Blogs e Colunistas

Alfredo Nascimento

14/02/2013

às 22:49 \ Direto ao Ponto

A faxineira que não sabe viver sem sujeira por perto começou a resgatar o lixo que foi obrigada a varrer para baixo do tapete

Incorporado à comitiva que acompanhou o senador amazonense Alfredo Nascimento no encontro com Dilma Rousseff, o deputado Anthony Garotinho antecipou para os jornalistas a questão que dominaria a pauta da conversa entre o presidente do PR e a presidente da República. “A gente só quer uma definição: ou se é governo ou se é oposição”, resumiu o líder do partido na Câmara. Em paragens menos primitivas, uma dúvida desse porte só seria desfeita por ajustes e concessões recíprocas que permitissem aparar arestas programáticas, remover divergências ideológicas e definir um projeto comum para o país. Na continuação do palavrório, Garotinho confirmou que as coisas são bem mais simples no Brasil Maravilha que Lula pariu.

“Somos políticos”, lembrou o parlamentar fluminense. “O PMDB tem ministério. O PT tem ministério…” E o PR também quer ministério, berraram as reticências. De posse de um cofre do primeiro escalão, é governo. Sem cofre, é oposição. À saída do Palácio do Planalto, o sorriso coletivo dos pedintes informou que a anfitriã achara o pedido muito justo. A minuta do contrato de aluguel está pronta. Assim que o texto definitivo for assinado, o PR terá de volta a gazua que perdeu em julho de 2011, quando a imprensa descobriu que, sob o comando do mesmíssimo Alfredo Nascimento, o Ministério dos Transportes se transformara em sede da quadrilha de gatunos subordinados à direção do partido.

Dilma ainda não revelou qual dos ministérios será doado aos parceiros que foi obrigada a despejar. O PR ainda não decidiu quem vai virar caçula do primeiro escalão. Tais detalhes não tornarão mais obsceno ou menos repulsivo o segundo acasalamento entre a gerente de araque e o bando presidido por Alfredo Nascimento. Única faxineira do mundo que não consegue viver sem sujeira por perto.  Dilma Rousseff resolveu agora resgatar o lixo que teve de varrer para baixo do tapete.

09/02/2013

às 8:31 \ Direto ao Ponto

Nocauteada pelo Plano Real, a inflação avisou de novo que está querendo acordar

Dragão adormecido (Imagem: Gunilla Riddare)

Milhões de brasileiros sensatos estão compreensivelmente inquietos com o monstro adormecido há mais de 18 anos (Imagem: Gunilla Riddare)

Nocauteado pelo Plano Real em 1994, o dragão que atormentou o Brasil por quase meio século voltou a entreabrir os olhos neste janeiro: o índice de 0,86% é o maior dos últimos dez anos ─ e elevou para 6,15% a taxa anual. Os números seriam ainda mais perturbadores se os prefeitos Fernando Haddad e Eduardo Paes não tivessem adiado, a pedido de Dilma Rousseff, o aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo e no Rio. Mas os governantes do Brasil Maravilha seguem contemplando o horizonte com a expressão beatífica de um Gilberto Carvalho quando vê Lula a menos de cinco metros de distância. A coisa vai bem demais, recitam as flores da inépcia. Se melhorar, estraga.

Na quinta-feira, Dilma Rousseff mandou a inflação passear para encontrar-se com o senador amazonense Alfredo Nascimento. Demitido do Ministério dos Transportes depois de pilhado pela imprensa em cenas de corrupção explícita, Nascimento apareceu no Planalto caprichando na pose de presidente do PR. Na sexta-feira foi a vez de Carlos Lupi, apeado do Ministério do Trabalho também por ter aterrissado no noticiário político-policial. No papel de comandante do PDT, Lupi enfim reviu a chefe que lhe inspirou espalhafatosas declarações de amor.

“A presidenta quis trocar ideias com nossos aliados”, fantasiou Gilberto Carvalho. Quem passou a vida trocando favores não tem ideias para trocar. Nas duas audiências, só se tratou do contrato de aluguel que deverá garantir o apoio do PR e do PDT à candidatura de Dilma a um segundo mandato. A trinca não perdeu tempo com assuntos desagradáveis ─ as razões do despejo da dupla, por exemplo. Ninguém infiltrou na pauta temas incômodos ─ a inflação de janeiro, por exemplo. Dilma, Nascimento e Lupi examinaram exclusivamente questões ligadas à eleição de 2014. O passado e o presente ficaram fora da pauta que só tratou do futuro.

No lugar da presidente ocupada com dois casos de polícia, irrompeu no picadeiro o inevitável Guido Mantega. O que tinha a dizer sobre o índice divulgado pelo IBGE? “A projeção é de que janeiro foi o pico”, reincidiu a usina de vigarices. Depois de atravessar 2012 enxergando um pibão até ser atropelado pelo pibinho, depois de recorrer a trapaças de envergonhar qualquer 171 para esconder crateras nas contas públicas, Mantega recomeçou a sequência de previsões cretinas. A tapeação não pode parar.

“Eu não tenho projeção até dezembro, mas nos próximos meses a inflação vai para baixo”, mentiu outra vez. Até o aprendiz de ilusionista disfarçado de ministro da Fazenda sabe que a taxa de janeiro seria mais alarmante se o o preço da gasolina subisse no começo do ano, como queria Graça Foster, presidente da Petrobras. O próximo índice já refletirá os efeitos desse aumento.

Ainda no primeiro semestre, queiram ou não os prefeitos companheiros, paulistanos e cariocas estarão pagando mais caro para embarcar em ônibus, trens urbanos e metrôs. O crescimento da demanda (estimulado pelo governo) e a redução da oferta (decorrente da retração da atividade industrial) ameaçam reprisar a parceria historicamente perversa. E a curva ascendente dos preços dos alimentos começa a causar estragos sobretudo nos bolsos da classe média (velha ou nova).

Como registra o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, milhões de brasileiros sensatos estão compreensivelmente inquietos com os sinais emitidos pelo monstro adormecido há quase 20 anos. Os encarregados de impedir que desperte não perdem o sono por tão pouco. Dilma e Mantega estão brincando com o perigo. Podem acabar engolidos pelo bicho que acordaram.

06/06/2012

às 20:16 \ Frases

Bom argumento

“Estou fazendo uma aliança com o partido, não com pessoas”.

José Serra, candidato tucano à prefeitura de São Paulo, ao explicar a aliança entre PSDB e PR, partido do mensaleiro Valdemar Costa Neto e de Alfredo Nascimento, ex-ministro de Dilma, e Tiririca.

05/06/2012

às 17:21 \ Sanatório Geral

Tudo explicado

“Política é muito dinâmica. É assim que funciona”.

Alfredo Nascimento, presidente do PR e ex-ministro dos Transportes do governo Dilma, durante a solenidade que oficializou o apoio do partido ao candidato José Serra, dizendo que fazer política é assinar o contrato de aluguel mais vantajoso.

05/06/2012

às 16:43 \ Direto ao Ponto

O acordo com o PR mostra que, para o PSDB paulista, a honra agora vale menos que 1 minuto e meio no horário eleitoral

O jornalista Carlos Brickmann escreveu em sua coluna a nota que se segue. Volto no fim.

COMPANHEIRO É COMPANHEIRO
Daqui a pouco vai fazer um ano: o PSDB e o DEM pediram à Procuradoria-Geral da República que investigasse denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes, controlado pelo PR. Há a citação de alguns nomes, entre eles o deputado federal Valdemar Costa Neto e o então ministro Alfredo Nascimento.

Exatamente onze meses depois, o ex-ministro Alfredo Nascimento, em nome do PR, levou o apoio do partido a José Serra, candidato do PSDB e DEM (e vários outros partidos) à Prefeitura de São Paulo. O acordo foi articulado pelo comandante supremo e incontestável do PR em São Paulo, Valdemar Costa Neto.

O caro leitor não entendeu nada? Ainda bem.

Parafraseando Bismarck, o unificador da Alemanha, “quanto menos soubermos como são feitas a política e as salsichas, melhor dormiremos à noite”.

A coisa é um pouco pior. O PR é mais que uma quadrilha expulsa do Ministério dos Transportes graças às denúncias da imprensa independente. É o atual codinome do bando que, disfarçado de PL, ajudou a fundar o mensalão em meados de 2002, num encontro no apartamento do deputado petista Paulo Rocha em Brasília. A sigla já sob o controle de Waldemar Costa Neto foi representada pelo senador José Alencar. Em nome do PT, compareceram Lula, José Dirceu e Delúbio Soares. O contratato de aluguel estabeleceu que o PL receberia R$4,8 milhões para apoiar a dobradinha Lula-Alencar no duelo com o tucano José Serra.

Agora candidato à prefeitura paulistana, Serra entendeu que, por 1 minuto e meio a mais no horário eleitoral gratuito, valeria a pena considerar prescrito o acordo criminoso celebrado há dez anos ─ e fazer de conta que o PR não foi varrido do primeiro escalão por assalto aos cofres públicos. “Estou fazendo uma aliança com o partido, não com pessoas”, desconversou. Como se fosse possível juntar-se ao PT e manter distância de Lula. Como se fosse possível uma aliança com o Comando Vermelho sem o aval de Fernandinho Beira-Mar.

Em troca de 1 minuto e meio na TV, o PSDB vai andar de mãos dadas com o senador Alfredo Nascimento, despejado do Ministério dos Transportes por corrupção, fingir que o deputado Tiririca é intelectual desde bebê e, pior, amancebar-se com Valdemar Costa Neto, vulgo Boy. Hoje deputado federal e secretário-geral do PR, Boy é um prontuário ambulante de alta periculosidade.

Foi ele quem teve a ideia de chamar a modelo Lilian Ramos para fazer companhia ao então presidente Itamar Franco no camarote na Sapucaí. A bela jovem sem calcinha virou primeira-dama por uma noite. Um dos fundadores do mensalão, Boy tornou-se em 2005 o primeiro parlamentar a renunciar ao mandato para escapar da cassação inevitável. Recuperou o gabinete na Câmara na eleição seguinte e nunca perdeu o acesso direto aos cofres do Ministério dos Transportes.

Em julho de 2011, quando foi descoberta a mais recente safra de escândalos, achou prudente afastar-se das cenas do crime espalhadas por Brasília. Terá tempo e espaço de sobra para agir em São Paulo. Os 90 segundos na TV vão garantir-lhe o direito de infiltrar comparsas na prefeitura da capital e e no governo estadual. Geraldo Alckmin também prometeu apoio aos candidatos do PR na região de Mogi das Cruzes, berço e bunker do notório vigarista.

“Se for proibido fazer coligações com partidos que têm pessoas que estão no processo, o PT não poderia nem disputar a eleição, porque foi ele quem coordenou e comandou a organização desse chamado mensalão”, tentou sair da areia movediça José Serra. Afundou mais um centímetro ao ressaltar as semelhanças entre o PSDB e o PT num momento que recomenda aos berros que aprofunde as diferenças entre um partido e uma organização fora-da-lei.

Afundou mais dois centímetros ao referir-se à maior roubalheira da história republicana como “esse chamado mensalão”. Como o julgamento da quadrilha chefiada por José Dirceu deverá começar em agosto, a dois meses da eleição, é possível que Serra esteja ensaiando a retificação do discurso de campanha. Costa estará no banco dos réus, e não convém melindrar um parceiro de palanque. Por 1 minuto e meio no horário eleitoral,  os tucanos paulistas se proibiram de transformar em trunfo político o mais vistoso desfile de larápios já transmitido ao vivo pela TV.

O acordo com o PR escancara, mais uma vez, o abismo que separa a oposição oficial da oposição real, formada por brasileiros que respeitam a lei, os valores morais e as normas éticas, não cedem à tentação de justificar o injustificável, não fazem concessões ao farisaísmo, à hipocrisia e à pouca vergonha, não aceitam a tese de que, em política, só é feio perder a eleição. A oposição oficial teima em ignorar que a oposição real não tem bandidos de estimação. O eleitorado  honesto está farto de votar por exclusão e escolher o mal menor.

O país que presta insiste em ver as coisas como as coisas são. E o que vê informa que, para o PSDB paulista, a honra agora vale menos que 90 segundos na TV.

18/04/2012

às 18:46 \ Direto ao Ponto

Hillary Clinton conseguiu enxergar um convento na usina de corruptos impunes

size_590_Dilma_Rousseff_e_Hillary_Clinton Roberto Stuckert Filho/Presidência

Dilma Rousseff e Hillary Clinton: um novo padrão mundial no combate à corrupção (Foto: Roberto Stuckert Filho / Presidência)

Quem vê as coisas como as coisas são sabe que Dilma Rousseff fez o possível para evitar o despejo dos ministros que perderam o emprego por envolvimento em bandalheiras de bom tamanho. Se a presidente pudesse tudo, ainda estariam a serviço da pátria e de quadrilhas os companheiros Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Pedro Novais, Wagner Rossi, Orlando Silva e Carlos Lupi. Como não pode tanto, Dilma acabou sucumbindo à repercussão das ladroagens descobertas e divulgadas pela imprensa independente.

