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escândalo

26/12/2013

às 9:00 \ Direto ao Ponto

Faz 100 dias que Lula afronta o Brasil decente com o silêncio sobre o caso de polícia em que se meteu ao lado de Rose

tarja-an-melhores-do-ano-2013

PUBLICADO EM 4 DE MARÇO

Faz 100 dias que os brasileiros decentes foram afrontados pela descoberta do  escândalo em que Lula se meteu ao lado de Rosemary Noronha. Faz 100 dias que o país que presta é afrontado pela mudez malandra do caçador de votos que promoveu uma gatuna de quinta categoria a chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Faz 100 dias que o ex-presidente foge de perguntas sobre o caso de polícia que protagonizou em companhia da Primeiríssima Amiga e dos bebês quadrilheiros de Rosemary.

Surpreendido pela divulgação das maracutaias comprovadas por policiais federais engajados na Operação Porto Seguro, Lula fez o que sempre faz quando precisa costurar algum álibi menos cretino: perdeu a voz e sumiu. Passou a primeira semana enfurnado no Instituto Lula. Passou as duas seguintes longe do Brasil, driblando repórteres com escapadas pela porta dos fundos ou pela cozinha do restaurante.

Recuperou a voz no começo do ano, mas ainda garimpa no porão das desculpas esfarrapadas alguma que o anime a enfrentar jornalistas armados apenas de perguntas sem resposta. Para impedir que a aproximação do perigo, tem recorrido a cordões de isolamento, cercadinhos, muralhas humanas e outras mesquinharias improvisadas para livrá-lo de gente interessada no enredo da pornochanchada financiada por cofres públicos que apresentou ao Brasil, entre outros espantos, os talentos ocultos de Rosemary Noronha.

O silêncio que vai completando 2.500 horas, insista-se, só vale para o caso Rose. Entre 23 de novembro de 2012 e 3 de março de 2013, excluídos os poucos dias em que teve de desativar o serviço de som, o palanque ambulante continuou desempenhando simultaneamente os papeis de co-presidente da República, presidente honorário da base alugada, chefe supremo da seita, protetor dos pecadores companheiros, arquiteto do Brasil Maravilha e consultor-geral do mundo.

Abençoou catadores de lixo e metalúrgicos, leu mais de 300 livros, fingiu entender o que Sofia Loren disse em italiano, avisou que os EUA nunca mais elegerão um negro se Barack Obama fizer besteira, louvou bandidos de estimação, insultou a oposição, deliberou sobre a tragédia ocorrida no jogo do Corithians em Oruro, explicou aos governantes europeus como se transforma tsunami em marolinha, recomendou a FHC que pare de dizer o que pensa e descobriu que Abraham Lincoln reencarnou no Brasil com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. Fora o resto.

Só não falou sobre o que importa, agarrado à esperança de sobreviver sem fraturas expostas ao primeiro escândalo que não pode terceirizar. Não houve intermediários entre Lula e Rose. Não há bodes expiatórios que a apresentar. É natural que fuja como o diabo da cruz de pelo menos 40 perguntas formuladas pelo timaço de comentaristas:

1. Por que se recusa a prestar esclarecimentos sobre um escândalo investigado pela Polícia Federal que o envolve diretamente?

2. Considera inconsistentes as provas reunidas pela Operação Porto Seguro?

3. Por que disse em Berlim que não se surpreendeu com a Operação Porto Seguro?

4. Desta vez sabia de tudo ou, de novo, nunca soube de nada?

5. Onde e quando conheceu Rosemary Noronha?

6. Como qualifica a relação que mantém com Rose há 17 anos?

7. Em quais critérios se baseou para instalar uma mulher sem experiência administrativa na chefia do gabinete presidencial em São Paulo?

8. Por que pediu a Dilma Rousseff que mantivesse Rose no cargo?

9. Por que criou os escritórios da Presidência da República?

10. Continua achando necessária a existência de escritórios e chefes de gabinete?

11. Além de demitir Rose, Dilma Rousseff extinguiu o cargo que ocupava. A presidente errou?

12. Por que  Rose foi incluída na comitiva presidencial em pelo menos 20 viagens internacionais?

13. Por que foi contemplada com um passaporte diplomático?

14. Quem autorizou a concessão do passaporte?

15. Por que o nome de Rosemary Noronha nunca apareceu nas listas oficiais de passageiros do avião presidencial divulgadas pelo Diário Oficial da União?

16. Quem se responsabilizou pelo embarque de uma passageira clandestina?

17. Por que Marisa Letícia e Rose não eram incluídas numa mesma comitiva?

18. Quais eram as tarefas confiadas a Rose durante as viagens?

19. Todo avião utilizado por autoridades em missão oficial é considerado Unidade Militar. Os militares que tripulavam a aeronave sabiam que havia uma clandestina a bordo?

20. Como foram pagas e justificadas as despesas de uma passageira que oficialmente não existia?

21. Por que nomeou os irmãos Paulo e Rubens Vieira, a pedido de Rose, para cargos de direção em agências reguladoras?

22. Examinou o currículo dos nomeados?

23. Por que o aliado José Sarney, presidente do Senado, convocou irregularmente uma terceira sessão que aprovou a nomeação de Paulo Vieira, rejeitada em votação anterior?

24. Acha que são culpados?

25. Por que comunicou à imprensa, por meio de um diretor do Instituto Lula, que não comentaria o episódio por considerá-lo “assunto pessoal”?

26. Por que Rose se apresentava como “namorada do presidente”?

27. Se teve o nome usado indevidamente, por que não processou Rosemary Noronha?

28. Conversou com Rose nos últimos 100 dias?

29. Por que Rose tinha direito ao uso de cartão corporativo?

30. Por que foram mantidos em sigilo os pagamentos feitos por Rose com o cartão corporativo ?

31. Autorizou a inclusão, na decoração do escritório da Presidência em São Paulo, da foto em tamanho família em que aparece simulando a cobrança de um pênalti?

32. O blog do deputado federal Anthony Garotinho afirmou que Rose embarcou para Portugal com 25 milhões de euros. Se a denúncia é improcedente, por que não processa quem a divulgou?

33. Como se comunicava com Rose? Por telefone? Trocavam emails?

34. Era previamente informado por Rose das reuniões que promoveria no escritório da presidência?

35. Depois das reuniões, era informado por Rose do que fora discutido e decidido?

36. Por que, mais uma vez, alegou ter sido “traído”? Quem o traiu?

37. Se pudesse recuar no tempo, faria tudo de novo?

38. Não se arrepende de nada?

39. Não se envergonha de nada?

40. Que história contou em casa?

Há dias, Lula acusou a imprensa de negar-lhe o espaço que merece. Está convidado a preencher o espaço que quiser com respostas a essas perguntas. Todas serão publicadas na íntegra.

Coragem, Lula.

15/12/2013

às 5:40 \ Sanatório Geral

Doutor em escândalos

“Maior escândalo de quê? Eu já li que foi o maior escândalo político. Foi maior que a ditadura militar? Foi maior que o Estado Novo? Foi maior do que a escravidão? Foi maior do que deixar as mulheres sem votar até 1932? Foi maior do que deixar os analfabetos sem votar até 1989? Foi maior do que deixar o índice de analfabetismo que temos até hoje? Foi o maior escândalo político?”

João Paulo Cunha, deputado federal condenado a nove anos e quatro meses de cadeia no julgamento do mensalão, durante discurseira no 5° Congresso do PT, explicando que, comparado com a ditadura militar, o Estado Novo, a demora na concessão do direito de voto às mulheres e a imensidão de analfabetos, a roubalheira do mensalão foi apenas um escândalo protagonizado pela mais atrevida quadrilha cinco estrelas da história do Brasil.

04/03/2013

às 0:19 \ Direto ao Ponto

Faz 100 dias que Lula afronta o Brasil decente com o silêncio sobre o caso de polícia em que se meteu ao lado de Rose

Faz 100 dias que os brasileiros decentes foram afrontados pela descoberta do  escândalo em que Lula se meteu ao lado de Rosemary Noronha. Faz 100 dias que o país que presta é afrontado pela mudez malandra do caçador de votos que promoveu uma gatuna de quinta categoria a chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Faz 100 dias que o ex-presidente foge de perguntas sobre o caso de polícia que protagonizou em companhia da Primeiríssima Amiga e dos bebês quadrilheiros de Rosemary.

Surpreendido pela divulgação das maracutaias comprovadas por policiais federais engajados na Operação Porto Seguro, Lula fez o que sempre faz quando precisa costurar algum álibi menos cretino: perdeu a voz e sumiu. Passou a primeira semana enfurnado no Instituto Lula. Passou as duas seguintes longe do Brasil, driblando repórteres com escapadas pela porta dos fundos ou pela cozinha do restaurante.

Recuperou a voz no começo do ano, mas ainda garimpa no porão das desculpas esfarrapadas alguma que o anime a enfrentar jornalistas armados apenas de perguntas sem resposta. Para impedir que a aproximação do perigo, tem recorrido a cordões de isolamento, cercadinhos, muralhas humanas e outras mesquinharias improvisadas para livrá-lo de gente interessada no enredo da pornochanchada financiada por cofres públicos que apresentou ao Brasil, entre outros espantos, os talentos ocultos de Rosemary Noronha.

O silêncio que vai completando 2.500 horas, insista-se, só vale para o caso Rose. Entre 23 de novembro de 2012 e 3 de março de 2013, excluídos os poucos dias em que teve de desativar o serviço de som, o palanque ambulante continuou desempenhando simultaneamente os papeis de co-presidente da República, presidente honorário da base alugada, chefe supremo da seita, protetor dos pecadores companheiros, arquiteto do Brasil Maravilha e consultor-geral do mundo.

Abençoou catadores de lixo e metalúrgicos, leu mais de 300 livros, fingiu entender o que Sofia Loren disse em italiano, avisou que os EUA nunca mais elegerão um negro se Barack Obama fizer besteira, louvou bandidos de estimação, insultou a oposição, deliberou sobre a tragédia ocorrida no jogo do Corithians em Oruro, explicou aos governantes europeus como se transforma tsunami em marolinha, recomendou a FHC que pare de dizer o que pensa e descobriu que Abraham Lincoln reencarnou no Brasil com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. Fora o resto.

Só não falou sobre o que importa, agarrado à esperança de sobreviver sem fraturas expostas ao primeiro escândalo que não pode terceirizar. Não houve intermediários entre Lula e Rose. Não há bodes expiatórios que a apresentar. É natural que fuja como o diabo da cruz de pelo menos 40 perguntas formuladas pelo timaço de comentaristas:

1. Por que se recusa a prestar esclarecimentos sobre um escândalo investigado pela Polícia Federal que o envolve diretamente?

2. Considera inconsistentes as provas reunidas pela Operação Porto Seguro?

3. Por que disse em Berlim que não se surpreendeu com a Operação Porto Seguro?

4. Desta vez sabia de tudo ou, de novo, nunca soube de nada?

5. Onde e quando conheceu Rosemary Noronha?

6. Como qualifica a relação que mantém com Rose há 17 anos?

7. Em quais critérios se baseou para instalar uma mulher sem experiência administrativa na chefia do gabinete presidencial em São Paulo?

8. Por que pediu a Dilma Rousseff que mantivesse Rose no cargo?

9. Por que criou os escritórios da Presidência da República?

10. Continua achando necessária a existência de escritórios e chefes de gabinete?

11. Além de demitir Rose, Dilma Rousseff extinguiu o cargo que ocupava. A presidente errou?

12. Por que  Rose foi incluída na comitiva presidencial em pelo menos 20 viagens internacionais?

13. Por que foi contemplada com um passaporte diplomático?

14. Quem autorizou a concessão do passaporte?

15. Por que o nome de Rosemary Noronha nunca apareceu nas listas oficiais de passageiros do avião presidencial divulgadas pelo Diário Oficial da União?

16. Quem se responsabilizou pelo embarque de uma passageira clandestina?

17. Por que Marisa Letícia e Rose não eram incluídas numa mesma comitiva?

18. Quais eram as tarefas confiadas a Rose durante as viagens?

19. Todo avião utilizado por autoridades em missão oficial é considerado Unidade Militar. Os militares que tripulavam a aeronave sabiam que havia uma clandestina a bordo?

20. Como foram pagas e justificadas as despesas de uma passageira que oficialmente não existia?

21. Por que nomeou os irmãos Paulo e Rubens Vieira, a pedido de Rose, para cargos de direção em agências reguladoras?

22. Examinou o currículo dos nomeados?

23. Por que o aliado José Sarney, presidente do Senado, convocou irregularmente uma terceira sessão que aprovou a nomeação de Paulo Vieira, rejeitada em votação anterior?

24. Acha que são culpados?

25. Por que comunicou à imprensa, por meio de um diretor do Instituto Lula, que não comentaria o episódio por considerá-lo “assunto pessoal”?

26. Por que Rose se apresentava como “namorada do presidente”?

27. Se teve o nome usado indevidamente, por que não processou Rosemary Noronha?

28. Conversou com Rose nos últimos 100 dias?

29. Por que Rose tinha direito ao uso de cartão corporativo?

30. Por que foram mantidos em sigilo os pagamentos feitos por Rose com o cartão corporativo ?

31. Autorizou a inclusão, na decoração do escritório da Presidência em São Paulo, da foto em tamanho família em que aparece simulando a cobrança de um pênalti?

32. O blog do deputado federal Anthony Garotinho afirmou que Rose embarcou para Portugal com 25 milhões de euros. Se a denúncia é improcedente, por que não processa quem a divulgou?

33. Como se comunicava com Rose? Por telefone? Trocavam emails?

34. Era previamente informado por Rose das reuniões que promoveria no escritório da presidência?

35. Depois das reuniões, era informado por Rose do que fora discutido e decidido?

36. Por que, mais uma vez, alegou ter sido “traído”? Quem o traiu?

37. Se pudesse recuar no tempo, faria tudo de novo?

38. Não se arrepende de nada?

39. Não se envergonha de nada?

40. Que história contou em casa?

Há dias, Lula acusou a imprensa de negar-lhe o espaço que merece. Está convidado a preencher o espaço que quiser com respostas a essas perguntas. Todas serão publicadas na íntegra.

Coragem, Lula.

15/02/2012

às 18:47 \ Sanatório Geral

Canastrão injustiçado

“Fui julgado sumariamente sem nenhuma prova”.

Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, sobre a decisão da Comissão de Ética Pública de recomendar a Dilma Rousseff que o demitisse do Ministério do Trabalho, alegando que fotos e vídeos que mostram um delinquente em ação deixaram de valer como provas no momento em que declarou, publicamente, seu amor pela presidente da República.

06/12/2011

às 15:50 \ Feira Livre

Caiu de podre

EDITORIAL PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

O que terá passado pela cabeça da presidente Dilma Rousseff entre a quinta-feira e o domingo da última semana? Na quinta, ela deixou boquiabertos os observadores ao mandar às favas a inédita recomendação da Comissão de Ética da Presidência da República, anunciada no começo da noite anterior, de que exonerasse o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. No entender do colegiado, ele não conseguiu oferecer, nem ao Congresso nem à imprensa, explicações convincentes para as denúncias que se sucediam contra ele havia quase um mês. Além disso, comportou-se de forma inconveniente ao reagir a elas – por exemplo, dizendo que só sairia “abatido à bala”, o rompante que o notabilizou.

Naquela quinta, horas antes de viajar para uma reunião em Caracas, ela recebeu Lupi em audiência, ao fim da qual mandou divulgar que resolvera esperar as suas explicações para a revelação de que na maior parte do período entre 2000 e 2006 conseguira a proeza de ser funcionário fantasma da Câmara dos Deputados e da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Pior ainda, cobrou da Comissão de Ética que informasse como e por que chegou à sua conclusão. Nos dias seguintes, nada de novo aconteceu que abreviasse ou prolongasse a permanência de Lupi no governo – salvo a sensação de pasmo entre os setores bem informados da sociedade e os comentários condenatórios da mídia.

No domingo, porém, tendo antecipado em 24 horas a volta da Venezuela e tendo feito saber, na véspera, que decidira abater o ministro que se proclamara invulnerável, Dilma o chamou para o ritual da “conversa definitiva” – a chance para que se demitisse. Não há explicação racional para o zigue-zague da presidente (daí a pergunta que abre este texto). Ela não ganhou nada deixando que o caso Lupi se arrastasse por semanas a fio até ele cair de podre. Só perdeu. Assim que rebentou o primeiro escândalo no Ministério do Trabalho – a extorsão de ONGs conveniadas com a pasta para que continuassem a receber os repasses previstos – vá lá que Dilma não quisesse aparecer, pela sexta vez consecutiva, como caudatária do noticiário sobre as lambanças de seus ministros.

O que se viu depois, no entanto, foi a presidente perdendo uma oportunidade atrás da outra para preservar a imagem de ser implacável com a corrupção quando exposta ao público e de se dar ao respeito no trato com a sua equipe. Para a sua própria conveniência, ela poderia ter demitido Lupi quando ele se gabou de que só cairia à bala; poderia tê-lo demitido quando se saiu com o “eu te amo, Dilma”; ou quando ficou provado que mentira na história do voo fretado com o dono de uma entidade beneficiada pela pasta; ou ainda quando da descoberta de que recebera de duas fontes públicas ao mesmo tempo; ou, enfim, quando a Comissão de Ética, amarrando todas as pontas, julgou que ele não devia continuar ministro.

