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chuvas

09/01/2012

às 21:45 \ Direto ao Ponto

A farsa-tarefa de Dilma, por Celso Arnaldo

IGV6989

(Foto: Ichiro Guerra/PR)

Celso Arnaldo Araújo

São seis os cavaleiros do pós-apocalipse que aparecem na foto que deveria figurar em qualquer dicionário universal junto à palavra Cinismo. Cinco envergam ternos circunspectos, um ostenta farda verde oliva; quatro estão de cabeça baixa, fingindo assumir a vergonha que não têm; um tem o olhar perdido no infinito a dois metros de distância, mas no fundo exulta: meia hora antes, salvara o empregão; o último, o de bigode em forma de símbolo do Batman, aparentemente balbucia alguma promessa morta no berço por sua incompetência científica e tecnológica. Sem ter como inovar ─ terceira missão de sua pasta – repete o anúncio feito por algum outro mentiroso exato um ano atrás, diante da devastação da região serrana pelas chuvas do verão de 2011: “Vamos fazer um mapeamento in loco para identificar as áreas mais vulneráveis e ajudar a Defesa Civil na remoção das famílias”.

A sétima figura da encenação galhofeira, única mulher presente a essa imagem da farsa como método de governo, é também o único membro do sinistro septeto a desfilar um olhar desafiador, de quem está à cavaleiro da situação – na qualidade de ministra da Casa Civil e gestora de mais um embuste inventado por Dilma, já saboreia a possibilidade de fazer cobranças imaginárias bem longe dos cenários da tragédia de 2012, ela e a chefa fingindo que é dor a dor que deveras nunca sentiram.

Há poucos minutos, no Blog do Planalto, a imagem revoltante ganhou um título arrasador, na acepção mais destrutiva da palavra:

“Governo cria força-tarefa para atuar nas áreas atingidas pelas chuvas”

Já no olho da matéria, começa a fantasia tonitruante, cheia de pompa e circunstância: “O governo federal vai criar uma força-tarefa, composta por 35 geólogos e 15 hidrólogos, para atuar nas áreas de risco dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, afetados pelas chuvas. A decisão foi tomada hoje (9) pela presidenta Dilma Rousseff em reunião com seis ministros no Palácio do Planalto. A força-tarefa vai trabalhar na identificação das áreas sujeitas a deslizamentos e inundações, de onde as famílias devem ser removidas pela Defesa Civil”.

E sabem da maior?

“Evitar mortes é nossa prioridade número um”, disse a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, em entrevista coletiva após a reunião com a presidente”.

A seguir, todos os homens de preto e o de verde oliva também falaram, sequencialmente, bem roteirizados pelas respectivas assessorias, numa espécie de jogral da fraude.

Para evitar as mortes que já ocorreram no ano passado e neste, incluindo a morte civil de quem perdeu tudo na vida, a presidenta que não chove no molhado também determinou que “os centros de operação e monitoramento permaneçam nos estados até fim de março para atuar nas ações de prevenção e reconstrução das cidades mais afetadas pelas chuvas”. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aloizio Mercadante, informou em primeira mão – pelo menos para quem não viu os boletins de 15 dias atrás — que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemanden) prevê fortes chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Ouro Preto. Por essas e outras é que ele conta os dias de ir para a Educação.

Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, revelou que mais 800 quilos de medicamentos serão enviados para as áreas mais atingidas, “somando 12,8 toneladas o total já encaminhado pelo governo”, por decisão pessoal de Dilma assim que voltou das férias, numa estranha ênfase na abordagem epidêmica de uma inundação.

Por fim, segundo o Blog do Planalto, o ministro que hoje salvou o empregão, Fernando Bezerra Coelho, transmitiu, em nome da gerentona Dilma, solidariedade às famílias das vítimas do deslizamento na cidade de Sapucaia, no norte do Rio de Janeiro – a mais recente tragédia que o governo vai prevenir. E afirmou, sem ficar vermelho e sem rir:

“Vamos envidar esforços para resgatar as vítimas e oferecer apoio aos familiares.”

Ele já o ofereceu ao irmão burocrata, ao filho deputado e ao correligionário proprietário do terreno em Petrolina comprado e pago duas vezes.

Todo brasileiro que ainda não se afogou nesse mar de lama, de corrupção, de inépcia, da pior forma de cinismo que existe, o cinismo que mata, deve olhar compenetradamente para cada um dos descarados da foto e anunciar em alto e bom som:

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO.

08/01/2012

às 15:48 \ Feira Livre

A culpa não é das chuvas

EDITORIAL PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A destruição, pela terceira vez em quatro anos, de um trecho da rodovia federal que tem servido como dique para conter as águas do Rio Muriaé, no município fluminense de Campos – forçando a remoção de 4 mil pessoas da localidade de Três Vendas -, é mais uma dramática comprovação da péssima qualidade da gestão pública no País. O fato comprova o mau planejamento das obras públicas, a incapacidade do poder público de adotar medidas preventivas contra os efeitos dos fenômenos naturais e ao descaso das autoridades com a situação da população afetada por esses problemas. A culpa não é do mau tempo, como muitas autoridades vêm afirmando, mas delas próprias, em todos os níveis de governo.

O fato de um trecho da rodovia federal BR-356 (Itaperuna-Campos) ter se rompido pela terceira vez consecutiva por causa das enchentes do Rio Muriaé demonstra que seu traçado é incorreto ou que sua construção não é adequada, ou as duas coisas. “As inundações na região do Rio Muriaé são recorrentes e a estrada deveria ter sido projetada para que não sofra rompimento”, disse ao Estado, com lógica cristalina, o engenheiro geotécnico Alberto Sayão, professor da PUC-Rio e ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos (ABMS). “A estrada não está preparada para cheias e é possível que vá se romper em outros trechos. Deve ser feita uma avaliação para que seja reconstruída em condições adequadas.” Como resumiu o engenheiro, “a culpa não é de São Pedro”.

Em janeiro de 2007, uma pessoa morreu ao cair com seu carro na cratera aberta na BR-356 pelo Rio Muriaé. Em dezembro de 2008, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pela operação da rodovia, cortou parte dela para facilitar o escoamento da água. Situado na margem da rodovia oposta ao rio, e em nível mais baixo, o distrito de Três Vendas, a 15 quilômetros do centro de Campos, foi inundado também nessas ocasiões.

Por incapacidade técnica do Dnit ou por outro motivo não conhecido, o trecho destruído foi reconstruído e recebeu diversas outras obras. O superintendente substituto do Dnit, Celso Crespo, disse ao jornal O Globo que cerca de R$ 100 milhões já foram aplicados na BR-356.

“Em 2007, fizemos a contenção do aterro da margem esquerda do Rio Muriaé”, disse o supervisor do Dnit em Campos, Guilherme Fraga Freitas. “Em 2008, a abertura foi feita por máquinas. Depois, ela foi fechada. Nada do que foi feito nos últimos anos foi danificado.”

Agora, o custo estimado para a reconstrução da pista é de R$ 1,5 milhão. Mas, daqui a algum tempo, muito provavelmente, tudo terá de ser refeito, sempre a custos adicionais para os contribuintes e de danos à população, pois nada se disse sobre um projeto de um novo traçado ou de obra resistente às águas do rio para resolver o problema.

A prefeita de Campos, Rosinha Garotinho, foi advertida há três anos sobre a necessidade de remoção dos moradores de Três Vendas para uma área mais alta conhecida como Colina, como informou ao Estado o pesquisador Arthur Soffiati, do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF – mas nada fez.

Na região serrana do Rio de Janeiro, as marcas da tragédia que custou mais de 900 vidas no ano passado ainda são visíveis – o que mostra a omissão do governo. O pior é que a situação em Nova Friburgo sugere o risco de repetição do desastre, sem que as autoridades se mobilizem para evitá-lo.

O governo federal gere mal os poucos recursos destinados à prevenção e combate às enchentes e outros desastres naturais. A destinação privilegiada desses recursos para regiões de interesse político-eleitoral, daqueles que tomam as decisões – como ocorreu na gestão do atual ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, de Pernambuco, e ocorrera na de seu antecessor, Geddel Vieira Lima, da Bahia -, é uma das piores características dessa forma de governar. Outra é a incapacidade do governo petista de aplicar com um mínimo de eficiência os recursos disponíveis. No caso de ações de “prevenção e preparação para desastres”, entre 2004 e 2011, o governo aplicou apenas um quarto dos recursos autorizados, como mostrou a organização não governamental Contas Abertas.

18/12/2011

às 21:30 \ Frases

Recado aos brasileiros

“Morrerão pessoas neste verão e nos próximos. Nós teremos vítimas esse ano, não queremos criar qualquer tipo de ilusão.”

Aloizio Mercadante, ministro da Ciência e Tecnologia, sobre as chuvas neste verão.

26/07/2011

às 15:09 \ Feira Livre

Ajuda à Serra afundou num mar de lama

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTE DOMINGO

Deslizamento em Nova Friburgo: a cidade foi a mais atingida pelas chuvas

A determinação de bloquear a conta da prefeitura de Teresópolis com a verba repassada por Brasília para socorrer as vítimas da enxurrada na Região Serrana fluminense no início do ano é providencial medida da Controladoria Geral da União a fim de estancar a sangria dos recursos públicos. A decisão de, paralelamente, pedir o ressarcimento do dinheiro completa um elenco de bem-vindas ações para reaver uma dotação que, em vez de ser empregada na reconstrução da cidade atingida pelas chuvas, irrigou um esquema local de corrupção.

No que diz respeito à maneira como os poderes públicos do país costumam reagir nos casos de montagem de esquemas para malbaratar recursos oficiais, são providências, se não inéditas, inusuais. Deveriam servir de paradigma para ações semelhantes de desbaratamento de quadrilhas que se especializam em avançar sobre os cofres públicos.

No caso de Teresópolis, a CGU escorou-se em indícios de que estava em curso uma ação criminosa dentro da prefeitura, envolvendo a aplicação de R$7 milhões repassados pelo Ministério da Integração Nacional. Nas investigações do órgão, tomou forma o figurino das irregularidades – de resto, confirmadas em depoimento por um empresário que fazia parte do esquema de fraudes. Entre outras manobras, usavam-se intermediários para contratar serviços, liberavam-se pagamentos de serviços fictícios a empresas fantasmas ou de fachada, e falsificavam-se notas fiscais. Até um humilde balconista de uma farmácia foi usado, à revelia, como “laranja” no contrato social de uma construtora.

O esquema de corrupção, denunciado pelo GLOBO, estendia-se a outros municípios da Serra. Em Nova Friburgo, a cidade mais atingida pelo maior desastre natural da História do país, um acordo entre secretários do governo local e empresários elevou de 10% para 50% a propina que azeitava a máquina da burocracia para agilizar a liberação dos recursos. Fora essa particular sobretaxação do custo da corrupção, em tudo o mais o modelo da sangria foi basicamente o mesmo na Região Serrana.

Moralmente condenável – à parte a questão criminal usualmente pouco lembrada nas providências que procedem à descoberta de casos de malversação de recursos públicos -, a corrupção ganhou na Serra um tom acima de indignidade. Os temporais do início do ano deixaram na região um quadro de destruição e mortes que provocou emocionantes manifestações de solidariedade em todo o país. No rastro da tragédia delinearam-se outros males, como a ineficiência dos serviços de defesa civil e a burocracia nos procedimentos de reconstrução das áreas arrasadas.

A investigação da CGU mostrou que, a esses males que emergiram da enxurrada, se antepôs o esquema de fraudes: as águas ainda não haviam baixado e já o motor da corrupção estava em ação, alimentado pela necessidade imperiosa de que ações de redução de danos fossem adotadas com a emergência que costumeiramente é evocada na justificativa de agravos à lei para a prática de atos de rapinagem. É salutar que o presente caso de corrupção tenha sido revelado. Mas não basta isso: é fundamental que os responsáveis também respondam à Justiça por seus atos. E é preciso resolver, enfim, os problemas das pessoas.

19/02/2011

às 11:36 \ Feira Livre

A tragédia longe dos holofotes

Onde antes existiam casas, pedregulhos hoje dominam a paisagem do bairro de Campo Grande, em Teresópolis (Foto: Branca Nunes)

Branca Nunes

Um mês depois da tragédia que devastou a região serrana do Rio de Janeiro, as feridas continuam abertas – e demorarão muito tempo para desaparecer. Amainado o fervor dos voluntários, interrompido o fluxo das doações às toneladas, as vítimas dos deslizamentos dependem quase que integralmente dos próprios recursos ou da ajuda dos vizinhos. Nada foi resolvido. A segunda etapa do trabalho, tão penosa e problemática quanto a primeira, começa agora, justamente no momento em que os horrores da catástrofe já não estão no centro das atenções do país.

Na teoria, boa parte do dinheiro dos governos federal, estadual e municipais já foi liberada. Na prática, nenhum centavo chegou ao bolso de um morador da região. Na teoria, todos estão bem alimentados com cestas básicas. Na prática, muitos não têm água para cozinhar o que ganharam. Na teoria, o cadastramento para o aluguel social está quase totalmente concluído. Na prática, não há casas para todos. Na teoria, um terreno foi desapropriado para a construção de 2.500 moradias. Na prática, um empreendimento dessa magnitude demorará no mínimo um ano para ser erguido. Na teoria, os mortos estão quase todos sepultados. Na prática, corpos são retirados diariamente do meio da lama e enviados a IMLs improvisados para serem submetidos a testes de DNA – única forma de identificá-los 30 dias depois da tragédia.

Só no domingo, 6 de fevereiro, 14 foram enterrados no cemitério de Teresópolis. Mais quatro nesta quarta-feira. Sepulturas abertas antecipadamente aguardam novos corpos e, como não há espaço para tantos jazigos perpétuos, quase duas centenas jazem em covas rasas identificadas com uma cruz e um número.

Covas continuam a ser abertas no cemitério de Teresópolis para receber as vítimas da chuva (Foto: Branca Nunes)

Embora as máquinas funcionem ininterruptamente – inclusive nos fins de semana – para remover lama e entulho, nos bairros da periferia, por causa da quantidade de barro, o chão ainda está dois metros acima do normal. O cheiro de podre é insuportável e as rochas que deslizaram morro abaixo deixaram para trás uma paisagem lunar, com pedregulhos e crateras no lugar das casas.

No centro de Teresópolis e Nova Friburgo, as marcas do horror estão nas nuvens de poeira levantadas pelo atrito dos pneus dos carros com a terra entranhada no asfalto e nas línguas avermelhadas desenhadas no meio do verde dos morros por causa dos desmoronamentos.

Os desabrigados e desalojados se espalham por casas de parentes ou abrigos. Só em Teresópolis são 9.110 desalojados e 6.727 desabrigados. Alguns teimam em permanecer em locais que ameaçam desabar a qualquer segundo.

Nesta quinta-feira, a contagem assinalava 892 mortos – 423 em Nova Friburgo, 372 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, quatro em São José do Vale do Rio Preto e um em Bom Jardim. Oficialemente há 279 desaparecidos, mas esse número provavelmente está abaixo da realidade. Como algumas famílias desapareceram completamente, não há ninguém para reclamar os corpos.

Na igreja de Nova Friburgo, as marcas da madrugada de 12 de janeiro (Foto: Branca Nunes)

Todos sabem onde e com quem estavam naquela noite. Todos têm uma história para contar. Todas são tristes. Todos perderam alguém. Alguns perderam todos. “A primeira etapa foi a da coleta e distribuição de água e alimentos”, diz Herculano Abrahão, presidente da Cruz Vermelha em Teresópolis. “Agora chegou o momento de garantir a saúde física e mental às pessoas”. Mais do que doenças como a leptospirose, o lado psicológico é o que mais preocupa Abrahão. “Já tivemos quatro suicídios desde a tragédia e eu não tenho dúvidas de que haverá mais.”

Os danos psicológicos são brutais. Abrahão e outros voluntários da Cruz Vermelha jamais escutaram tantas crianças falando em se matar. Os adultos sofrem de insônia e depressão. Precisam, antes de mais nada, de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

É óbvio que as carências materiais também são imensas. Não de comida e de roupas – isso há até em excesso. Remessas de gás de cozinha, no entanto, ainda são muito bem-vindas. Também faltam móveis e eletrodomésticos para equipar as casas que serão alugadas quando chegar o dinheiro do aluguel social.

E faltam sobretudo empregos. Os três alicerces da economia da região serrana – agricultura, pequenas confecções e turismo –foram levados com a enxurrada. As lavouras estão destruídas, as fábricas fechadas e os turistas fugiram com medo de uma improvável reprise da tragédia. Enquanto os alicerces não forem reerguidos, não haverá empregos. Enquanto não houver empregos, não haverá esperança.

Com pouco mais de 150 mil habitantes, a economia de Teresópolis entre 2002 e 2007 representou 17,2% do Produto Interno Bruto (PIB) de toda a Região Serrana. No mesmo período, enquanto o PIB per capita dos municípios da região cresceu em média 53,12%, o de Teresópolis teve um aumento de 48,19%. Embora inferior à média, o índice é considerado bastante expressivo. No fim de janeiro, Jorge Mário, prefeito de Teresópolis, fez uma previsão pouco animadora. Ele acredita que a cidade levará dois anos para se reconstruir e se recuperar economicamente.

Leia também: A vida depois da tragédia

Leia também: Heróis submersos no anonimato

07/02/2011

às 20:18 \ História em Imagens

O sistema elétrico vai acabar eletrocutado por um curto-circuito na cabeça de Lobão

Em novembro de 2009, o ministro Edison Lobão garantiu que o apagão que escureceu metade do país não merecia tirar o sono de ninguém. Enquanto consultava  anotações rabiscadas num papel, acionou a usina de maluquices. Num dos momentos mais assustadores, explicou que “descargas atmosféricas, ventos e chuvas muito fortes” se haviam conjugado para produzir “um curto-circuito que provocou três circuitos que levam a Itaberá”. Coisa de louco. Confira:

O segundo vídeo, ainda mais assustador, reúne os trechos mais delirantes do  pronunciamento de Edison Lobão sobre o apagão de sexta-feira. Entre outros espantos, o ministro explica o que é um relé da cartela, informa que o sistema elétrico brasileiro ganhou vida própria e hoje toma decisões irrevogáveis sem consultar os humanos. As duas apresentações do artista, somadas, avisam que o sistema elétrico brasileiro vai acabar eletrocutado por um curto-circuito na cabeça de Lobão.

22/01/2011

às 2:41 \ Sanatório Geral

Ministro do Cinismo

“Os governos passados não fizeram isso em 510 anos. Vamos fazer o mais rápido possível. Também no passado não havia o desequilíbrio no clima que ocorre hoje, com intensificação das chuvas”.

Aloizio Mercadante, Herói da Rendição, que passou os últimos quatro anos jurando que o mestre Lula fizera nos quatro anos anteriores o que os governos passados não fizeram em 500.

21/01/2011

às 19:25 \ Sanatório Geral

Madre ecológica

“O Brasil não tem tradição de lidar com grandes tragédias naturais. Talvez porque, como o Criador nos livrou de terremotos, vulcões, tornados, tufões e tsunamis, tenhamos criado uma cultura de não acreditar que elas possam ocorrer”.

José Sarney, vulgo Madre Superiora, na Folha desta sexta-feira, fingindo nem ter notado que, depois de resolver poupar o Brasil de tragédias naturais, Deus decidiu castigar o país em geral e o Maranhão em particular com as calamidades produzidas há meio século pela Famiglia Sarney.

20/01/2011

às 11:52 \ Feira Livre

700 mortos e 8 passaportes

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Demétrio Magnoli

Marco Aurélio Garcia qualificou como assunto “de uma irrelevância absoluta” a concessão de passaportes diplomáticos aos filhos e netos de Lula. Ele, certamente, considera relevante a tragédia que ceifou mais de 700 vidas e destruiu cidades inteiras na Região Serrana do Rio de Janeiro. Os dois eventos, cujos impactos sobre a vida nacional são incomparáveis, estão relacionados, ainda que indiretamente. Eles, além disso, têm igual relevância, pois procedem da mesma fonte: a delinquência atávica de uma elite política hostil ao interesse público.

A lei é cristalina ao listar os critérios que regulam a concessão de passaportes diplomáticos. O ex-ministro Celso Amorim violou a lei, a pedido de Lula, quando presenteou a prole estendida do ex-presidente com o privilégio reservado aos representantes do Estado. O gesto ilegal não é amenizado, mas agravado pelo recurso cínico à invocação do “interesse nacional”. O que o Ministério Público precisa para acusar o ex-ministro e o ex-presidente de abuso de autoridade?

Certos grupos ambientalistas propensos à mistificação culpam as mudanças climáticas globais pela catástrofe no Rio de Janeiro. Mas as precipitações torrenciais e os deslizamentos em encostas de morros fazem parte da dinâmica climática e geomorfológica normal das serras do Sudeste brasileiro. A intensidade das chuvas não é explicação suficiente das causas de uma das maiores tragédias humanas da história do País. Uma urbanização descontrolada, com ocupação extensiva de encostas de morros e várzeas inundáveis, moldou o cenário do desastre. Os mortos, as famílias devastadas, os desabrigados são o produto de décadas de escolhas políticas baseadas numa racionalidade avessa ao interesse público e, muitas vezes, às próprias leis. O que o Congresso Nacional precisa para instalar uma CPI dedicada à investigação do enredo completo da tragédia anunciada?

O patrimonialismo “é a vida privada incrustada na vida pública”, segundo a definição de Octavio Paz. Na sua trajetória rumo ao poder, o lulismo conectou-se com um anseio profundo da sociedade brasileira ao fazer a denúncia sistemática de uma elite política consagrada ao intercâmbio de privilégios oriundos do controle do aparelho de Estado. Lula tocou um nervo exposto com seus “300 picaretas do Congresso”, tirada irresponsável que se converteu em canção popular e sintetizou a bandeira de mudança com a qual alcançaria o Planalto. De lá para cá, ele e seu partido traíram noite e dia o compromisso original. A emissão dos passaportes diplomáticos equivale a uma abjuração escrita: o presidente que sai transforma a corrupção em virtude, zombando da “lei das gentes”.

Não há mais de 700 mortos no Rio de Janeiro porque Lula concedeu à sua descendência o privilégio ilegal, mas porque a elite política que hoje Lula personifica zomba da “lei das gentes”. Cada uma das áreas de risco ocupadas na Região Serrana fluminense tem a sua história singular. Alguns bairros surgiram por incúria das autoridades públicas. Outros se estabeleceram sob o amparo de acordos espúrios entre loteadores e políticos em cargos de mando. Prefeitos e vereadores formaram clientelas eleitorais estimulando a ocupação de vertentes e várzeas, ou apenas condescendendo com a violação das normas. A catástrofe foi tecida com os fios de uma política que combina populismo, patrimonialismo e clientelismo. Na Austrália, inundações muito mais amplas deixaram um saldo de mortes que se conta na casa de poucas dezenas, não de várias centenas.

Lula e os seus não se limitaram a absorver os usos e costumes da elite política estabelecida, mas foram bem mais longe, produzindo uma espécie de elogio público do patrimonialismo. O ex-presidente proclamou a inimputabilidade de José Sarney (o “homem incomum”), mudou a lei para beneficiar a empresa financiadora do negócio de seu filho e, na hora da despedida, comportou-se como um potentado, oferecendo passaportes diplomáticos aos familiares com a desenvoltura de um pai que distribui ovos de Páscoa. Como exigir de autoridades estaduais e municipais o respeito à lei, a adesão à norma, quando a República se transfigura na fazenda dos Lula da Silva?

“Sempre tem a hora de fazer avaliação. Tem que se fazer uma autocrítica, por que se permitiu fazer tudo isso. Mas agora é resgatar corpos e ajudar famílias desabrigadas. Não vamos perder tempo nesse momento.” O governador Sérgio Cabral não é mais responsável pela tragédia que seus predecessores ou que os prefeitos, vereadores e lideranças locais da Região Serrana do Rio de Janeiro. Contudo, ao fabricar uma acusação preventiva contra os críticos, ameaçando crismá-los como inimigos da ajuda às vítimas, revela-se mais inteligente ─ e muito mais nocivo ao interesse público. A sua operação de linguagem tem o objetivo de suspender o debate político enquanto perdurar a emergência humanitária. É a receita certa para proteger a elite política que parasita a sociedade.

Uma tristeza avassaladora começou a se espalhar pelo Brasil inteiro com as primeiras imagens da tragédia. A memória dos mais de 700 mortos merece um monumento que não seja feito de pedra nem se preste à demagogia das inaugurações políticas. O monumento só pode ser um programa plurianual ambicioso de reconstrução das cidades devastadas e remodelação estrutural dos padrões de ocupação do solo na Região Serrana fluminense e em inúmeras outras cidades e corredores urbanos do País. Os recursos para tanto existem, mas serão queimados na pira ardente das obras colossais da Copa do Mundo e da Olimpíada.

As chuvas de janeiro provocaram um trauma nacional duradouro. O verão não terminou. As águas da destruição ainda podem apagar o fogo do desperdício sem freios e das negociatas fabulosas promovidas em nome do orgulho nacional. É a única homenagem verdadeira que os vivos podem prestar aos mortos.

13/01/2011

às 17:26 \ Feira Livre

A tragédia se repete

Rio de Janeiro, até 13 de janeiro de 2011 (18h04): 400 mortos

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Reprodução da TV Globo/Ag. Globo

São Paulo, até 13 de janeiro de 2011 (18h04): 23 mortos

Foto: Leonardo Soares/AE

Foto: Nelson Antoine/AP

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Foto: Almeida Rocha/Folhapress

Confira outras fotos nas galerias de Veja: São Paulo e Rio de Janeiro


 

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