Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Ciro solto na praça é um perigo

8 de fevereiro de 2010

Como Ciro Gomes está novamente solto na praça, a coluna convida os leitores a conferir, no vídeo, o que pode acontecer quando os enfermeiros do Sanatório liberam um interno antes da hora:

O prontuário rasgou o discurso

3 de fevereiro de 2010

O filme foi enviado pelo Reynaldo, com o seguinte comentário:

Este filme de Glauber Rocha (produzido por Luiz Carlos Barreto, sempre ele) foi encomendado por Sarney em 1966, como um documentário sobre a eleição e a posse do atual presidente do Senado, à época no Governo do Maranhão. Dois anos após a Redentora, a ditadura que nos pesou e que ele tão bem defendeu. São 44 anos!
Quatro vezes o mandato de Chaves. Quatro décadas de domínio absoluto, imperial e sem limites de qualquer espécie.
Sarney nunca usou o filme de 10 minutos. Deve ter pago, afinal de graça, sabemos que Barretão não trabalha.
Glauber, como sempre, gênio incontrolável fez o que devia.
Bem, vejam por vocês mesmos. Dói e é triste. Até porque atual…
Vale a pena!

Derrubado no primeiro turno, Mário Covas nocauteou Maluf

23 de janeiro de 2010

Candidato à reeleição em 1998, Mário Covas fez a travessia do primeiro turno a bordo de temas administrativas. Aconselhado por marqueteiros, trocou o discurso político pelo programa de governo, substituiu o confronto de ideias por comparações numéricas. Evitou bater de frente com Paulo Maluf, mas colidiu com as urnas. Com 3.813.186 votos, 70 mil à frente da terceira colocada Marta Suplicy e longe demais dos 5.351.026 de Maluf, quase ficou fora da etapa decisiva.

“Vou mudar tudo”, comunicou na reunião convocada para planejar o segundo turno. “Eleição de governador não é nomeação de gerente. A briga agora vai ser política e moral”. Dias depois, ao transmitir o primeiro debate do duelo final, a TV Bandeirantes documentou o começo da virada espetacular. Seguro, fluente, combativo, Covas abriu e fechou o programa recomendando ao eleitorado que comparasse a história e o caráter de cada candidato. E fustigou duramente o adversário durante a luta inteira.

O video que registra os últimos minutos do debate mostra um governador a caminho do segundo mandado e um desafiante grogue com o nocaute.  Mário Covas foi reeleito com 9.800.253 votos. A maior votação alcançada por um governador de São Paulo.

O rebolado indecente que elegeu a eterna Musa do Mensalão

11 de janeiro de 2010

A deputada Ângela Guadagnin precisou de uma única apresentação de 29 segundos para eternizar-se no posto de Musa do Mensalão. Em 23 de março de 2006, excitada com a votação que afastou da guilhotina o mandato do colega mineiro João Magno, a parlamentar do PT paulista improvisou a Dança da Pizza ─ e começou a sair do Congresso para entrar na história nacional da infâmia.

“Naquele momento, manifestei um sentimento de alegria de uma pessoa que conhece a trajetória de João Magno, não só o compromisso e seriedade que ele tem com a coisa pública, mas também seu mandato como prefeito da cidade de Ipatinga e o mandato dele em defesa da população”, tentou justificar-se a deputada horas depois da performance obscena. ”De jeito nenhum quis agredir ninguém, tripudiar com o cidadão ou comemorar a impunidade, como algumas pessoas disseram”.

A explicação foi tão convincente quanto o rebolado. Envolvido no grande escândalo até o pescoço, o próprio Magno admitiu ter embolsado mais de R$ 400 mil para jogar no time de corruptos escalado por Delúbio Soares e patrocinado por Marcos Valério. Na sessão abrilhantada pelo numerito de Ângela Guadagnin, 207 parlamentares aprovaram a cassação do mandato. Faltaram 50 votos para que o castigo se consumasse.

A dançarina não escapou da punição: em outubro de 2006, não conseguiu reeleger-se. Hoje, a ex-prefeita de São José dos Campos é só vereadora. Em contrapartida, tornou-se para sempre a Musa do Mensalão.

O mais obsceno top-top-top da História sempre vale replay

17 de dezembro de 2009

Em 19 de julho de 2007, numa sala do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia assistia ao Jornal Nacional em companhia de um assessor sem saber que uma câmera de TV vigiava suas reações.  Perto das 20h30, o apresentador informou que a tragédia com o avião da TAM em Congonhas, ocorrida dias antes, fora provavelmente provocado por falhas mecânicas, não pelo péssimo estado da pista.

Quer dizer que o governo não tem culpa?, animou-se o conselheiro presidencial para assuntos cucarachas. Feliz, esqueceu os mortos, a compostura, a sensatez, a compaixão. Só pensou na imprensa golpista, que incluíra, entre as causas possíveis, a comprovada incompetência do governo para lidar com a aviação civil em geral e, em particular, com os aeroportos. E revidou com um gesto assombroso, secundado pela movimentação repulsiva do assessor.

Foi o mais obsceno top-top-top da história. Vale replay.

Como naufragar em 12 segundos

16 de dezembro de 2009

Só nesta quarta-feira se soube que a náufraga de Copenhague escapou por pouco da morte por afogamento. Numa nota de 16 linhas perdida na página 19, a Folha informou que um acordo costurado às pressas entre militantes nativos e estrangeiros impediu que Dilma Rousseff fosse contemplada com o antiprêmio “Fóssil do Dia”. Concebido por um colegiado de Ongs, a distinção indesejável é entregue a quem complica com especial eficácia a busca de soluções para problemas ambientais.

Dilma transformou-se em candidata imbatível ao declarar incompatíveis o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. A sorte da virtual vencedora do “Fóssil do Dia” é que o colega Carlos Minc assimila grosserias como um grande pugilista assimila jabs desferidos por novatos. Com a ajuda de dirigentes de Ongs brasileiras, ele esqueceu a chuva de pitos promovida pela chefe e conseguiu dos coordenadores da antipremiação a transferência do constrangimento para os Estados Unidos. Minc jurou que a ministra tem cura. O vídeo afirma o contrário.

O naufrágio precipitado por 27 palavras divididas em duas frases durou 12 segundos. No primeiro, Dilma Rousseff ergue os olhos pousados no texto para avisar em 13 letras (O meio ambiente é) que vai discorrer sobre o antigo desafeto. Contemplando um ponto imaginário à sua esquerda, um metro acima das cabeças na plateia, a oradora sublinha antecipadamente (sem dúvida nenhuma) o que dirá em seguida. Retoma a leitura do script e parte para a definição que, desastrosa em qualquer lugar, explodiu como um míssil na Conferência do Clima de Copenhague: uma ameaça ao desenvolvimento sustentável.

Se havia um não antes do é, foi sintomaticamente suprimido dos caracteres digitados no teleprompter da alma. Se não havia, Dilma é incapaz de distinguir um naufrágio de um banho de mar. As imagens só informam que a mulher com sotaque mineiro não se dá conta do que acabou de ocorrer. Fundindo enfado e estupidez no olhar sem brilho, volta à contemplação do horizonte insondável e improvisa o atalho para o ponto final: Isso significa que é uma ameaça pro futuro do nosso planeta e dos nossos países“. Se o planeta é ameaçado, também os países estão em perigo. Faz sentido. Platitudes quase sempre fazem sentido.

Fechada na ministra, a câmera não exibe a reação da plateia nem dos parceiros de comitiva. Ficam fora, por exemplo, a perplexidade do embaixador Luiz Figueiredo, que chefiou a delegação brasileira até a chegada da candidata à Dinamarca, o horror estampado no rosto de ambientalistas militantes e o espetáculo da orfandade protagonizado por cabos eleitorais da Mãe do PAC. Não importa. Nenhum vídeo assim curto devassou com tão perturbadora nitidez a cabeça permanentemente em tumulto.

A gerente de país sempre achou que qualquer paisagem ficaria muito melhor se exibisse soja em vez de mata, sempre defendeu a semeadura de turbinas nos leitos dos rios selvagens. (”Não tem como garantir um crescimento com energia limpa sem as hidrelétricas”, reincidiu em Copenhague). Lula achou que uma semana na Dinamarca transformaria o Terror da Amazônia em Amiga da Selva. Até que vieram as 27 palavras.

Valeram mais que mil discursos. Fora o troféu, que ficou para a próxima.

O cara mostra a cara em Pelotas

10 de dezembro de 2009

“Não existe confiança absoluta, porque a fita do Lula sobre Pelotas acabou no nosso inimigo”, exemplifica José Dirceu no vídeo incorporado ao post anterior. A lembrança do episódio aguça a ira mal contida do chefe da campanha de 2002, inconformado com a entrada na sala da equipe que produzia o documentário Entreatos, de João Moreira Salles.

Que fita é essa?, perguntaram numerosos leitores da coluna que ainda não viram a cena antológica. Dura só alguns segundos. São suficientes para que o cara mostre a sua cara. Confira:

O herdeiro do trono de Lula herdou a mala da Dilma

2 de dezembro de 2009

A cena protagonizada por José Dirceu no documentário Entreatos, de João Moreira Salles, resume o estilo do guerrilheiro de festim em seu apogeu. O comandante da campanha presidencial a poucos dias do triunfo exibe a voz imperiosa do capitão do time, o tom impaciente do superexecutivo, o olhar periférico do sabe-tudo, a alma desconfiada do especialista em altas costuras políticas - todos os sinais que ajudam a identificar um herdeiro do trono.

Sete anos depois, é candidato a coordenador da campanha da candidata que Lula escolheu. O homem que queria ser presidente da República vai acabar, quem diria?, carregando a mala da Dilma.

O campeão de popularidade e o Teste do Maracanã

25 de novembro de 2009

Confiante nos institutos de pesquisa, Lula acha que a taxa de popularidade, entre o Natal e o Ano Novo, vai bater nos 100% (ou 103%, se a margem de erro oscilar inteira para cima). Desconfiada dos institutos de pesquisa, a oposição acha que só a multidão dos que desancam o governo na internet já passa de 10% da população nacional.

Resolvida a liquidar a controvérsia, a coluna propõe ao presidente uma segunda edição do Teste do Maracanã. O primeiro ocorreu na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007 e, como comprova o video, custou ao campeão de popularidade uma vaia de constranger até juiz assumidamente ladrão. Os companheiros alegam que, na época, a taxa de sucesso era de apenas 60%.

Vem aí a última rodada do campeonato brasileiro. Para saber-se quem tem razão, basta que Lula entre no estádio discretamente, peça licença ao locutor e surpreenda a arquibancada com o cumprimento amplificado pelo sistema de som: “Boa tarde, companheiros e companheiras!” Como reagirá o distinto público? Com a ovação consagradora? Ou com outra vaia desmoralizante? 

Vai nessa, presidente.



Cenas de antigos debates abrem a seção que ficou mais abrangente

16 de novembro de 2009

A seção mudou outra vez de nome para tornar-se ainda mais abrangente. Nasceu batizada de Quebra de Sigilo. Passou a denominar-se Inimigos Íntimos para mostrar o que já disseram uns dos outros os que agora posam de amigos de infância. E acaba de ser rebatizada para juntar ao vasto material já arquivado todas as imagens que tenham relevância histórica. Trechos de antigos debates eleitorais, por exemplo.

Ataques contundentes, tiradas divertidas, réplicas desconcertantes, imagens inventivas ─ só políticos com raciocínio rápido e bastante jogo de cintura sabem usar na dosagem certa esses golpes, truques e movimentos que decidem um debate eleitoral. Como outra temporada de caça ao voto está começando, vale a pena rever alguns trechos de duelos travados, em campanhas passadas, por Leonel Brizola, Paulo Maluf, Franco Montoro, Jânio Quadros, Lula, Fernando Collor, Mário Covas e Guilherme Afif Domingos.

É excitante imaginá-los num confronto com os atuais candidatos a presidente. O que seria de Dilma Rousseff, por exemplo, se tivesse como adversário um Jânio Quadros?