‘A incompetência virou elogio’, por Marco Antonio Villa

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA MARCO ANTONIO VILLA O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir […]

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

MARCO ANTONIO VILLA

O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir o naufrágio. A presidente apresenta um ar de uma política bem-intencionada, de uma tia severa e até parece acreditar no que diz. Imagina que seu governo vai bem, que as metas estão cumpridas, que formou uma boa equipe de auxiliares e que sua relação com a base de sustentação política é estritamente republicana. Contudo, os seus primeiros 15 meses de governo foram marcados por escândalos de corrupção, pela subserviência aos tradicionais oligarcas que controlam o Legislativo em Brasília e por uma irritante paralisia administrativa.

Inicialmente, a presidente vendeu a ideia que o Ministério não era dela, mas de Lula. E que era o preço que teria pagado por ser uma neófita na política nacional. Alguns chegaram até a acreditar que ela estaria se afastando do seu tutor político, o que demonstra como é amplo o campo do engodo no Brasil. Foi passando o tempo e nada mudou. Se ocorreram algumas mudanças no Ministério, nenhuma foi por sua iniciativa. Além do que, foi mantida a mesma lógica na designação dos novos ministros.

Confundindo cara feia com energia, a presidente continuou representando o papel de hábil executiva e que via a política com certo desprezo, como se os seus ideais de juventude não estivessem superados. Como sua base não é flor que se cheire, acabou até ganhando a simpatia popular. Contudo, não se afastou deste jardim, numa curiosa relação de amor e ódio. Manteve o método herdado do seu padrinho político, de transformar a ocupação do Estado em instrumento permanente de negociação política. E ainda diz, sem ficar ruborizada, que não é partidária do toma lá dá cá. Dá para acreditar?

O Ministério é notabilizado pela inoperância administrativa. Bom ministro é aquele que não aparece nos jornais com alguma acusação de corrupção. Para este governo, isto basta. Sem ser enfadonho, basta destacar dois casos. Aloizio Mercadante teve passagem pífia pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Se fosse demitido na reforma ministerial ─ aquela que a presidente anunciou no último trimestre do ano passado e até hoje não realizou ─, poucos reclamariam, pois nada fez durante mais de um ano na função. Porém, como um bom exemplo do tempo em que vivemos, acabou promovido para o Ministério da Educação. Ou seja, a incapacidade foi premiada. O mesmo, parece, ocorrerá com Edison Lobão, que deve sair do Ministério de Minas e Energia para a presidência do Senado, com o beneplácito da presidente. O que fez de positivo no seu ministério?

Numa caricata representação de participação política, Dilma patrocinou uma reunião com o empresariado nacional para ouvir o já sabido. Todas as reclamações ou concordâncias já eram conhecidas antes do encontro. Então, para que a reunião? Para manter a aura da Presidência-espetáculo? Para garantir uma fugaz manchete no dia seguinte? Será que ela não sabe que não tem o poder de comunicação do seu tutor político e que tudo será esquecido rapidamente?

Uma das maiores obras da atualidade serve como referência para analisar como o governo trata a coisa pública. Desde quando foi anunciada a transposição de parte das águas do Rio São Francisco, inúmeras vozes sensatas se levantaram para demonstrar o absurdo da proposta. Nada demoveu o governo. Além do que estava próxima a eleição presidencial de 2010. Dilma ganhou de goleada na região por onde a obra passaria ─ em algumas cidades teve 92% dos votos. Passaria porque, apesar dos bilhões gastos, os canteiros estão abandonados e o pouco que foi realizado está sendo destruído pela falta de conservação. Enquanto isso, estados como a Bahia estão sofrendo com a maior seca dos últimos 30 anos. E, em vez de incentivar a agricultura seca, a formação de cooperativas, a construção de estradas vicinais e os projetos de conservação da água desenvolvidos por diversas entidades, a presidente optou por derramar bilhões de reais nos cofres das grandes empreiteiras.

A falta de uma boa equipe ministerial, a ausência de projetos e o descompromisso com o futuro do país são evidentes. O pouco ─ muito pouco ─ que funciona na máquina estatal é produto de mudanças que tiveram início no final do século XX. A ausência de novas iniciativas é patente. Sem condições de pensar o novo, resta ao governo maldizer os países que estão dando certo em vez de aprender as razões do êxito, reforçando um certo amargor nacional com o sucesso alheio. No passado a culpa era imputada aos Estados Unidos; hoje este papel está reservado à China.

Como em um conto de fadas, a presidente acredita que tudo terá um final feliz. Mas, até agora, o lobo mau está reinando absoluto na floresta. Basta observar os péssimos resultados econômicos do ano passado quando o Brasil foi o país que menos cresceu na América do Sul. E a comparação é com o Paraguai e o Equador e não com a Índia e a China.

Não é descabido imaginar que a presidente foi contaminada pelo “virus brasilienses”. Esta “espécie”, que prolifera com muita facilidade em Brasília, tem uma variante mais perigosa, o “petismus”. A vacina é a democracia combinada com outra forma de governar, buscando a competência, os melhores quadros e alianças programáticas. Mas em um país marcado pela subserviência, a incompetência governamental se transformou em elogio.

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  1. Comentado por:

    fpenin

    Impressionante as escorregadas dos nossos mandatários. Diante de problemas cabeludos, qualquer um,os sacanocratas sempre se evadem pela porta dos fundos, ou melhor, da privada.A casa está caindo, os sacanocratas usam um vasto “desculpário”, impregnado de expressões que contemplam: “é lamentável que tal ocorra”,” o governo não pode transigir”, “é deplorável”, etc. Agora, AGIR é que são elas,necas de pitibiriba, p… nenhuma. Quem é governo? Como agentes desse ser enigmático, os maganos têm o poder de mudar essa historia, agindo…Mas não o fazem. Para quê,para ter de trabalhar? Paz aos incompententes e aos cansados de natureza.Paz!

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  2. Comentado por:

    Sandro Ferreira

    Nosso sábio professor Marco Antonio Villa mais uma vez desmonta o castelo de cartas que é o governo Dilma Housseff. O governo do oba-oba é um fracasso de realizações e a única meritocracia que vimos Dilma praticar foi a da promoção dos ineptos para substituir os corruptos. Em 15 meses, ou melhor, em mais de nove anos, nada saiu do papel. As coisas só acontecem nos filmetes do João Santana. Mas infelizmente, com quase quinze milhões de bolsas famílias, todo o Estado entregue aos milicianos, grande parte da imprensa vendida e uma oposição domada, não há horizonte à vista. Se Deus um dia foi brasileiro, que lembre-se e tenha piedade de nós.

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  3. Comentado por:

    Angelo

    Senhores, alegria tamanha,em ler seus textos, dois
    campeões de audiência:Srs,Augusto e Marco A.Villa,a
    nos mostrar a incapacidade a mediocridade deste
    governo,onde a FARSA a MENTIRA,prospera em ritmo
    acelerado,nos resta o consolo de ler Rui Barbosa:
    De tanto ver triunfar as nulidades,prosperar a
    desonra,crescer a injustiça,agigantarem-se os
    poderes nas mãos dos maus(e corruptos),o homem
    chega a desanimar-se da virtude,a rir-se da honra
    e ter vergonha de ser honesto.Pobre povo brasileiro

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  4. Comentado por:

    Lúcia – Gyn

    Também sou fã do professor Marco Antonio Villa. Adoro vê-lo comentando no Jornal da Cultura, quando os jornalistas à soldo tentam argumentar usando as mesmas babaquices de sempre, ele continua a expor sua opnião, calmamente,impassível, até concluir seu raciocínio, é ótimo, chega mesmo a ser hilário. Escrevendo, Marco A. Villa consegue ser mais objetivo ainda, como demonstra esse artigo com que você, Augusto, nos presenteou, obrigada por isso.

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  5. Comentado por:

    Tarcisog

    Dica pra oposição nas próximas eleições: mostrar as obras fictícias que receberam tanta grana e acrescentar ” se votar no PT outra vez, a culpa será sua”.

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  6. Comentado por:

    Olgadisse

    estou completamente de acordo com o Tacisog.. Vou até adotar o lema cunhado por ele: Se votar no PT outra vez, a culpa será sua!!! realmente muito bom.

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  7. Comentado por:

    bereta

    “Sem condições de pensar o novo…
    Sem saber pensar, o povo.
    Logo seremos um país com pouca galinha e
    pouco ovo. Ladrões de galinhas, porém……´roubam até os galinheiros.

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  8. Comentado por:

    Chico

    Concordo em grau, número e gero com a análise do prof. Marco Antonio Villa. O que me intriga, é a falta de honestidade da maioria dos (as) jornalistas deste Brasil. A grana pública publicitária, esta corrompendo a redação e a dignidade talvez daqueles que nunca tiveram compromisso com a análise do momento político.

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  9. Comentado por:

    Marisa

    Muito bom, AN!

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  10. Comentado por:

    LABOR

    Alguns artigos, como por exemplo este do Vila, não comportam muitos acréscimos, a não ser o aplauso e confirmação ao que foi dito. Talvez caiba aqui registrar, o que fiz em outras oportunidades, não ter a nossa dilma superado o seu nível de competência como guerrilheira e não ter condições de presidir um país. Nível de competência, na matéria que trata de gestão empresarial é aquele em que o indivíduo consegue desempenhar a contento as funções/atribuições que lhe são conferidas. Estamos mal, sem norte, ou com um rumo nebuloso.

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