28/08/2009
às 18:27 \ Baú de PresidentesTancredo, lição n°3: “Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado”

Todo mundo sabe que Tancredo Neves sempre foi bastante cauteloso, lembro ao ouvi-lo dizer que não se deve tirar o sapato antes de chegar ao rio. O Tancredo que nunca vai ao Rubicão para pescar pouca gente conhece. Boa imagem essa, penso no primeiro aperitivo. Fico imaginando um chefe político jogando o anzol no rio nos limites de Roma que Júlio César atravessou, sem pedir licença, para tomar o poder.
─ De alguns rios o melhor é ficar longe ─ diz o doutor Tancredo depois de pedir tutu à mineira.
É o desfecho da aula fluvial, avisa o tom de voz. Peço o mesmo prato e um exemplo.
─ Fiquei fora do barco do Hugo Abreu ─ começa a contar a história que é a cara de Tancredo Neves.
Em 1978, parlamentares do MDB, entre eles o deputado Ulysses Guimarães, acharam muito boa a ideia de apoiar a candidatura de um militar disposto a enfrentar no Colégio Eleitoral o general João Figueiredo, já escolhido pelo presidente Ernesto Geisel. Conduzidas pelo general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa Militar de Geisel, as articulações envolvendo dissidentes fardados resultaram na escolha do general Euler (pronuncia-se Óiler) Bentes Monteiro. O que Tancredo achava da ideia?, foram perguntar-lhe alguns deputados.
─ O Hugo Abreu não é oficial paraquedista?
Esse mesmo, ouviu.
─ Pois se eu paro, olho e medito antes de descer um degrau, como é que vou me juntar com um camarada que se joga de um avião lá do céu e sem ter asas? ─ encerrou Tancredo, que ficou fora do barco e do fiasco.
Esse episódio é mesmo a cara dele, quero ver como é a outra. Quando foi que cruzou o Rubicão pela primeira vez?
─ Na última reunião do ministério do Getúlio ─ informa o sotaque de São João del Rey.
Em 1953, o advogado Tancredo de Almeida Neves, ex-vereador e ex-deputado estadual, exercia o primeiro mandato de deputado federal, na bancada do PSD, quando se tornou ministro da Justiça do governo constitucional de Getúlio Vargas. Tinha 44 anos na noite de 23 de agosto de 1954, quando a sala de reuniões do Palácio do Catete se transformou no leito de um Rubicão. Além de Oswaldo Aranha, foi o único ministro a defender a resistência a qualquer custo.
─ Fiquei muito impressionada com a coragem e a lealdade do Tancredo ─ ouvi de Alzira Vargas meses antes do jantar em Belo Horizonte. ─ Ele insistiu na prisão dos generais rebelados e na decretação do estado de sítio.
Possessa com a tibieza dos ministros militares, a filha e secretária de Getúlio, que entrara na sala sem pedir licença, acusou-os de covardia e, depois, de traição.
─ Ainda acho que a história do Brasil seria outra se papai concordasse em resistir ─ ouvi Alzirinha dizer.
─ Também acho ─ ouço Tancredo dizer depois de contar-lhe o que tinha dito a sua velha amiga. ─ O que houve já no dia do suicídio provou que o doutor Getúlio tinha o apoio do povo.
A primeira travessia se completou com o vigoroso discurso de despedida em São Borja, aquecido por ataques violentos aos novos donos do poder. Quem decidiu que Oswaldo Aranha e ele discursariam ao lado do túmulo?
─ Ninguém. Todos estavam muito comovidos, ninguém tinha cabeça para organizar listas de oradores.
O discurso, bonito e muito bem costurado, não parecia inteiramente improvisado. Como é possível falar aquilo tudo de sopetão, sem aquecimento mental, sem nenhum preparativo?
─ O coração falou por mim.
O doutor Tancredo é craque em frases de efeito, mas achei fraquinha essa do coração falando por ele. Ele também achou, desconfio quando ele chama o garçom, pede uma segunda dose de uísque, volta a 1983 e diz que está de novo atravessando o rio perigoso.
─ Vou vencer ─ murmura.
A aliança entre a MDB e governistas convertidos à oposição tão forte assim? Enquanto confirma com movimentos de cabeça, ele começa outra lição.
─ Não há como perder do Paulo Maluf. É o adversário que eu queria. Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado.
Tags: Ernesto Geisel, Euler Bentes Monteiro, Getúlio Vargas, Hugo Abreu, João Figueiredo, MDB, Oswaldo Aranha, Rubicão, Tancredo Neves










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14 Comentários
Ingo
-08/09/2009 às 11:59
Augusto,
Tancredo, como é sabido, foi um eterno fracassado político.
Em todas as empreitadas em que se envolveu acabou falhando.
Foi assim como Ministro de Getúlio, Como Primeiro Ministro, como Governador de Minas cujo mandato não concluiu para ser Presidente…
Penso que o também mineiro Magalhães Pinto, comtemporâneo do Tancredo, teve biografia mais destacada, inclusive como empresário.
E Milton Campos foi o melhor de todos.
Ingo
-08/09/2009 às 11:55
Augusto,
Tancredo, como é sabido, foi um eterno fracassado político.
Em todas as empreitadas em que se envolveu acabou falhando.
Foi assim como Ministro de Getúlio, Como Primeiro Ministro, como Governador de Minas cujo mandato não concluiu para ser Presidente…
Penso q
JOAO VICENTE DI LUCCIA
-02/09/2009 às 19:54
Não seria supetão, ao invés de sopetão?
Buzanfan de pelêgo.
-02/09/2009 às 11:47
Augusto, esse velho deu a maior sorte de ter morrido antes de ocupar a presidência. Demagogo e falastraz, nunca fez absolutamente nada por Minas e muito menos pelo Brasil. Só sabia fazer conchavos. Seu herdeiro é o governador (governador?) de MG, o carioca aecim. O velhâo deu sorte de ainda ter algumas ruas ou outras coisas insignificantes em seu nome. Todos os dois, umas nulidades.
Jose
-31/08/2009 às 20:24
Caro Augusto Nunes reparastes na semelhança facial de Tancredo Neves, O Moço com Ciro Gomes, O Velho Caco??????
Luiz Carlos
-31/08/2009 às 17:43
Seus textos são fantásticos!!!!
Essas histórias do saudoso Dr. Tancredo são uma delicia!!!
Que raposa astuta!!!
persant
-31/08/2009 às 15:00
Augusto, sairá um livro desta série baú dos presidentes, com estas e outras histórias? Fico impaciente esperando a próxima, de tão declicioso que é o texto. Que diferença, meu caro, para aquelas antas cibernéticas que se movem na escuridão dos porões da política de hoje… São estes os verdadeiros Ratos de Porão. Por favor, presenteie-nos com um livro do tomo de um Ulysses!
Caro Pensant: vai sair um livro, sim. Grato pela força. um abraço, Augusto
Tiago
-31/08/2009 às 10:53
Wellington Salgado é a salgada conta que o Hélio Costa paga pela milionária campanha que o carioca investiu para ocupar cadeira de suplente, no Senado.
Será um dos pontos fracos do ministro em sua para campanha para governador do Estado.Nada mais justo. Quem é responsável por aquela aberração tem que pagar o pato.
“Suplente de Hélio Costa, Salgado doou, por meio de suas empresas e
de dois irmãos, um total de R$ 1,377 milhão à campanha de seu
titular ao Senado em 2002. Essa quantia representa mais da metade
arrecadada à época pela campanha de Costa, nomeado ministro das
Comunicações em 2005.
Para consultar o financiamento da campanha de Hélio Costa em 2002,
acesse http://www.asclaras.org.br/2002/candidato.php?CACodigo=9611.”
fonte: http://www.excelencias.org.br/suplentes.pdf
Sou de São João del Rei, vizinho da Dona Zininha, irmã de Tancredo Neves. E fico com um baita orgulho de ler suas conhecidas histórias. Também fico com dor no coração de imaginar que a minha cidade natal gerou um homem com tamanha capacidade politica, e hoje em dia, tem um povo que elege um prefeito com a capacidade de formular frases como: ” Com a minha fé, e com as fezes de vocês…”
É o retrato do país.Deprimente.
francisco
-29/08/2009 às 22:31
Gosto muito do Baú dos Presidentes,faz a gente , que viveu alguns destes períodos, repensar algumas coisas e reafirmar outras. Por exemplo, eu sempre tive convicção,apesar da conversão de Getulio em mártir, de que o suícidio dele foi mais do que uma tragédia para nós, foi um ato de desistencia,para dizer o mínimo, da vida e da luta pelo país. Ele, como talvez nosso único estadista, tinha a obrigação de enfrentar os caras.Tinha que pagar para ver,tinha que mandar prender os traíras e chamar os parceiros à responsabilidade.O suicídio,parece,e aí o paradoxo,foi a “saída dele…Mas foi , tenho tambem convicção, nosso encaminhamento para esta desgraceira eterna. Ali , naquele momento, o brasileiro perdeu seus referenciais como nação e povo.Passamos a ser massa de manobra para esta “elite” que passou a governar o país.Muito triste ver a Alzirinha acusar e Tancredo confirmar que ele e Oswaldo Aranha queriam uma reação.Getulio pensou estar evitando uma tragédia (a briga entre irmãos…)com o suicidio,mas na realidade estava encaminhando a tragédia com seu ato.Uma pena.
Epell
-29/08/2009 às 10:57
Prezado Augusto Nunes.
Maravilhosa a seção “Bau de Presidentes”. E a reputo indispensável. Fica-se sempre desejando o próximo capítulo e vai-se recompondo a nossa História. Parabéns.
Por oportuno, acho que há um eventual erro de digitação no texto. Onde se lê “Em 1953, o advogado Tancredo…”, entendo que deva ser “Em 1954…”.
Um grande abraço.
Edison Penelli
Eppell, grato pela força e pela observação. Ele assumiu em 1953 mesmo, mas o texto estava confuso. Já mudei. Escrevi que tinha 44 anos em 23 de agosto de 1954. Novamente, obrigado. abraços, Augusto
Vera
-29/08/2009 às 0:43
Se Tancredo estivesse vivo talvez mudasse a frase, o adversário hoje talvez não exista ou seja dificil de encontrar, pois no govêrno atual só tem aliados, tropa de
choque. Um adversário hoje, realmente, seria uma coisa muito boa, sinal de que
não compactua com as bandalheiras.
f tavares
-28/08/2009 às 19:30
o doutor tancredo merece um livro de conceitos, tipo a arte da guerra. a arte da política, a política com arte, política de gente grande, sei lá, alguma compilação para perpetuar essa experiência de vida pública que tanta falta faz…
Paulo Henrique
-28/08/2009 às 19:07
Aviso: tem um erro de digitação neste parágrafo: “─ Também acho ─ ouço Tancredo dizer quando acabo de contar a conversa com a zrconto como foi a conversa com sua velha amiga. ─ O que houve depois do suicídio provou que o doutor Getúlio tinha o apoio do povo”.
Grato, caro Paulo Henrique. Vou revisar. abraços, Augusto
H. Boreggio Junior
-28/08/2009 às 18:57
Caro amigo Augusto:
Minas Gerais é o berço de vários políticos de grande estirpe.
A inteligência dos mineiros hoje está posta em duvida.
Compram bonde de carioca.
O nome do bonde wellington salgado
Abraço
Ps wellington salgado ocupa uma vaga que deveria ser de um mineiro.
Ocupa espaço de um político mineiro inteligente.
O Brasil todo perde.