Blogs e Colunistas

Celso Arnaldo Araújo

29/04/2013

às 21:13 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: Cada frase de Dilma Rousseff no discurso em Campo Grande mereceria uma vaia do Brasil que pensa

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Pouco antes do ataque em dilmês-desabafo, disparado por sua bateria antivaias, Dilma Rousseff teve outro rompante, dirigido a um sujeito na plateia que, de repente, se transmutou numa senhorinha que simplesmente repetia seu nome:

“Eu vou voltar ao meu início. Tem um companheiro ali que gosta de falar o meu nome, vocês notaram? Oi. Você fala Dilma, eu falo oi para você. É uma senhora, por sinal. Outro. Agora parou, gente, peralá, deixa eu falar o fim. Tá”.

Por sorte, parou. Porque seria um interminável diálogo de loucos e moucos:

– Dilma

– Oi

– Dilma

– Oi

Peralá: o fato é que madame está muito mal acostumada — há três anos diz as maiores barbaridades, na forma e no conteúdo, um escandaloso tratado de mentiras insinceras que não interessam, e ouve “Dilmá, Dilmá, Dilmá” da plateia amestrada. Quando alguém, de outro tipo de plateia, diz seu nome sem o afetuoso acento agudo na última sílaba, a coisa fica grave.

Aliás, esse discurso de Campo Grande já nasce histórico, não só pelas primícias das vaias como por ter sido, até o momento, a mais longa manifestação em dilmês já registrada: 49min36s.

O Portal acaba de colocar no ar sua espantosa transcrição literal — e, como de costume, cada frase mereceria uma vaia do Brasil que pensa, a começar da primeira:

“Eu saúdo todos os estudantes, todas as crianças do nosso país que têm e que carregam consigo o nosso futuro”.

Nesse discurso, a cabeça aérea que prometera 800 aeroportos agora voa ainda mais alto para o território do nunca, a bordo de aeronaves que rasgarão essas pistas-fantasmas:

“Vamos subsidiar assentos nos aviões, para que eles se tornem competitivos, ou seja, nós pagamos a diferença entre a passagem de ônibus e o preço médio da passagem de aviação, para aviões regionais nós vamos bancar”.

E só faltava essa: Dilma Rousseff, tentando fazer embaixadinhas com a Copa do Mundo, ainda teve a audácia de citar Nelson Rodrigues, em dilmês. Foi exatamente assim, segundo o Portal do Planalto:

“E ele dizia uma coisa, e eu queria dizer isso para vocês. Ele dizia que se uma equipe entra… eu não vou citar literalmente, não, mas se uma equipe entra para jogar com o nome Brasil, se ela entra para jogar com o fundo musical do Hino Nacional, então ela é a pátria de chuteiras”.

Dilma faz Nelson Rodrigues soar muito pior que José Sarney em seus piores momentos. Justo Nelson Rodrigues, o genial escritor que colocou a vaia em seu devido lugar. Se Dilma soubesse ler, e lesse Nelson Rodrigues sem citá-lo de orelhada como se fosse uma pessoa ainda na fase da pré-aquisição da linguagem, ela talvez entendesse as vaias que recebeu em Campo Grande e com elas se consolasse, sem rodar a havaiana.

Além de decretar que a vaia é o aplauso dos descontentes, escreveu Nelson:

“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem”.

Leia-se: o lulopetismo corrompe.

25/04/2013

às 22:51 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: o que há por trás do acerto entre Lula e o mais importante dos jornais

CELSO ARNALDO ARAÚJO

A notícia que está levando os petralhas ao orgasmo ininterrupto, em gozo com a cara do Brasil que pensa, pode ser analisada, sim, sob a óptica do que um cronista carioca amigo chamava de “o perigoso terreno da galhofa”. Pois o que lemos é que Lula vai escrever ─ note-se: escrever, não apenas assinar ─ um artigo periódico no (ainda) maior e mais importante jornal diário do mundo. E essa informação equivale a se noticiar que Stevie Wonder ─ perdoem os adoradores do politicamente correto ─ vai presidir o júri do concurso Miss Universo 2013, sem tocar nas candidatas. Ou que eu, abstêmio de nascença que não sabe distinguir um Martini de uma azeitona, serei um dos provadores de uma histórica degustação vertical do Château Margaux, a partir da safra de 1855, mês que vem, em Paris.

Que Lula vá escrever uma coluna para o New York Times, ou mesmo um recado a Rosemary num pedaço amassado de papel de embrulho, é um absurdo até para si próprio ─ afinal, ele sempre apregoou sua falta de educação formal e fez o elogio de sua incultura. A definição de “analfabetismo funcional” num dicionário ilustrado poderia trazer a foto de Lula ─ que sabe ler e escrever, mas nunca lê ou escreve.

E aqui convém interromper por um momento o fluxo de sarcasmo para dizer que o NY Times espera receber de Lula, como esperaria de qualquer outro eventual articulista brasileiro do jornal, um texto em português ─ para posterior versão em inglês dentro da casa. Nem FHC domina o inglês a ponto de escrever sem retoques uma coluna com o padrão de exigência linguística do Times. Imaginar Lula escrevendo em inglês, quando não conhece os rudimentos de sua própria língua, é puro nonsense.

Dito isto, deixemos de lado as piadas fáceis sobre a dramática impossibilidade de Lula escrever uma coluna para o The New York Times ou para a Gazeta de Santo Amaro. O buraco, nessa notícia aparentemente absurda, deve ser procurado mais em cima.

Qual seria o real interesse do The New York Times num artigo assinado por ex-presidente brasileiro que não é, nem nunca quis ser, conhecido por seus dotes intelectuais? E que será escrito por terceiros ou segundos, provavelmente Luiz Dulci, diretor do Instituto Lula e companheiro letrado de todas as horas?

Qual seria o verdadeiro interesse de um superjornal, que até em seu célebre obituário tem redatores com potencial para ganhar o Prêmio Pulitzer, por pensatas “escritas” por um ex-presidente sul-americano que o mundo tem na conta de um homem sem qualquer instrução?

Como nem os Estados Unidos nem o NY Times dão ponto sem nó, praticando com desenvoltura a política do “take there, give me here”, desconfio, apenas desconfio, que a moeda de troca dessa estranha coluna lulista seja o site em português, para brasileiros e falantes lusófonos, que o NY Times pretende instalar em 2013, provavelmente no Rio de Janeiro, sede da final da Copa e dos Jogos Olímpicos, como parte de sua estratégia de recuperação de mercado, agora globalizado. A equipe de jornalistas brasileiros está sendo recrutada neste momento. Os países emergentes, notadamente China e Brasil, nos quais há perspectiva de grandes negócios para empresas americanas, potenciais anunciantes do jornalão, são os alvos da vez. O jornal norte-americano já tem um site em chinês, em Beijing.

O NY Times em português, no Brasil, para brasileiros? Pode? Bem, a legislação brasileira relativa à mídia em tese veta empresas estrangeiras produzindo material em português para nosso mercado interno. Mas sempre se pode dar um jeitinho. Nada é impossível para Superlula, hoje o mais influente e mais caro lobista brasileiro, dentro de um governo que é sua cara escarrada.

E o que ele tem a ganhar com uma coluna no NY Times? O que qualquer um de nós ganharia: mais prestígio internacional. Para um palestrante de 200 mil dólares a hora, isso equivale a upgrade de cachê, a aumento do poder de influência. O NY Times é uma supergrife do mundo capitalista. E Lula levou a sério a oferta do jornal – na assinatura do contrato, em Manhattan, tinha como assessores jurídicos profissionais de uma superbanca do Brasil.

Falta saber se Lula será pautado pelos editores do jornal ou “escreverá” sobre temas de sua escolha. Nesse caso, é claro que Lula e o Brasil Maravilha que ele descobriu em 2002 serão sempre o assunto central de seus textos. Por certo, ele também dará conselhos de estadista e cientista político instintivo a governantes de países em crise.

Com tudo isso, o convite a Lula para ser colunista do mais influente jornal do mundo ainda é muito menos chocante que seria Dilma como professora convidada em Harvard.

24/04/2013

às 8:07 \ Direto ao Ponto

Caxirola: a vuvuzela da Copa de 2014 chacoalha Dilma Rousseff

CELSO ARNALDO ARAÚJO

O Portal do Planalto, fornecedor oficial da coluna, anunciou agora à tarde, sem aviso prévio na agenda presidencial do dia, um novo e promissor item: “Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura da Exposição O olhar que ouve, de Carlinhos Brown – Brasília/DF”.

Olhar que ouve, Dilma Rousseff, Carlinhos Brown? Manchete que naturalmente convida a uma excursão aos domínios do dilmês oficial, o dilmês de palácio. É no Palácio do Planalto, glória da arquitetura brasileira, que Carlinhos Brown expõe a partir de hoje sua mostra de pinturas intitulada “O olhar que ouve”. Niemeyer se fez de morto para não saber disso. O tal “olhar ouvinte”, se pudesse, se faria de surdo, porque lá vem Dilmalada:

“Eu queria começar comprimentando o Carlinhos Brown. E eu estava dizendo para ele que as pessoas que têm talento, como ele tem, acham normal ter talento. E acham normal inventar a caxirola”.

Caxirola? Sim, ela decorou bem o neologismo trava-língua criado por Carlinhos Brown, que acaba de superar fuleco ─ e isso parecia simplesmente impossível ─ como a pior palavra já criada pela espécie humana desde o advento da fala. É isso mesmo: caxirola. Mas, voltando ao início do discurso da Dilma, há algo a ser dito: o mundo tem 7 bilhões de habitantes. É provável que 6.999.999.000 não achem normal inventar alguma coisa que não tenham a menor ideia do que seja, como a caxirola.

Aliás, o que vem a ser a caxirola? Vindo de Carlinhos Brown, poderia muito bem ser uma combinação de caixa com caçarola. Mas quem leu o título deste post, e verá o vídeo em seguida, já sabe: Carlinhos criou a caxirola para ser, nos estádios da Copa de 2014, sobretudo quando o Brasil estiver em campo, o que foi a vuvuzela na Copa da África do Sul. Tão ensurdecedor e exasperante como? Em tese, menos. Aquela era instrumento de sopro, terrível para os tímpanos, mesmo pela TV. Esta, de percussão bem discreta, pelo menos quando sozinha. Mas a impressão de Dilma sobre a caxirola é entusiástica:

“Nós, a mim me provoca, na minha ausência de talento musical, provoca uma surpresa que eu acho que todos aqui compartilham. A surpresa diante de uma coisa tão bonita, tão simples, tão sintética e tão representativa do Brasil”.

Ok, Dilma, confessadamente, surpreendendo a todos, tem “ausência” de talento musical ─ a par de suas múltiplas ausências de talento. Mas, embora tão simples para ela, a caxirola pareceu-lhe realmente mágica: Carlinhos Brown criou um surpreendente instrumento, representação da alma musical brasileira — inclusive nas cores, tão inusitadas para uma Copa do Mundo no Brasil: verde e amarelo.

Mas espere: Carlinhos, no vídeo, começa a sacudir a caxirola, Dilma e Marta ensaiam agitar desajeitadamente a caxirola, e…surpresa de verdade: ela soa como um chocalho. Talvez porque seja um chocalho. Um prosaico chocalho em forma de sino. Carlinhos Brown reinventou o chocalho. Um chocalho com status ─ vai chacoalhar a Copa no Brasil. Imagine 100 mil caxirolas, em uníssono, nas arquibancadas: a vuvuzela soava como uma serenata de Mozart.

Mas espere de novo: no texto do Planalto que acompanha a notícia da cerimônia, o redator descreve a pretensa vuvuzela da Copa de 2014 como “um tipo de chocalho inspirado no caxixi”. Caxixi? Segundo o Wikipedia, “um pequeno cesto de palha trançada, em forma de campânula, contendo pedaços de acrílico ou sementes, para fazê-lo soar. No Brasil, é usado principalmente como complemento do berimbau”.

Agora ligou o nome à figura? Você já viu um tocador de berimbau segurar esse instrumento com a mesma mão que empunha a vareta, de modo que cada pancada da vareta sobre a corda seja acompanhada pelo som seco e vegetal do caxixi? Já? Então você já viu e ouviu a caxirola bem antes da Copa: sim, era o caxixi. Carlinhos Brown não apenas reinventou o chocalho como copiou o caxixi. E, num laivo de criatividade, pintou-o de verde e amarelo, rebatizando-o de caxirola — já marcando um golaço na estreia oficial, no Palácio do Planalto: ver Marta Suplicy sacudindo sem graça duas caxirolas e cantando o Hino Nacional enquanto Carlinhos Brown “caxirola” a bandeira brasileira, não tem preço. Veja o vídeo.

Mas Dilma parece nunca ter ouvido um caxixi ou nem mesmo um chocalho antes. Continua tão impressionada com o novo símbolo sonoro da Copa que não acreditou em Carlinhos quando ele lhe disse, antes da cerimônia, que era normal fazer uma caxirola. Normalíssimo: era só fazer um chocalho em forma de caxixi.

“O Carlinhos é um autor e um grande artista. E ele expressa um mundo diverso, mas muito específico, do Brasil, e especialmente da Bahia. A pluralidade, o fato de que esse mundo tem milhões de aspectos. E agora o Carlinhos nessa sua quase ingênua aceitação de que ´ah, não, é muito fácil fazer uma caxirola´, nos encanta porque ele combina aí a imagem, essa imagem lá, verde e amarela da caxirola, esse fato que nós estamos falando de um plástico verde, de um país que tem a liderança da sustentabilidade no mundo e ao mesmo tempo é um objeto capaz de fazer duas coisas: de combinar a imagem com som e nos levar a gols”.

Já posso ouvir José Silvério gritando na final da Copa, no Maracanã: “Caxirola chacoalha as redes da Espanha!”.

Poucas coisas, além do Edison Lobão do Diário da Dilma, mexeram tanto com ela como a caxirola:

“Eu tenho certeza que principalmente as crianças desse país vão ter uma experiência muito fantástica com a caxirola. O Carlinhos não disse, mas ele me falou que a caxirola também tem um sentido transcendental de cura, de enfim, de paz com o mundo, de estar, de fato em sintonia com a natureza e com todos os orixás”.

Imagino babás chacoalhando a caxirola diante de crianças indóceis. Também imagino médicos do Sírio-Libanês vibrando a caxirola diante dos leitos dos seus doentes. E pais de santo jogando minicaxirolas em vez de búzios. A coisa realmente chacoalhou Dilma:

“Eu acredito que a caxirola faz parte não só do futebol, mas da imensa capacidade do nosso país de fazer um instrumento muito mais bonito que a vuvuzela”.

Neste exato momento, faltam 414 dias, 2 horas, 11 minutos e 13 segundos para começar a Copa de fuleco, caxirola e Dilma Rousseff.

22/04/2013

às 19:57 \ Direto ao Ponto

A coluna festeja o 4° aniversário fiel aos princípios que prometeu honrar

Neste 20 de abril, a reportagem de capa de VEJA comprovou que, como tem reiterado a coluna desde o desbaratamento da quadrilha investigada pela Operação Porto Seguro, o silêncio de Lula sobre o caso Rose é sobretudo uma estridente confissão de culpa. O ex-presidente emudeceu por falta de álibi. Diferentemente do que ocorreu nas bandalheiras anteriores, o chefe não pôde terceirizar o escândalo que protagonizou ao lado de Rosemary Noronha.

Foi ele quem instalou a segunda-dama na chefia do escritório da Presidência reduzido a sucursal de uma quadrilha (e ordenou à sucessora que a mantivesse no cargo). Foi ele quem presenteou a delinquente de cama e mesa com a nomeação de comparsas para a direção de agências reguladoras. Achou que a história acabaria esquecida pelo grande viveiro de amnésicos. Desta vez não vai conseguir, adverte a coluna há 150 dias. O truque não funcionou, confirma a reportagem de VEJA.

Neste 21 de abril, o Estadão rendeu-se num editorial à constatação aqui repetida há mais de três anos: a presidente da República fala dilmês, um estranhíssimo dialeto indecifrável para gente normal. É feito de frases sem pé nem cabeça, platitudes de jardim de infância, sujeitos divorciados de predicados, colisões frontais entre substantivos e adjetivos, pausas bêbadas, infinitivos amputados e outros espantos que, conjugados, denunciam aos berros o sumiço do raciocínio lógico e a erradicação de vida inteligente.

Desde 2009, graças a dezenas de textos sempre primorosos de Celso Arnaldo Araújo, posts do colunista, declarações que transformaram a autora na recordista de internações no Sanatório Geral e observações do timaço de comentaristas, quem frequenta este blog contempla o interminável cortejo de assombros proferidos em dilmês castiço, erudito, vulgar, arcaico, rústico ou primitivo. Só agora os leitores do Estadão foram confrontados com a evidência de que  Dilma Rousseff não diz coisa com coisa. Até que enfim. Os editores do jornal, de hoje em diante, estão proibidos de esconder a indigência mental da presidente com traduções para o português.

A reportagem de VEJA foi publicada na antevéspera e o editorial na véspera do aniversário da coluna ─ que, graças a vocês, completou quatro anos de vida nesta segunda-feira. Somados, os textos reafirmam que fraudes não duram muito tempo seos  jornalistas independentes cumprirem o dever de desmascará-las. E demonstram que nada tem de quixotesca a fidelidade da página nascida em 22 de abril de 2009 aos princípios resumidos no canto superior direito: apressar a chegada do futuro e lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido

Entre tantos absurdos paridos pela Era da Mediocridade, não podem ser esquecidos escândalos como o que envolve o ex-presidente. E não têm direito a sonhar com um futuro sem sombras nações incapazes de enxergar a nudez da rainha. O cérebro não é dividido em compartimentos estanques. Quem não sabe montar uma frase com começo, meio e fim jamais saberá levar um  país ao porto seguro. O Brasil Maravilha celebrado por Lula é tão real quanto a supergerente que tenta camuflar um poste.

É hora de acabar com tapeações. É hora de recuperar a sensatez perdida em algum lugar do passado.

19/04/2013

às 19:55 \ Direto ao Ponto

A presidente diz em dilmês o que acha da recontagem de votos na Venezuela: ‘Esta questão de tomar nota positiva sobre a decisão do Conselho Nacional Eleitoral’

Ao desembarcar em Caracas para a festa de posse do companheiro Nicolás Maduro, Dilma Rousseff concedeu o que o Portal do Planalto jura ter sido uma “entrevista coletiva”. Segue-se a transcrição do texto divulgado pela Presidência da República, com todas as duas perguntas e todas as duas respostas:

Jornalista: Como foi a reunião da Unasul, presidenta?

Presidenta: Todos os presidentes compareceram, com exceção do presidente do Equador que estava em visita à Europa e enviou o seu vice-presidente, e o do Suriname. Nessa reunião foi tirada uma nota conjunta de todos os países da Unasul e é melhor que a nota, vocês reproduzam tal como ela é. E é uma nota que reitera o compromisso da Unasul com os processos democráticos ao mesmo tempo que determina um posicionamento da Unasul como sendo de apoio para a estabilidade, apoio à paz e apoio a todos os processos que constituam legalmente os processos de sustentação democrática. Define uma tomada de nota positiva em relação às decisões do Conselho Nacional Eleitoral e repudia as violências, as mortes, os feridos, e também acrescenta no final um posicionamento no sentido de que haverá uma comissão para acompanhar… da Unasul para acompanhar as investigações sobre direitos humanos.

