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O País quer Saber

09/02/2012

às 14:49 \ O País quer Saber

O desterro atrás das grades

Branca Nunes

João Paulo Escudeiro de Mauro, 20 anos, é piloto de corridas. Ricardo Costa, 39, é modelo. Rodrigo Moreto Cubek, 30, é advogado. Rodrigo Gulart, 37, é surfista. Marco Archer Cardoso Moreira, 48, é instrutor de voo livre. Luiz Antonio Scavone Neto, 20, é estudante. Esses seis brasileiros têm algo em comum. Todos estão ou estiveram presos em países estrangeiros. Segundo o Itamaraty, no fim de 2010, existiam 2.659 brasileiros encarcerados em alguma parte do globo. Entre os sentenciados, dois foram condenados à morte.

Enquanto Ricardo Costa prepara a volta ao Brasil depois de mais de 1.100 dias preso sem julgamento nos Estados Unidos, dois novos casos ganharam as manchetes dos jornais em janeiro deste ano. Durante um cruzeiro do Allure of the Seas, o maior transatlântico do mundo, Luiz Antonio Scavone Neto foi detido em território americano sob suspeita de ter estuprado uma garota de 15 anos. A adolescente, nascida nos Estados Unidos, relatou à polícia ter sido forçada a manter relações sexuais com Scavone e com outro brasileiro menor de idade numa das cabines do navio. No último dia 19, João Paulo Escudero Mauro acabou preso em Miami acusado de dirigir sob a influência de entorpecentes, homicídio culposo e posse de cocaína. Todos juram inocência.

De acordo com o Itamaraty, o número de brasileiros presos, cumprindo pena ou aguardando julgamento no exterior tem flutuado nos últimos anos entre 2.500 e 3.000 pessoas. Entre os países com maior quantidade de brasileiros detidos estão a Espanha (465), Portugal (256) e Estados Unidos (243). Nos EUA e na Europa, um dos crimes mais comuns é “situação imigratória irregular”. Nos países vizinhos da fronteira norte do Brasil, principalmente na Guiana Francesa “atividade ilegal de garimpagem”. Só em Caiena, capital da Guiana Francesa, existem 114 brasileiros detidos.

Garimpo ilegal - Na Guiana e no Suriname, embora não sejam presos por garimpo ilegal, a maior parte dos detentos cometeu crimes vinculados a essa prática, como contrabando de combusível, tráfico de mercúrio e homicídios. “O garimpo é uma atividade extremamente violenta e normalmente envolve dezenas de outros crimes”, explica Luiza Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior do Itamaraty. Na primeira vez em que são flagrados pela Justiça, essas pessoas são deportados para o Brasil. Da segunda em diante, ficam alguns meses detidas, o que faz com que muitas usem identidades falsas, dificultando o trabalho dos diplomatas brasileiros.

“A detenção máxima na Guiana Francesa é de três anos”, revela Luiza. “A intenção deles não é manter essas pessoas na prisão e aumentar o contingente carcerário, mas mandá-las o mais rápido possível de volta para o país de origem”. De acordo com Luiza, esse crime tem se mantido estável nos últimos anos. Na Venezuela, entretanto, onde era bastante comum, praticamente desapareceu. “A polícia venezuelana militarizou as regiões de garimpo, coibindo a prática”, diz Luiza. Moradores dos estados do Amapá, Pará ou Amazonas, os garimpeiros são homens, de uma classe social baixa.

Acima dessas particularidades regionais, a acusação que lidera o ranking é a de tráfico de substâncias ilícitas, normalmente cometido por homens, com idade entre 18 e 35 anos, sem antecedentes criminais. São os chamados mulas. Os países onde os brasileiros mais cometem esse delito estão na Europa e na América do Sul. As cidades capeães em número de detentos são Ciudade del Este (75) e Pedro Juan Caballero (79), no Paraguai, Buenos Aires (128), na Argentina, Lisboa (250), em Portugal, Roma (65) e Milão (94), na Itália, e Madri (300) e Barcelona (141), na Espanha – muitos brasileiros também estão presos na Espanha por falsificação de documentos e violência doméstica (a legislação local sobre o tema é bastante rígida).

“As mulheres também cometem esses crimes, mas os homens ainda são maioria”, afirma Luiza. “Esses chamados mulas são atraídos por promessas de dinheiro fácil e enxergam nisso uma possibilidade de conseguir recursos para começar uma nova vida num país estrangeiro. De 10 mulas, só um é pego. Já que normamente não têm antecedentes criminais, eles costumam alegar que não sabiam que estavam portando drogas”. Esses presos raramente ganham notoriedade. Os casos que conseguem visibilidade envolvem algumas particularidades (veja alguns exemplos abaixo).

Pena capital - Na categoria “narcotráfico” se enquadram Marco Archer Cardoso Moreira, hoje com 48 anos, e Rodrigo Gularte, 37, condenados à morte na Indonésia por tráfico de drogas. Moreira foi preso em 2003 e, Gularte, em 2005. O primeiro transportava 13,4 quilos de cocaína numa asa delta. O segundo, 6 quilos da droga em pranchas de surfe. Pedidos de clemência do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados não comoveram o presidente indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono.

Também condenado por tráfico de drogas, Rogério Paez, 54, ficou encarcerado na Indonésia por oito anos, antes de ser solto em 2011. Parado numa blitz em Bali, onde morava fazia 10 anos, foi preso por causa de um cigarro de 3,8 gramas de haxixe. Engenheiro civil, fluente em oito idiomas, Rogerinho Rock’n’roll – como era conhecido nas areias de Niterói, sua terra natal – afirmou em entrevistas que conseguiu suportar a prisão graças ao budismo, religião a qual se converteu quando já estava atrás das grades.

Ricardo Costa, preso em Sedona, no estado do Arizona, em 19 de dezembro de 2008, foi acusado pela ex-mulher de abusar sexualmente dos próprios filhos. Ele ficou mais de 1.100 dias atrás das grades, sem julgamento. A fiança, que só poderia ser paga em dinheiro, foi estipulada em 75 milhões de dólares – uma das maiores da história dos EUA. Michael Jackson, por exemplo, acusado do mesmo crime, pagou 3 milhões de dólares para recuperar a liberdade.

O reencontro - Embora ignore o dia, a hora e o local, Cristina Costa, mãe de Ricardo, espera abraçar o filho antes do Carnaval. “Eles dizem que não podem revelar os detalhes por uma questão de segurança”, diz ela. “Sei apenas que ele será deixado em solo brasileiro. Pode ser em Porto Alegre, ou em Manaus, de manhã, ou à noite”. O Itamaraty só admite que Ricardo estará no Brasil “nos próximos meses” (o Ministério das Relações Exteriores evita aprofundar-se em casos específicos “para preservar a privacidade dos cidadãos envolvidos”).

O pesadelo de Ricardo começou durante uma audiência do processo de divórcio com a ex-mulher Angela Denise Martin. Cristina e o pai de Ricardo, Sérgio de Souza Costa, testemunharam a chegada dos policiais incumbidos de capturá-lo. A denúncia se baseou na palavra da psicóloga Linda Bennardo, que na época atendia os três filhos do casal. Segundo Linda, as crianças descreveram os crimes durante as sessões de psicoterapia. Meses depois, a terapeuta foi acusada pela entidade que regulamenta a profissão no estado de induzir pacientes menores de idade a mentir, declarando-se vítimas de abuso sexual. Ela renunciou à profissão antes que fosse formalmente proibida de exercê-la. Mesmo alegando inocência, Ricardo continuou preso.

O imbróglio jurídico se estende desde então. A família de Ricardo acredita que a demora excessiva do julgamento do caso pela Justiça americana resulta da ausência de provas e dos equívocos processuais. “Conceder a liberdade era o mesmo que confessar que mantiveram um inocente preso por anos”, afirma Cristina. “As irregularidades começaram no momento em que detiveram meu filho e se estenderam durante todo o processo, que passou pelas mãos de cinco juízes e cinco promotores. Ninguém queria assumir essa culpa”. Ricardo recusou dezenas de acordos que, em troca da confissão e do completo afastamento dos filhos, garantiriam a liberdade e a deportação para o Brasil.

A campanha pela soltura de Ricardo mobilizou o Itamaraty, a Secretaria de Direitos Humanos, embaixadores, senadores e deputados. “Recebemos toda a ajuda possível”, agradece Cristina. “Não somos de família influente, não temos pistolão e mesmo assim a solidariedade e o apoio foram totais”.

Relações exteriores - Conforme explica o Ministério das Relações Exteriores, as autoridades consulares começam a agir assim que são comunicadas oficialmente das detenções. O primeiro passo é entrar em contato com a Divisão de Assistência Consular do Itamaraty e visitar o preso para verificar sua condição física e psicológica. Caso seja autorizado pelo detento, o Itamaraty entra em contato com os familiares. “Alguns presos pedem que a detenção não seja informada, ou que alguns dados relativos à acusação não sejam divulgados, o que é respeitado”, afirmou o ministério, em nota. “A partir daí, a atuação da autoridade consular depende dos dados concretos de cada ocorrência. No entanto, a assistência consular tem como diretriz acompanhar os casos de que o consulado toma conhecimento, sempre buscando se certificar de que os direitos dos brasileiros estão sendo respeitados”. Os parentes podem apelar para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Segundo Luiza Lopes, o Itamaraty sempre procura transferir o preso de volta para o Brasil. Dependendo do país onde estão detidos, entretanto, alguns preferem não retornar. “Na Escandinávia, na Austrália e na Nova Zelândia, por exemplo, eles têm estudo e trabalho de qualidade na prisão”, conta. “No Paraguai a situação é diferente. Muitos querem continuar por lá porque já respondem a crimes, as vezes mais graves, no Brasil”.

Apesar da atuação ser condicionada às leis de cada país, bons advogados podem ter papel determinante para que o caso chegue com mais rapidez a um final feliz. O empenho das autoridades brasileiras também pode ajudar bastante, como atesta o exemplo de Ricardo Costa. Nem sempre dá certo, como comprovam os casos de Cardoso Moreira e Gularte. As muitas tentativas fracassadas não diminuíram as esperanças. Eles ainda acreditam que podem converter em prisão perpétua a condenação à morte.

Conheça a história de alguns brasileiros que vivem ou viveram o desterro atrás das grades:

João Paulo Escudero Mauro, 20 anos, piloto de corridas

Preso em janeiro de 2012, JP Mauro (como é conhecido no circuito automobilístico), é acusado de dirigir sob a influência de entorpecentes, homicídio culposo e posse de cocaína. Ele foi detido em Miami, nos Estados Unidos, depois de perder o controle de seu carro, um Mercedez Benz SUV, e atropelar o americano Russell Knudson, de 45 anos, que guardava a bicicleta na traseira de um Toyota Camry. JP Mauro pagou fiança de 250.000 dólares e aguarda a audiência preliminar em prisão domiciliar, sendo monitorado por um GPS em uma tornozeleira. A audiência está marcada para o dia 17 de fevereiro. O piloto pode ser condenado a até 15 anos de prisão, pena máxima para casos de direção sob influência de bebidas ou drogas (DUI, na sigla em inglês). Ele é filho da socialite Lucinha Mauro, uma das donas do salão 1838, localizado no bairro dos Jardins, em São Paulo.

Luiz Antonio Scavone Neto, 20 anos, estudante

Durante um cruzeiro do Allure of the Seas, o maior transatlântico do mundo, Luiz Antonio Scavone Neto foi detido em território americano sob suspeita de ter estuprado uma garota de 15 anos. A adolescente, nascida nos Estados Unidos, relatou à polícia ter sido forçada a manter relações sexuais com Scavone e com outro brasileiro menor de idade numa das cabines do navio. A garota relatou o caso a funcionários do transatlântico na mesma madrugada em que teria ocorrido o crime, dia 3 de janeiro deste ano. A polícia local e o FBI foram acionados e os dois acusados foram presos. A defesa afirma que a relação sexual foi consensual. Scavone é filho do advogado Luiz Antonio Scavone Filho, que preferiu não dar declarações.

Ricardo Costa, 39 anos, modelo

Acusado de abusar sexualmente dos próprios filhos, Ricardo Costa está há mais de 1.100 dias preso sem julgamento nos Estados Unidos. A denúncia surgiu durante o processo de divórcio de Ricardo com a ex-mulher, Angela Denise Martin. A autora das acusações foi a psicóloga Linda Bennardo, que na época atendia os três filhos do casal. Segundo Linda, as crianças teriam descrito os crimes durante as sessões de psicoterapia. Embora a terapeuta tenha perdido a credencial médica por suspeita de induzir pacientes menores de idade a mentir, levando-os a afirmar que foram vítimas de abuso sexual, Ricardo continuou preso. O governo americano não divulga o dia, a hora nem o local da libertação, mas o Itamaraty confirma que o brasileiro será solto nas próximas semanas.

Rodrigo Gularte, 37 anos, surfista

Rodrigo Gularte é um dos dois brasileiros condenados à pena de morte. Ele foi detido em julho de 2004 no aeroporto de Jacarta, capital da Indonésia, com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surfe. Todos os pedidos de clemência feitos para o presidente indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono, foram negados.

Marco Archer Cardoso Moreira, 48 anos, instrutor de voo livre

Preso em 2004 por tentar entrar na Indonésia com 13,4 quilos de cocaína escondidos em sua asa delta, Marco Archer Cardoso Moreira foi condenado à morte um ano depois. Pedidos de clemência do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados não comoveram o presidente indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono. Nascido no Rio de Janeiro, Moreira ainda tem esperança de converter a pena em prisão perpétua.

Rogério Paez, 54 anos, surfista

Solto em 2011, Rogério Paez ficou encarcerado na Indonésia por oito anos. Parado numa blitz em Bali, onde morava fazia 10 anos, foi preso por causa de um cigarro de 3,8 gramas de haxixe. “Os policiais foram à minha casa e não acharam nada”, contou Paez numa entrevista em novembro de 2010. “Aí, foram num hotel onde fui antes da blitz, revistaram o lugar e encontraram haxixe, cocaína e ecstasy. Só que nada era meu! Mas os policiais queriam que eu assinasse a culpa. Tomei chute, tapa. Nunca briguei na vida, mas, de tanto apanhar, reagi. Puxei para cima o braço do policial que batia mais e quebrei-o. Ele gritou e disse que me arrependeria daquilo”. Engenheiro civil, fluente em oito idiomas, Rogerinho Rock’n’roll – como era conhecido nas areias de Niterói, sua terra natal – afirmou que conseguiu suportar a prisão graças ao budismo, religião a qual se converteu quando já estava atrás das grades.

Rodrigo Moreto Cubek, 30 anos, advogado

No dia 13 de maio de 2011, Rodrigo Moreto Cubek foi preso no Paquistão acusado de tumultuar uma cerimônia religiosa na principal mesquita do País, a Faisal. Ele tentou entrar na área reservada a muçulmanos gritando palavras sobre a Virgem Maria. Cubek foi solto poucos dias depois e deportado para o Brasil. “Apesar de minha disposição por suportar os dissabores que me sobrevieram como conseqüência de minha atitude missionária, agradeço também às pessoas que Deus comoveu para atuar na minoração do meu sofrimento na prisão”, escreveu Cubek na carta em que afirmou que sua atitude foi motivada pela vontade de ter uma discussão religiosa.

25/01/2012

às 16:22 \ O País quer Saber

O áspero colosso

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes e Branca Nunes

A visão da cordilheira de arranha-céus intimida os que acabam de chegar, e quem chega pensando em ficar descobre logo na entrada que o aviso do baiano Caetano Veloso num verso de Sampa vale para qualquer forasteiro: será um difícil começo. O áspero colosso provoca temores que a beleza hipnótica do Rio de Janeiro revoga, sugere perigos que o jeito oferecido de Salvador exorciza. A sexta maior metrópole do planeta jamais sorri no primeiro encontro com desconhecidos (às vezes não sorri nunca) e não consegue ser efusiva com ninguém. Mas tem vagas (e algum tipo de emprego à espera dos aprovados) para todos os que topam submeter-se ao teste de sobrevivência na cidade que completa 458 anos neste 25 de janeiro.

A insegurança dos primeiros meses é acentuada pela sensação de que o perigo mora em cada esquina. Não é bem assim. Em 2000, a taxa de homicídios na cidade era de 64,8 para cada 100 000 habitantes. Em 2010, caiu para treze — uma redução de 80%. Nesse mesmo período, esse índice acusou um crescimento de 113% na aparentemente inofensiva Curitiba. Proporcionalmente, São Paulo é a capital com menos homicídios do país. A campeã é Maceió, com 110 assassinatos para cada grupo de 100.000 habitantes. Mas quem migra para a capital alagoana imagina estar a caminho de um lugar bem menos inquietante e muito mais hospitaleiro que a terra dos bandeirantes.

Essa iniciação invariavelmente sofrida deixa cicatrizes, e mesmo quem se entrega a São Paulo prefere namorar em segredo a cidade que os brasileiros amam odiar em público. Nelson Rodrigues repetiu em várias crônicas que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista, Vinicius de Moraes enxergou o túmulo do samba no lugar repleto de bons sambistas. Entre os grandes compositores de outras paragens, só Caetano, o também baiano Tom Zé e o carioca Martinho da Vila cantaram — com ressalvas — os encantos ocultos da metrópole.

Mas São Paulo continua atraindo gente disposta a enfrentar a muralha de concreto e abrir espaço nos 1.522,986 quilômetros quadrados do perímetro urbano. Nesse território se movem mais de 11,2 milhões de habitantes (11.253.503, no censo de 2010), entre os quais 1,3 milhão de moradores acotovelados nos 55.756 barracos de 1.020 favelas e 21 magnatas cujas fortunas somam 85 bilhões de dólares. Segundo a revista Forbes, apenas cinco cidades abrigam mais bilionários. Também circulam pelo perîmetro urbano 2,5 milhões de cães e 562 000 gatos com endereço fixo, outros milhares sem teto e mais de 7 milhões de veículos. Diariamente, são emplacados outros 1.160, cifra que reforça a suspeita de que, algum dia, os 17.000 quilômetros de ruas e avenidas se transformarão num gigantesco beco congestionado — e sem saída.

NÁUFRAGO FELIZ
Os nativos não atingem 60% da população. Os paulistanos adotivos que não param de chegar seguem ampliando o portentoso mosaico etnorracial forjado por estrangeiros e brasileiros procedentes do país inteiro. Abstraído o quase 1 milhão de paulistas nascidos nos outros 644 municípios, mais de 900.000 baianos compõem a maior colônia regional. São Paulo fala português com todos os sotaques e acentos conhecidos e figura entre as cinco cidades mais poliglotas do mundo. O recenseamento anual da Polícia Federal informa que 306.077 imigrantes com domicílio permanente e 1.579 refugiados representam, somados aos nativos, 152 nacionalidades — quarenta abaixo das 192 agrupadas na Organização das Nações Unidas.

Baseado na documentação apresentada na chegada ao Brasil, o levantamento da Polícia Federal preserva espécies que a ONU considera desaparecidas ou perto da extinção. Sobrevivem em São Paulo, por exemplo, sessenta soviéticos e 136 alemães-orientais. A lista reúne um punhado de pungentes solidões: 25 nacionalidades têm só um representante na cidade. Enquanto católicos pertencentes a comunidades mais populosas frequentam igrejas que celebram missas em chinês ou esloveno, o único nepalês da metrópole só poderá matar a saudade da língua natal se falar sozinho.

Como só entra nas contas da PF quem não nasceu na cidade, em São Paulo o ranking das comunidades estrangeiras é liderado pelos 78.073 portugueses. Se fossem computados os descendentes, a maior coleção de sobrenomes italianos do mundo jamais cairia do primeiro lugar que ocupou por quase 100 anos. A longa supremacia contribuiu para transformar o paulistano num devorador de pizzas. Consome-se na cidade 1 milhão delas por dia, o que equivale a 732 por minuto. Colocadas lado a lado, as pizzas engolidas anualmente formariam uma linha reta cujo comprimento equivale a sete viagens de ida e volta a Roma.

Em São Paulo desde 1978, Lin Chung Long, o Mister Lin, é a metade da colônia formada por dois nativos de Taiwan e também o dono da mais requisitada relojoaria de São Paulo. Aos 58 anos, conserta qualquer tipo de relógio, mas só garante a pontualidade dos outros. Não tem hora certa para abrir a loja nem para encerrar o expediente. Quando baixa a porta de ferro, a inscrição numa placa — “Mister Lin dá um tempo” — identifica um náufrago feliz no oceano de gente aparentemente apressada.“As pessoas querem tudo muito rápido”, lamenta. Essa pressa é enganosa. “Se eu ficar batendo lata no Viaduto do Chá, junto 5.000 pessoas em dez minutos”, garantia Jânio Quadros.

É provável que sim. Os habitantes da cidade que não pode parar vivem parando por qualquer motivo, ou sem motivo algum. Parariam para saber o que fazia aquele homem batendo lata os que param para não comprar o remédio que garante prodígios de virilidade oferecido por um camelô, para comprar uma caixa de Dorflex (o remédio favorito da capital da automedicação) ou para tomar cafezinho e comer pastel de feira. São Paulo bebe 30 milhões de xícaras por dia, 20.833 por minuto. E as barracas das 882 feiras, somadas, vendem 202.000 pastéis por dia, 140 por minuto.

TEMPLO GASTRONÔMICO
Os turistas preferem parar diante das vitrines das 240.000 lojas da cidade. Gastam o que têm nas ruas comerciais do centro, gastam o que não deviam no templo consumista da Oscar Freire ou em alguma das 10.000 lojas entrincheiradas nos shoppings. A cada segundo, dez cartões de crédito e débito são utilizados. A cada dia, são consumadas 864 000 transações. Fazer compras é um item obrigatório na agenda dos 11,7 milhões de turistas — 10,1 milhões de brasileiros e 1,6 milhão de estrangeiros — que desembarcam anualmente em São Paulo.

Segundo o Observatório do Turismo de São Paulo, 43,7% viajam a negócio, 27,5% são participantes de feiras ou congressos e só 12,5% procuram atividades culturais ou outras formas de lazer. A maioria fica de três a quatro dias num dos 42.000 quartos disponíveis nos 410 hotéis. Seja qual for a razão da visita, todos os turistas se enredam alegremente na teia culinária formada por 12.500 restaurantes, que oferecem pratos de 52 tipos de cozinha. No campo da gastronomia, Nova York é a única cidade capaz de rivalizar com São Paulo.

Em 2011, a Virada Cultural juntou 4 milhões de cabeças, a Parada LGBT atraiu 3 milhões e nem a chuva dispersou os 2,5 milhões de participantes do réveillon da Paulista, o principal cartão postal da cidade e a avenida favorita de todos os manifestantes. Em dias normais, 1,5 milhão de pedestres e 90.000 carros circulam pelo antigo reduto dos palacetes dos barões do café que hoje, coerentemente, hospeda o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A entidade representa as 34.000 indústrias baseadas na capital. Essa cifra ajuda a entender por que um município ocupado por 6% da população brasileira concentra 15% do PIB nacional.

A revolução industrial que pariu a metrópole foi inclemente com a paisagem da cidade provinciana. O local escolhido para a construção do Colégio dos Jesuítas garantiu a São Paulo um berço bordado por três rios e mais de 100 córregos. O azul desse deslumbramento fluvial desbotou ou sumiu. O verde resiste como pode. O Parque Estadual da Cantareira disputa o título de maior floresta urbana do mundo. São Paulo tem 2 milhões de árvores. Colhe-se fruta no pé numa jabuticabeira da Avenida Brasil ou nas pitangueiras da Praça Panamericana. Esses pequenos milagres seriam menos raros se o metrô tivesse nascido antes de 1970, se as linhas subterrâneas não resumissem a 70 quilômetros de extensão e se São Paulo aprendesse que não precisa de tanto asfalto.

Os paulistanos ignoram que é possível deslocar-se sem automóvel nem ônibus, e com mais rapidez. Sabem disso os donos dos 400 helicópteros que compõem uma frota inferior apenas à de Nova York. Muitos voam orientados pelo Edifício Itália (165 metros), que deixou de ser o mais alto da metrópole com a inauguração do Mirante do Vale (175 metros), e costumam passar rente à janela do restaurante de onde um homem saltou de paraquedas. Os clientes sempre acrescentam à sobremesa a contemplação da cidade que em 2011 registrou 62.989 casamentos, 8.904 divórcios, 2.063 separações judiciais, 186.119 nascimentos e 77.286 mortes.

Nasceram 510 por dia, morreram 211. No áspero colosso que ameaça matar de susto quem chega, ninguém morre de tédio.

Com reportagem de Fernanda Nascimento e Júlia Rodrigues

13/01/2012

às 15:04 \ O País quer Saber

Autor do livro de cabeceira do PT também escreveu a letra de ‘Marli Meu Travesti’

PUBLICADO NO PORTAL IMPLICANTE

Exclusivo: trazemos a todos vocês a obra de Amaury Ribeiro Jr. que foi censurada pela grande, pequena e até pela média mídia.

Não é nenhum documento secreto escondido no armário, mas sim uma bela canção que consta do álbum “Precoce” (e “precoce” nesse sentido mesmo que você pensou…) de Amaury Ribeiro Jr. Infelizmente, a mídia não deu o destaque necessário a esse talento. Vale dizer que todas as músicas são muito bem escritas e executadas; então escolhemos a esmo a bela cantiga “MARLI, MINHA TRAVESTI”.

Ouçam clicando em “play” (conseguimos localizar a música na web, em mais uma prova de que a arte e a cultura devem ser compartilhadas), a letra está abaixo (foto do encarte, pois obviamente compramos disco tão belo). Depois disso tudo, nossa análise desse clássico.

Melodia muito parecida com “São Paulo, São Paulo”, do Premê. Com uma letra tão genial dessas, sejamos justos, não é lícito cobrar uma melodia 100% original. Vejam só que epopéia:

Alguns trechos PRECISAM ser comentados, pois são simplesmente excepcionais e mostram o talento inequívoco do compositor além da interpretação simplesmente perfeita e crível:

E a meio outros pares
Marli, meu travesti
Cruzamos as pernas
Grudamos as pintas
Cresceu a sua mão

Cresceu a mão! Essa metáfora já mostra que o autor pertence às mais sofisticadas escolas da poesia moderna. O que poderia crescer? Ora, muita coisa! Ou apenas uma, enfim… Mas ele escolheu as mãos, logo após unir as “pintas”. A pinta de cada um? O autor e Marli tem cada qual sua pinta, e as uniram. Uma paulada lírica, definitivamente.

Em vez de “em meio a” sai um “a meio”. Ele está certo, ora! Poetas, vocês sabem, têm licença para cometer um ou outro pecadilho, mesmo se for pecado capital para a gramática. Mas o que gramáticos normativos entendem de amor? E de Marli? Pois é… O importante é prevalecer o lirismo. Assim, o leitor/ouvinte recebe uma verdadeira paulada poética.

Fazemos façanhas, inventamos mil transas
Nos damos sem pudor
Somos românticos, apaixonados
O maior dos casais
Adotamos uns filhos
Deixamos os tiros
Em nome do nosso amor

É preciso parabenizar o autor por não estar filiado a escolas e sistemas retrógrados. Suas rimas não são como aquelas conservadoras, que possuem a tal “identidade fonética”. Ele prefere rimar “façanhas” com “transas”, “roupas” com “bocas”, “guardas” e “quebrava”, e a praticamente parnasiana “eróticos” com “simbiótico”.

Também fascina a parte do “deixamos os tiros” cuja motivação (de tê-los deixado) seria “em nome do amor”. Mas o que significam esses “tiros”? Que tipo de “tiro” alguém abandona em nome do amor? Pode ser bangue-bangue ou alguma outra carreira – as dúvidas ensejadas pela canção só a enriquecem.

Trocamos as roupas
Juntamos as bocas
Pra não se separar (…)
Que sonhos eróticos
Que amor simbiótico
Marli, não vivo sem ti

A parte “trocamos as roupas” pode levar a várias interpretações, afinal, quais as de Marli e quais da personagem da composição (que ninguém faz a menor idéia de quem seja)? E é trocar entre si ou cada qual substitui o que veste por outra peça de roupa, talvez mais confortável? Mais uma vez, portanto, o poeta apresenta questões existenciais intrigantes.

O trecho “pra não se separar” é simplesmente uma poesia dentro do poema, pois, se são as pessoas, seria “separarmo-nos”, mas provavelmente diz respeito às bocas e o autor – sabiamente – optou por não flexionar o infinitivo. Ao mesmo tempo, transgrediu ao usar a próclise em vez da ênclise obrigatória. Cumpre uma regra da norma culta e transgride uma mais basilar. Isso é raro e só há uma explicação para isso: talento poético.

Por fim, o nome: “Meu Travesti”.

Os linguistas ainda debatem de forma árdua para consolidar uma determinação gramatical do gênero do substantivo. Por enquanto, vale tanto “a” quanto “o” travesti. Mas como usar uma ou outra forma? O que difere “a” de “o” travesti? O autor optou por “o”, deixando no título, de maneira talentosíssima, a principal dúvida acerca de Marli.

Conclusão
A música só não perdeu esse gênio para a literatura porque, como sabem os que têm polegares opositores e já se puseram a ler de fato o quanto escrito, ele não é exatamente um literato. Mas, no campo da canção popular, é imbatível.

Merece um TRIVIAL, seguramente.

De mais a mais, pedimos ENCARECIDAMENTE que NINGUÉM seja preconceituoso ou agressivo nos comentários. Mesmo os leitores “da antiga” acabarão levando cortes (se bem que, nossos queridos leitores sabem fazer a coisa direito sem ensejar a facada censória).

Ah, sim! Já ia esquecendo… Amaury trabalha na RECORD, emissora do…

Pedimos clemência episcopal (sem cacófato) de Edir Macedo. A poesia acima de tudo, Edir! Contamos contigo: não exorcize a beleza dessa canção.

05/12/2011

às 19:37 \ O País quer Saber

Francisco Fernandes da Silva, marcado para morrer: ‘Vivo exilado em meu próprio país’

Francisco Fernandes da Silva, presidente da Mopaan

Francisco: perseguido por denunciar um esquema de corrupção

Júlia Rodrigues

Presidente de uma organização não-governamental que fiscaliza gastos públicos, Francisco Fernandes da Silva é um homem marcado para morrer. Depois de denunciar um esquema de corrupção montado em Antonina do Norte, cidade cearense de 7 mil habitantes a 473 quilômetros de Fortaleza, passou a receber ameaças e foi espancado no Carnaval deste ano. Incluído em julho no Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH), Francisco não deveria, em tese, se preocupar com a própria integridade física ou de sua família. Na prática, existem motivos de sobra para continuar amedrontado.

Se o programa funcionasse conforme o prometido, ele teria direito a uma espécie de kit segurança: telefone, bina, ronda policial nos locais onde mora e trabalha, colete à prova de bala e transporte seguro – seja lá o que for isso – para circular pela cidade. Tudo por conta do governo. A assistência recebida se limitou a 1.800 reais divididos em três parcelas de 600 reais. “Estou completamente abandonado pelo programa”, resume. “O governo alega ter um dos melhores programas de proteção do mundo, mas tudo não passa de uma farsa”.

A luta contra o prefeito e os vereadores de Antonina do Norte começou em 2008, quando Francisco criou um perfil no Orkut para denunciar os abusos que havia testemunhado. A página utilizada para difundir as revelações demorou menos de um mês para atingir a marca máxima da rede social: mil amigos. O sucesso na internet o incentivou a alçar voos mais ousados. Amparado por ONGs especializadas no combate à corrupção, Francisco resolveu fundar em 22 de dezembro de 2009 sua própria organização: o Movimento Popular Alerta Antonina do Norte (Mopaan), que fecharia as portas em 2011 em decorrência das represálias sofridas.

Edison Afonso(PSB), ex-prefeito de Antonina do Norte

Edison Afonso(PSB), ex-prefeito de Antonina do Norte

Desde o nascimento, a Mopaan manteve sob estreita vigilância a movimentação financeira da prefeitura de Antonina. Nos primeiros 11 meses, os 26 integrantes denunciaram irregularidades encontradas na gestão do então prefeito Edison Afonso (PSB) – cassado em outubro deste ano por compra de votos nas eleições de 2008. Entre as descobertas, destacam-se irregularidades envolvendo desvio de verbas destinadas à saúde e educação, contratação de empresas de fachada e, sobretudo, falcatruas no transporte escolar.

TELEFONEMAS ANÔNIMOS
Em 2009, o município repassou para uma empresa chamada A.P.B.J. Construções, Indústria, Comércio e Serviços de Mão-de-Obra LTDA 250 mil reais, referentes à locação de veículos para transporte escolar e prestação de serviços junto à Secretaria de Educação. A empresa, cujo leque de atividades é tão amplo quanto o nome, não tem um veículo sequer. O que se vê em Antonina são crianças transportadas em caminhões pau-de-arara – os caminhões estão registrados em nomes de parentes de vereadores.

No mesmo ano, a A.P.B.J. foi contratada para reformar escolas públicas. Apesar de ter recebido da prefeitura 14 mil reais por escola reformada, só mudou a cor das paredes. Durante as investigações, Francisco descobriu que a sede da empresa fica em uma pequena sala nos fundos de um posto de combustível de Juazeiro do Norte, a 130 quilômetros de Antonina.

Na tentativa de sanar o problema – lê-se jogar a sujeira para baixo do tapete –, o ex-prefeito concedeu a uma construtora a responsabilidade de levar as crianças para a escola. Em 2010, a prefeitura de Antonina do Norte gastou 475 mil reais no aluguel de veículos da empresa Construtora Cruz & Tenório Ltda. A situação, todavia, continuou a mesma. Um relatório do Tribunal de Contas do Município entregue à Polícia Civil constatou que um dos caminhões utilizados para transportar as crianças pertence ao vereador Silvio Sampaio Neto (PSB).

As descobertas da Mopaan desencadearam o pesadelo vivido por Francisco, que em novembro de 2010, passou a sofrer ameaças de morte em telefonemas anônimos. Vereadores de Antonina endossaram as ameaças durante sessão na Câmara. Desde então, o alvo permanece escondido. Foram meses trocando de cidade até se estabelecer no local que está hoje. “Vivo exilado em meu próprio país”, desabafa. “Nem minha mãe sabe onde moro”.

Em 4 de março, sexta-feira de Carnaval, Francisco foi espancado e ameaçado de morte em público por um grupo chefiado por Severino Afonso de Carvalho (irmão do ex-prefeito Edison Afonso). Como o posto policial de Antonina do Norte se recusou a atendê-lo, Francisco teve de recorrer a delegacias de cidades vizinhas para registrar queixa.

No mês seguinte, o promotor de Juazeiro do Norte conseguiu incluir o presidente da Mopaan no Programa de Proteção a Testemunhas (Provita) do governo federal. Insatisfeito com as exigências, ele recusou a ajuda. “Queriam que eu me isolasse completamente do mundo e não dariam garantias de que minhas acusações contra o prefeito seguiriam adiante”, exemplificou. “Eu recusei. Não vou abandonar a luta contra a corrupção”.

TURBULÊNCIAS SUCESSIVAS
Outro fator que contribuiu para que Francisco recusasse a ajuda foi a incerteza quanto à continuidade do estudo dos filhos. Pai de três garotos de 11, 15 e 20 anos, ele queria garantir que o primogênito, estudante de direito e bolsista do Prouni, terminasse a faculdade. “O Provita disse que não poderia afirmar que meu filho seria transferido para outra universidade”.

Em julho, o Ministério Público convenceu também o Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH) a atender Francisco. Mas não chegou nenhum tipo de proteção ou ajuda – financeira, médica ou psicológica. Francisco diz que os dirigentes do programa garantiram que reembolsariam os gastos que ele teve para refugiar-se com a família para outro canto do país além dos demais benefícios oferecidos pela secretaria. De julho a agosto, ele recebeu da ONG Centro Popular de Formação da Juventude 600 reais por mês. Os recibos informam que o valor se prestaria a custear “quatro diárias para a hospedagem”.

Transporte escolar em Antonina do Norte

Transporte escolar em Antonina do Norte

Aos 48 anos e aposentado por invalidez em consequência de uma artrose no fêmur, Francisco garante que nunca se hospedou em hotel algum e que as três parcelas de 600 reais estão muito aquém do que desembolsou. Com a mesma ênfase, afirma que nunca recebeu qualquer assistência por parte do PPDDH. “O governo não sabe nem meu endereço”, registra. “Não confio no programa. Além de nunca terem se interessado pelo meu caso, pertencem ao governo. Justamente quem quer me matar”.

Uma nota enviada ao site de VEJA pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República sustenta que o Centro Popular de Formação da Juventude é a única ONG que mantém convênio com o programa de proteção. A instituição é responsável pelo acolhimento provisório emergencial e pela contratação de equipe técnica federal que atende os ameaçados de morte nos estados que o programa não abrange, como é o caso do Ceará.

A parceria entre a Secretaria de Direitos Humanos e o Centro Popular de Formação da Juventude começou antes mesmo da criação do Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, em 2006. Em seis anos, o governo federal firmou convênios com a ONG que superam 6 milhões de reais.

A ajuda financeira dada ao presidente da Mopaan aliviou a situação, mas está distante de resolvê-la. Além dos riscos a que se expõe todos os dias, Francisco ainda opera milagres para sustentar a família com os 1.200 reais da aposentadoria. “Em Antonina, eu não pagava aluguel e todos meus familiares criam animais ou têm algum tipo de plantação, não precisava me preocupar com alimentação”, lembra. “O dinheiro até sobrava”. Hoje, não é mais assim. Ele e a família se desdobram para conseguir pagar as contas básicas. “Estou passando necessidade”, revela. “É principalmente por conta disso que gostaria de contar com o programa do governo”.

Apesar de o presidente da Mopaan ter relatado o descaso com que se deparou à Secretaria de Justiça e Cidadania do Ceará e à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o órgão responsável pelo programa de proteção explicou, de maneira sucinta, que ignora a situação alegada por Francisco: “O auxílio é prestado diretamente a ele e até a presente data, o programa não recebeu qualquer reclamação do protegido”, afirma. “Qualquer ausência ou lacuna do programa deve ser informada à coordenação estadual do programa e, uma vez constatada, será resolvida”.

Apesar das sucessivas turbulências, Francisco segue no combate à corrupção. “Às vezes eu me arrependo de ter entrado nessa história”, diz contendo as lágrimas. “Mas se tivesse que fazer tudo de novo, sem dúvida faria”. Ele reitera que todos têm a obrigação de agir. “As pessoas gostam de falar mal, mas ninguém faz nada”, lamenta. “A luta contra a corrupção é dura. Se multiplicarmos por mil o número de ativistas que estão nessa batalha, ainda estaremos na metade do caminho”. E aproveita para dar um puxão de orelhas nos manifestantes que se mobilizam só em feriados: “Passeata não basta. Tem que fiscalizar o governo”.  Palavra de quem entende do assunto.

24/11/2011

às 22:29 \ O País quer Saber

Cid Gomes faz em menos de dois minutos o que ninguém fez em menos de dois anos

Obras públicas de bom tamanho exigem estudos preliminares profundos e extensos, orçamentos, cronogramas, editais, licitações, exames de propostas, fiscalização e outras providências que, somadas, escavam um espaço de tempo necessariamente dilatado entre a concepção da ideia e os trabalhos de parto. Não é coisa que se faça da noite para o dia, certo? Depende. No Ceará, por exemplo, o governador Cid Gomes é capaz de fazer em menos de dois minutos o que, até hoje, ninguém fez em menos de dois anos.

No vídeo que registra a conversa entre o governador e um empresário, por exemplo, Cid tangencia, desapropria, verticaliza, constrói, financia, patrocina ─ faz o que ele chama de “rolo” em exatamente 1min47. O país quer saber o que o craque da objetividade está dizendo ao construtor. Convém chamar um tradutor independente.

httpv://www.youtube.com/watch?v=CuNLLuPu8WU&feature=player_embedded

18/11/2011

às 21:39 \ O País quer Saber

Os artistas que contestam a usina não têm nada a dizer sobre a corrupção impune?

Decidido a paralisar as obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, o Movimento Gota D’Água recorreu a uma fórmula tão singela quanto infalível: um recado conciso e direto, um elenco de celebridades globais e um vídeo de 5 minutos distribuído pela internet. Quem assiste ao filme é convidado por rostos e vozes familiares a assinar uma petição que reinvindica a interrupção do projeto ─ e conseguir a adesão de mais dez amigos. Milhares de assinaturas colhidas em 24 horas confirmaram o sucesso da ideia. Sempre funciona.

Também por isso, o país quer saber: o que esperam as mesmas celebridades para juntar-se num vídeo que estimule os brasileiros a mobilizar-se contra a corrupção impune?

15/11/2011

às 20:56 \ O País quer Saber

Dirceu funda o movimento pró-corrupção e Sarney é enviado para o lugar de sempre

Em homenagem às centenas de brasileiros que, nesta terça-feira, decidiram protestar contra a roubalheira institucionalizada mesmo debaixo de chuva, a coluna publica duas notícias alentadoras:

1. O companheiro José Dirceu aproveitou a festa de aniversário de Agnelo Queiroz para reunir no dia 9, numa churrascaria em Brasília, simpatizantes do Movimento Pró-Corrupção. Nem a comida a preço de custo nem a presença do presidente do PT, Rui Falcão, evitaram o fracasso do evento. O número de participantes é insuficiente para eleger um vereador em Passa Quatro, cidade natal de Dirceu.

2. No sábado anterior, dia 5, o show do Jota Quest na Lagoa da Jansen, em São Luiz, oficializou a chegada ao Maranhão do refrão que tem homenageado o senador José Sarney desde a apresentação do Capital Inicial no Rock in Rio. A multidão mandou Madre Superiora para o lugar de sempre. Mas foi a primeira decolagem registrada em território maranhense. Confira no vídeo abaixo.

12/11/2011

às 19:27 \ O País quer Saber

Movimento contra a corrupção volta às ruas neste 15 de novembro em 40 cidades. Veja no mapa a hora e o local das manifestações

Fernanda Nascimento

Dois meses depois das primeiras manifestações, o movimento contra a corrupção voltará às ruas pela terceira vez na próxima terça-feira, feriado que comemora a proclamação da República. A mobilização, que teve início em 7 de setembro, promete organizar atos de protesto em 40 cidades espalhadas por 15 estados. Em 12 de outubro, mais de 25 mil pessoas participaram das passeatas promovidas em dez capitais.

Veja no mapa abaixo as principais manifestações programadas para esta terça-feira. Para conferir os locais dos eventos e acessar os grupos de discussão no Facebook, basta clicar na cidade.

10/11/2011

às 19:31 \ O País quer Saber

De interlocutor a “informante”

TEXTO PUBLICADO NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NESTA QUINTA-FEIRA

Marina Amaral e Natalia Viana
Fomos surpreendidas pela polêmica gerada por uma “notícia” publicada em um blog e reproduzida em grandes portais da internet de que o jornalista William Waack, da TV Globo, seria “informante” da embaixada americana – revelação que estaria dentre os documentos diplomáticos obtidos no ano passado pelo WikiLeaks. A notícia se espalhou pela internet, com grande repercussão nas redes sociais e no twitter. Chegou até mesmo ao site americano HuffingtonPost.

Alguns veículos reportaram ainda que Natalia Viana, uma das diretoras da Pública, como “representante do WikiLeaks no Brasil” teria confirmado tal informação. Dois equívocos: a jornalista Natalia Viana, não é, nem nunca foi, representante do WikiLeaks no Brasil. E não concordamos de modo algum que os documentos do WikiLeaks qualifiquem Waack como “informante” dos americanos.

Esclarecendo o primeiro ponto: em um trabalho voluntário para o WikiLeaks – organização que desafiou o jornalismo com sua exigência radical de transparência –, Natalia Viana foi responsável pela publicação e distribuição dos documentos diplomáticos referentes ao país, cujo conteúdo foi parcialmente relatado pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo,de novembro de 2010 a fevereiro deste ano.

Ao fundar a Pública, o primeiro centro de jornalismo investigativo do país, em abril deste ano, fechamos uma parceria com o WikiLeaks para trabalhar jornalisticamente com documentos obtidos pela organização de Julian Assange. Entre junho e agosto publicamos mais de 50 reportagens com base em documentos não publicados pela imprensa.

CULTIVAR FONTES

Em meio a documentos utilizados como base para uma reportagem que tratava da relação entre a mídia brasileira e a missão diplomática americana, havia, de fato, três documentos que citavam William Waack como interlocutor de representantes dos EUA em três ocasiões: duas vezes com o cônsul americano em São Paulo, e uma vez com o embaixador Thomas Shannon.

Em setembro de 2009, em um encontro com o cônsul na presença de Sérgio Fausto, à época diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), Waack transmitiu uma versão, que circulava à época, de que os então governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves, teriam acertado uma “chapa puro-sangue” do PSDB para disputar a presidência com Dilma Rousseff. O que, como sabemos hoje, jamais se concretizou.

Ao embaixador Thomas Shannon, em fevereiro de 2010, Waack teria dito que, em um fórum com empresários, Aécio Neves teria se mostrado “o mais carismático”, Ciro Gomes “o mais forte”, Serra “claramente competente” e Dilma “a menos coerente”. Waack é classificado pelo embaixador como “crítico ferrenho” do governo Lula.

Em nenhuma passagem dos documentos se pede que a fonte (Waack) seja protegida – sinalizada pela observação de “please protect” (favor proteger) – que, nos documentos diplomáticos dos EUA, indicam fontes que passam informações relevantes, de bastidores ou internas. Há uma passagem dúbia em que se pode pensar que Waack é chamado de “insider”, mas nada na conversa aponta para o fato de ele ser mais do que um jornalista com algumas especulações sobre o futuro da disputa eleitoral.

O simples fato de um político, jornalista ou empresário ir até à embaixada ou ao consulado americano não significa que ele seja considerado um informante pelos diplomatas dos EUA. Como sabem diplomatas e jornalistas, representantes estrangeiros se reúnem o tempo todo com pessoas do país para se informar, sentir o que pensam determinados setores, para afinar sua visão sobre a política ou a economia do país; é esse o seu trabalho. Do mesmo modo, não se pode criticar políticos ou jornalistas por se aproximarem dos diplomatas, também com o objetivo de buscar informações ou cultivar fontes que possam trazer novidades sobre as relações bilaterais.

CONVICÇÕES POLÍTICAS

Waack foi apenas um dos jornalistas que conversaram com diplomatas americanos. Outros nomes – como Fernando Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ou Leonardo Sakamoto, jornalista que cobre e luta contra o trabalho escravo no país (e que é conselheiro da Pública) – também são citados nos documentos do WikiLeaks em conversas com diplomatas americanos.

Nada mais normal. Culpar um jornalista por ter conversado com um embaixador é como punir um mecânico por estar com as mãos sujas de graxa.

O fato de alguém ir ou não à embaixada só é notícia se o conteúdo da conversa é importante – uma informação de bastidor sobre o governo, por exemplo – ou se a própria visita à embaixada for algo que o público em geral jamais imaginaria.

É o caso, por exemplo, do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que segundo os documentos compartilhava abertamente com os americanos a antipatia em relação ao “antiamericanismo” do Itamaraty; não hesitou em contar que Evo Morales teria tido um tumor no nariz; e passou informações sobre a compra dos caças, de interesse comercial dos EUA, e sobre parcerias militares com outros países no combate ao narcotráfico.

Do mesmo modo, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu criticou Lula e o PT em um encontro com o ex-assessor do Departamento de Estado americano Bill Perry, isentando-se de responsabilidade pelo esquema que ficou conhecido como mensalão; e o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT, notório crítico da atuação americana e advogado de diversos integrantes do MST, contou bastidores do PT e do MST ao cônsul americano em São Paulo.

Já Wiliam Waack apenas transmitiu suas opiniões – a favor do PSDB e contra o PT – e arriscou palpites políticos em suas conversas com os diplomatas americanos. Talvez a preferência do jornalista da Globo pelo partido tucano seja algo não muito claro para o público que o assiste todo dia na televisão. Aqui, a polêmica é outra, e bem mais interessante: será que os jornalistas deveriam ser mais claros sobre as suas convicções políticas quando debatem o assunto diante do público? Infelizmente, todo o alvoroço que se fez sobre o caso jamais tocou nesse assunto.

AOS FATOS

Neste caso, como tem acontecido com uma velocidade impressionante, uma “notícia” mal apurada foi reproduzida por diversos veículos, na pressa de produzir mais, e não melhor.

Não há nada de novo no ar. Todos os documentos diplomáticos do WikiLeaks referentes ao Brasil estão disponíveis ao público desde julho deste ano. Dica da Pública: basta acessar o site www.cablesearchnet.orge buscar por palavra-chave para formar sua própria opinião sobre assunto.

Para nós, jornalistas, passado o vendaval de notícias, não seria má ideia se debruçar sobre esses ricos documentos que ainda escondem muitas histórias de interesse público e servem como ponto de partida para investigações relevantes. Ou será que já esquecemos as revelações sobre a prisão de suspeitos de terrorismo sob acusação de narcotráfico para “não levantar suspeitas”? Ou que 30 oficiais da DEA americana foram transferidos para o Brasil depois de expulsos da Bolívia por espionagem?

É hora, como dizemos na agência Pública, de deixar a polêmica vazia de lado e buscar os fatos.

09/11/2011

às 16:54 \ O País quer Saber

A afilhada desmente o padrinho e confessa que o Brasil Maravilha só existe no cartório

O vídeo de 2min35 resume a farsa que começou há quase 10 anos e só vai acabar quando o eleitorado enxergar a diferença entre gente séria e embusteiros vocacionais. Confira.


 

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