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26/06/2011

às 14:47 \ Feira Livre

Desonestidade é cultura

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

João Ubaldo Ribeiro

Sempre se tem cuidado com generalizações, para não atingir os que não se enquadram nelas. Às vezes o sujeito odeia indiscriminadamente toda uma categoria, mas, ao falar nela e, principalmente, ao escrever, abre lugar para as exceções, os “não-são-todos” e ressalvas hipócritas sortidas. Outros recorrem a gracinhas, como na frase do antigamente famoso escritor Pitigrilli, segundo a qual “as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor”. No caso presente, decidi que as generalizações feitas hoje excluem todos os leitores, a não ser, evidentemente, os que desejem incluir-se – longe de mim contribuir para aumentar nossa tão falada legião de excluídos.

Antigamente, era muito comum ler ensaios e artigos escritos por brasileiros em que nós éramos tratados na terceira pessoa: o brasileiro é assim ou assado, gosta disso e não gosta daquilo. Em relação a maus hábitos então, a terceira pessoa era a única empregada. O autor do artigo escrevia como se ele mesmo não fizesse parte do povo cuja conduta lamentava. Até mesmo nas conversas de botequim, durante as habituais análises da conjuntura nacional, o comum era (ainda é um pouco, acho que o boteco é mais conservador que a academia) o brasileiro ser descrito como uma espécie de ser à parte, um fenômeno do qual éramos apenas espectadores ou vítimas. Eu não. Talvez, há muito tempo, eu tenha escrito dessa forma, mas devo ter logo compreendido sua falsidade e passei a me ver como parte da realidade criticada. Individualmente, posso não fazer muitas coisas que outros fazem, mas não serei arrogante ou pretensioso, vendo os brasileiros como “eles”. Não são “eles”, somos nós.

Creio que, feita a exceção dos leitores e esclarecido que estou falando em nós e não em inexistentes “eles”, posso expor a opinião de que fica cada vez mais difícil não reconhecer, vamos e venhamos, que somos um povo desonesto. Não conheço as estatísticas de países comparáveis ao nosso e, além disso, nossas estatísticas são muito pouco dignas de confiança. Mas não estou preparando uma tese de mestrado sobre o problema e não tenho obrigação metodológica nenhuma, a não ser a de não falsear intencionalmente os fatos a que aludo e que vem das informações e impressões a que praticamente todos nós estamos expostos.

Claro, choverão explicações para a desonestidade que vemos, principalmente nos tempos que atravessamos, em que a impressão que se tem é de que ninguém é mais culpado ou responsável por nada. Há sempre fatores exógenos que determinaram uma ação desonesta ou delituosa. E, de fato, se é assim, não se pode fazer nada quanto à má conduta, a não ser dedicar todo o tempo a combater suas “causas”. Essas causas são todas discutíveis e mais ainda o determinismo de quem as invoca, que praticamente exclui a responsabilidade individual. E, causa ou não causa, não se pode deixar de observar como, além de desonestos, ficamos cínicos e apáticos. Contanto que algo não nos atinja diretamente, pior para quem foi atingido.

Ninguém se espanta ou discute, quando se fala que determinado político é ladrão. Já nos acostumamos, faz parte de nossa realidade, não tem jeito. Alguns desses ladrões são até simpáticos e tratados de uma forma que não vemos como cúmplice, mas como, talvez, brasileiramente afetuosa. Votamos nele e perdoamos alegremente seus pecados, pois, afinal, ele rouba, mas tem suas qualidades. E quem não rouba? Por que todo mundo já se acostumou a que, depois de uma carreira política de uns dez anos, todos estão mais gordinhos e com o patrimônio às vezes consideravelmente ampliado? Como é que isso acontece rotineiramente com prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, ministros e quem mais ocupe cargo público?

Os políticos, já dissemos eu e outros, não são marcianos, não vieram de outra galáxia. São como nós, têm a mesma história comum, vieram, enfim, do mesmo lugar que os outros brasileiros. Por conseguinte, somos nós. Assim como o policial safado que toma dinheiro para não multar – safado ele que toma, safados nós, que damos. Assim como o parlamentar que, ao empossar-se, cobre-se de privilégios nababescos, sem comparação a país algum.

Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de “suspeitos” confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de “suspeitos” confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.

Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.

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21 Comentários

  1. Glorinha de Nantes

    -

    02/07/2011 às 23:01

    A desonestidade é vermelho-PT!

  2. José Figueredo

    -

    30/06/2011 às 13:32

    Belo retrato!!!!!!!!!!!!!!!Com as cores do Brasillllll!!!!!!!!!!!!

  3. Antonio Carlos

    -

    27/06/2011 às 22:07

    Tá certo que nem todos somos ladrões ou desonesntos, mas que somos todos muito bem domesticados, ah….isso somos! Mas tem jeito, o que não tem é quem lidere a massa de honestos apáticos.

  4. lenilson

    -

    27/06/2011 às 17:06

    Mestre João, um leitor aqui disse que é seu fã, pois eu estou na fila, também. Não tenho palavras para contestações por que você só disse a verdade, com muita coragem. O brasileiro é antes de tudo, um tolo sem memória. Adora bandidos (vide os 513 picaretas que eles elegeram)e os elege quantas vezes eles desejem. Eu sei que existe um outro Brasil, de gente honrada e consciente, mas não tem vez nas urnas, somente os adoradores de bandidos contaminados pelo vírus petista da máfia, tem o poder do voto. Tem nada não, daqui a 500 anos, nós venceremos.

  5. Alex

    -

    27/06/2011 às 15:13

    O maior problema disso tudo é que o “clube dos excluídos”, ou seja, todos os brasileiros que se indignam com a desonestidade endêmica que nos assola, não tem sócios suficientes para eleger vereador. Por isso, o Congresso Nacional se tornou uma máfia moderna e eficientíssima, o Executivo é um antro de “canalhos” e canalhas e o Judiciário é um mini-bando onde a subserviência só não é maior que a covardia. Nem Gramsci conseguiu imaginar um cenário tão perfeito. Só que aqui a revolução está fazendo brotar novos milionários e uma sociedade amoral.

  6. aldo soares

    -

    27/06/2011 às 11:37

    Salve o mestre João Ubaldo! com sua coerente clareza e lucidez.Eu há muito tempo que não o lia estou tendo este prazer agora. Há! quanta saudade do moral e civismo das escolas de antes. E falando sério não existia tantos homens público embolsando o erário, como há hoje,danou-se! é falta de lei? claro que não; lei tem de sobra, mas a quem cabe aplicá-las o faz? E o corporativismo que está acima delas em toda sociedade. É como fôssemos guetos ou alguma província,ainda,onde grupos de escalão superior (governos,políticos se acham donatários ) O mestre joão, deve está saturado como todos nós de ver como somos assim; na base da lei de levar sempre vantagem sem interessa os meios; está no dia- a-dia:escorregar devagarinho com o sinal de trânsito não permitido,furar a fila do Sus.subornando o fiscal, declarar o que não deve no IRPF ,ou jurídica, todos estamos careca de saber disso é extenuante a “rela”. Até sou um cara bem otimista quanto a desenvoltura do Brasil em crescimento econômico, mas essa nossa tradição é de difícil conserto:É costume É tradicional. o certinho,o reto,o que anda na linha é tido como otário: além do “trem” atropelá-lo; porque andar na linha é proibido.

  7. Walker

    -

    27/06/2011 às 9:54

    Caro Augusto,
    O João é fora de série.Obrigado por reproduzir.
    Gostaria de te dar uma sugestão, que o João cita, esquecimento.
    Que tal a Veja levantar todos os processos de corrupção de 1990 até hoje, e você publicar aqui como o “feira livre,o HSV , direto ao ponto, etc..
    Os regionais, que não estão na base de dados de Vocês, entrariam com o tempo, com a ajuda de jornais locais e nós leitores.
    Assim todos nós poderíamos divulgar e acompanhar o que aconteceu e está acontecendo.
    Claro que a lista será imensa mas valerá a pena, inclusive para um estudo profundo da corrupção petralha.

    Caro Walker, tudo bem? Aproveito para informar que o Augusto está gravando o Roda Viva. Vai ler sua sugestão no fim da tarde. Grande abraço, Bruno Abbud

  8. Luiz

    -

    27/06/2011 às 9:36

    O texto é a pura expressão da verdade. Ele meteu o dedo na ferida.
    João Ubaldo tem razão, somos um povo domesticado. Não seria porque somos pacíficos demais, ou seria complacentes demais?
    A corrupção virou parte integrante de nosso dia-dia e não percebemos, nem nos indignamos.
    Quem sabe, um dia, “acordamos com a macaca” e marchamos todos juntos rumo a Brasília.

  9. Veridiana

    -

    27/06/2011 às 9:23

    Para o Airton (26/06/2011, 18:44):
    Achei o texto que vc menciona: “Somos nós mesmos”, de João Ubaldo Ribeiro. Eis o link:

    http://www.almacarioca.net/somos-nos-mesmos-joao-ubaldo-ribeiro/

  10. f penin

    -

    27/06/2011 às 8:52

    Augusto,
    Alega-se que a pasta moral que nos plasmou desandou desde o início, com a remessa para nossas terras dos facínoras portugueses, em degredo. Pode ser parcialmente verdadeiro, no entanto temos de lembrar que a Austrália também acolheu a ralé europeia, mas, nem assim ,se atingiu o grau de apodrecimento moral que nos destrói. Infelizmente, o jornal O LIBERAL,de Belém, deixou de publicar aos domingos a lúcida opinião do bom baiano João Ubaldo Ribeiro, a manifestação do povo em forma de boa prosa.Ave, Ubaldo!

    Olá, caro F Penin. Aproveito para avisar que o Augusto está gravando o Roda Viva. Vai ler os comentários no fim da tarde. Abração, Bruno

  11. Pimenta

    -

    27/06/2011 às 0:02

    Prezado Augusto,
    O bravo João Ubaldo ribeiro é um que não se quedou ao trambiquismo petista travestido de ideologia. Como ele, há pouquíssimos. Quando vejo certos artistas que na época da ditadura diziam que “amanhã vai ser outro dia”!, serem coniventes com esse “assalto à nação” por causa de idealismo barato onde os fins justificam os meios, ou por puro interesse, sinto que fui enganado duas vezes: por ter cantado suas músicas e por ter esperado deles. Mas penso como nosso escritor. “Sou mais um trouxa no meio de milhões de outros trouxas”. mas nunca irei me conformar com isto que aí está.

  12. Milton Galvão

    -

    26/06/2011 às 23:48

    A lucidez do João Ubaldo é impressionante, põe o dedo na ferida narcisista do brasileiro, identificando com precisão as nossas chagas morais que recrudesceram falseadas de patriotismo durante o lulalato.
    Por algum tempo, eu cheguei a pensar que afinal, nós brasileiros estávamos nos redimindo dos nossos vícios e mazelas, dando um passo decisivo na construção de uma sociedade moderna. Porém, a ascensão desse ente doentio e o seu partido ao poder, mudou tudo isso.
    Jogamos a nossa dignidade no lixo e nos igualamos a escória. Mais que isso, o rebaixamento moral a que nos submetemos, passou a ser glorificado com a unção do Sr. Lula. Quando os seus comparsas foram flagrados no maior esquema de corrupção que (no dizer dele mesmo) “este país” já vivenciou e a sociedade o perdoou, a mensagem captada por ele foi: Vá em frente! Continue!… E assim, nos tornamos cúmplices e solidários com os seus atos e a conseqüente responsabilidade deles decorrente.

  13. Diego

    -

    26/06/2011 às 23:12

    “Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.”

    E por opção…

  14. Sérgio

    -

    26/06/2011 às 22:49

    Discordo com o Ubaldo em um ponto: há uma assimetria fundamental entre o cidadão e a autoridade. Qdo algúem paga a um policial para se livrar da multa, certamente isso é corrupção e desonestidade; porém, a autoridade policial aceitar e/ou propor (ou insinuar, ou achacar) é muito mais grave, exatamente porque ele é o representante do Estado.

    Da mesma forma com os políticos. Eu não votei em *NENHUM* dos atuais picaretas (apesar de ter votado no molusco podre na até a 1a eleição, otário que fui) e não me sinto responsável pelas falcatruas dos mesmos. Isso quem deve sentir são os otários que, apesar de saber das pilantragens, repetiram o erro, votando irresponsávelmente, ou de acordo com seus interesses.

  15. Rosana Diôgo

    -

    26/06/2011 às 21:11

    Estou parada aqui diante do computador e depois de ler esse artigo tão verdadeiro, só me resta tentar ser diferente, resistindo até o fim…

  16. Glorinha de Nantes

    -

    26/06/2011 às 18:54

    Somos?! Somos!? Em maior ou menor grau, somos?! Sim! Somos! O escritor, acadêmico, bem pensante, e, principalmente, um bom baiano, atento para os fatos do momento, registra-os nessa crônica! João Ubaldo parece sentir-se como eu própria me sinto.
    .
    Excessiva e profundamente inconformado, mortificado, agoniado, arretado, injuriado, desatinado, indignado, enfastiado, descrente, paralizado, desarmado, fragilizado, frustrado, apalermado! Solidária, compreendo sua necessidade de compartilhar conosco, seus leitores, os sentimentos que o afligem.
    .
    Entretanto, prefiro compreender essa crônica tal qual uma imensa expressão de sua fina ironia e seu bem humorado cinismo. Exatamente! Desde sempre, inexistem expressōes publicáveis que correspondam à História que o Brasil da Era da Mediocridade está escrevendo.

  17. Airton

    -

    26/06/2011 às 18:44

    Essa cronica me traz a memória outra também escrita pelo João Ubaldo : Eles somos nós mesmos , pena que não a encontre em nenhum arquivo dos jornais onde foi publicada.

  18. Bruno Guerra

    -

    26/06/2011 às 18:25

    Caro Augusto e demais que colaboram neste blog – homonimo Bruno incluido :)
    .
    Estava a escrever um comentário com esta sugestão de leitura…quando vejo que tem direito a um “post” ! Muito bem.
    .
    Li o texto e estou feliz. Isto até pode ser uma boa noticia, pois sabemos que em Brasilia existe (entre outros 1000) um ministerio que trata da … cultura !
    .
    Pode ser que finalmente se dê a devida atenção à desonestidade. Tenho muita fé na Sra. Ministra. E tem tanto malandro por ai, vai dar muito trabalho.
    .
    Abr, BR

  19. alberto santo andre

    -

    26/06/2011 às 18:03

    A CRONICA DE UBALDO RIBEIRO, E A SINTESE DA GRANDE MAIORIA DO POVO BRASILEIRO ,E PROVA INCONTESTE QUE DEMORAREMOS MUITO A SER UMA NACAO DE PRIMEIRO MUNDO, VISTO QUE UM PAIS RICO E UMA POPULACAO MEDIOCRE ,JAMAIS FORMARAO UMA NACAO DE PRIMEIRO MUNDO.

  20. Pedrão

    -

    26/06/2011 às 17:53

    À Maria Mello (16,50): Você está certa, mas foi por isso que eliminaram a ‘educação moral e cívica’. Mesmo porque, é difícil admitir, não temos mestres capazes para ministrar tais aulas. Querem ‘embutir’ nas mentes dos alunos que ‘é assim mesmo’, e que eles devem ter é cultura sexual. Lamentável.

  21. maria mello

    -

    26/06/2011 às 16:50

    Será que não tem jeito mesmo?fico triste com tudo isso mas ninguem pode fazer nada mesmo?
    temos a possibilidade de corrigir nossos defeitos com aula de educação moral e civica nas escolas por exemplo.Pessoas como joão ubaldo não podem desistir porque teem voz e são lidos.


 

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