De passagem por Brasília, Hillary Clinton decidiu que o governo da protetora de Fernando Pimentel estabeleceu um novo padrão mundial no combate à corrupção. Se acredita no que disse, Hillary só confirma que a maioria dos figurões estrangeiros, embora já tenha aprendido que  não é Buenos Aires a capital do País do Futebol, continua merecendo nota 0 em realidade brasileira. Não é pouca coisa enxergar um convento na imensa usina de corruptos impunes.

Se Barack Obama fizesse nos Estados Unidos o que aqui se faz impunemente, demoraria algumas semanas para transformar-se não numa Dilma Rousseff americana, mas numa reedição piorada do antecessor Richard Nixon. Enfiado até o pescoço nas patifarias reveladas pelas investigações sobre o Caso Watergate, viu-se obrigado a renunciar à presidência em 8 de agosto de 1974. Nixon caiu fora da Casa Branca carregando um prontuário assustador para os padrões americanos.

Aos olhos da turma acampada no Planalto, o que fez o colega ianque é coisa de vigarista amador.

23/03/2012

às 13:51 \ Sanatório Geral

Cargos & cofres

“Política não é só dar cargos, não”.

Alfredo Nascimento, presidente nacional do PR, ensinando que junto com o cargo deve vir o cofre, para que quadrilheiros de estimação pratiquem o salto sobre o dinheiro dos pagadores de impostos, modalidade não olímpica que fez o possível para difundir enquanto piorou o país como ministro dos Transportes.

16/03/2012

às 19:01 \ Sanatório Geral

Maiores abandonados

“Acabou, chega! Ninguém aqui é moleque!”.

Alfredo Nascimento, presidente do PR e ex-ministro dos Transportes demitido por envolvimento em maracutaias, avisando que o partido ficará fora da base alugada até o governo entender que lida com marmanjos que, como já não recebem mesadas dos pais, precisam garantir a sobrevivência com cofres do primeiro escalão.

21/11/2011

às 19:37 \ Direto ao Ponto

Depois do doutor que não lê, o Brasil inventa a faxineira que gosta de lixo

PUBLICADO EM 21 DE NOVEMBRO DE 2011

Além do brasileiro, o Brasil já inventou o analista de juiz de futebol, o jurado de escola de samba, o despachante, o senador biônico, o flanelinha, o comunista capitalista, o cabo eleitoral de ofício, o guerrilheiro que não sabe atirar e a família Sarney. A usina de esquisitices não pode parar, sugerem as duas singularidades incorporadas em 2011 ao vastíssimo acervo de assombros. No começo do ano, o País do Carnaval pariu o único doutor honoris causa do planeta que nunca leu um livro e não sabe escrever. Em seguida, decidiu que Dilma Rousseff seria a primeira faxineira da história que odeia vassoura e gosta de lixo.

Promovida a ministra de Minas e Energia em 2003, Dilma fez mais que conviver anos a fio, sem qualquer vestígio de desconforto, com o lixo amontoado por Lula no primeiro escalão federal. Como atestam três itens no prontuário, a chefe da Casa Civil fez o que pôde para piorar o que já estava péssimo. Com o dossiê forjado contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Dilma aumentou o lixo. Com a conversa em que tentou induzir Lina Vieira a indultar a Famiglia Sarney, escondeu o lixo. E intensificou extraordinariamente a produção de lixo ao transformar em sucessora a melhor amiga Erenice Guerra.

“A corrupção será combatida permanentemente”, mentiu no discurso de posse. Se pensasse assim, seriam outros os ministros na plateia. Ao chamar de volta Antonio Palocci e Alfredo Nascimento, por exemplo, trouxe para dentro de casa o entulho já depositado na caçamba. Ao nomear Pedro Novais e manter no emprego Wagner Rossi e Orlando Silva, afastou do aterro sanitário algumas pilhas de detritos. Ao prorrogar o prazo de validade de Carlos Lupi, revelou que já existe até o lixo de estimação.

Como atestam as fotos feitas no dia da posse, Dilma ficou muito feliz com a escolha dos seis ministros localizados pela imprensa no pântano das maracutaias. Lamentou a partida de cinco e faz o que pode para não se desfazer do sexto. A permanência de Carlos Lupi no Ministério do Trabalho transforma a antiga suspeita em certeza: a faxineira do Brasil Maravilha não consegue viver sem lixo por perto.

09/11/2011

às 14:37 \ Feira Livre

‘A garantia sumiu’, um artigo de J. R. Guzzo

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA

J. R. Guzzo

Eles, os ministros demitidos nestes dez últimos meses, vão embora, provavelmente rumo a um merecido esquecimento. O que fica nos lugares que desocuparam? Ou melhor: o que muda?  Agora já são seis; mais um pouco e já se poderia formar uma Associação dos Ex-Ministros do Governo Dilma Rousseff. Parece, em todo caso, que a quantidade de gente posta na rua até agora é suficiente para pensar em alterações no bioma onde vivem as nossas mais notáveis autoridades. O mais provável é que só com a passagem do tempo, muita pesquisa e trabalho sério será possível descobrir, no futuro, se toda essa mudança na fauna, vegetação e clima do mundo oficial deixou as coisas mais ou menos na mesma, ou se o país ganhou. Por exemplo: a demissão do ministro dos Transportes vai resultar em mais estradas? A demissão do ministro da Agricultura vai melhorar a agricultura? Haverá mais turistas? O cidadão comum praticará mais esporte? É muito positivo, sem dúvida, que a presidente Dilma Rousseff tenha mostrado que denúncias de corrupção podem causar perda de emprego para os envolvidos. Mas os governos existem, no fim das contas, para tornar a vida das pessoas mais cômoda. Se não fizerem isso, para que poderiam servir?

Desde já, provavelmente, dá para dizer uma coisa: pior do que estava não fica. Parece pouco, mas não é; a experiência brasileira mostra que sempre pode ficar pior. No caso, a impressão é que não ficou. Os substitutos, pelo menos até agora, não chamaram a atenção de ninguém por saírem da linha ou por provocarem uma nova bateria de acusações. Também é bom sinal que os infames contratos com entidades dedicadas à vigarice, atualmente uma das práticas mais populares para colocar dinheiro público em bolsos particulares, tenham sido suspensos temporariamente. Se houver aí um esforço verdadeiro para separar o joio do trigo, o Erário vai sair ganhando – naturalmente, desde que se guarde o trigo e não o joio, como tantas vezes acontece. O horizonte, ao mesmo tempo, parece menos carregado. Quando veio a primeira demissão, dava para perceber que muita água ainda ia rolar debaixo da ponte; os ministérios cinco-estrelas em matéria de corrupção, inépcia e desordem ainda não tinham sido tocados. Parece, agora, que as barras mais pesadas já foram atingidas; a esta altura ainda não se tem certeza de nada, claro, mas não há dúvida de que houve progressos, mesmo porque ninguém mais pode achar que está garantido no cargo. O ministro do Esporte, por exemplo, dizia pouco antes de ser demitido que era “indestrutível”.  Talvez fosse, mas o seu emprego de ministro com certeza não era.

É interessante notar, nesta caminhada, uma outra particularidade: num país onde não existe oposição de verdade, e onde os institutos de opinião garantem que a presidente da República tem índices descomunais de popularidade, não haveria necessidade de demitir ministro nenhum. Para quê? Os acusados poderiam perfeitamente continuar em seus lugares. Mas não é o que está acontecendo. Depois de seis demissões seguidas, é visível que o Palácio do Planalto está preocupado com a opinião pública, e se sente na obrigação de dar satisfações a ela – não parece inclinado a conviver com o “malfeito”, como diz a presidente Dilma. Ou seja: ministros e outros mandarins da esfera superior do governo precisam tomar cuidado. Eles não têm como esconder, por exemplo, contratos ou pagamentos feitos nas suas áreas – e, mais do que tudo, não têm controle sobre o que sai na imprensa a respeito desses assuntos, ou quaisquer outros. É um problema e tanto. O que sai na imprensa, hoje, pode ter consequência direta, rápida e desastrosa para o doutor que circula em carro oficial e anda de elevador privativo. Não adianta ele dizer, quando seu nome aparece no noticiário de teor criminal, que “ninguém lê nada” ou que está havendo “uma campanha de difamação” contra o seu nome. Essa conversa continua, inclusive em volta da Presidência, mas é da boca para fora. Na vida real, todos sabem muito bem que a publicação de uma denúncia pesada, hoje em dia, pode ser o fim da linha. Também não adianta ter a TV Brasil, comprar blogs e manter veículos chapa-branca; essas coisas servem para elogiar, mas não seguram ninguém no emprego.

Quantos quilômetros a mais de estrada, e outros benefícios, vamos ter por conta da limpeza ora em curso? Como dito acima, vai se saber mais tarde. Sem o empenho de manter a casa limpa, porém, nada mudará para melhor.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados