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07/10/2009

às 23:09 \ Baú de Presidentes

Tancredo, lição n° 5: “Um acordo entre contrários é muito mais difícil que uma vitória eleitoral”

Está começando mais uma lição aquática, só que agora no oceano, sorrio intimamente ao ouvir de Tancredo Neves que convém esperar que as ondas parem de bater para examinar a espuma. Depois do passeio pelo Rubicão, um mergulho no mar, divago enquanto vigio os movimentos do homem à minha frente na mesa do restaurante em Belo Horizonte. O doutor Tancredo dá outra garfada no tutu à mineira. O franzir da testa avisa que a aula vai começar. 

─ Esse tutu é realmente muito bom ─ ele administra a posse de bola com o dispensável elogio à comida, parecido com o que fez ao corneteiro do enterro do general Cordeiro de Farias.

─ O senhor está pensando na briga do ACM com o Délio? ─ tento tomar-lhe a bola para  recolocá-la sobre ondas e espumas.

─ Estou pensando em coisas que podem acontecer, mas é verdade que a espuma demorou a aparecer depois do incidente entre o governador e o ministro ─ responde o candidato a presidente que fala como quem escreve.

Para simular a intimidade que não tenho nem com Antônio Carlos Magalhães nem com o brigadeiro Délio Jardim de Mattos, identifiquei pela sigla o governador da Bahia e chamei pelo prenome o ministro da Aeronáutica. Para fingir que trata cerimoniosamente os dois, e para deixar claro que o truque que usei não enganava ninguém, ele se referiu a ACM e a Délio pelos cargos que ocupam. Esse mineiro não perde uma, rendo-me já com a memória estacionada no dia 4 de setembro de 1984. 

A colisão entre as ondas de bom tamanho começou a desenhar-se no fim da manhã, quando o  ministro e velho amigo do presidente João Figueiredo traduziu no meio de um discurso a irritação do governo com a diáspora dos velhos aliados. Convidado para uma solenidade pouco relevante realizada no aeroporto de Salvador, Délio aproveitou a chance de mandar um duro recado aos parlamentares que trocaram o PDS governista pela Aliança Democrática, ostensivamente engajada na campanha do candidato do PMDB. 

Ao qualificar de “traidores” todos os que abandonaram o barco tripulado pelo candidato Paulo Maluf, o ministro da Aeronáutica atingiu o fígado do governador bom de briga. Antonio Carlos comemorava o aniversário em casa quando foi alcançado pela acusação. Fechou a cara e fechou-se no escritório. Minutos depois, reapareceu com um sorriso e uma folha de papel com a resposta que consumou o choque das ondas.  ”Traidor é ele, que apoia um corrupto”, dizia um trecho do manuscrito bem mais agressivo que o discurso de Délio.

A análise da espuma, ouço do doutor Tancredo no meio do jantar,  informou que políticos civis já podiam, sem temer a perda do mandato ou a decretação de atos institucionais, responder com igual contundência e no mesmo tom áspero a pronunciamentos de generais, brigadeiros e almirantes. Também dispensou o líder oposicionista de preocupar-se com a hipótese da prorrogação do mandato do presidente Figueiredo, aberração defendida por oficiais interessados em ganhar mais tempo para a organização da retirada. Mas alguns militares, advertiu a espuma,  seguiam alheios às evidências de que o regime estava à beira da sepultura. E continuariam a agir.

Em 10 de agosto, milhares de cartazes colados nas paredes dos prédios de Brasília vinculavam o candidato do PMDB aos comunistas. Recortado contra o fundo vermelho, ao lado da foice e do martelo, o rosto de Tancredo ilustrava a inscrição: PCB ─ Chegaremos lá”. Presos em flagrante por policiais civis, alguns jovens foram libertados por um militar que apareceu na delegacia para resgatá-los antes que o interrogatório começasse. Na noite do jantar, continuavam sem identidade os destinatários da mensagem enviada por Tancredo em 20 de setembro. “Os integrantes da direita não raci0cinam, agem, e quase sempre apelando para a violência, para a intriga, para a infâmia, para processos condenáveis de ação política”, subiu o tom habitualmente cauteloso o alvo das manobras clandestinas.

Isso aconteceu ontem, lembro na mesa do restaurante. O Brasil ainda está exposto ao risco de um golpe?, quero saber. Tancredo vai dizer que sim e dizer por quê. Ele está certo, saberei antes que o ano termine. Também sabarei o quer dizer a frase que será o tema da lição seguinte:

─ Um acordo entre contrários é muito mais difícil que  uma vitória eleitoral.

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17 Comentários

  1. Gabriela

    -

    24/10/2009 às 16:50

    Muito legal a forma de contar história de quem estava lá, sobre os personagens que a gente ouvia os nomes na TV quando criança, agora podemos saber realmente quem foram. Vou acompanhar sempre!
    Abraço!

  2. Antenor

    -

    23/10/2009 às 13:33

    Essa data de 04 de setembro corresponde ao dia do aniversário de Antônio Carlos Magalhães, salvo engano, que sempre foi um dia de festa em toda a Bahia. O ministro parece que não foi convidado.

    Você está certo, Antenor. abraço, Augusto

  3. Thuya

    -

    20/10/2009 às 20:36

    E olha que em matéria de acordo com contrários ele era mestre.
    Que o digam os que ainda estão vivos da malograda candidatura de Cristiano Machado. Quem se lembra?
    Esse país não tem memória! É bem provável, que a grande maioria nem saiba quem foi Cristiano Machado. Não é mesmo?

  4. Victor

    -

    20/10/2009 às 18:53

    O Nunes.
    Por que vc não abre o bau do Sarney?
    Material não vai faltar.

  5. Fabio

    -

    15/10/2009 às 16:28

    Devo dizer , Augusto , que estou revendo meus conceitos quanto a
    Tancredo Neves , pois se você e Villas-Boas Correa , que são a nata do jornalismo o enxergam na mesma dimensão …

    abração , Fabio

  6. f tavares

    -

    10/10/2009 às 2:46

    o doutor tancredo faz parte da história contemporânea do brasil… não pode ser julgado a essa altura, mas analisado pela sabedoria quase simplória, típica do mineiro tradicional e habilidoso, e admirado pela capacidade de arrumar as situações, juntar forças, superar dificuldades sem medo, sem grandes cicatrizes. foi um mestre do diálogo, da política, especialista em comandar vôo cego…

  7. silva

    -

    09/10/2009 às 17:12

    O brasileiro que não está preocupado em tentar entender os meandros da história enxerga demeritos em quem trilha os passos conciliação e negociação, como foi o caso da politica de Tancredo Neves.
    Naquele barril de pólvora era preciso um lider com este perfil agregador para tentar costurar a união de classes tão antagonicas em nome de um projeto democrático sério que livraria o país dos anos de chumbo, evitando o colapso do país.

    Pesquisem o ano de 1983, qdo Tancredo percorreu o Brasil em conferências e discursos conclamando o povo brasileiro a persistir na luta pela convocação de uma assembléia nacional constituinte que substituísse a Carta em vigor, que “nos enche de vergonha perante os outros povos”. Associava o futuro das instituições políticas ao comportamento da economia, cuja estabilidade, segundo ele, não poderia suportar a incidência de uma pressão inflacionária da ordem de 150% ao ano.
    Se hoje vivemos um país democrático é bom refletir um pouco.Ou poderiamos ainda estar nas mão de generais ou de um outro tipo de ditadura.

    O leitor, que pelo visto, confiou no taxista como termometro de verdade absoluta, poderia desconfiar que as vezes taxistas não são os donos da verdade.
    Tancredo recebera um estado endividado. As grandes obras, exceto as administradas pela Prefeitura de BH, foram logo postas fora de cogitação. Com a arrecadação completamente comprometida pelo pagamento de uma folha que contava com quatrocentos mil funcionários públicos(!), o governador estabeleceu como prioridade a recomposição do perfil da dívida. Já no início de abril encontrou-se com o presidente João Figueiredo em Brasília para chamar a atenção para a preocupante situação econômica que havia encontrado no estado: uma dívida de 1,2 bilhão de dólares, com o agravante de que um sexto desse montante deveria ser resgatado até o final do ano. Ressaltou que só em 1981 dez grandes empresas haviam encerrado suas atividades em Minas por força do processo recessivo a que o país vinha sendo submetido, ocasionando a formação de contingentes de desempregados numa extensão capaz de agravar os confrontos sociais, cujos efeitos seriam negativos para a reconquista da democracia. Desse encontro resultaria a rolagem da dívida externa de Minas, o que permitiu ao governo lançar-se na realização de empreendimentos de infra-estrutura visando à ocupação de uma parcela considerável da mão-de-obra ociosa e, deste modo, evitar a repetição em Minas dos distúrbios e saques que vinham então ocorrendo, em conseqüência da crise econômica, nas grandes capitais como São Paulo e Rio.

  8. Robinson Damasceno dos Reis

    -

    09/10/2009 às 7:51

    Se o doutor Tancredo fosse esta gelatina toda, como é que, aos 72 anos enfrentaria a campanha para o governo de Minas e ganhasse da máquina pública?
    Como convenceria a maior parte do povo de que ele seria o Moisés que levaria o País à Canaã, mesmo que só a contemplasse de longe?
    Como construiria a sólida aliança que nos livrou de Maluf e da Ditadura, que seria agora empresarial-corruptiva e levaria o Brasil no andar dos cágados ( não esquecer o acento..), na suíte interminável de um Bolero de Ravel que nem ele suportaria mais ouvir?
    Façamos justiça a Tancredo Neves, assim como devemos prestar muita atenção a Aécio, que herdou do pai e do avô a mesma silhueta que o eleva muito acima dos demais.

    Gelatina? Quem diz isso não conhece a história e a figura do doutor Tancredo. Sempre o achei um brasileiro admirável. abraços, Augusto

  9. Jair de Oliveira

    -

    09/10/2009 às 2:05

    Concordo que Tancredo não foi isso tudo. Foi sim, talvez o maior vaselina
    da politica brasileira. Nunca respondia diretamente nenhuma pergunta.
    Por mim , guardadas as enormes diferenças inclusive intelectuais, pode
    colocar o Tancredo no time do Lula.
    Este falso operário é um ingrato poiis até hoje nunca agradeceu publicamente àqueles que o inventaram, Golbery e Jarbas Passarinho.
    Quanto a Tancredo, diga uma coisa dele aí?

  10. otaviotc

    -

    08/10/2009 às 23:28

    Eh, eh….

    Esse texto foi ótimo.

    Parabéns…..

  11. Cezar Ramos

    -

    08/10/2009 às 15:43

    Mascote Olímpico

    Nosso mascote deveria ser um rato de corpo grande e cabeça pequena. Vestido com uma cueca amarrada por notas de dólar. Paletó e gravata. A figura do rato nem é preciso explicar. A grandeza do corpo representaria todas as malversações do dinheiro publico por parte dos nossos malandros de plantão. A cabeça pequena representaria a nossa política externa que tão bem é conduzida por ele, o Megalonanico. O paletó e gravata traduzem a nossa classe política, governo e afins. Já os Anéis Olímpicos seriam presos ao pulso do personagem como algemas. Simbolizando que em algum tempo a cadeia chegara para esses malandros do dinheiro publico

  12. maria-maria

    -

    08/10/2009 às 14:13

    Ingênuo tancredo. Se conhecesse os meandros da politicalha sborniana ,
    saberia como é fácil contar com a aquiescência dazopozissãu: é só jogar aos energúmenos uma gorjetinha aqui, um empreguinho para a amante ali, uma sinecurazinha mais adiante… e estamos conversados; qualquer artur virgílio aprova até rábula para o tribunaleco…

  13. Vanderlei Simionatto

    -

    08/10/2009 às 13:52

    Ainda bem que tivemos políticos competentes pra administrar a Transição. Fosse Lula & quadrilha, aos tempos que se negociava quando seriam feitas as greves e nada aconteceria.
    Fosse Dilma & gang, e estaríamos sob fogo cruzado, lamentando a impossibilidade de estarmos participando dos comentários de blog, como o do Augusto. À época, Lula e Dilma estavam em campos opostos. Lula criado e inventado por Golbery e Dilma em companhia de Marighela, Lamarca e outros idiotas menos cotados. O quê os juntou? O poder.

  14. Luís Roberto

    -

    08/10/2009 às 11:50

    Na primeira vez q.conheci BH em Minas, perguntei p/ um motorista de taxi sobre o Tancredo q.era o governador(não lembro bem) na época. Nossa, soltou os cachorros no tancredo, falou q.Minas estava largada, mal administrada e que ele era um coluna do meio e que não sai de cima do muro. Achava um absurdo colocarem ele como candidato a presidente. Pq. na mídia já se falava sobre indicação dele a presidente. Depois conseguiu e veio a doença. E aí deixou o sarney, não sei o q.foi píor. Interessante que Aécio é igual ao avô, faz média com todo mundo, sempre está em cima do muro….rsrsrs

  15. Luis R Nunes Ferreira

    -

    08/10/2009 às 11:43

    Acho excelente esta seção “Baú de Presidentes”. Torço para que daí venha um livro.

  16. ABELHA

    -

    08/10/2009 às 10:32

    Tancredo e na verdade aquilo que nunca foi,eu comerciante da epoca que ele foi ministro,sofri todos os tipos de humilhaçoes.Tancredo na verdade foi o maior incentivador de aumento de impostos nesse pais,a cobrança era feita de forma truculenta e acompanhada com aparato policial,um dia eles me fizeram medir 2500 metros de fita em minha loja de confecçao em tarumirim .mg,como nao deu os 2500mts como estava na nota fiscal(tinha tirado 2.5 para um vestido daminhaq filha menor) paguei uma multa equivalente a dois salarios minimos….Tancredo virou essa unaminidade porque morreu antes de governar,em minas nao tem uma escola ,hospital ou obra de medio porte que tenha sido feita por ele.Desculpe o desabafo eu na minha idade (75 anos ) nao posso me calar quando vejo voces o endeusando
    ele foi talvez junto com lula o mais habilidoso de todos ,mas ambos gorvernaram com o mesmo ideal de arrecadaçao facil

  17. Ingo

    -

    08/10/2009 às 10:03

    Salve Augusto,

    Este baú mais parece novela da Globo.
    Como folhetim, vai enrolando e levando.
    Quando teremos, enfim, o desenlace da história?
    rsrs

    Salve, Ingo. O próximo, um pouco mais longo, é o último com o Tancredo. Em seguida entra um café da manhã meio absurdo com o Sarney, em dois capítulos. abração, Augusto

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