03/08/2011
às 12:37 \ Feira Livre‘Dilma e seus governos’, um artigo de Marco Antônio Villa
PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA
Marco Antônio Villa
Dilma Rousseff é caso único na História do Brasil. Já iniciou, em apenas sete meses, três vezes o seu governo. Em janeiro assumiu a Presidência. Parecia que a sua gestão iria começar. Ledo engano. Veio a crise em maio – caso Palocci – e ela rearranjou o núcleo duro do poder. Seus entusiastas saudaram a mudança e espalharam aos quatro ventos que, naquele momento, iria efetivamente dar início ao seu governo. Mera ilusão. Veio nova crise em junho, esta no Ministério dos Transportes. Seguiram-se demissões de altos funcionários – ontem já chegaram a 27. Em seguida, foi anunciado que agora – agora mesmo – é que iria começar a sua Presidência. Será?
No país das Polianas, sempre encontramos justificativas para o injustificável. Os defensores, meio que envergonhados da presidente, argumentam que ela recebeu uma herança maldita. Mas não foi essa “herança” que a elegeu presidente? Não permaneceu cinco anos na Casa Civil participando e organizando essa “herança”? Herança, como é sabido, é algo recebido de outrem. Não é o caso. A então ministra da Casa Civil foi uma participante ativa na organização da base partidária que sustenta o governo no Congresso Nacional. Tinha e tem absoluta ciência do que representam essas alianças para o erário.
Fingir indignação, falar em limpeza – quando o vocabulário doméstico invade a política, é sinal de pobreza ideológica -, dizer que agora, sempre agora, só vai aceitar indicações que tenham a ficha limpa, isso é um engodo. Quer dizer que no momento em que formou o Ministério a ficha limpa era irrelevante? Ficha limpa é para coagir aliados? E que aliados são esses que são constrangidos pelo currículo?
Os sucessivos reinícios de governo são demonstrações de falta de rumo e de liderança. O PAC não é um plano de governo. É uma junção aleatória de obras realizadas principalmente pelo governo e por empresas estatais. É um todo sem unidade alguma. Não há uma concepção de projeto nacional, nada disso. Além da falta de organicidade, os cronogramas de todas as obras estão atrasados. O governo não consegue realizar, de forma eficaz, nenhum empreendimento. Quando algo chama a atenção, não é por seu efeito para o desenvolvimento do País. Muito ao contrário. É por gasto excessivo, desvio de recursos, inutilidade da obra ou atraso no prazo de entrega. E, algumas vezes, é uma cruel somatória desses quatro fatores.
O País está sem rumo. Mantém indicadores razoáveis no campo econômico, contudo muito abaixo das nossas potencialidades. Basta lembrar que neste ano a taxa de crescimento será a mais baixa entre os países da América do Sul (não estamos falando de China, Índia ou Coreia do Sul, mas de Paraguai, Equador e Peru). A economia ainda é movida pelo que foi estruturado durante os primeiros anos do Plano Real e por medidas adotadas em 2009, ante a crise internacional.
A falta de liderança é evidente. Os últimos quatro meses foram de abalos permanentes. E nos primeiros cem dias a presidente teve uma trégua. Foi elogiada até pelo que não fez. Politicamente, o ano começou em abril e, de lá para cá, o governo toda semana foi tendo algum tipo de problema. Ora no relacionamento com a base, ora no cotidiano administrativo. O problema central é que Dilma não se conseguiu firmar como liderança com vida própria. É vista pelos líderes da base como alguém que deve ser suportada até o retorno de Lula. A questão – para eles – é aguentar a destemperança presidencial. Claro que o preço compensa. Porém a rispidez e os gritos da presidente revelam que ela própria sabe que não é levada a sério. Vez por outra, o passado deve rondar os pensamentos da presidente. Ela, em alguns momentos, exige uma obediência ao estilo do velho “centralismo democrático” leninista. Sonha com Trotsky, Bukharin e Kamenev, mas convive com Collor, Sarney e Renan.
Nas crises que enfrentou, não conseguiu encontrar solução razoável. Ao contrário, desarrumou a articulação existente e foi incapaz de substituí-la por algo mais eficiente. Deixou rastros de insatisfação e desejos de vingança. A trapalhada com o PR e a demora em resolver de vez as denúncias são mais evidências da falta de capacidade política. Criou na Esplanada dos Ministérios a versão petista do “onde está Wally?”. Agora o jogo é adivinhar, entre mais de três dúzias de ministros, quem será o próximo a cair em desgraça. Algo meio stalinista (é o passado novamente?). Com tanto estardalhaço, Dilma nem acabou com a corrupção nem conseguiu fazer a máquina governamental funcionar. E quem perde é o País.
A cada fracasso de Dilma, mais cresce o clamor da base (e do PT, principalmente) para o retorno de Lula. Difícil acreditar que o criador não imaginasse como seria o governo da sua criatura. Pode ter sido uma jogada de mestre. Respeitou a Constituição (não patrocinando o terceiro mandato), impôs uma candidatura-poste, venceu com o seu prestígio a eleição e será chamado cada vez mais para apagar incêndios. Ou seja, a possibilidade de ser passado para trás é nula. Dessa forma, transformou-se no personagem fundamental para manter a estabilidade da aliança do grande capital nacional e estrangeiro, fundos de pensão das estatais, políticos corruptos e oportunistas de toda ordem. É também o único que consegue fazer a articulação com o andar de baixo, dando legitimidade ao projeto antinacional. Sem ele, tudo desmorona.
Dilma vai administrando (e mal) o cotidiano. A fantasia de excelente gestora, envergada no governo Lula e na campanha presidencial, revelou-se um figurino de péssima qualidade. Como nos velhos sambas, a quarta-feira já chegou. Um pouco cedo, é verdade. O carnaval mal começou. E dos quatro dias de folia, nem acabou o primeiro.
Tags: crises, Dilma Rousseff, governo, liderança, Lula, Presidência










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10 Comentários
Alexandre
-06/08/2011 às 13:50
Estou assustado com o texto…
É a crônica de um fracasso em pleno andamento.
GlorInha de Nantes
-05/08/2011 às 12:53
Perfeito mais que perfeito! A clareza desta análise de Marco Antônio Villa deve ser, exuberantemente, destacada e elogiada. Nelson Jobim confirmaria ponto a ponto, cada palavra. Houvera, na segunda-feira, no RodaViva da TV Cultura, recitado um script à medida para aquela oportunidade.
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“Ela é uma “mulher extraordinária”, tem uma “capacidade de trabalho incrível”, uma “percepção de mundo muito forte” e uma “percepção do destino do Brasil, que é fundamental”.” Quem usa, cuida! __ diria minha mãe.
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Com a paciência e o humor já passando do ponto, eis a mulher extraordinária! A esta altura, numa enrascada, indecisa e titubeante no exercício do mandato, drástica e velozmente, fragilizado, eis a incrível capacidade de trabalho!
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Inflexível e persistente nas anacrônicas ideias, ei-la muito forte na percepção de mundo ditada por dogmas. A dogmática rrousseff tem o fundamental dogma permeando sua concepção de destino do país.
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Nelson Jobim sabia muito bem o que estava dizendo.
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Parabéns, Marco Antônio Villa! Direto ao Ponto, marca Augusto Nunes! Parabéns!
Pierre
-04/08/2011 às 14:30
Marco Antônio Villa Muito obrigado por nos brindar com magnífico artigo.Por ser tão brilhante, guardo-o na minha pasta intitulada Governo Lula.
Observador100
-04/08/2011 às 12:51
Prezado Augusto
Sabemos que vez em quando o blog é “atacado” por milicianos petistas, uns mais furiosos, outros se disfarçando de intelectuais de final de semana. Gostaria que algum destes comentasse, com argumentos consistentes poor favor, este magistral artigo. Está feito desafio. Caso não apareça nenhum, sugiro que a quadrilha se case para sempre!
Santos
-03/08/2011 às 23:15
Esse time só joga pra ganhar. Augusto Nunes passa a bola pra Marco Antonio Villa. E é gooooooooooooooooooool. Indefensável. É gol de placa.
f penin
-03/08/2011 às 20:18
Perfeito, Augusto. Neste seu blog, ou melhor, nesta casa só entra gente bamba, cobra criada.Marco Antônio Villa disseca com precisão todos os tecidos do paciente Brasilino, mostra onde há podridão,expõe tudo. Augusto, uma perguntinha: tendo em vista as declarações de Alfredo Nascimento,que implicitamente mostrou ao país que o ervanário foi gasto(ilegalmente)na campanha política, não fica sob suspeita a eleição do poste? Conforme os próprios aliados (não foram os oposicionistas,não!),os bilhões a mais beneficiaram os que comandavam o país. Dilma foi resultado de toda a incompostura que se tem visto,desde que foi lançada candidata.O impedimento legal não seria a solução?
Pimenta
-03/08/2011 às 18:54
Prezado Augusto,
O excelente texto de Marco Antônio Villa nos mostra o que um “populista patife” é capaz de fazer para a volta ao poder. Para a “hiena chefe” pouco importa se sua cria vai ou não destruir o país em quatro anos. Ele sempre foi assim: destruir para depois se apossar.
Só que sua máscara está, pouco a pouco, caindo diante dos brasileiros.
No fim estará sózinho com sua cara lambida desprezível.
ROSANA
-03/08/2011 às 18:14
Meu Deus que lucidez, perfeito, esse prof. Marco Antônio Villa é o Prof. que todo aluno gostaria de ter. Excelente.
Marcello
-03/08/2011 às 16:01
Mais um excelente artigo publicado nesta coluna. Aliás,o Prof. Marco Antônio Villa é um sábio.
Luis R N Ferreira
-03/08/2011 às 13:18
Perfeita a analise do que é o governo Dilma. Marco Antônio Villa é um observador que nunca perdeu de vista a personagem incompetente do neurônio solitário, velha conhecida desta coluna. Não se deixou enganar pela tentação de muitos analistas de enxergarem Dilma como uma novidade. Como ele, também acredito que sua eleição possa ter sido uma jogada de Lula para driblar a Constituição e criar condições para poder voltar com toda a força em 2014.