Jornalista: E em relação à recontagem que foi aprovada, presidente, o que a senhora acha?

Presidenta: Esta questão de tomar nota positiva sobre a decisão do Conselho Nacional Eleitoral.

Comentário do nosso Celso Arnaldo Araújo: “O  Portal do Planalto anuncia uma “entrevista coletiva” da Dilma na Venezuela. Tecnicamente, como sabemos, uma “coletiva” não apenas pressupõe a presença de uma massa crítica de repórteres inquiridores como múltiplas perguntas e respostas, ou seja, também um coletivo de questões. Dilma, porém, subverte a praxe. Só duas perguntas – e uma resposta e meia. Esta, uma obra-prima do dilmês sorumbático. Aquela, o habitual amontoado de impropriedades de raciocínio. Falando muito, falando pouco, ela é um desastre nacional e internacional”.

09/04/2013

às 15:36 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: ‘Feliciano está se lixando para o que Lennon disse e não liga a mínima para o escracho dos Mamonas. Ele só pensa em tornar seu negócio ainda mais lucrativo’

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Marco Feliciano tem hoje dois púlpitos: a igreja e a Câmara dos Deputados. Em ambas, é um pastiche de personagem de Nelson Rodrigues: trata-se de um cretino fundamentalista. Mas Infeliciano é suficientemente esperto para, em termos de doutrina, não acreditar nessa baboseira de que Deus empunhou o revólver que fuzilou John Lennon e o manche do avião que derrubou os Mamonas.

É que o modelo de negócios usado por ele e outros pastores evangélicos que fizeram e fazem grandes fortunas em templos eletrônicos é vender o produto “Deus” como um doublé de controller infalível e vingador implacável. No primeiro formato, com um enorme livro-caixa em punho, o sublime criador-criatura dos Felicianos da vida anota, na casa dos centavos, os pagamentos de cada fiel, dia a dia, semana a semana, mês a mês, para recompensá-los, sempre proporcionalmente ao volume e frequência das doações, com empregos dos sonhos, carrões, mansões, redes de lojas e cura para doenças incuráveis. A tungada recebe roupagens afetuosas: “campanha de fé”, “posse da bênção”, etc. E a forma de pagamento é enquadrada nos conformes terrenos: a imbecis que doam seu cartão de débito, ele exige a senha, em nome de Deus – o seu deus sabe e vê tudo sobre tudo e todos, menos uma prosaica senha de quatro dígitos.

Para os hereges inadimplentes ou insuficientes, mesmo que seja por absoluta impossibilidade, e independentemente de fé verdadeira, surge então o vingador cruel ─ garantindo a continuidade do fracasso, da doença e da dor, crianças da família incluídas. O deus de Infeliciano discrimina entre devotos pagantes e não pagantes – à sua imagem e semelhança, e não vice-versa.

Mas o deus miliciano de Infeliciano também arma os Mark Chapman do coração de Manhattan para fazerem justiça “divina” por meio do assassinato de um pacifista e gênio musical que nunca fez mal a uma mosca; e da morte súbita e precoce, num jatinho espatifado na periferia de Guarulhos, de uma banda de jovens que só queriam divertir as pessoas com suas sátiras bobinhas e inofensivas. No processo de vendetta, pune famílias inteiras e a própria humanidade – que com Lennon era muito melhor do que com Infeliciano. Uma curiosidade: qual dos passageiros, a bordo do avião da TAM que caiu ao lado de Congonhas, era o alvo da fúria cega do deus de Infeliciano?

Na verdade, Feliciano está se lixando para o que Lennon disse sobre a popularidade dos Beatles versus a de Cristo. Também não liga a mínima para o suposto escracho dos Mamonas sobre qualquer coisa que evoque os preceitos bíblicos. Apregoando essas baboseiras em sua igreja, seu único interesse, como o pastor que continua sendo, é reforçar a imagem desse deus diabólico, que pune severamente os incréus – para aumentar a eficiência arrecadatória do controlador do livro-caixa celestial. E é bom lembrar que o parlamentar é uma extensão daquele – seu nome oficial de batismo nas urnas é deputado Pastor Marcos Feliciano.

Ambos, por qualquer ângulo, por qualquer crença ou descrença, são cretinos fundamentais e fundamentalistas – o pastor só não enxovalha a Câmara com sua presença como deputado porque ali dentro nada mais há a enxovalhar.

Por fim: o falso pastor religioso que justifica assassinatos e desastres aéreos em nome de Deus e o parlamentar de cabelo esticado que prega racismo e homofobia não merecem uma única palavra em defesa de sua honestidade de propósitos e de seus direitos democráticos. Vá ser humano honesto primeiro.

04/04/2013

às 22:16 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: As falas em dilmês são mais que um escândalo. São prova literal da grande farsa política de nosso tempo

Exatamente às 22h41 de 3 de junho de 2009, menos de três meses depois da inauguração do Sanatório Geral, Dilma Rousseff foi internada pela primeira vez na instituição da qual se tornaria a mais ilustre e assídua freguesa. A frase de estreia inspirou-se em outra leva de  patifarias, denunciadas por senadores do DEM, protagonizadas por José Sarney. Convidada a comentar as denúncias, a então ministra-chefe da Casa Civil tentou explicar que aquilo era mais uma invencionice da oposição. Só conseguiu balbuciar o seguinte:

─ Então, eu acho que tem um modelo no Brasil que dá pizza, que é esconder a questão debaixo do tapete.

Em 15 de outubro de 2009, o post republicado na  seção Vale Reprise marcou a estreia no Direto ao Ponto da coletânea de posts dedicados exclusivamente ao besteirol produzido em escala industrial pelo neurônio solitário. A coisa está feia, constatou o país que pensa. O texto de Celso Arnaldo reafirma que, no Brasil, o que está ruim demais sempre pode piorar. (AN)

O POLONÊS E O DILMÊS

Celso Arnaldo Araújo

O paciente claudicante, um imigrante polonês, vai fazer exame de vista e o oftalmologista projeta na parede a primeira sequência de letras para o teste de acuidade visual:

C J W K J Y Z K

O médico pergunta:

– O sr. consegue ler isso?

─ Claro, esse é muito meu amigo.

Quem frequenta esta coluna com alguma assiduidade já se habilitou a bater o olho em qualquer frase de Dilma com a sintaxe original e afirmar, sem pestanejar, mesmo omitida a indicação de autoria: isso é Dilma.

O índice de identificação será de 100%, mesmo se a frase em dilmês estiver misturada a outras mil, de autores diversos. O dilmês, ao contrário dos exóticos Quimbumbo, Yoruba, Palaúngico, Miáquico e Mundurucu, é idioma que não pertence a nenhum tronco linguístico e é desprovido de canais comunicantes ─ já que falado por um único usuário, Dilma Rousseff. Por isso, é inconfundível. E é trágico.

As falas oficiais de Dilma, transcritas do dilmês sem nenhuma revisão e cerimônia pela própria Secretaria de Comunicação Social da Presidência no Portal do Planalto, só ganham senso e sentido lidas por alguém com o espírito do simplório polonês do teste de optometria. Para um brasileiro que ouve, lê direito e pensa, essa exposição sem pejo do despreparo de Dilma é mais do que um escândalo – é prova literal da grande farsa política de nosso tempo.

A presidente do Brasil – e sobre isso não existe a mais remota dúvida — é incapaz de formular um raciocínio minimamente inteligente sobre qualquer assunto que venha a abordar, num palanque ou entrevista, e é especialmente desastrosa ao reproduzir ideias de outrem, piorando muito o raciocínio até de um matuto.

É o caso da estranha definição de futuro que teria sido dada pelo suposto cangaceiro citado por Dilma dia 2 de abril, num discurso em Fortaleza sobre a seca no nordeste. Não se conhece o teor original da sábia fala do cangaceiro que inspirou Dilma — graças ao Portal do Planalto, conhece-se apenas a versão em dilmês, divulgada ao vivo pela porta-voz dos raciocínios mais desconexos já formulados por um ente público neste país:

“O futuro está em cima, em cima no sentido de que o futuro é sempre uma exigência maior que a gente se faz a nós mesmos”.

Se tivesse dito isso, exatamente assim, é provável que o poético tabaréu, arremedo de Riobaldo, recebesse severa punição dos chefes, por introduzir mais enigmas, completamente indecifráveis, no árido mistério da vida por aquelas bandas do sertão. Esse “a gente se faz a nós mesmos” foi forte, muito forte. Dilma é dose.

Mas pálidas tentativas de mostrar à opinião pública a extensão da farsa ainda esbarram na “Síndrome do exame de vista do polonês”, que aparentemente acomete os 80% de brasileiros que, segundo o IBOPE, acham Dilma um colosso.

Hoje, em seu blog n´O Globo, Ricardo Noblat reproduz, sem nenhum adendo pessoal, um dos sanatórios internados há pouco nesta coluna – extraído de outro discurso de Dilma no Ceará, no mesmo dia do anterior. O pensamento fala por si. O dilmês não é uma via de pensamento, mas um fim em si mesmo, um laudo definitivo:

“Eu queria dizer para vocês, nesta noite, aqui no Ceará, em Fortaleza e nessa escola, o compromisso forte, o compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo. Porque é que o compromisso com a educação tem que ser o maior compromisso de um governo”.

Dos 300 comentários até este momento publicados no blog do Noblat sobre mais esse espanto do dilmês, pelo menos 60% não notaram nada de errado na redundância rudimentar da pensata de Dilma — própria de quem vive “defendendo” a educação como um cacoete de político, jamais com o menor conhecimento de causa. Seus seis “compromissos” num raciocínio oco de três linhas equivalem, na prática, a nenhum. E a repetição não pode ser confundida com recurso retórico – apenas com absoluta falta de recurso analítico. Dilma provavelmente não saberia ordenar, sem hesitação, os diferentes níveis de ensino do organograma da educação brasileira.

Mas a redundância tacanha não perturbou mais do que um punhado de comentaristas. Muitos outros, mesmo não gostando de Dilma, preferiram questionar o compromisso da presidente com a educação – não os seis compromissos. Estes passaram despercebidos. O dilmês parece já ter se amalgamado, numa versão linguística do roteiro do clássico “Vampiros de Almas”, ao nosso substrato instintivo da psique – aquilo que Freud e redatores de palavras cruzadas com duas letras chamam de Id.

Já um petralha subiu nas sandálias de dedo na seção de comentários do blog do Noblat:

“Não entendi. Qual é a aberração da oração?

É a repetissão (sic) da palavra compromisso?”

Está explicada a síndrome do velho polonês que só enxerga amizade e pureza numa sequência desconexa de letras à sua frente?

23/03/2013

às 14:38 \ Direto ao Ponto

O QUARTO SEGREDO DE DILMA

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Três anos de dilmês intensivo – em carga horária que me credenciaria a um pós-doutorado no estudo desse dialeto – e ainda estremeço ao ouvir Dilma. A reprodução que ela fez do diálogo privativo com o Papa Francisco, na coletiva depois do encontro, beira a insanidade narrativa — como o Augusto demonstrou magistralmente em post anterior. Não importa o que ele efetivamente disse a ela — certamente num português mais escorreito que o da presidente do Brasil — ou o que ela tentou dizer a ele, em dilmunhol. O grande problema é o que ela disse que ele teria dito. Não bastando dizer o que diz, Dilma ainda põe palavras suas nos lábios dos outros – e justo do papa!

Ao transcrever a conversa — que heresia — Dilma fez o novo papa falar dilmês: “Ele estava me dizeno que ele espera uma presença grande dos jovens na medida em que ele é o primeiro papa, ele é várias coisas primeiro”.

Em dilmês é assim: a conversa já tinha acabado, Dilma dava entrevista à imprensa, mas o papa ainda estava dizendo alguma coisa lá dentro. Deve ter ficado falando sozinho. E, segundo Dilma, além de sua beatitude natural, o papa tem também uma imensa platitude – a ponto de afirmar que espera grande presença de jovens numa jornada mundial de jovens. Francisco, que é “várias coisas primeiro”, é também o primeiro papa a se tornar ventríloquo de Dilma Rousseff.

Se o papa falasse como Dilma o transcreve, Jorge Mario Bergoglio não seria sacristão da capelinha da Villa 31, o bairro mais pobre de Buenos Aires. Ela empobrece e vulgariza tudo o que passa por sua fala – dos sentimentos mais nobres a uma receita de omelete. Dilma, que se diz economista e só não é doutora porque descobriram que não era, é a única usuária desse estranho patois que é o dilmês – expressão verbal que parece não ter passado por um processo completo de aquisição da linguagem. Imagine qualquer brasileiro presente na Praça de São Pedro no dia da entronização descrevendo uma hipotética conversa com o papa — nenhum diria as coisas que Dilma disse, como disse.

Assista ao vídeo de novo: a senhora que fala baixinho, dizendo em voz beatífica as maiores bobagens para soar como uma chefe de governo sintonizada espiritualmente com o pontificado de Francisco, parece uma estadista? Só se for pela pompa e pela circunstância de sua comitiva pagã – donos de agências de turismo calculam em 500 mil dólares, no mínimo, fora a parte aérea, os gastos com o beija-mão papal em Roma. Dilma não mediu custos. Foram 52 suítes no The Westin Excelsior e não se fala mais nisso. É aquela história – país rico é pais sem pobreza.

Mas não foi, em absoluto, uma viagem perdida. Na conversa com o papa, a presidente teve uma visão extraordinária, dela extraindo os Três Segredos de Dilma, a saber:
1. O papa é muito normal
2. O papa é muito modesto
3. O papa é muito importante para o momento em que vivemos

Este terceiro segredo de Dilma, como o terceiro de Fátima, ainda tem uma aura de mistério: queria ela referir-se, como mandaria a lógica, ao “momento que vivemos”, indicando uma quadra específica da vida humana na Terra; ou, como de fato disse, ao “momento em que vivemos”, o qual situa os sete bilhões de seres viventes da Terra em torno da descoberta de que estamos todos vivos, e ao mesmo tempo?

Mas há um quarto segredo, esse ainda insondável – quando for enfim revelado, virá à tona, em seus bastidores espantosos, o maior escândalo da história da República. Sempre que abre a boca, não importa o assunto, Dilma Rousseff passa a impressão de ser alguém que chegou à Presidência por um terrível engano. Os auxiliares mais próximos descobriram isso faz tempo. Não são burros — longe disso. Quando constataram o erro de pessoa, no dia mesmo em que Dilma começou a falar, ainda na pré-campanha (“Pra mim sê pré”), temeram pelo pior, temeram pelo fim do lulopetismo e das lulomamatas, com a derrota nas urnas. Mas, como nada se contrapunha ao notório engano, nem da parte da oposição nem por iniciativa da mídia, a turma relaxou e a farsa acabou vingando.

A presidente revelou-se logo tão ou mais desastrosa que a candidata, mas, de novo sem contestação, as forças que colocaram Dilma na Presidência assumiram Dilma como ela é. Atualmente, o Portal do Planalto transcreve suas falas na íntegra, sem pentear um anacoluto ou disfarçar uma verruga sintática. São peças históricas – pela ousadia e pelo deboche.

Porque simplesmente não é possível, não é normal, não é aceitável que uma pessoa investida da condição de presidente da República tenha essa dificuldade patológica de expressar uma ideia, um conceito, uma opinião, uma analogia, um sentimento, uma sensação… uma conversa amena, descontraída e privilegiada com um papa que faz questão de deixar tudo e todos muito à vontade.

O que leva alguém a supor que uma pessoa com esse nível de estrato verbal tenha competência para ser presidente da República? Que entenda e processe convenientemente, por meio de argumentos bem articulados, sem platitudes contraproducentes ou pastiches de clichês, a miríade de temas nacionais que mobiliza um presidente da República?

O quarto segredo de Dilma ainda está longe, muito longe, de ser desvendado – haja vista sua extraordinária popularidade e a certeza quase estatística de que será reeleita no primeiro turno de 2014.

Será que o Papa Francisco já está habilitado a desfazer milagres?

05/03/2013

às 16:45 \ Direto ao Ponto

O RETORNO ARRASADOR DE CELSO ARNALDO (fim): Quer deixar Dilma feliz? Ao vê-la na rua, diga apenas: ‘Ói ela’

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Lá pelo final dos anos 60, Dilma estava ocupada demais lutando pelo proletariado para prestar atenção no tal de movimento feminista – que, quase 50 anos mais tarde, culminaria com sua ascensão à Presidência. Por não ter acompanhado o assunto na época, até hoje ela tem enorme dificuldade em discorrer sobre a condição feminina. O máximo que conseguiu elaborar sobre o tema é a fábula recorrente da menina que um dia teria se aproximado dela para perguntar, candidamente:

─ Pode?

Dilma, evidentemente, não podia – mas o fato é que se tornou presidente. A presidente que, com sua dificuldade agônica de expressar ideias e conceitos, ainda está tentando explicar, em João Pessoa, por que cabe às mulheres receber a Bolsa Família e as chaves do Minha Casa.

“Porque a mulher representa a família. E não é eu (sic) que estou dizendo”

Atenção, esse pensamento tão complexo não é de autoria dela, mas de…Lula.

─ Até conto para vocês um comentário do presidente Lula. No início, quando a gente estava fazendo o Bolsa Família e, vocês sabem que quase 90% das pessoas, das famílias que recebem o Bolsa Família, é a mulher que tem o cadastro. Por que é a mulher? Porque o presidente Lula disse o seguinte, foi um homem que disse, hein, disse o seguinte para mim: “Olha, se não for assim vai aumentar o consumo de cerveja. A mulher vai pegar o dinheiro e vai dar para o filho, não tem dúvida que vai fazer isso.”

Segundo Lula – e Dilma parece endossar isso – faz parte da natureza do homem brasileiro ser um bebum irresponsável, que liquefaz o Bolsa Família em Bolsa Cerveja. Já a mulher é a emulação terrena de Nossa Senhora: tudo em nome do filho, inclusive o dinheiro. Eis uma cena que valeria a pena documentar: um bebê de três meses, filho único da casa, conferindo no berço os 70 reais do donativo que exterminou a miséria no Brasil. É ao pequeno contador que a mãe irá recorrer sempre que precisar comprar leite e mistura.

A imagem parece surreal ─ mas para Dilma é ótima e justifica o repeteco da conclusão que abalou o Projeto Genoma:

“E eu sempre lembro: cês não esqueçam que uma metade é filha da outra metade”.

De novo? É que Dilma acha a frase tão boa que já a assumiu como um bordão para reforçar o papel vital da mulher na sociedade. Ok, mas por que crianças e jovens até 15 anos são os balizadores do direito aos 70 reais?

“Por que criança e jovem? Porque no Brasil tinha uma coisa muito errada, muito errada mesmo. A cara da pobreza aqui no Brasil era basicamente, mais da metade ou quase a metade, de crianças e jovens. Então nós resolvemos olhar sobretudo para criança e jovem, porque é o futuro do país, porque é o único jeito que nós temos pra virar um país desenvolvido são as nossas crianças e os nossos jovens. Então como a criança e o jovem não dão conta das coisas sozinhos, eles precisam do apoio da família”.

Essa cara precoce da miséria no Brasil segue uma lógica perversa: pais pobres, filhos pobres. Para Dilma, descobrir isso foi um choque. E ela também saiu do sério ao descobrir que as crianças brasileiras não conseguem se virar sozinhas e precisam do apoio da família – com a exceção dos bebês a quem a mãe entrega o Bolsa Família.

No discurso que abalou João Pessoa, Dilma exortou os prefeitos a ajudá-la a localizar os últimos miseráveis rebeldes que se negam a entrar para a classe média ─ não só para ter acesso aos 70 reais como para receberem treinamento profissionalizante em virtualmente todas as áreas da atividade humana. Haverá professores de qualquer matéria em cada grotão do país:

“Aula de pedreiro, aula de eletricista, aula de tratador de doente…”

O que seria um tratador de doentes? Um médico de família sem diploma? Um doutor descalço? Imagino que Dilma quisesse ter dito “cuidador de doente”. Como nem o site do Planalto ousou questionar na transcrição integral do discurso, o tratador de doentes virou uma nova categoria da saúde brasileira.

Mas a redentora do Brasil, cujo pedido é sempre uma ordem, de repente parece irritada. Anunciou seis mil creches há dois anos e até agora ninguém tomou qualquer providência. Não será por falta de outro aviso:

“Precisamos de ter (sic) creches, creches. É importante também, porque a raiz da desigualdade a gente atinge ao dar creche de alta qualidade para as nossas crianças mais pobres do país”.

A creche, segundo Dilma é o começo de tudo ─ mas falta ainda o primeiro tijolo.

O Brasil desenhado na Paraíba é o Brasil de Dilma. E de Ideli. Por causa dela ─ anuncia a presidente ─ o governo federal vai colaborar com a construção de um centro de convenções em João Pessoa:

“De fato o governo federal vai contribuir. Porque eu tenho certeza que João Pessoa e as praias aqui são grandes atrações turísticas. E acho… vocês nem precisam me dizer, porque a ministra Ideli esteve aqui e passa o tempo inteiro falando de como a praia que ela foi é maravilhosa”.

E tem gente que ainda pergunta o que faz a ministra da Secretaria de Relações Institucionais. Ou está na praia, com suas enxúndias, ou está falando maravilhas da última temporada.

O longo discurso está enfim terminando. Prova disso é a preparação para o clímax, em dilmês de grand finale:

“Para encerrar, eu queria dizer para vocês que eu tenho aqui muitas coisas para falar, eu queria falar só algumas delas”

Ainda não foi desta vez. É tomar fôlego e ir adiante. Dilma anuncia que dali vai visitar um lugar muito estranho. Que ela conhecia por um nome que ninguém ali conhece. Um mistério. Tem a ver com alguma obra contra a seca, mas esse problema do nome até pode atrapalhar a chegada da água.

“De fato eu não entendo. Porque a gente tem que inventar um nome para uma coisa que vocês chamam diferente. Mas aí o ministro depois vai me explicar por quê. Nós chamamos de Vertente Litorânea e vocês chamam de Acauã-Araçagi. Agora como é que vocês querem que eu saiba se eles chamam de Vertente Litorânea? Entendeu? É da vida isso, tem hora que acontece isso. Geralmente é melhor que os nomes, a gente dá nome para poder identificar, não é assim? A gente dá nome para poder identificar”

Ficou claro. A gente chama a presidente de Dilma para poder identificá-la. Ou não é bem assim?

─ Para finalizar, eu quero dizer para vocês uma coisa: eu estou muito feliz de estar aqui na Paraíba. Eu quero dizer para vocês que nós somos um povo muito especial. Muito especial. Por que é que nós somos um povo especial? Primeiro porque nós somos um povo alegre. Segundo, porque nós somos um povo que somos capazes imediatamente de ter uma grande intimidade. E eu quero dizer para vocês uma coisa: eu fico muito feliz quando eu passo na rua e o pessoal diz assim: “Ói ela!”.

Dilma então diz muito obrigada e sai de cena. A historinha foi o punchline perfeito do já célebre discurso, um desfecho à altura dos grande oradores.

Mas, para a presidente incapaz de formular ou sequer repetir uma frase medianamente inteligente sobre qualquer aspecto da vida humana, esse notável traço do brasileiro só não funciona no seu caso. Em vez de se aproximar festivamente para um abraço, um beijo, uma foto, uma conversinha de comadre, demonstrando essa intimidade atávica descrita por ela, o “pessoal” que cruza o caminho da presidente se limita a registrar sua presença e, em dilmês cívico, reconhecê-la pelo modo como um dia alguém apontará para uma foto de Dilma num livro de História:

─ Ói ela.

http://www.jornaldaparaiba.com.br/polemicapb/2013/03/04/podemos-fazer-o-diabo-na-hora-da-eleicao-diz-dilma/

 

05/03/2013

às 1:47 \ Direto ao Ponto

O RETORNO ARRASADOR DE CELSO ARNALDO (parte 1): As duas metades de Dilma. Nenhuma faz qualquer sentido

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Há uma Dilma que, desde a campanha para suceder Lula e ao longo de seus dois anos na Presidência, só existe nesta coluna. Não se trata da supergerente com Ph.D em Brasil nem da intelectual amante das artes e da cultura que tem uma biblioteca na cabeça e uma pinacoteca num pendrive.

Não é também a primeira mulher presidente que, na grande mídia, só aparece dizendo coisas sensatas – é contra a miséria, a doença e a corrupção, é a favor da ética, da casa própria e do emprego para cada um dos 190 milhões de brasileiros, e um atendimento médico de Sírio-Libanês no posto de saúde de Belágua, o município mais miserável do Maranhão.

A Dilma que salta aqui, em cores e viva voz, sem disfarce, montagem ou edição, é a Dilma cuja capacidade de presidir um país como o Brasil, a sétima economia do mundo, é posta em xeque, gravemente, sempre que abre a boca. Sobre qualquer assunto. Qualquer.

Sua indigência verbal não é apenas vernacular, gramatical, sintática, lógica, metafórica, criadora – mas típica do pensamento rudimentar que certamente a precede e talvez justifique a má palavra.

Quando Dilma tem a palavra, ela nunca tem a palavra. Da saudação à despedida, qualquer grupo de palavras pinçado da fala de Dilma impediria uma pessoa, se hipoteticamente levados a sério os critérios de formação e mérito, a assumir um cargo de quinto escalão no governo. Numa empresa de porte médio, não resistiria 30 segundos diante do encarregado do RH. Falando uma espécie de patois brasileiro, em nada consoante com a língua culta ou média do país que preside, Dilma constrói raciocínios que seriam considerados desqualificadores numa redação de segundo grau.

Ela teve dois anos para, em intensivo treinamento prático, dar uma burilada no seu pífio raciocínio presidencial – que, em última análise, é a voz do Brasil. Não só piorou muito como, agora de volta ao palanque pela reeleição, readquiriu tiques da candidata improvável – com o dedo em riste e a palavra em chiste.

Em João Pessoa, na entrega de 526 unidades do Minha Casa-Minha Vida, essa nossa Dilma foi simplesmente assombrosa – começando pelos intermináveis “comprimentos” a autoridades que acabaram de chegar ao local junto com ela, à “nação potiguar” representada na cerimônia por meia dúzia de indígenas e ao grupo folclórico Nova Geração. Que, segundo a presidente, “cantaram aqui para nós, encheram nosso coração de alegria e nos lembraram do nosso ritmo, esse ritmo fantástico que ninguém escuta e consegue ficar parado”.

Fantástico mesmo, seja qual for esse nosso ritmo – ninguém fica indiferente a ele, mesmo não escutando nada.

É claro que nenhum discurso de Dilma sobre o Minha Casa-Minha Vida seria um discurso de Dilma sem ela tentar explicar para que serve uma casa – como se sabe, uma instituição criada em 2003 por Lulincoln. A casa de Dilma é sempre um palacete dialético:

“Além da casa onde essas famílias irão morar, a casa ser um lar, um lugar onde a gente cria filho, recebe amigo, conversa, toma uma cervejinha, faz uma festinha, a casa onde a gente volta do trabalho e descansa, a casa também representa cidadania. E o que é que é cidadania? Cidadania é o Estado brasileiro olhar para os moradores do Minha Casa-Minha Vida e querer que as casas sejam de qualidade”.

As casas do tempo de FHC não eram assim.

“Sabe qual é a diferença dessas moradias pra algumas outras que se fizeram no Brasil? Eu vou dizer para vocês qual é: essa moradia não é…”

Bem, Dilma não conseguiu dizer o que essa moradia não é. Faltaram as palavras certas. E apareceram estas:

“Eles, os que recebem a casa, não devem nada a ninguém. Nada a ninguém. Não devem à presidenta da República, não devem ao governador, nem devem ao prefeito, nem ao empresário que fez”.

Talvez fosse preciso explicar aos 526 contemplados do Residencial Jardim Veneza que se trata de uma linguagem figurada – o morador fica devendo à Caixa. Mas, espere: as casas são gratuitas e o comprador, segundo Dilma, ainda leva um bônus em dinheiro:

“A relação é assim: o dinheiro sai do governo federal e vai para a Caixa Econômica. Da Caixa Econômica, a Caixa contrata um empresário. Mas o empresário para receber tem que ter um morador, porque é para o morador que o dinheiro é destinado. É para o morador. É para quem mora ali, que é dono do dinheiro”.

Os milhões de unidades do Minha Casa-Minha Vida seguem essa lógica mirabolante – o único caso no mundo em que o adquirente de um imóvel, como se o tivesse comprado de si mesmo, recebe também seu valor equivalente em dinheiro. Daí o sucesso do programa, que vai longe:

“Nós não descansaremos até que o último brasileiro tenha acesso a uma moradia digna”.

Parece exagero? Não, para Dilma:

“Por isso é que a gente conta a história: olha, nós já entregamos 1 milhão, mas não fica preocupado, nem nervoso, nem nervosa. Nós estamos construindo agora mais 1 milhão, em torno de 1,3 milhão de casas e faltam (sic) contratar 1,1 milhão. Então as pessoas podem ter certeza de que elas serão atendidas. E vamos supor que a gente chegue a 1 milhão e 100 e não deu conta de tudo. Aí nós contrataremos mais outro milhão. E assim nós iremos garantir que a população deste país tenha uma coisa que é fundamental: tenha um teto sobre sua cabeça. Mas que um teto, tenha um lar. E que nesse lar as famílias sejam felizes”.

Fácil, assim. E casa de Dilma é, sem sombra de dúvida, um substantivo feminino – não comum de dois.

“Nós focamos o recebimento dos recursos na mulher. Por que nós focamos na mulher? É alguma (sic) preconceito contra os homens? Não, não é! Até porque eu sempre digo: metade da população é mulher, a outra metade é filha dessa metade. Portanto, todo mundo em casa”.

Como? Analisemos a sociobiologia reprodutiva da presidente Dilma. A primeira metade é mulher. A segunda, homem. Essa segunda metade, essencialmente masculina, é filha da primeira. Ok. Mas, se não foi por geração espontânea – talvez um novo projeto do governo Dilma – a segunda metade é filha mas também é pai da primeira metade, com exceção dos que são pais de si mesmos, dentro da mesma metade. E mães da primeira metade, além de serem mães da segunda metade, também são mães de meninas da mesma metade, já que na segunda metade só há homens.

Não entendeu? Não se culpe, pertença você a qualquer uma das metades ou seja apenas uma cara-metade. Nem o pessoal da Presidência parece ter entendido – no vídeo editado para o Blog do Planalto, essa luminosa passagem do discurso foi eliminada. Mas se mantém no áudio com o discurso integral. Como diz Dilma, no fim das contas está todo mundo em casa.

Uma dúvida: a primeira presidente mulher defenderá sempre, exclusivamente, a primeira metade? Ou, quando lançar um novo programa de prevenção do câncer da próstata para a segunda metade, dirá, para ressaltar a importância da clientela-alvo, que metade da população é homem e a outra metade é filha dessa metade?

Faz sentido? Ou só metade?

Assombros do próximo capítulo:

*A Bolsa-Cerveja de Lula

*As incríveis crianças que não sabem se cuidar sozinhas

*O curso para tratador de doentes

*A visita a uma obra chamada Vertentes Litorâneas que não se chama Vertentes Litorâneas

*Brasileiro: um povo capaz das maiores e mais instantâneas intimidades

*As pessoas, na rua, quando veem Dilma, segundo Dilma: “Ói ela!”

Vídeo editado pelo Planalto:

Audio, na íntegra:

http://www.jornaldaparaiba.com.br/polemicapb/2013/03/04/podemos-fazer-o-diabo-na-hora-da-eleicao-diz-dilma/

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