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Antônio Cândido

07/07/2011

às 15:29 \ Direto ao Ponto

A estrela da Flip promoveu a doutor de nascença o presidente que não estudou

Convidado para a conferência de abertura da Flip, o crítico literário Antonio Candido avisou, na entrevista coletiva concedida em Paraty, que preferia tratar apenas de livros e escritores. “Não estou aqui para falar de política nem do PT”, avisou. Melhor assim. Se entrasse nesses temas, acabaria falando do ex-presidente Lula ─ e certamente reincidiria em assombros que inspiraram o artigo publicado em agosto de 2009 aqui no Direto ao Ponto e agora reproduzido na seção Vale Reprise.

Como registra o post “A celebração da ignorância é um insulto aos brasileiros que lutam para estudar”, Antonio Candido desfila ao lado de Marilena Chauí na comissão de frente da Acadêmicos do Lula. Ela acha que, quando o ex-presidente fala, “o mundo se ilumina”. Ele dispensou formalmente de preocupações com o idioma o feroz Exterminador do Plural. “Essa história de despreparo é bobagem”, decretou em 2007, entre um ensaio literário e a leitura de um clássico, o professor universitário que não perdoava sequer cacófatos.

Dependendo do portador, ensinou Antonio Candido, ignorância é virtude. “Lula tem uma poderosa inteligência e uma capacidade extraordinária de absorver qualquer fonte de ensinamento que existe em volta dele ─ viajando pelo país, conversando com o povo, convivendo com os intelectuais”, exemplificou. Amigo do fenômeno há 20 anos, o mestre identificou já no primeiro encontro um gênio da raça. “Nunca vi Lula ser um papagaio de ninguém”, garantiu. “Nunca vi Lula repetir o que ouviu. Ele tem uma grande capacidade de reelaborar o que aprende. E isso é muito importante num líder”.

Muito antes do diploma de doutor honoris causa que ganhou na Universidade de Viçosa, o ex-presidente foi promovido a doutor de nascença por Antonio Candido. Ainda bem que não levou Lula para ouvi-lo em Paraty, onde discorreu sobre Oswald de Andrade, O conferencista tem tanta intimidade com o tema que chama o escritor de Oswaldo. O palestrante de 200 mil reais nem imagina quem foi.

11/07/2010

às 13:48 \ Direto ao Ponto

Quase 100 anos em menos de 100 palavras

Se os candidatos ao exame do Enem fossem submetidos a um exame oral de História, se tivessem de dissertar sobre o que houve de mais importante no Brasil do século 20, se entre os julgadores figurasse o professor Antônio Cândido, imagine que nota daria o intelectual companheiro a um candidato que dissesse o seguinte:

“Entre os anos 20 e 30, quando a gente teve a Semana de Arte Moderna, o Brasil cumeçô a se pensar como país, depois houve a Revolução de 30, saiu da República Velha, depois, ali no final dos anos 50 e nos anos 60, teve Brasília, a bossa nova, o cinema novo, toda também uma discussão sobre os caminhos do futuro do país, né?, a discussão sobre a identidade. Acho que nós vivemo um momento igual”.

Esqueçamos as agressões ao português. Fiquemos no conteúdo. Como toda semana, também a Semana de Arte Moderna ─ que se realizou não “entre os anos 20 e 30″, mas em 1922 ─ durou sete dias. Foi um evento importante, mas não obrigou “a se pensar como país” um país que existia desde 1500. Antonio Cândido sabe disso. Sabe, também, que não foi pouco o que houve entre a Revolução de 30, que aposentou a República Velha, e “o final dos anos 50 e nos 60″.

Houve, por exemplo, a Revolução de 1932, a Intentona Comunista, a rebelião integralista, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a queda de Getúlio Vargas, a redemocratização, a volta do ditador como presidente eleito e o suicídio. Também não foi pouco o que aconteceu entre o banquinho, o violão, a câmera na mão, o Plano Piloto, as curvas de Niemeyer e “o momento igual que nós vivemo”.

Houve a renúncia de Jânio Quadros, a ascensão de João Goulart, o golpe militar de 1964, a ditadura do AI-5, a Anistia, a Campanha das Diretas, a vitória e a morte de Tancredo Neves, os seis anos de José Sarney, o triunfo e o impeachment de Fernando Collor, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real, o fim da inflação e a Era Lula. Fora o resto.

Avaliado por Antonio Cândido, um aluno que empacotasse quase 100 anos em menos de 100 palavras não conseguiria vaga em faculdade nenhuma, muito menos na USP. Pois foi exatamente isso o que fez Dilma Rousseff ao resolver dissertar sobre o século 20 na casa de Lily Marinho. Como o neurônio solitário não quer um lugar na Universidade, e sim a presidência da República, Antonio Cândido continua incorporado ao grupo de “intelectuais e artistas” que consideram Dilma a chefe de governo que o Brasil merece. E nenhuma declaração indigente o fará mudar de ideia.

Quem não sabe escrever o desfecho da própria biografia merece pena.

03/02/2010

às 19:45 \ Direto ao Ponto

O adeus da coluna a Wilson Martins, por Deonísio da Silva

Autor de livros admiráveis, meu amigo Deonísio da Silva é uma das grifes que enriquecem a coluna com comentários sempre luminosos. Nesta quarta-feira, esse escritor de primeira linha resumiu em dois parágrafos a grandeza do crítico literário Wilson Martins, o professor exemplarmente íntegro que se foi com janeiro. A coluna se vale do texto de Deonísio da Silva para despedir-se do talento que o Brasil perdeu.

Wilson Martins foi muito melhor professor e crítico do que Antonio Candido, mas não foi um dos fundadores do PT, não se submeteu ao bolchevismo universitário, não assinou manifestos a favor ou contra coisa alguma, já que viveu a vida inteira esquecido, ora na Universidade de Nova York, ora na Curitiba que ele, paulista, escolheu para viver. Mas veio dele a coragem de dizer que Chico Buarque plagiara a estrutura e o modo de narrar de seu romance de estreia e a ousadia de definir Paulo Coelho, não como romancista, mas como um caso à parte: o de um escritor que fazia sucesso por ter pegado a onda do esoterismo no momento certo, fazendo coincidir sorte e esperteza. Ele mesmo dizia: “não comento autores, comento livros”.

Fez a história da literatura brasileira de 1500 a 2009, acompanhando os lançamentos e garimpando neles o que achava relevante. Antonio Candido data sua história de nossas letras na segunda metade do século XVIII e vem até 1930. E nas universidades só se cita ele. Há décadas. Wilson Martins integra a multidão de esquecidos para que poucos possam aparecer louvados pelos mesmos de sempre.

25/10/2009

às 22:01 \ Direto ao Ponto

Faltou Sarney no abaixo-assinado

Os oficiais comandantes do Batalhão da Bic já foram trapalhões na hora de tentar justificar o injustificável, atesta o palavrório do sociólogo Ricardo Antunes, um dos articuladores do abaixo-assinado contra a CPI do MST. “É inaceitável a tentativa de criminalizar o MST e empurrá-lo para a clandestinidade”, disse ao Estadão o intelectual da Unicamp.

Decolou mal o professor de Tudo. Ninguém precisa criminalizar um bando que comete crimes o tempo todo: o próprio MST cuidou de criminalizar-se. Tampouco é preciso empurrá-lo para a clandestinidade. Como não tem existência legal, já é clandestino. E completou a decolagem desastrada com o pouso na pista errada.

“É inaceitável também que este Congresso, que chegou ao fundo do poço e cujo presidente tenta cercear o trabalho da imprensa, impedindo a divulgação de informações sobre sua família, se julgue no direito de policiar e tentar sufocar o movimento”. Antunes e o resto do Batalhão jamais se manifestaram contra a erosão ética e moral do Senado, ou contra as bandalheiras do presidente do Congresso, ou contra a censura ao Estadão.

Ruim de gatilho, Antunes mirou no inimigo aparente e acertou um companheiro de lutas e ideais. O mestre da Unicamp começou a usar só agora o verbo criminalizar, que Sarney recita desde 16 de outubro. “É errado criminalizar o MST”, declarou ao incorporar-se formalmente à seita da lona preta.

Autor de uma penca de livros, imortal da Academia Brasileira de Letras, merece entrar na ala dos intelectuais do abaixo-assinado. Antunes, Luis Fernando Verissimo, Emir Sader, Antonio Cândido, Sarney, Collor, Jucá, Renan, todos estão juntos no mesmo trator que, depois do trabalho no laranjal, tenta agora assassinar a verdade sobre a promiscuidade multimilionária entre o governo e o MST.

24/10/2009

às 22:00 \ Direto ao Ponto

O Batalhão da Bic voltou à ativa para aliar-se ao o bandido

Depois de um sumiço de quase sete anos, voltou à ativa neste fim de semana o Batalhão da Bic, formado por fuzileiros civis que se disfarçam de “intelectuais e artistas” para confundir a repressão. Até a posse do presidente Lula, o grupo de elite mantinha a caneta engatilhada todo o tempo, para não perder um único abaixo-assinado contra alguma coisa — da privatização de empresas estatais aos maus modos do guarda de trânsito, da falta de dinheiro federal para a cultura brasileira à impontualidade do entregador de pizza. De janeiro de 2003 para cá, nada conseguiu animá-los a tirar a Bic do coldre.

Para os loucos por um manifesto, pareceram pouco relevantes a institucionalização da patifaria, o escândalo do mensalão e todos os outros, a expansão espantosa do Clube dos Cafajestes a Serviço do Nação, a aliança entre vestais de araque e messalinas juramentadas, a metamorfose obscena do presidente da República, o acasalamento do Cristo paraguaio com os Judas de verdade, fora o resto. Tudo é tolerável, berrou o silêncio do bando. Menos a instalação da CPI do MST.

Isso não passa, descobriu o abaixo-assinado agora virtual, de “um grande operativo das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST”. Com a ajuda da imprensa, claro, esclarece o trecho que comenta a depredação da fazenda da Cutrale: “A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja de ato de vandalismo. Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça”.

Essa gente já escreveu textos menos bisonhos, informam o estilo torturado e o uso de palavrões como “operativo”. Também já teve mais pudor: não é pouca coisa reduzir 10 mil pés de laranja a “alguns”, sem ficar ruborizado, ou fazer de conta que o Incra não é um codinome do MST. Sobretudo, poucos manifestos cometeram erros tão vulgares, como imaginar que a Justiça contesta alguma coisa. As partes contestam. A Justiça julga. Por sinal, julgou em segunda instância a contestação do Incra. Deu razão à Cutrale.

No meio da procissão dos anônimos, o altar das quase celebridades exibe o professor e ensaísta Antonio Cândido e o humorista a favor Luis Fernando Verissimo. O primeiro só não reivindicou uma cátedra da USP para o amigo Lula porque ainda não fez o mestre de nascença entender o que quer dizer catedrático. O segundo matou a Velhinha de Taubaté, personagem que acreditava em tudo o que o governo dizia, porque já não é a única: Verissimo também acredita em tudo o que diz o sinuelo do rebanho.

Como os demais signatários, Antônio Cândido e Verissimo provavelmente acham que arroz dá em árvore, desconfiam de que vanga seja um ritmo cucaracha e só tratam de coisas do campo quando conversam sobre futebol. Mas falam de reforma agrária com o desembaraço de quem aprendeu a engatinhar numa roça. Devem saber a diferença entre honradez e corrupção. Sobre isso, nada têm a dizer.

26/08/2009

às 20:45 \ Direto ao Ponto

A celebração da ignorância é um insulto aos brasileiros que lutam para estudar

“Eu cheguei à Presidência mesmo sem ter um curso superior”, repetiu Lula a frase que nasceu como pedido de desculpas, tornou-se desafio, foi promovida a motivo de orgulho e acabou virando refrão do hino à ignorância. ”Talvez até quando eu deixar a Presidência possa até cursar uma universidade”, disse nesta terça-feira o único chefe de governo do mundo que não sabe escrever e nunca leu um livro.

Desse perigo estão livres os professores universitários. Lula evita livros e cadernos como o Super-Homem evita a kriptonita verde. Longe do trabalho duro há  30 anos, não estudou porque não quis. Tempo teve de sobra. Vai sobrar mais tempo ainda quando sair do Planalto, mas continua sobrando preguiça. E ele botou na cabeça que foi formalmente dispensado de aprender qualquer coisa pelos companheiros que sabem juntar sujeito e predicado.

A lastimável formação escolar foi tratada como pecado venial até que o crítico literário Antonio Candido ensinou que, dependendo do portador, ignorância é virtude. “Essa história de despreparo é bobagem”, decretou há dois anos, entre um ensaio e a leitura de um clássico, o professor que não perdoava sequer cacófatos.  ”Lula tem uma poderosa inteligência e uma capacidade extraordinária de absorver qualquer fonte de ensinamento que existe em volta dele ─  viajando pelo país, conversando com o povo, convivendo com os intelectuais”.

Amigo do fenômeno há 20 anos, Antônio Candido descobriu um doutor de nascença.  ”Nunca vi Lula ser um papagaio de ninguém”, garantiu.  “Nunca vi Lula repetir o que ouviu. Ele tem uma grande capacidade de reelaborar o que aprende. E isso é muito importante num líder”. O líder passou a reelaborar o que aprende com tal desembaraço que anda dando lições a quem sabe.

Em junho, numa entrevista à RBS, explicou que a ministra Ellen Gracie não conseguiu o emprego no Exterior porque não estudou como deveria.  “Mas ela é moça, ainda tem tempo”, consolou-a. Em julho, enquadrou os críticos do programa que provocou o sumiço da miséria,  o extermínio da fome e a promoção de todos os pobres a brasileiros da classe média.

“Alguns dizem assim: o Bolsa Família é uma esmola, é assistencialismo, é demagogia e vai por aí afora”, decolou o exterminador de plurais. “Tem gente tão imbecil, tão ignorante, que ainda fala ‘o Bolsa Família é pra deixá as pessoas preguiçosa porque quem recebe não quer mais trabalhá”. Quem discorda do presidente que ignora a existência da fronteira entre o Brasil e a Bolívia, reincidiu,  ”é uma pessoa ignorante ou uma pessoa de má-fé ou uma pessoa que não conhece o povo brasileiro”.

Povo é com ele, gabou-se outra vez nesta terça-feira. No meio da aula, recomendou o estudo de português. ”É muito importante para as crianças não falarem menas laranjas, como eu”, exemplificou. Mas não tão importante assim: ”Às vezes, o português correto as pessoas nem entendem. Entendem o menas que eu falo”.

Mesmo os que não se  expressam corretamente também entendem quem fala menos. Não falta inteligência ao povo. Falta escola. Falta educação. Falta gente letrada com disposição e coragem para corrigir erros cometidos por adultos que nasceram pobres. Lula deixou de dizer menas quando alguém lhe ensinou que a palavra não existe. O exemplo que invocou foi apenas outra esperteza. Poucas manifestações de elitismo são tão perversas quanto conceder a quem nasce pobre o direito de nada aprender até a morte.

Milhões de meninos muito mais pobres do que Lula foi enfrentam carências desoladoras para assimilar conhecimentos. A celebração da ignorância é sobretudo um insulto aos pobres que estudam. É também uma agressão aos homens que sabem. Num Brasil pelo avesso, os que se aprenderam português logo terão de pedir licença aos analfabetos para expressar-se corretamente, e os que estudaram em Harvard esconderão o diploma iploma no sótão.

A boa formação intelectual não transforma um governante em bom presidente. Mas quem se orgulha da formação indigente e despreza o conhecimento só se candidata a estadista por não saber o que é isso. Lula será apenas outra má lembrança destes tempos estranhos.


 

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