Blogs e Colunistas

França

22/09/2011

às 9:15 \ Frases

Sinceridade e diplomacia

“Detesto os franceses. Eles não são gentis, só pensam em si mesmos”.

Jacqueline Kennedy, então primeira-dama americana, em gravação feita em 1963 e só agora divulgada.

12/09/2011

às 22:40 \ Frases

Ainda dá tempo

“Se os diferentes bancos centrais, governos e organizações internacionais trabalharem em cooperação podemos evitar uma recessão”.

Christine Lagarde, diretora-geral do FMI.

30/06/2011

às 19:24 \ Feira Livre

‘Com uma pequena ajuda do governo’, um texto de Carlos Alberto Sardenberg

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Carlos Alberto Sardenberg

O negócio Pão de Açúcar/Carrefour só para de pé com a entrada do BNDESpar como um importante acionista da nova empresa. Ora, por que um banco público deveria se associar a uma rede de supermercados?

Para impedir uma desnacionalização – foi a primeira resposta que ouvi de pessoas diretamente envolvidas no negócio. Explica-se: o Pão de Açúcar está praticamente vendido ao Casino, uma rede multinacional de origem francesa. Há alguns anos, Abilio Diniz vendeu parte de sua rede ao Casino, que adquiriu também, no mesmo contrato, o direito de assumir o controle integral do Pão de Açúcar em 2012.

Se isso acontecer, tal é a argumentação, os três maiores supermercados atuantes no Brasil (o próprio Pão de Açúcar, atual número um, Carrefour e Walmart) estarão sob controle estrangeiro. E daí? Daí que varejo é estratégico para o país e não pode ficar assim, sempre segundo o argumento de fontes privadas brasileiras.

A tese não se sustenta. O setor tem uma estrutura interessante. Os três maiores faturaram no ano passado R$ 87 bilhões, isso representando 43% do total. Do quarto lugar para baixo, aparecem redes pequenas, regionais, em um mercado bastante pulverizado.

Por outro lado, os três grandes competem ferozmente entre si – e essa competição seria muito reduzida com a fusão Pão de Açúcar/Carrefour. Ou seja, em nome de uma suposta desnacionalização se promoveria uma concentração. O que interessa mais ao consumidor e ao país?

Além disso, não haveria propriamente uma nacionalização do Carrefour, pois o supermercado resultante da fusão pertenceria meio a meio ao Carrefour francês e a uma holding chamada NPA (Novo Pão de Açúcar). Esta seria integrada por Abilio Diniz, BNDESpar, banco BTG Pactual e o Casino, aliás com a maior participação acionária individual. Assim, somando-se a participação dos dois grupos franceses, o capital estrangeiro seria majoritário no processo.

O controle, porém, estaria na holding NPA e, conforme regras estatutárias já incluídas nas propostas, nenhum acionista controlador teria mais que dois votos. Ou seja, Abilio Diniz, com apoio do BNDES, do BTG e de outros acionistas no mercado local, poderia manter o controle sobre o supermercado fundado por sua família.

Adicionalmente, esse NPA teria algo como 11% do Carrefour francês e pessoas, brasileiras, envolvidas na negociação asseguram que isso daria grande influência sobre a rede multinacional, cujo capital é bastante pulverizado.

Ou seja, se tudo sair conforme os idealizadores do negócio, a sorte de Diniz muda completamente: se em 2012 ele poderia ficar sem supermercado, agora ficaria com um negócio ampliado aqui e lá fora.

Ou seja, o BNDES, com o suposto propósito de evitar uma desnacionalização, estaria de fato apoiando um empresário brasileiro que já havia vendido participação a empresa estrangeira e que pretende seguir na internacionalização.

Difícil argumentação, não é mesmo? Talvez por isso mesmo o governo, por meio do BNDES e do ministro do Planejamento, Fernando Pimentel, tenha recorrido a outras justificativas. Fala-se da suposta internacionalização da companhia brasileira, mas a tese principal sustenta que o negócio poderia impulsionar as exportações brasileiras.

Como? A parte brasileira colocaria produtos nas lojas da rede internacional associada. Também não faz sentido. Primeiro, porque a parte brasileira não é grande fornecedora de produtos locais. Segundo, porque o comércio mundial de alimentos, principal ramo do supermercado, é muito regulamentado por governos e instituições internacionais. A União Europeia em geral e a França muito em particular impõem pesadas barreiras à entrada de alimentos brasileiros – e isso depende de negociações entre governos e no âmbito da Organização Mundial de Comércio, não de fusões entre empresas privadas. Além disso, o Pão de Açúcar já é sócio de uma rede internacional e não há notícia de significativo ganho nas exportações.

Por isso, talvez, uma pessoa participante das negociações me disse: a coisa é simples, o BNDESpar vai ganhar dinheiro; vai pagar 70 e tantos reais por ações que, pós-fusão, valerão mais de R$100.

Se tudo der certo, portanto, será um grande negócio. Ora, se é assim, por que os interessados não atraíram sócios privados? Será que não há no Brasil empresas e pessoas que possam juntar os R$4 bilhões que o BNDES vai colocar?

Ocorre que a presença do governo brasileiro, via BNDES, dá aval à fusão e exerce pressão sobre a direção do Casino – a parte prejudicada da história.

Os brasileiros idealizadores do negócio dizem que o Casino vai ganhar. Em vez de ter “só” o Pão de Açúcar em 2012, terá essa rede mais o Carrefour brasileiro e uma participação no Carrefour francês, seu concorrente direto.

Só que seria trocar um lucrativo Pão de Açúcar, sobre o qual terá controle total em 2012, por um negócio maior, mais difícil (o Carrefour brasileiro perdeu dinheiro) e no qual sua participação será menor, sem controle, e com a entrada do concorrente francês. A diretoria do Casino já se manifestou contra a fusão, considerando a proposta ilegal. Mas os brasileiros acham que, com apoio do governo, conseguem dobrar os acionistas.

A ver. Mas mesmo que tudo saia conforme os planos dos brasileiros, fica a questão: está certo o governo alinhar-se assim em um negócio privado? O BNDESpar não teria uso melhor para esses R$4 bilhões, como o de apoiar nascentes empresas de tecnologia, sempre carentes de capital?

05/06/2011

às 10:00 \ Frases

O que que ela tem?

“O que eu tenho de menos que a primeira-dama da França? Ela só é uma mulher um pouco mais sortuda que eu, porque nasceu rica e magra”.

Karima El-Mahroug, a Ruby, pivô escândalo envolvendo Silvio Berlusconi, oferecendo-se para ser a nova musa de Woody Allen.

09/04/2011

às 18:36 \ Sanatório Geral

Mais um

“Ele disse que a decisão seria tomada depois das eleições presidenciais no Brasil em 2010″.

Bernard Kouchner, ex-ministro das Relações Exteriores da França, sobre a compra de 36 caças Rafale negociada com Lula em 2009, à espera de uma vaga na ala do Sanatório reservada aos gringos que acreditaram no ex-presidente.

06/03/2011

às 19:23 \ Direto ao Ponto

FHC: muitas lições em 500 palavras

No Estadão deste domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso evocou experiências vividas na França em maio de 1968 para analisar as rebeliões em curso no Oriente Médio e o comportamento de políticos e intelectuais brasileiros que se proclamam “de esquerda”. A íntegra do artigo está na seção Feira Livre. Vejam alguns trechos de mais uma aula de FHC:

Nas greves estudantis da Universidade de Paris, em Nanterre e na Sorbonne (…), vi, perplexo, que as palavras de ordem não falavam em “anti-imperialismo” e só remotamente mencionavam os trabalhadores, mesmo quando estes, atônitos, entravam nos auditórios estudantis “ocupados” pelos ativistas jovens. Falava-se em liberdade, em ser proibido proibir, em amor livre, em valorizar o indivíduo contra o peso das instituições burocratizadas. (…) O estopim da revolta não foram as greves trabalhistas (…), foram pequenos grandes anseios de jovens universitários que, como num curto-circuito, incendiaram o conjunto do país.

No norte da África e no Oriente Médio, cada vez mais, em silêncio, as pessoas se comunicam, murmuram e, de repente, se mobilizam para “mudar as coisas”. Neste processo, as novas tecnologias da comunicação desempenham papel essencial.

Até agora, ficaram duas lições. Uma delas é que as ordens sociais no mundo moderno se podem desfazer por meios surpreendentes para quem olha as coisas pelo prisma antigo. A palavra, transmitida a distância, a partir da soma de impulsos que parecem ser individuais, ganha uma força sem precedentes. (…) Um mundo que parecia ser basicamente individualista e regulado pela força dos poderosos ou do mercado de repente mostra que há valores de coesão e solidariedade social que ultrapassam as fronteiras do permitido. (…) Mas ficou também a outra lição: a reconstrução da ordem depende de formas organizacionais, de lideranças e de vontades políticas que se expressem de modo a apontar um caminho. Na ausência delas, volta-se ao antigo (…). Há sempre a possibilidade de um grupo coeso e nem sempre democrático prevalecer sobre o impulso libertário inicial.

Agora mesmo, com as transformações no mundo islâmico, é hora de apoiar em alto e bom som os germens de modernização, em vez de guardar um silêncio comprometedor. Ou, pior, quebrá-lo para defender o indefensável, como Hugo Chávez ao dizer “que me conste, Kadafi não é assassino”. Ou como Lula, que antes o chamou de “líder e irmão”! Para não falar dos intelectuais “de esquerda” que ainda ontem, quando eu estava no governo, viam em tudo o que era modernização ou integração às regras internacionais da economia um ato neoliberal de vende-pátria.

É graças ao maior intercâmbio com o mundo – e principalmente com o mundo ocidental – que hoje as populações do norte da África e do Oriente Médio passam a ver nos valores da democracia caminhos para se libertarem da opressão? Será que vão continuar fingindo que “o Sul”, nacional-autoritário, é o maior aliado de nosso desenvolvimento?

Há silêncios que falam, murmuram, contra a opressão. Mas há também silêncios que não falam porque estão comprometidos com uma visão que aceita a opressão. Não vejo como alguém se possa imaginar “de esquerda” ou “progressista” calando no momento em que se deve gritar pela liberdade.

16/07/2010

às 20:29 \ Feira Livre

Seu Sebastião, um restaurante onde se deve comer rezando

Branca Nunes

A listagem dos ingredientes aconteceu aos 13 anos, quando ele começou a lavar pratos num restaurante em Cambury, no litoral norte de São Paulo. A mistura se deu pouco depois, durante o estágio (não remunerado) no célebre Fasano, templo culinário paulistano. Em 2002, aos 26 anos, tudo foi para o fogo na temporada de 6 meses pela França. Ali, aperfeiçoou sua técnica no Le Cordon Bleu, uma das mais tradicionais escolas de gastronomia do mundo. O tempero final veio nos quatro anos seguintes, quando Eudes Assis, eleito chef revelação em 2010 pelo prêmio Prazeres da Mesa, conheceu os sabores do mundo como cozinheiro do iate de um banqueiro inglês.

Colecionou escalas em numerosos países: Turquia, Itália, Grécia, Martinica, Espanha, Havaí, República Dominicana, Portugal. A cada porto, um novo ingrediente era adicionado ao cardápio. Há três anos, essa oceânica  experiência gastronômica – misturada com o que Eudes chama de “cozinha caiçara criativa” – é aperfeiçoada diariamente no restaurante Seu Sebastião, em Maresias, no litoral norte de São Paulo, a 170 quilômetros da capital. “É uma comida inesquecível”, resumem em coro os freqüentadores.

Assim como os oito irmãos e as cinco irmãs, Eudes engatinhou na arte do forno e fogão na casa em Cabury, com a mãe. “Quando criança, era um exímio boleiro”, garante, ao lembrar que vendia fatias de bolo na praia. “Acho que só não pensei em ser chef nessa idade porque naquela época não era uma profissão a considerar”. A vontade de ser paisagista ou decorador acabou arquivada. Ele fez a opção definitiva pela montagem de pratos que configuram genuínas obras de arte.

Eudes faz questão de ressuscitar no Seu Sebastião os sabores da infância, acentuados pelo que aprendeu nas cozinhas do mundo. Quando pensa nos tempos de criança, emergem da memória incontáveis tainhas salgadas secando ao sol, que migravam para a mesa escoltadas pela mandioca cozida na manteiga e pela banana frita. Quando recorda um prato incomparável,  sente os odores das lascas de trufa branca que acompanhavam uma polenta mole degustada muitos anos atrás.

“Na França, tinha amigos de todas as partes do mundo, que chegavam aos socos e pontapés em defesa da culinária de seus países”, conta. “No Brasil, todo mundo queria ser contemporâneo ou mediterrâneo. Eu quis fazer comida caiçara”. O resultado: o Seu Sebastião é a união perfeita do que há de melhor.

Neste sábado, para comemorar o terceiro aniversário, o restaurante prepara um cardápio especial com entrada, prato principal e sobremesa, a R$ 85,00. Os clientes ganharam uma taça de prosecco e serão brindados com um show de música ao vivo. Basta uma ligeira contemplação dos pratos para constatar-se que, mesmo se o tempo estiver chuvoso, vale a pena. Claro que vale.

(Clique na seta abaixo da foto e veja outros pratos)

This text is replaced by the Flash movie.

07/07/2010

às 0:30 \ Sanatório Geral

Ministro do Cinismo

“Você tomou café da manhã? Olhou de onde vem a manteiga? Da França”.

Celso Amorim, Homem sem Visão de Março, explicando a um repórter que, se a França exporta manteiga para a Guiné Equatorial, o presidente Lula tem todo o direito de assinar uma declaração de amor à democracia em parceria com o ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que estupra a liberdade há 31 anos.

19/03/2010

às 13:58 \ Homem sem Visão

Dirceu vai renovar acordo com Eletronet e Vaccari reivindica o cargo de tesoureiro da Bancoop

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Muito mais vistosas no escuro, começam a sair faíscas da briga de foice travada pelo bando de craques em disputa das quatro vagas na enquete que vai eleger o Homem sem Visão de Março. Os votos colhidos até agora já formaram o maior colégio eleitoral da história do HSV. E os concorrentes estão tirando todas as cartas da manga nesta reta final do 1° turno.

Franklin Martins, o Sorriso de Fidel, encomendou ao jornal Granma uma equipe de especialistas em controle social da mídia para ajudá-lo a piorar o tópico do PNDH 3 que trata do tema. ”O chefe acha que precisa radicalizar para enfrentar os campeões que estão no páreo”, confidenciou um assessor.

A contagem dos votos é liderada por Ideli Salvatti, Eterna Musa do HSV, eleita pela enquete com quase 2 mil votos garota-propaganda da cerveja Presidente. “Ela disse que desta vez não vai morrer na praia”, disse o segurança que acompanha 24 horas por dia o berreiro a procura de uma ideia. “Se for preciso, vai propor o fim da bolsa-família para quem tiver filhos que estudem.

Celso Amorim pretende defender na ONU a transformação de Israel em província palestina. José Antonio Toffoli promete tirar José Roberto Arruda da cadeia antes do fim do 1° turno. João Vaccari, decepcionado com a baixa votação, estuda uma audaciosa manobra eleitoral. “O chefe quer despejar dos apartamentos os cooperados que conseguiram escapar do golpe da Bancoop”, revelou um assessor.

Consumado o despejo, Vaccari promete reivindicar o direito de acumular os cargos de tesoureiro do PT e tesoureiro da cooperativa. José Dirceu também resolveu impressionar o eleitorado com a oficialiazação do codinome Jay Dee e uma jogada espetacular: vai renovar o contrato com o patrão Nelson dos Santos e exigir que o governo pague o dobro pela Eletronet.

Todos esses craques têm chances de conquistar o troféu! A luta continua! É a eleição mais disputada da história! Qual deles será o escolhido? O Homem sem Visão de Março será um homem ou uma mulher? Falta menos de uma semana para o fim do 1º turno! A campanha está pegando fogo! Que vença o pior!

04/06/2009

às 19:13 \ Direto ao Ponto

Jobim das Selvas ressurge no papel de especialista em desastres aéreos

Com uma farda de guerreiro da floresta no lugar do terno cinza-Brasília, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, invadiu  Manaus no fim de 2007. Se tivesse um punhado de anos e algumas arrobas a menos, provavelmente teria aparecido fantasiado de Tarzan. Como o calendário e a balança o aconselharam a contentar-se com a imitação de Johnny Weissmuller já no crepúsculo da carreira, infiltrou duas letras no prenome do herói de cinema, transformou-se em  Jobim das Selvas, proclamou que “a Amazônia tem dono”, colocou em fuga uma tropa de saguis, reduziu uma sucuri de quartel a prisioneira de guerra, declarou-se vitorioso e voltou a Brasília. Mais um que não perde chance de ser ridículo, sorriu o país atormentado pelo apagão aéreo a caminho do 1° aniversário.

Oito meses antes, no discurso de posse, o combativo gaúcho decolou no quinto parágrafo com a excitação de um piloto de caça na metade da pista do porta-aviões. Até então, tratara de justificar a fama de doutor muito sabido com a evocação de episódios protagonizados por nomes de rodovias, ruas, praças e avenidas. A aula foi encerrada com a frase atribuída a Benjamin Disraeli, duas vezes primeiro-ministro do império britânico no fim do século 19. “Never complain, never explain, never apologise”, caprichou. Caridoso com os muitos monoglotas presentes, cuidou de traduzir: “Nunca se queixe, nunca se explique, nunca se desculpe”.

Então, já no papel de brigadeiro encarregado de livrar do colapso a aviação civil, arremeteu espetacularmente: “Aja ou saia, faça ou vá embora”. Formulada pela figura com mais de 100 quilos esparramados por quase 2 metros, a ameaça soou como um ultimato tremendo, quem tivesse culpa no cartório que se cuidasse, começaria naquele momento a contra-ofensiva reclamada pelo país desde outubro de 2006. Andorinhas voaram de costas, urubus ficaram brancos de medo, flagelados dos aeroportos correram para os portões de embarque, nuvens fugiram do céu ─  até ficar claro que Jobim não prestara atenção no próprio berreiro. Não agiu nem saiu. Não fez mas ficou. Só foi para a Amazônia brincar de encantador de sucuris.

Seis meses depois dos combates na mata, cada vez mais aflito com os sucessivos fiascos na guerra contra o apagão, foi embora de novo, agora para a França. No verão europeu de 2008, escoltado pelo ordenança Roberto Mangabeira Unger, ministro de problemas futuros, Jobim baixou em Paris fantasiado de almirante, submergiu num submarino, voltou à terra firme para deslocar-se até Moscou, fez cara de freguês exigente ao passar em revista a frota de submarinos russos, disse aos anfitriões ansiosos que precisava pensar melhor no negócio e retornou ao Brasil.

Sempre condescendentes, os compatriotas incluíram Jobim na categoria dos inimputáveis, ao lado dos loucos mansos, dos doidos de pedra e dos napoleões de hospício. Livre de vigilância, enfim resolveu agir e fazer. Negociou a venda de 300 mísseis ao Paquistão, divorciado desde a infância da vizinha Índia e em permanente noivado com terroristas, reiterou que o Brasil não assinaria o tratado que proíbe a fabricação de bombas de fragmentação e desapareceu nas coxias.  Voltou repentinamente ao palco a bordo do acidente com a avião da Air France, desta vez no papel de especialista em desastres aéreos.

“A FAB detectou no mar uma faixa de cinco quilômetros com destroços de um avião. Não há dúvidas: são destroços do avião da Air France”, decretou durante uma espantosa entrevista coletiva. ”O que estamos fazendo aqui é a localização de sobreviventes, ou melhor, de restos”, começou a procissão de atentados à inteligência, ao bom-senso e à compaixão. ”Além dos corpos afundarem, a costa de Pernambuco tem o problema que vocês sabem”, jogou a isca. Um jornalista mordeu: era alguma referência a tubarões? “Sim”, respondeu Jobim, para produzir em seguida uma inverossímil dissertação sobre ruptura de abdomes. Há dois anos, Jobim sabia apenas que as poltronas dos aviões deveriam ser bem mais largas.  ”Um homem com o meu tamanho não cabe nelas”, queixou-se. Já aprendeu um pouco mais, comprovou a entrevista. Mas não aprendeu a ter juízo.

Nem precisa aprender. No Brasil imerso na Era da Mediocridade, sensatez virou coisa de tempos remotos. Tanto assim que um Nelson Jobim foi deputado federal, chefiou o Supremo Tribunal Federal, hoje é ministro da Defesa e continua sonhando, por que não?, com a presidência da República.


 

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