Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Sarney sobrevive ao ataque de um microfone e passeia de limusine branca em Nova York

22 de dezembro de 2009

Às sete e meia da madrugada, sentado numa poltrona no saguão do Palácio da Alvorada, aguardo a inauguração de outro café-da-manhã lutando contra o sono. O presidente da República se aproxima furtivamente pela retaguarda e levo um susto com o bom-dia, que me chega deformado pela dicção de quem acabou de fazer uma escala no dentista ou tem hora marcada com o fonoaudiólogo. Algum problema com a voz?, pergunto depois do cumprimento.

─ Levei uma microfonada de um colega teu ─ informa José Sarney, que aponta com o indicador um ferimento no lado direito do lábio inferior.

A coloração do sangue coagulado avisa que a colisão frontal entre a boca e o microfone ocorrera na véspera. A aparência do machucado acrescenta que fora de bom tamanho: mais um pouco e dentes presidenciais seriam removidos sem anestesia. Ele conta que o desastre se consumara durante uma genuína entrevista coletiva à brasileira.

A cena inverossímil se repete quase diariamente. No meio de jornalistas armados de microfones, decididos a mostrar à nação a logomarca da emissora e apoiados pela cavalaria de câmeras, o alvo da infantaria da imprensa tem de falar sobre rigorosamente tudo. A maioria dos entrevistadores faz perguntas sobre tudo, especialmente sobre assuntos dos quais não sabe rigorosamente nada. E o entrevistado não diz nada sobre tudo.

Sempre com o rosto imóvel, para escapar dos objetos cortantes ou contundentes que flutuam em torno da cabeça sitiada. Veterano de combates do gênero, o presidente eleito pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília jura que obedeceu às instruções do manual de sobrevivência no Planalto Central. Acha que foi vítima de algum novato atormentado pela suspeita de que a logomarca da empresa estava fora do ângulo das câmeras.

É o Brasil, espanto-me de  novo. No resto do mundo, atentados contra a vida de chefes de governo exigem bastante imaginação, requintes de audácia e muito planejamento. Aqui, bastaria a um aprendiz de terrorista fantasiar-se de repórter e embutir no microfone um revólver calibre 38 para virar verbete de almanaque: pela primeira vez na História, alguém terá assassinado um presidente da República com um tiro no céu da boca.

Em nações civilizadas, imagens de um presidente engolfado por atacantes brandindo microfones resultariam na demissão dos responsáveis pelo esquema de segurança ou na interdição, por irresponsabilidade, do entrevistado. Nos trêfegos trópicos, o pai-da-pátria e os jornalistas não discutem a relação sequer depois de ferimentos na boca. Tom Jobim tinha razão: o Brasil não é para amadores.

Nem para estrangeiros, souberam os jornalistas americanos já em 1985, quando Sarney baixou em Nova York para o discurso de abertura da assembléia-geral da Organização das Nações Unidas e reencenou na porta da sede da entidade o  espetáculo da entrevista coletiva. Passaram da perplexidade ao assombro no segundo ato, protagonizado na tribuna pelo artista que sobrevivera ao perigo na porta do prédio.

O plenário estava quase deserto, mas a comitiva brasileira lotou a fila do garjarejo. Excitado pelos gestos de aprovação dos compatriotas, eloquente como palanqueiro de vilarejo, Sarney resolveu apresentar ao mundo, no meio do falatório, o poeta maranhense Bandeira Tribuzzi. Intrigados com os versos que o chefe declamava, os compatriotas  quiseram saber quem era o bardo. Um amigo de juventude do imortal José Sarney, alguém murmurou.

Impressionada com o currículo, a plateia aplaudiu. O deputado Milton Reis, do PMDB mineiro, achou pouco. E saudou o orador com o berro que animava os comícios de antigamente: “Apoiado!” Ninguém me contou. Eu estava lá. Nenhum intérprete soube traduzir o grito para outros idiomas. Nenhum estrangeiro entendeu. Só os brasileiros.

Principalmente Sarney, que desceu da tribuna transpirando felicidade. No dia seguinte, o morubixaba maranhense resolveu festejar a própria performance passeando por Nova York de limusine branca. Foi a primeira vez que os novaiorquinos viram passar uma limusine assim, muito apreciada por casais do interiorzão do Michigan em lua-de-mel na cidade grande, com um presidente da República a bordo.

Presidente do Brasil, naturalmente.

Um prato de pílulas, queijo de cabra nortista e conversa de doido no café da manhã com Sarney

7 de dezembro de 2009

Foi o jornalista Getúlio Bittencourt, chefe da sucursal de VEJA em Brasília quando eu era editor de Política, quem disseminou a praga do café da manhã com figurões federais. A novidade surgiu no início dos anos 80. E pegou, para desconsolo dos passageiros da noite. Horários historicamente obscenos para jornalistas ─ sete, sete e meia da madrugada ─ foram logo incorporados à rotina de trabalho. Culpa de Getúlio Bittencourt, meu velho amigo que morreu tão cedo.

Fui a Brasília em setembro de 1982 para um giro pelo coração do poder. Num fim de noite, veio com a sobremesa a notícia de que o dia seguinte começaria com a aurora.

─ Temos um café da manhã ─ avisou Getúlio na mesa do restaurante. ─ Com o Sarney. Sete e meia lá no Lago Sul.

O senador José Sarney era presidente do PDS, filhote da Arena tão obediente aos chefes militares quanto a mãe. Pelo andar da carruagem, o regime não iria muito longe: o general João Figueiredo assumira a presidência da República para concluir a abertura política iniciada por Ernesto Geisel. Imaginava-se que os paisanos a serviço dos donos do poder, como Sarney, perderiam inteiramente a importância que nunca fora muita. Para que aquela conversa?

─ Para você conhecer o Sarney ─ replicou Getúlio.

Mas às sete e meia?.

─ Ele gosta desse horário.

Cheguei sem atraso para o primeiro café-da-manhã com o senador José Sarney, como sem atraso chegaria para outros cinco ou seis que Getúlio combinou. Ou porque eu estava sempre grogue pela noite mal dormida, ou porque o anfitrião gastava o tempo tratando de irrelevâncias, não me lembro direito do que se conversou.

─ Tremenda perda de tempo, hein, parceiro? ─ dizia ao chefe da sucursal depois de cada encontro.

Repeti a provocação até que Sarney se juntou aos dissidentes, deixou o PDS em 1984, virou vice de  Tancredo Neves e acabou na presidência da República, eleito pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília. Telefonei para Getúlio, que depois seria secretário de imprensa do chefe de governo, para formalizar a rendição:

─ Você é um profeta.

─ Ele até vai continuar te recebendo, mas naquela hora de sempre ─ tripudiou o inventor do café-da-manhã federal.

O cardápio não era melhor que o horário: queijo de leite de cabra do Maranhão, queijo-de-Minas, pão, café com leite e o prato de pílulas coloridas sempre ao alcance da mão do hipocondríaco militante. Era isso o que havia sobre a mesa, comprida como as dos banquetes festivos do Lions, na manhã de 1988 em que voltei a encontrá-lo no Palácio da Alvorada.

Sentados frente a frente no meio da mesa inverossímil, eu combatia o sono, ele combatia a realidade com bastante animação. Comia e falava, falava e bebia. Entre um pedaço de queijo e um gole de café com pílula, dissertou longamente, sem pausas nem vírgulas, sobre o espetáculo de desenvolvimento patrocinado pelo Plano Cruzado.

A conversa me pareceu muito doida. A euforia dos primeiros meses acabara havia quase dois anos, os “fiscais do Sarney” estavam aposentados há muito tempo, o país ainda se recuperava do que economistas chamam de crise de desabastecimento. O delegado Romeu Tuma esquecera a temporada de caça a rebanhos supostamente escondidos por sabotadores. Embora muito mais caros, estavam de volta a carne que sumira, o frango que desaparecera e outros produtos. Mas também estava de volta a inflação obscena, que avançava a galope.

A coisa em 1988 andava feia, achava o Brasil inteiro. Menos o presidente da República.

─ O importante é que quem comprou uma geladeira continua com a geladeira ─ espantou-me Sarney no penúltimo parágrafo da discurseira.

─ Mas não há o que guardar na geladeira ─ ponderei. ─ Ninguém tem dinheiro para comprar.

Ele revidou com um olhar compassivo e o golpe de misericórdia:

─ Só que agora tem a geladeira. E antes não tinha a geladeira. Está provado que a vida melhorou.

Elizabeth Taylor escapou por pouco do convite para o papel de primeira-dama do Brasil

19 de novembro de 2009

liztotal

Terminada a entrevista, o governador Ney Braga quer prosa. Ergue-se da cadeira de espaldar alto, contorna a mesa de jacarandá, puxa-me pelo braço e caminha para a varanda do Palácio Iguaçu. Acomodado numa das cadeiras que rodeavam a mesa pequena e redonda, aponta outra com o indicador:

─ Sente aí. Vamos falar de coisas mais agradáveis.

Naquele crepúsculo de julho de 1981, o frio de Curitiba recomendava conversas em fogo brando. Engato uma segunda e invoco a grande figura:

─ O senhor foi muito amigo do Jânio, não foi?

Sei que sim. Em 1960, Ney Braga se elegera pela primeira vez governador do Paraná na esteira do furacão Jânio Quadros, candidato à Presidência. Eram amigos, ficaram íntimos. Embora os tivesse separado, a renúncia não revogou os laços fraternos. Naquele inverno, beneficiado pela anistia, o ex-presidente preparava a volta aos palanques. Ney, favorecido pelas estreitas ligações com os vitoriosos de 1964, continuava onde sempre estivera: no poder.

Ao ouvir o nome do personagem incomparável, o governador ilumina os olhos escuros com a faísca da malícia.

─ O Jânio inspirou o comentário mais cretino da minha vida ─ murmura, para em seguida contar a história ocorrida em novembro de 1960, na primeira viagem internacional do presidente eleito.

Jânio embarcou num navio cargueiro para passear na Inglaterra. Nem bem chegou a Londres, uma gripe poderosa remeteu-o ao hospital. Ali, soube que a belíssima atriz Elizabeth Taylor também estava na capital britânica para mais um filme. Para completar a favorável conjunção dos astros, Eloá ficara no Brasil. O enfermo imediatamente ordenou a um integrante da comitiva que convocasse o embaixador do Brasil para uma audiência no quarto. Ao pé do leito, nosso homem em Londres ouviu a voz imperiosa:

─ Quero que o senhor convide a senhora Elizabeth Taylor a visitar-me. Gostaria muito de conhecê-la.

Diplomata não se surpreende com nada, mas aquela ideia soou absurda demais. E de complicada concretização: como fazer uma abordagem tão atrevida sem parecer maluco? O olhar de Jânio avisou que era uma ordem. O embaixador achou preferível arriscar-se a um papelão com a atriz a perder pontos com o futuro chefe. E foi à luta.

Outra surpresa: a superestrela de olhos cor de violeta não só não estranhou o convite como prometeu aparecer no dia seguinte. Talvez tenha achado divertido conhecer um presidente sul-americano com fama de doidão. No dia seguinte, apareceu mesmo. Os dois começaram a conversar em inglês. Em cinco minutos, Jânio já estava convidando Liz Taylor a visitar o Brasil. Em seis minutos, a proposta estava aceita. Em sete, ficara combinado que a viagem ocorreria em novembro de 1961. Jânio voltou ao Brasil em estado de graça. E passou os meses seguintes aperfeiçoando o plano de sedução.

─ O homem só falava nisso ─ sorri Ney Braga na conversa no Palácio Iguaçu. ─ Eu chegava para uma audiência de meia hora e não conseguia falar sobre as questões do Paraná mais que cinco minutos. O resto do tempo ficava para os planos sobre a viagem da Elizabeth Taylor.

Jânio esbanjava excitação, conta o governador:

─ Novembro é quase verão ─ repetia o presidente com crescente ansiedade. ─ Vou levá-la à Amazônia, para conhecer aqueles rios enormes, passear de barco pelos igarapés. Aquilo é úmido, afrodisíaco. Ninguém resiste, Ney. Vai ser uma loucura.

Até que, na tarde de 25 de agosto de 1961, um ajudante-de-ordens invadiu esbaforido o gabinete do chefe e gaguejou a notícia:

─ O presidente acabou de renunciar.

─ Não é possível! ─ replicou o governador. ─ Antes de novembro ele não renuncia de jeito nenhum!

Ele sorri, eu caio na gargalhada.

─ O ajudante-de-ordens deve ter achado que eu estava louco ─ diz Ney Braga.

Eu também acharia a mesma coisa, concordo. Mas não digo nada.

Tancredo encerra a aula com a lição n° 6: “A conciliação só pode ser feita em torno de princípios”

10 de novembro de 2009

Tancredo Neves, presidente eleito, discursando após a vitória no Colégio Eleitoral, no Congresso Nacional. 14/01/1985

Estou na mesa do restaurante com Tancredo Neves em busca de mais informações para a edição especial de VEJA que vai circular logo depois de 15 de janeiro de 1985, quando o Colégio Eleitoral escolherá o primeiro presidente civil depois de 20 anos de regime militar. O diretor José Roberto Guzzo e o diretor-adjunto Elio Gaspari monitoram o tempo todo o trabalho do trio de repórteres, completado por Guilherme Alves e Etevaldo Dias, chefe da sucursal de Brasília.

Naquela noite de novembro, o copioso material já reunido é suficiente para sustentar a chamada de capa: A História Secreta da Sucessão. Havia muito mais a descobrir, mostrariam as semanas seguintes. A conversa em Belo Horizonte confirma que, para Tancredo, ainda há pedras a remover no caminho que desemboca na rampa do Palácio do Planalto. Mas parece desimpedido ao menos o trecho a percorrer até o Colégio Eleitoral. O candidato da oposição está convencido de que vai vencer Paulo Maluf na última eleição presidencial sem povo.

─ Maluf deixou de ser uma opção razoável, eles não tem escolha ─ diz, abrangendo com a terceira pessoa do plural simpatizantes recentes, indecisos e adversários sem ânimo para engolir a alternativa.

(Talvez já estivesse pensando no discurso da vitória, ficarei desconfiado em 15 de janeiro, ao ouvir outra citação de bom gosto do presidente eleito: “Com o êxtase e o terror de haver sido o escolhido, como diria Verlaine, entrego-me, hoje, ao serviço da Nação”. Por decisão de  480 dos 686 integrantes do colégio reunido no Congresso, contra 180 que optaram por Maluf, o 29° chefe de governo do Brasil republicano seria aquele mineiro de 75 anos, baixo, calvo e de nariz arrebitado, a barriga um tanto pronunciada camuflada por ternos bem cortados e olhos escuros e vivos que se apertavam no sorriso frequente).

─ Morro de medo quando meu nome fica em evidência ─ começa Tancredo a repetir uma das frases prediletas. ─ Nunca me convidam para um banquete. Só se lembram de mim na hora da tempestade.

Esse é capaz de conseguir algum tipo de acerto até num Maracanã em dia de Fla-Flu, penso.

─ Mas não aceito o entendimento a qualquer preço ─ ele replica ao que eu não disse. ─ A conciliação só pode ser feita em torno de princípios. É também por isso que acho mais complicado conseguir um acordo entre contrários do que uma vitória eleitoral.

O domador de tempestades teve um desempenho luminoso já na crise de estreia, provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Recolhido ao casarão em São João del Rey, onde nasceu, convalescia desde outubro do ano anterior da derrota para Magalhães Pinto na disputa pelo governo de Minas Gerais. E examinava a idéia de encerrar a carreira política quando o destino o remeteu ao olho do furacão.

Decolou para Brasília a pedido do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do governo que, formalmente presidido pelo deputado Ranieri Mazzili, estava sob a tutela dos ministros do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. A trinca, contou-lhe Geisel, não admitia a entrega do cargo abruptamente desocupado ao vice João Goulart, em viagem oficial à China. Como o governador Leonel Brizola, entrincheirado no Palácio Piratini e apoiado pelas tropas aquarteladas no Rio Grande do Sul, exigia a posse de Jango, as dimensões e a tonalidade das nuvens anunciavam um temporal de bom tamanho.

É coisa para o doutor Tancredo, concordaram os comandantes militares. Era mesmo. Poucos dias e muita conversa depois, o conciliador vocacional fechou o acordo que afastou o fantasma da guerra civil. O vice tornou-se presidente, mas com poderes reduzidos pela adoção do regime parlamentarista. A escolha do nome do primeiro-ministro foi feita sem disputas, debates ou dúvidas. Só podia ser Tancredo Neves.

Mais de vinte anos depois, de novo só podia ser Tancredo Neves o candidato da mais multifacetada aliança política da história republicana. Nenhum outro juntaria na mesma campanha todos os  “autênticos” e todos os “moderados” remanescentes do PMDB. Nenhum uniria num só bloco todos os partidos de oposição, com a exceção previsível do PT, que optou pela abstenção. Nenhum atrairia tantos governistas dissidentes. E nenhum escaparia ao veto ostensivo de oficiais inconformados. Se não existisse um doutor Tancredo, o Brasil teria de esperar sabe-se lá quanto tempo ainda pela ressurreição da democracia.

Ele está em boa forma, equivoco-me ao ouvi-lo pedir um licor depois da sobremesa. É provável que já estivesse suportando as dores que esconderia até 14 de março, quando o país pronto para festejar a posse do eleito foi abalado pela notícia da primeira cirurgia. Escondeu-as por achar que o presidente Figueiredo não aceitaria passar a faixa presidencial nem a José Sarney, vice-presidente eleito, nem a Ulysses Guimarães, presidente da Câmara.

─ Vejo o senhor em Brasília ─ despeço-me na calçada em Belo Horizonte.

É um sorriso cansado, noto enquanto me deseja boa viagem.

─ Vejo o senhor no palácio ─ ouço-me dizendo em 15 de janeiro, achando mais cansado o sorriso do presidente eleito.

Não voltei a vê-lo vivo.

Tancredo, lição n° 5: “Um acordo entre contrários é muito mais difícil que uma vitória eleitoral”

7 de outubro de 2009

Está começando mais uma lição aquática, só que agora no oceano, sorrio intimamente ao ouvir de Tancredo Neves que convém esperar que as ondas parem de bater para examinar a espuma. Depois do passeio pelo Rubicão, um mergulho no mar, divago enquanto vigio os movimentos do homem à minha frente na mesa do restaurante em Belo Horizonte. O doutor Tancredo dá outra garfada no tutu à mineira. O franzir da testa avisa que a aula vai começar. 

─ Esse tutu é realmente muito bom ─ ele administra a posse de bola com o dispensável elogio à comida, parecido com o que fez ao corneteiro do enterro do general Cordeiro de Farias.

─ O senhor está pensando na briga do ACM com o Délio? ─ tento tomar-lhe a bola para  recolocá-la sobre ondas e espumas.

─ Estou pensando em coisas que podem acontecer, mas é verdade que a espuma demorou a aparecer depois do incidente entre o governador e o ministro ─ responde o candidato a presidente que fala como quem escreve.

Para simular a intimidade que não tenho nem com Antônio Carlos Magalhães nem com o brigadeiro Délio Jardim de Mattos, identifiquei pela sigla o governador da Bahia e chamei pelo prenome o ministro da Aeronáutica. Para fingir que trata cerimoniosamente os dois, e para deixar claro que o truque que usei não enganava ninguém, ele se referiu a ACM e a Délio pelos cargos que ocupam. Esse mineiro não perde uma, rendo-me já com a memória estacionada no dia 4 de setembro de 1984. 

A colisão entre as ondas de bom tamanho começou a desenhar-se no fim da manhã, quando o  ministro e velho amigo do presidente João Figueiredo traduziu no meio de um discurso a irritação do governo com a diáspora dos velhos aliados. Convidado para uma solenidade pouco relevante realizada no aeroporto de Salvador, Délio aproveitou a chance de mandar um duro recado aos parlamentares que trocaram o PDS governista pela Aliança Democrática, ostensivamente engajada na campanha do candidato do PMDB. 

Ao qualificar de “traidores” todos os que abandonaram o barco tripulado pelo candidato Paulo Maluf, o ministro da Aeronáutica atingiu o fígado do governador bom de briga. Antonio Carlos comemorava o aniversário em casa quando foi alcançado pela acusação. Fechou a cara e fechou-se no escritório. Minutos depois, reapareceu com um sorriso e uma folha de papel com a resposta que consumou o choque das ondas.  ”Traidor é ele, que apoia um corrupto”, dizia um trecho do manuscrito bem mais agressivo que o discurso de Délio.

A análise da espuma, ouço do doutor Tancredo no meio do jantar,  informou que políticos civis já podiam, sem temer a perda do mandato ou a decretação de atos institucionais, responder com igual contundência e no mesmo tom áspero a pronunciamentos de generais, brigadeiros e almirantes. Também dispensou o líder oposicionista de preocupar-se com a hipótese da prorrogação do mandato do presidente Figueiredo, aberração defendida por oficiais interessados em ganhar mais tempo para a organização da retirada. Mas alguns militares, advertiu a espuma,  seguiam alheios às evidências de que o regime estava à beira da sepultura. E continuariam a agir.

Em 10 de agosto, milhares de cartazes colados nas paredes dos prédios de Brasília vinculavam o candidato do PMDB aos comunistas. Recortado contra o fundo vermelho, ao lado da foice e do martelo, o rosto de Tancredo ilustrava a inscrição: PCB ─ Chegaremos lá”. Presos em flagrante por policiais civis, alguns jovens foram libertados por um militar que apareceu na delegacia para resgatá-los antes que o interrogatório começasse. Na noite do jantar, continuavam sem identidade os destinatários da mensagem enviada por Tancredo em 20 de setembro. “Os integrantes da direita não raci0cinam, agem, e quase sempre apelando para a violência, para a intriga, para a infâmia, para processos condenáveis de ação política”, subiu o tom habitualmente cauteloso o alvo das manobras clandestinas.

Isso aconteceu ontem, lembro na mesa do restaurante. O Brasil ainda está exposto ao risco de um golpe?, quero saber. Tancredo vai dizer que sim e dizer por quê. Ele está certo, saberei antes que o ano termine. Também sabarei o quer dizer a frase que será o tema da lição seguinte:

─ Um acordo entre contrários é muito mais difícil que  uma vitória eleitoral.

Tancredo Neves, lição nº 4: “Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater”

14 de setembro de 2009

Tancredo Neves presidente (foto: Carlos Namba)

— Paulo Maluf é o adversário perfeito porque só ele nunca teria a menor chance de unir o PDS — explica Tancredo Neves. — Os outros talvez conseguissem.

Os outros são o vice-presidente Aureliano Chaves e o ministro Mário Andreazza, ambos já fora do páreo naquele outubro de 1984. Aureliano formalizou o apoio a Tancredo em julho, quando o primeiro grande bloco de dissidentes rompeu com o PDS, transferiu-se para a Frente Liberal e inaugurou a sequência de rachaduras no partido do governo. Andreazza, derrotado na convenção nacional de 11 de agosto, acompanhou o presidente João Figueiredo na adesão à candidatura do ex-governador paulista, mas quase  sozinho: os cabos eleitorais com real poder de fogo preferiram o caminho que levaria ao fim do regime militar.

Pergunto quando foi que decidiu escalar Paulo Maluf para jogar como adversário.

— No dia em que assumi o governo de Minas.

No começo de 1983, numa conversa a dois com Aureliano, ficou combinado que o mineiro que não chegasse à fase final apoiaria o mineiro sobrevivente.

— Eu sabia que o Aureliano não iria longe — sorri Tancredo. — Não teria o apoio do Figueiredo porque o presidente não gostava do vice. Quando viajava, o Aureliano trabalhava muito e o titular ficava com cara de quem não é de muito serviço. E o Maluf usa certos métodos de atração que poucos têm coragem de copiar.

A aproximação com o grupo de Andreazza ficou para o ano seguinte. A primeira conversa entre o governador  e o ministro foi curta e rasa.

— O encontro foi no apartamento do Andrezza no Rio. O Antônio Carlos é que articulou tudo — informa.

Antonio Carlos Magalhães, governador da Bahia e coordenador da candidatura do ministro, já combinara com Tancredo que, se Maluf vencesse a convenção, disputariam como aliados a maioria do Colégio Eleitoral. Faltava combinar com Andreazza.

— Em cinco minutos, ficou claro que aquela conversa não seria muito produtiva — a voz do doutor Tancredo parece rejuvenescida, — O Andreazza parecia não entender o que a gente falava, ficava sempre na superfície, até que foi ao banheiro.

Quando voltou, ACM e Tancredo já haviam acertado a continuação da conversa no dia seguinte. Em outro local. E sem Andreazza.

— Mas ele não era má pessoa — consola.

Só depois de soldada a aliança o candidato da oposição e dos governistas dissidentes considerou-se pronto para o combate aberto. Em 14 de agosto, ao deixar o governo de Minas, esperou que o adversário perfeito tomasse a iniciastiva. O ataque veio dois dias depois.

— Sou imbatível — provocou Maluf.

— Até agora ele só enfrentou amadores — revidou Tancredo no dia seguinte.

Por que esperou 24 horas para responder?, fico intrigado enquanto o vejo dobrando e desdobrando o guardanapo de papel.

— É melhor aparecer sozinho na primeira página — ensina. — E quem diz a última coisa fica com cara de quem ganhou.

Como previra o profissional, Maluf partiu para o combate aberto com a afobação dos amadores.

— O Brasil não deve eleger um presidente com mais de 70 anos de idade — passou a repetir o que lhe pareceu uma sequência de jabs na testa.

— A Inglaterra, no auge da Segunda Guerra, foi conduzida com sabedoria pelo ancião Churchill — preparou Tancredo o contragolpe no fígado. — Roma antiga, no entanto, foi incendiada pela estupidez do jovem Nero.

Fica risonho quando reproduzo o início do duelo na conversa em Belo Horizonte.

— Vem mais confusão aí, mas estou confiante — avisa.

Pede o cardápio ao garçon, para escolher a sobremesa, e pede que eu ouça com atenção o que vai dizer:

— Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater.

Saberei por que antes que o jantar termine.

Tancredo, lição n°3: “Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado”

28 de agosto de 2009

Tancredo e Getúlio

Todo mundo sabe que Tancredo Neves sempre foi bastante cauteloso, lembro ao ouvi-lo dizer que não se deve tirar o sapato antes de chegar ao rio. O Tancredo que nunca vai ao Rubicão para pescar pouca gente conhece. Boa imagem essa, penso no primeiro aperitivo. Fico imaginando um chefe político jogando o anzol no rio nos limites de Roma que Júlio César atravessou, sem pedir licença, para tomar o poder.

─ De alguns rios o melhor é ficar longe ─ diz o doutor Tancredo depois de pedir tutu à mineira.

É o desfecho da aula fluvial, avisa o tom de voz. Peço o mesmo prato e um exemplo.

─ Fiquei fora do barco do Hugo Abreu ─ começa a contar a história que é a cara de Tancredo Neves.

Em 1978, parlamentares do MDB, entre eles o deputado Ulysses Guimarães, acharam muito boa a ideia de apoiar a candidatura de um militar disposto a enfrentar no Colégio Eleitoral o general João Figueiredo, já escolhido pelo presidente Ernesto Geisel. Conduzidas pelo general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa Militar de Geisel, as articulações envolvendo dissidentes fardados resultaram na escolha do general Euler (pronuncia-se Óiler) Bentes Monteiro. O que Tancredo achava da ideia?, foram perguntar-lhe alguns deputados.

─ O Hugo Abreu não é oficial paraquedista?

Esse mesmo, ouviu.

─ Pois se eu paro, olho e medito antes de descer um degrau, como é que vou me juntar com um camarada que se joga de um avião lá do céu e sem ter asas? ─ encerrou Tancredo, que ficou fora do barco e do fiasco.

Esse episódio é mesmo a cara dele, quero ver como é a outra. Quando foi que cruzou o Rubicão pela primeira vez?

─ Na última reunião do ministério do Getúlio ─ informa o sotaque de São João del Rey.

Em 1953, o advogado Tancredo de Almeida Neves, ex-vereador e ex-deputado estadual, exercia o primeiro mandato de deputado federal, na bancada do  PSD, quando se tornou ministro da Justiça do governo constitucional de Getúlio Vargas. Tinha 44 anos na noite de 23 de agosto de 1954, quando a sala de reuniões do Palácio do Catete se transformou no leito de um Rubicão. Além de Oswaldo Aranha, foi o único ministro a defender a resistência a qualquer custo.

─ Fiquei muito impressionada com a coragem e a lealdade do Tancredo ─ ouvi de Alzira Vargas meses antes do jantar em Belo Horizonte. ─ Ele insistiu na prisão dos generais rebelados e na decretação do estado de sítio.

Possessa com a tibieza dos ministros militares, a filha e secretária de Getúlio, que entrara na sala sem pedir licença, acusou-os de covardia e, depois, de traição.

─ Ainda acho que a história do Brasil seria outra se papai concordasse em resistir ─ ouvi Alzirinha dizer.

─ Também acho ─ ouço Tancredo dizer depois de contar-lhe o que tinha dito a sua velha amiga. ─ O que houve já no dia do suicídio provou que o doutor Getúlio tinha o apoio do povo.

A primeira travessia se completou com o vigoroso discurso de despedida em São Borja, aquecido por ataques violentos aos novos donos do poder. Quem decidiu que Oswaldo Aranha e ele discursariam ao lado do túmulo?

─ Ninguém. Todos estavam muito comovidos, ninguém tinha cabeça para organizar listas de oradores.

O discurso, bonito e muito bem costurado, não parecia inteiramente improvisado. Como é possível falar aquilo tudo de sopetão, sem aquecimento mental, sem nenhum preparativo?

─ O coração falou por mim.

O doutor Tancredo é craque em  frases de efeito, mas achei fraquinha essa do coração falando por ele. Ele também achou, desconfio quando ele chama o garçom, pede uma segunda dose de uísque, volta a 1983 e diz que está de novo atravessando o rio perigoso.

─ Vou vencer ─ murmura.

A aliança entre a MDB e governistas convertidos à oposição tão forte assim? Enquanto confirma com movimentos de cabeça, ele começa outra lição.

─ Não há como perder do Paulo Maluf. É o adversário que eu queria. Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado.

Tancredo Neves, lição n° 2: “Não se tira o sapato antes de chegar ao rio. Nem se vai ao Rubicão para pescar”

12 de agosto de 2009

Augusto Nunes, Tancredo Neves, Golbery

De repente, o senador Tancredo Neves submergiu no mar de cabeças e braços, voltou à tona meio metro além, repetiu a manobra e ganhou duas ou três posições no cortejo que acompanhava o sepultamento do marechal Oswaldo Cordeiro de Farias. Eu o seguia a três corpos de distância quando aquele mineiro baixo, calvo e com o nariz arrebitado resolveu apressar o avanço rumo ao alvo situado duas fileiras atrás da comissão de frente formada por parentes do morto. Era um homem com cabelos brancos, óculos de quem lê o dia inteiro e cara de professor de matemática que reprova todo mundo.

Vou cortar caminho, decidi. Saí da alameda principal do Cemitério São João Baptista por um corredor à esquerda, virei à direita num mausoléu de mármore preto, violei três túmulos rasos com passadas ligeiras, dobrei à direita de novo num jazigo familiar de tamanho médio e cheguei lá. Chegamos: no instante em que me coloquei à frente do general Golbery do Couto e Silva, Tancredo alojou-se à esquerda do chefe da Casa Civil do presidente João Figueiredo.

Na tarde de 17 de fevereiro de 1981, Golbery estava lá para o enterro de Cordeiro de Farias. Tancredo estava lá para dizer alguma coisa a Golbery, presumi. Eu estava lá para ver no que dava. “Se o defunto é de primeira, não se perde o enterro”, ouvi meu pai prefeito dizer um monte de vezes. ”Primeiro, porque todo mundo vai. Segundo, porque quando todo mundo vai a um mesmo lugar alguma coisa acontece”. O velho Cordeiro, com todo o respeito, pareceu-me um defunto de primeiríssima.

E alguma coisa acontece mesmo. Estava para acontecer, por exemplo, uma conversa em voz baixa entre o articulador político do governo e o chefe da oposição moderada. Só eu ouviria aquilo. E eles nem vão notar que estou ouvindo, pensei sem olhar para trás. Ouvi a troca de cumprimentos formais. E então começou o toque de silêncio.

É agora, excitei-me quando foi morrendo o último sustenido, pronto para registrar o diálogo histórico:

─ Excelente corneteiro ─ começou Tancredo.

─ Muito bom ─ concordou Golbery.

Pausa de três minutos.

─ Foi um prazer encontrar-me com o senhor ─ surpreendeu-me Tancredo com a abrupta despedida.

─ O prazer foi todo meu ─ retribuiu Golbery.

─ Precisamos conversar ─ disse o senador estendendo a mão.

─ Precisamos, sem dúvida ─ encerrou o general apertando a mão estendida.

Não acredito, espantei-me ao constatar que o diálogo histórico fora substituído por um monumento à banalidade feito de seis frases. O deputado Thales Ramalho me contara que Tancredo e Golbery andavam se encontrando com frequência para conversas sigilosas em que tratavam de tudo. O que havia acontecido no cemitério? Viram algum suspeito nas cercanias? Identificaram algum espião? O que houve no dia do enterro?

Hoje vou saber, resolvi naquela noite de novembro de 1984, enquanto me sentava à mesa do restaurante em Belo Horizonte para a primeira conversa a dois com Tancredo Neves. Governador de Minas desde o ano anterior, já estava em marcha acelerada para a vitória no colégio eleitoral que, em janeiro de 1985, elegeria o sucessor do presidente Figueiredo. Ele havia topado falar sobre os bastidores da campanha.

─ Também gostei daquele corneteiro do enterro do Cordeiro de Farias ─ comecei.

Ele pareceu não entender nada.

─ O senhor até elogiou o corneteiro pro Golbery.

─ Não me lembro disso ─ ouvi. ─ Nem do corneteiro nem do encontro com o general Golbery.

Achei melhor mudei de assunto antes que dissesse que também não foi ao enterro de Cordeiro. Só no fim do jantar ele contou que lembrava de tudo. Queria apenas conferir se eu tinha mesmo testemunhado o parecer sobre o toque de silêncio. Em desconfiava disso desde o aperitivo, quando ficou claro que ele estava com muita vontade de comer, de beber e de falar. Driblou o caso do corneteiro, mas matou no peito o assunto seguinte.

Por que não se entusiasmara com a campanha das diretas-já?, quis saber. Nunca acreditou que pudesse dar certo? Sempre achou que era uma coisa lírica, repetiu. Participou de vários comícios, mas se dependesse dele a campanha nem começaria.

─ Os militares não estavam prontos para aceitar que o presidente fosse escolhido pelo voto direto. Achei que seria perda de tempo. Não se tira o sapato antes de chegar ao rio.

Em contrapartida, esbanjava entusiasmo desde o primeiro dia do duelo contra Paulo Maluf, que seria decidido por um colégio eleitoral majoritariamente governista. Por que a mudança brusca de comportamento? Porque havia chegado ao Rio, respondeu. E então ouvi a frase que, conjugada com a anterior, resumia o estilo do Doutor Tancredo:

─  Não se vai ao Rubicão para pescar.

Aquele jantar prometia.

Tancredo Neves, lição n° 1: “Fazer visita é bem melhor que ser visitado”

27 de julho de 2009

tancredo-neves-diretas-1

O senador Tancredo Neves batia todo fim de tarde na porta do apartamento do deputado  Thales Ramalho em Brasília. Eram sempre três batidas compassadas, sempre na porta dos fundos. Embora imobilizado numa cadeira de rodas desde o acidente automobilístico sofrido em 1976, Thales fazia questão de atender pessoalmente à chamada em código. E então Tancredo perguntava se havia mais alguém por lá.

Quase sempre havia: forçado a evitar deslocamentos cada vez mais dolorosos, o secretário-geral do MDB acabou transformando o apartamento 101, Bloco D, SQS 302 numa extensão do gabinete no Congresso. Levemente contrariado, o senador mineiro pedia a relação dos presentes. Se nenhum dos nomes lhe causasse desconforto, juntava-se à conversa por duas doses de uísque com gelo e menos de meia hora.  Tancredo sempre tinha pressa.

Tinha tempo de sobra se podia conspirar longe de testemunhas com o parceiro de quem se tornara amigo quando frequentavam a escola do velho PSD. Nascido no Rio Grande do Norte, adotado pelos eleitores de Pernambuco, Thales era deputado federal desde 1967. No outono de 1979, o discípulo e o mestre tocavam de ouvido.

─ Tancredo acabou de sair ─ soube ao entrar no começo da noite na sala onde o anfitrião acariciava um copo de uísque.  ─ Conversamos quase duas horas ─ deu outro gole.

Thales bebia bem, sobretudo depois do encerramento de outra maratona de conversas vespertinas.  A agenda andava carregada, assunto era o que não faltava. Um ano e tanto, aquele. O AI-5 foi revogado no dia 1° de janeiro. Em 15 de março, o general João Figueiredo assumiu a presidência da República disposto a concluir o processo de abertura política iniciado no governo Ernesto Geisel. Eram iminentes a decretação da anistia e a volta do sistema pluripartidário. Qual desses temas teria deixado a dupla mais excitada? Nenhum deles, surpreendeu-me a informação seguinte:

─ Aprendi mais uma com Tancredo: fazer visita é bem melhor que ser visitado.

Thales então reproduziu a aula desde o começo. O senador, explicou, só tinha conseguido encontrá-lo sozinho na terceira tentativa. Dois dias antes, não passou da soleira porque havia muita gente na sala, que continuava cheia de gente na véspera. Ficou vazia no meio daquela tarde.

─ Até que enfim ─ suspirou Tancredo enquanto se acomodava no sofá. ─ Está ficando cada vez mais complicado conversar aqui. Você precisa aprender a visitar mais e receber menos visitas.

─ Eles telefonam e avisam que estão a caminho ─ explicou Thales. ─ Não posso fazer nada.

─ Pode. Quando alguém diz que quer vir à minha casa, vou logo dizendo que faço questão de homenageá-lo com a minha visita. Se estiver a caminho, peço que volte.

Faz sentido, pensou Thales.

─ Fazer visita só tem vantagens ─ continuou a aula. ─ Quem vai à casa de alguém come a comida do dono, bebe a bebida do dono e, melhor que tudo, escolhe a hora de ir embora. A pior coisa do mundo é aguentar visita que fica duas horas além da conta.

Faz sentido, achou Thales outra vez. Mas havia um problema: se passava todo o tempo numa cadeira de rodas, como poderia desandar a fazer visitas?

─ Deixe sempre muito claro que você tem essas dificuldades todas ─ liquidou a questão Tancredo Neves. ─  Além de feliz com a visita, o visitado vai ficar muito comovido.

Tancredo estréia nesta segunda-feira

26 de julho de 2009

É só um recado aos amigos: o primeiro texto sobre o presidente Tancredo estará na seção amanhã (segunda) à tarde.

abraços,

Augusto