Blogs e Colunistas

JK

22/09/2011

às 17:31 \ Feira Livre

‘Nomes próprios’, por Nelson Motta

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Nelson Motta

Como expressão de afeto e intimidade, os apelidos dizem mais das pessoas do que seus próprios nomes. Como maledicência, às vezes geram obras-primas de humor e critica social. O ex-deputado alagoano Cleto Falcão, que as más línguas diziam ser meio agatunado, foi apelidado de Clepto Falcão. E o ex-governador mineiro Hélio Garcia, que seria muito chegado aos copos, de Ébrio Garcia.

Brasília gargalhou quando o baixinho Celso Amorim, por sua mania de grandeza, foi alcunhado de Megalomaníaca. No Paraná todos sabem que o ex-governador Requião é chamado de Maria Louca, mas há controvérsias sobre a sua origem. Garotinho surrupiou o apelido de um famoso locutor esportivo carioca. ACM alcunhou, com sucesso, Michel Temer de “mordomo de filme de terror”. Grande mestre do uso político de apelidos, Brizola provocou gargalhadas e estragos eleitorais chamando Lula de “sapo barbudo”, Moreira Franco de “gato angorá” e Collor de “filhote da ditadura”.

Madre superiora. Em diálogos entre corruptos gravados pela Polícia Federal, Sarney é chamado de “madre superiora”. Faz sentido. Como “Rei”, só existem dois, Roberto Carlos e Pelé, e como “Bruxo” também: Machado de Assis e Golbery do Couto e Silva.

Como siglas, só três sobrevivem: JK, ACM e FHC. Grandes craques têm sempre apelidos, Pelé, Zico, Tostão, Didi, Fenômeno, ninguém pode bater um bolão como Castro, Góis ou Motta.

Dunga teve que superar o apelido ridículo para ser um campeão, assim como Pato e Ganso. Popó nocauteou Acelino. Fofão não seria uma estrela do vôlei como Hélia Pinto.

Tim teria o mesmo sucesso como Sebastião Maia? Cartola seria famoso como Angenor de Oliveira? Lulu Santos seria um popstar como Luiz Mauricio?

Ninguém imagina Lobão cantando, falando e fazendo o que faz se fosse só João Luiz. Gay e transgressivo, Cazuza não poderia ser um ídolo do rock como Agenor Araújo. Paulinho Boca de Cantor, Gato Félix, Bolacha e Baby Consuelo, batizada como Bernardete, só poderiam ser dos Novos Baianos.

Um dos apelidos recentes mais criativos é o aparentemente inofensivo Estebán, que é como a oposição venezuelana chama Hugo Chávez.

É a abreviação de “este ban-dido”.

23/10/2010

às 22:46 \ Sanatório Geral

Nem JK escapou

“Tenho grande orgulho de ser mineira. Aqui tomei conhecimento da cidadania. Quem nasce em Minas tem o valor da liberdade dentro do coração. Aqui aprendi a lutar contras adversidades, aprendi a lutar contra a ditadura e aprendi que a gente poderia querer um Brasil diferente daquele desigual, que não crescia, não dava educação, não dava saúde, não dava emprego e não combatia as drogas”.

Dilma Rousseff, capturada pela Thuya durante a discurseira em Uberlândia e entregue aos enfermeiros com o seguinte recado: Pelo visto, ela resolveu ainda na infância acabar a tiros com o analfabetismo, a falta de emprego, as filas para consulta médica no NPS, as drogas e o excesso de dinheiro nos bancos. Nem JK escapou da mineiridade de Dilma.

29/06/2010

às 10:06 \ Sanatório Geral

Diferença essencial

“Assim como Getúlio, JK e Jango, governo com o coração. É melhor do que com a cabeça”.

Lula, em entrevista para o documentário ‘Os Herdeiros de Vargas, Memórias do Brasil’, sem explicar que Getúlio, JK e Jango também tinham cabeça.

09/04/2010

às 0:12 \ Direto ao Ponto

Depois de Getúlio e Juscelino, Dilma tenta colocar Tancredo na mira dos assassinos da verdade

O primeiro alvo dos assassinos da verdade foi Getúlio Vargas, ferido pela versão que o transforma em modelo de Lula. O segundo foi Juscelino Kubitschek, atingido pela fantasia que procura torná-lo parecido com o presidente que não lê nem sabe escrever. A terceira vítima pode ser Tancredo Neves, avisou o palavrório de Dilma Rousseff no cemitério em São João del Rey.  Foi ela a escolhida para a abertura da farsa destinada a inventar afinidades entre o estadista nascido em Minas Gerais e um camelô de comício.

A tarefa é mais complexa que as anteriores. Getúlio e JK não conviveram com a sigla nascida em 1980. Tancredo sofreu durante cinco anos a hostilidade sem pausas de um PT delirantemente oposicionista. A sequência de agressões verbais e gestos insolentes chegou ao climax em 15 de janeiro, quando o PT se recusou a apoiar o candidato do PMDB no Colégio Eleitoral. Entre Tancredo Neves e Paulo Maluf, a companheirada preferiu a abstenção.

Principal advogado da desfeita, Lula não enxergou diferenças entre dois opostos. “São duas faces da mesma moeda”, resumiu o campeão do raciocínio tosco, incapaz de distinguir um mestre da conciliação de um apóstolo do desentendimento, um democrata irretocável de um comerciante de votos, uma biografia de um prontuário. Inconformados com o monumento à insensatez, os deputados petistas Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes votaram em Tancredo. Foram sumariamente expulsos.

Se tivesse efetivamente aprendido a admirar o presidente que nunca subiu a rampa do Planalto, Lula trataria de penitenciar-se publicamente, pedir desculpas aos três parlamentares, pedir perdão à família do injuriado e pedir a Deus que reduza o abismo que o separa de Tancredo. Em vez disso,  escalou Dilma Rousseff para a cena inicial do show de cinismo eleitoreiro.

O vídeo abaixo reproduz o momento mais assombroso do hino à canastrice. Convidada a explicar por que resolvera depositar uma coroa de flores no túmulo de Tancredo, Dilma tenta pinçar na memória a discurseira que Lula ensinou. A largada claudicante revela que não decorou direito a lição:

─ Ninhum homem público no Brasil, né?, é propiedade privada de nenhum partido, nem… num… é… é… é o fato da gente… é… respeitar o Tancredo Neves, o Tancredo Neves ele foi um brasileiro, eleito presidente da República e, infelizmente, não, não pode governar.

A gagueira diminui no primeiro ponto, mas Dilma derrapa na memória curta:

E ele não era propriamente nem do PT nem do PSDB, né? Ele era de outro partido…

As reticências advertem que a candidata esqueceu o nome do outro partido.

─ Era do PMDB ─ sopra-lhe no ouvido o companheiro Fernando Pimentel.

Não há clima para lembrar à especialista em nada que Tancredo só poderia “ser do PSDB” se ressuscitasse três anos depois da morte para filiar-se ao partido fundado em 1988. O silêncio da oradora grita que é complicado demais ouvir e falar ao mesmo tempo.

─ Era do PMDB. Era do Brasil ─ insiste Pimentel.

─ Era do PMDB, né? ─ hesita Dilma já perdendo a paciência.

─ Era do Brasil ─ desespera-se a voz sussurrante.

─ E nós podemos perfeitamente sendo… nós podemos perfeitamente, né?, sê do PT e respeitá o Tancredo Neves ─ acelera Dilma na última curva. ─ Até porque hoje ele é um patrimônio do Brasil. E acho que o presidente Lula, o governo do presidente Lula, na fala que eu… li dele, que ele falava que um país só podia ser grande se seu povo se desenvolvesse, tivesse saúde, tivesse educação e felicidade, acho que o governo do presidente Lula se aproximou muito do que o Tancredo falou nessa… nesse seu discurso.

Era esse o objetivo da visita, todos entenderam. A afilhada sem rumo só queria vincular o padrinho ao presidente que morreu enquanto a democracia ressuscitava, ao avô de Aécio Neves, ao político mineiro que certamente estaria contra Lula e ao lado de José Serra. Dilma fez o que pôde para facilitar o sequestro da memória de Tancredo, que segue em perigo. Mas o prólogo do espetáculo ultrajante foi um fiasco. A bichinha está palanqueira, mas o neurônio continua solitário.


19/10/2009

às 17:13 \ Sanatório Geral

JK não merece

“No canteiro das obras do Lote 11, entre os municípios de Custódia e Sertânia, em Pernambuco, a caravana presidencial se hospedou num alojamento, repetindo JK nos tempos de construção da capital federal. Agora, as dependências usadas por Lula, ministros e assessores vão virar museu”.

Blog do Planalto, nesta segunda-feira, informando que, nos três dias em que puxou a Procissão dos Pecadores do São Francisco, Lula se sentiu igualzinho a Juscelino Kubitschek durante a construção de Brasília.

21/08/2009

às 4:31 \ Sanatório Geral

Coração em descompasso

“Dilma até pode não ter a simpatia de muitos grandes líderes do passado, como o Juscelino, que era um monumento de simpatia. Ela é simpática também, se relaciona bem com as pessoas, não como o Juscelino, que era transbordante de simpatia”.

Edison Lobão, no poema Petrobras é Brasil, conseguindo em dois versos comparar Dilma a um homem, contar que todo mundo no governo acha que Dilma sorri menos que José Sarney neste inverno, lembrar a José Sérgio Gabrielli a simpática bronca que levou de Dilma por telefone, promover JK a monumento transbordante mas só um pouco melhor que Dilma e confirmar que o ministro de Minas e Energia é uma genuína anta maranhense.

14/07/2009

às 23:26 \ Sanatório Geral

JK não merece

“Não era habitual neste país os presidentes percorrerem o Brasil. Além do Collor, que é de Alagoas, o único presidente a vir aqui foi Juscelino Kubitschek”.

Lula, ainda no improviso de Palmeira dos Índios, sugerindo que hoje se compara também a Fernando Collor depois de passar alguns anos se comparando a JK, que jamais se compararia a qualquer um dos dois.

15/06/2009

às 17:16 \ Direto ao Ponto

Lula nem faz ideia de quem foi JK

O presidente Juscelino Kubitschek foi o que o brasileiro gostaria de ser. O presidente Lula é o que a maioria dos brasileiros é. Incapaz de folhear biografias, sem paciência nem disposição para estudar a História do Brasil, Lula não faz ideia de quem foi o antecessor. Mas gosta de comparar-se a JK. Primeiro, apresentou-o como exemplo a seguir. Não demorou a descobrir-se, como reiterou no fim de semana, bem superior ao modelo (e infinitamente melhor que todos os outros).

Sedutor, inventivo, culto, cosmopolita, generoso, amante do convívio dos contrários, Juscelino não gostaria de ser comparado a um chefe de governo falastrão, gabola, provinciano, que odeia leituras, inclemente com adversários, a quem culpa por tudo, e misericordioso com bandidos de estimação, a quem tudo perdoa. Ambos nasceram em famílias pobres, ultrapassaram as fronteiras impostas ao gueto dos humildes e alcançaram o coração do poder. Esse traço comum abre a diminuta lista de semelhanças, completada pela simpatia pessoal, pelo riso fácil e pela paixão por viagens aéreas. Bem mais extensa é a relação das diferenças, todas profundas, algumas abissais.

O pernambucano de Garanhuns é essencialmente um político: só pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista: pensava nas próximas gerações. Lula ama ser presidente, mas viveria em êxtase se pudesse ser dispensado de administrar o país. Bom de conversa e ruim de serviço, detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas e escapa sempre que pode do tedioso expediente no Palácio do Planalto. JK amava exercer a Presidência, administrava o país com volúpia e paixão ─ e a chama dos visionários lhe incendiava o olhar ao contemplar canteiros de obras que Lula visita para palavrórios eleitoreiros. Lula só trata com prazer de política. JK tratava também de política com prazer.

O país primitivo dos anos 50 pareceu moderno já no dia da posse de JK. Cinco anos depois, ficara mesmo. O otimista incontrolável inventou Brasília, rasgou estradas onde nem trilhas havia, implantou a indústria automobilística, antecipou o futuro. Cometeu erros evidentes. Compôs parcerias condenáveis, fechou os olhos à cupidez das empreiteiras, não enxergou o dragão inflacionário. Mas o conjunto da obra é amplamente favorável. Com JK, o Brasil viveu a Era da Esperança.

O país moderno deste começo de milênio pareceu primitivo no momento em que Lula ganhou a eleição. Seis anos e meio depois, ficou mesmo. As grandezas prometidas em 2002 seguem estacionadas no PAC. As estradas federais estão em frangalhos. A educação se encontra em estado pré-falimentar. O sistema de saúde é lastimável. A roubalheira federal atingiu dimensões amazônicas. Mas Lula está bem no retrato, reiteram os institutos de pesquisa.

Talvez esteja. Primeiro, porque milhões de brasileiros inscritos no Bolsa-Família são gratos ao gerente do programa que os reduziu a dependentes da esmola federal. Depois, e sobretudo, porque o advento da Era da Mediocridade tornou o país mais jeca, mais brega, muito menos exigente, muito menos altivo.

Nos anos 50, o governo e a oposição eram conduzidos pelos melhores e mais brilhantes. O povo que sabia sonhar sabia também escolher melhor. Mereceu um presidente como JK. No Brasil de Lula, mandam os medíocres. O grande rebanho dos conformados tem o pastor que merece.


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados