Blogs e Colunistas

Baú de Presidentes

12/12/2011

às 15:50 \ Baú de Presidentes

‘A soma e o resto’, o livro mais recente de Fernando Henrique Cardoso

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Desde que a carranca de Jânio Quadros substituiu o sorriso de Juscelino Kubitschek em 1961, o gabinete presidencial já hospedou napoleões de hospício, generais de exército da salvação, perfeitas cavalgaduras, messias de gafieira, gatunos patológicos, vigaristas provincianos e outros exotismos da fauna brasileira. A rotina da anormalidade ─ que seria retomada por Lula, um ex-operário metalúrgico que acha leitura pior que exercício em esteira, e mantida por Dilma Rousseff, primeira mulher a exercer o cargo (e provavelmente a primeira figura a governar um país sem conseguir expressar-se de modo inteligível) ─ só foi interrompida entre 1° de janeiro de 1995 e 31 de dezembro de 2002, quando o Palácio do Planalto abrigou Fernando Henrique Cardoso. A soma e o resto ─ um olhar sobre a vida aos 80 anos (Civilização Brasileira; 195 páginas; 29,90 reais) confirma que foi FHC o ponto fora da curva. Lula e Dilma são duas formidáveis singularidades, mas parecem à vontade na galeria de retratos que os tornou vizinhos de parede de Jânio, João Goulart, Emilio Medici, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor ou Itamar Franco. Todos executam harmoniosamente a partitura da ópera do absurdo. O acorde dissonante é Fernando Henrique, constata quem ouve as mais de 10 horas de lembranças, reflexões e desabafos reunidas no livro organizado por Miguel Darcy de Oliveira.

Eleitos pelo voto popular ou impostos pelo regime militar, quase todos os ex-presidentes têm tudo a ver com o Brasil dos 14 milhões de analfabetos, dos 50 milhões que não compreendem o que acabaram de ler nem conseguem somar dois mais dois, da imensidão de miseráveis embrutecidos pela ignorância. Tal paisagem ajuda a entender por que tantos brasileiros se dobraram a populistas sedutores ou foram dobrados por autoritários fardados. E torna especialmente intrigante a passagem pela Presidência de um intelectual brilhante, exemplarmente democrata, que escreveu muitos livros e fala sem espancar a língua portuguesa. A leitura de A soma e o resto explica alguma coisa, mas acentua a suspeita de que Fernando Henrique tinha tudo para não ser presidente do Brasil da virada do século.

“Este talvez seja o livro mais espontâneo que já publiquei”, avisa FHC. É mesmo: a transcrição quase literal das falas resultou numa obra sem parentesco formal com a escrita sofisticada (e eventualmente impenetrável) do sociólogo mundialmente respeitado. Tal opção cobrou seu preço em redundâncias, raciocínios que pedem mais espaço e histórias interrompidas. Esses pecados veniais são amplamente compensados por revelações que só ocorrem em diálogos sem gravata. Avesso a derramamentos e confidências, FHC nunca foi tão longe nas viagens íntimas, sobretudo as que o levam a reencontrar os pais e os avós. Aos 80 anos, completados em 18 de junho, ele enfim se animou a esboçar o retrato de um futuro presidente quando menino. Acabou tornando bem mais nítidos os contornos do adulto. “Sou cartesiano, mas com pitadas de candomblé”, informa. “Acasos, acidentes, escolhas, capacidade para assumir riscos… Os pontos de inflexão na minha trajetória são um misto de tudo isso”.

A frase se ampara na trajetória do professor universitário que disputou a primeira eleição aos 48 anos, virou suplente de senador, substituiu o titular em 1982, perdeu a prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros em 1985, conseguiu outro mandato no Senado um ano mais tarde e já se conformara com a ideia de tentar uma vaga na Câmara dos Deputados, em 1994, quando o presidente Itamar Franco decidiu que seu chanceler deveria ser ministro da Fazenda. Os acasos e acidentes o colocaram frente a frente com a inflação de três dígitos. Coisas do candomblé. E então o cartesiano entrou em ação. Escolheu uma equipe de economistas excepcionais, comandou a implantação do Plano Real, rebaixou a inflação a porcentagens europeias e virou presidente. Por oito anos.

“É a curiosidade que me move”, diz. “O sentido que dei à minha vida foi tentar perceber o que vem de novo por aí”. Essa curiosidade permanente o levaria a inventar, de volta à planície, a versão brasileira do ex-presidente surgida nos Estados Unidos em 1951, quando a 22ª emenda estabeleceu o limite de dois mandatos. Nesta primavera, por exemplo, José Sarney e Fernando Collor agonizam no Senado e Lula escolhe candidatos a prefeito. Fernando Henrique se reúne com os Elders, grupo de ex-governantes fundado por Nelson Mandela, protagoniza um documentário sobre o problema das drogas, busca soluções para o Oriente Médio, escreve livros e coleciona afagos até da presidente Dilma Rousseff. No Brasil, quem conheceu o coração do poder não consegue respirar longe das urnas. FHC deixou a política miúda para, sem sair da vida, entrar na história.

31/10/2011

às 15:01 \ Baú de Presidentes

A falta que um Tancredo faz

Nas cenas finais de Tancredo, a Travessia, quem conhece razoavelmente o personagem acha que ficou faltando alguma coisa. Tal sensação poderia ser dissolvida, ou pelo menos abrandada, por uma tarja que, sublinhando as comoventes imagens de abertura, exibisse a advertência necessária: Tancredo Neves não cabe em 105 minutos. Essa é a duração do documentário que estreou nesta quinta-feira nas salas de cinema. Enquanto acompanha passo a passo a caminhada de um PhD em política que viveu como protagonista os episódios mais dramáticos ocorridos entre 1954 e 1985, o diretor Sílvio Tendler procura capturar-lhe a essência do pensamento e as características que forjaram o estilo incomparável. É muito assunto para pouco mais de uma hora e meia.

E é muita história para uma vida só. Ministro da Justiça em agosto de 1954, Tancredo primeiro usou o talento de conciliador para tentar conter a cólera dos inimigos de Getúlio Vargas. Na última reunião do ministério, mostrou a valentia que nunca lhe faltou ao defender a resistência armada aos militares sublevados. Consumada a tragédia, pronunciou um discurso feroz à beira da sepultura do grande suicida. Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, o candidato derrotado ao governo de Minas Gerais negociou o acordo entre o vice João Goulart e os generais conservadores que instituiu o parlamentarismo. Emergiu da crise como primeiro-ministro do novo regime.

Em 1964, líder do governo de Jango na Câmara, Tancredo fez o que pôde para evitar o golpe de Estado. Derrotado, ajudou a fundar o MDB oposicionista e seguiu demonstrando que a prudência e a coragem podem e devem andar de mãos dadas. Amigo de Juscelino Kubitschek, cassado em junho, acompanhou o ex-presidente nos humilhantes depoimentos em tribunais militares. Em 1976, voltou ao cemitério de São Borja para despedir-se de Jango, que não pôde ser sepultado com honras de chefe de Estado, com ataques frontais ao governo autoritário.

Em 1983, engajou-se sem ilusões na campanha pela volta das eleições presidenciais diretas, que qualificou de “lírica”  não por desconhecer a importânica da mobilização popular, mas por conhecer bem demais o Congresso. Convencido de que a sucessão do general João Figueireido não seria decidida nas urnas, tratou de tecer desde o começo de 1984 as complicadas alianças que, em janeiro do ano seguinte, garantiram  a vitória sobre o candidato governista  Paulo Maluf  no Colégio Eleitoral. Entre o início das operações de bastidores e o triunfo, Tancredo colocou em prática as lições que resumia numa metáfora fluvial: “Não se tira o sapato antes de chegar à margem do rio. Mas não se vai ao Rubicão para pescar”.

Esperou até a 25ª hora para formalizar a candidatura e deixar o governo de Minas. Chegara à margem do rio. E então partiu para a travessia do seu Rubicão — o rio que todo guerreiro tinha de cruzar para lançar-se à conquista de Roma. Conseguiu o apoio de todas as vertentes da oposição, com exceção do PT. (O detentor do monopólio da ética se negou a votar no candidato da nação e expulsou os três deputados que descumpriram a ordem. Lula achou que Tancredo não merecia confiança também por ter como vice um José Sarney. Hoje amigos de infância, Sarney e Lula são reduzidos a uma dupla de pigmeus oportunistas pela grandeza do presidente que poderia ter sido e não foi).

Na etapa seguinte, Tancredo atraiu dois terços do PDS e isolou Maluf. Como se disputasse uma eleição direta, liderou comícios monumentais em várias cidades brasileiras. Já era um campeão de popularidade quando pronunciou o belo discurso da vitória. Surpreendido pela cirurgia inadiável na véspera da posse em 15 de março, agonizou até 21 de abril, quando deixou a vida para entrar no imaginário popular como herói nacional.

Cada uma das tantas versões de Tancredo vale um livro, cada episódio que protagonizou vale um filme. Como foram todos agrupados num único documentário, é inevitável que certos trechos pareçam rasos demais, incompletos ou de difícil compreensão. A memória nacional sairia ganhando se, por exemplo, fossem incorporadas mais informações ao trecho reservado às restrições feitas por chefes militares ao candidato do MDB. Até render-se aos fatos, o presidente Figueiredo vivia recitando a expressão  “Tancredo never”. Preocupado com as reações da linha dura, o candidato montou em segredo um plano para reagir a um eventual golpe fardado. O excesso de cautela aconselhou Tancredo a ocultar as dores que prenuciaram o drama. Ele achava que os quartéis não admitiriam a posse do vice José Sarney.

Feitas as ressalvas, convém deixar claro que o que parece pouco aos olhos de cinquentões bem informados é mais que suficiente para permitir a quem tem menos de 30 uma pedagógica viagem, conduzida por Tancredo, pelo turbulento Brasil da segunda metade do século 20. No grande viveiro de desmemoriados vocacionais e amnésicos por conveniência, que a cada 15 anos esquecem o que aconteceu nos 15 anteriores, merece ser saudado com tambores e clarins um documentário que trata a verdade com gentileza e conta o caso como o caso foi.

É irrelevante saber se será anexado aos trunfos eleitorais do senador Aécio Neves. Se fosse neto de um avô assim, Tancredo Neves agiria da mesma forma. E pouco importa constatar que a câmera não esconde a admiração pelo personagem. Esse mineiro de São João del Rei que fez da conciliação política uma forma de arte, esteve sempre do lado certo e só depois de morto subiu a rampa do Palácio do Planalto é, decididamente, um estadista admirável.

Outros documentários completarão o painel esboçado pelo retrato pintado por Tendler ─ e concluído na hora certa. Milhões de brasileiros poderão constatar que, há apenas 25 anos, sobrava gente que debatia ideias, defendia programas e não estava à venda. Os corruptos não chegavam tão facilmente ao ministério. A Era da Mediocridade ainda era só um brilho no olhar guloso de Lula e seus devotos. As imagens mostram um José Sarney constrangido, deslocado, consciente da condição de intruso. Virou presidente graças aos micróbios do Hospital de Base de Brasília e à incompetência dos médicos, que se uniram para castigar o Brasil com a perversidade brilhantemente condensada na frase do jornalista Carlos Brickmann: “Sair de Tancredo para cair em Sarney é, definitivamente, encontrar um túnel no fim da luz”.

05/09/2011

às 16:40 \ Baú de Presidentes

João Goulart: Bom coadjuvante, mau protagonista

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Os três únicos brasileiros que assumiram a Presidência depois da República Velha sem ter completado 50 anos não chegaram ao fim do mandato. Jânio Quadros (44), um assombroso fenômeno regional que nunca havia visitado o Palácio do Planalto nem dormira mais que duas noites na nova capital, imaginou que o Distrito Federal fosse São Paulo em miniatura. Rompido com a maioria do Congresso, renunciou no sétimo mês de governo. Fernando Collor (40) imaginou que Brasília fosse uma grande Alagoas. Ampliou o patrimônio sem cautelas, virou as costas ao Legislativo e foi despejado pelo impeachment dois anos e meio depois da posse. A terceira vítima da maldição dos 40 não exibe qualquer semelhança com os companheiros de infortúnio, demonstra o historiador e pesquisador Jorge Ferreira em João Goulart – Uma biografia (Editora Civilização Brasileira; 713 páginas; R$ 69).

Jânio e Collor cediam a impulsos juvenis, tinham muita pressa e nenhuma intimidade com o poder central. Em setembro de 1961, quando substituiu o único chefe de governo que abandonou o emprego voluntariamente, João Goulart tinha apenas 43 anos. Mas também tinha muita paciência, tornara-se um ótimo ouvinte, assimilara a arte da conciliação, pensava demoradamente antes de agir e se movia com desembaraço no Olimpo federal. Veterano de muitas guerras, o gaúcho quarentão compreendeu já no dia da renúncia de Jânio que a mais feroz de todas acabara de começar. E achou que estava pronto para vencê-la.

Como ressalta Jorge Ferreira, Goulart emergiu do anonimato ainda na década de 50, quando o jovem fazendeiro se tornou confidente, depois pupilo predileto e enfim herdeiro de Getúlio Vargas, o ex-ditador desterrado na estância do Itu, no Rio Grande do Sul, desde a implosão do Estado Novo. Para sempre associado ao mito que governou o país por quase 20 anos, e continuou influenciando poderosamente o comportamento do eleitorado por mais 10, Jango elegeu-se deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, ministro do Trabalho, duas vezes vice-presidente da República e presidente do Senado. “João Goulart se formou em Direito e, sobretudo, em política brasileira, pelas mãos de Vargas”, lembra Jorge Ferreira. O aluno aplicadíssimo aprendeu muito. Mas há o que não se aprende em lugar nenhum. Carisma, por exemplo, é marca de nascença. E a centelha que identifica o líder de massas não é uma graça alcançada. É uma escolha do destino

A minuciosa narrativa de Jorge Ferreira permite acompanhar a centímetros de distância a trajetória percorrida por Jango desde a infância em São Borja até a morte na fazenda na Argentina, ao lado de Maria Thereza ─ a mais jovem, bela e injuriada das primeiras-damas. As mais de 700 páginas também escancaram as virtudes e os defeitos de Jango. Embora não oculte a simpatia pelo biografado, o autor não sonega aos leitores os equívocos e escorregões que acabaram por transformar o governo João Goulart no caminho mais curto para a ditadura militar. Incomodado com a “condenação ao esquecimento” que teria sido imposta ao seu personagem pelos historiadores, Ferreira às vezes se entrega à tentação de incluí-lo na rarefeita galeria dos estadistas. Mas o conjunto das informações reunidas no livro se encarrega de corrigir eventuais exageros. Se não foi o arquiteto da república comuno-sindicalista satanizada pelos militares ultraconservadores, nem o burguês que, aos olhos da esquerda primitiva, mascarava com jogadas demagógicas a cumplicidade com o Brasil conservador, Jango tampouco foi uma reedição remoçada de Getúlio Vargas.

Corretamente, Ferreira argumenta que não se pode tratar como um populista sem qualidades o herdeiro indiscutível do maior político brasileiro do século 20. Vale ressalvar, contudo, que o legado incluiu os ódios represados entre agosto de 1954, quando Getúlio se suicidou no penúltimo ano de mandato, e março de 1964, quando os militares tomaram o poder. E não custa registrar as diferenças que separam o mestre do discípulo. Getúlio nasceu para o papel principal. Jango foi sempre um grande coadjuvante. As festejadas performances em papeis secundários, aliás, podem tê-lo desqualificado para encarnar o protagonista. Ministro do Trabalho de Getúlio, por exemplo, ganhou força entre os sindicalistas ao garantir um aumento de 100% no salário mínimo. Em contrapartida, jamais se livraria da suspeita de flertar com comunistas.

Em 25 de agosto de 1961, o almirante Sylvio Heck, ministro da Marinha de Jânio, certamente pensava no ex-ministro do Trabalho ao resumir para Jânio o pensamento das Forças Armadas: “Nós levamos tanto tempo para tirar essa gente do poder. Como é que o senhor vai entregar-lhes novamente o governo? ” ‘Essa gente”, confirmou o tom depreciativo, era a grande seita getulista em geral e, em particular, João Belchior Marques Goulart, promovido a cardeal depois da morte do seu único deus. “Eu tinha certeza que os militares não aceitariam Jango”, contou muitos anos depois. Ninguém podia então adivinhar, no momento da renúncia, que a instituição do regime parlamentarista adiaria por dois anos e meio o desfecho do drama, narrado pormenorizadamente nos capítulos reservados à agonia do regime democrático.

Essas páginas contribuem para transformar João Goulart – Uma biografia em leitura indispensável aos interessados em compreender aqueles tempos crispados ─ e descobrir por que, como a mudança das estações, a queda era inevitável. É compreensível que se tenha consumado sem resistência. Jango nunca olhava as pessoas nos olhos. Desafiado pelas tropas insubordinadas, não quis contemplar o olho do furacão.

25/08/2011

às 19:11 \ Baú de Presidentes

O dia em que o presidente sumiu

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, sete meses depois da posse, o presidente Jânio Quadros precipitou, com sete linhas manuscritas, a sequência de crises que desembocaria, sete anos mais tarde, no Ato Institucional n° 5 – e na instauração da ditadura sem camuflagens. Na manhã de 25 de agosto de 1961, a democracia ainda em sua infância viu-se forçada a renunciar à maturidade, que só seria alcançada caso fossem cumpridos integralmente dois mandatos  consecutivos. O Brasil civilizado pareceu mais distante que nunca no dia em que o presidente sumiu.

Abrupto e inesperado, o último ato foi um fecho coerente para a ópera do absurdo composta desde o primeiro dia de governo, quando Jânio foi ameaçado pela maioria oposicionista no Congresso: se ele continuasse a hostilizar o antecessor Juscelino Kubitschek, uma sessão especial da Câmara e do Senado seria convocada para tratar do assunto. Ainda em 1º de fevereiro, o novo presidente revidou com a criação de comissões de sindicância, chefiadas por militares e incumbidas de investigar “focos de corrupção” que dizia ter herdado de JK.

Nos 204 dias seguintes, o Brasil viajou numa montanha-russa monitorada por um homem de 44 anos que obedecia exclusivamente ao instinto. Tangenciando o penhasco com perturbadora frequên­cia, alternando freadas bruscas com arrancadas vertiginosas, ele aumentou o expediente dos servidores públicos, exonerou meio mundo, suspendeu nomeações por um ano, reduziu o orçamento das Forças Armadas e os quadros funcionais de todas as embaixadas, tabelou o preço do arroz e do feijão, condenou a invasão de Cuba financiada pelos Estados Unidos, planejou a anexação da Guiana Francesa, baixou medidas de combate ao monopólio, desvalorizou a moeda, determinou ao Itamaraty que restabelecesse relações diplomáticas com a União Soviética, proibiu maiô em concurso de miss, lança-perfume, briga de galo, corridas de cavalo em dias úteis e veiculação de comerciais no cinema, mobilizou o Exército para reprimir uma greve de estudantes no Recife, brigou com a maioria dos parlamentares aliados, regulamentou a remessa de juros para o exterior, enviou o vice João Goulart à China, condecorou Che Guevara e rompeu com Carlos Lacerda. No 207° dia de governo, renunciou à Presidência.

Insatisfeito com o Congresso, infeliz com a vida numa cidade que odiava, colérico com o discurso em que Carlos Lacerda o acusou de tramar um golpe de gabinete, Jânio pouco dormiu na madrugada de 25 de agosto de 1961. Saiu da cama antes que o sol nascesse disposto a tirar o sono dos demais brasileiros. Depois do café da manhã ao lado da piscina do Palácio da Alvorada, sobressaltou a mulher, Eloá, com outra frase de novela mexicana: “A conspiração está em marcha, mas vergar eu não vergo!”.

Às 6 horas, já no Planalto, chamou a seu gabinete alguns assessores de confiança e, alisando o bigode de dono de botequim, antecipou a manchete da próxima edição de todos os jornais: “Comunico aos senhores que renuncio, hoje, à Presidência da República”. Durante o desfile do Dia do Soldado, convocou os três ministros militares para uma audiência – e para deixá-los atônitos com a notícia. Rejeitou os apelos para ficar com outro palavrório solene que terminava com a identificação do culpado: “Ajustem o novo Brasil às exigências do Brasil novo. Com esse Congresso eu não posso governar”.

SURTO DE SINCERIDADE
Sem pausas, ordenou ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, que entregasse ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, a carta que redigira no dia 19, depois de  condecorar Che Guevara. Na hora do almoço, embarcou rumo à base aérea de Cumbica, para a demorada escala que precedeu a partida para a Europa a bordo de um navio cargueiro. No dia 26, o país, imerso na perplexidade, pareceu afundar na crise provocada pelo veto dos chefes das Forças Armadas à posse do vice João Goulart.

“Ele foi a UDN de porre no governo”, resumiu Afonso Arinos de Mello Franco, ministro das Relações Exteriores. “Faltou alguém trancá-lo no banheiro”, lastimou. Só se fosse para sempre, sabe-se hoje. Algumas horas de cárcere privado só adiariam a tentativa de instituir o presidencialismo autoritário que o deixaria livre para agir. Na carta da renúncia, o signatário informou que deixara com o ministro da Justiça as razões do seu gesto. O segundo texto confiado a Pedroso Horta é um amontoado de queixas difusas, alusões a “forças terríveis”, declarações de amor ao Brasil e juras de apreço ao Povo (com maiúscula). Ele só contou a verdade alguns meses antes de morrer, em 16 de fevereiro de 1992, numa conversa com Jânio John Quadros Mulcahy, o único filho homem de Tutu Quadros.

Em 25 de agosto de 1991, trinta anos depois da renúncia, o paciente internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, foi acometido por um surto de sinceridade provocado pela curiosidade do neto. “Foi o maior erro que cometi”, lamentou. “Ao renunciar, eu quis pedir um voto de confiança à minha permanência no poder.” Foi para acentuar a sensação de vazio que despachara o vice, João Goulart, para a China. “Jango era uma espécie de Lula, completamente inaceitável para a elite”, comparou. “Imaginei que o povo iria às ruas, seguido dos militares, e que eu seria chamado de volta.”

O intuitivo genial só esqueceu de combinar com os adversários. Auro de Moura Andrade comunicou ao plenário do Congresso que a renúncia era “um ato de vontade unilateral”, e empossou o presidente da Câmara, o deputado Ranieri Mazzilli. Preocupados com o vice que voltava da China, os militares esqueceram o homem que desertara. E o povo só poderia ser mobilizado por um partido janista que o líder jamais deixou nascer. “Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26″, contou ao neto. “Deu tudo errado. O país pagou um preço muito alto.” Jango acabaria engolido pelos quartéis. Mas seria expelido três anos mais tarde.

A tentativa de implantação de uma ditadura civil que resultou no advento de uma ditadura militar ortodoxa seria a peça mais vistosa do acervo de singularidades e paradoxos colecionados desde o berço. Jânio João Quadros segundo a certidão de batismo, o filho do médico Gabriel Nogueira Quadros e da dona de casa Leonor Silva Quadros resolveu ainda menino trocar o “João” por um “da Silva” e juntar o mais comum dos sobrenomes ao prenome inspirado em Janus, o deus bifronte. Virou Jânio da Silva Quadros – ou apenas J. Quadros, na assinatura dos bilhetinhos ou de decretos oficiais.

A CAVALGADA DAS VASSOURAS
Nascido em Campo Grande (hoje Mato Grosso do Sul), inventou quando estudante em Curitiba um estranhíssimo sotaque sem parentesco com Mato Grosso, com o Paraná ou com qualquer região. O acento personalíssimo só pode ser encontrado na voz dos imitadores. O estudante de direito da Faculdade do Largo São Francisco já exibia trajes desleixados e cabelos em desalinho, parecia pouco asseado, bebia com muita competência e apreciava frases empoladas. Tinha na cabeça (além de um dicionário alojado em algum desvão do cérebro) ideias vagamente nacionalistas e a certeza de que fora enviado pela Divina Providência para salvar o Brasil.

Em 1947, os alunos do Colégio Dante Alighieri decidiram conseguir uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo para o professor de geografia que não fizera sucesso como advogado criminalista e não ingressara na carreira diplomática “por não corresponder aos padrões estéticos”. Foi o começo da impressionante cavalgada das vassouras, anabolizada pelo discurso que celebrava a luta do tostão contra o milhão, prometia varrer a bandalheira, punir os desonestos, enquadrar os ineptos e engaiolar os corruptos – a começar pelo inimigo preferido, Adhemar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf sem disfarces.

Em apenas treze anos, Jânio foi deputado estadual, prefeito da capital, governador, deputado federal e presidente da República. Só ficou do começo ao fim no governo de São Paulo. Ao completar o mandato em janeiro de 1959, o líder carismático havia incorporado a imagem de administrador incorruptível. O Brasil fora feliz com JK, um mineiro risonho, generoso, tolerante, afeito ao convívio dos contrários. Mas decidiu em 1960 que o sucessor seria o mato-grossense genioso, instável, ególatra, autoritário.

Como o país, Jânio pagou caro pela renúncia ao mandato conferido por mais de 5,6 milhões de eleitores. Transformado numa caricatura de si próprio, tentou a ressurreição impossível antes e depois da cassação, em 1964. Fracassou em 1962 e em 1982 na tentativa de voltar ao governo paulista, elegeu-se prefeito de São Paulo em 1985. Aos 75 anos, morreu pensando na Presidência. E sem revelar o número da conta no banco suíço.

Cinquenta anos depois da renúncia, o Brasil parece bem menos primitivo, a democracia tem mais consistência e Jânio figura na galeria presidencial como outro ponto fora da curva. Mas tampouco parece suficientemente moderno para considerar-se livre de reprises da farsa. Países exauridos pela corrupção endêmica serão sempre vulneráveis a algum populista que, com um discurso sedutoramente agressivo, prometa varrer a bandalheira.

18/03/2011

às 13:38 \ Baú de Presidentes

A segunda parte do encontro com Fidel e o caso do revólver roubado na embaixada

Enquanto espero a conversa com Fidel Castro no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores, estou pensando o que pensa todo estrangeiro convidado para uma tremenda boca-livre por conta do governo cubano: se o povo visse isto aqui, o regime comunista não chegaria à sobremesa. Extensa, espessa e sólida como píer inglês, a bancada do bufê suporta uma assombrosa procissão de frutos do mar. Lagostas, camarões, siris e caranguejos de dimensões amazônicas, um tsunami de mariscos e ostras, cardumes de peixes de espantar o velho Santiago. Estamos em dezembro de 1987, mas aquilo parece banquete patrocinado por um Nero de cinema.

Tem até gente gorda. Há seis dias zanzando pelas ruas de Havana, só vi gente magra. O governo jura que ninguém morre de fome, mas nenhum cubano comum come o suficiente para matá-la. Isso é para quem frequenta recepções oficiais. Contemplo uma lagosta abraçada a dois camarões quando me bate a certeza de que todos os gordos da ilha estão aqui. Não passam de dez. Começo a imaginar como é que eles explicam aos magros curiosos aqueles quilos a mais quando vejo o funcionário que escolta o bando de brasileiros me acenando com espalhafato. Chegou o grande momento. Junto-me ao grupo de jornalistas e vamos todos para uma sala com quatro poltronas e dois sofás de bom tamanho. Capturo uma poltrona. Cinco minutos mais tarde, a porta se abre ─ e Fidel finalmente aparece.

Aos 61 anos, há 28 no poder, a figura emoldurada pela soleira traja uma farda verde-oliva bem cortada e parece em ótima forma. Fico de pé e constato que nossos queixos se alinham na mesma altitude. Ele tem, portanto, entre 1m85 e 1m90, incluindo o salto carrapeta do coturno preto. Só alcança 2 metros na imaginação dos devotos. A expressão satisfeita e o olhar confiante informam que o ditador quase sessentão adora o que faz e pretende manter o emprego enquanto viver.

Também ficou mais cauteloso, sorrio ao conferir o cinto paisano: não há qualquer vestígio de coldres e revólveres. Desde o outono de 1960, quando a lenda estava ainda em seu começo, Fidel Castro sabe que não se deixa impunemente uma arma de fogo ao alcance de jornalistas brasileiros.

O CASO DO SUMIÇO DO REVÓLVER
Naquela noite de abril, Fidel chegou com algumas horas de atraso à embaixada do Brasil em Havana. Todos empunhando copos ou garrafas, ali o esperavam o futuro chanceler Vasco Leitão da Cunha, que organizou a recepção, Che Guevara, escalado pelo chefe para distrair os visitantes, o recentíssimo amigo de infância Jânio Quadros, figurões do janismo e jornalistas que cobriam a visita a Cuba do candidato à presidência da República. (O vídeo abaixo mostra a animação da comitiva já na chegada à ilha. Até o exemplarmente sóbrio Afonso Arinos acabara entrando na festa, com um chapéu na cabeça e maracas nas mãos).

No corredor da embaixada, Fidel fez uma derradeira escala no lavabo para deixar sobre a  caixa da descarga o cinto com o revólver no coldre que completava o uniforme de guerrilheiro. Entrou na sala de jantar desarmado, falante e feliz. Só deu a conversa por encerrada no meio da madrugada. Um dos últimos a retirar-se, embarcou num jipe pilotado pelo ajudante de ordens e desapareceu na noite. Reapareceu às cinco da manhã para buscar o que esquecera no lavabo. E então descobriu que o cinto não estava mais lá. Nem o coldre. Nem o revólver.

O jornalista Villas-Boas Corrêa, que testemunhou a cena, resumiu num artigo no Jornal do Brasil a reação de Fidel. “Ele perde a calma, insiste na busca. A criadagem é acordada. Ninguém vira ou tinha notícia da pistola que, segundo Fidel, o acompanhava desde Sierra Maestra, uma mascote que era parte da sua vida”. À beira de um ataque de nervos, a vítima suspendeu as buscas e foi tentar dormir.

Mas não se renderia, conta Villas-Boas Corrêa: “Compareceram à embaixada, horas depois, o comandante Raulito Diaz Argueille, chefe do Birô de Investigações, e o capitão Chino Figueiredo, do serviço secreto, reclamando a lista com os nomes de todos os que compareceram à recepção e deixando claro que Fidel exigia a devolução da arma no prazo de 24 horas”. Teria de esperar o dobro.

Passadas 48 horas, o autor da audaciosa gatunagem procurou Leitão da Cunha para propor o acordo: ele devolveria o produto do roubo se o dono não soubesse quem foi. O embaixador cumpriu a promessa e levou o segredo para o túmulo. A História ainda ignora a identidade do jornalista brasileiro que conseguiu o que nem os americanos conseguiram: desarmar Fidel.

Leitão da Cunha só deixou escapar, muitos anos mais tarde, que se surpreendeu com a inscrição na plaqueta de ouro incrustada no cabo do revólver: “Ao herói do povo cubano, a amizade de Anastas Mikoyan”. Aquele parabelum russo, um presente do chanceler da União Soviética, desembarcara na ilha meses antes do incidente noturno. Não fazia a menor ideia de onde ficava a Sierra Maestra.

O passeio por 1960 é interrompido pela voz que anuncia o início de un rato de charla. Um dedinho de prosa com Fidel, como se verá no terceiro e último capítulo, dura pelo menos três horas.

22/02/2011

às 21:34 \ Baú de Presidentes

A noite em que encontrei Fidel (parte 1)

Estou há seis dias em Havana fazendo o que faz desde janeiro de 1959 todo jornalista que baixa em Cuba: esperando Fidel Castro aparecer. Também aguardam a aparição  mais 11 jornalistas e quase 30 deputados paulistas. Chegamos domingo no avião da VASP que inaugurou a rota São Paulo-Havana. A ideia do governador Orestes Quercia será testada por três meses com um voo por semana. Nesta noite de sexta-feira, dou-me conta de que faltam só 48 horas para a viagem de volta. O homem não deu as caras, mas o funcionário do Ministério das Relações Exteriores que acompanha a comitiva brasileira segue repetindo o que disse ainda na pista do aeroporto: “O Comandante gostou muito da ideia de conversar com vocês. Vai aparecer a qualquer momento”.

Fidel nem sempre aparece, mas gosta mesmo de conversar. Gosta tanto que a fila de espera não cabe na agenda.  Como a fila não anda, os enfileirados se distraem mudando de lugar. No primeiro dia, com a circunspeção de quem aguarda a chegada da noiva na porta da igreja, esperei no saguão do Hotel Riviera. Neste sexto dia em Cuba, espero no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores. Acabei de chegar com dois jornalistas amigos e estou à procura dos outros brasileiros no meio da travessia da multidão de convidados para o coquetel oferecido pelo governo.

Já esperei em lugares mais sossegados. Na terça-feira, por exemplo, fiquei de prontidão em dois restaurantes célebres, La Bodeguita del Medio e La Floridita, caprichando na pose de Ernest Heminguay aos trinta e poucos anos. Em homenagem ao escritor que bebeu todas quando morou por aqui, tracei meia dúzias de mojitos no bar do primeiro e oito papa dobles no bar do segundo. Achei melhor esperar na piscina do hotel quando comecei a ver Fidel em dobro.

Na quarta-feira, esperei quatro horas na fila da sorveteria Copellia até chegar ao balcão e pedir o famoso sorvete de limão que tinha acabado minutos antes. Na quinta, de volta ao bar do La Floridita, bateu-me a ideia de esperar Fidel brincando de figurante de filme de época. No fim dos anos 80, a capital cubana não saiu dos 50, informam o casario implorando por pintura e os carrões americanos que sacolejam pelas ruas. O garçom me contou que qualquer um pode ser usado como táxi. É só pagar 1 dólar e dizer o destino. Seja qual for o trajeto e a duração da corrida, o preço não muda. Não acredito, mas não custa conferir. Estendo a mão ao ver um Studebaker verde e o motorista para. O garçom não estava brincando.

Nas três horas seguintes, pela módica quantia de quatro dólares, esperei Fidel no banco do co-piloto de um Oldsmobile vermelho, um Mercury preto, um Chevrolet rabo-de-peixe azul e um Buick de cor indefinida que me devolveu ao hotel.  Acordei nesta sexta-feira perguntando a jornalistas e deputados que ano é hoje. Eles respondem dizendo a hora. Pergunto de novo pelo ano. 1987, dezembro, murmuraram dois dos consultados, ambos com expressão intrigada. Só acredito no que ouço porque o espelho informa que já faz tempo que sou maior de idade.

Nesta sexta à noite, só sei que estou no terceiro daiquiri. E me preparo para pedir o quarto quando a frase multiplicada por centenas de vozes flutua sobre o oceano de cabeças: “É ele!”. Ele é Fidel, quem mais poderia ser? O funcionário do governo chega ofegante para avisar que o Comandante vai conversar conosco daqui a duas horas. Esqueço as trapaças do calendário gregoriano, desisto do daiquiri ao lembrar como foi o duelo com Jânio Quadros e começo a pensar nas perguntas presas na garganta há seis dias.

Ou há 30 anos, como veremos na continuação desta história.

31/01/2011

às 15:47 \ Baú de Presidentes

Confidências de João Figueiredo numa noite das arábias (2)

Publicado em 1º de junho de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 2

O EXTERMINADOR DE COELHOS

─ O que eles querem é me pegar de calção e a Dulce de maiô ─ está dizendo João Baptista de Oliveira Figueiredo, à vontade no sofá da sala imensa, quando o empresário Georges Gazale, dono da mansão em que o ex-presidente da República se hospedava havia cinco dias, apresenta os dois recém-chegados ao homem de calça social cinza claro, camisa esporte cinza claro e cardigan cinza claro. (Os sapatos e as meias eram pretos).

─ Esses moços são jornalistas ─ previne Gazale. ─ Mas jornalistas amigos, gente de confiança ─ ressalva antes que o general da cavalaria sempre cismado com a imprensa se levante do sofá já prendendo e arrebentando.

O outro moço é meu amigo Carlos Maranhão, editor da Playboy , também hasteado a um metro da figura que acaba de erguer-se. Figueiredo está uns dez quilos mais gordo e milhares de volts menos tenso, constato. A perna esquerda, que balança feito pêndulo doido quanto fica nervoso, permanece tranquilizadoramente imóvel. E então recomeço o diálogo que, sete anos antes, não havia passado de cinco segundos, duas frases, cinco palavras e uma vírgula.

─ Boa noite, presidente.

─ Boa noite, como vai? ─ sorri Figueiredo, que cumprimenta Maranhão e se senta para retomar a história que está contando a meia dúzia de convidados que chegaram mais cedo para o jantar oferecido por Gazale em homenagem ao hóspede ilustre.

Estou no lucro, contabilizo às oito da noite de 12 de março de 1987. A conversa já chegara a dez segundos, sete palavras, duas vírgulas e um ponto de interrogação. Fora o sorriso, que prometia continuação. Devo essa ao Maranhão, registro. Estou lá graças àquele moço.

─ O Gazale vai dar um jantar para o Figueiredo na quinta-feira e me convidou ─ Maranhão me surpreendera no almoço de segunda, ainda na fase dos aperitivos. ─ Perguntei se podia te levar e ele disse que sim.

Grande Maranhão. Grande notícia. Só não paguei o almoço porque o dono do Au Liban era o próprio Gazale, que não cobrava nada de ninguém que conhecesse há mais de duas horas. A generosidade do proprietário foi um dois motivos que transformaram o Au Liban no nosso restaurante predileto. O outro foi a boa qualidade da comida árabe. Estou pensando na cozinha do lugar quando um garçon se aproxima do grupo, ao qual me juntara sem pedir licença, que ouve o caso do calção e do maiô. Esses salgadinhos são de lá, adivinho ao mesmo tempo em que descubro quem eram as figuras misteriosas que o ex-presidente chamara de “eles” na primeira frase que ouvi. “Eles” eram fotógrafos.

─ Sempre tem um cara em cima de algum morrinho, com aquelas máquinas enormes ─ esclarece a continuação da narrativa do confronto entre a turma da teleobjetiva e o homem de 69 anos que, longe dos quartéis e do poder, buscava sossego no seu sítio em Nogueira, perto de Petrópolis, na Serra Fluminense.

O duelo, silencioso e recorrente, começava sempre às cinco da manhã. Assim que aparecia na porta da casa o ermitão com pernas arqueadas de cowboy, barriga saliente, cabelos lisos, testa ampla, cara amarrada e olhar desconfiado, uma câmera brilhava em alguma elevação a 100 metros de distância. Imediatamente, Figueiredo apoiava o pulso direito no antebraço esquerdo, dava uma acintosa banana para o espião e, sem desfazer o gesto, marchava em direção à piscina. O bombardeio de cliques e flashes se intensificava nos fins de semana em que Dulce Figueiredo aparecia no sítio, vinda do apartamento no Rio em que passava todos os dias úteis.

Figueiredo confessa que gosta mesmo é de ficar sozinho. Primeiro, porque pode passar o dia inteiro só de calção. Depois, porque fica livre de visitas ou telefonemas e liberado para dedicar-se a seus coelhos. Vistoria a criação todas as manhãs, depois das braçadas na piscina.

─ No momento tenho cem ─ informa. ─ Gosto muito de coelho. Gosto tanto que já-já reduzo a turma. De cada dois, eu como um.

Não é pouca coisa, mas o ex-presidente pretende melhorar o desempenho. Precisa manejar com mais aplicação o garfo e a faca, e aumentar o ritmo do extermínio, para acompanhar a velocidade espantosa com que aqueles bichos se multiplicavam. Gazale, que voltara à roda dois minutos antes, acha que o amigo começou a enveredar por areias movediças e reitera o alerta.

─ Eu disse que esses moços são jornalistas, presidente?

Figueiredo faz que sim com a cabeça, engata uma segunda e pisa no acelerador.

─ Só achava chato quando vinha aquele bando de jornalistas atacando a gente com microfones nas mãos ─ abre o sorriso. ─ Sempre com uma repórter bonitinha na frente.

Faz uma pausa, passa em revista com os olhos os dois moços da imprensa e lembra que se dera bem com os repórteres que frequentavam diariamente a sala de imprensa do Palácio do Planalto. Todos o tratavam com muita cortesia, eram bastante gentis. Feito o registro, comanda a carga da cavalaria ligeira:

─ É o que sempre digo à Dulce: jornalistas e picaretas são muito educados.

Finjo que não ouvi direito para continuar ouvindo Figueiredo. Ele tinha muito a dizer.

25/01/2011

às 16:49 \ Baú de Presidentes

Confidências do presidente João Figueiredo numa noite das arábias

Publicado em 26 de maio de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 1

DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS

─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro.

─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar.

Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar que houve um diálogo, muito menos uma conversa. Aquilo não passou de uma banalíssima troca de cumprimentos. Não tive tempo de dizer como me chamava e o que fazia, nem de perguntar-lhe se estava bem. Mas eu não precisava contar à minha família que a coisa foi tão indigente. Diria apenas que tinha conversado com o presidente, só isso, e não estaria mentindo. Resolvida a questão doméstica, fiquei olhando o homem baixo e atarracado, suando sob o terno e a gravata que oficiais da cavalaria jamais aprenderão a combinar, que avançava escoltado por meia dúzia de seguranças pelo atalho aberto na pequena multidão reunida para recepcioná-lo no 7° andar do prédio da Editora Abril na Marginal do Tietê.

Um dia ainda pego esse cara de jeito, consolei-me. Peguei mesmo, mas só sete anos mais tarde, quando Figueiredo já era ex-presidente e tinha tempo de sobra até para conversar horas a fio com um jornalista que nem conhecia. Naquele começo de tarde em que dialogamos por cinco segundos, eu não poderia adivinhar que viajaria a seu lado numa noite das arábias. Tratei de convencer-me de que não fora uma desconsideração. No lugar dele eu faria o mesmo. Também teria preferido juntar-me à roda onde estavam o fundador da Abril, Victor Civita, o editor Roberto Civita, o diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, o diretor-adjunto Elio Gaspari, o governador Paulo Maluf e mais duas ou três figuras da primeira divisão. Eu era só o editor de Política. Quem ocupa esse cargo joga na segundona.

Ainda bem que nenhum deles vai estar no Guarujá amanhã, confortei-me em completo silêncio, planejando os preparativos para o encontro com o ex-presidente Jânio Quadros no dia seguinte. Que maio, aquele. Um presidente e um ex- em 48 horas. Se não houve tempo para uma conversa que merecesse tal nome no dia 27, a do dia 28, com Jânio, duraria uma tarde inteira. De passagem, iria mostrar ao velho campeão como é que se bebe.

Pelo menos a conversa posso ouvir, decidi com a cabeça de volta ao prédio da Abril. Pedi a Pedro Martinelli que me fotografasse ao lado de Figueiredo, minha mãe iria ficar orgulhosa. Abri caminho na selva de braços, dorsos, cabeças, pernas e consegui estacionar a um metro do presidente. Pedrão fez a foto. Só uma, a que ilustra esta narrativa. E que seria usada contra mim, como ocorreria com a imagem transformada por Jânio no golpe de misericórdia que encerrou o duelo desigual. A foto do dia 28 viraria prova de que só eu bebi. A do dia 27 me deixou com cara de papagaio de pirata.

Não ouvi grande coisa, ninguém faz revelações espetaculares numa roda. Mas fiz dois ou três registros que poderiam ser úteis. Figueiredo fumava mais que marido traído de filme francês e vivia sob a tensão permanente que aflige um espião argentino. Quando o tema do momento aguçava o desconforto, a perna esquerda balançava como um pêndulo que perdeu a compostura. Ele parecia insatisfeito com o emprego. Estava mesmo, confirmaria sete anos depois.

Não guardo lembranças do almoço, nem lembro a que distância fiquei da mesa principal. Achei que nunca mais toparia com Figueiredo depois da entrevista ao jornalista Alexandre Garcia em que, com o governo no fim, pediu ao país que o esquecesse. Parecia sincero. Mas resolveu esquecer o pedido em 12 de março de 1987, uma quinta-feira. Começou a falar às 8 da noite. Só parou às duas da madrugada.

Quando o falatório terminou, descobri que poucas vezes tivera tanta sorte naquela virada para uma sexta-feira 13. É o que se verá no segundo e último capítulo da história.

16/01/2011

às 19:40 \ Baú de Presidentes

O duelo entre o colunista e meio presidente (capítulo final)

Publicado em 17 de junho


No fim do primeiro capítulo, contei que o meio presidente Antonio Paes de Andrade ficou bravo comigo em 1989, mas só perdeu a paciência de vez no começo de 2005. O ataque de nervos foi desencadeado por uma nota publicada na coluna Sete Dias, que saía aos domingos no Jornal do Brasil. O texto dizia o seguinte:

O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, está em Lisboa, incumbido de resolver a situação de quase 16 mil brasileiros que residem ilegalmente naquele país. O embaixador em Portugal, Antônio Paes de Andrade, está em Brasília, entregue a outras prioridades. Depois de quase quatro meses ocupado com a campanha eleitoral no Ceará, o ex-deputado que fundou a efêmera mas gloriosa República de Mombaça baixou em Brasília, para reforçar a ala governista do PMDB. Não faz falta em Lisboa: gente do ramo se refere a Paes como ”Mala Diplomática”. Mas deveria doar ao Fome Zero os US$ 10 mil mensais que tem continuado a receber sem trabalhar.

Em vez de mandar dinheiro para o Fome Zero, como sugeri, Mala Diplomática mandou-me a seguinte mensagem datilografada:

Senhor Jornalista:

Somente ontem, 4 de janeiro de 2005, recebi cópia de sua matéria publicada na edição de 19 de dezembro de 2004 do Jornal do Brasil.

Nela, como em várias outras matérias suas escritas contra mim, desde que me candidatei à presidência da Câmara dos Deputados, em 1989, há agressão, há injúria e há difamação.

Nesta, afirma-se que o Embaixador Antônio Paes de Andrade esteve durante quase quatro meses, no Ceará, ocupado com a campanha eleitoral. Mentira. Na verdade, estive em Fortaleza, de férias, no período de 11 de setembro a 6 de outubro de 2004.

Fui posteriormente a Brasília, chamado a serviço pelo Itamaraty, no período de 1º de dezembro a 16 de dezembro de 2004. No dia 12 de dezembro, estando em Brasília, compareci à reunião da Executiva do PMDB, na qualidade de Presidente de Honra do Partido.

A resposta esperta não desmentia objetivamente o que eu escrevera. É agora, pensei. No domingo seguinte, reproduzi a mensagem do embaixador no mesmo espaço ocupado pela nota que precipitou o desfecho do entrevero, abri um espaço de duas linhas depois da assinatura e parti para a tréplica:

Em homenagem ao ministro Luiz Gushiken, que vive recordando à imprensa a importância de valorizar o lado positivo das coisas, a coluna registra que o embaixador em Portugal, Antônio Paes de Andrade, encerrou a longa temporada nos trópicos e reinstalou-se no gabinete em Lisboa. Pode não ser uma boa notícia para os irmãos lusitanos. Para os brasileiros, é sempre positivo saber que algum figurão federal reapareceu no local de trabalho.

A coluna suspeita de que o embaixador foi clonado: alguém com o nome e a fachada de Paes de Andrade passou esse tempão no Brasil, sim. E aproveita para contar ao fundador da República de Mombaça um episódio, ocorrido há séculos, que os bons diplomatas de carreira andam recordando nos corredores do Itamaraty. O Duque de Toscana queixou-se ao embaixador da República de Veneza: achara rasa demais a qualificação intelectual de um representante veneziano com quem fora obrigado a conviver. ”Não me surpreende, temos muitos tolos em Veneza”, ironizou o interlocutor. ”Também temos tolos em Florença”, replicou o Duque. ”Mas tomamos o cuidado de não exportá-los”.

O Brasil exporta.

Paes de Andrade achou melhor não revidar. Numa troca de bordoadas por escrito, ensinou Carlos Lacerda, ganha quem der a última. Essa eu acho que ganhei.

09/01/2011

às 20:00 \ Baú de Presidentes

O duelo entre o colunista e meio presidente (em dois capítulos)

Publicado em 14 de junho


CAPÍTULO 1

Sou o único jornalista contemplado com mensagens malcriadas por um presidente e meio. O presidente é Itamar Augusto Cautiero Franco, vice promovido a titular pelo despejo de Fernando Collor. A metade que fecha a conta é Antônio Paes de Andrade, que acumulou a presidência da Câmara e a chefia do Executivo durante as viagens internacionais de José Sarney, vice promovido a titular pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília. Numa delas, o cacique do PMDB do Ceará fundou na cidade natal a República de Mombaça. A soma disso tudo vale meio presidente. No mínimo.

Não foi difícil despertar a cólera de Itamar Franco: dois ou três artigos bastaram para que o mineiro briguento revidasse com um manuscrito desaforado. Essa história fica para depois. Hoje sai do baú o relato, dividido em duas partes, do entrevero que me rendeu um texto enviado por fax em 5 de janeiro de 2005.  Subscrito pelo então embaixador do Brasil em Portugal, o documento histórico começou a nascer em 1985, quando garanti a Paes de Andrade um mandato imaginário de 15 dias.

Já contei esse caso mais detalhadamente num post. Duas semanas antes da eleição municipal, numa reportagem publicada na VEJA, incluí o candidato a prefeito de Fortaleza pelo PMDB  entre os cinco ou seis que já podiam preparar a festa da posse. Baseada nas pesquisas do Instituto Gallup, a informação foi espetacularmente desmentida pelo triunfo de Maria Luiza Fontenelle, do PT. E então o dono do Gallup explicou o naufrágio: Paes de Andrade parecia tão favorito que as pesquisas foram suspensas em 1° de novembro. Os ventos mudaram, as urnas desmentiram a pesquisa e o derrotado só foi prefeito na revista.

Em vez de ficar agradecido pelo mandato imaginário, Paes de Andrade resolveu dividir com a reportagem a culpa pelo fiasco. Os cabos eleitorais ficaram tão certos da vitória, alegou, que relaxaram na reta final. A hora do troco chegou em fevereiro de 1989, quando José Sarney foi passear no Japão por uma semana e o presidente da Câmara decidiu fazer bonito no Planalto.

Sarney acabara de decolar quanto Paes de Andrade entrou em ação. Requisitou um Boeing 707 da presidência e voou para Fortaleza com os 66 integrantes da comitiva. Da capital cearense, a multidão deslocou-se para Mombaça ─ a 300 quilômetros de distância ─ em dois Buffalo da FAB, que pousaram no aeroporto ampliado em tempo recorde especialmente para receber o filho mais ilustre da cidade.

Acomodados em 25 carros oficiais, os viajantes seguiram para a festa de inauguração da agência do Banco do Nordeste, em funcionamento desde o ano anterior.  Era o pretexto para a cerimônia de fundação da República de Mombaça. A população inteira compareceu ao comício estrelado pelo presidente conterrâneo. Voz embargada, chorando em alguns momentos, Paes de Andrade fez um discurso de quatro horas. Recordou a história da cidade natal, celebrou a bravura do sertanejo e citou, entre outros, Jesus Cristo, Getúlio Vargas, Napoleão Bonaparte, Padre Cícero, Lampião, José Sarney, Pelé, Frei Damião, Tiradentes, Buda e Nelson Ned.

Traduzi meu espanto em alguns artigos no Estadão. Paes de Andrade ficou irritado, mas engoliu em seco. O que achou insuportável foi o texto que publiquei no Jornal do Brasil 15 anos mais tarde. Mas isso fica para quinta-feira, quando aqui se lerá a segunda e última parte do duelo entre o colunista e meio presidente.


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados