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30/04/2009

às 0:14 \ O País quer Saber

O protagonista do escândalo que abriu o festival de horrores da Era Lula

PUBLICADO EM 30 DE ABRIL DE 2009

No inverno de 2002, a campanha eleitoral estava em seu começo quando o bicheiro Carlinhos Cachoeira foi convidado para uma conversa com Waldomiro Diniz, presidente da Loterj ─ empresa estatal que administra as  loterias do Rio. Por saber com quem lidava, o delinquente carioca tratou de gravar o encontro, ocorrido numa pequena sala do aeroporto de Brasília, com uma câmera oculta. Por motivos ainda ignorados, só a liberou o vídeo para exibições na TV em fevereiro de 2004.

Apesar da má qualidade das imagens e do som, o filmete fez muito sucesso. Com a voz e o olhar de pecador no confessionário, o presidente da Loterj tenta obrigar o bicheiro a anabolizar com contribuições de bom tamanho tanto a campanha da governadora Benedita da Silva, candidata à reeleição pelo PT, quanto a de Rosinha Garotinho, a adversária lançada pelo PMDB. A demonstração de generosidade, insinua Waldomiro, seria retribuída na forma de praxe: até o fim do governo, o doador estaria na lista dos amigos autorizados a delinquir em paz.

Cachoeira também poderia contar com a gratidão do caçador de contribuições, que não estava ali por motivos exclusivamente políticos. “Um por cento é pra mim”, confessa Waldomiro na fala mais picante, patética e pilantra do script. Pronunciada pelo corrupto trapalhão em 2002, foi ouvida pelo Brasil inteiro quando o dono do fiapo de voz falava grosso no cargo de subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, comandada pelo superministro José Dirceu. E o que seria mais um caso de ladroagem regional assumiu dimensões suficientemente superlativas para inaugurar o festival de escândalos da Era Lula.

Amigos desde 1991, Dirceu e Waldomiro dividiram um apartamento na planície antes de se instalarem no latifúndio da Casa Civil no Palácio do Planalto. Ao assessor de estimação do ministro cabia atender às demandas da clientela parlamentar. A agenda oficial o remetia diariamente ao Congresso, onde cumpria missões confiadas pelo comandante ─  um afago no senador carente de atenções, a antecipação da audiência com o chefe prometida ao deputado amuado, uma barganha moldada para melhorar o humor do partido arredio.

Muito mais excitantes eram os compromissos camuflados nos rabiscos só decifráveis por quem os produzira. Aquelas folhas soltas compunham a agenda oficiosa de um estelionatário em ascensão. Com a mudança de emprego, mudaram as cifras, os parceiros e as cenas dos crimes. Só não mudou a porcentagem. A propina seguiu estacionada em 1%, mas o figurão federal passou a negociar procissões de zeros com grandes empresários em gabinetes maiores que o velho apartamento.

Em abril de 2003, por exemplo, descobriu-se que Waldomiro condicionou a renovação do contrato entre a Caixa Econômica Federal e a GTech, empresa que lucrava com as loterias federais, ao pagamento de uma propina de R$ 6,5 milhões. Um por cento dos R$ 650 milhões que a GTech receberia. Dirceu fez de conta que de nada soube. Reeditou a cara de paisagem quando até o gramado da Praça dos Três Poderes compreendeu que Waldomiro estava a serviço dos donos de casas de bingo. Confrontado com o vídeo bandalho, o ministro caprichou na imitação do inocente enganado e disse ao presidente que queria pedir demissão. ”Eu disse que aquilo não fazia sentido, ele não tinha culpa de nada”, contou Lula mais tarde. Só o escândalo do mensalão despejaria do Planalto o especialista em recrutamento de assessores malandros.

Graças a Dirceu, Waldomiro não foi demitido a bem do serviço público, mas “exonerado a pedido”. Safou-se das preguiçosas investigações simuladas por uma comissão de sindicância do Planalto. Escapou da CPI dos Bingos. Voltou a contracenar com Cachoeira numa acareação judicial ocorrida no fim de 2005 e sumiu de Brasília. Cinco anos depois do vídeo que lhe garantiu alguns dias de fama, vive no interior de Goiás, longe do coração do poder e da cadeia.

Em outubro de 2007, a repórter Andrea Michaels, da Folha de S. Paulo, informou que o extorsionário impune chefiava a área financeira de uma fábrica de ração e produtos para animais instalada em Goiânia. Para a Receita Federal, apurou a jornalista, continuava um fantasma: a última declaração de renda foi apresentada em 2005 e a CPF tinha sido cancelado. Waldomiro deve ter ressuscitado para o Fisco no ano seguinte, sugeriu em maio de 2008 o blog de Vicente Nunes, do Correio Braziliense.

“Ele se tornou um importante personagem no promissor mercado de carne bovina”, revelou o jornalista. “É agora representante oficial do Frgorífico Bertin, com procuração de plenos poderes reconhecida em cartório, para a venda de uma unidade do grupo no interior de Goiás”. Um negócio de R$ 10 milhões. Ainda de acordo com Vicente Nunes, José Dirceu é consultor informal da Bertin. O ex-assessor deve mais um emprego a um amigo que lhe deve eterna gratidão. Waldomiro hoje ganha dinheiro com carne de gado porque nunca deu nome aos bois.

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17 Comentários

  1. Prof. Temístocles

    -

    21/03/2012 às 20:51

    Vamos começar por um esclarecimento indispensável: você é Prof. Temístocles ou Juliana Souza? Preciso saber pra decidir se a senhora vai levar três croques na cabeça ou o senhor vai levar uma surra de rabo-de-tatu.

  2. Angelo

    -

    02/03/2012 às 17:37

    Senhores,esses fatos todos deve-se a nossa Justiça
    que é falha,retrógrada e pouco propensa a fazer
    cumprir as Leis,pois estão aparelhados e dificilmente
    esses personagens que tem “muito poder”,através do
    toma lá dá cá,irão pagar suas penas atrás da grades.

  3. Caio Frascino Cassaro

    -

    02/03/2012 às 17:32

    Prezado Augusto:
    Há muito tempo tenho repetido uma expressão bastante usada pelos americanos – “Follow the Money”. Para que o Diniz e José “Zeca Diabo” Dirceu prestavam serviço? Frigorífico Bertim, aquele do Bumlai, o primeiro amigo do Apedeuta, cuja foto estava em todas as portarias do Palácio do Planalto com ordem expressa para que o acesso do fulano jamais fosse bloqueado? Não por acaso essa turma é chegada em um “bife”. O Lulinha, o “nosso” L10, o Ronaldinho dos negócios, em poucos anos deixou de ser bedel do Jardim Zoológico de São Paulo para se tornar um dos maiores compradores de gado do país. Até o outro dia evitava aparecer pessoalmente nos leilões porque obviamente pegava mal. Há cerca de dois ou três meses resolveu dar as caras em um leilão promovido pelo Ivan Zurita para testar como é que seria a recepção e, segundo a Sonia Racy, acabou saindo “a francesa” porque sua presença naquele ambiente provocou um enorme mal estar.
    Augusto, amigo, é só seguir o dinheiro. Esses caras deixam rastros. É só perguntar para o povo de Rio Verde de Goiás quem são os maiores compradores de gado nos leilões que ocorrem por ali. E para arrematar, vão ao estado do Tocantins se informar sobre a formação da “Petelândia”, reduto de petistas de alto coturno que se reuniram para comprar grandes áreas no estado.
    Informem-se ainda a respeito da linha de crédito de 10 bilh~es de dólares para o financiamento de exportação de carne bovina para as empresas brasileiras – leia-se Friboi, que detém praticamente o monopólio de exportação de carne.
    É isso, amigo. Sigam o dinheiro. Eu, que não sou reporter e só tenho alguns amigos bem informados espalhados pelo Brasil, fico sabendo de coisas realmente do arco da velha. É só correr atrás e o fio dessa meada vai mostrar um novêlo de infinita podridão.
    Um abraço.

  4. catson aruak

    -

    02/03/2012 às 1:56

    A frase ”’Eu disse que aquilo não fazia sentido, ele não tinha culpa de nada’, contou Lula mais tarde” fica perfeita num diálogo com gilbertinho carvalho.
    Esses pilantras pensam que todo mundo é petista vigarista.

  5. ataliba pereira de morais

    -

    01/03/2012 às 20:48

    é preciso somar todos os roubos executados pelo pt e tornar isso publico ,para o povo saber o montante que essa corja de ladrões já rou bou do pais.

  6. Petista arrependido

    -

    01/03/2012 às 20:20

    Augusto,
    O que esse ladrão está fazendo fora da cadeia?

  7. Fabio

    -

    13/05/2009 às 13:22

    Essa é realmente impressionante!
    Uma boa sugestão para O País Quer Saber é onde foi parar e o que anda fazendo aquele personagem surreal que afirmou na comissão do senado na frente das câmeras de TV que recebeu dinheiro ilegal, de caixa dois numa conta situada num paraíso fiscal e todo mundo fez de conta que não ouviu o que ele tinha dito… nem perguntou; Como assim???
    Onde anda o Duda Mendonça? Ele ainda está com a conta da Petrobras?

  8. Carlos, Gabi e Mel

    -

    05/05/2009 às 22:57

    Bem vindo Augusto!
    Um prazer ter vc na VEJA nos deliciando com o que todos queremos saber…todos, os cidadãos de bem, os que sabem que o Brasil merece ,melhor que isto que lhe está a acontecer….e que trabalham por dias melhores, cada um no seu espaço.
    Obrigado, um abraço

  9. Bola Teixeira

    -

    04/05/2009 às 13:46

    Caro Augusto
    A imprensa brasileira poderia oferecer uma grande contribuição se suitasse com muito mais frequência suas matérias, especialmente as relacionadas a denúncias… uma espécie de o país que saber generalizado … teria muito corrupto emparedado…

  10. Martha

    -

    03/05/2009 às 19:14

    Que bom, de volta!!!!!
    Com tantos feriados custei a “engrenar” no coro dos leitores a lhe dar os parabéns e sobretudo clamar por mais e mais possibilidades de vociferar contra essas ordens perversas e acachapantes para quem convive nos “Tristes Trópicos”…
    Perfeita a sugestão do Sr. Hugo Werneck, aliás sua mesmo na origem pelo que entendi, de trazer à luz os pilantras todos e saber onde andam. E por falar nisso, o caso Celso Daniel??? Esquecido para sempre?
    Abraços e bem-aventuranças.

  11. Antônia Vaz

    -

    01/05/2009 às 11:28

    Cadê a polícia? Cadê a polícia deste nosso bizarro país?

  12. lucio peixoto

    -

    01/05/2009 às 8:28

    Augusto Nunes, aqui é BRASIL , o país do vale tudo, e o governo Lula é o governo do toma lá , dá cá.Que que aconteceu com o José Dirceu?NADA. Com o GENOÍNO? NADA. Com o PALLOCI?NADA. COM O FÁBIO LUIZ LULA DA SILVA ( O NEGOCIÃO DO LULINHA – VEJA ) ? NADA. O que aconteceu com o PIMENTA NEVES?NADA. O que vai acontecer com o Waldomiro Diniz?Eo Daniel Dantas? O vilão do caso agora é o delegado Protógenes Queiróz.Augusto Nunes, ISSO É BRASIL, O PAÍS DA JUSTIÇA ZERO, aqui , com o Lula ( Mobral ) no poder, quem vai para a cadeia é POBRE.

  13. HERVAL

    -

    30/04/2009 às 22:58

    Meu caro Augusto Nunes,li com muito interesse sua coluna sobre a corrupcao de Dirceu e comparsas e o que me deixa mais chateado e que nao ha a quem recorrer pois o poderes estao todos corrompidos.A imprensa e maravilhosa nos que diz respeito a investigacoes e ate mesmo a policia federal faz um bom trabalho mas sempre no final nada acontece.A verdade e que algo tera que sair do proprio congresso ou um presidente que tenha verdadeiro espirito de lideranca e que seja realmente patriotico.Deveria ser feita uma verdadeira transformacao,principalmente no poder judiciario,e quem deveria investigar politicos e cidadaos comuns seria uma policia especial.Ate la a impunidade sera ativa.

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ’0 which is not a hashcash value.

  14. aidenós

    -

    30/04/2009 às 20:48

    e o ministro direito, hein, augusto?
    trabalha direitinho no upgrade de seus familiares e amigos, facilitando inclusive o trâmite aduaneiro.
    quem há de negar que o elemento segue à risca seu próprio lema:
    “Toda a minha vida foi dedicada a isso: à honra e à dignidade”

  15. Sandra

    -

    30/04/2009 às 18:14

    Uma péssoa que conhece a família de Waldomiro Diniz, disse-me que ele uma mansão numa praia maravilhosa do Ceará e que é chamado de “dotô” pelos moradores da praia. Foi com as propinas arrecadadas que ele se dá a esse luxo? Perto de Diniz e Dirceu, o extinto PC Farias não passaria de um aprendiz… Será que ele daria nome aos bois??? Duvido muito, porque “o cara” lá de cima já blindou o rapaz… PIZZA, MAIS UMA PIZZA PARA NÓS, PALHAÇOS DO BRASIL, MANDAR GOELA ABAIXO…

  16. Hugo Werneck

    -

    30/04/2009 às 11:39

    Meu caro Nunes, já manifestei anteriormente o meu prazer pela sua volta à Veja, nesse formato que permite a participação de seus milhares de leitores. Disse, e o fiz sinceramente, que você seria a voz dos que não podem se manifestar ou mesmo o fazendo, não causam nenhuma preocupação aos “indômitos afanadores compusilvos dos recursos públicos”, sempre protegidos por um milagrosas liminares ou mesmo pelo “esquecimento” de seus crimes que acabam prescrevendo. Levantar o assunto Valdomiro “Zé Dirceu” Diniz, me dá a idéia de que você poderia, diariamente, destinar um espaço para lembrar esses vampiros para que os seus leitures, como eu, se encarreguem de infernizar-lhes a vida. Pra começar, por quê não reavivar o famigerado e pilantra petista(ex-de araque) Dilúvio, digo, Delúbio Soares?


 

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