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ditadura militar

12/12/2014

às 16:16 \ Direto ao Ponto

O terrorista que matou o companheiro de luta armada está fora da lista da Comissão da Verdade e o assassinado foi condenado ao esquecimento perpétuo. Haja cinismo

O que acho da Comissão da Verdade e do relatório que acaba de ser divulgado? Um post de 3 de julho de 2012 antecipou a resposta. Confira. Volto no fim.  

Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional, para fazer um curso de guerrilha. De volta ao Brasil em 1970, tinha 20 quando se tornou e um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN, organização de extrema-esquerda fundada pelo terrorista Carlos Marighela. Então com 19 anos, fazia parte do quinteto o militante comunista Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente”. Da mesma forma que o Paz da certidão de nascimento, o codinome Clemente contrastava com o temperamento e o prontuário de um devoto da violência.

Em outubro de 1970, numa reunião clandestina, os componentes da Coordenação Nacional debateram as circunstâncias do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, que havia 11 meses substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por uma milícia liderada pelo delegado Sérgio Fleury. Sob o argumento de que estavam percorrendo o caminho mais curto para a eliminação física dos engajados na luta armada, Márcio propôs aos demais dirigentes uma pausa na guerra desigual.

Não era a primeira vez que aquele companheiro desafinava do restante da direção, desconfiou  Clemente. Demorou duas horas para concluir que Márcio era um dissidente prestes a traí-los, entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia. Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer. Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar o tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, já com 20 anos,  ajudou a executar numa rua de São Paulo.

Convocado para uma reunião de rotina do alto comando, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971. Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se e sequer suspeitava da tocaia deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se. Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo. Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros.

Alguns foram disparados por Clemente, acaba de admitir o terrorista aposentado ao jornalista Geneton Moraes Neto, que o entrevistou para o programa Dossiê, exibido pela Globo News neste 30 de junho. O vídeo abaixo reproduz o trecho da entrevista em que o depoente se transforma oficialmente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz Clemente depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto por três juízes com pouco mais de 20 anos de idade. “Cumprir a tarefa” é bem menos chocante que “executar um companheiro de luta contra a ditadura”.

Entrevistador competente, Geneton vai direto ao ponto: “Você participou diretamente da execução, então?” Com a placidez de quem recita uma receita de bolo, Clemente enfim assume a autoria do crime. “Essa é uma informação que até hoje eu não dei”, avisa. “E, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente. Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…” A expressão sem culpas e o olhar de quem não perde o sono por pouca coisa informam que, para o declarante, tirar ou não a vida de um ser humano é algo que merece tanta reflexão quanto ir à praia ou ficar na piscina do prédio.

A maioria dos integrantes da Comissão da Verdade divide o universo que resolveu devassar  em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência. Uns merecem o fogo do inferno, outros só merecem a gratidão do país (e desfrutar de uma Bolsa Ditadura de bom tamanho). Em qual dessas categorias devem ser enquadrados Carlos Engênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo? O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso? Essa espécie de homicídio foi engavetada pela anistia? A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados? Como reparar a memória do jovem executado? A Comissão da Verdade está convidada a oferecer respostas convincentes para tais interrogações.

Bem menos complicado é responder à pergunta feita por Clemente em novembro de 2008, quando voltei a tratar do episódio infame: “O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”. Simples: quero deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo. Um a serviço da ditadura militar, outro a serviço da ditadura comunista, ambos são assassinos sem direito ao perdão.

Márcio Leite de Toledo está fora da lista de mortos e desaparecidos divulgada no relatório da Comissão da Verdade. Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz  está fora da relação dos responsabilizados por violências contra os inimigos do regime. O assassino foi absolvido. A condenação ao esquecimento perpétuo consumou o segundo assassinato da mesma vítima. Os sherloques do passado, diplomados na escola do cinismo, decidiram que um terrorista podia tudo. Até matar o companheiro de luta armada. Haja canalhice. 

02/12/2014

às 0:41 \ Opinião

Valentina de Botas: Debater o flerte indecoroso com a escuridão é um despropósito. Olhemos para a frente, amigos. É lá que o futuro nos aguarda

“INTERVENÇÃO MILITAR JÁ. MAS, OLHEM BEM, SENHORES MILITARES, NADA DE DITADURA; OS SENHORES VÊM, INTERVÊM E VÃO EMBORA. ARRUMAM TUDO SEM MEXER NA NOSSA DEMOCRACIA, HEIN? DEPOIS, DEVOLVEM O PAÍS PARA OS CIVIS, QUE A GENTE PROMETE NÃO FAZER MAIS BESTEIRA”.

Que tal um cartaz assim para os porta-vozes da cretinice-do-bem? Sim, cretinice; não, Charles A. (01/12, 11:44 e 11:51), não devo desculpas a nenhuma besta de leviandade escancarada em um cartaz cretino deformando, intencionalmente ou não, protestos que buscam o futuro. O fato de cretinice não ser crime e ser um direito, dependendo, não impede de chamar o cretino de cretino.

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22/04/2014

às 7:35 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Ieda Maria Vargas, a constelação da gaúcha

Publicado na edição impressa de VEJA

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Aos 18 anos, Ieda Maria Vargas era a mulher mais linda de todas as galáxias. Pelo menos aos olhos dos cinco jurados que no dia 20 de julho de 1963 a elegeram Miss Universo. Linda e abstraída de questões políticas. Quando chegaram a Miami as primeiras notícias da deposição do presidente João Goulart, ela só notou algo estranho no comportamento do pai, que estava nervoso e fumando muito. As coisas iam mudar, e para pior, dizia ele. O motivo estava no doce apadrinhamento da política brasileira. Consagrada com o título e recebida em palácio pelo presidente, ela só poderia cumprir suas elevadas funções com o consentimento paterno se a família fosse toda para os Estados Unidos, uma mudança economicamente inviável. Solução: Jango nomeou o conterrâneo José Vargas, professor remotamente aparentado com Getúlio Vargas, para um cargo diplomático em Miami. Era o risco de perdê-lo que causava inquietação ao pai de Ieda nos instáveis dias do fim de março e começo de abril de 1964.

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21/04/2014

às 7:13 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Adhemar de Barros, o homem do cofre

Publicado na edição impressa de VEJA

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Ademar de Barros (à esq.) e o então governador do Paraná Moyses Lupion, em 1947

“Ademá, Ademá, é mió e num faz má”. Com sotaque arrastadamente caipira, a dupla Alvarenga e Ranchinho parodiava o comercial do mais conhecido analgésico da época. Quem mais gostava era o próprio Adhemar de Barrros, o governador paulista com uma trajetória política convoluta: médico e culto, fazia-se de bronco; de engajado na Revolução Constitucionalista em 1932 , em 1938 já era interventor em São Paulo nomeado justamente por Getúlio Vargas; populista criador original do “rouba mas faz”, rejeitado pelas elites paulistas, assumiu ao lado delas uma das correntes de apoio à conspiração anti-Jango e chegou a março de 1964 com tudo encadeado, inclusive um manifesto de sua autoria assinado por outros seis governadores para os quais a situação nacional ia de “má a piorrr”, para ficar no dialeto.

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20/04/2014

às 7:21 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Juscelino Kubitschek ─ A reeleição que nunca houve

Publicado na edição impressa de VEJA

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Havia seis candidatos a presidente em 1964. Todos, portanto, interessados em chegar até 1965. Ou seja, empurrar a crise até a próxima eleição presidencial. O mais interessado de todos era Juscelino Kubitschek (os outros candidatos eram os governadores Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Miguel Arraes; além do próprio presidente João Goulart e seu cunhado Leonel Brizola, no caso de uma feitiçaria constitucional que os livrasse da inelegibilidade). As pesquisas de opinião já davam 37% dos votos para que ele voltasse à elegante cidade que havia criado do nada, deixando uma nada bela encrenca econômica, mas a imagem de político inovador nas realizações públicas e conciliador nas tratativas particulares. À véspera do golpe, conciliação era uma moeda em falta até mesmo no trato entre dois homens pouco sanguíneos como JK e Jango. A aliança política entre o PTB de Goulart e o PSD de Juscelino estava irreversivelmente deteriorada.

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19/04/2014

às 7:36 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Miguel Arraes, o cabra marcado

Publicado na edição impressa de VEJA

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De uma coisa Miguel Arraes nunca duvidou: qualquer que fosse o lado a sacar primeiro a garrucha o acertaria também. Para seus inimigos da direita ─ Carlos Lacerda era só o mais barulhento ─, o governador de Pernambuco era um rematado comunista; para seus competidores da esquerda ─ Jango na primeira fila ─, um incômodo umbuzeiro a fazer-lhes sombra. No dia 31, quando já estava claro quem havia atirado mais rápido, seu destino foi selado. Teria sido deposto naquela mesma tarde, não fosse o fato de o comando militar local, ocupado com as muitas tarefas que envolvem derrubar um governo, achar que essa poderia esperar até o dia seguinte. Arraes, afinal, encontrava-se “docilmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações”, como escreveu na autobiografia o general Joaquim Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército e desafeto de longa data do governador. (“O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele desde a primeira hora um inimigo”, disse o general. “Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico.”)

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18/04/2014

às 7:52 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Carlos Lacerda ─ A tragédia da vitória

Publicado na edição impressa de VEJA

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“Os civis também sabem morrer”, disse Carlos Lacerda a Humberto Castello Branco quando o general tentou convencê-lo a abandonar o Palácio Guanabara, sede do governo estadual, na noite de 31 de março de 1964. Ou pelo menos é assim que, já perto da morte, em 1977, preferiu lembrar o mais fenomenalmente dramático personagem político em ação à época, capaz de misturar tragédia grega e dramalhão mexicano com mente de intelectual canônico, tradutor de Júlio César, de Shakespeare, e de John Kenneth Galbraith, e coração de apresentador de auditório.

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16/04/2014

às 7:34 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Luiz Carlos Prestes, o conto das cabeças cortadas

Publicado na edição impressa de VEJA

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“A repetição dos prognósticos calamitosos se revelou uma especialidade de Prestes”, escreveu o historiador marxista Jacob Gorender, que sempre teve a grandeza de, sendo um dos mais refinados e respeitados intelectuais da esquerda, denunciar seus deslizes. Luiz Carlos Prestes foi mais Luiz Carlos Prestes do que nunca na crise que culminaria no golpe contra Jango. O Cavaleiro da Esperança da Coluna que levou o seu nome no início dos anos 20, o lendário secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro que apoiou o Estado Novo de Getúlio Vargas depois de ele ter deportado sua mulher, Olga Benário, para os nazistas, o calculista que em 1947 assegurara aos seus pares que o PCB não seria proibido (foi), o chefe do partido que se igualara à UDN na grita contra Getúlio, em 1954, começou 1964 esgrimindo sua especialidade e a levou até a véspera da derrubada do governo que apoiava.

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15/04/2014

às 7:42 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Emílio Garrastazu Médici ─ Adivinhem quem vem jantar

Publicado na edição impressa de VEJA

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“De qualquer maneira, o senhor está convidado para jantar em nossa companhia.” Com essas palavras corteses, o general Emílio Garrastazu Médici selou os fatos consumados: os militares golpistas seriam vencedores e os governistas não oporiam resistência. O convite foi feito na entrada monumental da Academia Militar das Agulhas Negras num encontro noturno em que choviam estrelas nos ombros de seus três participantes e que poderia acabar em troca de chumbo.

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14/04/2014

às 7:32 \ O País quer Saber

Especial VEJA: Golbery do Couto e Silva, o conspirador da Casa da Borracha

Publicado na edição impressa de VEJA

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General Golbery do Couto e Silva (à esquerda) e Ernesto Geisel

Golbery do Couto e Silva teve papel destacado no governo dos generais que gostavam dele — Castello e Geisel — e abandonou o de João Figueiredo, em 1981, por discordar da decisão do presidente de acobertar os terroristas de farda que se explodiram acidentalmente em um Puma no estacionamento do Riocentro, aonde foram com o objetivo de amedrontar a audiência de um show de música popular brasileira. Golbery ajudou a montar a estratégia de devolução do poder aos civis de forma “lenta e gradual”, e os chefes militares dos desastrados do Puma tentavam boicotar o processo de volta à normalidade. Figueiredo, autor da promessa “prendo, arrebento” quem for contra a abertura, cedeu aos radicais.

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