deita-se numa prancha estendida no chão e flexiona 15 vezes os braços que sustentam 70 quilos de halteres. Em seguida, outras 60 flexões ─ 30 com cada braço ─ segurando 16 quilos. Aquele mineiro corpulento tem 53 anos, penso. Se resolver sair no braço, vai ser uma parada dura.

─ Não vou precisar da imprensa para responder a agressões ─ Aureliano parece adivinhar o que estou pensando. ─ Tenho também outros métodos ─ eleva de novo o tom de voz.

Essa noite não vai acabar bem, reitera a indocilidade do entrevistado. Alguém pergunta como vai o esforço para transformar-se no candidato do PDS à sucessão presidencial. O rosto de Aureliano Chaves enfim exibe algo parecido com um sorriso. Na semana anterior, recebera o apoio formal de um bloco de notáveis do partido, entre os quais Affonso Arinos, Olavo Setúbal, Célio Borja e Ney Braga. Diz que ficou muito contente. Tão contente que resolveu fazer o possível para controlar o temperamento beligerante:

─ Não vou perder tempo com denúncias no varejo ─ promete. ─ E vou engolir sapos.

Nem todos, ressalva:

─ Vou engolir tantos sapos quanto o meu estômago conseguir digerir, mas uma coisa é a disposição para engolir, outra coisa é a capacidade de digeri-los. Quando a digestão estiver interrompida, vou expelir o sapo.

É improvável que ele engula o sapo que Scarta guarda na cabeça, desconfio enquanto a conversa atravessa garoas, chuvas mais fortes, nesgas de céu sem nuvens e zonas de turbulência. Parece calmo ao tratar das chances de algum acordo com o governador Tancredo Neves, candidato da oposição à presidência. Fica irritado quando ouve se é verdade que a relação com o presidente Figueiredo anda crispada. Perto das dez da noite, os visitantes informam que a conversa foi muito boa, há assunto de sobra para a reportagem de capa. Começamos a levantar-nos. É a senha para a entrada de Scarta em campo minado.

─ O senhor me desculpe tratar deste assunto, mas preciso saber o que o senhor pensa dos rumores sobre doença…

─ Como? ─ aparteia Aureliano já de pé, o rosto retomando a cor do perigo.

─ Essas coisas que os adversários estão dizendo ─ entra na zona do agrião o bravo repórter.

─ Que coisas? ─ começa a ouvir-se o som da fúria.

Scarta enfim pronuncia as palavras proibidas:

─ Alguns falam em disritmia neurológica.

Fica claro que Aureliano não vai engolir o sapo:

─ Se surgir uma denúncia dessas, a resposta é uma junta médica! ─ berra enquanto avança na direção de Scarta. ─ E nesse caso os exames têm de abranger todos os candidatos!

Guzzo, Gaspari e eu nos interpomos entre os litigantes, balbuciando palavras de despedida.

─ Feito isso, meto o autor da acusação na cadeia! ─ Aureliano está com cara de quem não vai parar na barreira.

Ouve-se uma estranha mistura de cumprimentos e ameaças ─ “boa noite”, “assim não é possível!”, “obrigado pela entrevista”, “não admito essas coisas!”. Os jornalistas recuam em direção à porta do elevador, que abre para a sala, e apertam o botão.

─ Ou faço coisa pior! ─ explode Aureliano, que acelera a investida.

Chega o elevador. Entramos, apertamos o botão do térreo e a porta se fecha a tempo. O rosto colérico do vice-presidente está colado na janelinha. Um andar abaixo, A. C. Scartezini recupera a fala:

─ Mas esse homem é doido…

Então, sem combinações nem ensaios, Guzzo, Gaspari e eu, os três ao mesmo tempo, colocamos o indicador na vertical e emitimos em veemente surdina o toque de silêncio:

─ Psssssssssssssssssssssssss!!!

E batemos em corajosa retirada.


20/04/2010

às 15:14 \ Baú de Presidentes

Os presidentes que saíram do Baú vão juntar-se de novo num livro

selo_aniversario53

Criada para abrigar histórias vividas ou testemunhadas pelo colunista, a seção Baú de Presidentes tem reiterado que o Brasil republicano sempre foi governado por gente como a gente ─ às vezes bem mais brilhante, às vezes bastante parecida, às vezes muito pior que a gente. Os 26 episódios publicados desde abril de 2009 foram protagonizados por Jânio Quadros, o campeão de aparições, João Figueiredo, Tancredo Neves, José Sarney e Aureliano Chaves. Outros dez pais-da-pátria, entre os quais alguns estrangeiros, aguardam na fila a hora de entrar em cena.

Já saíram do baú a noite em que Jânio apareceu para jantar em Taquaritinga, o grande duelo etílico entre o presidente e o colunista, revelações do neto do homem da renúncia, o bife de dona Eloá que Celso Arnaldo não comeu, uma noite das arábias com Figueiredo, um encontro no cemitério com Tancredo, um longo jantar em Belo Horizonte com o presidente que não assumiu, um espantoso café da manhã com Sarney, o dia em que o donatário do Maranhão passeou de limusine branca em Nova York e outros episodios divertidos e pedagógicos. Sorrindo, os leitores contemplam a face desconhecida do n° 1. No momento, Aureliano Chaves está prestes a sair no braço com quatro jornalistas da revista Veja.

Duas editoras querem reunir num livro os posts saídos do Baú. Ambas acham que a comissão de frente deve ser puxada pela bebedeira com Jânio Quadros. O que vocês acham?

07/12/2009

às 22:27 \ Baú de Presidentes

Um prato de pílulas, queijo de cabra nortista e conversa de doido no café da manhã com Sarney

Foi o jornalista Getúlio Bittencourt, chefe da sucursal de VEJA em Brasília quando eu era editor de Política, quem disseminou a praga do café da manhã com figurões federais. A novidade surgiu no início dos anos 80. E pegou, para desconsolo dos passageiros da noite. Horários historicamente obscenos para jornalistas ─ sete, sete e meia da madrugada ─ foram logo incorporados à rotina de trabalho. Culpa de Getúlio Bittencourt, meu velho amigo que morreu tão cedo.

Fui a Brasília em setembro de 1982 para um giro pelo coração do poder. Num fim de noite, veio com a sobremesa a notícia de que o dia seguinte começaria com a aurora.

─ Temos um café da manhã ─ avisou Getúlio na mesa do restaurante. ─ Com o Sarney. Sete e meia lá no Lago Sul.

O senador José Sarney era presidente do PDS, filhote da Arena tão obediente aos chefes militares quanto a mãe. Pelo andar da carruagem, o regime não iria muito longe: o general João Figueiredo assumira a presidência da República para concluir a abertura política iniciada por Ernesto Geisel. Imaginava-se que os paisanos a serviço dos donos do poder, como Sarney, perderiam inteiramente a importância que nunca fora muita. Para que aquela conversa?

─ Para você conhecer o Sarney ─ replicou Getúlio.

Mas às sete e meia?.

─ Ele gosta desse horário.

Cheguei sem atraso para o primeiro café-da-manhã com o senador José Sarney, como sem atraso chegaria para outros cinco ou seis que Getúlio combinou. Ou porque eu estava sempre grogue pela noite mal dormida, ou porque o anfitrião gastava o tempo tratando de irrelevâncias, não me lembro direito do que se conversou.

─ Tremenda perda de tempo, hein, parceiro? ─ dizia ao chefe da sucursal depois de cada encontro.

Repeti a provocação até que Sarney se juntou aos dissidentes, deixou o PDS em 1984, virou vice de  Tancredo Neves e acabou na presidência da República, eleito pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília. Telefonei para Getúlio, que depois seria secretário de imprensa do chefe de governo, para formalizar a rendição:

─ Você é um profeta.

─ Ele até vai continuar te recebendo, mas naquela hora de sempre ─ tripudiou o inventor do café-da-manhã federal.

O cardápio não era melhor que o horário: queijo de leite de cabra do Maranhão, queijo-de-Minas, pão, café com leite e o prato de pílulas coloridas sempre ao alcance da mão do hipocondríaco militante. Era isso o que havia sobre a mesa, comprida como as dos banquetes festivos do Lions, na manhã de 1988 em que voltei a encontrá-lo no Palácio da Alvorada.

Sentados frente a frente no meio da mesa inverossímil, eu combatia o sono, ele combatia a realidade com bastante animação. Comia e falava, falava e bebia. Entre um pedaço de queijo e um gole de café com pílula, dissertou longamente, sem pausas nem vírgulas, sobre o espetáculo de desenvolvimento patrocinado pelo Plano Cruzado.

A conversa me pareceu muito doida. A euforia dos primeiros meses acabara havia quase dois anos, os “fiscais do Sarney” estavam aposentados há muito tempo, o país ainda se recuperava do que economistas chamam de crise de desabastecimento. O delegado Romeu Tuma esquecera a temporada de caça a rebanhos supostamente escondidos por sabotadores. Embora muito mais caros, estavam de volta a carne que sumira, o frango que desaparecera e outros produtos. Mas também estava de volta a inflação obscena, que avançava a galope.

A coisa em 1988 andava feia, achava o Brasil inteiro. Menos o presidente da República.

─ O importante é que quem comprou uma geladeira continua com a geladeira ─ espantou-me Sarney no penúltimo parágrafo da discurseira.

─ Mas não há o que guardar na geladeira ─ ponderei. ─ Ninguém tem dinheiro para comprar.

Ele revidou com um olhar compassivo e o golpe de misericórdia:

─ Só que agora tem a geladeira. E antes não tinha a geladeira. Está provado que a vida melhorou.

28/10/2009

às 19:47 \ Direto ao Ponto

A confissão de Lula desmonta o palavrório complicado do doutor

O presidente Lula nunca foi um preso político da ditadura. Em abril de 1980, não havia ditadura. A ultradireita fora neutralizada pelo presidente Ernesto Geisel, o general João Figueiredo não era um tirano. Como atesta a entrevista acima, gravada em 1997, Lula foi apenas hóspede involuntário do hotel-cadeia instalado pelo delegado Romeu Tuma nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS.

É verdade que, durante 31 dias, não dormiu em casa, ficou fora das assembléias dos metalúrgicos e nâo pôde zanzar por portas de fábricas. Mas o gerente do estabelecimento levou-o várias vezes ao hospital onde a mãe agonizava, chamou um dentista para atendê-lo de madrugada, não confiscou o aparelho de rádio e permitiu que lesse jornais na sala do delegado. É essa a cadeia com que sonha todo engaiolado.

Lula estava em liberdade, tinha fundado o PT, virado presidente do partido e começava a preparar-se para a disputa do governo de São Paulo quando foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e perdeu tanto o comando do sindicato quanto os direitos sindicais. Na prática, foi proibido de fazer o que já não o interessava. Pois onde gente sensata vê uma condenação inócua o procurador da República no Distrito Federal Peterson de Paula Pereira acabou de enxergar um tremendo castigo a ser reparado em dinheiro vivo.

Na semana passada, Peterson comunicou à nação que foi muito acertada a promoção de Lula a perseguido da ditadura e anistiado político com direito a aposentadoria excepcional. A decisão do procurador, que revalidou o benefício concedido em 1993,  sepultou a denúncia encaminhada ao Ministério Público Federal pelo deputado estadual Eliseu Gabriel da Silva Júnior, do PSDB paulista. Por considerá-las injustas e imerecidas, o parlamentar solicitou o cancelamento da promoção e a suspensão da mesada.

O procurador discordou em juridiquês castiço:  “Após perquirição dos autos e abreviada súmula daquilo que pertine ao objeto desta representação, não havendo afetação a nenhum interesse público ou direito indisponível a ser guarnecido, promovo o arquivamento dos presentes autos ante a inexistência do interesse de agir”. 

Basta reler o palavrório do doutor e rever o vídeo, divulgado com exclusividade pela coluna em 2 de maio, para chegar-se à tradução em língua de gente: deixa o presidente embolsar em paz a mesada que não merece.

07/10/2009

às 23:09 \ Baú de Presidentes

Tancredo, lição n° 5: “Um acordo entre contrários é muito mais difícil que uma vitória eleitoral”

Está começando mais uma lição aquática, só que agora no oceano, sorrio intimamente ao ouvir de Tancredo Neves que convém esperar que as ondas parem de bater para examinar a espuma. Depois do passeio pelo Rubicão, um mergulho no mar, divago enquanto vigio os movimentos do homem à minha frente na mesa do restaurante em Belo Horizonte. O doutor Tancredo dá outra garfada no tutu à mineira. O franzir da testa avisa que a aula vai começar. 

─ Esse tutu é realmente muito bom ─ ele administra a posse de bola com o dispensável elogio à comida, parecido com o que fez ao corneteiro do enterro do general Cordeiro de Farias.

─ O senhor está pensando na briga do ACM com o Délio? ─ tento tomar-lhe a bola para  recolocá-la sobre ondas e espumas.

─ Estou pensando em coisas que podem acontecer, mas é verdade que a espuma demorou a aparecer depois do incidente entre o governador e o ministro ─ responde o candidato a presidente que fala como quem escreve.

Para simular a intimidade que não tenho nem com Antônio Carlos Magalhães nem com o brigadeiro Délio Jardim de Mattos, identifiquei pela sigla o governador da Bahia e chamei pelo prenome o ministro da Aeronáutica. Para fingir que trata cerimoniosamente os dois, e para deixar claro que o truque que usei não enganava ninguém, ele se referiu a ACM e a Délio pelos cargos que ocupam. Esse mineiro não perde uma, rendo-me já com a memória estacionada no dia 4 de setembro de 1984. 

A colisão entre as ondas de bom tamanho começou a desenhar-se no fim da manhã, quando o  ministro e velho amigo do presidente João Figueiredo traduziu no meio de um discurso a irritação do governo com a diáspora dos velhos aliados. Convidado para uma solenidade pouco relevante realizada no aeroporto de Salvador, Délio aproveitou a chance de mandar um duro recado aos parlamentares que trocaram o PDS governista pela Aliança Democrática, ostensivamente engajada na campanha do candidato do PMDB. 

Ao qualificar de “traidores” todos os que abandonaram o barco tripulado pelo candidato Paulo Maluf, o ministro da Aeronáutica atingiu o fígado do governador bom de briga. Antonio Carlos comemorava o aniversário em casa quando foi alcançado pela acusação. Fechou a cara e fechou-se no escritório. Minutos depois, reapareceu com um sorriso e uma folha de papel com a resposta que consumou o choque das ondas.  ”Traidor é ele, que apoia um corrupto”, dizia um trecho do manuscrito bem mais agressivo que o discurso de Délio.

A análise da espuma, ouço do doutor Tancredo no meio do jantar,  informou que políticos civis já podiam, sem temer a perda do mandato ou a decretação de atos institucionais, responder com igual contundência e no mesmo tom áspero a pronunciamentos de generais, brigadeiros e almirantes. Também dispensou o líder oposicionista de preocupar-se com a hipótese da prorrogação do mandato do presidente Figueiredo, aberração defendida por oficiais interessados em ganhar mais tempo para a organização da retirada. Mas alguns militares, advertiu a espuma,  seguiam alheios às evidências de que o regime estava à beira da sepultura. E continuariam a agir.

Em 10 de agosto, milhares de cartazes colados nas paredes dos prédios de Brasília vinculavam o candidato do PMDB aos comunistas. Recortado contra o fundo vermelho, ao lado da foice e do martelo, o rosto de Tancredo ilustrava a inscrição: PCB ─ Chegaremos lá”. Presos em flagrante por policiais civis, alguns jovens foram libertados por um militar que apareceu na delegacia para resgatá-los antes que o interrogatório começasse. Na noite do jantar, continuavam sem identidade os destinatários da mensagem enviada por Tancredo em 20 de setembro. “Os integrantes da direita não raci0cinam, agem, e quase sempre apelando para a violência, para a intriga, para a infâmia, para processos condenáveis de ação política”, subiu o tom habitualmente cauteloso o alvo das manobras clandestinas.

Isso aconteceu ontem, lembro na mesa do restaurante. O Brasil ainda está exposto ao risco de um golpe?, quero saber. Tancredo vai dizer que sim e dizer por quê. Ele está certo, saberei antes que o ano termine. Também sabarei o quer dizer a frase que será o tema da lição seguinte:

─ Um acordo entre contrários é muito mais difícil que  uma vitória eleitoral.

14/09/2009

às 18:06 \ Baú de Presidentes

Tancredo Neves, lição nº 4: “Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater”

Tancredo Neves presidente (foto: Carlos Namba)

— Paulo Maluf é o adversário perfeito porque só ele nunca teria a menor chance de unir o PDS — explica Tancredo Neves. — Os outros talvez conseguissem.

Os outros são o vice-presidente Aureliano Chaves e o ministro Mário Andreazza, ambos já fora do páreo naquele outubro de 1984. Aureliano formalizou o apoio a Tancredo em julho, quando o primeiro grande bloco de dissidentes rompeu com o PDS, transferiu-se para a Frente Liberal e inaugurou a sequência de rachaduras no partido do governo. Andreazza, derrotado na convenção nacional de 11 de agosto, acompanhou o presidente João Figueiredo na adesão à candidatura do ex-governador paulista, mas quase  sozinho: os cabos eleitorais com real poder de fogo preferiram o caminho que levaria ao fim do regime militar.

Pergunto quando foi que decidiu escalar Paulo Maluf para jogar como adversário.

— No dia em que assumi o governo de Minas.

No começo de 1983, numa conversa a dois com Aureliano, ficou combinado que o mineiro que não chegasse à fase final apoiaria o mineiro sobrevivente.

— Eu sabia que o Aureliano não iria longe — sorri Tancredo. — Não teria o apoio do Figueiredo porque o presidente não gostava do vice. Quando viajava, o Aureliano trabalhava muito e o titular ficava com cara de quem não é de muito serviço. E o Maluf usa certos métodos de atração que poucos têm coragem de copiar.

A aproximação com o grupo de Andreazza ficou para o ano seguinte. A primeira conversa entre o governador  e o ministro foi curta e rasa.

— O encontro foi no apartamento do Andrezza no Rio. O Antônio Carlos é que articulou tudo — informa.

Antonio Carlos Magalhães, governador da Bahia e coordenador da candidatura do ministro, já combinara com Tancredo que, se Maluf vencesse a convenção, disputariam como aliados a maioria do Colégio Eleitoral. Faltava combinar com Andreazza.

— Em cinco minutos, ficou claro que aquela conversa não seria muito produtiva — a voz do doutor Tancredo parece rejuvenescida, — O Andreazza parecia não entender o que a gente falava, ficava sempre na superfície, até que foi ao banheiro.

Quando voltou, ACM e Tancredo já haviam acertado a continuação da conversa no dia seguinte. Em outro local. E sem Andreazza.

— Mas ele não era má pessoa — consola.

Só depois de soldada a aliança o candidato da oposição e dos governistas dissidentes considerou-se pronto para o combate aberto. Em 14 de agosto, ao deixar o governo de Minas, esperou que o adversário perfeito tomasse a iniciastiva. O ataque veio dois dias depois.

— Sou imbatível — provocou Maluf.

— Até agora ele só enfrentou amadores — revidou Tancredo no dia seguinte.

Por que esperou 24 horas para responder?, fico intrigado enquanto o vejo dobrando e desdobrando o guardanapo de papel.

— É melhor aparecer sozinho na primeira página — ensina. — E quem diz a última coisa fica com cara de quem ganhou.

Como previra o profissional, Maluf partiu para o combate aberto com a afobação dos amadores.

— O Brasil não deve eleger um presidente com mais de 70 anos de idade — passou a repetir o que lhe pareceu uma sequência de jabs na testa.

— A Inglaterra, no auge da Segunda Guerra, foi conduzida com sabedoria pelo ancião Churchill — preparou Tancredo o contragolpe no fígado. — Roma antiga, no entanto, foi incendiada pela estupidez do jovem Nero.

Fica risonho quando reproduzo o início do duelo na conversa em Belo Horizonte.

— Vem mais confusão aí, mas estou confiante — avisa.

Pede o cardápio ao garçon, para escolher a sobremesa, e pede que eu ouça com atenção o que vai dizer:

— Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater.

Saberei por que antes que o jantar termine.


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados