14/09/2009
às 18:06 \ Baú de PresidentesTancredo Neves, lição nº 4: “Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater”

— Paulo Maluf é o adversário perfeito porque só ele nunca teria a menor chance de unir o PDS — explica Tancredo Neves. — Os outros talvez conseguissem.
Os outros são o vice-presidente Aureliano Chaves e o ministro Mário Andreazza, ambos já fora do páreo naquele outubro de 1984. Aureliano formalizou o apoio a Tancredo em julho, quando o primeiro grande bloco de dissidentes rompeu com o PDS, transferiu-se para a Frente Liberal e inaugurou a sequência de rachaduras no partido do governo. Andreazza, derrotado na convenção nacional de 11 de agosto, acompanhou o presidente João Figueiredo na adesão à candidatura do ex-governador paulista, mas quase sozinho: os cabos eleitorais com real poder de fogo preferiram o caminho que levaria ao fim do regime militar.
Pergunto quando foi que decidiu escalar Paulo Maluf para jogar como adversário.
— No dia em que assumi o governo de Minas.
No começo de 1983, numa conversa a dois com Aureliano, ficou combinado que o mineiro que não chegasse à fase final apoiaria o mineiro sobrevivente.
— Eu sabia que o Aureliano não iria longe — sorri Tancredo. — Não teria o apoio do Figueiredo porque o presidente não gostava do vice. Quando viajava, o Aureliano trabalhava muito e o titular ficava com cara de quem não é de muito serviço. E o Maluf usa certos métodos de atração que poucos têm coragem de copiar.
A aproximação com o grupo de Andreazza ficou para o ano seguinte. A primeira conversa entre o governador e o ministro foi curta e rasa.
— O encontro foi no apartamento do Andrezza no Rio. O Antônio Carlos é que articulou tudo — informa.
Antonio Carlos Magalhães, governador da Bahia e coordenador da candidatura do ministro, já combinara com Tancredo que, se Maluf vencesse a convenção, disputariam como aliados a maioria do Colégio Eleitoral. Faltava combinar com Andreazza.
— Em cinco minutos, ficou claro que aquela conversa não seria muito produtiva — a voz do doutor Tancredo parece rejuvenescida, — O Andreazza parecia não entender o que a gente falava, ficava sempre na superfície, até que foi ao banheiro.
Quando voltou, ACM e Tancredo já haviam acertado a continuação da conversa no dia seguinte. Em outro local. E sem Andreazza.
— Mas ele não era má pessoa — consola.
Só depois de soldada a aliança o candidato da oposição e dos governistas dissidentes considerou-se pronto para o combate aberto. Em 14 de agosto, ao deixar o governo de Minas, esperou que o adversário perfeito tomasse a iniciastiva. O ataque veio dois dias depois.
— Sou imbatível — provocou Maluf.
— Até agora ele só enfrentou amadores — revidou Tancredo no dia seguinte.
Por que esperou 24 horas para responder?, fico intrigado enquanto o vejo dobrando e desdobrando o guardanapo de papel.
— É melhor aparecer sozinho na primeira página — ensina. — E quem diz a última coisa fica com cara de quem ganhou.
Como previra o profissional, Maluf partiu para o combate aberto com a afobação dos amadores.
— O Brasil não deve eleger um presidente com mais de 70 anos de idade — passou a repetir o que lhe pareceu uma sequência de jabs na testa.
— A Inglaterra, no auge da Segunda Guerra, foi conduzida com sabedoria pelo ancião Churchill — preparou Tancredo o contragolpe no fígado. — Roma antiga, no entanto, foi incendiada pela estupidez do jovem Nero.
Fica risonho quando reproduzo o início do duelo na conversa em Belo Horizonte.
— Vem mais confusão aí, mas estou confiante — avisa.
Pede o cardápio ao garçon, para escolher a sobremesa, e pede que eu ouça com atenção o que vai dizer:
— Só examine a espuma depois que as ondas pararem de bater.
Saberei por que antes que o jantar termine.
Tags: Antonio Carlos Magalhães, João Figueiredo, Mário Andreazza, Paulo Maluf, Tancredo Neves










Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
18 Comentários
ANDRÉ HENRIQUE
-05/10/2009 às 20:12
Ótimo texto. Falta quadros com estas qualidades e convicções na política atual!
Francisca Bedran
-03/10/2009 às 14:29
Continuo ansiosa pela próxima parte.
Lindo texto…. Meu deus, como você escreve bem!
Carlos Alberto Cotta de Souza
-03/10/2009 às 13:30
Augusto me deliciei com esta sequência que você deu.
É uma oportunidade maravilhosa que você nos oferece para relembrar fatos, eu acompanhei todo processo das diretas e da eleição do Tancredo aos olhos do Estadão.
Ah! reproduzi seu trabalho em meu blogg.
http://carloscotta.blogspot.com/
Parabéns.
Carlos Alberto Cotta
Maringá Pr
tiago nogueira
-30/09/2009 às 12:03
Augusto o texto está muito claro.
É claro que Tancredo não “escolheu” o candidato Maluf, no sentido do poder da palavra.
Sua explicação foi com classe, eu desenharia.
Minha surpresa é ver que você tem leitores que conseguem juntar na mesma frase os adjetivos, honesto e confiável com Maluf.
“O velho detonou a emenda Dante, para ser o candidato no colégio eleitoral”
O leitor mistura os personagens politicos: ” o velho”, é o Luis Carlos Prestes. E Tancredo detonar a emenda foi de um anacronismo gritante.
Não sabia que naquela época os estudantes da PUC-SP tinham o poder de prever ” mortes anunciadas”. Do jeito que o leitor escreveu, já em 1983, convalescente, Tancredo ainda teve forças para liderar os longos percursos dos comicios da Diretas, conseguir o apoio de Brizola e todo PMDB e caminhar rumo ao Congresso Nacional. Se na eminencia da morte, ele conseguiu movimentar toda esta logistica, imaginem vendendo saúde.
Só vou dizer o seguinte: Um tumor pode atacar e matar qualquer ser humano em um prazo curto, ainda mais, localizado no intestino.
“A sorte nunca sorriu para Tancredo.”
Concordo, acho que não foi a sorte, foram méritos.
Não era filho de ricos, saíu do interior de Minas para formar em Direito na UFMG, Promotor Público, Vereador, Deputado Estadual…
Augusto Nunes, parabéns pelas lições.
Tiago Nogueira.
André Ricardo, amazônimo
-18/09/2009 às 15:31
E não ocorreria se seguissem a filha de Getúlio e prendessem o milicos rebeldes?
André Ricardo, amazônimo
-18/09/2009 às 15:30
Você concorda que a aberração de 64 começou em 54?
Ingo
-18/09/2009 às 14:27
Augusto,
Vc acredita mesmo que Tancredo morreu de diverticulite aguda?
Existem muitas versões sobre a sua morte.
Como ele dizia:
Esperteza, quando é muita, come o dono.
Ingo
-18/09/2009 às 14:17
Penso que a matreirice mineira de Tancredo foi sua marca registrada.
Conchavos, permanente busca do poder, que nunca logrou.
A sorte nunca sorriu para Tancredo.
Onde se envolveu acabou mal.
Inclusive numa das poucas vezes que eleitos para o executiivo, governo de Minas Gerais.
Largou no início do mandato para ser presidente.
E deu no que deu.
Fabio
-18/09/2009 às 13:05
Augusto ,
tenho que escrever para concordar com voce sobre o Maluf , nem precisamos perder tempo , mas infelizmente nos últimos tempos o país sente falta de um estadista . Que não foram o JK, Tancredo ou FHC..
No mais , também sinto falta de uma coluna diária escrita por voce em algum jornal , como recentemente no JB .
Abração e ótimo fim de semana
Obrigado, Fabio. Um ótimo fim de semana pra você também. abração, Augusto
Fabio
-18/09/2009 às 12:17
Augusto , concordo com os leitores Marcos e Luiz Pereira . Tancredo não escolheu Maluf , que fez tudo para ser e conseguiu se tornar o candidato do PDS , assim como venceu o Laudo Natel anteriormente para ser governador do estado de SP . Se Maluf é ruim , Tancredo era igual, ou pior : matreiro , alguém que atacava pelas costas e – pior de tudo , TODOS sabiam de seu estado de saúde já em 1983 , época em que eu era estudante da PUC-SP. Ou seja , a morte era anunciada e o pior aconteceu ,não a morte de Tancredo , mas o monstruoso Sarney presidente , pessoa que se bandeou do PDS para o PMDB para se perpetuar no poder e hoje temos o resultado .
Num seminario no Japao onde falavam de países de terceiro mundo em 1986 , ouvi que o Brasil tinha a pior classe política que se poderia encontrar . Pergunto : o que mudou ? Vou tomar das lições de Henry Maksoud. que perguntava e respondia antes do entrevistado em seu programa – só piorou e muito .
Para terminar , considero o legado de Tancredo grande parte do desastre que vivemos na política nacional .
Abraços
Caro Fábio. O texto não deve ter sido claro. O “escolher” tem o significado de torcer, ajudar, fazer força, por aí. Ninguém tem superpoderes para escolher-se e escolher o outro. Vou mexer no artigo. Quanto ao restante da mensagem, discordo totalmente. Vou explicar por que nos próximos textos. Mas adianto que acho o Maluf um desastre absoluto (tanto que está na base alugada) e o Tancredo, um grande político. Meu primeiro critério é o da honradez. abraços, Augusto
AEduardo
-16/09/2009 às 19:14
Augusto
Delicio-me com seus textos,claros,transparentes e de uma simplicidade que cativa,revelando os bastidores de um tempo recém passado, e que nos leva a entender melhor esta republiqueta de bananas.Prepare-se, pois exigiremos de você um livro tipo:”Brasil, da vassoura(Jânio) à vassourada”(outubro de 2010). HeHeHe. Pode ir preparando o material completo deste período, para publicação em dezembro de 2010!
Não corre da raia não, pois está RABISCADO,TRAÇADO E ESCRITO. Você verá como o povo brasileiro vai bater nesta cambada que está aí.
Um abração e obrigado pelo brilho da luz que você carrega. Força, determinação e persistência.! Vida longa para nós todos.
f tavares
-16/09/2009 às 17:27
o progresso da era das comunicações tirou da política a sutileza, a sagacidade, a educação… hoje qualquer medíocre com um ministério da propaganda endinheirado, alcança altos índices de aprovação popular, mas forjados em cima de mentiras, falsidades, manipulação de informações quer dizer, dificilmente haveria lugar na vida pública para políticos que tinham que despertar o noticiário das primeiras páginas com criatividade e oportunidade. não discuto méritos, virtudes, defeitos, mas acho que a política do artesanato, feita com as próprias mãos, era muito mais inteligente e emocionante. e o doutor tancredo era do ramo…
Marcos
-16/09/2009 às 11:52
— É melhor aparecer sozinho na primeira página — ensina. — E quem diz a última coisa fica com cara de quem ganhou.
Esta frase define bem os políticos brasileiros. Os espertalhões personalistas. Mais uma vez repito a história aqui, e mais uma vez não deve ser publicado o comentário. No dia da votação das Diretas Já, a Folha trouxe como manchete: Sociedade Civil pede Diretas Já. Logo abaixo, na outra metade da página, como se fossem duas manchetes: TANCREDO AGORA, QUER NEGOCIAR. O velho detonou a emenda Dante, para ser o candidato no colégio eleitoral. Ele muito espertamente, achou que dissera a última coisa. Mas, foi a penúltima. Sarney riu melhor…Sinceramente, acho o Maluf mais honesto e confiável do que foi o Tancredo, o avô do Ah ócio!, ops, Aécio.
Luiz Pereira
-15/09/2009 às 22:48
Augusto, boa noite,
Só não entendi ainda como o Tancredo “escalou” o Maluf como adversário…
Na verdade, Maluf se escalou vencendo a indicação dentro do PDS, usando os métodos que todos sabemos quais foram.
Por mais sagaz que fosse, Tancredo em nada interferiu nesta escolha do PDS.
Abs.,
Luiz Pereira
Paula Dutra
-15/09/2009 às 1:36
Augusto,
Obrigada por mais um texto incrível.
O site da Veja Online tornou-se muito mais interessante depois que você começou a escrever aqui.
A seção Baú de Presidentes é uma das minhas favoritas. Aguardo os próximos causos…
Grande abraço
a.willians
-14/09/2009 às 20:32
Eu estava na platéia na Assembléia Legislativa de São Paulo e ouvi Tancredo dizer: “Vamos ao Colégio Eleitoral e venceremos, porque agora eles estão enfrentando profissionais”.
O auditório explodiu em gritos e aplausos pois todos alí sabiam que era disso mesmo que se tratava.
Maluf não dava nem pra saida…
Vanderlei Simionatto
-14/09/2009 às 19:43
Tancredo prestou o seu mais relevante serviço ao país. Derrotou Maluf e colocou em xeque o colégio eleitoral. Pena que esses espécimes foram extintos. Hoje é Lula, Jucá, Sarney, Collor, Renan, Dirceu, Genoíno, Suplicy, Mercadante, Paulo Duque, Lobão, Lobinho… ufa, paro por aqui. Arquitetar, tramar, conversar, convergir, discordar, são verbos que não usam mais. Agora é desviar, roubar, estuprar, nomear, escamotear…
Alguém têm aí um nariz de silicone? Têm? Vermelho? Me empresta?
Robert
-14/09/2009 às 19:39
Augusto,
Uma saia justa para você: quanto Aécio tem de Tancredo?