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Volta do La Niña ameaça safras e cadeias globais de abastecimento

Retorno do fenômeno climático intensifica secas, enchentes e tempestades, eleva perdas econômicas e expõe fragilidades da economia mundial

Por Ernesto Neves 15 dez 2025, 10h19 • Atualizado em 15 dez 2025, 10h26
  • A La Niña voltou a atuar no sistema climático global e já deixa sinais claros de impacto. Enchentes letais na Ásia, tempestades mais intensas e episódios de frio e neve fora de época nos Estados Unidos indicam o retorno do fenômeno, conhecido por desorganizar padrões de chuva e temperatura e por ampliar prejuízos econômicos.

    De forma simples, a La Niña ocorre quando as águas do Pacífico equatorial ficam mais frias do que o normal. Esse resfriamento altera a circulação da atmosfera e afeta o clima em várias regiões do planeta ao mesmo tempo.

    O resultado costuma ser uma combinação perigosa de secas prolongadas em alguns países e chuvas excessivas em outros.

    Segundo a resseguradora Aon, em anos recentes de La Niña as perdas globais causadas por eventos climáticos extremos variaram entre US$ 258 bilhões e US$ 329 bilhões.

    Mais do que valores pontuais, os números revelam uma tendência: desastres climáticos estão se tornando mais frequentes e mais caros, influenciando decisões de seguradoras, produtores rurais, governos e empresas de energia.

    O que muda com a La Niña

    Historicamente, a La Niña está associada a secas em regiões como Califórnia, Argentina e partes do Brasil, enquanto favorece chuvas intensas e enchentes no Sudeste Asiático. Também pode fortalecer furacões no Atlântico e estimular tempestades no Pacífico tropical.

    Em episódios anteriores, o fenômeno contribuiu para criar condições propícias a incêndios florestais na Califórnia e para furacões destrutivos, como o Helene, que matou mais de 250 pessoas no sul dos Estados Unidos em 2024.

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    Nem todo evento extremo pode ser atribuído diretamente à La Niña, mas os padrões são bem conhecidos pelos cientistas. Cada episódio tem características próprias e pode ser influenciado por outros fatores climáticos. Na Europa, por exemplo, os efeitos costumam ser mais limitados.

    Quinta La Niña em seis anos

    O atual episódio é o quinto em apenas seis anos, algo incomum. Nas últimas duas décadas e meia, o planeta tem registrado mais La Niñas do que El Niños, o fenômeno oposto, marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico.

    Os cientistas ainda investigam essa mudança. Parte deles avalia que o aquecimento global pode estar influenciando o ciclo natural do Pacífico, enquanto outros apontam a variabilidade climática como principal explicação.

    Brasil e alimentos

    No Brasil, maior exportador mundial de soja, o foco está nas chuvas irregulares no Centro-Sul. Meteorologistas não veem, por ora, sinais de estiagens prolongadas, mas o risco segue no radar.

    No Rio Grande do Sul, o plantio da soja avança com leve atraso. O maior risco ocorre quando a precipitação falha em momentos críticos do cultivo ou foge do calendário agrícola, transformando a produção em um jogo de azar.

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    Impactos na Ásia

    Mesmo uma La Niña considerada fraca pode causar grandes danos. No Sul e no Sudeste Asiático, uma sequência de ciclones e enchentes matou mais de 1.600 pessoas e gerou ao menos US$ 20 bilhões em perdas, segundo análises de atribuição climática.

    Somente entre novembro e dezembro, enchentes no Vietnã e na Tailândia deixaram pelo menos 500 mortos e provocaram mais de US$ 16 bilhões em danos. Embora o papel exato da La Niña nesses eventos não seja totalmente conclusivo, o padrão é consistente com episódios anteriores.

    A China também monitora riscos. Temperaturas abaixo da média podem ameaçar a produção de trigo de inverno, embora os impactos devam ser limitados pela intensidade moderada do atual episódio.

    Estados Unidos e energia

    Na América do Norte, a La Niña costuma trazer invernos mais frios e nevados para o oeste do Canadá, o Noroeste do Pacífico, as Montanhas Rochosas do norte e a região dos Grandes Lagos.

    Chicago registrou o novembro com maior acúmulo de neve de sua história, enquanto áreas da Nova Inglaterra tiveram volumes próximos de 30 centímetros.

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    Temperaturas mais baixas elevam a demanda por energia, pressionando sistemas elétricos e aumentando o consumo de combustíveis. No Nordeste dos EUA, região densamente povoada, o frio ficou acima do normal para o período.

    No Sudoeste americano, o padrão costuma favorecer a seca, inclusive no sul da Califórnia. Ainda assim, outros fatores podem contrariar previsões. No inverno de 2022-23, apesar de três anos seguidos de La Niña, a Califórnia viveu o período mais chuvoso em mais de duas décadas.

    E o que foi o El Niño?

    Antes da La Niña, o mundo enfrentou episódios recentes de El Niño, que tende a produzir efeitos quase opostos.

    Durante o El Niño, o aquecimento do Pacífico costuma provocar calor extremo e secas severas em partes da América do Sul, da Austrália e do Sudeste Asiático, além de chuvas intensas em regiões como o sul do Brasil e partes da costa oeste das Américas.

    O El Niño recente esteve associado a ondas de calor recorde, incêndios florestais mais intensos, quebras de safra em alguns países e aumento do estresse hídrico em grandes centros urbanos.

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    Em várias regiões, ele também elevou temporariamente as temperaturas médias globais, contribuindo para recordes históricos de calor.

    A transição do El Niño para a La Niña tende a aumentar a instabilidade climática, com alternância rápida entre extremos de calor, frio, seca e chuva intensa.

    Aquecimento global como pano de fundo

    Embora a La Niña seja um fenômeno natural, seus efeitos estão sendo amplificados pelo aquecimento global. 

    A atual La Niña deve atingir o pico nas próximas semanas e, em seguida, dar lugar a condições neutras no Pacífico. Mesmo assim, seus impactos podem persistir por meses, mantendo elevados os riscos para a economia, a produção de alimentos e a segurança climática global.

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