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Apresentado por:
ESTUDO #17

Robótica nas escolas: impacto pedagógico e futuro profissional

por Da Redação Atualizado em 4 Maio 2022, 11h15 - Publicado em
29 abr 2022
10h00

Apresentação

Assim que a palavra robô foi usada pela primeira vez na década de 1920, a robótica se tornou um campo de conhecimento restrito a inventores, cientistas matemáticos e engenheiros. Com o desenvolvimento de softwares mais amigáveis no fim dos anos 1960, essa área do conhecimento extrapolou os limites da ciência experimental e aplicações tecnológicas e se expandiu para a pedagogia e a educação. Tal avanço se mostrou extraordinário ao expor um novo caminho para se estimular o ensino de Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes, Design e Matemática em crianças e adolescentes. Ao desenvolverem atividades de montagem de robôs e sistemas automatizados, nos mais variados graus de complexidade, os estudantes não apenas têm estimuladas aptidões no campo das ciências exatas como desenvolvem habilidades como empatia, trabalho em grupo, comprometimento e liderança entre outras.

No Brasil, o Serviço Social da Industria (SESI) tornou-se referência no uso da robótica na educação. Tal relevância foi alcançada por meio de uma parceria com a principal entidade promotora da robótica educacional no mundo, a americana FIRST, fundada em 1989, com atuação em mais de 100 países e mais de 2,5 milhões de alunos envolvidos em seus programas e competições. Aqui, o SESI é operador oficial dos torneios de robótica da FIRST nas categorias FIRST LEGO League Challenge (FLL) e FIRST Tech Challenge (FTC) e fomenta a prática na própria rede de escolas e em outras instituições de ensino, públicas e privadas. Além disso, os estudantes do SESI também participam das competições internacionais da FIRST Robotics Competition (FRC).

Desde 2006, quando o SESI iniciou o projeto de robótica educacional, cerca de 400 escolas da rede — de ensino fundamental e médio – desenvolvem projetos na área. Ao todo, são quase 200 000 alunos que se beneficiam da prática pedagógica. E os resultados, como apontam os artigos na atual edição de Veja Insights, produzida em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o SESI e o Senai, são incontestáveis na contribuição para uma melhor formação educacional e profissional dos estudantes.

Revolução nas escolas

Por Rafael Lucchesi*

É comum, quando se pensa em robótica, focar o olhar apenas para os robôs. E, diferentemente dessa visão restrita, é importante imaginar o mundo da robótica muito além das máquinas. A robótica começa dentro de casa, ao acender a luz ou ao automatizar o processo de irrigação do quintal. E, também, está na palma da mão, ao enviar mensagens de textos ou fazer uma ligação pelo celular.

Na robótica educacional, a metodologia foi idealizada para permitir aos alunos construir o próprio pensamento e conhecimento, por meio de ferramentas computacionais. Desde cedo, os jovens são engajados numa cultura de solução de problemas, de trabalho em equipe, de competição saudável, num mundo que desperta o interesse pelas ciências exatas, pela matemática, pela pesquisa e pela inovação.

A importância de inserir a robótica no desenvolvimento educacional é entender que aproximar os alunos da tecnologia não desperta apenas maior interesse em áreas de engenharia e programação, mas também cria mentes inovadoras. Estudo realizado com 2 500 alunos, pelo Serviço Social da Indústria (SESI) – que têm a disciplina “robótica” inserida no currículo escolar – ilustra o impacto positivo no processo de aprendizado.

“A robótica começa dentro de casa, ao acender a luz ou ao automatizar o processo de irrigação do quintal.”

O trabalho mostra, por exemplo, ganhos de desempenho de 6,4% em matemática, de 5% em ciências humanas e sociais e 4,5% em linguagem na comparação com estudantes que não têm a robótica na grade curricular. Os ganhos se desdobram, ainda, para as chamadas “soft skills”. Para além de criar os robôs, estimula-se o desenvolvimento da autonomia, pelo desafio de se conciliar a agenda com projetos de pesquisa, busca por patrocínio, agenda de marketing, interação social com times e, principalmente, desenvolvimento emocional.