Se a presidente imaginou que a crise minguaria com a sua decisão, devidamente vazada, de afastar Lupi na reforma ministerial marcada para o começo do ano, é sinal de que não aprendeu nada com os casos anteriores. Suas agonias duraram um pouco mais, um pouco menos, mas nenhum dos ministros atingidos por denúncias – de Antonio Palocci, da Casa Civil, a Orlando Silva, do Esporte, passando por Alfredo Nascimento (Transporte) Wagner Rossi (Agricultura) e Pedro Novais (Turismo) – sobreviveu. Pela razão essencial de que, desatado o escândalo, os fatos novos que se seguiam invariavelmente agravavam a situação dos envolvidos, até ela ficar insustentável.

A sensação que fica é de que, impondo-se à fria contabilidade do custo-benefício das escolhas por fazer, prevalece a relutância de Dilma em dar o passo devido não quando queira, mas sob o império dos fatos. Quem sabe, ela não atine com uma verdade elementar: candidata, o seu patrimônio político era a popularidade do patrono Lula e a ele devia lealdade; da posse em diante, passou a depender do julgamento do eleitorado – e é à Nação que deve prestar conta, tanto de seus atos como de suas omissões. Se ela não compreende esse fato elementar, o País tem um problema. O de ter uma presidente cujo temperamento perturba a sua sintonia com a opinião pública.

19/07/2011

às 18:32 \ O País quer Saber

Os pecadores que saem do ministério caem fora do noticiário e ficam longe do perigo

Aiuri Rebello e Bruno Abbud

Erenice Guerra teve de deixar a chefia da Casa Civil há apenas dez meses, uma semana depois da publicação da reportagem de VEJA que comprovou o escândalo: a melhor amiga de Dilma Rousseff chefiava simultaneamente uma quadrilha de parentes e agregados que enriquecia cobrando propinas de empresários interessados em fechar negócios com o governo. Antonio Palocci teve de abandonar a casa assombrada há menos de dois meses, 23 dias depois da publicação da reportagem da Folha que denunciou o escândalo: em quatro anos, fantasiado de consultor econômico e financeiro, o mais poderoso ministro de Dilma Rousseff havia multiplicado por 20 o patrimônio declarado em 2006. Os episódios são recentíssimos. Seus protagonistas estão fora do noticiário jornalístico há muito tempo.

Fora do noticiário e fora de perigo, informa a tranquilidade com que Palocci e Erenice  desfrutam do direito de ir e vir. No dia em que a matriarca da Casa Civil perdeu o empregão, foi aberta uma sindicância interna para investigar a participação nas bandalheiras do seu filho Israel Guerra e dos funcionários Vinicius Castro e Stevan Knezevic. Knezevic e a mãe de Vinicius Castro – usada como laranja no esquema – eram sócios de Israel na Capital Assessoria e Consultoria, empresa que promovia encontros suspeitíssimos com empresários. Erenice foi poupada das apurações porque, conforme explicações da Casa Civil, os encarregados de conduzi-las “não tinham poderes para investigar a ministra”. Em 2 de janeiro deste ano, passados quatro meses, os sherloques domésticos concluíram que não havia motivos para punir ninguém e deram o trabalho por encerrado.

Também avança preguiçosamente o inquérito aberto pela Polícia Federal em 14 de setembro de 2010, quando o então ministro da Justiça, Luiz  Paulo Barreto, determinou a apuração das denúncias de tráfico de influência. A Controladoria-Geral da União comprometeu-se a colaborar com a busca de provas, evidências ou indícios. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, avisou que o Ministério Público Federal acompanharia tudo de perto. O inquérito 1352/10, conduzido pela Polícia Federal, caminha em segredo de Justiça e não tem prazo para terminar. Até agora, 60 pessoas foram ouvidas, computadores foram periciados, documentos foram analisados, dados foram cruzados. No momento, o papelório jaz numa pilha de bom tamanho sobre a mesa do delegado Roberval Re Vicalvi, da Coordenação Geral de Polícia Fazendária.

Assim que as bandidagens foram descobertas, Erenice Guerra e Israel saíram de circulação. A mãe reapareceu na festa de posse de Dilma Rousseff e submergiu outra vez. Sabe-se que continua vivendo em Brasília e trabalha como advogada, mas os dois colegas contratados para defendê-la ─ Sebastião Tojal e Mário de Oliveira Filho ─ recusam-se a revelar tanto os novos endereços residencial e profissional da ex-ministra quanto a lista de clientes. Ambos se limitam a recitar que não falam com Erenice  “há pelo menos duas semanas”.

Regime alimentar

Também Antonio Palocci não tem motivos para perder o sono, embora seja alvo de três investigações paralelas. O número seria maior se a oposição parlamentar não tivesse desistido da ideia de instaurar uma CPI. Ou se o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não tivesse engavetado na véspera da demissão do ministro (“por falta de provas”) denúncias encaminhadas por três partidos ─ PPS, DEM e PSDB  ─ intrigados com o milagre da multiplicação do patrimônio. Menos misericordioso que o chefe, o procurador Paulo José Rocha Júnior, do Ministério Público Federal do Distrito Federal, abriu um inquérito destinado a enquadrar Palocci por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. Em 9 de junho, a Receita Federal enviou a Rocha Júnior informações sobre Palocci e sua empresa, a Projeto. O inquérito também caminha em segredo de Justiça.

Em 16 de junho, os deputados Antonio Carlos Magalhães Neto, do DEM da Bahia, e Onix Lorenzoni, do DEM do Rio Grande do Sul, protocolaram um pedido de investigação no Ministério Público Federal de São Paulo. Os promotores ainda analisam o pedido. Cinco dias depois, o deputado estadual Pedro Tobias, presidente do PSDB paulista, de São Paulo, endereçou a mesma solicitação ao Ministério Público Estadual. No requerimento, Tobias fechou a lente no apartamento alugado por Palocci em Moema, zona sul de São Paulo, registrado em nome de laranjas filiados ao PT ─ conforme revelou a edição de VEJA de 4 de junho. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério Público Estadual de São Paulo, “os pedidos estão em análise e não há previsão para que sejam transformados ou não em inquérito”.

No condomínio Don Arthur, onde o ex-ministro mora em São Paulo, a empregada doméstica informou que a família viajou para algum lugar que ignora e não tem data para voltar. O apartamento na região dos Jardins comprado por R$ 6,6 milhões continua vazio. Desde que Palocci virou caso de polícia, ninguém aparece no escritório da consultoria Projeto, também nos Jardins. Segundo funcionários do prédio, pouquíssimas pessoas costumavam frequentar o endereço, pelo qual Palocci pagou quase R$ 1 milhão. Segundo a Folha, o ex-chefe da Casa Civil pretende retomar a carreira de consultor “depois de um período de quarentena”. Até lá, vai fazer o que fez em 2006, quando teve de abandonar o Ministério da Fazenda por ter encomendado o estupro do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa: um regime alimentar. Há cinco anos, emagreceu 15 quilos.

Consultoria milagrosa

Fundada por Antonio Palocci em 2006 e transformada em administradora de imóveis no fim de 2010, a Projeto é um raríssimo caso de sucesso no mercado brasileiro de consultorias. Graças à espantosa expansão dos lucros, o dono comprou o escritório de R$ 882 mil e o apartamento de R$ 6,6 milhões em 2010. Nesse ano, a consultoria faturou impressionantes R$ 20 milhões. O superconsultor ainda não contou quem são os clientes que lhe garantiram a prosperidade. E ninguém sabe exatamente quantos funcionários a Projeto teve ou tem. Se é que tem.

O economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, é um dos sócios da consultoria Tendências. Há 15 anos no mercado, a empresa mobiliza 70 funcionários, alguns dos quais altamente qualificados. O faturamento em 2010 passou de R$ 15 milhões, mas ainda está longe dos R$ 20 milhões do concorrente. “Levou muitos anos para chegarmos tanto a este faturamento quanto ao número de funcionários”, ressalva Mailson.  “Não há milagre, e sim muito trabalho duro”.

Em 2006, interessado em estrear no ramo, Palocci procurou a consultoria Tendências para saber como eram as coisas por lá. “Nós mostramos como funcionava a Tendências”, conta Nóbrega. “Chegamos a levá-lo para duas ou três palestras”. Palocci ganhou cerca de R$ 10 mil por palestra. Depois disso, Nóbrega não voltou a encontrar-se com o ex-chefe da Casa Civil. Só soube o que andou fazendo pelo noticiário político-policial.

13/07/2011

às 21:17 \ Direto ao Ponto

A trinca de jovens milionários deveria ser convocada pelo governo para montar o programa Primeira Empresa

Fábio Luís Lula da Silva era monitor do zoológico de São Paulo quando a chegada do pai à Presidência da República, em janeiro de 2003, animou-o a tentar a sorte como “produtor de conteúdos digitais”. Um ano depois de fundar a Gamecorp, soube que o que parecia um negócio de fundo de quintal era tudo o que a Telemar procurava. Pelo privilégio de tornar-se sócio minoritário do empreendimento, o gigante da telefonia pagou a Lulinha R$ 5 milhões. Aos 35 anos, está rico e é um dos orgulhos de Lula, que credita o sucesso fulminante ao talento empresarial do filho.

Israel Guerra era um medíocre funcionário público quando a crescente influência da mãe na Casa Civil, chefiada pela melhor amiga Dilma Rousseff, animou-o a tentar a sorte como “consultor de negócios”. Fundada em julho de 2009, a Capital Assessoria e Consultoria especializou-se em abrir portas de ministérios e estatais a empresas interessadas em fechar acordos ou resolver pendências com o governo. Os lucros subiram espetacularmente a partir de março de 2010, depois da promoção de Erenice a ministra. Vítimas da gula excessiva, a mãe perdeu o cargo e o filho, hoje com 33 anos, perdeu a clientela. Erenice continua jurando que o garoto fez sucesso, e logo voltará a fazer, por esbanjar talento na formação de parcerias.

Gustavo Morais Pereira era um arquiteto recém-formado quando a chegada do pai ao comando do Ministério dos Transportes o animou a tentar a sorte como “empresário no ramo da construção civil”. Em 2005, aos 21 anos, fundou a Forma Construções. Em 2007, graças a triangulações envolvendo fregueses do ministério a serviço da família, o filho de Alfredo Nascimento havia multiplicado por  86.500% o patrimônio da empresa. A descoberta da quadrilha do PR e a queda do pai sugerem que o arquiteto de 27 anos prosperou usando como gazua a carteira de identidade. Nascimento garante que o garoto nasceu para construir fortunas.

A reportagem publicada na seção O País quer Saber informa que o Ministério Público investiga os três exemplos de enriquecimento súbito. Se ficar provado que subiram na vida pendurados no parentesco, os filhos de Lula, Erenice e Nascimento confirmarão que a incapacidade de enxergar a fronteira entre o público e o privado é uma disfunção hereditária ─ e que a desmedida confiança na impunidade vem junto com o sobrenome. Se não têm culpa no cartório, se não derraparam no tráfico de influência, não podem ficar fora do governo. Casos de polícia aparecem de meia em meia hora. Casos de sucesso são bem menos frequentes. Casos como esses três são raríssimos.

O governo Lula criou o programa Primeiro Emprego. Dilma Rousseff deveria encomendar à trinca o programa Primeira Empresa. Em vez de um emprego com carteira assinada, os inscritos ganhariam uma pequena empresa. E aprenderiam com os jovens mestres como se fica milionário em dois ou três anos.

13/07/2011

às 18:18 \ O País quer Saber

Os filhos de Lula, Erenice e Nascimento ensinam como fazer para virar milionário usando apenas a carteira de identidade

Aiuri Rebello e Bruno Abbud

O Ronaldinho da informática

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tinha 27 anos em 2003, quando decidiu montar uma produtora de conteúdo digital em parceria com os amigos de infância  Ricardo e Kalil Bittar, filhos de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas, conselheiro da Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros) e íntimo de Lula desde a década de 70. No ano seguinte, a Gamecorp foi pinçada do semianonimato e do raquitismo financeiro por uma proposta surpreendente: a Telemar ofereceu R$ 5 milhões para tornar-se sócia minoritária dos três jovens empresários. Com a mediação da consultoria de Antoninho Trevisan, outro velho amigo de Lula, o negócio foi consumado em 2005. A direção da Telemar informou que resolvera investir no diminuto empreendimento baseada em projeções econômicas que não divulgou. E garantiu que só soube que se asssociara a um filho do então presidente depois de consumado o acerto.

Antes de virar empresário, Lulinha, formado em biologia, ganhava  R$ 600 por mês como monitor do Jardim Zoológico de São Paulo. Em outubro de 2006, numa entrevista concedida à Folha, o pai foi confrontado com a carta de um leitor interessado em saber por que seus filhos, com formação escolar mais sofisticada, não eram tão bem sucedidos quanto o integrante da Primeira Família. “Porque deve haver um milhão de pais reclamando: por que meu filho não é o Ronaldinho? Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho”, comparou Lula. “Eles fizeram um negócio que deu certo. Deu tão certo que até muita gente ficou com inveja”. Na mesma semana, no programa Roda Viva,  o presidente voltou ao tema. “Não posso impedir que ele trabalhe”, defendeu-se. “Vale para o meu filho o que vale para os 190 milhões de brasileiros. Se têm alguma dúvida, acionem ele”.

A Câmara Municipal de Belém, no Pará, já atendera à sugestão do presidente em fevereiro de 2006, quando solicitou à Procuradoria-Geral da República que investigasse Lulinha por suspeita de tráfico de influência. Como a sede da Telemar fica no Rio, a Procuradoria repassou o caso aos procuradores baseados em território fluminense. Em outubro de 2006, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro pediu a abertura de inquérito à Polícia Federal. Em junho de 2007, contudo, resolveu transferir a missão para o Ministério Público Federal de São Paulo, que abriga a sede da Gamecorp. Em outubro de 2009, os procuradores  paulistas entenderam que cabia ao Superior Tribunal de Justiça decidir quem deve cuidar do assunto.  Em 12 de fevereiro deste ano, a Folha informou que STJ resolvera a pendência: cumpre à 10ª Vara Criminal Federal de São Paulo apurar se Lulinha subiu na vida porque é um Ronaldinho da informática ou porque foi içado pelo sobrenome.

O filho da Casa Civil

A edição de VEJA de 11 de setembro de 2010 revelou que Israel Guerra, 32 anos, filho da ministra Erenice Guerra, amparava-se na influência da chefe da Casa Civil para extorquir propinas de empresários interessados em fechar negócios com o governo. As maracutaias ganharam velocidade em julho de 2009, quando Israel montou com dois sócios a Capital Assessoria e Consultoria, nome oficial da quadrilha formada por parentes e agregados da melhor amiga de Dilma Rousseff. Em abril de 2010, Fábio Baracat, dono de uma empresa de transporte aéreo, pousou em  Brasília para ouvir a proposta do filho da Casa Civil: para contar com a boa vontade da mãe, Baracat teria de pagar R$ 25 mil por mês pela consultoria, mais uma taxa de sucesso de 6% do valor do contrato com o governo.

Baracat conseguiu no mesmo ano um contrato de R$ 84 milhões com os Correios. Só com a taxa de sucesso, Israel embolsou R$ 5 milhões. É uma bolada e tanto, sobretudo para quem tivera de sobreviver com o salário de funcionário público. Em 16 de setembro de 2010, dois dias depois da demissão de Erenice, uma sindicância interna foi instalada na Casa Civil para apurar o escândalo.  As apurações foram concluídas quase quatro meses depois, em 2 de janeiro de 2011. Como não se descobriu nada de errado, ninguém foi punido. Um inquérito aberto pela Polícia Federal ouviu cerca de 60 pessoas. Não tem prazo para terminar.

O Palocci amazonense

O arquiteto Gustavo Morais Pereira, filho do ex-ministro Alfredo Nascimento, tinha 21 anos em 2005, quando se juntou a dois sócios para abrir a construtora Forma Construções, com capital inicial de R$ 60 mil. Em 2006, a empresa declarou R$ 17,7 milhões à Receita Federal. Em 2007, a fortuna cresceu para R$ 52,3 milhões. O aumento de 86.500 % em dois anos, revelado pelo Globo há 10 dias, transformou em coisa de amador o milagre da multiplicação do patrimônio operado por Antonio Palocci.

Desde o nascimento, a empresa construiu um conjunto de 86 casas de alto padrão e um prédio comercial de 20 andares num bairro nobre de Manaus. O Ministério Público Federal investiga desde o ano passado as proezas financeiras de Gustavo. Entrou na alça de mira dos promotores por ter declarado renda incompatível com os ganhos da Forma Construções. Que, por sinal,  também é alvo de investigações, concentradas nos negócios feitos com uma empresa frequentemente irrigada por recursos do Ministério dos Transportes, comandado por Alfredo Nascimento. O pai de Gustavo, demitido por corrupção, ainda não recebeu nenhuma intimação judicial.

12/07/2011

às 17:13 \ Direto ao Ponto

O trailer do filme sobre o bando do mensalão

Confira na seção História em Imagens os melhores-piores momentos do escândalo protagonizado por bandidos de estimação do presidente Lula.

11/07/2011

às 20:55 \ História em Imagens

O trailer do filme sobre o caso de polícia estrelado pela quadrilha do mensalão

 

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