Blogs e Colunistas

Elio Gaspari

10/12/2011

às 10:59 \ Direto ao Ponto

Fernando Pimentel, o consultor tubaína: pequenas empresas, grandes negócios

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Quando se escrever “Todos os Homens da Presidenta”, o livro noir sobre a degradante equipe ministerial do governo mais malfeito da história republicana, o capítulo dedicado a Fernando Pimentel talvez seja o mais recheado de espantos, apêndices e rodapés. O prólogo desse capítulo, ainda à espera de um epílogo decente, está sendo divulgado, a conta-gotas: entre sua saída da prefeitura de Belo Horizonte, em 2009, e sua oficialização como um dos homens da confiança da amigona Dilma, em 2010, Pimentel montou uma plataforma intermediária de prospecção de ouro negro, a “empresa de consultoria” P-21 — que faturou cerca de dois milhões de reais nos poucos meses que separam o ex-prefeito e conspícuo papagaio de pirata da candidata na campanha presidencial do futuro o poderoso ministro do “desenvolvimento” do governo mais “desenvolvimentista” dos últimos 510 anos.

Como observou Elio Gaspari, em sua coluna de quarta-feira, não é nada, não é nada, dois milhões de reais é quatro vezes o que o general da Força Aérea Americana Brent Scowcroft, ex-assessor militar dos presidentes Bush pai e Gerald Ford, ganhava por ano do escritório de ninguém menos que Henry Kissinger como chefe de sua consultoria para assuntos de segurança nacional. Uma análise de Brent sobre negócios americanos em áreas de conflito pode valer bilhões de dólares. Quanto vale um palpite infeliz de Fernando Pimentel sobre o que quer que seja? Como formalizava sua consultoria? Por telefone? Pasta de plástico? Em planilha Excel? E-mail?

Não importa. A Federação e o Centro de Indústrias de Minas Gerais achou uma pechincha pagar R$ 1 milhão por nove meses de consultoria do ex-prefeito e futuro ministro ─ embora pudesse ter comprado os dados fornecidos por Pimentel por R$ 2,50 ao dia, o preço de um exemplar de O Estado de Minas.

Até aí, tudo bem: é preciso ganhar a vida. Alguns PIGs mal intencionados insinuam que consultoria de ex-ministro ou de alguém em vias de sê-lo é um nome chique para tráfico de influência — mas temo que seja apenas dor de cotovelo: quem não gostaria de vender por uma fortuna, sem nunca ter sido consultor de coisa alguma, informações econômicas triviais, sem nenhuma expertise, a megaempresas e poderosas federações, que já gastam milhões com consultorias próprias muito mais abalizadas? Palocci adorou a experiência – e só fechou a torneira de ouro porque ser chefe da Casa Civil era ainda melhor. Mas –- mérito dele — Palocci nunca vazou ou deixou vazar os destinatários de sua consultoria secreta. Quem quiser, que especule até hoje sobre a natureza de seus serviços e a identidade dos contratantes. Pimentel deu azar: não conseguiu o mesmo grau de clandestinidade para sua pródiga clientela.

E eis que emerge, da lista de fregueses da P-21, um case que deve passar a integrar os manuais de consultoria empresarial como a mais extraordinária demonstração de incompetência simbiótica entre contratante e contratado. A ETA Bebidas do Nordeste, microempresa com sede em Paulista, Pernambuco, pagou a Fernando Pimentel 130 mil reais, ou 10 meses do que viria a ser seu salário líquido de ministro, por “prestação de serviços de análise econômico-financeira e mercadológica de seu plano de investimentos”. O pomposo nome do serviço parece justificar a polpuda remuneração, não fosse um detalhe: a ETA tem como único produto um refresco de guaraná chamado Guaraeta, vendido em copo de plástico, cujo lema é “naturalmente porreta”. Repetindo: o Guaraeta não chega nem a ter o status de um prosaico guaraná — é um refresco vendido em copo de papel, com menos extrato, mais água, mais açúcar. É bebida barata, consumida nas classes C e D de parte do nordeste, a menos de um real por unidade. Menos que uma tubaína. A ETA, por certo, é uma empresa modestíssima, paroquial – o que poderia querer de Pimentel em troca de 130 mil reais, como informa a nota fiscal em poder do ministro? Por que diabos uma empresinha da Região Metropolitana do Recife investiria uma vez e meia seu melhor faturamento mensal na “análise econômico-financeira e mercadológica” do segmento regional de refrescos feita por um ex-prefeito de Belo Horizonte?

Pois é, nem a ETA sabe a resposta. No começo desta semana, quando o escândalo veio à tona, Roberto Ribeiro Dias, um dos sócios da empresa na época em que o serviço teria sido contratado, tomou uma dose reforçada de legítimo extrato de guaraná com ginseng e nem assim lembrou-se de ter contratado o fabuloso consultor, por essa fabulosa quantia, para aprender o que quer que seja. No dia seguinte, já dentro do natural processo de blindagem do ministro, o atual administrador da empresa, Ricardo Pontes, desmentiu Dias – confirmando a consultoria e o valor pago por ela. Mas não disse uma palavra sobre o que realmente importa: a ETA ficou mais “porreta” depois de contratar Pimentel? Os 130 mil reais, dinheiro suado da empresa, foram devidamente multiplicados depois que Pimentel fez o serviço?

Não, um duplo não. O plano de negócios vendido pelo ministro não foi um refresco para a empresa em dificuldades: como por encanto, desde então as atividades da empresa foram sendo reduzidas, até a ETA ser vendida a Ricardo Pontes, no início deste ano. Hoje a ETA está instalada num galpão numa rua discreta e sem saída de Paulista, negativa e inoperante – ao contrário de Fernando Pimentel, positivo e operante.

O lulopetismo, que já demonstrou enorme expertise em todas as modalidades conhecidas de negócios suspeitos, descobriu novo filão, substituindo como itens à venda as obras que não faz pelo saber que não tem. O segmento mais promissor desse mercado é o superfaturamento de bens imateriais, como “consultoria” e “capacitação”. Cem por cento de lucro. Nenhuma despesa.

Fernando Pimentel, com sua sonda P-21, é o homem certo no lugar certo: a pasta do Desenvolvimento tem muito a ganhar com alguém que vende tubaína pelo preço de champagne, graças a uma fórmula ainda mais secreta que a da Coca-Cola.

25/01/2011

às 16:49 \ Baú de Presidentes

Confidências do presidente João Figueiredo numa noite das arábias

Publicado em 26 de maio de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 1

DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS

─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro.

─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar.

Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar que houve um diálogo, muito menos uma conversa. Aquilo não passou de uma banalíssima troca de cumprimentos. Não tive tempo de dizer como me chamava e o que fazia, nem de perguntar-lhe se estava bem. Mas eu não precisava contar à minha família que a coisa foi tão indigente. Diria apenas que tinha conversado com o presidente, só isso, e não estaria mentindo. Resolvida a questão doméstica, fiquei olhando o homem baixo e atarracado, suando sob o terno e a gravata que oficiais da cavalaria jamais aprenderão a combinar, que avançava escoltado por meia dúzia de seguranças pelo atalho aberto na pequena multidão reunida para recepcioná-lo no 7° andar do prédio da Editora Abril na Marginal do Tietê.

Um dia ainda pego esse cara de jeito, consolei-me. Peguei mesmo, mas só sete anos mais tarde, quando Figueiredo já era ex-presidente e tinha tempo de sobra até para conversar horas a fio com um jornalista que nem conhecia. Naquele começo de tarde em que dialogamos por cinco segundos, eu não poderia adivinhar que viajaria a seu lado numa noite das arábias. Tratei de convencer-me de que não fora uma desconsideração. No lugar dele eu faria o mesmo. Também teria preferido juntar-me à roda onde estavam o fundador da Abril, Victor Civita, o editor Roberto Civita, o diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, o diretor-adjunto Elio Gaspari, o governador Paulo Maluf e mais duas ou três figuras da primeira divisão. Eu era só o editor de Política. Quem ocupa esse cargo joga na segundona.

Ainda bem que nenhum deles vai estar no Guarujá amanhã, confortei-me em completo silêncio, planejando os preparativos para o encontro com o ex-presidente Jânio Quadros no dia seguinte. Que maio, aquele. Um presidente e um ex- em 48 horas. Se não houve tempo para uma conversa que merecesse tal nome no dia 27, a do dia 28, com Jânio, duraria uma tarde inteira. De passagem, iria mostrar ao velho campeão como é que se bebe.

Pelo menos a conversa posso ouvir, decidi com a cabeça de volta ao prédio da Abril. Pedi a Pedro Martinelli que me fotografasse ao lado de Figueiredo, minha mãe iria ficar orgulhosa. Abri caminho na selva de braços, dorsos, cabeças, pernas e consegui estacionar a um metro do presidente. Pedrão fez a foto. Só uma, a que ilustra esta narrativa. E que seria usada contra mim, como ocorreria com a imagem transformada por Jânio no golpe de misericórdia que encerrou o duelo desigual. A foto do dia 28 viraria prova de que só eu bebi. A do dia 27 me deixou com cara de papagaio de pirata.

Não ouvi grande coisa, ninguém faz revelações espetaculares numa roda. Mas fiz dois ou três registros que poderiam ser úteis. Figueiredo fumava mais que marido traído de filme francês e vivia sob a tensão permanente que aflige um espião argentino. Quando o tema do momento aguçava o desconforto, a perna esquerda balançava como um pêndulo que perdeu a compostura. Ele parecia insatisfeito com o emprego. Estava mesmo, confirmaria sete anos depois.

Não guardo lembranças do almoço, nem lembro a que distância fiquei da mesa principal. Achei que nunca mais toparia com Figueiredo depois da entrevista ao jornalista Alexandre Garcia em que, com o governo no fim, pediu ao país que o esquecesse. Parecia sincero. Mas resolveu esquecer o pedido em 12 de março de 1987, uma quinta-feira. Começou a falar às 8 da noite. Só parou às duas da madrugada.

Quando o falatório terminou, descobri que poucas vezes tivera tanta sorte naquela virada para uma sexta-feira 13. É o que se verá no segundo e último capítulo da história.

12/08/2010

às 18:27 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (III)

O golpe de misericórdia

Ele cambaleou, exulto ao ouvir Eloá repreendendo o marido por ter assinado o cheque na linha da data e preenchido o espaço da assinatura com o dia, o mês e o ano do duelo em curso no Guarujá. Resolvo acelerar o ritmo dos goles e partir para a contra-ofensiva infiltrando na conversa temas que costumam irritar Jânio Quadros. A história da renúncia, por exemplo. Meio mundo ainda não entendeu aquilo, provoco. Está arrependido do que fez?

─  Não, não e não ─  três esquivas antes do contragolpe. ─  Neste país, não se renuncia sequer ao cargo de síndico. É natural que poucos entendam gestos de grandeza e desprendimento.

Gastone enche gentilmente meu copo. Ataco pelo flanco com miudezas que o ex-presidente sempre achou excessivamente fúteis, mesquinhas demais para merecerem tempo e atenção de um estadista. Gosta das novelas da Globo? Prefere qual horário? Continua apreciando faroeste americano? Jânio vai respondendo com tiradas de repentista e imagens amalucadas. Nada abala o humor do meu oponente. Nem ouvir o editor de Política da revista Veja, que deveria estar lá para tratar de coisas sérias, querendo saber se ele sabe dançar.

─ Não, não sei… ─ simula um tom nostálgico para, em seguida, espantar quem espera ouvir reminiscências da juventude com a comparação absurda. ─  Sinto-me uma centopéia de 98 pernas.

Por que não arredondou para 100?, fico intrigado. Vai ver uma centopéia tem exatamente 98 pernas. Chega de dança, interrompo-me. Agora quero saber se acredita em disco-voador.

─ Sim, acredito. Eloá até já viu um em Cubatão.

Esqueço o desfile de irrelevâncias e fico procurando, calado, táticas mais eficazes. Jânio continua extraordinariamente loquaz. No fim do nono cálice, está falando das cinco cadelas que moram naquela casa quando Eloá aparece na porta vindo da direção de quem entra. Como não retoma o assunto do cheque preenchido pelo avesso, presumo que o dono do supermercado achou prudente aceitá-lo.

O marido não vê quem acabou de chegar. Ela estende lentamente o braço até alcançar o lado esquerdo da mesa, pega a garrafa de vinho do Porto, recolhe com cuidado o objeto do sequestro e desaparece. Acompanho a manobra com o canto dos olhos e cara de paisagem. Dois minutos depois, enquanto explica por que a cadela Quinta-Feira é a preferida, Jânio vê que o cálice está no fim, avança a mão esquerda e, ao chegar lá, não acha nada. Interrompe a frase no meio e olha para o espaço subitamente vazio. Parece confuso.

─  Onde está a garrafa? ─ murmura com jeito de criança perdida no supermercado.

Não conto o que vi nem sob tortura, decido. Vou ganhar por desistência, quem diria? Não importa se levaram o vinho sem o homem perceber, nem a identidade de quem levou. O motivo é irrelevante: se parar de beber, perdeu. A regra é clara. Jânio faz um minuto de silêncio pelo desaparecimento do vinho e repete a pergunta, agora com voz estridente e destinatário definido.

─ Onde está a garrafa, Gastone?

O deputado aponta a cozinha com o polegar.

─ Vá buscá-la ─ ordena a primeira ênclise.  ─ E trate de trazê-la ─ ameaça a segunda.

Gastone sai para cumprir outra missão. Logo voltam a ecoar frases truncadas mas muito esclarecedoras:  “não vou devolver”, “é o fim do mundo”, ”chega uma hora que tem que parar”, “os moços estão bêbados também”.  Torço pela eterna primeira-dama. Pedro Martinelli ressurge na janela. Jânio desta vez nem olha para o capuchinho que segue fotografando, só tem cabeça para o vinho que sumiu. Gastone reaparece com a garrafa sobre a cabeça e o mesmo sorriso de Bellini, Mauro e Carlos Alberto erguendo a taça Jules Rimet.

Jânio cumprimenta o aliado efusivamente. Pela primeira talagada, vai comemorar o resgate derrubando o décimo cálice. Está animadíssimo. Olhando para Jomar, pede ao ”senhor jornalista”  que anote e começa a a ditar:

─ O presidente Jânio Quadros vírgula depois de examinar detidamente o quadro partidário vírgula optou pelo PTB por ter feito uma constatação indesmentível dois pontos o PMDB é uma arca de Noé vírgula sem Noé ponto…

Único sóbrio no recinto, Jomar está anotando aplicadamente o que Jânio diz. Gastone continua bebendo quieto.  Jânio faz uma pausa no ditado para providenciar o 11° cálice. Paro ou continuo?, hesito. Era hora de jogar a toalha. Mas encho o copo de novo. No primeiro gole, o Lincoln da estatueta e o Lincoln do busto me olham com ar de deboche. Percebo que ultrapassei o ponto de não-retorno. Jânio ergue o cálice como se estivesse brindando. Sorri como um campeão mirando o adversário nocauteado em pé.

Meu erro foi o sexto copo.

(Neste sábado, a última parte do duelo histórico: A GRANDE RESSACA E O GOLPE ABAIXO DA CINTURA)

03/05/2010

às 18:34 \ Baú de Presidentes

A noite em que Aureliano Chaves quis sair no braço com quatro jornalistas da revista Veja (fim)

aureliano-jovem

A tempestade amainou, mas pode recrudescer a qualquer momento, alerta a previsão do tempo no apartamento de Aureliano Chaves. A respiração está mais compassada, mas o vice-presidente continua mirando os jornalistas da revista VEJA com cara enfezada. E as pupilas se dilatam ameaçadoramente quando o olhar enquadra o repórter A.C. Scartezini.

José Roberto Guzzo, Elio Gaspari e eu recorremos ao manual da imprensa: para entrevistas pesadas, perguntas leves. Por exemplo: o que gosta de fazer nas horas livres?

─ Faço exercícios todo dia ─ começa o cinquentão com estampa de caminhoneiro.  ─ Pratico levantamento de peso desde moço ─ completa, conferindo com orgulho o bíceps direito exposto pela camisa de mangas curtas.

De manhãzinha, deita-se numa prancha estendida no chão e flexiona 15 vezes os braços que sustentam 70 quilos de halteres. Em seguida, outras 60 flexões ─ 30 com cada braço ─ segurando 16 quilos. Aquele mineiro corpulento tem 53 anos, penso. Se resolver sair no braço, vai ser uma parada dura.

─ Não vou precisar da imprensa para responder a agressões ─ Aureliano parece adivinhar o que estou pensando. ─ Tenho também outros métodos ─ eleva de novo o tom de voz.

Essa noite não vai acabar bem, reitera a indocilidade do entrevistado. Alguém pergunta como vai o esforço para transformar-se no candidato do PDS à sucessão presidencial. O rosto de Aureliano Chaves enfim exibe algo parecido com um sorriso. Na semana anterior, recebera o apoio formal de um bloco de notáveis do partido, entre os quais Affonso Arinos, Olavo Setúbal, Célio Borja e Ney Braga. Diz que ficou muito contente. Tão contente que resolveu fazer o possível para controlar o temperamento beligerante:

─ Não vou perder tempo com denúncias no varejo ─ promete. ─ E vou engolir sapos.

Nem todos, ressalva:

─ Vou engolir tantos sapos quanto o meu estômago conseguir digerir, mas uma coisa é a disposição para engolir, outra coisa é a capacidade de digeri-los. Quando a digestão estiver interrompida, vou expelir o sapo.

É improvável que ele engula o sapo que Scarta guarda na cabeça, desconfio enquanto a conversa atravessa garoas, chuvas mais fortes, nesgas de céu sem nuvens e zonas de turbulência. Parece calmo ao tratar das chances de algum acordo com o governador Tancredo Neves, candidato da oposição à presidência. Fica irritado quando ouve se é verdade que a relação com o presidente Figueiredo anda crispada. Perto das dez da noite, os visitantes informam que a conversa foi muito boa, há assunto de sobra para a reportagem de capa. Começamos a levantar-nos. É a senha para a entrada de Scarta em campo minado.

─ O senhor me desculpe tratar deste assunto, mas preciso saber o que o senhor pensa dos rumores sobre doença…

─ Como? ─ aparteia Aureliano já de pé, o rosto retomando a cor do perigo.

─ Essas coisas que os adversários estão dizendo ─ entra na zona do agrião o bravo repórter.

─ Que coisas? ─ começa a ouvir-se o som da fúria.

Scarta enfim pronuncia as palavras proibidas:

─ Alguns falam em disritmia neurológica.

Fica claro que Aureliano não vai engolir o sapo:

─ Se surgir uma denúncia dessas, a resposta é uma junta médica! ─ berra enquanto avança na direção de Scarta. ─ E nesse caso os exames têm de abranger todos os candidatos!

Guzzo, Gaspari e eu nos interpomos entre os litigantes, balbuciando palavras de despedida.

─ Feito isso, meto o autor da acusação na cadeia! ─ Aureliano está com cara de quem não vai parar na barreira.

Ouve-se uma estranha mistura de cumprimentos e ameaças ─ “boa noite”, “assim não é possível!”, “obrigado pela entrevista”, “não admito essas coisas!”. Os jornalistas recuam em direção à porta do elevador, que abre para a sala, e apertam o botão.

─ Ou faço coisa pior! ─ explode Aureliano, que acelera a investida.

Chega o elevador. Entramos, apertamos o botão do térreo e a porta se fecha a tempo. O rosto colérico do vice-presidente está colado na janelinha. Um andar abaixo, A. C. Scartezini recupera a fala:

─ Mas esse homem é doido…

Então, sem combinações nem ensaios, Guzzo, Gaspari e eu, os três ao mesmo tempo, colocamos o indicador na vertical e emitimos em veemente surdina o toque de silêncio:

─ Psssssssssssssssssssssssss!!!

E batemos em corajosa retirada.


21/04/2010

às 15:32 \ Baú de Presidentes

A noite em que Aureliano Chaves quis sair no braço com quatro jornalistas da Veja (parte 1)

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O avião flutua poucos metros acima da pista do Aeroporto da Pampulha quando ouço José Roberto Guzzo, sentado uma fileira à frente, fazendo a pergunta em voz baixa:

─ Quem vai levantar o assunto da doença? ─ quer saber o diretor de redação da revista VEJA do diretor-adjunto Elio Gaspari, que lê um jornal na poltrona ao lado.

Pressinto a aproximação do perigo. No fim da tarde de 2 de fevereiro de 1984, estamos chegando a Belo Horizonte para uma conversa com o vice-presidente Aureliano Chaves, um dos três pré-candidatos do PDS à sucessão do general-presidente João Figueiredo. Aquele mineiro de pavio curto é o tema da próxima capa da revista, e a reportagem vai contar se são procedentes ou não os rumores de que anda sofrendo convulsões atribuídas à epilepsia. Entendo que Guzzo e Elio estão prestes a escolher o encarregado da missão de alto risco. Desconfio de que serei vítima da hierarquia. E uso as prerrogativas de redator-chefe para afastar de mim aquele cálice.

─ O Scarta conversa muito bem com o Aureliano ─ aparteio. ─ Ele cuida disso.

Guzzo e Elio retomam sem comentários a leitura dos jornais. Deduzo que quem cala consente e me cumprimento em silêncio por ter repassado a bola para Scarta, como é chamado pelos amigos o jornalista A. C. Scartezini, repórter da sucursal de Brasília. Alheio à pequena traição que acaba de sofrer, ele está à nossa espera no aeroporto. Nem imagina que foi o escolhido.  Tampouco Aureliano, que aguarda no seu apartamento a visita marcada para as oito da noite, pode imaginar que, pela primeira vez, a conversa vai invadir o território interditado. A invasão será anunciada por Scarta, acaba de avisar José Roberto Guzzo no banco da frente do carro que segue para o endereço de Aureliano.

─ Entre nessa história no fim da entrevista ─ diz o diretor de redação. ─ E não fale em epilepsia. Só pergunte se é verdade que ele tem alguma disritmia neurológica.

A tranquilidade aparente de Scarta me deixa em dúvida. Ou meu amigo é um bravo ou não sabe direito o que é disritmia neurológica. Também não sei. Mudamos de assunto até chegar ao prédio de um apartamento por andar. Aureliano abre a porta do elevador. Explica que está sozinho e por isso, infelizmente, só pode servir água. Mau começo de noite, penso. Ele se acomoda num sofá, Guzzo e Elio em outro, Scarta e eu ocupamos duas poltronas. Começa a entrevista.

Cinco minutos de amenidades depois, Scarta quer saber se Aureliano vai usar o jatinho da vice-presidência nas viagens como candidato à sucessão de Figueiredo. E então se desencadeia, repentina e ruidosamente, a sequência de espantos.

─ Essa pergunta é idiota! ─ explode o anfitrião subitamente rubro de cólera. ─ Não me faça perguntas idiotas! ─ continua agora aos berros e já erguendo do sofá o corpanzil de halterofilista aposentado.

No segundo seguinte, os jornalistas estão dizendo que houve algum mal-entendido, ninguém quis ofender o vice-presidente, ele que desculpe possíveis agravos. Aureliano vai baixando o tom de voz mas segue fuzilando Scarta com um olhar de hospício. Volta a sentar-se uns três minutos mais tarde. Mas a respiração descompassada informa que ainda não está posto em sossego.

Era só o começo, saberemos no segundo e último capítulo deste relato sobre a assombrosa noite de fevereiro em que  Aureliano Chaves, várias vezes presidente interino do Brasil, quis sair no braço com quatro jornalistas.

10/11/2009

às 15:46 \ Baú de Presidentes

Tancredo encerra a aula com a lição n° 6: “A conciliação só pode ser feita em torno de princípios”

Tancredo Neves, presidente eleito, discursando após a vitória no Colégio Eleitoral, no Congresso Nacional. 14/01/1985

Estou na mesa do restaurante com Tancredo Neves em busca de mais informações para a edição especial de VEJA que vai circular logo depois de 15 de janeiro de 1985, quando o Colégio Eleitoral escolherá o primeiro presidente civil depois de 20 anos de regime militar. O diretor José Roberto Guzzo e o diretor-adjunto Elio Gaspari monitoram o tempo todo o trabalho do trio de repórteres, completado por Guilherme Alves e Etevaldo Dias, chefe da sucursal de Brasília.

Naquela noite de novembro, o copioso material já reunido é suficiente para sustentar a chamada de capa: A História Secreta da Sucessão. Havia muito mais a descobrir, mostrariam as semanas seguintes. A conversa em Belo Horizonte confirma que, para Tancredo, ainda há pedras a remover no caminho que desemboca na rampa do Palácio do Planalto. Mas parece desimpedido ao menos o trecho a percorrer até o Colégio Eleitoral. O candidato da oposição está convencido de que vai vencer Paulo Maluf na última eleição presidencial sem povo.

─ Maluf deixou de ser uma opção razoável, eles não tem escolha ─ diz, abrangendo com a terceira pessoa do plural simpatizantes recentes, indecisos e adversários sem ânimo para engolir a alternativa.

(Talvez já estivesse pensando no discurso da vitória, ficarei desconfiado em 15 de janeiro, ao ouvir outra citação de bom gosto do presidente eleito: “Com o êxtase e o terror de haver sido o escolhido, como diria Verlaine, entrego-me, hoje, ao serviço da Nação”. Por decisão de  480 dos 686 integrantes do colégio reunido no Congresso, contra 180 que optaram por Maluf, o 29° chefe de governo do Brasil republicano seria aquele mineiro de 75 anos, baixo, calvo e de nariz arrebitado, a barriga um tanto pronunciada camuflada por ternos bem cortados e olhos escuros e vivos que se apertavam no sorriso frequente).

─ Morro de medo quando meu nome fica em evidência ─ começa Tancredo a repetir uma das frases prediletas. ─ Nunca me convidam para um banquete. Só se lembram de mim na hora da tempestade.

Esse é capaz de conseguir algum tipo de acerto até num Maracanã em dia de Fla-Flu, penso.

─ Mas não aceito o entendimento a qualquer preço ─ ele replica ao que eu não disse. ─ A conciliação só pode ser feita em torno de princípios. É também por isso que acho mais complicado conseguir um acordo entre contrários do que uma vitória eleitoral.

O domador de tempestades teve um desempenho luminoso já na crise de estreia, provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Recolhido ao casarão em São João del Rey, onde nasceu, convalescia desde outubro do ano anterior da derrota para Magalhães Pinto na disputa pelo governo de Minas Gerais. E examinava a idéia de encerrar a carreira política quando o destino o remeteu ao olho do furacão.

Decolou para Brasília a pedido do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do governo que, formalmente presidido pelo deputado Ranieri Mazzili, estava sob a tutela dos ministros do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. A trinca, contou-lhe Geisel, não admitia a entrega do cargo abruptamente desocupado ao vice João Goulart, em viagem oficial à China. Como o governador Leonel Brizola, entrincheirado no Palácio Piratini e apoiado pelas tropas aquarteladas no Rio Grande do Sul, exigia a posse de Jango, as dimensões e a tonalidade das nuvens anunciavam um temporal de bom tamanho.

É coisa para o doutor Tancredo, concordaram os comandantes militares. Era mesmo. Poucos dias e muita conversa depois, o conciliador vocacional fechou o acordo que afastou o fantasma da guerra civil. O vice tornou-se presidente, mas com poderes reduzidos pela adoção do regime parlamentarista. A escolha do nome do primeiro-ministro foi feita sem disputas, debates ou dúvidas. Só podia ser Tancredo Neves.

Mais de vinte anos depois, de novo só podia ser Tancredo Neves o candidato da mais multifacetada aliança política da história republicana. Nenhum outro juntaria na mesma campanha todos os  “autênticos” e todos os “moderados” remanescentes do PMDB. Nenhum uniria num só bloco todos os partidos de oposição, com a exceção previsível do PT, que optou pela abstenção. Nenhum atrairia tantos governistas dissidentes. E nenhum escaparia ao veto ostensivo de oficiais inconformados. Se não existisse um doutor Tancredo, o Brasil teria de esperar sabe-se lá quanto tempo ainda pela ressurreição da democracia.

Ele está em boa forma, equivoco-me ao ouvi-lo pedir um licor depois da sobremesa. É provável que já estivesse suportando as dores que esconderia até 14 de março, quando o país pronto para festejar a posse do eleito foi abalado pela notícia da primeira cirurgia. Escondeu-as por achar que o presidente Figueiredo não aceitaria passar a faixa presidencial nem a José Sarney, vice-presidente eleito, nem a Ulysses Guimarães, presidente da Câmara.

─ Vejo o senhor em Brasília ─ despeço-me na calçada em Belo Horizonte.

É um sorriso cansado, noto enquanto me deseja boa viagem.

─ Vejo o senhor no palácio ─ ouço-me dizendo em 15 de janeiro, achando mais cansado o sorriso do presidente eleito.

Não voltei a vê-lo vivo.

18/05/2009

às 16:42 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (fim)

Última parte

O golpe de misericórdia

Ele cambaleou, exulto ao ouvir de dona Eloá que o marido assinara o cheque na linha da data e preenchera o espaço da assinatura com o dia, o mês e o ano do duelo em curso no Guarujá. Resolvo acelerar o ritmo dos goles e partir para a contra-ofensiva infiltrando na conversa temas que Jânio Quadros considera irritantes. A história da renúncia, por exemplo. Meio mundo ainda não entendeu aquilo, provoco. Está arrependido do que fez?

─  Não, não e não ─  três esquivas antes do contragolpe. ─  É que, neste país, ninguém renuncia nem ao cargo de síndico. É natural que muitos brasileiros tenham dificuldade para entender gestos de grandeza e desprendimento.

Gastone enche gentilmente meu copo. Ataco pelo flanco com miudezas que o ex-presidente sempre achou excessivamente fúteis, mesquinhas demais para merecerem tempo e atenção de um estadista. Gosta das novelas da Globo? Prefere qual horário? Continua apreciando faroeste americano? Jânio vai respondendo com tiradas de repentista e imagens amalucadas. Nada abala o humor do meu oponente. Nem ouvir o editor de Política da revista Veja, que deveria estar lá para tratar de coisas sérias, querendo saber se ele sabe dançar.

─ Não, não sei… ─ mumura no tom nostálgico simulado para espantar quem espera ouvir reminiscências da juventude com a comparação. ─  Sinto-me uma centopéia de 98 pernas.

Por que não arredondou para 100?, fico intrigado. Vai ver uma centopéia tem exatamente 98 pernas. Mas chega de dança. Agora quero saber se acredita em disco-voador.

─ Sim, acredito ─  informa. ─ Eloá até já viu um em Cubatão.

Esqueço o desfile de irrelevâncias e fico procurando, calado, táticas mais eficazes. Jânio continua extraordinariamente loquaz. No fim do nono cálice, está falando das cinco cadelas que moram naquela casa quando dona Eloá aparece na porta vindo da direção de quem entra. O marido não vê quem acabou de chegar. Ela estende lentamente o braço até alcançar o lado esquerdo da mesa, pega a garrafa de vinho do Porto, recolhe com cuidado o objeto do sequestro e desaparece. Acompanho a manobra com o canto dos olhos e cara de paisagem. Dois minutos depois, enquanto explica por que a cadela Quinta-Feira é a preferida, Jânio vê que o cálice está no fim, avança a mão esquerda e, ao chegar lá, não acha nada. Interrompe a frase no meio e olha para o espaço subitamente vazio. Parece confuso.

─  Onde está a garrafa? ─ murmura com jeito de criança perdida no supermercado.

Não abro a boca nem sob tortura, decido. Vou ganhar por desistência, quem diria? Não importa se levaram o vinho sem o homem perceber, nem quem levou. Parou de beber, perdeu. A regra é clara. Jânio faz um minuto de silêncio pelo desaparecimento do vinho e repete a pergunta, agora com voz estridente e endereço definido.

─ Onde está a garrafa, Gastone?

O deputado aponta a cozinha com o polegar.

─ Vá buscá-la ─ ordena a primeira ênclise.  ─ E trate de trazê-la ─ ameaça a segunda.

Gastone sai para cumprir outra missão. Logo chegam frases truncadas mas muito esclarecedoras:  ”não vou devolver”, “é o fim do mundo”, ”chega uma hora que tem que parar”, “os moços estão bêbados também”.  Torço por dona Eloá. Pedro Martinelli ressurge na janela. Jânio desta vez nem olha para o capuchinho que segue fotografando, só tem cabeça para o vinho que sumiu. Gastone reaparece com a garrafa sobre a cabeça e o mesmo sorriso de Bellini, Mauro e Carlos Alberto erguendo a taça Jules Rimet.

Jânio cumprimenta o aliado efusivamente. Pela primeira talagada, vai comemorar o resgate derrubando o décimo cálice. Está animadíssimo. Olhando para Jomar, pede ao ”senhor jornalista”  que anote e começa a a ditar:

─ O presidente Jânio Quadros vírgula depois de examinar detidamente o quadro partidário vírgula optou pelo PTB por ter feito uma constatação indesmentível dois pontos o PMDB é uma arca de Noé vírgula sem Noé ponto…

Único sóbrio no recinto, Jomar está anotando aplicadamente o que Jânio diz. Gastone continua bebendo quieto.  Jânio faz uma pausa no ditado para providenciar o 11° cálice. Paro ou continuo?, hesito. Era hora de jogar a toalha. Mas encho o copo de novo. No primeiro gole, o Lincoln da estatueta e o Lincoln do busto me olham com ar de deboche. Percebo que ultrapassei o ponto de não-retorno. Jânio ergue o cálice como se estivesse brindando. Sorri como um campeão mirando o adversário nocauteado em pé.

Meu erro foi o sexto copo.

PANCADAS ABAIXO DA CINTURA

Meu erro foi o sexto copo, expliquei ao ouvir o humilhante “Eu não disse?” dito por Jomar Moraes na subida da Anchieta. Nunca a estrada de Santos teve tantas curvas. Lembrava que tinha capitulado na metade do copo. Jânio deu mais um gole. Lembrava vagamente que me despedi de Jânio e Gastone com voz pastosa e caminhei para o fusca com a dignidade possível. Dona Eloá estava  na cozinha.

─ Sexto ou sétimo copo, tanto faz ─ disse Jomar. ─ Teu erro foi encarar a fera.

O sorriso superior de Pedrão avalizou o parecer. Eu só queria que a Serra do Mar parasse de girar ao meu redor, chegar em casa e dormir. No dia seguinte, fui para prédio da Abril na Marginal do Tietê. José Roberto Guzzo, diretor de redação, estava fora naquela semana. Entrei na sala do diretor-adjunto Elio Gaspari tentando disfarçar a ressaca. Ele quis saber se tinha assunto para uma reportagem de capa. Tinha de sobra, respondi. E soltei o comentário como quem não quer nada.

─ O que o homem está bebendo é uma grandeza.

─ É mesmo? ─ Gaspari ficou curioso.

Contei o que Jânio tinha bebido, ele não acreditou. Sugeri que conferisse com Jomar. Achei irrelevante falar sobre os tragos que tomei. Jornalista não é notícia, tinha ouvido várias vezes na Veja. Gaspari resumiu num trecho da Carta ao Leitor a performance do campeão: 20 latas de cerveja, 6 copos de caipirinha e 11 cálices (dos grandes) de vinho do Porto. A reportagem ficou boa. A Carta ao Leitor repercutiu ainda mais. Fiquei sabendo que Jânio se irritou. Estava vingado.

Quero ver como ele vai se virar na quarta-feira, pensei. Era o dia do programa que tinha na Record. Falava o que queria. Mas vai ter de comentar o que a Veja publicou, calculei. Foi o que Jânio fez no primeiro minuto do primeiro bloco. Com um exemplar da revista na mão, queixou-se de que fora vítima de jornalistas irresponsáveis. E entrou na questão alcoólica disposto a golpear abaixo da linha da cintura.

─  Dizem que bebi! — escandiu as sílabas. Pois não bebi, até por prescrição médica! Quem bebeu foram os jornalistas!

Fiquei espantado. Não é possível que ele estivesse desmentindo o desempenho admirável. Fez pior. Abriu a revista na página da Carta ao Leitor, a câmera fechou a lente, Jânio pôs o dedo indicador na foto e desfechou o golpe de misericórdia.

─ Vejam isto! Vejam quem está bebendo!

Para sorte de Jânio e para meu infortúnio, a foto que ilustrava a página era uma das que Pedro Martinelli fizera quando dona Eloá acabou de confiscar a garrafa de vinho e Gastone ainda não fora buscá-la. O cálice estava atrás do Lincoln do busto. Só aparecia o copo de uísque, circundado em vermelho pelo artista.

─  Aqui está o senhor jornalista com seu copo ─ bateu nas partes baixas. ─  Cadê a minha bebida?

Foi o segundo nocaute consecutivo. Perdi feio. Mas fui derrotado por um campeão.


 

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