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Celso Arnaldo Araújo

24/02/2014

às 15:56 \ Direto ao Ponto

Às vésperas da Copa, Dilma vira cronista esportiva e faz extraordinária revelação ao Papa: ‘Os jesuítas batiam um bolão’

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Nos encontros com o papa ─ e ela acaba de ter o segundo ─ o dilmês se transforma em dilmunhol. E Francisco, um argentino iluminado que fala português melhor que a presidente da República, finge com meneios de cabeça que compreende tudo – como compreende os mistérios deste e de outros mundos.

Mas semana passada, no Vaticano, após a sagração de dom Orani Tempesta como novo cardeal brasileiro, o Sumo Pontífice ouviu de Dilma uma confusa história a respeito de jesuítas fazendo embaixadinhas em Itu. E deve ter ficado atordoado: escrituras em sânscrito interpretadas por Eduardo Suplicy seriam mais claras.

Desde esse encontro com Dilma, o papa Francisco está convencido de que a carta da irmã Lúcia sobre o terceiro segredo de Fátima, guardada e aguardada por mais 70 anos e agora exposta ao público até 31 de outubro no Santuário de Fátima, perdeu todo o seu interesse para os cristãos.

Em ano de Copa, o “bate-bolão” dos jesuítas, tal como lhe foi revelado pela presidente Dilma Rousseff, se transformou numa espécie de quarto segredo ─ a mobilizar os teólogos da Igreja.

Foi na entrevista coletiva dada por Dilma à imprensa brasileira, logo após seu encontro com o papa Francisco ─ assista ao vídeo no confessionário desta coluna. Nos primeiros minutos, ela vaga, como sempre, no sombrio mundo do pensamento humano transcrito em dilmês ─ ao tentar descrever sua conversa “muito, acho muito importante” com o “santo papa” e”“uma Copa pela Paz e uma Copa contra o Racismo”, portanto duas. Diz ter pedido a Francisco uma “mensagem dele sobre esse posicionamento da Copa do Mundo no Brasil, que é a Copa das Copas”. E, enfim, diz que conversaram a respeito “dessa questão, que sempre que brasileiros e argentinos se encontram e falam sobre a Copa é tocada a questão de quem ganha a Copa do Mundo”.

Ninguém havia ainda reparado nisso: sempre que se fala em Copa do Mundo, alguém toca nessa questão incômoda de que só uma seleção vai ganhá-la. Ah, teve também a história dos presentes ao papa ─ incluindo uma camisa do Palmeiras, fora do protocolo, contrabandeada pelo carola Gilberto Carvalho. Não é de estranhar que, em virtude desse pecado venial, o Palmeiras tenha perdido ontem sua invencibilidade no Paulistão. Enfim, Dilma surge com uma epifania surpreendente sobre o novo cardeal brasileiro: “Dom Orani é um homem de fé”.

Mas, até aqui, eram apenas dilmices pontifícias ─ nenhuma surpresa. E eis que, aos 8min30s do vídeo, surgem as primícias da revelação que mudou o rumo da conversa com o papa:
“Eu recebi outro dia um livro de um pesquisador lá da Unicamp”.

Meu Deus: um livro? De novo o salto no escuro ─ e agora sem rede de proteção. Até hoje, sempre que tentou lembrar publicamente do título de um livro que acabou de ler, ela contou com a ajuda dos universitários do governo. Desta vez, espera-se, será diferente ─ mesmo porque, ela está sozinha diante dos microfones. Ademais, o livro foi citado, e provavelmente entregue ao papa junto com outros sobre a história dos jesuítas no Brasil, apenas cinco minutos atrás. Ok, o nome do livro é…

“Agora acabei de esquecer o nome do livro… Mas ele é interessante”.
Quando a presidente acaba de esquecer algo, não há a menor possibilidade de lembrar logo ─ o esquecimento está muito recente e tem vida longa.

Mas o que vale é o conteúdo, não?
“Ele coloca a seguinte polêmica, polêmica: quem é que trouxe o futebol para o Brasil? Ora, nós todos, até recentemente… eu até ler esse livro achava que era o Charles Miller. E ele diz o seguinte, que não foi o Charles Miller, que o futebol chegou no Brasil através dos jesuítas. E isso até falei isso para o papa, e isso no colégio paulista de São Luís, em Itu, que era um colégio jesuíta”.
Humm ─ afinal, a presidente contou isso ao papa no Vaticano ou no “colégio paulista de São Luís, em Itu”? E o futebol “chegou no Brasil”, assim sem mais nem menos? Chegou ao Porto de Santos, com gramado e tudo?

Conhecer o livro e o autor de um livro que Dilma diz ter lido é sempre prudente antes de se ter contato com o pastiche que Dilma fez do livro, ao descrevê-lo em dilmês.

Não há a menor dúvida de que o livro é interessante ─ e, mencionado num encontro com um papa argentino amante do futebol e jesuíta, em pleno Vaticano, e em ano de Copa, é promessa de gol de placa. O livro que Dilma diz estar fingindo ler se chama “Visão do Jogo ─ Primórdios do futebol no Brasil” e foi escrito por José Moraes dos Santos Neto, professor do Colégio Pio XII, em Campinas ─ que não é pesquisador da Unicamp, mas apenas formado lá.

Enxuto, com apenas 118 páginas, em bela edição da editora Cosac Naify, o livro traz revelações curiosas sobre os primeiros chutes numa bola de futebol no Brasil. E na vasta pesquisa feita pelo professor José, destaca-se a informação de que não foi propriamente Charles Miller o introdutor dos rudimentos do football no Brasil ─ a primazia coube uns 10 anos antes aos jesuítas, companhia do papa. Instadas pelo imperador Pedro II a introduzir exercícios físicos ao ar livre no currículo, dentro do princípio “mens sana, corpore sano”, algumas das escolas da elite brasileira saíram a campo para pesquisar novas formas de atividade esportiva. O colégio jesuíta São Luis, então instalado na cidade de Itu, enviou uma comissão de padres a Londres, onde só se falava no tal football. E, por volta de 1882, os jesuítas do São Luís acabaram trazendo para cá o item mais fundamental do novo esporte ─ a bola. Aliás, duas ─ eram câmaras de ar envolvidas por couro. Quando essas bolas se desgastaram com tantos pontapés, os jesuítas as substituíram por bexigas de boi ─ mas o princípio era o mesmo: chutes contra a parede. Era o que eles chamavam de “bate-bolão”.

Padres e alunos do colégio chutavam juntos, mas ainda sem praticar o chamado “association football”, que pressupõe a formação de dois times de 11 e a existência de regras. Enfim, o paulista Charles Miller, depois de uma temporada de estudos na Grã-Bretanha, a pátria do esporte bretão, voltou ao Brasil em 1894, com um livro de regras, outro par de bolas e um de chuteiras. Foi o começo de times competitivos no Brasil. Resumindo: a verdade é que, no Brasil, os primeiros a jogarem uma pelada improvisada foram mesmo os jesuítas e seus alunos.

Sim: contada a um papa jesuíta, a história podia ser um gol de letra, em pleno campo do Vaticano. O problema é que a bola está com Dilma Rousseff, que se prepara para chutar em gol, de orelhada:

“Primeiro foi uma espécie que ele chama de bate-bolão. Eu tô lá no fim do livro, eu li no avião. Primeiro ele chamava de bate-bolão. Depois colocaram as, as traves, né, as traves do gol, e construíram os times de 11 de um lado, e 11 do outro. Não era aquele tipo de disputa, mas usavam já camisas, camisetas de diferentes cores. Não é, vamos dizer, o início do futebol tal como conhecemos, com todas as regras e tal. Mas é, sem sombra de dúvida, muito interessante o fato de ter sido os jesuítas que trouxeram o futebol para o Brasil, no final do século XIX, 1800 e… lá no final do século XIX”.

Resumindo: Deus é brasileiro, o papa é argentino e nosso futebol é jesuíta. Ok, mas quem ganha a Copa do Mundo?

29/01/2014

às 8:12 \ Feira Livre

Piada de português ao estilo do filme ‘Bananas’, de Woody Allen: a conta do Eleven foi dividida por 11

CELSO ARNALDO ARAÚJO

O sempre inseguro Fielding Melish leva um fora da namorada, ativista política radical, e decide largar a vidinha em Nova York para se aventurar numa republiqueta do Caribe, apoiando os rebeldes contra o ditador de plantão. É o contexto de Bananas, uma das comédias rasgadas da primeira fase de Woody Allen, lançada em 1971.

A se acreditar na versão pouco inspirada do ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, Bananas teve uma de suas cenas mais hilárias reproduzida numa das mesas do restaurante Eleven, em Lisboa, sábado passado – presente a própria presidente da República do Brasil, Dilma Rousseff. Que cena é essa?

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27/01/2014

às 17:16 \ Direto ao Ponto

Veja o que os leitores portugueses acharam da ‘escala técnica’ de Dilma em Lisboa

Dilma em Portugal

Em 8 de março de 2012, o jornalista Celso Arnaldo Araújo comentou a inverossímil escala da comitiva presidencial no Porto: a caminho da Alemanha, Dilma Rousseff e seus turistas de estimação pararam na cidade portuguesa para comer um prato de bacalhau muito apreciado pela chefe de governo. Honrado com a visita, o dono do restaurante retribuiu no fim do jantar: o prato foi rebatizado de Bacalhau à Dilma.

Perplexo com a reincidência registrada neste fim de semana, Celso Arnaldo remeteu à coluna um punhado de comentários de leitores de um jornal português. Confiram o recado do nosso caçador de cretinices. Volto no fim. (AN):

Enquanto nossa mídia registra, sem se escandalizar, a “parada técnica” do Aerodilma em Lisboa, onde 45 suítes foram ocupadas pela comitiva real nos hotéis Ritz e Tivoli (os mais caros da cidade) só para um jantar no Eleven (um dos raros restaurantes de Portugal com estrela do guia Michelin), o Diário de Notícias de lá falou do jantar e deu uma foto de Dilma com o chef Joachim e suas impressionantes olheiras (que os portugueses também chamam de “fronhas”). Selecionei abaixo alguns comentários de internautas portugueses do site do jornal. Veja que o tom crítico e até derrisório lá é maior que o de cá.

“Algo que sempre adorei nos auto-denominados “solidários”, é que quando têm o carcanhol dos outros nas nas mãos para “gerir”, tornam-se sempre adeptos do conforto capitalista. O contribuinte brasileiro a pagar jantaradas para grupos no Eleven (onde em média são Euros 100,00 por cabeça) e noitadas no Ritz !!!!! Vai lá vai….”

“Quando se acabar o crédito e/ou as riquezas naturais, acabam-se os Maduros, os Moráles e as Dilmas. Lá como cá, quando se acaba o dinheiro, acaba-se o socialismo. Depois, já se sabe, será a culpa dos mercados, dos bancos, blá, blá, blá…..”

“Coitada ! A mulher até mete dó! Deus me livre de tal coisa”.

“Por amor da Santa! Será que não era possível arranjar uma foto melhor, quer de um quer de outro? Parece que saíram de um naufrágio. A Dilma, então, que até nem é feia de todo, está um pavor, parece que ficou mal disposta com a janta. Que coisa mal amanhada! Será que pediram licença à senhora para postar a foto na rede? Tirem lá isso, se querem manter a freguesia. Se bem que o tal de 11 a mim não me diz nada mas se é na continuação do Lágrimas de Coimbra (onde caí uma vez por acaso), não vai deixar saudades à brasileira”.

“Tava linda hein Dilma, adorei esse look Fester Addams”.

“Parece photoshop ao contrário. Que vanguardista”.

“Pela foto, parece que tiveram que dar uns sopapos na presidenta, para ela pagar a conta”.

Voltei para a constatação: o retrato desenhado pelos comentários só não é pior que o retrato de Dilma ao lado do chef Joachim. 

23/01/2014

às 0:25 \ Sanatório Geral

Celso Arnaldo x Dilma

“Aquilo que o Nelson Rodrigues dizia: não é possível apostar no pior”.

Dilma Rousseff, estreando 2014 em grande forma, aos 4min18s do vídeo da coletiva de imprensa durante entrega da Arena das Dunas, em Natal, internada por Celso Arnaldo Araújo ao demonstrar, de novo, que é a única pessoa do mundo capaz de fazer Nelson Rodrigues dizer tolices em dilmês que nunca disse em português

 

10/10/2013

às 15:56 \ História em Imagens

DOCUMENTO HISTÓRICO: Celso Arnaldo, único doutor em dilmês do mundo, reúne num vídeo de 2:36 cinco dos melhores-piores momentos do neurônio solitário

LEIAM A RESSALVA FEITA POR CELSO ARNALDO:

Estes não são, em absoluto, os TOP 5 de minha Dilmoteca — escolha esta, de resto, impossível. Meu acervo tem mais de 500 tópicos ultrasselecionados dos últimos 4 anos e eu tenho receio de que os outros 495, igualmente extraordinários, fiquem com ciúmes. Até porque, de cada discurso ou entrevista dela, dá para tirar pelo menos 20 melhores/piores momentos antológicos. Perto de Dilma, Weslian Roriz era Hillary Clinton em seu melhor dia.

Pincei os cinco momentos acima, aleatoriamente, do material mais recente. Mas uma coisa é certa: Dilma piora a olhos vistos, como a catarata de minha avó. O próximo discurso ou a entrevista seguinte terá passagens mais espantosas que os anteriores e assim sucessivamente — até que Dilma, que será reeleita, se expresse no fim do segundo mandato apenas por monossílabos falsamente amineirados. Quando isso ocorrer, sentirei falta de nossa Dilma — a Dilma que só é conhecida aqui.

03/10/2013

às 21:31 \ Feira Livre

CELSO ARNALDO: Dilma ensina que médico bom apalpa até coração e revela as prioridades do programa de importação de jalecos: ‘É onde tem mais gente e onde quem mais precisa tem primeiro’

CELSO ARNALDO ARAÚJO

De todos os temas nacionais sobre os quais a presidenta discorre como quem acaba de sair de coma profundo ou de longa temporada de isolamento total e completa afasia num fiorde norueguês, a saúde, possivelmente, é o de sintaxe mais doentia. Em 33 meses de governo, ao falar do assunto, ela nunca demonstrou saber distinguir uma gaze de uma traqueostomia, enquanto tentava comparar o SUS com a saúde pública sueca ou com a saúde particular da cúpula do governo, a do Sírio-Libanês.

Uma de suas maiores dificuldades, no campo da saúde, tem sido falar do antigo e valoroso Samu, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência ─ nome que, até ela assumir a Presidência, provavelmente evocava-lhe uma das estrelas aquáticas do SeaWorld.

Num de seus primeiros discursos examinando o sistema de saúde pública que dá gosto de ficar doente, ela resumiu a importância da sigla:
“Nós temos o Samu. Porque o Samu tem desempenhado no Brasil um papel fundamental, que é juntá toda a rede e olhá onde que tem disponibilidade e onde que a criança, ou o adulto, no caso, deve ser levado”

Ou seja: o Samu é um serviço de ambulância que leva o paciente para um hospital onde possa ser atendido.

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29/09/2013

às 15:05 \ Direto ao Ponto

CELSO ARNALDO: O duelo virtual, mas pessoal, entre Dilma Bolada e Dilma Rousseff reacende a polêmica: existe uma Dilma oficial?

ATUALIZADO ÀS 15H05

CELSO ARNALDO ARAÚJO

─ Oi, internautas.
A saudação comicamente pueril, que encabeça qualquer lista dos assombros produzidos por Dilma desde que ela foi obrigada a falar em público, era um aviso: a mineira-gaúcha que fizera fama exclusivamente por seu gênio irascível no subsolo do governo, e fora guindada à condição de candidata à Presidência da República por vontade pessoal de Lula, encontrava-se na era paleolítica do mundo digital.

O “oi, internautas” foi sua resposta sincera, bastante e definitiva, no nível de sua desenvoltura, ao pedido de Marcelo Branco, então guru virtual da candidata-surpresa do PT, para que mandasse uma mensagem aos que a seguiam nas redes.

Mas, pouco a pouco, à medida que ela ia expondo seus pensamentos sobre saúde, educação, agricultura, condição feminina, sempre com uma inclemente pobreza de raciocínio, esse irremediável deserto de ideias foi se alastrando para todos os temas do mundo real.

Os palanques da campanha e, logo em seguida, os do Brasil Maravilha de Dilma/Lula ganharam a presença empolgada da pior oradora de todos os tempos, incluindo as cavernas ainda silenciosas e os milênios por vir. Mas a tentativa inicial de expressar rudimentos de ideias em 140 toques foi sumariamente abandonada em 13 de dezembro de 2010 ─ quando o Twitter oficial da então presidente eleita Dilma Rousseff calou-se prudentemente.

Esta semana, Dilma retornou, triunfalmente, ao estrelato virtual. A campanha de 2014 já começou.

Esta semana, aliás, ela foi do topo do mundo ─ o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, em plena cidade-ícone dos Estados Unidos, onde eriçou o topete para passar outro pito em Obama pelo Spygate ─ aos píncaros da insignificância, recebendo no Palácio do Planalto, para marcar o renascimento de seu perfil oficial no Twitter, o criador do personagem virtual Dilma Bolada, que faz gracinhas domesticadas em perfis com a foto da presidenta. Sátira? Não, exatamente. A tentativa de humor disfarça, ou melhor, não disfarça, o proselitismo escancarado:

No Twitter:
– Sou linda, sou diva, sou Presidenta. SOU DILMA!!! Bjs

No Face:
- Em primeiro lugar, boa noite! Em segundo Marina, em terceiro Aécio, em quarto o Campos tudo ladeira abaixo…Uma coisa é fato: não adianta rogar praga, colocar meu nome na encruzilhada, fazer vodu porque o que o povo guardou pra gente, ninguém tira!

Bem, a estadista que em nome da liberdade cibernética do mundo peita Obama em sua própria casa, a ponto de o presidente americano ter se ausentado, inusitadamente, da abertura da Assembleia da ONU, acolheu no Palácio dois dias depois, com carinho de avó e a leveza descolada de uma fã de Justin Bieber, o quase imberbe e inofensivo Jeferson Monteiro ─ alter ego de Dilma Bolada.

Não, ele não esteve nas ruas em junho. Apesar da aparente causticidade de seus ditos em nome de Dilma, nunca joga uma bola pelas costas. Mas o pessoal da Secretaria da Comunicação fica mesmo diabólico em época de campanha: com esse encontro, numa só jogada, a estadista da ONU demonstrou modernidade, bom humor, desprendimento. Oi, internautas.

O duelo de teclados entre os dois perfis de Dilma ─ a oficial Rousseff e a fake Bolada ─ foi reproduzido, sem qualquer reparo, pela grande mídia. Os blogs financiados foram à cloud. Pois as duas Dilmas, cada qual em seu notebook, mas lado a lado, certamente num dia de pouco movimento na casa, travaram um dos grandes diálogos da história republicana, sem retoques:

Dilma Oficial:
─ Bom dia linda maravilhosa, sempre acompanhei vc. Mas não me dê bom dia. Mas me dê bons resultados.

Dilma Bolada:
─ Bom dia pra mim mesma linda, maravilhosa, sempre eu, @dilmabr, Finalmente o pessoal e profissional se cruzando…

Dilma Oficial (com um toque de Guimarães Rosa soprado pela assessoria)
─ Vocêzinha eu acho que por boniteza, eu por precisão. Lanço hoje o novo @portalbrasil . São + informações,serviços & participação.

Vocêzinha? Huumm.. Portal? Sim, vamos ao que interessa que é ensaio de campanha: além do renascimento do Twitter, nessa pré-estreia de gala com o duo Dilmas, há que cumprir a pauta dos marqueteiros ─ o lançamento do novo Portal interativo e…

Dilma Bolada:
─ Agora é hora de sambar e falar do #MaisMédicos, o programa maravilhoso que tinha que ter até no hospital do Cesar de “Viver A Vida”…

Dilma Oficial:
─ Respeito muito os médicos brasileiros, mas traremos médicos de onde pudermos. Importante é atender melhor a população. Isso é o + médicos

Bem, o resto é o resto ─ incluindo um pito na The Economist pela capa do looping descendente do avião Brasil em torno do Cristo Redentor.

Parece óbvio que Jeferson saiu do Palácio enlevado com o upgrade de seu personagem ─ ele é o caso clássico do imitador que homenageia o ídolo ao longo de toda uma carreira e, um dia, tem a honra de dividir o palco com ele. Em sua primeira tuitada fora do cenário oficial, ele retomou, no Facebook, a linha da sátira a favor, em nome de Dilma Bolada:

─ Gente, o Jeferson Monteiro já foi. Ele até que é gente boa mas despachei logo porque tenho mais o que fazer. Agora ninguém me segura com o twitter lá o outro cá, o Face aqui é o do Planalto também, e o insta @dilmabolada e @palaciodoplanalto. Sambei!
Se cuida Obama!!!
ÊTA PRESIDENTA CONECTADA!!!

Os três anos que separam o último tweet da primeira fase do Dilma Oficial desse renovado “oi” da presidente aos internautas, no diálogo non sense com Dilma Bolada, foram deixando no caminho evidências cabais de que a Dilma Oficial, a que ora ocupa a Presidência e caminha para a reeleição, é a verdadeira Dilma Bolada: uma criação ficcional, um falso perfil, que tomou corpo e forma reais. Por isso, não é surpresa que Dilma Bolada, através da figura deslumbrada de seu oportunista criador, tenha sido admitido no Palácio do Planalto.

Dilma Rousseff, a Oficial, chegou lá três anos antes.

Quanto a Jeferson, o futuro do falso outsider brincalhão está garantido ─ agora, com a melhor madrinha, ele é Oficial.

Por falar nisso, alguém sabe por onde anda o Dilmaboy?

08/09/2013

às 15:27 \ Direto ao Ponto

Dilma é um gênio: na reunião do G20, a estadista do dentifrício vira a cabeça do espião Obama, confunde conteúdo com continente e desconhece até comercial de pasta de dente

CELSO ARNALDO ARAÚJO

“Vamos conversar sobre o presidente Obama”, convida Dilma no início do vídeo de sua coletiva, pautando os jornalistas enviados a São Petersburgo para o encontro do G20. A estadista que há pouco cedeu ao lhama de franja, Evo Morales, demitindo seu chanceler e enxovalhando a dignidade do diplomata Eduardo Saboia para dar satisfação ideológica a um caudilho caricato e insignificante, aparece exultante pela enquadrada que afirma ter dado no homem mais poderoso do planeta.

“Né, como vocês viram, o presidente Obama marcô reunião comigo logo após a primeira sessão do G20”, diz a presidente que não diz coisa com coisa e vice-versa, consultando nervosamente a pasta organizada pelos universitários de sua comitiva. Nos primeiros 15 minutos dessa coletiva à imprensa, ela exporá, mais uma vez, seu imenso e intransponível despreparo para o cargo e sua impossibilidade até hoje quase matemática de emitir um pensamento minimamente ordenado e bem construído sobre virtualmente qualquer assunto. Mas, até aí, nada demais, nada de novo.

Ao descrever seu encontro privativo com Obama, no qual tirou satisfação pelo spygate dos EUA no Brasil, dá a impressão de uma dona de casa de poucas letras infiltrada numa reunião de cúpula entre representantes das 20 nações mais poderosas do planeta, relatando o chega pra lá dado no sindico do edifício por causa do barulho do vizinho no andar de cima. Mas ninguém mais parece se chocar com essa permanente sem-noção de contexto, de sintaxe e de metonimia.

Ia lá ela justificando isso e aquilo diante das inquirições dos jornalistas, presumivelmente do G20 da imprensa brasileira:

“Não, não, a minha ausência tava prevista pelo seguinte, porque eu tinha tido, eu tinha feito um contato anterior e ia fazê uma bilateral. Acabou que ela não pôde acontecê, então eu acabei não ino porque eu ia chegá na metade…”.

Justifica o corre-corre: “Amanhã, né, é nossa data pátria, 7 de setembro, e eu tenho de chegá no Brasil pra mim tá lá de manhã cedinho…”

E eis que, aos 15:22 do vídeo, o tubo do dentifrício foi aberto – e então a coletiva da presidente adquire a gravidade de um ataque por arma química fulminante, com a duração de apenas 44 segundos. Chocante e letal. É Twilight Zone, é Além da Imaginação.

Um repórter pergunta, figurativamente, se o gênio ainda pode voltar à garrafa, ou seja, se o mal-estar com Obama pode ser desfeito. Dilma lembra ao repórter que, por coincidência, usou na conversa com Obama metáfora semelhante, mais popular no Brasil: a do creme dental que não pode retornar ao tubo, depois que este é espremido. Mas, espere, a imagem que Dilma diz ter passado a Obama tem uma pequena variante. Não faz muito sentido em português, mas é mais rica. É, literalmente, o crème de la crème, o creme dental dentro dele mesmo, com outro nome — dentifrício. Soa como palavra entorta-língua, mas até crianças aprenderam o que significa dentifrício, ao longo de 50 anos de comerciais de pasta de dente na TV.

“Ontem eu disse ao presidente Obama que era claro que ele sabia que depois que a pasta de dentes sai do dentifrício ela, dificilmente, volta pra dentro do dentifrício, então, que a gente tinha de levar isso em conta…”

Excuse me? Claro, Obama já deve ter percebido por experiência própria, até antes de ser presidente, que a pasta de dentes não volta ao tubo uma vez espremido este. Mas a pasta de dentes de Dilma sai de dentro de seu próprio sinônimo? Nem os Irmãos Campos pensaram nisso num de seus poemas concretos.

E aqui começa um mistério linguístico muito intrincado – e fascinante. Se Dilma usou em português duas palavras que querem dizer a mesma coisa (pasta de dentes e dentifrício), mas desejando dizer coisas distintas, ou seja, o creme e seu tubo, conteúdo e continente, como o tradutor da conversa com Obama escapou dessa armadilha?

Em inglês, as palavras também são sinônimos perfeitos – toothpaste e dentifrice. Um não pode sair de dentro do outro. Conseguiu o heroico tradutor, fazendo o caminho linguístico inverso, introduzir o tubo na pasta, para que a metáfora de Dilma fizesse algum sentido para Obama?

Provavelmente sim, porque, na resposta dada na coletiva, Dilma insistiria de novo na estranha pasta de dentes dentro do dentifrício – versão em dilmês do “três pratos de trigo para três tigres tristes”. E não é que, segundo ela, Obama entendeu?

“E ele me disse, me respondeu, que ele faria todo o esforço político para que essa pasta de dentes pelo menos não ficasse solta por aí e voltasse uma parte para dentro do dentifrício”.

Humm, estou achando que, depois desse encontro, Obama mandou o pessoal da NSA recolher toda a parafernália de vigilância digital sobre a presidente do Brasil – não há rigorosamente nada a ser espiado no mundo de Dilma, fora de um roteiro para o Saturday Night Live.

A essa altura, o repórter que fez a pergunta e os demais jornalistas brasileiros presentes à coletiva, se efetivamente prestaram atenção na resposta, estavam de boca aberta, com dentes e gengivas à mostra. Coube a Dilma obturar as últimas cáries de perplexidade dos jornalistas, fechando a resposta ao indagante:

“Você usou, vamos dizer, uma imagem mais bonita, que é a do gênio fora da garrafa. Eu usei já uma coisa, assim, mais usual, que é a pasta de dentes fora do dentifrício”.

Usual, a pasta fora dela mesma? Falando sério, se é que isso é possível neste momento: posso estar exagerando, mas, independentemente de todas as bobagens que nossa presidente tenha acumulado até São Petersburgo, uma pessoa que não sabe que dentifrício não é o tubo de pasta de dentes, mas o próprio creme dental, definitivamente não pode ser presidente da República do Suriname.

E o pior é que o gênio do mal que tirou essa pessoa da garrafa não pode fazê-la voltar.

06/09/2013

às 19:33 \ Direto ao Ponto

O besteirol selecionado por Celso Arnaldo prova que toda discurseira de Dilma é pior que a anterior, mas melhor que a próxima

Inquieto com a descoberta de que o governo americano andou espionando o Brasil, o ex-presidente Lula ordenou à afilhada que fizesse o que ele sempre fingiu que fez: “Espero que a Dilma dê um guenta democrático no Obama”. Nesta sexta-feira, o desempenho de  Dilma Rousseff em Moscou, onde se encontrou com Barack Obama, sugere que ou o neurônio solitário foi nocauteado pelo fuso horário ou não sabe direito o que é um “guenta democrático”. Ou as duas coisas.

Já na primeira entrevista, o jornalista Celso Arnaldo Araújo pinçou quatro palavrórios que valeram a Dilma duas internações sucessivas no Sanatório Geral. O recorde, suficientemente impressionante para matar de inveja um Usain Bolt, merece ser destacado no Direto ao Ponto. Confiram:

NEURÔNIO 007

“Ele procurará o Brasil para dizer que medidas vão ser tomadas. E o que eu pedi é o seguinte: eu acho muito complicado eu ficar sabendo dessas coisas pelo jornal. Então, num dia eu sei uma coisa, e aí passa mais dois dias tem outra coisa, e a gente vai sabendo aos poucos. Eu gostaria de saber o que tem, eu quero saber o que há, nessa questão, o que há. Se tem ou se não tem, eu quero saber: tem ou não tem? Se tem… não, além do que foi publicado pela imprensa, eu quero saber tudo o que há em relação ao Brasil”.

“Qual é o rombo? Eu vou dizer para vocês qual é o rombo. Eu quero saber o que há. Eu não sei o que há, não sei. Vocês sabem o que há? Vou fazer só um raciocínio: como vocês sempre sabem isso primeiro do que eu, porque está vindo através dos jornalistas, como eu não sei o que há. Me disseram que domingo pode ter outra novidade. Então, o que eu quero ver é o que há”.

“Mas as pessoas não estavam satisfeitas com a… Mas eu não escutei, tá? E você sabe que uma reunião que tem russo, chinês, indiano, eu posso não ter… Eu não vou dizer que ele falou ou não falou, porque eu posso não ter percebido. Desculpa, mas eu acho que é irrelevante essa comparação. Acho que é gravíssimo, é pior ou igual ou..”.

Comentário de Celso Arnaldo: Nos três trechos de entrevista coletiva em São Petersburgo, ao descrever aos jornalistas seu encontro com Obama e a primeira sessão do G20, Dilma demonstrou de uma vez por todas que espionar o Brasil via Dilma é uma impossibilidade linguística.

NEURÔNIO FORA DO TUBO

“Não, ontem, inclusive, você veja, esse gênio… você está fazendo uma imagem. Ontem eu disse ao presidente Obama que era claro que ele sabia que depois que a pasta de dentes sai do dentifrício ela, dificilmente, volta para dentro do dentifrício, então, que a gente tinha de levar isso em conta. E ele me disse, me respondeu, que ele faria todo o esforço político para que essa pasta de dentes pelo menos não ficasse solta por aí e voltasse uma parte para dentro do dentifrício. Você usou, vamos dizer, uma imagem mais bonita, que é a do gênio fora da garrafa. Eu usei já uma coisa, assim, mais usual, que é a pasta de dentes fora do dentifrício”.

Comentário de Celso Arnaldo: Ao ser indagada por um jornalista se o gênio voltaria à garrafa, Dilma confundiu tubo com dentifrício e gênio com idiota.

Volto para um convite e uma constatação. Quem não acredita no que leu pode conferir o vídeo abaixo. E está claro que todo falatório de Dilma Rousseff é sempre pior que o anterior, mas será sempre melhor que o próximo.

27/08/2013

às 20:18 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: ‘Pensando bem, Eduardo Saboia foi herói, sim, conquanto não haja heróis permanentes fora dos quadrinhos’

Subscrevo sem ressalvas o texto de Celso Arnaldo Araújo. O que Eduardo Saboia fez no caso do senador Roger Pinto Molina sempre será mais relevante do que o que disse ou dirá. (AN)

Não há heróis sempiternos (é a primeira vez que uso a palavra, sabia que esse dia chegaria…), com exceção de meu pai, e apenas no âmbito de minha existência. Só há heróis de ocasião. Como Eduardo Saboia.

Também não gostei do day after do Saboia ─ a ameaça valente de usar o que sabe contra o Itamaraty não soou bem.

Mas, como diria o Marcelo Rezende, pensa no seguinte: o moço tinha 23 anos de Itamaraty, carreira impoluta e ascensional (se bem que Bolívia é queda…), folha impecável de serviços. Naquele instante, ele, como ministro-conselheiro e encarregado de negócios, era o mais alto funcionário da Embaixada, na ausência forçada de um embaixador titular.

Marcel Fortuna Biato fora enviado há dois meses, sumariamente, para um degelo na Suécia, por pressão de Evo Morales – justamente por causa do prolongado abrigo ao senador.

Saboia fazia as vezes de embaixador, até a chegada do substituto enquadrado. Ninguém mais, naquele momento, para repartir com ele o interminável pepino de 452 dias como carcereiro.

Ao entrar no carro da embaixada, com Roger Molina no banco de trás, e pedir ao motorista que só parasse quando chegasse a Corumbá, Saboia sabia que ali se encerrava sua carreira diplomática. O que fazia ali não era mais diplomacia – mas, a seu ver, a reparação definitiva de uma situação humana insustentável, para ele e para o senador.

Esforçara-se muito para fazer o mesmo – imagine – até com os vagabundos presos em Oruro por causa da morte do garoto boliviano.

Veja só. Por causa desse ato de coragem – quantos de nós o fariam, tendo tudo a perder? – Saboia tornou-se, instantaneamente, um exilado em seu próprio país. Sua mulher é oficial de chancelaria da Embaixada, seus três filhos estudam em colégios de La Paz. Mas Saboia evidentemente não pode retornar à Bolívia sem ser preso – ou até justiçado.

Ficará ele aqui, no limbo absoluto, de carreira e família, enquanto o senador Roger refaz sua vida ─ e até que eles lá em cima se entendam, com Morales como o mediador irremediável da situação.

Pensando bem: Saboia foi herói, sim, conquanto não haja heróis permanentes fora dos quadrinhos.

 

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