Em dez temporadas como operador das competições da FIRST Brasil, o SESI acumula um legado transformador na vida de jovens brasileiros. A robótica está presente em cerca de 400 escolas da entidade, em todas as unidades da Federação. Já são mais de 200 000 estudantes beneficiados pela metodologia.

Uma prova concreta dessa revolução promovida pela robótica nas escolas do SESI é o fato de que seus alunos acumulam mais de 70 prêmios internacionais. Um dos projetos inovadores foi, inclusive, premiado pela a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa.

Esse é o poder transformador da robótica na vida dos jovens.

*Rafael Lucchesi, diretor-geral do SENAI e diretor-superintendente do SESI nacional

Uma abordagem de sucesso

PROJEÇÃO GLOBAL - A participação em torneios de robótica como parte de um amplo projeto pedagógico -
PROJEÇÃO GLOBAL – A participação em torneios de robótica como parte de um amplo projeto pedagógico – Arquivo/CNI/.

A robótica nas escolas tem um poder transformador. Por meio dela, crianças e jovens, que antes não tinham afinidades com disciplinas como Matemática, Ciências, Física ou mesmo Português, Arte e Design passam a se dedicar com afinco para conseguir desenhar, montar e programar robôs. Em pouco tempo, é nítida a melhora no desempenho em todas as matérias do currículo e um interesse maior pelas áreas ligadas à tecnologia. Conhecida entre os especialistas como a disciplina de robótica educacional ou robótica pedagógica, caracteriza-se como uma ferramenta de aprendizagem baseada na construção de dispositivos controláveis por softwares e computadores, programados a partir de modelos multidisciplinares.

A utilização da robótica educacional em ambientes escolares tem como objetivo estimular o raciocínio lógico, a utilização de criatividade, resolução de problemas por meio de erros e acertos, desenvolver habilidades manuais, motivar a curiosidade, o trabalho em equipe e o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Em conjunto, tais aptidões têm impacto direto tanto na vida escolar, acadêmica e profissional.

A robótica educacional estimula, por exemplo, competências fundamentais como espírito investigativo, trabalho em equipe, planejamento, cooperação, diálogo, pesquisa e tomada de decisões. Com foco na abordagem de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática, a robótica estimula o desenvolvimento de novas gerações de engenheiros e pesquisadores que a indústria tanto precisa.

Mais que a produção e programação de robôs, a robótica educacional é, principalmente, um processo de aprendizagem. O objetivo é incentivar jovens a pensar de forma criativa, eficiente, lúdica e prática a fim de resolver os problemas gerados pelo que foi estudado em sala de aula. O mercado de trabalho, entretanto, exige muito mais que habilidades técnicas. As competências socioemocionais fazem profissionais se destacarem. Nos torneios de robótica, os estudantes desenvolvem a capacidade de se relacionar com outras pessoas e a respeitar as diferenças.

Além disso, com raciocínio matemático e científico, lidam a todo instante com a resolução de problemas complexos; aprendem a organizar suas ideias, a como obter uma comunicação eficaz, a trabalhar com ética e como fazer a tão necessária gestão de tempo e de emoções – prática comum em competições.

TRABALHO EM EQUIPE - Habilidades desenvolvidas vão além do bom desempenho nas ciências exatas -
TRABALHO EM EQUIPE – Habilidades desenvolvidas vão além do bom desempenho nas ciências exatas – Dayna Smith/The Washington Post/.

A robótica educacional também estimula o empreendedorismo nos estudantes que se aventuram pela metodologia. Para ser um bom empreendedor, é necessário ter planejamento, atuar com metas, otimizar o orçamento, saber trabalhar em equipe e, claro, “vender” muito bem suas ideias. Essas habilidades fazem parte da rotina dos estudantes de robótica educacional. Com os torneios de robótica, inclusive, os jovens contam que perdem a timidez, tornam-se mais proativos, e absorvem espírito investigativo com cooperação e diálogo. Nessas disputas, eles lidam com questões como se fossem donos de suas empresas, com papeis bem definidos para cada membro da equipe.

Na prática, a robótica educacional consiste na utilização de kits de montagem compostos por diversas peças: motores, engrenagens, polias, rodas, eixos até materiais de sucata como plásticos e madeiras. Essas peças se integram a microcomputadores e softwares que permitem o controle e funcionamento do modelo montado. Levando em consideração a faixa etária dos estudantes e na praticidade do ensino, empresas como a Lego, que comercializa brinquedos baseados em sistemas de construção, ganham destaque no setor. Em síntese, a robótica na educação se fundamenta em três itens: os kits de montagem que vão modelar o dispositivo, o computador e uma linguagem de programação para operar o dispositivo.

O potencial da robótica educacional está em criar condições para a discussão, participação, criação e solução entre os estudantes e os professores. Esse processo pretende desenvolver cognitivamente o pensamento sistêmico e interdisciplinar nos estudantes, envolvendo disciplinas das ciências exatas e das ciências humanas na interface ser humano-máquina.

A robótica educacional, de um modo geral, é aplicada de três métodos diferentes nos ambientes escolares – como tema curricular, como projeto e como competição. Como tema curricular, a robótica é aplicada de maneira disciplinar (ou interdisciplinar) de modo que seja um recurso didático para o aprendizado de conceitos de disciplinas como matemática, física, entre outros. Como projeto, é desenvolvida através do aprendizado por meio de diferentes temáticas que fazem parte do currículo escolar. Nessa abordagem, ela potencializa o processo de aprendizagem. Por fim, no formato de competição, a robótica educacional é aplicada visando a participação em torneios nacionais e internacionais que irão propor desafios e objetivos. Esta abordagem se inclui no conceito de Olimpíadas de Conhecimento. Dentre as competições estão, em escala nacional, entre outros, o Torneio SESI de Robótica, a Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) e o Torneio Juvenil de Robótica (TRJ). Em escala internacional, destacam-se principalmente as competições da organização americana FIRST e a RoboCup.

Raízes da robótica educacional

Um dos grandes impulsionadores da robótica educacional foi o advento da linguagem de programação Logo, em 1967. Trata-se de um modelo voltado para a aprendizagem de crianças e adultos, criado a partir das pesquisas do americano Seymour Papert no laboratório de inteligência artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Em sua abordagem, Papert entendia o computador não apenas como um máquina a ser operada, mas sim um dispositivo capaz de construir conhecimento através do “aprender fazendo” pela programação e pela ação reflexiva do estudante a partir de suas próprias experiências e da seu processo de aprendizagem. Essa visão sobre a robótica na educação evidencia a relação das pesquisas de Papert com o Construtivismo criado pelo pensador suíço Jean Piaget, que entende que o conhecimento é construído a partir da manipulação dos objetos. Além das contribuições de Piaget, a robótica educacional também é fomentada pelas ideias do psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky, que propõem a construções do conhecimento a partir de um espaço social, onde o processo de aprendizagem tem forte conexão com as relações sociais do indivíduo.

Um dos grandes benefícios da linguagem de programação Logo é que ela foi concebida como uma linguagem acessível, ou seja, os seus usuários não precisam ter um grande conhecimento sobre o universo da programação para utilizá-la. O manuseio do Logo se baseia em aplicar comandos sobre uma tartaruga que surge na tela dos computadores e descreve os movimentos induzidos pelos estudantes-progrmadores. Essa manipulação da tartaruga enquanto um objeto gráfico é um ponto importante tanto na parte lúdica quanto no processo de aprendizagem, visto que os comandos do aluno são interpretados e exibidos em tela. O controle dos movimentos da tartaruga gráfica até chegar a um determinado resultado significa que o aluno está construindo um algoritmo a partir de uma lógica.

BLOCOS DE MONTAR - Pioneira, a Lego é uma impulsionadora da robótica entre as crianças e adolescentes -
BLOCOS DE MONTAR – Pioneira, a Lego é uma impulsionadora da robótica entre as crianças e adolescentes – Arquivo/CNI/.

Quando a linguagem Logo surgiu em 1967, as interfaces gráficas para o controle dos dispositivos robóticos ainda não eram tão comuns, visto que a popularização de computadores pessoais ainda estava muito distante do que conhecemos nos dias de hoje. Por exemplo, o primeiro computador pessoal a receber a linguagem Logo foi o Apple II, na da década de 1980, com as aplicações Apple Logo, Logo Computer Systems, Terrapin Logo e Krell Logo.

Levando em consideração a popularização da linguagem Logo como recurso didático e a possibilidade de construção de dispositivos automatizados, a empresa sueca de brinquedos de montagem Lego estabeleceu uma parceria com o MIT para desenvolver o sistema LEGO-Logo: um conjunto de peças Lego para a construção de dispositivos a partir de uma interface eletrônica baseada na linguagem de programação Logo. Com a parceria, tornou-se possível induzir comandos a diferentes peças e objetos formados por elas. Com o passar do tempo e o desenvolvimento da tecnologia, os dispositivos também deixaram de ser limitados por fios que os ligavam nos computadores para sensores e comunicação em infravermelho ou Bluetooth, por exemplo.

A aplicação da robótica educacional nas salas de aula permite que o estudante desenvolva habilidades de pesquisa, criticidade, resolução de problemas e desenvolvimento de raciocínio lógico. Os conceitos de diversas disciplinas são aplicados de modo prático, incentivando o estudante a aplicar etapas do método científico como observação, abstração, construção de hipóteses, interpretação, testes e conclusões para que seu dispositivo funcione. Essa perspectiva de métodos científicos substitui o ensino tradicional baseado na aquisição de conhecimentos factuais.

O papel do professor também é modificado nesse novo ambiente de aprendizagem. No processo, ele deixa de ser o principal transmissor do conhecimento e assume um papel de facilitador e mediador da aprendizagem do estudante. A robótica educacional é uma proposta educacional baseada na experimentação e na tentativa-erro que fundamenta novas bases para uma relação horizontal entre professor e aluno.

Panorama da robótica no Brasil

RESULTADOS MENSURÁVEIS - Estudantes de robótica tem melhor desempenho nas tarefas escolares -
RESULTADOS MENSURÁVEIS – Estudantes de robótica tem melhor desempenho nas tarefas escolares – Al Seib/Los Angeles Times/Getty Images

Os parâmetros curriculares brasileiros ainda incorporam de forma tímida a robótica como recurso didático recorrente nas escolas. Na maioria das vezes, a introdução da robótica educacional ocorre por meio de atividades extracurriculares e de acordo com o espaço e materiais disponíveis providenciados pela própria escola. Dentre os obstáculos para a adoção da robótica de forma mais ampla no currículo escolar brasileiro estão o custo do equipamento e a própria formação do professor, tanto para articular a teoria com a prática tecnológica quanto para operar os aparelhos. Ainda assim, o Brasil possui desde 1997 um Programa Nacional de Tecnologia, criado pelo Ministério da Educação, destinado a estudantes e professores da rede pública de ensino para alavancar a tecnologia como ferramenta pedagógica no ensino fundamental e médio.

Em um formato extremamente bem sucedido, o Serviço Social da Indústria (SESI) conta com a robótica no currículo de seus escolas em todo o Brasil desde 2006. Com isso, cerca de 200 000 alunos dos ensinos fundamental e médio se valem desse recurso para desenvolver habilidades fundamentais para o chamado profissional 4.0: trabalho em equipe, raciocínio lógico e uma visão crítica do mundo. Desde 2012, o SESI também é o operador oficial dos torneios de robótica da instituição americana FIRST no Brasil.

Por meio dessas iniciativas, o SESI fomenta a prática e reúne experiências de sucesso da própria rede e de outras instituições de ensino, públicas e privadas. E os resultados são palpáveis. Pesquisa realizada pela consultoria JS Brasil com participantes do Torneio SESI de Robótica de 2018 mostra que 94% dos estudantes passaram a se dedicar mais a conteúdos de exatas. Além disso, 50% dos entrevistados afirmaram que as notas escolares melhoraram e 76% desenvolveram maior capacidade de inovação. Sem dúvida, uma prova efetiva do impacto positivo da robótica na educação.

Potência transformadora

ROBÔS EM DISPUTA - As competições organizadas pela FIRST envolvem crianças e jovens de mais de 100 países -
ROBÔS EM DISPUTA – As competições organizadas pela FIRST envolvem crianças e jovens de mais de 100 países – Argenis Apolinario/.

Conhecido por sua prolífica carreira de inventor e uma excepcional rede de contatos nas principais empresas de tecnologia e universidades dos Estados Unidos, o americano Dean Kamen resolveu embarcar em um projeto ousado em 1989. Aos 43 anos, ele visualizou a fundação de uma comunidade em que a robótica seria utilizada como ferramenta para preparar os jovens para o futuro. Foi assim que nasceu a FIRST, uma organização sem fins lucrativos cujo nome é um acrônimo em inglês da expressão For Inspiration and Recognition of Science and Technology (Para a Inspiração e Reconhecimento da Ciência e Tecnologia, em português).

Desde então, a instituição se tornou líder global de um movimento que combina toda a excitação despertada pelos esportes coletivos com o rigor do aprendizado de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, engajando milhões de pessoas com programas com impacto comprovado na aprendizagem e desenvolvimento de habilidades dentro e fora das salas de aula. A FIRST tem construído uma poderosa relação de mentoria entre jovens e profissionais de formação e atuação nos setores científicos e tecnológicos, ajudando crianças e adolescentes a conquistar confiança para explorar o processo de inovação enquanto adquirem valiosas habilidades nas áreas de ciência, engenharia, tecnologia, trabalho em equipe e solução de problemas. A proposta é formar as pessoas que vão mudar o mundo – tanto hoje quanto amanhã.

arte Robôs

Dentro desse espectro, a FIRST oferece uma combinação de programas para alunos da pré-escola ao ensino médio (idades entre 4 e 18 anos). São iniciativas como o FIRST LEGO League, feito em parceria com a fábrica sueca de brinquedos LEGO e com uma abrangência de 4 a 16 anos de idade; FIRST Robotics Competition, para jovens de 14 a 18 anos, e FIRST Tech Challenge, para alunos de 12 a 18 anos. Todos os programas podem ser adotados dentro do currículo escolar ou como atividades extracurriculares e os estudantes podem participar de qualquer nível compatível com sua faixa etária.

Em seus mais de 30 anos de atuação, a FIRST recebeu o apoio de uma poderosa rede de corporações, instituições educacionais, científicas e empresariais, bem como de patrocinadores individuais. Algumas das empresas mais respeitadas do mundo – incluindo mais de 200 que fazem parte do ranking das 500 maiores empresas da revista Fortune – contribuem com financiamento, mentoria, apoio profissional, voluntários e equipamentos para tornar os programas FIRST mais acessíveis a estudantes de todo o mundo. Entre os parceiros da FIRST estão companhias como Amazon, Apple, Boeing, Bosch, GM, Ford, LEGO e The Walt Disney Company, entre outras.

DE OLHO NO FUTURO - Os programas de robótica criam profissionais mais preparados e qualificados -
DE OLHO NO FUTURO – Os programas de robótica criam profissionais mais preparados e qualificados – Argenis Apolinario/.

A eficácia e relevância dos programas da FIRST podem ser verificados em dados compilados pela Universidade Brandeis, localizada nos arredores de Boston, estado de Massachusetts. Ao todo, foram contabilizados dados de mais de uma década de programas, incluindo informações provenientes de um estudo longitudinal conduzido por sete anos. As pesquisas apontam que a instituição tem avançado firmemente em aumentar o número de estudantes que se interessam pelas disciplinas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e esse interesse tem influenciado diretamente suas escolhas educacionais e profissionais.

Desde o início das atividades da FIRST em 1989, mais de 2,5 milhões de jovens de 100 países, entre eles o Brasil. Nesse período, a instituição passou do pioneiro FIRST Robotics Competition voltado para escolas americanas de ensino médio para uma gama completa de programas que beneficiam crianças e jovens em escala global. Por meio desses programas, os participantes experimentam uma jornada completa pelos conhecimentos das ciências exatas e tecnológicas e habilidades provenientes do mundo real que abrem caminho para suas carreiras futuras.

Competições cibernéticas

CONQUISTA NOS EUA - Os alunos da Atombot (MG) e SESI CLP (SP) ficaram entre os cinco melhores, de 108 times em disputa internacional -
CONQUISTA NOS EUA – Os alunos da Atombot (MG) e SESI CLP (SP) ficaram entre os cinco melhores, de 108 times em disputa internacional – Nathan Lindstrom/CNI/.

Duas instituições brasileiras, reconhecidas internacionalmente, têm sido pioneiras no esforço de melhorar a educação no país e aproximar o Brasil das boas práticas internacionais: o Serviço Social da Indústria (SESI), com mais de 400 escolas e 270 000 alunos (da educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e Educação de Jovens e Adultos – EJA), e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), com mais de 520 unidades operacionais e 465 unidades móveis para ensino técnico e profissional.

Em comum, elas têm o uso de tecnologias educacionais e metodologias inovadoras como parte do seu DNA, foco nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes, Design e Matemática e orientação para o mundo do trabalho. Materiais pedagógicos autorais e exclusivos, infraestrutura de excelência, e quadro técnico atualizado – professores e instrutores que passam por formação continuada – são outros diferenciais.

Dentro da proposta de valorizar a cultura de conhecimento aplicado, também chamada de mão na massa (maker), o SESI tem se tornado referência no uso da robótica educacional. Atualmente, quase 200 000 alunos da rede são beneficiados com as atividades, que começaram a ser adotadas em sala de aula em 2006. O SESI também organiza torneios desde 2012, abertos para estudantes de outras redes de ensino.

Parceira da organização sem fins lucrativos FIRST (For Inspiration and Recognition of Science and Technology, ou Inspiração e reconhecimento da Ciência e Tecnologia), a instituição é responsável pela operação, no Brasil, das competições FIRST LEGO League Challenge (FLL) e FIRST Tech Challenge (FTC). Além de participar do projeto educacional da Fórmula 1, F1 in Schools, e ter estudantes competindo na FIRST Robotics Competition – categoria mais avançada para estudantes do ensino médio. Já passaram por essas competições mais de 30 000 estudantes, que também representaram o Brasil em torneios internacionais e levaram mais de 60 prêmios.

A prática e as competições de robótica são uma importante ferramenta de ensino. Os estudantes são desafiados a pesquisar, com metodologia científica, e apresentar soluções para problemas reais na temática da temporada, como a produção de lixo, a qualidade de vida dos idosos e as cidades inteligentes, e a construir, programar e manusear robôs.

PARTICIPAÇÃO PREMIADA - As equipes brasileiras detêm mais de 60 prêmios em disputas internacionais -
PARTICIPAÇÃO PREMIADA – As equipes brasileiras detêm mais de 60 prêmios em disputas internacionais – Nathan Lindstrom/CNI/.

Competidores afirmam que a experiência foi essencial para a sua vida estudantil, pessoal e profissional ao proporcionar desenvolvimento socioeducacional. Pais e docentes concordam que o programa aproxima os estudantes da ciência e da tecnologia e estimula as soft skills, como raciocínio lógico, trabalho em equipe, criatividade e comunicação.

Nas competições da FIRST, além da construção e do desempenho do robô, são avaliadas diferentes frentes de trabalho da equipe, como projetos sociais e de inovação, planos de negócio, caderno de engenharia, design, valores e atitudes como empatia e cooperação, e iniciativas para levar ciência e tecnologia à comunidade.

Entre os dias 20 e 23 de abril, quatro equipes brasileiras participaram do FIRST Championship — três de escolas SESI e uma do colégio particular Marista Pio XII de Novo Hamburgo (RS). O torneio, que ocorre anualmente na cidade de Houston, no estado americano do Texas, reúne estudantes do ensino fundamental e médio dos cinco continentes.

Entre os quatro times brasileiros, duas equipes participaram da modalidade FIRST LEGO League Challenge (FLL), uma da FIRST Tech Challenge (FTC) e uma da FIRST Robotics Competition (FRC). As duas equipes que competiram na FLL – a Atombot , do SESI de São João del Rei (MG), e a SESI CLP, de Campo Limpo Paulista (SP) – ficaram entre as cinco melhores, de 108 times, em duas categorias técnicas.

Os estudantes da Atombot e do SESI CLP levaram o 1º e o 2º lugar, respectivamente, no prêmio Engenharia de Excelência. Com robôs bem construídos e programados, eles se destacaram também nas partidas de mesa, em que tinham que cumprir uma série de atividades e somar pontos. No final, acabaram com a 4º (SESI CLP) e a 5º (Atombot) lugar na categoria Desempenho do Robô.

Herbert Campos, 16 anos, da Atombot, lembra que, para chegar ao topo do mundial, foi um longo caminho. A equipe foi criada em 2013 e, desde então, vem evoluindo e acumulando prêmios regionais, nacionais e internacionais, como o de Projeto de Inovação no Open da Austrália de 2019. “Nessa temporada, tivemos pouco tempo para preparar e traduzir toda a documentação, fazer as modificações que achávamos necessárias no robô e no projeto. Mas mandamos bem na partida e, na avaliação de sala, os juízes foram muito receptivos, conseguimos nos comunicar e passar as mensagens que queríamos”, lembra Campos.

Estreante em torneios internacionais, a equipe do SESI CLP ganhou confiança nos dois primeiros dias de competição após ir bem nas partidas testes e na avaliação. “É a nossa primeira vez no mundial, e no ano passado também era a primeira vez no campeonato nacional, que vencemos como Champion’s Award. Na sala, falamos sobre o nosso projeto, criação e as inovações do robô e o trabalho da equipe durante toda a temporada”, completa Erick Rodrigues, membro da equipe paulista.

Apesar de ser a menor competição em número de equipes no mundial – FTC tem 160 e FRC 450 -, a FLL é a modalidade presente no maior número de países, portanto, com maior alcance. No Championship, são entregues prêmios em diversas categorias, técnicas e comportamentais, além do Desempenho do Robô e Engenharia de Excelência: Design do Robô, Técnico/Mentor, Core Values, Engenharia, Breakthrough, Rising All-Star, Motivação, Peer Award e o prêmio principal, Champion’s Award — conquistado em 2022 por uma equipe da Espanha.

PROJETO AMBICIOSO - Estudantes de São João del Rei desenvolveram um robô com um braço extensor -
PROJETO AMBICIOSO – Estudantes de São João del Rei desenvolveram um robô com um braço extensor – Nathan Lindstrom/CNI/.

Em discurso na cerimônia de premiação, o fundador da FIRST, Dean Kamen, agradeceu não só a organização do evento como os pais, professores e líderes que fazem os programas e os torneios de robótica possíveis. “A nossa comunidade global é grande e o crescimento de líderes, cientistas, engenheiros e profissionais engajados com tecnologia está vindo dos programas da FIRST”, disse.

Em um segundo evento relevante na área, entre 27 e 28 de maio acontece em São Paulo um dos mais importantes torneios de robótica do país, o Festival SESI de Robótica, que reúne as diferentes modalidades também contempladas no festival americano. Neste ano, o evento será ainda mais especial, porque é a 10ª temporada de competições oficiais da FLL no Brasil. O tema é Cargo Connect, que desafia os estudantes a buscar soluções de logística e transporte de mercadores. Os competidores irão explorar o futuro do transporte, desde o envio de pacotes em áreas rurais e urbanas até a entrega para ajuda em desastres. Já a modalidade FTC, adotará o tema Freight Frenzy. em ambas, as equipes irão repensar inovações de transporte mais rápidas, mais confiáveis, inclusivas e sustentáveis que melhor conectem as comunidades e economias em todo o mundo.

Ao incentivar os participantes do FTC a pensar sobre a sustentabilidade do transporte no futuro, o SESI os prepara para serem a próxima geração de líderes inovadores, enfrentando os desafios mais difíceis do planeta.

Máquinas maravilhosas

ROBÔS DE BRINQUEDO DOS ANOS 1960 - A humanidade sempre sonhou com a criação de humanos artificiais -
ROBÔS DE BRINQUEDO DOS ANOS 1960 – A humanidade sempre sonhou com a criação de humanos artificiais – Fresco/Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images

O primeiro registro do termo robô é relativamente recente e data de um século. A palavra surgiu em uma peça de teatro escrita pelo autor checo Karel Čapek batizada como R.U.R. (sigla que em português significa Robôs Universais de Rossum), escrita em 1920 e encenada no ano seguinte. A palavra em si é derivada de um termo eslavo, robota, que significa trabalho forçado. Na obra, que em português ganhou uma edição chamada A Fábrica de Robôs, um cientista cria máquinas humanoides capazes de realizar atividades braçais e exaustivas em substituição à mão de obra humana. A peça Čapek abriu as portas para um dos ramos mais frutíferos da ficção científica, que culminaria oito anos depois no clássico Metropolis, do cineasta austríaco Fritz Lang, com a primeira encarnação cinematográfica de um autômato, no caso um protótipo feminino dos chamados Maschinenmensch (humanos-máquinas).

O conceito de robótica, por sua vez, é criação de outro gênio da ficção científica e data de 1941, quando Isaac Asimov usou o termo para definir a tecnologia da criação, produção e gerenciamento de robôs em um de seus contos, como uma ramificação da chamada eletrônica, até então utilizada para designar a ciência relativa aos aparelhos e equipamentos elétricos. Em um passo mais ousado, ele criou no ano seguinte As Três Leis da Robótica, que regulariam o funcionamento dessas máquinas espetaculares. São elas: um robô não deve jamais colocar um ser humano; um robô deve sempre obedecer a um ser humano a menos que isso atente contra a lei anterior; e um robô deve preservar sua própria existência, a menos que isso contraria as duas leis anteriores. O cumprimento (ou não) desse arcabouço ético deu origem a algumas das obras mais fascinantes da ficção científica moderna, que envolvem as relações entre robôs e seres humanos, do ponto de vista do criador e da criatura.

Fora do mundo da literatura científica, a robótica segue caminhos bem mais pragmáticos e funcionais. Trata-se de um ramo interdisciplinar da ciência da computação e da engenharia, que envolve a criação, desenvolvimento, construção, operação e utilização de robôs. O objetivo final da robótica é projetar máquinas que possam ajudar e facilitar a realização de tarefas. Nesse sentido, integra campos como as engenharias mecânica, elétrica, da computação e de software, matemática, biotecnologia e mecatrônica, entre outros.

arte historia Robôs

A robótica desenvolve máquinas que podem substituir e replicar as ações de seres humanos, em inúmeras situações e necessidades. Hoje tais aparelhos são usados em atividades de risco – o que inclui inspeção de material radiativo, detecção e desarmamento de bombas, entre outras. Também são adotadas em processos de manufatura de alto desempenho ou ambientes hostis que podem comprometer a vida humana (no espaço, nas profundezas submarinas, em áreas de calor extremo ou que contenham substâncias tóxicas ou radiativas). Apesar do imaginário popular deter o conceito da figura humanoide, os robôs podem assumir as mais variadas formas. Ainda assim, tais máquinas em suas diferente configurações procuram replicar o modo de caminhar, manipulação de objetos, a articulação de palavras, o processo cognitivo e demais peculiaridades humanas. Muitos dos robôs atualmente em desenvolvimento são inspirados pela natureza, contribuindo para um novo campo do conhecimento designado bio-robótica.

Robôs costumam ser divididos em duas categorias do ponto de vista do funcionamento. Em um campo se alinham os que necessitam de comandos específicos para realizarem suas atividades. No outro, os que funcionam de forma autônoma. A ideia de se produzir equipamentos que trabalhem de forma autônoma remonta à Antiguidade, mas as pesquisas e descobertas que exploraram as funcionalidades e os usos potenciais dos robôs são uma consequência direta da evolução tecnológica do século XX. Através da história, vários pensadores, estudiosos, inventores, engenheiros e técnicos das mais variadas áreas especularam que um dia criaturas artificiais e mecânicas seriam capazes de mimetizar o comportamento humano e gerenciar tarefas de forma sofisticadas. Hoje em dia, a robótica é um campo em rápida expansão na medida em que os avanços tecnológicos seguem a passos largos. A pesquisa, desenvolvimento e fabricação de robôs seguem várias finalidades práticas, sejam elas o uso doméstico, aplicação industrial ou militar. Muitos robôs são empregados tanto em atividades banais, como aspirar o pó de casas e apartamentos, como em ações com potenciais riscos como resgatar vítimas em meio a desabamentos, exploração de minas ou naufrágios a milhares de metros de profundidade. Da mesma forma, a robótica se tornou uma especialidade de extrema valia no ensino de disciplinas do campo científico e de exatas para crianças e adolescentes, que aprendem conceitos complexos com maior facilidade a partir da criação e montagem dessas máquinas maravilhosas.

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